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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Momento Musical #13 - Homenagem ao Flávio Basso/Júpiter Maçã


Foi com muito pesar que na manhã de ontem eu recebi a notícia de que Júpiter Maçã, vulgo Flávio Basso, morreu na tarde de 21/12/2015. Sem necessidade de notas biográficas aqui, essas vocês podem encontrar em todos os cantos da internet agora que todos viraram fãs de longa data dele há dois dias, meu objetivo é divulgar os três discos dele que eu mais escutei e que eu mais gosto. Não é discografia completa, não é lista comparativa de "os melhores" qualquer coisa. É só porque eu li muita merda em comentários nesses últimos dias. Gente dizendo que nunca ouviu falar dele, famoso quem?, etc. Não sabe quem? Pois conheça. Esses discos vão facilitar seu trabalho.

Os Cascavelletes - Rock'a'Ula (1989)


Um rock bem direto ao ponto e, de certa maneira, datado. As baterias têm aquele som bem típico da década de 80. Mas isso não diminui a qualidade do som. Esse talvez seja o mais acessível de toda a discografia dele e o mais famoso - o que virou hit na época. Com letras rock 'n' roll, cheias de sacanagens claras ou veladas, sem grandes surpresas, o disco cumpre o que se propõe, e de vez em quando até surpreende com faixas como Gato Preto e Lobo da Estepe. Mas devo dizer que prefiro a carreira solo dele. Os ouvintes mais perceptivos vão reparar que ele pôde se deixar levar pela própria criatividade nos discos que vieram depois (para o bem ou para o mal).

A Sétima Efervescência - Júpiter Maçã (1997)


Primeiro disco solo. Não tão experimental quanto os seus sucessores e, provavelmente, o favorito da galera. Esse disco é foda. Vai do popular (Miss Lexotan, Lugar do Caralho) à vanguarda psicodélica (The Freaking Alice), esse é outro capaz de agradar qualquer um que goste da premissa principal: rock "recente" a moda antiga.

Uma Tarde na Fruteira - Júpiter Maçã (2008)


Se o 7ª Efervescência foi pouco inventivo e seus sucessores apelaram demais pro lado eletro-psico-bossa'n'roll, Uma Tarde na Fruteira, que seu não me engano é o último, serve de resumo perfeito para a carreira do cara. Tudo que ele fez pode ser encontrado nele, incluindo umas reprises aqui e ali aos seus clássicos. Esse é meu favorito, eu diria, com alguma dúvida. Em geral, todos valem a audição porque a verdade é que ele foi um dos músicos mais criativos e porras-loucas do Brasil nesses tempos não tão distantes e merece o reconhecimento como tal.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Baderna Literária #3 - Processos Criativos

No terceiro podcast nós quase conseguimos reunir a trupe. Faltou o Ernane. No quarto, quem sabe, consigamos juntar os quatro. Nada seria mais apropriado. O som tá ruim de novo. Pois é. Deu merda. O meu tá alto demais, o da Carol e da Maria tão muito baixos. O Ernane até tentou fazer mágica (palavra que eu uso para o que vocês chamam "e-di-ção") pra igualar, mas toda a vez que eu falava ao mesmo tempo que elas - várias vezes... - eu ficava ainda mais barulhento. É foda esse troço de podcast. Um dia sai um certo. Prometo. Mas por enquanto, paciência. Pelo menos as músicas são sempre boas. As ideias também. E dá pra ouvir, só não tá tudo certinho. Vocês deixem de frescura. Muita coisa interessante foi dita sobre processos criativos, nossos e de gente conhecida. E em geral o tema foi tratado de forma coesa. Então se você se deixar derrubar pelos problemas de áudio ou se intimidar pela duração (é longo sim, grande coisa; e se reclamar o próximo vai ter 4 horas), vai perder de ouvir coisas que talvez você absolutamente precisasse ouvir. Será que balbúrdia literária é um título melhor? Não sei, o público decida. Podem votar, mas não briguem. E podem comentar pedindo temas. De repente pedindo conselhos literários/pessoais/amorosos/profissionais/espirituais. Não somos especialistas, mas temos experiência com merda. Quem precisa de psicólogo quando tem 4 pessoas desajustadas como conselheiros? (Não consultei nenhum deles sobre essa ideia... Nem sobre o adjetivo "desajustados". Pelo menos eu me incluí.) Não acho que gravaremos o 4º esse mês porque dezembro é foda, mas de janeiro não passa. Como sempre, escutem na playlist ou baixem no 4shared. 

Notas:
- Fontes de onde tirei os processos aqui.
- Nada de novo nos fronts do soundcloud e 4shared. Nenhum novo comentário. Vocês não servem pra muita coisa.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Ao Farol- Virginia Woolf

Atenção, esta resenha contém spoiler!!!

Num breve resumo do enredo, pode-se dizer que este livro conta a estória de uma família que passa as férias numa casa de veraneio na Escócia, enquanto o maior desejo de um dos filhos, o mais novo, é visitar o Farol que tem ali perto, porém é continuamente impedido pelo mau tempo.

O livro é dividido em três partes: "A janela", "O tempo passa" e "O farol", as quais são compostas por 19, 10 e 13 capítulos, respectivamente. Os acontecimentos narrados ocorrem em dois dias distintos, separados por um intervalo de dez anos. Assim, em "A janela" vemos os acontecimentos do final de uma tarde e noite de setembro; em "O tempo passa", vemos os acontecimentos de dez anos após esse primeiro dia. Nesse período ocorre a Primeira Grande Guerra. Em "O farol" vemos o que acontece numa manhã após a Guerra.

Quanto aos personagens, temos a família do sr. e da sr. Ramsay com seus oito filhos. Do mais velho para o mais novo: Andrew, Prue, Nancy, Cam, Jasper, Roger, Rose e James; os convidados da família: Lily Briscoe, que é pintora; William Bankes, que é botânico; Charles Tanslay, Minta Doyle, Paul Rayley e Augustus Carmichael, que é poeta; e os empregados que cuidam da casa na segunda parte: a sra. MacNab, a sra. Bast e seu filho George.

O livro se inicia com uma fala da sra. Ramsay dizendo ao seu filho James que eles irão ao farol no dia seguinte caso o tempo esteja bom. O menino fica contente com o que ouve, mas o pai não deixa que a alegria dure muito dizendo que o tempo não estará bom, fazendo com que James o odeie.
 Ao longo dos capítulos, aparecem alguns dos convidados da família. Entre eles Charles Tanslay, que é pouco estimado pelas crianças. Logo após, Lily Briscoe que faz sua primeira aparição pintando um quadro da sra. Ramsay enquanto a vê pela janela com James e aqui, a janela é figura central. Não é à toa que este é o título da primeira parte. E o capítulo é encerrado com a visão da cabeça da sra. Ramsay "Absurdamente recortada pela moldura dourada" ( ou seja, pela janela).

Agora, vou me deter mais demoradamente no capítulo cinco dessa primeira parte. Logo no primeiro parágrafo, nos deparamos com dois tipos de exposição dos fatos: o narrar e o mostrar, que se dão através do discurso direto da personagem e do discurso do narrador. Temos o pensamento da personagem e a narração direta ao mesmo tempo. Por isso é preciso muito cuidado para não se perder durante a leitura. Um pouco mais para a frente, a voz da narrativa vaga numa indeterminação, é difícil atribuir se o que está sendo dito é feito pelo narrador ou é um pensamento da personagem, além disso, vemos que um simples ponto muda todo o sentido de uma frase.
Nesse capítulo, a sra. Ramsay tricota uma meia marrom para levar de presente ao filho do faroleiro e usa James como modelo de medição. O menino, tomado de ciúmes, fica se remexendo a fim de atrapalhar o trabalho da mãe, que se irrita e é um pouco mais severa com ele. Por fim, ela consegue medir a meia e constata que ainda está muito curta.

Em "O tempo passa", parte com menor número de capítulos, apenas 10 (curioso notar que dez é justamente o número de anos compreendido nessa parte). Ao longo dos capítulos, a passagem do tempo é quase palpável, acompanhamos a decadência e abandono da casa de veraneio que é atingida pelas intempéries, mas segue resistindo com os cuidados da sra. MacNab, da sra. Bast e de seu filho George.
Nessa parte, eclode  a Primeira Grande Guerra, Andrew é morto atingido pela explosão de uma granada, Prue morre por causa de uma complicação no parto e a sra. Ramsay também morre. Não há preparação prévia para dar a notícia das mortes, então somos pegos de surpresa com elas são anunciadas [dentro de colchetes], como se fosse só um detalhe. A implacabilidade do tempo e dos acontecimentos se faz muito marcante, mas de uma forma quase poética.

Passada a Guerra, a casa de veraneio é novamente habitada e em "O farol", finalmente se concretiza a ida ao farol, após dez anos. O sr. Ramsay leva James e Cam ao farol, os dois vão contra suas vontades, mas preferem não contrariar o pai. Paralelamente à ida ao farol, Lily Briscoe pinta seu quadro, aquele mesmo ela tinha iniciado há dez anos atrás e o termina no mesmo momento que o barco chega ao farol. Essa terceira parte é permeada pela falta que a sra. Ramsay faz, principalmente a Lily, que é a que mais evoca lembranças dos tempos passados.

O livro é genial, não tanto pela história em si, mas sim pela forma como se dá a narrativa, num fluxo de consciência no qual o estado psíquico das personagens é mais valorizado do que as ações concretas. Indico fortemente a leitura e certamente o lerei novamente.

Li este livro para a matéria de Introdução aos Estudos Literários e o professor indicou o livro da L&PM, com a tradução da Denise Bottmann, mas como está esgotado e não se encontra mais tão facilmente, ele também indicou o da Autêntica, com tradução do Tomaz Tadeu. A primeira leitura que fiz, foi do livro com a tradução da Denise e para escrever esta postagem estava com a tradução do Tomaz em mãos. Particularmente, achei a tradução da Denise mais indicada para um primeiro contato com o livro da Virginia, como foi o meu caso, mas a do Tadeu, apesar de ser um pouco mais rebuscada, também é boa.
Deixo abaixo, nas duas traduções, um trecho que eu gostei:

"(...) deviam aprender desde a infância que a vida é difícil, os fatos inflexíveis, e que a jornada até aquela terra fabulosa onde nossas mais vivas esperanças se extinguem, nossas frágeis embarcações soçobram nas trevas (...), exige, acima de tudo, coragem, verdade, e a força de resistir". -Tradução de Denise Bottmann.
"(...) deviam estar conscientes desde a infância de que a vida é difícil; os fatos, inarredáveis; e a passagem para aquela terra lendária onde nossas mais vivas esperanças se extinguem, nossos frágeis barcos afundam na escuridão (...) é uma passagem que exige, sobretudo, coragem, verdade, e força para resistir". -Tradução de Tomaz Tadeu.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Eu no Enem







Primeiramente sim, eu fui fazer o Enem também seus escroques... Já fiz acho que cinco ou quatro vezes; não lembro agora, mas não importa. O que importa é que dessa vez, eu fiz realmente por fazer, e digo que, gostei do resultado. O local da prova que peguei foi perto da minha casa meia hora a pé oito minutos de ônibus (no trânsito normal do dia a dia). Eu sempre vou cedo para fazer qualquer coisa, tenho já os meus traumas de chegar atrasado em: entrevistas de emprego, encontros amorosos (época do MSN...bons e maus tempos) e festas. Separei o que iria levar para o derradeiro dia da prova. Uma caneta preta e eu. Na parada de ônibus tinha alguns conhecidos do bairro, não peguei nenhum ônibus lotado. Lembrei-me das outras vezes que fiz. Uma das vezes a mais traumática de todas, foi quando eu cheguei faltando sete minutos para fechar o portão. Nunca corri tanto na minha vida, me senti como o próprio filho do vento, ou como naquela cena do Clube da Luta, na qual Tyler Durden manda aquele carinha parecido com o Jiraya correr “corra, Forrest, corra!” Tipo isso. Cheguei pronto para ganhar o concurso da camiseta molhada, mas tava valendo o sacrifício. Voltemos para o Enem desse ano. Fui com a expectativa de achar alguém conhecido lá no colégio. Achei. Todas às vezes que fiz sempre havia mais de dois conhecidos. Como já estava safo de todas as regras do Enem, cheguei e fiquei lá de bobeira vendo muitos gatos pingados suarem sobre o sol de duzentos e cinquenta graus de Fortaleza. Outras pessoas chegavam e já iam para sala. Algumas ficavam pelos arredores, comiam alguma coisa compravam água, caneta... etc. Minha primeira impressão é de perceber o quão as pessoas ficam tensas por conta dessa prova (claro né). Tinha um garoto de dezessete anos (eu acho) que estava branco, suando como se não houvesse amanhã, e com um tique nervoso elevado na décima potência. Um pai consolava o filho dizendo que ia dar tudo certo, uma filha pegava dicas com o irmão, e eu pela primeira vez estava como um fotógrafo do National Geographic apenas captando os momentos.


Finalmente entrei na sala depois de uma hora e meia esperando. Entrei faltavam vinte minutos para fecharem o portão. Meu primeiro movimento foi escolher um bom lugar para sentar. O ar condicionado tava até o talo de frio. Peguei uma cadeira que ficasse debaixo dele. A sala em que fiz a prova era minúscula. As cadeiras eram de plástico. Já fiz em cadeiras bem piores, uma até que o braço ficava saindo às vezes. Uma das minhas primeiras raivas foi descobrir que o Enem agora espera meia hora para entregar as provas depois do fechamento do portão. Lembro de esperar cinco minutos, mas era por causa da explicação. Essa meia hora é de silêncio pleno. Mais tempo, mais nervosismo para o bem de todos, mais exaustão, mais vácuo. Uma das máximas do Enem: “trata-se de uma prova de resistência e conhecimento” aaaaaaahhhhhhh...então quer dizer que agora o Enem nos leva para as olimpíadas do rio 2016 também. Legal. Não tiro o mérito para quem estuda e está preparado para os dois dias de prova. Penso apenas se isso é necessário. Além de ter que estudar coisas para as quais sei que sou burro para caralhous (saudades vestibular, saudades das provas especificas), ainda tenho que seguir a dieta do Enem, manter o corpo em equilíbrio com a mente, assistir os vídeos da Jane Fonda etc. etc. 

Vamos às figuras da minha sala. Tinha um cara que era a cara do rei do crime. Outro que marcou caderno rosa antes de entregarem a prova, com certeza ele imaginou “ora se o gabarito é rosa, então, o caderno é rosa é claro”. Um cara levou um piquenique para fazer a prova. Tinha um que fez a prova de caneta azul. O melhor de todos era um cara que espirrava e assobiava ao mesmo tempo. PORRA. Era tipo a piada de assobiar e chupar cana versão Enem. Terminei rápido, voltei rápido. Percebi finalmente ali que eu sou das humanas. É isso, me desculpem Fermat e Ramanujan. Todas as questões de exatas, pois chutei sem hesitar. No fim, lembrei das outras vezes que fiz. Ônibus lotados na ida e na volta, frio, calor, sede. Me sentia como num episódio do The Walking Dead, mas parece que as coisas tendem a se dificultar de acordo com o seu nível de preocupação. Foi isso. Espero que eu não magoe ninguém com essa crônica, onde brinquei com algo tão sério que é o Enem. Ok então produção pode publicar.




quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Poema 84


Edward Hopper - Não sei o título

fragmentos de um estudo geracional (1)

I

somos nada além de jovens corações aos prantos
sobre a opressão da possibilidade, quando
tudo que se deseja desmorona e nos soterra
junto dos nossos medos e limitações aos montes.

II

ó mantos de sonhos; fulano te disse que você
podia ser o que quisesse se fosse atrás e nunca
desistisse, mas esqueceu de te dizer todo o resto,
das coisas ao redor, concretas e que te fodem com gosto.
fulano desonesto.

III

as palavras de seu Eliot, as tais, repetidas à exaustão
(pelos outros e ele próprio):
this is the way the world ends this is the way the world ends et cetera.
não é o mundo que se vai, é o indivíduo, sim,
com um gemido e não uma explosão, numa cama que não é nossa,
com gente que não importa e não se importa
e o ceifador, que é só nosso próprio apático corpo,
cansado da brincadeira.

IV

quem sabe, após décadas de exercícios de autoconhecimento
livros de autoajuda viagens de autodescoberta meditação
condicionamento reflexão autodirecionamento masturbação
auto auto ego ego eu eu eu, um dia, depois disso tudo,
você note que não existe eu,
nada a se descobrir - ou nada de fixo -, tudo perda de tempo.
cada passo em direção a si mesmo causa uma mutação,
cada mutação é um passo sem rumo, e o eu vai pra outro lugar,
e a busca segue fútil, e você insatisfeito.
cultive seu mistério interno, eu digo, é mais divertido. ou não.
 
---
Essa é uma série de poesias com um tema comum. Mais pode ser inserido.

domingo, 29 de novembro de 2015

Momento Musical #12 - The Lounge Lizards, Lydia Lunch, Miles Davis



Adivinhem que dia hoje? Isso mesmo, dia de quero fazer uma postagem, mas tô sem tempo de pensar. Dia de momento musical. E os escolhidos para vosso deleite foram:

The Lounge Lizards - Lounge Lizards (1981)


Na década de 80 (e quando mais poderia ser?), punk e jazz transaram. The Lounge Lizards é o nome do rebento. Com liderança de John Lurie, um ator/músico bem doido da época, famoso por trabalhar nos filmes do Jim Jarmusch, produzir um programa de pesca em que ele ia para locais isolados pescar com amigos (Tom Waits, Jarmusch, Dennis Hopper) - que durou 6 episódios e faliu um estúdio - e por mandar tuítes ao Obama pedindo, por exemplo, pelo fim do horário de verão, o resultado poderia ser algo além de bom? Não. Porra, se não fosse bom não estaria aqui. Vocês já deviam saber disso.

Lydia Lunch - Queen of Siam


E falando da parte da década de 80 que não foi uma merda, temos Lydia Lunch. Um ícone em todos os aspectos. Ela fez parte do movimento pós-punk conhecido por No Wave. O crítico Lester Bangs disse que ela era uma das únicas coisas interessantes acontecendo na década de 80 e esse disco é o motivo. Descoordenado, furioso e explosivo. Escute quando estiver com raiva. Ou para ficar com raiva. Escute.

Miles Davis - Kind of Blue



Sem comentários. Esse é o disco que você mostra pro mancebo que te pergunta o que é jazz. Isso não é um disco, é história registrada. Na liderança, Miles Davis (pergunte quem é e receba uma bofetada), Bill Evans no piano (último MM, veja), John Coltrane no sax tenor, Cannonball Adderley no sax alto, Paul Chamber no baixo, Jimmy Cobb na bateria e Wynton Kelly toca piano numa faixa. Isso é história, filhotes.

domingo, 15 de novembro de 2015

Podcast - Segundo programa

Como é que vão vocês, bando de filho da puta? Gravamos o segundo pó de quésti, já faz é tempo na verdade, tô enrolando uma vida pra postar aqui. O tema dessa vez foi leitores, quem são, como vivem, de que se alimentam, se existem, essas questões tão relevantes para o universo. Dessa vez ninguém pôde participar além de mim e do Ernane, então tá mais pra uma conversa que um podcast, mas deve ter ficado bacana. Deve ter porque eu não ouvi ainda, vocês vão lá, escutem e depois me digam. Sei lá, ouvir minha própria voz gravada me deixa nervoso, não tentem entender. 

Dá pra ouvir na playlist ou baixando no link abaixo (também dá pra ouvir no site do 4shared e no soundcloud). Teremos um terceiro? Espero que sim. Espero que com participação de outras pessoas. Mas vocês têm que me dizer o que estão achando. Alguém escutou o primeiro, porque tá com mais de 30 visualizações tanto no 4shared quanto no soundcloud, e eu só ouvi uma vez o arquivo do mp3 mesmo, então não fui eu. Vocês têm que participar mais ativamente desse blog, porra. Quase 100.000 visitas e nenhum comentário, quem são vocês? Espírito santo? Porra.

Link: http://www.4shared.com/mp3/YpJjbOfOba/Baderna_Literria_Leitores_e_Le.html?

Notas:
- O termo "aforístico" não é neologismo. Existe e foi usado de maneira correta.
- Além dos 4 ouvintes apontados, existe um quinto, de procedência desconhecida, que deixou comentário no link do 4shared do primeiro episódio. Aqui fica meu reconhecimento.
- Apesar de gravado antes do festival de cinema de Juiz de Fora, a publicação só foi feita muito depois, o que tornou minha propaganda ainda mais inútil.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Como tomar no cu sem fazer sexo: analisando 50 Tons de Cinza (E. L. James - 2011)


Existem diferentes papéis que o erotismo pode exercer na literatura. Os principais, a grosso modo, seriam: transgressão, afetar o leitor psicologicamente usando descrições explícitas de atos sexuais, incomuns ou não, causando constrangimento ou, em maiores escalas, abalando costumes sociais – Marques de Sade poderia se encaixar nesse modo, assim como Georges Bataille (cujo clássico História do Olho supera, ainda nas primeiras dez páginas, toda a sacanagem contida em 50 tons de cinza; exemplo: uma moça de dezessete anos arrebenta um ovo com o cu), no entanto é válido apontar que o grau de erotismo necessário para transgredir é variável conforme o período em que vivia o escritor (uns diriam que a literatura de D. H. Lawrence é bastante recatada, mesmo assim, em seu tempo, ele foi banido, enquanto hoje é possível ver na internet duas mulheres vomitando e cagando uma na outra sem que haja investigações policiais e processos –; excitação, servir de meio sensual alternativo para pessoas que, no momento, não têm um parceiro disponível e precisam botar a mão na massa e buscar alívio solitário, ou usado para abastecer a criatividade de um casal entediado e reacender aquela pálida chama da fogueira de alcova; mais comum hoje seria o erotismo como consequência existencial, em que o autor inclui a vida sexual das personagens na narrativa porque elas são representações de seres humanos e seres humanos, em sua maioria, fazem sexo. Uma categoria separada seria a dos gênios que conseguem mesclar todas essas formas, gente como: Anaïs Nin e Henry Miller. De alguma maneira, o mais recente fenômeno da literatura erótica conseguiu falhar em todos esses aspectos.

Falo de 50 tons de cinza, a série de livros que, desde seu lançamento, vendeu 125 milhões de cópias mundialmente. Mais que praticamente tudo nas livrarias hoje em dia, com exceção dos lápis de cor. Meu objetivo com a leitura foi tentar identificar a razão disso. Em nenhum momento esperei gostar do livro. Não, estaria além das minhas capacidades. A ideia era encarnar um personagem e enxergar a história com os olhos do público-alvo. Ao fim das 400 e muitas páginas do primeiro volume, percebi que foi um exercício de futilidade. Seria impossível, contudo, explicar de uma vez porque o livro falha, por isso decidi dividir a análise em temas.

1. Narrativa

Para os que vivem em uma caverna e não sabem do que se trata 50 tons de cinza, segue um breve resumo do primeiro volume (único que li e lerei):

Formanda em literatura, Anastasia Steele tem 21 anos e é virgem. Ela divide um apartamento com uma amiga chamada Kate, que escreve pro jornal da faculdade e teria que entrevistar Christian Grey, bilionário de 27 anos e responsável por toda essa merda de livro. Como Kate está doente, Anastasia a substituiu. Por motivos de enredo, o ricaço pica das galáxias se apaixona pela folha de papel sulfite que o entrevista. Acontece que Christian é um sociopata e começa a perseguir Anastasia, aparecendo em tudo quanto é lugar que ela vai. Sempre que os dois se encontram ele diz que ela não deve se aproximar, que ele tem gostos peculiares que ela não conseguiria satisfazer e coisa e tal, mas tampouco ele deixa que ela se afaste. Anastasia, que tem idade mental de uma criança de 5 anos que nunca aprendeu a não falar com estranhos, em vez de chamar a polícia, fica intrigada com o “mistério” do Christian (não com o dinheiro e com a beleza, de forma alguma) e da sequência ao chove não molha que se prolonga por mais de 50 páginas.

Duas semanas depois, as coisas parecem avançar, e Christian leva a relação – que até então não passou de uns beijos, se chegou a tanto – para o próximo nível, mostrando para Anastasia o equivalente adulto de um homem estranho dentro de uma vã cheia de doces: um contrato regulando como se dará o relacionamento entre os dois, caso aconteça. Se você, leitor, é amante dos documentos legais, regozije-se, pois E. L. James incluiu todas as páginas do livro no contrato, para que você não perca nada.

Mas Ana não se sente confortável com certos aspectos do contrato – as partes que ele diz que vai controlar a alimentação dela, que ele pretende castigá-la sempre que ela o contrariar, que ele pretende enfiar o punho no cu dela… coisas típicas desses contratos legais, vocês sabem como é – e hesita em assinar. 

Os dois acabam seguindo a relação mesmo assim, deixando bem claro que aquelas tantas páginas do contrato que a autora forçou você a ler não servem para porra nenhuma. Ocorre então o despertar sexual de Anastasia – que eu cobrirei melhor durante a análise. 

As próximas 400 páginas envolvem apenas os dois fazendo sexo. De vez em quando Anastasia se questiona se está fazendo a coisa certa, mas logo passa – quando os dois transam de novo. E assim vai, até que ela leva uns tapas com muita força e faz aquilo que ela devia ter feito na primeira página: foge.

2. Qualidade literária

Dos muitos problemas em 50 tons de cinza, o mais aparente é a escrita. Estou certo de que E. L. James, antes desse romance, nunca escreveu nem uma mensagem de texto. Não é de surpreender que a base para esse livro tenha sido a série Crepúsculo. Alguém pode querer me dizer agora que é tudo uma questão de gosto. Bom, é e não é. Gostar do livro é uma questão de gosto, de fato. Isso não muda a qualidade geral da prosa. Nem tudo de que se gosta é bem-feito. Eu amo Sharknado, isso não quer dizer que seja um filme bom. (É ótimo.)

Desconsiderando erros de colocação temporal (por exemplo, em uma cena, Christian Grey liga de manhã para Anastasia, ela desliga o telefone e vai preparar o jantar – ou a ligação foi longa pra caralho, ou E. L. James esqueceu que horas eram e nenhum dos revisores se deu conta), e outras coisas mais técnicas, o livro ainda é cheio de repetições, déjà vus e frases mal construídas. Lógico que, se você gosta do livro, chances são que você não é assim tão ligada em literatura e não se importou com nada disso – por isso mesmo não pretendo entrar em detalhes sobre a qualidade da prosa. Agora não venha me dizer que um livro em que os personagens murmuram cinco vezes por página é bem escrito.

Se existem frases memoráveis ao longo do texto é pela hilaridade não intencional contida nelas. A genial: “Eu não faço amor. Eu fodo… com força.”, vem à mente de imediato, e o livro é permeado desses pequenos momentos de comédia literária, com frases esquisitas que nenhum ser humano diria, mas que aqui são consideradas sexy por algum motivo. Desde 1977 eu não li tantos “baby” em um livro, melhor seria que a tradutora chutasse o balde e escrevesse logo “broto” no lugar. O que me faz pensar que, para um cara que conseguiu se tornar um empreendedor de sucesso ainda jovem, sabe tocar piano clássico, pilota avião, sapateia, assobia e chupa cana ao mesmo tempo, ele é bem chato. Os dois nunca têm assunto. Toda a conversa deles se limita a trocas levemente irônicas de provocações – terminando, normalmente, em arrependimento para Anastasia, que passa as páginas seguintes temendo pela própria vida (porque o relacionamento deles é saudável) – que rapidamente se tornam cansativas e irritantes. É um desafio ler um terço do livro sem querer esganar os dois ou sem desejar que o helicóptero em que eles embarcaram caia. 

Pode parecer bobagem reclamar da maneira que as personagens falam, afinal são criações da autora e ela pode fazer o que achar melhor, mas não é assim que a banda toca. Quando nada na descrição da personalidade da personagem condiz com suas ações ou jeito de ser, isso é um problema de caracterização – erro literário típico de iniciante que não percebe que, por mais que fictícias, personagens são representações de seres humanos e precisam de liberdade. E essa é a melhor maneira de definir Anastasia. Ela é formanda em letras e é a primeira da classe – se não me engano, a essa altura as informações do livro estão sendo forçadas a se retirar da minha memória para dar espaço a coisas melhores. Isso deveria significar que ela não é de todo burra. Não é o caso. A garota é sequelada. Não compreende coisas que não poderiam estar mais claras. Isso poderia ser culpa de sua inocência virginal, só que o diploma em letras quer dizer que ela leu a maior parte dos clássicos da literatura americana e/ou inglesa, que inclui muita sacanagem e, mesmo que de segunda mão, experiência de vida. Inocência é uma coisa, crescer numa bolha emocional é outra. Rompimento de hímen, até onde eu sei, não causa queda de QI. Não quero me adiantar aqui porque mais será dito quando eu me pôr a analisar a relação dos dois.

Como quem narra a história é essa toalha molhada que atende pelo nome de Anastasia, o leitor está preso à mente limitada dela. E nunca na minha vida eu desejei tanto por um narrador onisciente. (Tem quem diga que preferiria uma narração do Christian Grey [o que aparentemente vai acontecer – prova de que o diabo existe e está entre nós], mas não, ele não resolveria essa limitação porque ele é tão limitado quanto ela – o mal está na raiz, a autora, que não poderia vir com uma boa narração mesmo que tivesse em mãos a melhor das personagens.) Como a terceira pessoa nunca surge para aliviar a mente do leitor, este é obrigado a passar as centenas de páginas ouvindo a voz patética dela falar e falar e falar e murmurar e murmurar, e, como se não bastasse, o texto ainda é cheio de interjeições infantis como “uau”, “meu Deus”, “minha nossa”, “cacete”, e variações. Puta merda – uso aqui meu direito de adicionar uma interjeição vazia. De vez em quando, ainda, a narração nos oferece acesso aos mais íntimos pensamentos de Anastasia – esses vêm em itálico. O que eles dizem: “o que é isso?”, “o que ele quis dizer?”, quem sou eu?, onde estou? Sim, porque Anastasia tem pensamentos muitos ativos. Sua mente é tão agitada que convive com duas entidades psicológicas, separadas da origem e autoconscientes, para as quais pretendo dedicar o próximo tema.

3. Os três patetas: Anastasia, Inconsciente e Deusa Interior

Personificações do Tico e Teco, as vozes na cabeça de Anastasia, que tornam o pensamento dela mais claro (?) e a leitura insuportável, são chamadas Inconsciente e Deusa Interior. Um passa a história insultando Anastasia enquanto o outro só se masturba. Antes que eu me adiante, vamos definir a personalidade dessas duas alucinações, sim?

Comecemos pelo Inconsciente porque, dos dois, é o que mais me emputece. Não se enganem, a Deusa Interior é tão ruim quanto, mas ela é o tipo de idiota inofensiva, enquanto o Inconsciente é uma demonstração do quanto a autora não estava preparada para escrever o horóscopo de uma revista de fofoca, que dirá um romance. Desde a primeira página, o Inconsciente serve como o bom senso, o lado inibitivo da “mente” de Anastasia, que, por sarcasmo mal escrito e tentativas sem graça de piadas autodepreciativas – afinal o inconsciente é parte de Anastasia, tenha ele consciência disso ou não –, tentam mostrar a ela que o que ela está fazendo é errado ou incompatível com a personalidade dela ou apontar um mal a ser evitado. Em termos psicanalíticos, é o Superego. Isso mesmo, caros leitores, uma das coisas mais presentes nesse livro é, por definição, um erro. É difícil explicar como isso aconteceu. E. L. James deve ter achado a palavra inconsciente bonita, então decidiu repeti-la o máximo de vezes possível ao longo do livro, sem nunca pesquisar no Google o seu significado. É verdade que o Superego não é de todo consciente, mas o de Anastasia parece ser, visto que ela tem um acesso muito claro a ele – e mesmo assim o chama de Inconsciente. Nenhuma das milhões de leitoras parou para pensar nesse detalhe? Não é preciso um diploma em psicologia pra perceber que tem algo errado. Então é isso, o Inconsciente é só essa coisa que passa o livro todo reprimindo Anastasia e sendo ignorado, tanto pela personagem quanto pelo leitor, que, inevitavelmente, passa a pular as frases em que ele aparece.

A Deusa Interior, por outro lado, é um tipo completamente oposto de chateação. Ela dança, comemora, pula etc. Mantendo a civilidade, ela é o Id da personagem. O impulso, a fonte da libido, os desejos e por aí vai. A Deusa Interior, sendo franco, é a vagina da Anastasia. Mas deus nos livre da palavra vagina aparecer no texto. A autora tem algum problema com qualquer menção nominal aos órgãos reprodutivos. É bem verdade que o uso de termos biológicos num livro de sexo pode fazer as cenas soarem como uma aula de anatomia, mas nem apelidos ela usa. Ela poderia ter vulgarizado de vez e soltado logo a boceta, ou, como pelo visto ela não tem medo do ridículo, lançar uma xoxota aqui e ali, até perseguida poderia ser perdoado em lugar da real escolha da autora. Não, ela tinha que fazer a personagem dizer coisas como “lá embaixo”, que não é nem um eufemismo digno. A mais ingênua das mulheres não usaria essa expressão. Lá embaixo é o que uma criança responde ao juiz quando ele lhe pergunta: “onde foi que o padre te tocou?” Mas eu estava falando da Deusa Interior. É que não tem muito a se falar sobre ela, por isso eu me perco nos meus pensamentos – deve ser meu inconsciente trabalhando. A Deusa Interior é o equivalente feminino do “pensar com a cabeça do pau”, nada além. 

Então o leitor é forçado, pelas quase quinhentas páginas, a ler dezenas e dezenas de breves reações do Inconsciente e da Deusa Interior aos pensamentos e escolhas de Anastasia. Que eu me lembre, os dois nunca se encontram. Eles sempre se dirigiam diretamente a Anastasia, nunca um ao outro, o que foi uma oportunidade perdida para muita galhofaria, tortadas na cara e dedos no olho, no maior estilo Moe (Inconsciente), Larry (Anastasia) e Curly (Deusa Interior). Nada disso muda o fato de que, se o editor tivesse passado a faca em todas as menções a essas duas criaturas, a leitura teria sido menos desagradável, pra começar porque isso cortaria pela metade o número de páginas. 

4. Falsa luz no fim do túnel e a raiz de todo o mal.

Então, já no último capítulo ou algo assim, eu me surpreendo. Pela primeira vez, Anastasia toma uma decisão acertada. Ela leva umas porradas do pica das galáxias e decide que chega, aquela vida não é para ela, os dois não devem mais se ver. Seria isso um sinal de amadurecimento?, E. L. James mostrando que não é só uma escritora incompetente, mas alguém com inconsciência, decidida a quebrar o formato padrão das histórias sobre meninas inocentes tentando mudar os homens terríveis por quem elas se apaixonam? Não, porque o livro tem duas continuações, logo não é necessário ler todos os volumes pra saber que ela volta atrás e ele promete mudar e os dois voltam a ficar juntos e se casam e têm dois filhos e meio e um Golden Retriever e então as agressões do pica das galáxias começam a ficar mais frequentes principalmente porque o corpo de Anastasia já não é aquilo tudo e a pica já não está explorando tão bem a galáxia fazendo umas aterrizagens de emergência ou não decolando e Anastasia desenvolve um vício em antidepressivos e analgésicos e as crianças descobrem a sala de jogos e o cachorro morre de câncer e finalmente eles terminam em um longo e doloroso processo de divórcio em que nenhum dos dois é visto como capaz de criar as crianças e os dois se suicidam. Eu posso sonhar; a autora não escreveu o que vem depois do felizes para sempre.

Pois é, por um momento eu quase vi algo que pudesse redimir essa história. Se ela tivesse ido embora e não tivesse continuação, o livro continuaria sendo uma merda mal escrita, mas teria uma razão de ser. Mostrar que não dá pra mudar um parceiro abusivo, que certas pessoas são incompatíveis, enfim, uma versão adulta da história. Se ela tivesse feito isso, com toda a honestidade, eu teria dito que o livro é uma merda. Do jeito que está, ele é uma merda ofensiva, insistindo que amor e persistência podem mudar uma pessoa. Receita para um desastre. E tem gente que acredita. Por mim, se as pessoas estivessem elogiando o livro porque todo mundo gosta de uma sacanagem, tudo bem. O livro é péssimo em sacanagem também, mas não vem ao caso, cada um com seus gostos. Mas daí a dizer que é uma história de amor, superação e o caralho à quatro, isso é intragável e, dependendo do quanto a leitora em questão realmente acredita nisso, prejudicial.

A maneira como as pessoas mais apaixonadas por essa história insistem que Anastasia se interessa por algo mais no seu Grey que os bilhões de dólares e a vara me intriga. Nada no livro dá a entender o contrário. De vez em quando Anastasia diz para si mesma que não é isso, mas ela não é capaz de definir o que é. E o pior de tudo, e que categoriza o abuso na relação, é que ela nem tem padrões comparativos adquiridos em relações passadas para ajudar a definir se o que ela está vivendo é bom ou não. Nada do que ela diz sobre o relacionamento é confiável, nem mesmo o tamanho do dote do ricaço. A mulher nunca nem se masturbou antes de transar com ele, como ela sabe que ele é tão grande assim? Ela não conhece nem os próprios dedos, porra. E mesmo que ele tivesse aquilo tudo, baseado nas descrições da autora, as proezas sexuais do cidadão não funcionariam na vida real. É que, pra sorte dele, ela guardou todos os orgasmos que ela não atingiu em sua vida adulta dentro de um armário na casa da Deusa Interior e ela é capaz de atingir cinco em sequência com o toque de uma pluma. Até a autora tem suas dúvidas sobre a capacidade do rapaz e vive se forçando a avisar as leitoras de que o que acabou de acontecer foi sexy, só para que não reste dúvidas.

Minha dica para Anastasia e qualquer outra moça que possa estar envolvida em um dilema desses na vida real é: se o cara aparece na loja em que você trabalha sem que você tenha dito para ele onde é, você pergunta como ele descobriu e ele responde que tem seus meios, ele compra corda, um taco de baseball, uma máscara de esqui e uma motosserra, e então te convida para sair, diga não. Então corra o máximo que suas pernas suportarem, mude de país ou compre algumas armas de fogo.

5. Conclusão.

O fato de que esse livro atingiu os números de venda que atingiu e se tornou tamanho fenômeno me impressionaria se as pessoas já não tivessem esse hábito de comprar livros ruins. É normal, temos aí Paulo Coelho, Dan Brown, Stephenie Meyer. Tudo que ela fez foi escrever um livro ruim com sexo. Fórmula para o sucesso. A surpresa é que demorou tanto tempo para acontecer.

Todas as leitoras que dizem amar esse livro por serem mulheres liberadas e bem resolvidas com a própria sexualidade, sinto em lhes dizer, mas não é verdade. Esse livro é literatura erótica para quem não gosta de literatura erótica, é sadomasoquismo para quem não sabe o que é sadomasoquismo, é sexo para quem não faz sexo. Ruim em todos os graus, tanto literários quanto eróticos, falhando em tudo aquilo a que se propõe fazer. Isso é tão claro que pode-se dizer que as pessoas que gostariam de ler 50 Tons de Cinza já leram, e aqueles que não gostariam perceberam pelo faro o lixo literário irredimível que é esse livro. A única coisa que eu gostaria de ler relacionado a 50 Tons de Cinza é a perspectiva da faxineira do senhor Grey. As coisas que essa mulher já deve ter visto e sofrido, isso sim é uma história.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Teatro Clássico e Teatro do Oprimido

Historicamente, na tradição ocidental, o Teatro dividiu-se em dois  grandes gêneros: Tragédia e Comédia. Tragédias costumam ter o nome do personagem principal no título, enquanto as Comédias são intituladas com alguma qualidade ou defeito do personagem. Exemplo de título de Tragédia: “Édipo Rei”. Exemplo de título de Comédia: “O Avarento”. Mas às vezes o título pode ser dissociado da peça.
Um texto de Teatro apresenta duas formas: texto primário e texto secundário. O primário é o diálogo e monólogo presente e o secundário é basicamente o conjunto de tudo que não é conversa, portanto, as didascálias, títulos, nomes, prefácios…
O público, o espectador é afetado diretamente. Todo e qualquer diálogo destina-se ao público. O Teatro quer de alguma forma agir sobre o espectador.
Na concepção clássica de enredo, é possível identificar uma estrutura fechada como mostra o esquema abaixo:


O Teatro do Oprimido foi fundado em 1960 por Augusto Boal e busca libertar os oprimidos de suas opressões. O primeiro passo para isso é fazer com que o oprimido tenha conciência de que é oprimido.
Em seu livro “Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas”, Augusto Boal diz que “todo teatro é necessariamente político, porque políticas são todas as atividades do homem, e o teatro é uma delas”. Assim, pode-se afirmar que o Teatro do Oprimido (TO) é um teatro, antes de  qualquer coisa, político. 
Para compreender melhor a forma como atua o TO, podemos observar a Árvore:

Imagem retirada do livro "Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas".

Com esse esquema podemos ver como o TO dispõe de diversas ferramentas que levam o espectador a refletir, com técnicas que visam tirar o corpo do automático e trabalhar todos os sentidos.

Finalizo com uma frase de Boal: “O teatro é uma arma e o povo quem deve manejá-la”.

domingo, 25 de outubro de 2015

Momento Musical #11 - Augustos Pablo, The Slits, The Underground Youth, Bill Evans


Nessa edição do Momento Musical de hoje, decidi apresentar coisas que nem eu conheço direito ainda, mas tive excelentes primeiras impressões, e, pra dar uma variada, um dos meus músicos de jazz favoritos. Sem mais delongas:

Augustos Pablo - King Tubby Meets Rockers Uptown (1976)


Nunca fui muito de reggae e nem sei o que é dub - salvo que é meio que um precursor dos remixes da música eletrônica, que em si é uma coisa que não me agrada. Ouvi falar desse disco, decidi dar uma chance, e é muito melhor do que eu imaginava. Um estilo bem interessante. A música é quase toda instrumental e é ótima pra quando se quer apenas passar uma tarde relaxando. Que eu saiba, Augustos Pablo foi um dos maiores nomes do reggae da Jamaica e King Tubby, que produziu o disco em parceria, praticamente o inventor do dub. Esse disco, dizem, é a representação resumida do gênero.

The Slits - Cut (1979)


Depois que o punk deu errado (basicamente virando mais música comercial), surgiram grupos tentando reviver o espírito do gênero de maneira mais original. O crítico Lester Bangs incluiu essa banda como uma das poucas do fim da década de 70 que demonstravam algum sinal de novidade, dizendo que finalmente era hora do rock deixar as mulheres comandarem, já que elas eram as únicas interessadas em fazer algo que preste (Lydia Lunch e Au Pairs foram citadas ao mesmo tempo). Não faço ideia da história dessa banda, se estão na ativa, se gravaram outros discos. Só sei que esse é o único disponível e que gostei muito do que ouvi.

The Underground Youth - Mademoiselle (2010)


Descoberta em uma peregrinação pelos vídeos relacionados do youtube, eu não sei absolutamente nada sobre os músicos por trás dessa pérola. Cliquei pela capa - Anna Karina, vocês que leem o blog sabem que ela pode muito bem ser minha atriz favorita -, fiquei pela música. Tem esse jeito "vocal apático" com ritmo meio bossa nova psicodélica que certo grupo de bandas parece estar adotando. Se esse é o caminho que as bandas novas decidiram trilhar, que assim seja.

Bill Evans - Portrait in Jazz (1960)


O pianista mais influente do jazz, talvez empatado com o McCoy Tyner. Esse disco é especial pra mim e está entre os grandes clássicos do gênero. Um ano antes, Bill Evans foi o pianista de Miles Davis durante a gravação de Kind of Blue (se você sabe um mínimo da história do jazz, sabe o quão foda é esse disco, se você não sabe, o incluirei no próximo momento musical). Isso já significa muita coisa. Ele mudou a maneira como se tocava piano e essa formação do seu trio é considerada por muitos, eu incluso, o melhor trio da história do jazz. Pronto. Se isso não basta pra você clicar no vídeo, nada vai te convencer. Clica lá, porra.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Poema 83



à espreita

tem uma poesia em você
em algum lugar, eu sei,
e, em algum momento,
ela vai sair.
não se deve apressar as musas.

poesias são animais silvestres
muito procurados pra caça esportiva
e se espantam com movimentos bruscos
e musas espíritos ariscos da floresta que
flutuam etéreas por entre as árvores
cheirando a tabaco e grama e uvas,
perniciosas mestras da arte da fuga.

me resta lançar a isca e
esperar
que me façam dormir e
esquecer essa tolice de fazer poesia
ou me presenteiem com as tais palavras certas,
as que te darão forma
e que não são essas.


***
Tem algo de medíocre nessa aí. Não tanto pela qualidade, que não está nem acima nem abaixo da minha média. É mais a impressão de que já escrevi isso antes. Várias e várias vezes. Mas t'aí. Melhor aqui que em lugar nenhum. E talvez, eu reconhecendo a mediocridade, fique menos pior. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Aquele olhar estranho


Ultimamente tenho visto por aí coisas não tão boas. Coisas que causam embrulho no estômago. Tenho visto uma coisa que não sei se é boa ou má, simples ou complexa. Algures ou nenhures. O que eu vejo muito por aí são os olhos. Os olhos, os olhares dos outros, e de coisa alguma. Os olhos estão perdidos no meio da rua, caídos globos oculares na mão única. O sinal fecha. Olhos param, olhares continuam. Olho o coração do asfalto com a minha retina de culpa. Entro numa conversação visual com a uma puta, mas puta não olha no olho, olha na nuca olha no peito, mas não no olho nu. Pobre puta. Tenho visto muitos olhos melancólicos, os guardo na minha fotografia de bolso. Olho para o lado e vejo um lado errado. Espremo o texto, coloco meu olhar de artesão perdedor. Volto para o espelho, olho no meu olho, e vejo o meu pai. Seu pensamento é distante, mas sua rima existe no meu texto, sobrevive de algum jeito estranho como aquele olhar que não saí mais da minha cabeça. Tenho visto muitos olhares perdidos na asa de um avião. Olhos nas luzes, madrugada, poesia, crime, contexto... fecho os olhos
Não sei mais dobrar esquinas. Perdi o alcance da vista. Ando esquecendo olhares em nuvens. Saiu para procurar, acho o meu olhar numa musa impassível de um poeta morto. Olhar traiçoeiro kafkiano. Olhos são como flores, precisam desabrochar para enxergar. Tudo que queria era um olhar de rio para acabar com um desejo antigo. Eram três rios quando tinha seis anos de águas infinitas. Onde estava aquele olhar de rima agora. Fui para o sertão. Todos os olhos que me seguiam eram olhos de sede. Chorei uma lágrima, mas o sal impedia. Meu olhar insistia deixar alguma coisa. Meu olhar deixou sua nostalgia daquele rio sangrando em três veias. Como eu queria poder fechar o sol com olhos. Saudades tenho dos olhos daquela nascente, que antes mesmo de pensar na chuva já derrubava minh’alma no frio do anoitecer apaixonado. Era triste, aquela tristeza vinha inexplicavelmente, mas era tudo o que tinha, e hoje nem isso temos. Ah sertão: por quanto tempo não verei teus olhos estranhos nos meus. Herdei de meu pai o olhar acalorado, e agora tenho medo de derreter amores.
Existiam olhares que paravam diante de mim. Indóceis. Esses olhos são selvagens. O olhar estranho que tenho é tímido, assusto os outros com o meu olhar desconfiado. Foi na padaria que descobri que meu olhar havia se estendido. Agora enxergava as cores das pessoas. Algumas eram amarelas, outras vermelhas, a maioria delas era cinza. Reparei que as pessoas laranjas: eram sempre crianças. Entrei em desespero. Corri para o céu para perder de vez a vista. Foi à primeira vez na vida que vi a lua como lua. Não era amarela nem prateada. A lua era negra, uma esfera escura do nada, e era linda, uma beleza dura gasta abrupta. Clandestinamente não sabia mais do olhar sórdido lunar. Os olhares da terra pairavam, e cada vez mais eu via o meu futuro nos olhares perdidos. Quando acordei fui ao espelho. Meu olhar parecia vivo. Nunca mais olhei o mundo de outra forma.