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terça-feira, 26 de novembro de 2013

The Derek Trucks Band - Joyful Noise (2002)

Basta ver a capa pra ter a impressão de que a música é boa, né?
Há algumas semanas (meses?), eu fiz um  post falando das melhores bandas da década de 90 em uma tentativa frustrada de repetir a maravilha gerada pelo meu post sobre as melhores bandas de rock atuais, que de longe se tornou meu post mais visto (aproximadamente 40% das visualizações totais do blog). Nesse post da década de 90 estava The Derek Trucks Band, mas falei muito pouco deles, então tomei como objetivo falar um pouco dos discos deles, se não todos, ao menos um.

Antes de passar para as faixas, um pouco de história. Quem é esse Derek Trucks e por que ele é tão foda. Tudo começou em 1969, com The Allman Brothers Band, uma das melhores bandas de rock em geral, responsável por toda uma repaginação do gênero, conhecida principalmente pelos seus longos períodos de improvisação entre as músicas, podendo durar mais de 20 minutos em um frenesi instrumental. Um dos irmãos Allman era o genial guitarrista, Duane Allman, famoso pelo seu virtuosismo no slide. Infelizmente ele morreu cedo, a banda, por outro lado, ainda está na ativa. Mas não foi até 1999 que eles conseguiram replicar o talento de Duane, nem de perto; só com o surgimento de Derek Trucks - que é bom deixar claro que tinha apenas 20 anos quando entrou na banda formada por senhores de 60 -, capaz de assustar com seus solos em surtos espontâneos e o timbre suave e melancólico de sua guitarra que remete, não só ao próprio Duane, como até ao do sax tenor de seu ídolo, John Coltrane[1]. 

E é a Coltrane que o título do disco e a primeira faixa, Joyful Noise, homenageiam, ao homem que dizia passar a vida buscando a música tão perfeita que ele só poderia chamar de Joyful Noise. É uma faixa quase instrumental, com quase nenhuma letra que o valha, lembrando um pouco o funk de James Brown. Um ritmo repetitivo, cercado de solos imprevisíveis, como se os músicos estivessem apenas se apresentando e ao propósito da banda em si. Perfeita em todos os aspectos e, logo de cara, um dos pontos altos do disco.


A segunda faixa é outro instrumental, So Close, So Far, que talvez tenha seu brilho ofuscado pela primeira música, mas que é de um estilo tão oposto que não deixa dúvidas quanto a sua qualidade. Mas lenta que a antecessora e melódica, um contraste bem interessante. A lentidão, contudo, não dura muito, quando logo em seguida vem a primeira das várias participações especiais do disco, Solomon Burke[2], o rei Salomão do Soul em pessoa, na primeira faixa realmente cantada. Um soul mais tradicional que as faixas anteriores, que mesclavam rock, jazz e funk. A voz do velhinho mostra por que ele não era chamado de rei à toa. Outro grande destaque do disco.

(não achei a faixa no youtube, mas não importa, porque vocês vão baixar esse disco logo depois de terminarem a resenha, talvez antes disso)

Então o álbum dá uma reviravolta de estilo e se envolve em um ritmo mais exótico e raríssimo de se achar em álbuns ocidentais. A segunda participação especial, Rahat Nusrat Fateh Ali Khan[3], em Maki-Madni, um Qwwali tradicional ao islamismo Sufista[4], "corrompido" pelo jazz de Derek Trucks, mas mantendo total fidelidade ao ritmo árabe. Uma das faixas mais belas do disco, talvez a melhor, que vale por cada um dos seus oito minutos de duração.


Mas esse não é o fim da volta ao muito em tantos ritmos de Joyful Noise, agora é a vez da lenda da salsa panamenha e do jazz latino, Ruben Blades, cantar uma música composta em parceria com os membros da Derek Trucks Band, Kam-Ma-Lay. Uma faixa que não deve nada a sua antecessora e compete quase cabeça com cabeça pela posição de melhor faixa. 




Só então voltamos aos EUA e a voz de Solomon Burke, em sua segunda participação, agora cantando uma composição própria da Derek Trucks Band (Home In Your Heart é um cover de uma canção tradicional). Like Anyone Else é suave, flutua pelos ouvidos. Não tem o lado exótico das anteriores, mas tem toda a personalidade da banda, que, apesar de levar o nome de um de seus membros como "líder", não é sinal de egocentrismo. Cada músico tem seu espaço e o preenche com perfeição, principalmente o tecladista/flautista/vocalista, Kofi Burbridge, que aproveita para roubar a cena vez ou outra.

Every Good Boy, a faixa seguinte, é um instrumental que infelizmente não se destaca. Tem um jogo bacana entre as teclas e a guitarra e um ritmo marcante, mas no meio de tantas músicas impecáveis, ela meio que se perde - o que não é de forma alguma um insulto à faixa. Só que essa impressão de insatisfação - fundamentada apenas pela qualidade altíssima de todas as músicas - logo passa com o cover da canção de James Brown, Baby You're Right, cantada pela esposa de Derek Trucks, a guitarrista e vocalista, Susan Tedeschi[5]. Que exibe as suas qualidades vocais nessa quase declaração de amor em forma de música.




Mas chega de romantismo, porque a faixa que vem a seguir, Lookout 31, um instrumental meio bebop meio jazz fusion, vem, mais uma vez, demonstrar o virtuosismo dos músicos, caso ainda restasse dúvida. E Frisell, mais um instrumental lento, vem para fechar o disco, com as notas quase cantadas da guitarra de Derek Trucks.


O disco acaba e você fica meio que querendo que tivesse mais, porque tudo passa muito rápido. Esse é, provavelmente, um dos melhores discos da década passada, que mostra aos poucos de nós que não se contentam com a música industrializada de hoje, que ainda é possível fazer arte e que existe um público para ela, mesmo que pequeno.

Nota: 5/5, porque mesmo os momentos mais fracos são fortes o suficiente.

Notas:
1 - John Coltrane foi um dos principais saxofonistas da história, apesar de ter tido uma vida relativamente curta. Seu estilo e inventividade musical influenciaram toda uma sequência de músicos de todos os gêneros e épocas. Seus álbuns mais conhecidos são A Love Supreme, My Favorite Things e Giant Steps, para citar uns poucos.

2 - Solomon Burk, também conhecido como King Solomon, foi um dos principais músicos de soul de seu tempo, muito embora não tenha tido nem de perto o sucesso comercial de seus contemporâneos Wilson Pickett e Otis Redding, digamos que a competição era forte. De qualquer maneira ele se tornou uma lenda, se não conhecido pelo público, mais que reconhecido e admirado pelos seus iguais e pelas gerações de músicos que seguiram seus passos. 

3 - Rahat Nusrat Fateh Ali Khan é sobrinho e foi aprendiz de Nusrat Fateh Ali Khan, um dos principais cantores de Qwwali do Oriente Médio. Seu tio era conhecido pelo alcance vocal e fôlego, capaz de manter a apresentação de um canto por mais de uma hora, sendo a média de um Qwwali em torno de 20, 30 minutos.

4 - Sufismo é uma corrente do Islamismo Sunita mais devota ao misticismo interno, crente em uma forma de unitização divina. Alguns dizem ser uma filosofia perene mais antiga que a religião em si. Vista como uma variação mais pacífica e apolítica do Islã entre os ocidentais, e como herética entre os islâmicos mais radicais. Qwwali são os cantos devocionais dessa religião.

5 - Susan Tedeschi, além de ser esposa do Derek Trucks, também formou com ele, em 2011, a Tedeschi Trucks Band, que já gravou 3 discos, um deles ao vivo. Acho que logo, quando ouvir algum deles com mais atenção, resenharei aqui.

Obs.: O que vocês acharam das notas? Foi uma forma que eu achei de manter minhas digressões, que eu percebi, em resenhas passadas, que são muitas. Assim os textos podem ser menos superficiais, com todas as referências necessárias, sem causar grandes fragmentações nos argumentos da crítica. Baseei essa ideia vagamente no estilo do David Foster Wallace de escrever artigos, não sei se serviu aqui e não pretendo usar em todos os textos, somente quando estritamente necessário para a compreensão geral da resenha (ou qualquer outra forma de post que seja feito). Nesse caso específico, gostei do resultado final.

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