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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ano novo, porque é disso que todo mundo está falando agora

Tem algo de sinistro nessa época do ano. As pessoas param de agir normalmente, não sei bem o que é. O que é a virada do ano afinal? Alguém decidiu que nós deveríamos comprar um calendário novo a cada 365 dias, só isso, porque nada além disso acontece . Depois de dezembro, alguém poderia muito bem criar um décimo terceiro mês, nada mudaria em nossas vidas. Tudo é tempo que passa, toda medição é inventada e transformada em tradição, já que dá muito trabalho pensar numa nova forma de contagem dos dias.

Dar significado ao tempo que passa aumenta a percepção dessa passagem, isso é inevitável. E gera uma certa pressão, não é? Ninguém parece querer permitir que se esqueça que o presente a cada segundo está virando passado e que um ano inteiro acabou de passar e nada de especial aconteceu. Fica pior quando o ano está prestes a acabar e nossos cérebros decidem nos forçar a acreditar que o ano seguinte deve ser melhor que o passado, principalmente quando este foi ruim. Sinto que estou me metendo em um assunto complicado, com toda essa história de tempo, felicidade, entretenimento, mortalidade, não me sinto capaz de sair escrevendo sobre tudo isso, mas decidi que é o que eu quero fazer agora.

Essas superstições de fim de ano, rituais, comemorações, seriam consideradas socialmente aceitáveis em qualquer outra época do ano? Pessoas pulando ondas, jogando merda no mar, soltando fogos e tomando porres homéricos, só pra acordar no dia seguinte e ver que é tudo igual. Porque é a isso que tudo se resume, dia 2 de janeiro, não, no próprio dia 1 mais pro meio da tarde, toda a festa acaba. Você lembra que tem que trabalhar no dia seguinte, a rotina volta e todo aquele sentimento de renovação e esperança morre, fica guardado pelos próximos 11 meses, aí dezembro de 2014 a coisa toda recomeça, e todos nós, como vítimas de Alzheimer, repetimos a mesma coisa, esperando sabe-se lá o quê.

Toda essa esperança demonstrada nas festas é real? Eu não saberia dizer, porque não sinto isso. Por isso quero ouvir de quem ainda sinta. É verdadeiro ou é só um fingimento, uma atuação para que você não fique deslocado do resto, como o único que não está se divertindo? Me parece tão forçado, quando eu observo. O divertimento geral parece mandatório, como se a madrugada entre os dois anos fosse um segundo mundo entre realidades, um intervalo.

Pode ser que isso seja uma coisa boa. Pessoas precisam se desligar do real de vez em quando, não? Se obrigar a ser feliz, mesmo que por algumas horas, desejando que esse estado permaneça, não pode ser uma coisa ruim. Pelo menos não é incompreensível. Pela primeira vez, não há ironia nas minhas palavras. Não irei tão longe a ponto de transformar isso em mensagem motivacional, mas não vou conseguir tirar sarro da maneira que eu estava planejando antes de começar.

Isso foi inútil. O que eu estou tentando dizer é que, a vida já é ruim o suficiente por si só. Se essa é uma época do ano em que as pessoas pensam em querer mudam, acreditam que podem ficar menos tristes, pra que ser tão cínico e reclamar disso? É bem possível que o ano que vem seja só um dia que passou, mas se dá pra fingir que não é, por que não se deixar ser enganado por umas horas?

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Uma Mulher É Uma Mulher [Une Femme Est Une Femme] - Jean-Luc Godard (1961)


Mais um filme do Godard pra coleção do blog, e mais um com a Anna Karina pra alimentar minhas taras, porque eu me recuso a largar minhas obsessões. Recentemente decidi que vou assistir todos os filmes (somente os longas) desse diretor - porque ele é um gênio, logo vocês verão por que -, tentando formar uma ordem cronológica. Seu primeiro longa foi Acossado, em 1960, que eu já vi, mas não resenhei - talvez o faça quando eu assisti-lo novamente -, o segundo foi esse, no ano seguinte, Une Femme Est Une Femme, conhecido no Brasil como Uma Mulher É Uma Mulher, que é uma tradução surpreendentemente exata. Só uma nota antes de eu começar, esse não é exatamente o segundo filme dele; o segundo foi Le Petit Soldat, de 60, primeira de suas várias colaborações com a esposa, Anna Karina, mas este foi censurado até 63, por causa do tom fortemente político. Sendo assim, resenhei esse primeiro.


Tudo começa com Angela (Anna Karina), dançarina (lê-se: stripper) em um bar de Paris - meio que uma forma cínica de Godard dizer: você pode viver cantando e dançando, mas vai ter que tirar a roupa e enfrentar os olhares de tantos homens. Ela é apaixonada por Émile (Jean-Claude Brialy). Émile é apaixonado por Angela, mas os dois brigam muito e não parecem conseguir se entender. Nesse contexto aparece Alfred (Jean-Paul Belmondo), que ama Angela e está disposto a ceder, dar a ela tudo que ela tanto exige, mas Émile não se importa o suficiente para suprir. Mas Angela não ama Alfred, apesar de admirar os esforços e gostar do cortejo, mas sempre que deixa Émile, sente falta e volta imediatamente para seu pequeno caos pessoal.

Nenhum outro par de olhos fala tanto.
Uma Mulher É Uma Mulher é a comédia musical de Jean-Luc Godard, e, como tudo que ele faz, transgride cada uma das regras do gênero. É um musical, mas a música é inconstante. Toca em determinadas cenas, satirizando as trilhas sonoras de manipulação emocional da década de 60, tocando músicas que nem sempre condizem com o tom da cena. Angela canta e dança, mas nunca ao som de uma banda; quando seus números musicais começam, toda a trilha é interrompida e os sons da cidade/bar/ambiente viram o acompanhamento. Só ela canta e dança, as participações que poderiam lembrar cenas de musical entre os homens são todas estáticas, literalmente, como uma pose.

O que? Um homem tem o direito de chafurdar nas suas obsessões de vez em quando.
Diz se tratar de comédia, mas é trágico, e diz ser trágico também, muito claramente. Tudo nesse filme é dito, não em subtexto, mas em exposição das mais claras. Isso serve de contraste para os relacionamentos modernos como os dos protagonistas, nos quais ninguém fala, ninguém se abre, é tudo conflito e mal-entendido, interrupções e falta de comunicação. Angela, Émile e Alfred recitam seus sentimentos, estilo que Godard iria adotar em vários de seus outros filmes, como Le Mepris e Pierrot Le Fou. É assim que ele amplia sua sátira, não se limitando à Hollywood que ele amava (a de D. W. Griffith, Howard Hawks, Billy Wilder e John Ford) e foi forçado a desprezar, mas a todas as relações humanas. Ele que vivera um casamento bastante conturbado com Anna Karina, principalmente nos últimos anos, incluindo traições e tentativas de suicídio.

Godard seu gênio sortudo e diabólico, eu sou seu fã.
Mas nessa anti-Hollywood bizarra que ele molda, tudo tem que dar certo, obrigatoriamente, mas o clima forçado e desconfortável não deixa a cena. Afinal, Godard quebra as regras, mas focaliza o clichê. Se Hollywood proíbe nudez, ele mostra uma dançarina nua sem nenhum motivo aparente, quase como uma provocação. Mas o final feliz não precisa ir embora por causa disso. Além disso, ele usa uma estrutura de roteiro improvisada, com alguns cortes mais longos em movimentos de câmera interessantes, contrabalançando com jumpcuts abruptos, interrompendo cenas; a música e as luzes, que deviam confortar, ele usa para incomodar o espectador, deixá-lo confuso; uma a uma, ele vai quebrando as regras e mostrando que a arte se mantém, talvez fique até mais poderosa e inovadora.


Uma Mulher É Uma Mulher é um filme muito mais complexo do que parece. De início, causa desconforto, pelo menos em mim, com toda a misoginia descarada que ele joga nas cenas, com Angela sendo uma versão moderna de Eva. Até que Adão começa a mostrar seus defeitos também e o problema se torna o ser humano e sua aparente inaptidão para relacionamentos. Quase um ensaio filosófico/sociológico/afetivo em forma de filme, isso misturado com a sátira nada sutil que quase parece não intencional, é um filme que te faz pensar bastante, ao mesmo tempo em que mantém o espectador entretido. Sim, esse é um filme divertido apesar dos conceitos complicados, principalmente porque o auteur parece estar amando seu trabalho, brincando com a música e destruindo as estruturas. Mesmo não sendo o melhor do Godard, é um ótimo filme da sua primeira fase, que é a que eu melhor conheço por enquanto.

Nota: 4/5


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Sobre a Poesia


Alguns sabem, outros não, mas só me importo com os que sabem, recentemente voltei a fazer poemas. Não aos montes, só quando a vontade me toma e, depois de escrito, eu releio e vejo se é sério, se não abandono o bicho no word e ele fica lá, escondido, longe das vistas humanas que não as minhas. Nos primeiros posts do meu "retorno" ao mundo dos versos, ainda cheguei a deixar justificativas sobre essa mudança de ideia, principalmente por ter deixado muito claro algumas vezes que ia parar com a poesia - juro que era essa a intenção na época.

Disse que não me sentia bem com os poemas, mas não sei se isso ficou bem entendido. É que é meio difícil, pra mim, a exposição. E minhas poesias são muito pessoais, então é sempre um esforço pessoal decidir se publico ou não; esse blog pode ser pessoal, mas só falo de gostos, tem muito pouco sobre mim aqui e o que tem é muito vago e, vez ou outra, falso - sim, sou paranoico com privacidade, pronto, agora vocês têm uma informação sobre mim. E poesia, por ser tão confessional, é meio que uma contradição com o que me fez começar a escrever pra começo de conversa, que foi a ideia do câmbio de consciência, ser outra pessoa por um instante, porque eu canso de mim muito facilmente - isso justifica minhas leituras e amor pelo cinema, poder experimentar com outras vidas.

Por isso escrevi poemas que só tive coragem de jogar no blog depois de 2 meses, mesmo tendo levado duas horas pra escrever, mistura de paranoia de privacidade com autodesprezo. Além disso, todo o processo de abertura emocional que os poemas envolvem são meio dolorosos para mim. Com isso eu quero dizer que a qualidade da poesia não é o único fator que faz com que eu queira parar. Sei lá, o fato de eu ter recebido comentários positivos sobre os poemas de retorno fez com que eu me sentisse melodramático, como se estivesse pedindo aceitação; achei melhor eu me explicar.

Antes de mais nada, concordo com o que dizia E. B. White, sobre o humor, que ele pode ser dissecado como um sapo, mas a coisa morre no processo e suas entranhas são desencorajadoras a todos, exceto àqueles de mente puramente científica. Digo o mesmo sobre a arte. Só agora, enquanto escrevo, percebo o quão contraditório é esse meu pensamento, visto que a maior parte do conteúdo desse blog é resenhas, essencialmente dissecações de filmes, livros, música, talvez não tão profundas e científicas, mas definitivamente capazes de expor e até remover alguns órgãos. Ainda assim, tenho a cara de pau de reafirmar que concordo com o sr. White, mesmo até que esse texto seja, nada mais nada menos, que dissecação, e da pior espécie - a de si mesmo.

Existe algo de inocente no escritor amador - me incluo nessa. A ideia de que o texto sendo sincero o suficiente já serve como comprovante de qualidade ou relevância artística. Não é bem assim que a banda toca, eu iria descobrir ao terminar meu primeiro romance e tentar revisá-lo. Eu mesmo percebia que faltava alguma coisa, mesmo que todo meu processo de escrita fosse o mais honesto possível. Mas não estou aqui pra falar da minha prosa, o alvo aqui é a poesia e os motivos que me fizeram desistir dela por um tempo.

Falemos de história por um breve momento, ok? A quem estou tentando enganar? Não sei das origens da poesia, muito menos das diferentes escolas e todos aqueles autores e datas e estilos, não sei nada disso e não vou fingir que sei. Mas eu sei que a poesia começou como música. Sílabas que organizadas de certa maneira davam ao texto um certo lirismo, ritmo, musicalidade, mesmo sem o auxílio de instrumentos. Eis a poesia em sua forma mais primitiva. Com os anos, a forma dos ritmos e números de sílabas por verso e disposição das tônicas e uso ou não das rimas foram se alterando e transgredindo, liberando e chegando ao verso livre, assim como o conteúdo, que passou pelas narrativas, foi aos épicos, chegando às confissões e ao banal cotidiano, até o surreal e o incoerente alucinatório. 

O que eu gosto de fazer, me sinto bem fazendo, poderia talvez ser classificado como verso livre, vez ou outra confessional. A maior parte das coisas escritas são verdadeiras, baseadas em acontecimentos e estados de espírito reais, sem prestar atenção em formas sólidas de verso. O problema disso? O que separa o verso descuidado da prosa mal fatiada? Até que ponto o verso livre é de fato livre?

Existem teorias, a mais popular é a de que o verso livre segue o ritmo da fala e os limites da respiração humana. Walt Whitman fez isso, William Carlos Williams também, estes passaram a tocha para os beats, principalmente Allen Ginsberg (é possível ouvir dois poemas dele na playlist do blog*, a musicalidade é visível, vocês verão). Mas todos eles têm uma coisa em comum, a capacidade de limitar seus versos se desejado. Isso é pouco conhecido, mas os primeiros poemas de Allen Ginsberg foram tradicionalíssimos, rimados, medidos, quase clássicos do romantismo inglês, se não fossem americanos e modernos. O que eu quero dizer é que, diferentemente de mim, ele sabia limitar versos. A transgressão aos versos livres era questão de escolha. Não é meu caso. Faço versos livres porque sou incapaz de fazê-los de qualquer outra maneira. Mas se eu desconheço as tônicas e ignoro o corte das sílabas, que musicalidade eu posso dizer que sigo, além da instintiva, em outras palavras, do acaso e da sorte?

Espero que você, lendo esse texto, não seja um aspirante a poeta a fim de sanar dúvidas. Minha criança, não tenho respostas. Talvez só uma, mas mesmo dessa não tenho certeza, de que a arte não responde nada, só explora e questiona ainda mais, disseca a sua maneira - vejamos se eu consigo manter um tema constante pelo texto - sem que se perca dentro de si ou caia em autoanálise, disseca a sociedade da qual a arte é parte marginalizada. Mas não responde porra nenhuma. 

Acho que perdi a inocência literária. Estou perdendo aos poucos. Isso é ruim, sinto falta daquela espontaneidade. Todas as minhas sentenças agora são calculadas, fabricadas, lidas e relidas e remontadas, e o pior de tudo, nem sei se sei o que estou fazendo. Admirável para alguns, mas me deixa angustiado. Até meus poemas, 7 ou 8 linhas, são feitos com todo o cuidado do mundo. Eu realmente não sei se isso é bom ou ruim. É complicado querer criar alguma coisa depois de tantos milênios de existência de uma arte. O que ainda falta fazer? Só resta falar do que é interno e pessoal, já que isso é tão variado quanto o indivíduo em si, mas até isso, se procurar bem, é possível de encontrar quem faça melhor. Melhor é termo subjetivo, mas vocês entendem.

Defendo que, independente de forma, certas coisas não podem ser ditas em prosa. Poesia, nessas horas, mais que música, é um bom disfarce. Além disso, poesia também é tudo que precisa ser dito para que se evitem catástrofes humanas. Vai além do bom e do ruim, nesse sentido, e salva vidas, nem sempre só a do seu autor, embora seja esse a maior parte dos casos.

Tudo isso foi só uma justificativa. Texto longo demais para só servir de desculpas para alguma coisa. O que me consola é que deve ter quem se sinta igual e queira ler alguém dizendo aquilo que ele sente, que não seja ele próprio. É por isso que eu continuo escrevendo. Isso e um medo profundo de seguir com a vida de escritório. Já disse uma vez e repito, escrevo para não morrer - ou pra não deixar a vida. É tudo um dia depois do outro, qualquer mentira que me salve da noite. Por isso, boas ou ruins - espero que boas, principalmente se for verdade que a prática leva à perfeição - as poesias e as prosas seguirão enquanto eu estiver respirando, e o fim de um pode ser consequência do fim do outro.

Tendo em vista essa conversa toda, fiz um poema baseado nisso e outras coisas, decidi encerrar o texto com ele:
-12

você assiste ao homem sem esperança se abrir com uma caneta em uma operação ritualística do espírito,]
se perguntando por que disso, quando a dor transfere às suas entranhas,
sem nunca abandonar o operado -
multiplicando, somente.
ninguém sabe o porquê disso.
nem ele.
é uma dor fútil, desnecessária, insuportável,
tão difícil de conter, mas que nunca deveria envolver outras pessoas.
e ele próprio sabe,
sabe que não devia se abrir dessa maneira,
sabe que coisas ruins acontecem quando ele se abre.
que sentimentos são gnomos irracionais da infelicidade,
que existe uma gaiola na alma, especial para esses bastardos.
que a chave está à mão, mas não deve ser tocada
jamais.
ele vai, alcança a chave e, não só libera os animais,
os expõe - em público.
a verdade sobre os demoniozinhos
é que eles não são de proveta,
nascem de outras pessoas.
nunca se deve mostrá-los as suas mães.
tudo bem para um público - são todos cegos de qualquer forma -, mas nunca os devolva à origem.
ele fez isso uma,
duas,
três vezes.
mais que isso?
os putos se perdem com esse tipo de exposição.
é tortura, eu digo.
tortura.
isso causa náusea insuportável quando essas mães rejeitam os filhos,
principalmente porque elas não pedem por eles, nem sabem como eles surgiram.
é crime de várias vítimas, mas sem culpado.
e o condenado aqui vive para escrevê-los.
acha que os gnomos emocionais se acalmam assim,
um tolo perdido de fato.
alguém deveria ensiná-lo tudo isso,
a manter suas gaiolas trancadas.
agora deve ter aprendido.
para seu próximo número, irá escrever:
“o melhor é sentir desejo por aquelas pelas quais se sente desprezo,
o afeto, em troca de esforço, só traz a dor.”
----------------------------------------------------------------------------
*Acabei de reparar que a playlist sumiu quando eu mudei a porra do layout. Se eu soubesse que isso ia acontecer, não teria mudado nada, agora foda-se. O pior é que eu me orgulhava daquela playlist... Outro dia faço uma nova, por enquanto, acreditem em mim quando eu digo que a poesia do Ginsberg é genial quando recitada.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Resenha Especial de Natal

É natal, ou quase, ainda é dia 23 - mas isso é pra que você tenha tempo de achar o filme que eu estou pra sugerir. Época que todo mundo dá uma amplificada naquela boa e velha hipocrisia, e todos fingem se amar um pouquinho mais. A TV fica ainda mais chata do que já é, e todo lugar parece querer enfiar garganta abaixo alguma espécie de lição de moral mesclada com um consumismo disfarçado. Essa festa também "inspirou" muita gente no cinema, lançando milhões de filmes temáticos todos os anos, indo dos grandes clássicos até os filmes "família" chatos pra caralho. 


A resenha de hoje é especial para essa época do ano, pra vocês que querem juntar a família e distrair todo mundo com um filme em uma reunião especial. É com essa intenção que eu lhes apresento: Natal Sangrento (Silent Night, Deadly Night), de 1984, dirigido por Charles E. Sellier Jr.(conhecido por porra nenhuma).



Billy era apenas uma criança quando seus pais foram assassinados. Isso aconteceu na noite de natal, logo depois de eles terem ido visitar seu avô, no asilo. Seu avô não falava nada, seus pais disseram que ele não ouvia nem percebia ninguém perto dele, mas quando eles o deixaram sozinho com o velho, ele começou a falar sobre como o Papai Noel punia as crianças malvadas na noite de natal. Logo depois disso, um assaltante aparece no meio da estrada, vestido de Papai Noel, para o carro de sua família, mata seu pai, tenta estuprar sua mãe, que resiste, mas acaba tendo a garganta cortada. O homem ainda procura por Billy, mas ele se esconde e sobrevive, junto com seu irmão mais novo, e os dois vão para um orfanato católico.

Papai Noel estuprador: chupa essa, infância!
No orfanato, Billy aprende que sexo é errado e tudo que é errado deve ser punido severamente (eu amo essas tradições católicas). Então, por se recusar a aceitar as tradições de natal, como sentar no colo do Papai Noel, ele é punido diversas vezes. Uma vez com um cinto, depois ele é amarrado na cama. A igreja católica pode querer punir o sexo, mas sabe ensinar umas putarias bacanas pra criançada. Mas voltando ao filme. Mesmo assim, Billy cresce, completa dezoito anos e é levado pela freira para arranjar um emprego. Onde? Numa loja de brinquedos, claro, onde mais você acha que o enredo desse filme poderia se completar? E Billy é muito útil para a loja, já que, aparentemente, durante todos esses anos que se passaram no orfanato, ele se viciou em musculação. A igreja devia ter uma academia no subsolo, isso explica.

Depois dessa sessão de cintadas, a freira prosseguiu e prendeu os mamilos do garoto com pregadores, então pegou uma palmatória e jogou pingue-pongue com seus testículos. Ei, tem gente por aí que pagaria uma boa grana pra umas prostitutas fazerem isso. Ele recebeu de graça.












Pra que o ciclo se complete, Billy é forçado a vestir uma fantasia de Papai Noel, para a loja de brinquedos, e a garota que ele gosta é quase estuprada. O que segue essas duas cenas é o padrão filme slasher da década de 80. Billy sai por aí punindo as pessoas, vestido de Papai Noel. Isso gera cenas como um enforcamento com luzes de natal e um empalamento com os chifres de um alce empalhado, pura diversão natalina.
De jeito nenhum isso poderia dar errado...não é?
Ops, parece que a irmã aqui leu o script e discorda.








Natal Sangrento gerou bastante controvérsia em seu ano de lançamento. Não tanto pelo seu conteúdo, já que filmes slasher eram coisa batida em 84 (mesmo ano de lançamento de Hora do Pesadelo), mas por causa da temática. Aparentemente, as mães de 1984 não queriam que seus filhos vissem Papai Noel assassinando pessoas por aí. Afinal, está mais que claro pelo título do filme (Silent Night, Deadly Night), e pelo cartaz (Papai Noel segurando um machado), que se tratava de um filme infantil, não é? E outra, é absurdo que alguém possa denegrir a imagem de um feriado tão amado, fazendo dele um filme slasher...mas quando Halloween fez o mesmo, aí não teve problema.


De qualquer forma, tentaram banir o filme, e o boicote foi forte o bastante para tirar o filme de cartaz e causar forte prejuízo econômico aos produtores, e pessoal para os atores e atrizes envolvidos. O que é uma pena, porque, apesar do enredo meio bobo, Natal Sangrento não é um filme ruim. Verdade que alguns detalhes poderiam ser melhor trabalhados, afinal o filme inteiro poderia ser evitado se algum dos personagens fossem sensíveis o suficiente para se lembrar que os pais de Billy foram assassinados por um cara fantasiado de Papai Noel, mas, mesmo assim, o desenvolvimento do personagem Billy fugiu completamente dos padrões slasher da época. Existe uma moralidade por trás das ações de Billy, reforçadas pelos seus anos no rígido orfanato católico. Ele foi ensinado que coisas ruins deviam ser punidas, por isso punia as coisas ruins da mesma forma que ele foi punido quando criança, com a morte. Tá bom, o Papai Noel assassino matou os pais de Billy e não ele próprio, mas vocês entenderam a analogia.


É estranho, porque, quando eu pensei em fazer uma resenha de natal, pensei em fazê-la como uma piada (sim, essa resenha queria ser engraçada, caso você não tenha reparado; ninguém entende o meu senso de humor...). Quando eu ouvi dizer que existia um filme slasher natalino, na hora minha conclusão foi de que seria um desastre, mas não foi bem assim. Está longe de ser uma obra prima, mas quando se fala de um filme desse tipo, não dá pra comparar com La Dolce Vita. Natal Sangrento deve ser comparado com Halloween ou Sexta-feira Treze, esse gênero cinematográfico. E, em se tratando dessa classificação, Natal Sangrento é muito bom. Carrega todos os clichês do gênero, como as cenas de sexo só pra gerar espectadores, o exagero nas cenas de morte - que são sempre hilárias -, a estupidez de alguns personagens - se bem que esse clichê quase não se faz presente, o que é bom - e uma ou duas inconsistências do enredo, como por exemplo, onde foi que Billy achou um arco e flecha numa loja de brinquedos. Só que, repito, isso é padrão do gênero, um filme sem esses problemas, não é slasher. É necessário o clichê e a baixa qualidade pra que a obra funcione. Às vezes existe um exagero e acaba dando errado, mas não é o caso de Natal Sangrento.

Não, Papai Noel, eu não vi seu machado ensanguentado, nem ouvi os gritos da minha irmã sendo empalada pelos chifres do alce empalhado, só vim aqui pedir meu presente. Ah, um estilete manchado de sangue...obrigada, Papai Noel.
O único problema que eu pude perceber foi o final. O começo e o meio conseguem carregar uma quantia equilibrada de tensão, violência e humor, mas na última meia hora de filme (que mal chega à uma hora e meia de duração), fica claro que eles precisam completar um certo tempo pra poder chamar o filme de longa-metragem, então a coisa fica arrastada, chata, esticada. Alguns flashbacks também poderiam ter sido retirados, mas, novamente, o filme acabaria muito curto. No mais, Natal Sangrento é uma experiência familiar natalina perfeita. Sente todo mundo no sofá, depois que seu tio beber demais e ameaçar sua tia de "estapeá-la como na semana passada"; ou seu pai acabar admitindo entre uma ou vinte taças de vinho que ele meio que queria um divórcio, mas acabou mudando de ideia quando analisou os custos; ou quando o seu irmão, que você não vê há cinco anos - quando ele foi preso por tráfico de drogas -, decidir que é uma boa ideia trazer alguns dos amigos que ele conheceu na cadeia para comemorar o natal com a família, lembrando que ele pode ou não ter vendido sua irmã em troca de uns cigarros; ou quando sua vó decidir que natal em família é uma boa hora para começar a desferir seus racismos em forma de palestra neo-nazista. Diversão garantida.

Nota: 3,5/5

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

mais outro poema aqui

34

A questão do ser humano,
quando tudo é considerado,
é que somos todos Xerazade.
Inventamos nossas histórias,
quaisquer que façam da noite suportável,
e assim sobrevivemos mais um dia.
Nos salvamos, seja de um rei -
"Antigamente, viviam na Pérsia dois irmãos..."
ou de nós mesmos -
"Amanhã, talvez, será um dia melhor..."
Uma invenção por vez
antes de irmos pra cama.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Decadência; ou Uma análise do rei do camarote, mesmo que tardia

Príncipe do camarote.
Depois de assistir mais vezes do que é mentalmente saudável – duas ou três - o vídeo da Veja sobre o rei do camarote, só me resta dizer que Alexander de Almeida é a caricatura vilanesca de um playboy mais repugnante a amaldiçoar essa Terra já tão assolada pela cretinice; ele não só representa tudo o que me é desprezível, mas também carrega em sua carcaça indecente todas as características de uma pessoa que eu procuro me manter longe e acho que merece ser pisoteada por nossa sociedade. E quanto mais eu leio textos sobre esse homem e seu vídeo, mais fica claro que a pior parte desse neo-aristocrata desumano é que ele é um espelho. Se Alexander de Almeida não fosse tão parecido com o resto de nós, fisicamente eu digo – reza a lenda que o diabo pode assumir forma humana a vontade -, tão homersimpsoniano, tão Zé da Silva, que sua riqueza é inacreditável para muitos; fora de contexto, ele pareceria bem mais um ator amador em um falso documentário satirizando os socialites das metrópoles e suas crises de meia-idade eternas em busca da fonte da infantilidade. O doloroso nisso tudo, é que os grandes críticos do rei do camarote – os comentaristas de internet, principalmente os mais radicais – têm como fonte de fúria o fato que, se não fosse por suas condições de proletários, fariam o mesmo que ele, seriam Alexander.
Psicopata brasileiro? Fico pensando se alguém
nessa imagem falou mal dele no youtube...
Provavelmente.
Nobody knows you 
when you're down and out...

Há uma razão para esse meu raciocínio, mas precisarei usar exemplos. Ninguém melhor para começar do que com o Eike Batista, ou melhor, sua cria, Thor Batista. Lembram desse cara? Não, né? Mas ele matou um ciclista. O tempo foi passando e aparentemente ele teve que pagar uma multa de um milhão de reais e passar dois anos fazendo uns serviços públicos. De acordo com o advogado do deus do trovão, ele só foi acusado por que é rico. Afinal de contas, que pobre é punido pelos crimes que comete? Pobre nenhum passa anos na cadeia por roubar comida pra família. Tudo que o garotinho fez foi atropelar um pedreiro. Quem se importa? Papai Batista deu uns oito mil reais pra família pagar o enterro, que mais eles querem? Justiça? Isso é coisa de rico, e vocês me perdoem a contradição, acho que me perdi na ironia. O juiz que fez com que o filho do bilionário cumprisse a pena por seu crime é corrupto, esse é o veredicto não pronunciado do advogado.

Agora vocês querem saber qual juiz não é corrupto? O bom homem que permitiu que o filho de, na época do incidente, quatorze anos do diretor da RBS, Sérgio Sirotsky, permanecesse livre e imaculado após embriagar e estuprar, com o auxílio de um amigo, uma garota de treze anos qualquer aí, filha de anônimo, tal qual o pedreiro morto pelo deus nórdico-brasileiro da bufunfa. Esse moleque aí não levou nem susto. Até porque, tenho que admitir que ele foi honesto, confessou o crime na internet. Pararei aqui, o último blogueiro a falar desse caso “se” enforcou com um lençol. Quem tem cu tem medo, só digo isso.

Psicopata Americano.
Lembrando que essa cena termina em machadada.
Esse último caso, os leitores terão que me perdoar, mas me é sensível, difícil de falar sobre sem que eu engasgue. Sorte que sou homem das letras e não orador, do contrário, estaria em soluços. É que esse caso foi esquecido e me dói desenterrá-lo. Roberto Justus, esse porco-mesquinho-indecente-animal-imundo-monstro-depravado, gravou um disco de interpretações de standards do jazz, como I Got You Under My Skin, clássicos imortalizados por Nat King Cole, Frank Sinatra, Louis Armstrong. Sim, ele agarrou os eternizados pela garganta e lhes sugou a vida como uma puta sedenta e barata com transtorno obsessivo compulsivo e uma agenda pra cumprir. Deixe-me pausar para secar as lágrimas. Jesus Cristo, isso aconteceu, meu povo! Como vocês puderam esquecer? E ele fez shows, turnês, sem nunca ser preso em flagrante. Pelo amor de José-Corno, é só falar em impunidade...

Já é hora de eu responder qual a relação entre essa série de crimes, assassinatos, atos puramente vis contra a humanidade, porém bilionários, e, o mais criminoso de todos, o rei do camarote. Todos eles te esfregam o dinheiro na cara. Esquece o que aquele débil-mental, cretino de babar na gravata (salve Nelson!), desculpa esfarrapada de advogado com diploma comprado falou sobre “Thor só ter sido punido por ser rico”. Você, meu caro pobre – porque, se você me visita, chances são que tu é pobre -, se você pensa em cometer qualquer uma das atrocidades listadas acima, seja fazer um vídeo com a revista Veja ou estuprar uma criança ou cantar Sinatra no karaokê do boteco da esquina, você vai preso, e muito merecidamente, pro resto da sua vida.

Mas as pessoas esqueceram o assassinato, nem ficaram sabendo do estupro e, incrivelmente, esqueceram do CD do Justus – essa porra ficou em lista de mais vendidos, pelo amor da minha vó! -, mas não conseguem deixar em paz o riquinho metido a besta agarrado na figura grotescamente fálica da champanhe que pisca.

Talvez faça sentido. Talvez os “Justus”, “Batistas” e “Sirotskys” estejam em um grau tão surreal de disparidade financeira, que até a revolta é impossível. Vai ver o Alexander é um desses caras, só que alcançável. Ouvi dizer que ele fechou a conta do Instagram, então, seja lá o que for que “os invejosos” falaram, surtiu efeito. Juro que odeio esse puto tanto quanto todos vocês, mas, quando você fica sabendo de todas as outras ostentações pelas quais nós fomos e somos forçados a passar, não parece um pouco injusto?

Pois não se enganem. Justus ostentou gravando esse CD, assim como ostenta mantendo empregadas a sua disposição vinte e quatro horas por dia em casa, e ostenta mantendo um programa na televisão a fim exclusivo de poder demitir alguém. Eike e seu filhote ostentaram matando uma pessoa e dando um troquinho pra calar a boca da família que sofreu com a perda. Sirotsky e seu filhote, que vai crescer livre, ostentaram ao se salvarem de um estupro, totalmente silenciado por sinal, e de um assassinato também, de um homem de imprensa que se recusou a ficar quieto.

Isso tudo é ostentação, e muito pior que uma Ferrari e um infinito de dinheiro rasgado no camarote de uma balada. Injusto que ele possa fazer isso em um país faminto. Sim, mas vale lembrar que a maioria dos revoltados contra o rei do camarote são capitalistas e contribuem para a existência de gente assim. Não que eu seja socialista, isso é só uma observação. Uma sociedade que permite competição e acúmulo individual de riquezas gera, por consequência, reis do camarote. Estou tentando deixar claro, no entanto, que isso não é nada. Isso mesmo, falta de consciência social não é nada em comparação a assassinatos. Pra começar, ser rico não é crime. Estupro de menores, por outro lado, é.

Quer dizer então que eu acho errado insultar o rei do camarote? De forma alguma, podem insultar livremente. Eu fiz isso, não só no começo do texto, mas na vida pessoal também. Ele é um filho da puta, afinal de contas. Só peço, imploro, que não se permita que esses outros reis de camarote, muito mais soberanos, saiam pisoteando o povo. O capitalismo, embora permita acúmulos absurdos de capital, não permite a divinização do rico. Thor só é deus no nome, e um deus falido ainda por cima.


Acho que todos gostariam de uma sociedade mais justa. Eu, pelo menos, sonho em uma utopia à Summer of Love, Age of Aquarius, Acid Tests, Alice’s Restaurant Anti-Massacree Movement. Nasci algumas décadas tarde demais pra isso e hoje a sociedade está quebrada, por isso não me importo com sistemas econômicos e políticos. Admito, cheguei no ponto que estou apenas esperando o fim da nossa civilização e sem nenhuma curiosidade para ver o que vem depois. Só que isso não significa que eu vou saudar o rei do camarote como se fosse seu súdito. Quem precisa de sociedade quando se tem o indivíduo, né? Eu sou minha sociedade e sugiro que vocês, que estão lendo e entendendo esse texto, façam o mesmo. Não, não se unam à minha sociedade. Façam a de vocês. A não ser que vocês realmente queiram se unir à minha sociedade, aceito inscrições, vai que cola a minha revolução. A única condição é que se cuspa no rei do camarote, não só o Alexander, mas no rei como símbolo. Viu o Thor Batista passar na rua – como se esse puto andasse na calçada -, cospe nele. É assassino, não é? Tá solto por quê? Cuspam no pai dele também que cooperou pra impunidade. E no advogado. Façam o que for, mas parem de chorar no facebook. Milhares de curtir num vídeo falando mal do rei do camarote não é sinal de mudança dos tempos. Não se a fúria morre online. Existe um mundo além da internet, meu povo, e ele precisa ser mudado também. Isso, ou cale a boca e admita que você queria estar lá no camarote, não com ele, mas aproveitando melhor a vida dele, só que isso é feio de se admitir, então você vai ficar importunando o mundo com fotos de crianças famintas da África que você finge acreditar que serão alimentadas graças aos seus compartilhamentos.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

e os poemas continuam

12

ó geração que tem tudo e sabe nada.
são vocês,
com seus aparelhos e simulações e digitalizações e digitações e vidas virtuais de um mundo em dados que imita a vista da janela,]
são vocês,
com suas compras e roupas e marcas e modas, invenções por segundo e inovações e atropelamentos e constantes inutilizações que criam o obsoleto num piscar de olhos,]
são vocês,
com suas fumaças e plásticos, desejos de paz falsos e multinacionais hipócritas, propagandas em carne e online e quebras de privacidade voluntárias,]
são vocês,
meus caros,
e todas as suas montagens, todas as suas vidas de felicidade fabricada,
repito
- vocês -
que me fazem perder o desejo pela vida eterna.
alivia-me saber que,
quando tudo for público, plástico, nuvem, número,
quando tudo for falso,
e será logo, já que tudo tem de ser rápido pra vocês,
estarei debaixo da terra junto a tudo que foi vivo um dia e assim desejou se manter.
meu único medo é que a vida de vocês venha mais rápido que minha morte
e digitalizem o meu cadáver também.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Por que Não Dançam [Why Don't You Dance?] - Raymond Carver (1981)


Essa resenha vai ser um pouco diferente. Estou lendo essa coletânea de contos do Raymond Carver, Iniciantes, mas estou levando muito tempo para terminá-la. Acontece que um conto muito bom é capaz de entregar o mesmo peso emocional de um romance para o leitor, o que torna difícil, pelo menos pra mim, uma leitura em sequência contínua de vários contos do mesmo autor. Estou indo ao poucos, uns três por semana, revezando leituras, comecei também a ler os contos completos da Flannery O'Connor e estou em dúvida se começo um romance ou não, talvez espere minha edição de Medo e Delírio Em Las Vegas chegar. Por causa dessa lentidão e da profundidade das histórias curtas, decidi resenhar um conto por vez de Iniciantes, ao invés do livro como um todo. Começando pelo melhor até agora, "Por Que Não Dançam?"



Um jovem casal passeia pela rua, então vê, em frente a uma casa, o que parece ser uma venda de quintal, um monte de objetos, mobília, quase uma casa inteira, espalhados e postos a venda. Os dois, começando a vida de casados, decidem dar uma olhada. Precisam de uma cama, uma poltrona, mas ninguém parece estar tomando conta das coisas. Eles experimentam a cama e um homem de meia-idade, dono de tudo aquilo, aparece e diz para que eles fiquem a vontade. Ele lhes serve de umas bebidas, conversam, e os jovens dançam no quintal, enquanto a vizinhança assiste.

Uma história muito simples contada em um estilo ainda mais simples, bem no estilo iceberg à Hemingway. Não se sabe muito do homem de meia-idade, mas a forma curta do seu diálogo dá a entender uma certa tristeza e um olhar de nostalgia perante os jovens, que por sua vez são despreocupados e aproveitam os preços baixos dos objetos, sem pensar duas vezes, e bebem com esse homem.

Uma interpretação seria que o dono dos objetos acaba de ter sua vida arruinada. Considerando os outros contos do autor, provavelmente divórcio motivado por alcoolismo somado a toda a sequência de fracassos que se chama vida adulta. As ruínas são os objetos que ele vende indiferentemente, sem pensar no que fazer depois.

Os jovens são um reflexo invertido. Estão começando, sem tantos meios financeiros, mas cheios de esperança. E, vale apontar, o rapaz bebe pouco ainda, cai com poucas doses de uísque, claramente por falta do hábito. Hábito que pode ter arruinado a vida do homem que lhes vende os objetos. É o novo se construindo sobre as ruínas, basicamente. A nova esperança surgindo após o fracasso e o fim dos sonhos. Tudo isso em pouquíssimas páginas.

No fim, ainda - e me perdoem, mas acho spoiler frescura -, a forma que a jovem conta para seus amigos sobre o encontro com o homem fracassado, tem um tom de "isso nunca vai acontecer conosco". Esse "conosco", não apenas ela e seu marido recente, mas o casal de amigos também, que vivem a mesma situação. Eles escutam os discos que o homem os cedeu, sentados sobre o sofá que ele os vendeu pelo preço mais baixo possível, e conversam sobre como os dois dançaram no quintal, em frente a toda a vizinhança.

É o conto inicial da coletânea e já estabelece a força de todos os contos que seguem. Tanto que, em comparação, alguns outros acabam decepcionando. Até hoje, essa é uma das histórias mais famosas do Raymond Carver e até foi meio adaptada para o cinema no filme, Pronto Para Recomeçar (Everything Must Go), que eu não vi, nem me interessei em ver e não acho que seja um bom  ponto de referência para a história. Não seja preguiçoso e adquira Iniciantes, mesmo que seja só para essa história, embora eu adiante, não será.

"Por que não dançam?" foi primeiramente publicado na coletânea "Do que falamos quando falamos de amor", primeiro livro de Carver e severamente editado. Iniciantes é a republicação na integra dos contos antes fatiados. No link a seguir, uma amostra de Por que não dançam?, oferecida pela Veja:
http://veja.abril.com.br/livros_mais_vendidos/trechos/iniciantes.html

Nota: 5/5

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

outro poema sem título



5.

A noite canta seus bravos hinos de fúria,
intermitentes, distantes, em domínio onipresente,
geram o medo branco sobre as cabeças de seus arrogantes hóspedes
que, em negação de seu estado, 
reclamam das lágrimas que os banham com força natural de gigante oprimido.
Poesia, 
grita o escuro céu iluminado com sua lua enevoada por nuvens como olho por catarata
esperando pelos que entendam seus dizeres.
Surge a pergunta,
seria tal bravura, então, o divino?
-

***

Sabe uma dessas coisas que você passa horas procurando. Cansa, para e, só então, vê que tá aí na tua cara. Essa é minha relação com meus poemas. Vivo prometendo que vou parar de fazer, aí surge um ou outro que não me causa tanta repulsa depois de relido. Tendo dito tudo isso, prometi que ia parar de escrever poemas no meu último post, dizendo que não me fazia bem, mas era mentira. Vou continuar, mas só postarei quando tiver certeza de que é sério.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O Sol Também Se Levanta [The Sun Also Rises] - Ernest Hemingway (1926)



Hoje eu descobri que tem um monte de resenha que eu podia jurar que tinha feito, mas não fiz. Coisa de memória, será? Estou tão velho? Por algum motivo, tinha toda a certeza que, em algum lugar nesse blog, havia um post sobre esse livro. É um dos meus favoritos, se não o próprio, afinal. Vi que não, quando, hoje por volta do meio dia (meu horário de almoço) vi a nova capa que a Bertrand escolheu para o relançamento de O Sol Também se Levanta, que é o primeiro romance publicado por Ernest Hemingway, em 1926. A capa está no fim do post, assim como meu parecer sobre ela. Sabia que a Bertrand estava relançado toda a obra traduzida do Hemingway, mas, tendo visto a capa de O Velho e o Mar, achei que eles iam fazer um bom trabalho - não foi o caso. Esse toureiro aí mais parece o Liberace* versão "El Matador". Sorte que eu já tenho minhas cópias em edição antiga e que só pretendo comprar os livros que ainda não tenho (assim como uns que já tenho) em edição importada, no idioma original. Mas eu deveria estar falando do livro por agora, não?

Era uma vez Jake Barnes. Ele é um jornalista americano, expatriado em Paris após a primeira guerra. (Por que Paris? Naqueles tempos, devido à taxa de câmbio, era uma cidade barata para se viver e era onde todas as pessoas interessantes estavam - James Joyce, T. S. Eliot, Picasso, Salvador Dali, Scott Fitzgerald etc. Hoje a situação é outra, a cidade é cara e pessoas tão interessantes já não existem, não nessas proporções.) Ele passa seus dias com os amigos, alguns deles artistas, todos boêmios, bebendo Pernod nos cafés e deixando a vida passar. Jake ama a duas vezes divorciada - informação relevante na década de 20 - Brett Ashley, mas, depois da guerra, ele já não podia demonstrar esse amor. Brett, portanto, é noiva de Mike Campbell, um homem de negócios totalmente quebrado, que sabe que sua noiva o trai com todo mundo, mas não se importa. Exceto quando Robert Cohn, um judeu, romancista medíocre, mas ótimo boxeador, Mike o despreza - não só Mike - sempre que pode, nem sempre com motivo. Em meio a essa tensão sexual, todos eles decidem viajar para Pamplona para assistir a corrida dos touros e para se embriagarem, logicamente. Lá conhecem o jovem toureiro Pedro Romero, o melhor em seu meio e, conforme descrito por Jake, um verdadeiro artista. Romero também se encanta por Brett e a leva consigo. É esse o clima do romance, uma sequência de conflitos reprimidos e, conforme os capítulos avançam, se aproximando de uma explosão.

O Sol Também se levanta é um ícone da literatura modernista. Mínimo em todos os aspectos, o livro definiu o que viria se tornar o estilo do Hemingway, que o próprio descrevia como Iceberg. A teoria diz que, se um escritor conhece o suficiente de sua própria história, ele não terá o menor problema em esconder a maior parte de seu conteúdo do leitor, e este, por sua vez, se a escrita for de fato sincera, será capaz de sentir todo o conteúdo omitido.

Visto somente pela sua sinopse - ponta do iceberg -, O Sol Também Se Levanta é um livro superficial, sobre gente superficial, gastando suas vidas superficiais em autodestruição. Não é tão simples. Cada personagem representa um fator, e essa discussão já é antiga entre os críticos, na verdade. Jake pode ser o representante da maior "vítima" de seu tempo. Vindo da guerra, sem país e sem esperança, ele é privado até mesmo do amor por culpa de um ferimento, e isso ainda jovem. Todas as coisas que seu governo lhe dissera que viria se eles ganhassem a guerra, bom, não vieram para ele. Ele apenas perdeu e chegou a um ponto em sua vida em que a vitória simplesmente não estava no horizonte. Portanto ele desiste da única forma que realmente vale a pena, vivendo pelo hedonismo. Aproveitando o ambiente e as pessoas ao seu redor sem nunca se envolver com nada, nem consigo mesmo.

Cohn, o desprezado, é o único que não é veterano de guerra, por consequência, o único que ainda mantém algum sinal de idealismo inocente. Ele não é tão esperto, não tem confiança, não tem talento, nem é amado, mas é forte e vive dessa força, apesar de tudo.

Brett representa os valores da época. Representa o caminho para o qual estes pareciam estar se encaminhando e as consequências disso. E ela não é a única que representa isso, Jake, Mike e alguns de seus outros amigos também têm isso dentro deles. Mas Brett é mulher e, novamente, na década de 20, isso era grande coisa. A mulher não é mais a esposa/mãe/enfermeira, e assume uma forma mais "pré-hawksiana" (vindo do tipo de mulher que o diretor Howard Hawks passou a usar em seus filmes, algumas décadas depois desse livro) como mais um dos caras, tão bêbada e promíscua - apesar de eu detestar essa palavra, é a que melhor se encaixa - quanto os homens com quem ela convive.

O minimalismo da prosa é consequência desse estilo de vida, de certa maneira. A recusa pelos enfeites e pelos padrões estéticos do passado, a "desconfiança" perante os adjetivos, a brevidade e a velocidade. Tudo comparável à vida da chamada geração perdida, que só por esse nome já diz tudo. Os personagens desse livro, que é um roman à clef (história real, com nomes trocados e só uma pitada saudável de ficção), são trágicos, consequências de tempos difíceis e sem esperança, gente sem adornos e romantismos e, muito menos, idealismos.

*Liberace - o rei do camarote original -,
 porque eu sei que vocês não têm idade
 pra entender a referência do começo do texto.
Eu também não tenho, mas minha cultura inútil
 extrapola os limites do aceitável.
Me diz se não parece a foto da capa?

Toureiro: o membro perdido do Village People.
Eu juro, vão abrir o túmulo do Hemingway
e achar um novo tiro em seu crânio.


Não importa o quanto eu escreva, contudo, esse texto ainda não passa da superfície. O Sol Também Se Levanta é eterno justamente por isso. Pode ser lido várias vezes e estudado, e eu li somente uma vez e não foi ontem. Sei que perdi muita coisa e que em futuras leituras já prometidas eu voltarei a perder tantas coisas novas que eu só vou achar na terceira leitura, mas que nela vou perder ainda outras para uma quarta leitura. É um dos meus livros favoritos, nunca prometi imparcialidade nesse blog, e por isso eu indico a todos que tenham ficado curiosos com a resenha.

Nota: 5/5


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Birdemic: Shock and Terror [..Passarêmico"???": Choque e Terror] - James Nguyen (2010)

A qualidade escorre pelo pôster.

Meu povo, nossa busca está terminada. O pior filme já feito foi encontrado. Não! Não é The Room (Cristo, esse é uma obra prima digna de Oscar, se for comparar). Não! Não é Sharknado, seus tolos! Apenas uma palavra (mais exatamente duas mescladas em uma) intraduzível: Birdemic (o qual eu apelidei carinhosamente de Passarêmico - Pássaro + Epidêmico, porque ninguém se deu ao trabalho de criar um título em português, nem mesmo o estagiário filho da puta que traduziu "Airplane" como "Apertem os cintos o piloto sumiu"), senhoras e senhores! Nada mais. Apenas Passarêmico é capaz de ultrapassar o nirvana de má atuação de nomes como Tara Reid e Tommy Wiseau.

Para de chorar, porra! Você teve sua chance, agora é a vez do James Nguyen ser o pior.
Apenas Passarêmico contém diálogos mais sem noção que os de Tommy Wiseau. Apenas uma direção é mais incompetente que a de Tommy Wiseau e até, por que não dizer, de Uwe Boll. Inaptidão e falta de talento, seu nome é James Nguyen. Sim, este homem nascido em Da Nang, uma das maiores cidades do Vietnã, em 1966. Este homem tinha um sonho, senhoras e senhores. Este homem queria fazer um filme. Mas não só um filme. Não, não, de forma alguma. Este homem queria fazer uma obra tão forte que seu nome seria lembrado por gerações, que suas falas seriam repetidas por pessoas de todas as idades, que só a menção do título seria capaz de trazer um sorriso nostálgico no rosto de todo e qualquer ser humano com um coração, uma história grandiosa o suficiente para eternizar o nome de seu criador entre os dos grandes auteurs da história do cinema. Howard Hawks, Billy Wilder, Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman, Luis Buñuel, Akira Kurosawa, Ed Wood, John Waters, ...James Nguyen - lembrem-se desse nome!

Ele começou em 2003 com Julie e Jack. Um filme que ninguém nunca ouviu falar. Depois fez Replica, que tampouco ficou conhecido, mas, dizem as más línguas, é vergonhosamente ruim. Precisou vir Passarêmico, em 2010, para que esse grande gênio tivesse sua voz ouvida e sua obra vista.

A venda pode ter sido de 1 milhão de dólares, mas o cubículo continua o mesmo. Culpa do desconto de 50%.
Apenas em Passarêmico você conhecerá Rod (Alan Bagh; eu sei o que você está pensando: Alan quem? - eu também não sei). Rod trabalha em uma firma de software e, algumas semanas antes do ataque dos pássaros, ele realiza uma venda de 1 milhão de dólares, depois de dar um desconto de 50% ao cliente. E eu não farei nenhum comentário sobre isso, apenas lançarei a informação e deixarei que você, caro leitor, a processe. E esse não é o fim da maré de sorte profissional de Rod, não senhor. Na mesma semana, a empresa de software para a qual ele trabalha é comprada por uma empresa de tecnologia por 1 bilhão de dólares (provavelmente a oferta foi de 2 bilhões, mas eles ganharam 50% de desconto também). E não é só isso. Ainda na mesma semana, Rod prepara uma apresentação de slides incrivelmente vaga sobre energia solar e, mesmo assim, recebe 10 milhões de dólares de uma empresa para poder financiar seu projeto ecológico. Aí você comenta: nossa, esses são números infantilmente redondos. Eu respondo: pois é, né? Só que não acabou, ainda nessa mesma longuíssima e cheia semana, enquanto Rod toma café da manhã (tendo recebido um café, um suco de laranja e uma água antes mesmo da garçonete aparecer para anotar o pedido), ele reencontra uma antiga colega de escola, Nathalie (Whitney Moore, também não sei quem ela é, mas gostaria de saber).

Qual o problema desse filme mesmo? Ah, é! Todas as outras cenas.
Nathalie é modelo. Mesmo tirando suas fotos em uma lojinha de foto 3x4 e trabalhando para uma agência que claramente é apenas fachada para algum negócio obscuro de turismo sexual (é o que se pensa de uma empresa que tem uma folha de papel sulfite na recepção servindo de placa com o nome da agência), ela consegue um emprego como capa da Victoria's Secret. Isso a tornaria instantaneamente uma das mulheres mais famosas dos EUA, mas não, não é isso que acontece. Ela simplesmente segue sua vida normal, encontra Rod que a convida para ir a um restaurante vietnamita (sem nome, nem endereço, é só um restaurante vietnamita mesmo) e os dois ficam juntos, porque maus atores se atraem aparentemente.

Olhem lá no seu! É um pássaro? É um avião? Não, é uma imagem gif! Que na verdade representa um pássaro, então...tá bom, é um pássaro, mais ou menos.
Então o filme acompanha os outros encontros de Rod e Nathalie. Como a vez que eles vão assistir o documentário "Uma Verdade Inconveniente" - eu sei que foi esse o filme que eles viram porque Rod faz questão de anunciar, mesmo que ele esteja conversando com outras duas pessoas que acabaram de sair do cinema com ele, como se eles não soubessem o que tinha acabado de ver -, do Al Gore, com um outro casal de pessoas desinteressantes que só servem pra morrer mesmo (ah! e a mulher desse casal é garota propaganda do site da Yoko Ono, e, por algum motivo, anda por aí com uma camiseta na qual está escrita "imaginepeace.com"; isso nunca é abordado, só está lá). Aí você pergunta, mas o que o documentário do Al Gore tem a ver com Passarêmico? Aguarde, infelizmente os dois estão relacionados.

Uma cama barrando a janela, isso vai impedir as águias assassinas de invadirem.

Também tem a vez que Rod e Nathalie vão ao Festival da Abóbora, na cidade deles. Afinal, não é só porque Rod acaba de se tornar um empreendedor milionário e Nathalie uma das modelos mais famosas dos EUA, que eles não vão poder se divertir na feirinha da cidade, não é? Depois eles vão pra praia, e Nathalie tenta tocar num pássaro morto (que pode ser ou uma águia ou um abutre) - por que não? -; e depois vão para um bar totalmente vazio, no qual o músico Damien Carter (que pelo jeito é real) toca ao vivo com uma banda invisível, enquanto o casal dança de um jeito estranho para a música R&B mais amigável e incestuosa da história - Hangin' out, hangin' out, hangin' out with my family, havin' ourselves a par-tay...(ainda está na minha cabeça e se recusa a sair)

Choque e terror!!! ...quase...eu acho...(eu admito que a cena da dança é genuinamente engraçada, mas só porque os atores decidiram tirar sarro do filme e a música é basicamente construída em torno de um tuíte do cantor.)

Agora os pássaros entram em cena? Ainda não, primeiro Rod e Nathalie têm que ir ao motel mais meia boca da cidade, mesmo eles sendo milionários e mesmo eles morando sozinhos, afinal um quarto de motel barato é sempre...mais...sexy. Não é? Só depois deles transarem - aparentemente sem tirarem a roupa, visto que Rod acorda com calça, cinto, meia e sapato -, aí sim, na manhã seguinte, que começa o ataque das águias.gif. Sim, as águias são uma imagem gif colada na tela. CHOQUE E TERROR!!! MUAHAHAHAHAHAHA!

Um ataque de águias. Rápido! Peguem os cabides!

Depois de 45 minutos de filme - quarenta e cinco minutos de filme, sendo esse filme apenas uma série de encontros entre o casal de protagonistas -, é que os pássaros finalmente atacam. E não são só pássaros, eles são kamikazes também e tem um vomito tóxico-explosivo (sendo as explosões e chamas também gif, como todos os outros efeitos especiais - e quando eu digo especiais, na verdade eu quero dizer retardados). As águias parecem ter como alvo os carros e postos de gasolina. O que fazem nossos heróis, então? Encontram um outro casal e fogem de carro com eles. Convenientemente, o homem do outro casal lutou no Iraque (e em determinado momento do filme, ele pergunta para Rod: "por que não dar uma chance à paz?") e, portanto, carrega todo um arsenal consigo, cheio de armas mágicas que nunca precisam ser recarregadas, até que as balas acabam quando o enredo assim exige - que nem na vida real.

Sem palavras. Sem palavras pra descrever o terror! Bu!

Então eles encontram um monte de gente morta; duas crianças ainda vivas e que não demoram para se acostumar a morte dos pais; um velho numa ponte, que usa a "ciência" para explicar que os ataques das águias estão interligados ao aquecimento global - eu falei que Birdemic estava relacionado a Uma Verdade Inconveniente, viram, faz todo o sentido do mundo... -; encontram um hippie (?) com uma peruca muito bizarra, que mora em uma árvore no meio de uma floresta. E chegando aí eu devo ter pego no sono umas quatro vezes, porque eu não faço ideia de como isso tudo aconteceu em tão pouco tempo. As águias se cansaram também, pelo jeito, porque chega uma hora que elas decidem ir embora, mesmo que os efeitos especiais dos pássaros partindo não respeitem nem a mais básica noção de perspectiva (eles voam no mesmo lugar por horas). Então Rod e Nathalie vivem felizes para sempre? Não, o filme lançou uma continuação esse ano, com o mesmo elenco e com os mesmos personagens.

Oh não, é o fim de alguns pequenos pontos específicos do mundo (ou dessa cidade, melhor dizendo). Salvem-se quem puder...

Eu desconheço um insulto forte o suficiente para descrever esse filme de forma apropriada. Mas ele não é só horrível, ele é tão ruim, mas tão ruim, que fica hilário; até que vai ficando chato e, no fim, você já não sabe mais no que pensar, nem no que acreditar; tudo que fica é um leve entorpecimento mental, a sensação de que você foi além, conheceu um mundo desconhecido e separado do nosso, outra realidade. Passarêmico é tão ruim que chega a ser inacreditável, tanto que, pela primeira vez nesse blog, vou deixar aqui o filme na integra, por meio do Youtube, para que vocês entendam bem do que eu estou tentando falar.

A imagem da esperança.

Chega a ser triste, porque o Passarêmico não é ciente de si. Não é uma sátira ou uma diversão entre amigos. James Nguyen, especialmente agora que seu filme adquiriu status cult e ganhou uma continuação, dá a entender que é um cineasta sério, que ama cinema tanto quanto o meio ambiente e seu ídolo, Alfred Hitchcock. Disse em entrevista que a única coisa que mudaria no filme todo seria o realismo dos pássaros. Sério mesmo, James Nguyen? Só o realismo dos pássaros? E o realismo das pessoas que você contratou, e da sequência de absurdos que você ousa chamar de enredo? Isso não é um problema pra você? Constato que conversar com esse diretor deve ser como conversar com uma criança de 10 anos, em posse de uma câmera e muito tempo livre. É essa a impressão que o próprio filme causa.

Conforme o tempo passa, a atuação vai de ruim para totalmente indiferente. Para vocês terem uma ideia, em uma cena, Rod e Nathalie estão em uma loja de conveniência. Reparem que tem sempre uma loja de conveniência nesses filmes...é tão conveniente. Lá, Nathalie (digo o nome da personagem, mas tenho certeza que não foi a personagem que fez isso e sim a própria Whitney Moore em total desconhecimento de que estava sendo filmada) pega uma garrafa de champagne e a mostra para Rod e os dois parecem estar em uma conversa bem interessante, embora o áudio não capture nada dela para o filme (isso acontece várias vezes, nem sempre de maneira intencional). Aí algo chama atenção dela, a cena começando talvez, e ela larga a garrafa. Vamos recapitular. Você está no meio do apocalipse aviário, encontra uma loja sem dono (a dona aparece assassinada uma cena depois), você vê uma garrafa de champagne e demonstra interesse em levá-la, mas decide pôr de volta quando uma "coisa" chama a sua atenção. Explica isso. Explica qual motivo poderia ser, além de "aquela cena não era parte do filme".

Coisas assim, que acontecem mais de uma vez, fazem com que eu visualize James Nguyen como um cara bem chato, insistindo o tempo todo para que seus amiguinhos do bairro se comportem para a sua filmagem "muito importante". Entendem o que eu quero dizer?

Nosso Hitchcock do Vietnã.
 Fica pior quando você fica sabendo que James Nguyen tem um título. Isso mesmo, ele se deu um título. Ele é "Mestre dos Thrillers Românticos". E esse título é registrado, pode procurar no google e mais de uma vez você vai encontrar o nome dele disposto da seguinte forma: James Nguyen, Master of Romantic Thrillers™. Seria hilário, se esse fosse o objetivo, mas não. Ele parece querer carregar uma mensagem com a sua obra e deseja ser levado a sério. Tommy Wiseau também, quando ele lançou The Room, queria ser comparado a Tennessee Williams, mas quando sua obra foi lançada e, consequentemente, ridicularizada, ele baixou a bola e se aceitou como comediante. Por que Nguyen não faz o mesmo? Será que ele assistiu Passarêmico e mesmo assim disse para si mesmo: sim, esse é um bom filme. Ou ele é apenas o Ed Wood da nossa geração, fingindo se levar a sério ao mesmo tempo que rindo dos críticos e alimentando sua conta bancária. Vou torcer pela segunda opção, porque, se a primeira for verdadeira, posso ser acusado de estar tirando sarro de um deficiente mental.

Ainda assim, independente de tudo o que eu acabei de dizer, assim como Sharknado, assim como The Room, eu indico esse filme. Não para ser visto como uma obra prima, nem mesmo serviria como um filme medíocre. Só serve para diversão mesmo. Eu ri muito durante o filme todo, mesmo que esse não fosse o objetivo. Tanto que vou ver a continuação, sério mesmo. E nessa categoria de filmes (categoria: chame os amigos e encha a cara enquanto assiste), não há obra melhor que Passarêmico. Talvez haja, admito que ainda nem cheguei no fundo do poço em se tratando de filmes ruins - ou talvez tenha chegado, mas ainda tenho que cavar para ver o que existe além da terra. Mas atualmente, considerando meu conhecimento cinematográfico, esse é o melhor pior filme da atualidade.

Nota: -6/5 (porque ele é assim tão ruim)


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Playlist Nova



Talvez alguns de vocês nem soubessem, mas esse blog tinha uma playlist. Tava bem bacana, mas eu quis mudar. Então eu fiz. No começo achei que tava mexendo em time que tava ganhando, mas gostei do resultado final. Na playlist vocês vão encontrar desde clássicos como Hendrix e Coltrane, até jóias perdidas da década de 60, como Black Merda e Elephants Memory. Aproveitem.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

The Derek Trucks Band - Joyful Noise (2002)

Basta ver a capa pra ter a impressão de que a música é boa, né?
Há algumas semanas (meses?), eu fiz um  post falando das melhores bandas da década de 90 em uma tentativa frustrada de repetir a maravilha gerada pelo meu post sobre as melhores bandas de rock atuais, que de longe se tornou meu post mais visto (aproximadamente 40% das visualizações totais do blog). Nesse post da década de 90 estava The Derek Trucks Band, mas falei muito pouco deles, então tomei como objetivo falar um pouco dos discos deles, se não todos, ao menos um.

Antes de passar para as faixas, um pouco de história. Quem é esse Derek Trucks e por que ele é tão foda. Tudo começou em 1969, com The Allman Brothers Band, uma das melhores bandas de rock em geral, responsável por toda uma repaginação do gênero, conhecida principalmente pelos seus longos períodos de improvisação entre as músicas, podendo durar mais de 20 minutos em um frenesi instrumental. Um dos irmãos Allman era o genial guitarrista, Duane Allman, famoso pelo seu virtuosismo no slide. Infelizmente ele morreu cedo, a banda, por outro lado, ainda está na ativa. Mas não foi até 1999 que eles conseguiram replicar o talento de Duane, nem de perto; só com o surgimento de Derek Trucks - que é bom deixar claro que tinha apenas 20 anos quando entrou na banda formada por senhores de 60 -, capaz de assustar com seus solos em surtos espontâneos e o timbre suave e melancólico de sua guitarra que remete, não só ao próprio Duane, como até ao do sax tenor de seu ídolo, John Coltrane[1]. 

E é a Coltrane que o título do disco e a primeira faixa, Joyful Noise, homenageiam, ao homem que dizia passar a vida buscando a música tão perfeita que ele só poderia chamar de Joyful Noise. É uma faixa quase instrumental, com quase nenhuma letra que o valha, lembrando um pouco o funk de James Brown. Um ritmo repetitivo, cercado de solos imprevisíveis, como se os músicos estivessem apenas se apresentando e ao propósito da banda em si. Perfeita em todos os aspectos e, logo de cara, um dos pontos altos do disco.


A segunda faixa é outro instrumental, So Close, So Far, que talvez tenha seu brilho ofuscado pela primeira música, mas que é de um estilo tão oposto que não deixa dúvidas quanto a sua qualidade. Mas lenta que a antecessora e melódica, um contraste bem interessante. A lentidão, contudo, não dura muito, quando logo em seguida vem a primeira das várias participações especiais do disco, Solomon Burke[2], o rei Salomão do Soul em pessoa, na primeira faixa realmente cantada. Um soul mais tradicional que as faixas anteriores, que mesclavam rock, jazz e funk. A voz do velhinho mostra por que ele não era chamado de rei à toa. Outro grande destaque do disco.

(não achei a faixa no youtube, mas não importa, porque vocês vão baixar esse disco logo depois de terminarem a resenha, talvez antes disso)

Então o álbum dá uma reviravolta de estilo e se envolve em um ritmo mais exótico e raríssimo de se achar em álbuns ocidentais. A segunda participação especial, Rahat Nusrat Fateh Ali Khan[3], em Maki-Madni, um Qwwali tradicional ao islamismo Sufista[4], "corrompido" pelo jazz de Derek Trucks, mas mantendo total fidelidade ao ritmo árabe. Uma das faixas mais belas do disco, talvez a melhor, que vale por cada um dos seus oito minutos de duração.


Mas esse não é o fim da volta ao muito em tantos ritmos de Joyful Noise, agora é a vez da lenda da salsa panamenha e do jazz latino, Ruben Blades, cantar uma música composta em parceria com os membros da Derek Trucks Band, Kam-Ma-Lay. Uma faixa que não deve nada a sua antecessora e compete quase cabeça com cabeça pela posição de melhor faixa. 




Só então voltamos aos EUA e a voz de Solomon Burke, em sua segunda participação, agora cantando uma composição própria da Derek Trucks Band (Home In Your Heart é um cover de uma canção tradicional). Like Anyone Else é suave, flutua pelos ouvidos. Não tem o lado exótico das anteriores, mas tem toda a personalidade da banda, que, apesar de levar o nome de um de seus membros como "líder", não é sinal de egocentrismo. Cada músico tem seu espaço e o preenche com perfeição, principalmente o tecladista/flautista/vocalista, Kofi Burbridge, que aproveita para roubar a cena vez ou outra.

Every Good Boy, a faixa seguinte, é um instrumental que infelizmente não se destaca. Tem um jogo bacana entre as teclas e a guitarra e um ritmo marcante, mas no meio de tantas músicas impecáveis, ela meio que se perde - o que não é de forma alguma um insulto à faixa. Só que essa impressão de insatisfação - fundamentada apenas pela qualidade altíssima de todas as músicas - logo passa com o cover da canção de James Brown, Baby You're Right, cantada pela esposa de Derek Trucks, a guitarrista e vocalista, Susan Tedeschi[5]. Que exibe as suas qualidades vocais nessa quase declaração de amor em forma de música.




Mas chega de romantismo, porque a faixa que vem a seguir, Lookout 31, um instrumental meio bebop meio jazz fusion, vem, mais uma vez, demonstrar o virtuosismo dos músicos, caso ainda restasse dúvida. E Frisell, mais um instrumental lento, vem para fechar o disco, com as notas quase cantadas da guitarra de Derek Trucks.


O disco acaba e você fica meio que querendo que tivesse mais, porque tudo passa muito rápido. Esse é, provavelmente, um dos melhores discos da década passada, que mostra aos poucos de nós que não se contentam com a música industrializada de hoje, que ainda é possível fazer arte e que existe um público para ela, mesmo que pequeno.

Nota: 5/5, porque mesmo os momentos mais fracos são fortes o suficiente.

Notas:
1 - John Coltrane foi um dos principais saxofonistas da história, apesar de ter tido uma vida relativamente curta. Seu estilo e inventividade musical influenciaram toda uma sequência de músicos de todos os gêneros e épocas. Seus álbuns mais conhecidos são A Love Supreme, My Favorite Things e Giant Steps, para citar uns poucos.

2 - Solomon Burk, também conhecido como King Solomon, foi um dos principais músicos de soul de seu tempo, muito embora não tenha tido nem de perto o sucesso comercial de seus contemporâneos Wilson Pickett e Otis Redding, digamos que a competição era forte. De qualquer maneira ele se tornou uma lenda, se não conhecido pelo público, mais que reconhecido e admirado pelos seus iguais e pelas gerações de músicos que seguiram seus passos. 

3 - Rahat Nusrat Fateh Ali Khan é sobrinho e foi aprendiz de Nusrat Fateh Ali Khan, um dos principais cantores de Qwwali do Oriente Médio. Seu tio era conhecido pelo alcance vocal e fôlego, capaz de manter a apresentação de um canto por mais de uma hora, sendo a média de um Qwwali em torno de 20, 30 minutos.

4 - Sufismo é uma corrente do Islamismo Sunita mais devota ao misticismo interno, crente em uma forma de unitização divina. Alguns dizem ser uma filosofia perene mais antiga que a religião em si. Vista como uma variação mais pacífica e apolítica do Islã entre os ocidentais, e como herética entre os islâmicos mais radicais. Qwwali são os cantos devocionais dessa religião.

5 - Susan Tedeschi, além de ser esposa do Derek Trucks, também formou com ele, em 2011, a Tedeschi Trucks Band, que já gravou 3 discos, um deles ao vivo. Acho que logo, quando ouvir algum deles com mais atenção, resenharei aqui.

Obs.: O que vocês acharam das notas? Foi uma forma que eu achei de manter minhas digressões, que eu percebi, em resenhas passadas, que são muitas. Assim os textos podem ser menos superficiais, com todas as referências necessárias, sem causar grandes fragmentações nos argumentos da crítica. Baseei essa ideia vagamente no estilo do David Foster Wallace de escrever artigos, não sei se serviu aqui e não pretendo usar em todos os textos, somente quando estritamente necessário para a compreensão geral da resenha (ou qualquer outra forma de post que seja feito). Nesse caso específico, gostei do resultado final.