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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Postagem de fim de ano e os caralho a quatro.

Se não me engano, terminei o ano passado dizendo que tinha sido um ano ruim, pelo menos pra mim foi. Esse ano agora, não sei dizer se foi ruim, talvez não tenha chegado a tanto. De forma alguma foi bom. Foi esquisito. Falo em um sentido além do pessoal, coisas estranhas aconteceram no mundo. Não sei se vale a pena listar quais foram, nunca tive intenção de fazer comentários sociais nesse blog, embora tenha me aventurado por essas perigosas trilhas no passado, prometendo a mim mesmo nunca mais fazer isso só porque não vale a pena e não leva a lugar nenhum.

O que que eu posso fazer pra dar um toque de conclusão a esse outro ano em que o blog sobreviveu. Comentários sobre o blog em si, em retrospectiva, podem ser bons pra começar. Eu falo isso toda hora e toda hora é verdade, mas nesse ano isso se elevou de uma forma inesperada, falta alguma coisa pra mim nesse blog. Não sei dizer se é conteúdo, aparência, reconhecimento. Pode ser tudo isso, mas não sei o que fazer pra mudar a situação. Quando penso em tomar medidas pra tornar o blog mais conhecido, logo me vem uma voz perguntando se isso importa. Se a página no facebook, por exemplo, tivesse 401 curtidas ao invés de 41, ia mudar alguma coisa? Talvez. Muito possivelmente mais pessoas de fora quisessem se comunicar comigo, muitas não tão agradáveis quanto as que já tenho algum contato frequente. Comentários não tão necessários ou amigáveis. Não sei se faço questão disso. Só tem uma coisa de que eu estou certo, não adianta me enganar dizendo pra mim mesmo que o blog é pequeno porque o conteúdo não é típico ou o meu jeito de escrever não serve para agradar o leitor etc. etc. e todas aquelas desculpas para que eu possa me sentir feliz e underground. Não é verdade, vi muita gente esse ano com conteúdo mais obscuro que o meu e muitos mais leitores. O estilo da escrita pode ser um bloqueio pro leitor convencional, mas não tão grande. O blog é pequeno porque eu sou preguiçoso e não tenho coragem de sair por aí nesse mundo de divulgação. Apesar disso tudo, gosto do jeito que as coisas estão, mesmo que às vezes pareça que o blog é particular.

A aparência, o layout, definitivamente é uma coisa em que eu quero mexer ano que vem. Talvez eu não faça, mas a vontade existe, só me faltam os meios. Mesmo que eu soubesse fazer, ainda me resta a dúvida do que fazer. Não sei que visual refletiria a personalidade do blog. Uma coisa simples, lógico, mas não tão desleixada como agora, que mais parece um blog de teste, sem dono, só com textos jogados aleatoriamente. Parece que o blog é um daqueles que costuma durar três meses, mas acabou sobrevivendo por mais tempo - o que é bem o caso.

Em se tratando de conteúdo, minha insatisfação é abstrata. Já falo de filmes, livros, música, pintura, faço textos próprios, crônicas, contos, poesias, opiniões aleatórias e nem sempre compreensíveis. Não resta muito o que escrever sobre, considerando meus interesses. O número de postagens caiu consideravelmente esse ano, mas não por falta de conteúdo planejado na minha cabeça, foi por falta de ânimo mesmo, vontade de fazer a roda girar. Isso é um problema.

Uma coisa que eu ando pensando faz tempo, mas nunca fiz por onde para realizar, era inserir um(a) colunista no blog. Convidei umas pessoas com o passar dos anos, mas nunca ia pra frente. Acho que posso fazer aqui o anúncio oficial (dessa forma ele fica escondido o suficiente pra que só as pessoas com interesse real encontrem). Se você estiver lendo isso, saiba ler e escrever, tenha vontade de produzir textos e fazer parte de um blog, mas seja muito preguiçoso(a) pra criar seu próprio blog, entre na página contato, logo acima, e mande um e-mail (sim, eu poderia simplesmente escrever o e-mail aqui, mas esse é meu jeito de dizer que, nesse blog, você vai ter que se virar). Não vou te pagar nada (nem eu ganhei porra nenhuma com essa merda, porque você acha que ganharia), talvez eu não te aceite por razões aparentemente arbitrárias, mas estou disposto a colocar mais uma voz aqui que não seja a minha. Estou cansado de mim mesmo, essa é a verdade. O conteúdo em si, não tem regras. Será como o seu próprio blog dentro do meu. Sem controle de conteúdo, sem mediação. Tem uma pessoa especificamente que eu pedi para fazer parte do blog, mas que não aceitou por insegurança e preguiça (acho que foram só esses os motivos) que eu gostaria que mudasse de ideia em 2015, mas...isso é outra história. A vaga está aberta independentemente.

Bom, mudando de assunto abruptamente. O que eu mais ando vendo nesse fim de ano são listas de melhores filmes, melhores livros etc. Não farei isso. Dessa vez não é por causa do meu hábito de ir contra e querer me fazer de lobo solitário. É porque eu tenho muita dificuldade de, no fim do ano, identificar as coisas que eu fiz nesse ano, e não em anos passados. Não sei dizer quais filmes eu vi quando ou quais livros. No fim a lista não seria dos melhores, mas dos 10 ou 5 livros que eu me lembro de ter lido esse ano e, por coincidência, gostei.

Uma coisa é certeza, muitas vezes em 2014 me impedi de escrever uma resenha por achar que não tem nada que eu pudesse escrever que fosse digno do livro. Bom, isso continua sendo verdade, mas agora eu não acredito que exista tal coisa como uma resenha digna. Então resenharei coisas que sempre considerei muito acima da minha capacidade esse ano, nem que seja só pra dizer "ei, esse livro é bacana, leiam".

Eu tenho uma mensagem bonita de fim de ano pra vocês pra poder encerrar o post? Não, não tenho. Tentem não morrer, que tal essa? Ou morram, se for essa a vontade de vocês, quem sou eu pra impedir, vocês são livres, ora! E feliz ano novo.

Obs.: com uma semana de atraso, acabei de descobrir que o Joe Cocker morreu. Caralho! Isso não é jeito de acabar o ano. Bom, em homenagem a uma das melhores vozes da música, um vídeo surrupiado do Youtube: 



Tá, e a imitação perfeita que o John Belushi fazia dele também, só pra não acabar o ano tão mal assim:


domingo, 21 de dezembro de 2014

Momento Musical #5 - The Mamas and the Papas, Love, The Velvet Underground


Nessa casa da mãe Joana que é o Momento Musical, por mais que eu tente evitar, acabo caindo num tema. É inconsciente. Defino as bandas de improviso, cinco minutos antes de escrever a postagem, aí uma meio que se conecta a outra dessa maneira. Estou escutando o disco enquanto penso no próximo, e o próximo acaba vindo. Na edição de hoje, são bandas da minha tão amada década de 60. Uma delas, a primeira, é meio deslocada, mais ligada ao pop que ao psicodélico, mas não está tão distante. Vamos à música que é o que importa.

The Mamas & The Papas -  If you can believe your eyes and ears


Minha primeira memória dessa banda é bem distante. Era a minha mãe quem gostava especificamente da música California Dreamin'. Nunca foi muito meu estilo, eu achava, até ouvir esse disco por completo uns dois anos atrás. O som é leve, cheio de harmonias vocais, meio folk, meio pop com uma pitada de psicodélico (que era meio onipresente no som de 66-68). Acho que não gostava por nunca ter prestado atenção mesmo. É uma banda relaxante.

Love - Forever Changes


Esse disco é um dos melhores do seu período, o que é dizer muito (foi lançado em 67, e agora você vai no Google e pesquisa "álbuns lançados em 67", se vocês gostam desse tipo de música, mas não são tão ligados na história por trás dela, vocês terão um orgasmo). Encabeçou toda uma geração, mas hoje ninguém lembra deles. Culpo o nome da banda. Convenhamos, nossa geração baixa música e descobre tudo pela internet. Tenta pesquisar a palavra Love na internet. Vai demorar umas 30 páginas do Google, até encontrar alguma informação sobre a banda. Mais bagunçado ainda é pesquisar Love no PirateBay. Sorte de vocês que o tio Rapha existe e trás essas joias diretamente pra vocês, sem necessidade de perder tempo pesquisando.

The Velvet Underground - Loaded


Fiquei triste pra cacete quando o Lou Reed morreu ano passado. Puta compositor, e eu acho que o melhor trabalho dele está nesse disco. Já me peguei ouvindo esse álbum e cantando junto com Sweet Jane, Who Loves the Sun, Oh! Sweet Nuthin'. Esse é um dos meus discos favoritos da história do rock e eu não faço ideia de por que essa é a primeira vez que ele figura aqui no blog (se bem que tem dezenas de álbuns que eu amo e nunca falei sobre por aqui - só aguardem as próximas edições do Momento Musical).

É isso. Não farei mais Momentos Musicais esse ano, mas 2015 estará aí logo. Quem sabe eu até bote ordem nesse barraco, organize minhas postagens por semana. Não prometo porra nenhuma, mas não é impossível de acontecer.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Agora fodeu de vez


Não bastasse a página no facebook mais cedo esse ano, antes que 2014 acabe, anuncio o nascimento da minha conta no twitter. É isso mesmo, agora os leitores desse blog também poderão ter acesso aos meus mais indiscriminados pensamentos. A culpa é, em parte, de vocês. Agora estou aqui com bloqueio criativo pra lançar meu primeiro tuíte. 

Este sou eu lá: @deliriumscribs

Vocês podem seguir. Eu deixo. Espero que até lá eu já tenha escrito algo.

Prometo que não serei um poeta de twitter, isso é escrotice demais, até pra mim. Sim, eu tuitei essa frase. Hmm... É isso, encerro o post desse jeito? Que merda, hein? Deixa eu pensar se tem alguma coisa mais pra falar. Não. E isso já é uma enrolação descarada.

Ei, olhem aqui essa banda bacana que eu conheci esses dias:


Pronto, agora não me sinto culpado pela falta de conteúdo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Um triste quadro numa peça de teatro na Hercílio Luz numa tarde de sábado



Caía uma enxurrada de verão. Me vi pela segunda vez na nova livraria de Itajaí, meio por impulso meio por falta do que fazer. Por algum motivo eu parecia intimidar os vendedores, salvo por um deles. Um rapaz franzino, seguindo a moda de deixar a barba, mesmo que a barba não o seguisse, formando apenas penugens nas bochechas e no queixo. Não era o vidente da primeira vez que fui lá, pelo contrário. Entrei e, como é meu costume, fui até a área de literatura nacional. Tinha dado uma boa olhada nas estantes e na organização, podendo dizer que já conhecia o lugar desde a visita anterior. O moleque veio de uma maneira que eu considerei invasiva. Entendam, eu não preciso de muito pra não gostar de uma pessoa. O tom errado em um bom dia já é o suficiente pra eu olhar torto pra um desconhecido. Ele me parou e perguntou se eu precisava de ajuda. Respondi que não, tinha acabado de entrar. O certo a se fazer numa hora dessas é dizer, ok, e procurar outro cliente pra importunar. Lembram do que eu falei no último texto sobre minhas desventuras em livrarias - deixe o cliente se familiarizar com o local e use seus movimentos para se familiarizar com o cliente; se o rapaz tivesse lido meu blog, hoje ele seria um vendedor menos pior. Está procurando algo específico, ele insistiu. Não, eu disse. Ele deu uma risada nervosa e disse, é que você entrou com tanta segurança. Tive que me controlar pra não dizer, eu sei mais do que você, então sai do caminho. Disse apenas que já havia estado lá antes e conhecia o lugar. Acho que ele não falou mais nada.

De cara vi um livro que me chamou atenção. Mil rosas roubadas, do Silviano Santiago. Fui passá-lo no leitor de código de barras para ver o preço, mas não consegui acertar o ângulo. Aí eu me toquei que meu diálogo com o outro vendedor podia ter afetado os outros. Uma moça de aparência tão frágil quanto o rapaz incômodo perguntou se poderia ajudar. Bom, naquela ocasião ela poderia, então disse que sim, por favor - eu sou educado, apesar de tudo. Ela passou o livro no leitor. As mãos dela tremiam e ela parecia se recusar a olhar na minha direção, com a cabeça meio baixa e a voz também trêmula. Eu me senti mal. Verdade que o primeiro vendedor era um cretino e merecia algum grau de hostilidade - na minha cabeça -, mas eu não tinha nada contra o resto daquelas pessoas.

O arrependimento durou pouco, quando me vi em paz vasculhando as estantes sem ninguém me perguntando o que eu queria, sendo que, de fato, eu não queria nada. Separei uma antologia de poemas do Murilo Mendes e outra da Elizabeth Bishop (uma edição bacana e bilíngue da Companhia das Letras, com tradução do Paulo Henriques Britto); o romance O Drible, do Sérgio Rodrigues; o livro do Evandro Affonso Ferreira que o vendedor da ocasião anterior me tinha sugerido; o livro de um português que na contracapa foi comparado com Kafka, mas que não me lembro do nome; um do Miguel Sousa Tavares. Era tanta coisa na minha cabeça que minha hostilidade perante os vendedores poderia ser vista como simpatia. Imagina submeter uma pessoa ao meu sistema analítico de escolha, cheio de pesos, medidas e variáveis. Não detesto ninguém dessa maneira.

Fui ao caixa com o do Sérgio Rodrigues, o da Elizabeth Bishop e o do Evandro Affonso Ferreira. Ela me disse o valor e eu não tinha o suficiente pros três no bolso - me recuso a entrar no jogo do cartão de crédito. Pedi pra tirar o do Evandro. Paguei e fui embora. Ninguém me entregou cartão de comissão. Mas a história não é sobre isso.

Saindo do shopping, a chuva tinha passado. Grandes poças haviam se formado nas esquinas, mas o calor já tinha quase secado a calçada em partes onde água não estava acumulada. Peguei a Hercílio Luz pra voltar pra casa. Uma rua comercial que sempre procuro evitar por causa do barulho, do movimento, dos gritos e do cheiro desagradável, mas que depois do horário de trabalho fica tranquila, com todas as lojas fechando, os funcionários indo embora, compradores de última hora levando suas sacolas, pombos carregando restos de comida em seus bicos, artesãos guardando seus trabalhos; essa impressão de fim me acalma por algum motivo. Chegando no começo da rua - fiz o caminho inverso, entrando no fim e saindo na entrada -, na esquina onde fica a Casa de Cultura, havia uma cabine cercada por duas caixas de som. Uma voz dramática saía dos alto-falantes. O interior da cabine imitava a sala de uma locutora de rádio, com um microfone e uma placa em que estava escrito "no ar". Lembrei de ter visto um anúncio de que haveria uma peça ali às cinco da tarde. Eram seis, então a chuva devia ter adiado o começo. A sinopse que eu li dizia ser a história de uma locutora demitida após vinte e cinco anos de carreira, que decide, no último programa, desabafar. Cheguei quando ela havia sido demitida. De início, demorei pra me conectar à peça por culpa da linguagem. Talvez, sem meu conhecimento, ela se passasse em outra época, mas eu não percebi isso e, portanto, estranhei e muito o uso da palavra pinoia. Me senti assistindo à novela das oito. Não ajudava que a atriz fazia uso desse jeito sempre tão bem enunciado de falar, comum no teatro, mas que não me agrada nem um pouco. Esse linguajar antiquado e o jeito forçado de pronunciar as palavras seguiu durante toda a curta peça - ao todo não durou dez minutos, mas eu nem percebi que tinha sido tão pouco.

Em algum momento, uma coisa me cutucou a barriga. Tentei olhar ao redor pra verificar que tinha sido, mas meu foco estava preso à cabine e à atriz. Era verdade que a peça não passava de um grande clichê. Adivinhem qual era a perturbação da locutora: ela sofreu abusos familiares - que original. Me perdoem a insensibilidade, de forma alguma diminuo casos reais de abuso infantil ou de qualquer outro tipo. Mas na ficção, principalmente uma ficção que tem em seu roteiro a palavra pinoia, esse artifício está batido. Tem que ser muito bom pra funcionar. E essa atriz, afetada que fosse, era boa. Deixando de lado minhas barreiras iniciais, consegui me sensibilizar com a história clichê que ela contava, principalmente pela maneira que ela contava e por ela ter se sensibilizado também. Então novamente veio o cutucão e eu pude ver que era uma garota baixinha, regulando entre os dezoito e vinte e dois anos. Mesmo depois de eu ter olhado pra ela, ela seguiu me cutucando sem dizer nada. Imaginei que ela sofria de algum problema e o melhor seria não fazer nada. Então ela me entregou um panfleto plastificado. Minha atenção estava bastante dividida. Vi as palavras  do panfleto, mas não as entendi, nem imagino do que elas pudessem se tratar. Sei que eram sobre uma organização de apoio a alguma coisa - podia ser doença, deficiência, abuso. Peguei o panfleto, mas ainda não fazia ideia do que ela poderia estar querendo. Voltei a atenção à peça, ela me cutucou de novo. Posso te ajudar, falei. Ela me mostrou uma caderneta. Nela havia três colunas, nome / valor / assinatura, e  várias linhas abaixo de cada coluna, estando apenas duas fileiras de linhas preenchidas até então, ambas vinham com dez reais na coluna de valor. Entendi que ela queria uma doação. Não fazia ideia de por que ela não falava. Podia ser que ela fosse muda, mas algo insistia em me dizer que era parte da peça, ou um movimento em paralelo desenvolvido pela Casa de Cultura. A menina, não falando, queria me dizer algo que eu não estava conseguindo captar. No meu bolso eu tinha dez reais. Dei pra ela. Ela apontou a caderneta com uma caneta, insistindo pra eu assinar. Fiz. Ela sorriu, sem nunca mostrar os dentes ou abrir a boca - era isso que me insinuava que tudo se tratava de uma performance. Enquanto eu segurava a caderneta, ela pôs o braço ao lado do meu e apontou para um e para outro. Entendi que era para mostrar a diferença na cor das nossas peles. Então ela abriu os braços como se feixes de luz saíssem de suas mãos e englobassem a todos, um sinal de igualdade. E minha ideia de que ela era uma peça de teatro paralela à outra só crescia na minha cabeça. Quando ela fez o gesto, pensei em fazer uma piada dizendo que ela estava apontando a diferença entre os nossos tamanhos (e poderia bem ser), mas não achei apropriado - não podia esquecer das chances de ela não poder me ouvir. Ela agradeceu com um meneio de cabeça e foi fazer a mesma coisa com outra pessoa, sempre sem falar nada, sempre cutucando com a caneta. E agora eu me via observando as duas, a atriz na cabine e a garota que não falava. 

A emoção da atriz me fez acreditar que o desabafo se tratava de um improviso baseado na realidade. Aos poucos o público foi se mostrando incomodado. Ela falava de espancamentos e o que eu imagino ter sido um estupro (a linguagem foi mais abstrata nessa parte, e o microfone não ajudava a compreensão) na frente de famílias comuns, gente que nunca foi no teatro e não entendia o que estava acontecendo, crianças. Saí da realidade interna por um momento. Vi além da peça, incluindo o público como parte dela, tudo uma coisa só. Nada mais apropriado, visto que a cabine onde estava a atriz era na verdade uma vitrine de loja, justamente objetivando essa inserção estranha entre dois mundos supostamente opostos (arte/consumo). Vi a senhora que, revoltada, foi embora sussurrando a pouca vergonha que era aquela apresentação; a mãe tapando os ouvidos do filho pequeno sempre que a atriz falava um palavrão; o homem pedindo pra não assinar a caderneta de doação da garota que não falava; a própria garota indo de pessoa em pessoa e repetindo seus maneirismos; a atriz que chorava repetindo lágrimas reais perante a vida fictícia da personagem; eu com uma sacola de livraria na mão tentando de alguma maneira entender tudo aquilo (e formulando frases mentais na esperança de transformar aquilo em texto, já que não sei pintar ou filmar).

A atriz começou a desabotoar a blusa, gritando que era tudo que lhe faltava tirar, visto que, após o desabafo, já estava nua para os ouvintes. Um botão e ainda mais pessoas foram embora a passos de desconforto e desgosto. Num banco bem de frente para a cabine estavam os mais entusiastas entre o público. Creio que alguns sentados ali choravam e sentiam mesmo, como se fizessem parte da organização. A garota que não falava me viu e me cumprimentou a distância, devolvi o cumprimento. Era como se ela soubesse que eu queria saber qual era a dela - ou como se ela fosse totalmente indiferente. Óbvio que a atriz vestia uma camiseta fina de alça por baixo da blusa e grossas meias-calças brancas por baixo da saia. A peça seria proibida em dois segundos se envolvesse nudez pública em meio a crianças e gente de família - estes últimos tão cheios de pudores e sensibilidades. Ajoelhada, ela encerrou. Levantou-se, saiu da cabine e começou a tocar uma marchinha da época de ouro dos rádios - eis a explicação da pinoia. Os que restaram de nós começaram a aplaudir. Ela agradeceu, mais que tudo surpresa pelo número de pessoas que pararam para assistir a peça até o final.

Fui embora tocado de verdade. Não imaginava que uma apresentação dessas, informal, no meio da rua, era possível sem que houvesse desrespeito e distrações. Precisei transformar aquela cena em alguma coisa, fosse o que fosse, mesmo que fossem só palavras sem finalidade. Encarrego o leitor de tirar conclusões aqui. Para mim foi só uma tarde melancólica de sábado cercada por beleza fora do comum. Poderia ter abordado a garota que não falava depois da peça, perguntado se ela era parte daquilo ou se só estava atrás de doações para sua organização; se era muda ou só atriz; escolhi não fazer. Que importariam essas respostas afinal?  

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Divórcio - Ricardo Lísias [2013]


Peguei esse livro emprestado dois meses atrás. Nunca tive coragem de pedir livros emprestados para ninguém, não importando o quão bem eu conhecesse a pessoa, por causa da pressão. Passado muito tempo, se eu não terminasse a leitura e devolvesse o livro, ia começar a me sentir cada vez mais culpado. Fiz essa exceção porque queria ler algo do Lísias já faz tempo, mas não sabia qual comprar, e sempre que fazia uma lista de futuras compras, deixava o dele para depois. Então me atirei nessa pressão psicológica propositalmente para me forçar a ler o livro, e em um ritmo razoável. A pessoa que me emprestou havia passado as últimas semanas elogiando Divórcio, então pedi o empréstimo. Ela aceitou, até porque já havia emprestado dois livros para essa pessoa.

Feito em uma série de fragmentos divididos em 15 capítulos - que o livro chama de quilômetros, mesmo número de quilômetros da São Silvestre -, Divórcio conta a história de como Ricardo Lísias (personagem, não autor) se divorciar da esposa após um casamento de quatro anos. Os fragmentos são formados de pensamentos do autor durante e depois do divórcio, momentos do passado, trechos do diário que a esposa do narrador mantinha (causa principal da separação) e autoanálise. Seguindo a linha já bastante tradicional na literatura francesa de autoficção, Ricardo se põe como personagem, mas não exatamente.

A narrativa de Divórcio trafega a linha tênue entre ficção e realidade, com o autor, talvez intencionalmente, fazendo o leitor ceder àquela voz que o acompanha enquanto ele lê, que insistem em dizer que aquilo aconteceu daquela forma, que o eu-lírico e o eu autor são um e o mesmo. Ele faz isso colocando, ao lado das invenções (o treino para São Silvestre que ele nunca fez e a corrida da qual ele não participou - embora ele narre com a verossimilhança de um participante) os fatos - citações aos montes sobre o livro Céu dos Suicidas, que existe e foi Ricardo Lísias, autor, quem escreveu. Resisti o que pude, mas, como imagino tenha sido o caso da maior parte dos leitores, botei o nome dele no Google e fui investigar quanto daquilo foi real. Saí da pesquisa sabendo tanto quanto quando entrei - nada. Nem sei dizer ao certo se o cara foi casado. E, querem saber, bom que tenha sido assim. Não vem ao caso quem é Ricardo Lísias, o autor. O livro trata de Ricardo Lísias, o personagem, e, para este, tudo que se passou no livro foi real, mesmo que tudo não passe de ficção.

Apesar das distrações, das fofocas, do drama, do real contra a ficção, o livro fala mesmo é de jornalismo. Desse mundo que todos sabem ser corrupto chamado mídia, a principal responsável pela informação. Lísias escreve sem medo sobre o poder que existe nesse meio, e o poder que estes que o representam (jornalistas) acreditam ter. Nesses momentos, a prosa beira a fúria, o que só aumenta a curiosidade do leitor para saber se Divórcio é biografia ou não. Ironia que vou julgar ter sido intencional, fazer o leitor se entregar ao mesmo mundo do jornalismo que o autor condena.

Devo dizer, entretanto, que as repetições do livro me cansaram. A metáfora insistente sobre "estar sem pele" e as descrições exaustivas da pele voltando e não voltando e se ferindo me fizeram sair da narrativa muitas vezes. Escolha estilística, imagino, mas pra mim não funcionou. O livro não fica ruim por causa disso, o resto do conteúdo compensa. Para mim ele foi além do jornalismo e brincou com esse obsceno gosto humano por tudo que é do outro, mesmo que o outro seja um fundo de banalidade tão ordinário quanto você.

Atropelando as repetições, o romance é muito interessante. Me deixou curioso pelas outras obras do autor, principalmente agora que já estou vacinado e desencanei da realidade, pelo menos quando estou lendo (às vezes nem preciso ler pra isso).

Nota: 4/5

Não confie em mim. Leia um trecho e, se gostar, compre o livro: http://www.objetiva.com.br/arquivos/capas/Divorcio__1oCapitulo.pdf?1416486760

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Les Amants Réguliers (Amantes Constantes) - Philippe Garrel [2005]


Eu tenho esse fascínio pela década de 60 que muitos de vocês já conhecem, foi isso que me levou a me interessar pelas crises políticas da época (a ditadura militar brasileira, os hippies e a contracultura nos EUA, a primavera de Praga, e os eventos de maio de 68 em Paris). Fiquei sabendo em meio às minhas pesquisas particulares da existência desse filme e logo o baixei e assisti. O diretor é Phillipe Garrel, que, em 68, fez parte da revolução, ao lado de Godard e Truffaut. Esse filme, Les Amant Réguliers (não confundam minha preferência pelo título original com pedantismo ou francofilia, é porque o título nacional é composto de duas palavras que rimam e vocês não fazem ideia do quanto isso me incomoda), é de 2005, mas tenta recapturar o espírito daquela época. Sem colocar a carroça na frente dos bois, li sobre a possibilidade desse filme ter sido uma resposta a Os Sonhadores (The Dreamers), do Bertolucci, de 2003, que trata mais ou menos do mesmo tema, a diferença sendo The Dreamers mais focado no lado erótico/sexual, e Les Amants... mais filosófico/introspectivo (não contendo uma só cena de nudez). Em uma cena, inclusive, uma personagem se volta à câmera e cita Antes da Revolução (Prima della rivoluzione), de 64, enunciando muito bem ao espectador o nome de quem dirige: Bernardo Bertolucci. Pode ou não ter sido um cutucão, um jeito discreto de dizer: você costumava se importar. Isso foi o que um crítico disse, e vocês sabem como são os críticos. Como nunca ouvi nem Garrel nem Bertolucci falarem nada sobre isso, e até onde sei os dois são amigos, não tomarei partido no caso. Mencionei apenas caso algum leitor mais informado quisesse me esclarecer.


Os conflitos entre os estudantes e os policiais na França em 1968 (época em que o governo era bastante conservador) estão cada vez maiores e mais violentos. Um grupo de jovens artistas, entre eles o poeta François (Louis Garrel) e a escultora Lilie (Clotilde Hesme), tem hábito de se reunir na casa de um amigo deles para fumar ópio, trabalhar, discutir, dançar e planejar os próximos passos da revolução. Um policial um dia vai à casa de François para perguntar porque ele não se apresentou para o exame militar obrigatório. Ele se recusa a ir com o policial e, quando este busca reforços, ele foge. Depois desse evento, François se torna mais engajado na revolução.


Em um dos "ataques", ele conhece Lilie e a reencontra numa das festas dadas na casa do "padrinho" deles todos. Os dois iniciam um relacionamento, ela tem dificuldades com a monogamia no começo, mas logo se apaixonam. A revolução, agora em 69, já foi em sua maior parte esquecida. Os trabalhadores voltaram a trabalhar e os estudantes à universidade.


É um filme de três horas, então já adianto que é indicado apenas aos que se interessam pelo tema e/ou gostam de histórias envolvendo artistas drogados e seus muitos questionamentos que os impedem de trabalhar. Se você gosta desse tipo de história (eu gosto), não será chato, as três horas passarão voando. Perfeito também para os aficionados sobre a época, já que o filme parece ter o objetivo de mostrar um retrato preciso do que foi viver naquele tempo, feito por um diretor que o viveu, lutou na revolução junto das tantas personalidades do período. Isso não quer dizer que o retrato seja romantizado ou ausente de críticas, pelo contrário, o vazio das personagens é bem demonstrado e a falta de sentido generalizada é muito bem explorada.


Estéticamente, Les Amants Régulier é uma homenagem à Nouvelle Vague. Preto e branco, cheios de diálogos tirados de livros de filosofia existencialista francesa, música somente quando necessário, quebras da quarta parede, referências a outras artes, jump-cuts, até mesmo as personagens têm um quê de godardianas, sendo que suas interações parecem cortadas diretamente dos filmes da primeira fase do auteur.


Não tem jeito de eu ser objetivo aqui. O filme, apesar de longo - uns diriam, sem estarem errados, longo demais -, tem tudo que eu gosto, trata de vários assuntos que me interessam, desde a liberdade sexual à liberdade criativa. Isso não me impede de entender que não é para todos. E não, isso não é uma dessas frases elitistas, como se o filme fosse muito complexo ou denso para certas pessoas, que, por isso, seriam inferiores. De forma alguma, muito pelo contrário. O que eu quero dizer é que ele pode ser extremamente desinteressante para muitos, e, para esses, sugiro qualquer outro filme. Talvez até algo do Godard, que com certeza é menos pessoal que esse filme do Garrel.

Nota: 5/5   

domingo, 30 de novembro de 2014

Poemas: 71 e 72

71

arte pela arte
longe das clausuras burguesas
dos grilhões da convenção social
enquanto papai pagar o aluguel
e a
         indispensável
                                  viagem à Paris
seu trabalho é sua alma
dinheiro não vale o seu sangue, você diz
sua câmera
            último modelo
        é presente do espírito santo
agora chore
esperneando pelo carinho
que seus ignorantes pais burgueses
           não souberam lhe dar
da forma e no tempo que você desejara


72*

fulano de monóculo em tarde nublada
disse fumando seu charuto
nomes são nada quando de fato
é o sobrenome capaz de amaldiçoar gerações

bem-aventurado o filho do famoso Silva, eu complemento
capaz de se confundir com filho do ordinário Silva
distante da definição da identidade

difícil vida do indivíduo inconfundível
indivisível de si mesmo e seu passado

-
*nunca mais vou pra cama sem papel e caneta, as aliterações e trocadilhos desse poema estavam tão perfeitas madrugada passada...

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Momento Musical #4 - David Bowie, Karen Dalton, The Brian Jonestown Massacre

No último momento musical eu segui um tema, mesmo tendo dito no primeiro que temas não seriam seguidos. Eis a consistência desse blog servida numa bandeja para vocês, leitores. Em compensação, o mm de hoje, número quatro, trata de três músicos que não têm absolutamente nada a ver um com um outro - o que alguns poderiam considerar um tema (a falta de um tema), mas não me venham com historinhas conceituais. (Interrupção irrelevante da CIVouVI: o senhor nomeado administrador desse blog deve parar de falar com si próprio como se estivesse falando com leitores, todos sabemos, infelizmente, que o senhor não é capaz de reunir leitores. [Querem saber, seus putos da Comissão da Casa do Caralho, isso já perdeu a graça. Se eu sou um problema são grande, me substituam.] Esse é a melhor ideia que o senhor já teve em todo esse tempo de administração incompetente. [Muito boa essa, tô esperando sentado meu substituto. Ah, e essas interrupções tão previsíveis, ok?] Como o senhor quiser.) Bom, vamos aos músicos e seus álbuns.

David Bowie - Hunky Dory 


O problema de falar sobre David Bowie é que ele não faz parte de um gênero musical, ele é um gênero musical, e um que muda frequentemente. Ele ganhou a reputação de camaleão com o passar dos anos, em parte merecida já que ele tem a tendência de mesclar com qualquer estilo que esteja na moda em determinado período, mas nunca é artificial. A "adaptação musical" é sempre do jeito dele, e é isso que eu acredito que faz a música dele tão memorável. Esse disco, Hunky Dory, de 1971, é um dos meus favoritos dele. Mas não me peçam pra classificá-lo. Escutem, vale mais a pena que ler o que eu estou escrevendo.

Karen Dalton - In My Own Time


Essa cantora...descobri da existência dela tão recentemente, mas ela gravou esse disco, uma das coisas mais perfeitas que eu já ouvi, em 1971 (ei, aparentemente essas escolhas têm algo em comum, mas não é intencional). Pela primeira vez na minha vida fiquei de luto pela morte de alguém que não conheci, e ela morreu em 1993. O mais trágico é que ela gravou três discos, em vida. Só. Tá certo que esse sozinho compensa pela discografia inteira de muitos artista. Sério, quando eu digo que minhas indicações são garantias, levem a sério pelo menos essa. Esse álbum vale a pena, não me importa do que você gosta, clique lá no play. Agora. Clicou, cretino(a)? Acho bom. Viu? Eu tava certo. Nunca mais duvide de mim. Fique de luto comigo.

The Brian Jonestown Massacre - Take It From the Man!

A década de 90 foi estranha pra música. Às vezes um estranho bom, outras um estranho ruim. Esse álbum representa todo o bem que a década de 90 fez pra música - que por sua vez foi tentar imitar a década de 60. Tem momentos experimentais que vão assustar um ou outro ouvinte, mas eu superestimo confio em meus leitores, sei que eles farão a escolha certa e ouvirão o disco (todos os três, a propósito. E no final verão cores e sentirão como se estivessem flutuando com a melodia. 

Acho que eu fui persuasivo o suficiente. Chega, é um post sobre música, não sobre o quanto eu acho que todos deveriam ouvir a tal música. E se vocês não ouvirem, o problema é de vocês e somente de vocês - eu já me fiz o favor de conhecer cada uma das faixas de cada um desses discos.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Barba Ensopada de Sangue - Daniel Galera [2012]


Por algum motivo a capa vem em três cores. O meu livro veio com a vermelha, mas pode ser azul ou verde. Não faz diferença, mas, na minha opinião, a vermelha faz mais sentido.

Há um tempo fiz a resenha de Até o dia em que o cão morreu, romance de estreia de Daniel Galera. Tinha gostado bastante do livro e dito que leria os outros assim que possível. Por causa de toda a atenção que Barba ensopada de sangue recebeu em sua época de lançamento (incluindo, além das vendas e da reação de público e crítica, vários prêmios), decidi que seria o próximo livro que leria desse autor.

O pai do protagonista sem nome vai se suicidar. A única coisa que ele quer de seu filho é que ele leve sua cachorra para ser sacrificada. Ele não obedece o pai e, ao invés disso, a leva com ele até Garopaba, cidadezinha do litoral de Santa Catarina. Vai até lá pela tranquilidade e para investigar uma história que seu pai lhe contara antes de morrer sobre seu avô. Sobre como ele sumiu após um baile na cidade, supostamente assassinado, mas sem testemunhas e sem que seu corpo pudesse ser encontrado. Ele aluga um apartamento e arranja um emprego na academia local como professor de natação para sobreviver. Leva uma vida normal, vez ou outra questionando alguns moradores sobre seu avô. O estranho é que ninguém parece se lembrar dele, mas sempre que ouvem a história o tratam com hostilidade, como se ele estivesse se metendo em território proibido.

Narrado em terceira pessoa, Barba Ensopada de Sangue consegue fazer que o leitor entre na mente do personagem sem nome devido à atenção aos detalhes. O protagonista sofre de uma doença que o faz esquecer de rostos em um curto período de tempo, até mesmo do seu próprio rosto e dos seus familiares, por isso ele foca em outros detalhes. Se ele conhece uma mulher e acha que vai vê-la novamente, repara no cabelo, em alguma marca na pele etc. - isso ele faz com todos os personagens. Por ser professor de educação física, ele tem um amplo conhecimento da anatomia humana, usando sempre os termos precisos para cada parte do corpo, assim como descreve cada passo dos exercícios diários que ele pratica e, durante as aulas que ele dá na academia, faz os outros praticarem. Vi em uma entrevista com o autor que, apesar da inserção dele na mente do protagonista fazer parecer que o livro estaria mais próximo da primeira pessoa, ele decidiu escrever em terceira justamente por isso, para poder trabalhar na narração como um escritor pensando como um professor de educação física. Afinal, por mais que o professor saiba anatomia e todos os termos complexos do corpo, dificilmente ele sabe dominar uma narrativa. A terceira pessoa permite que ele vá além, que ele saia da voz do narrador com mais liberdade sem nunca soltar tanto assim a sua mente, o que funciona muito bem em Barba Ensopada de Sangue, diria que é a narração é o ponto alto do livro.

Apesar de girar em torno de um assassinato, raros são os momentos em que essa busca move o enredo. Nesse ponto me lembrei de Haruki Murakami. Como os protagonistas do japonês, o sem-nome é levado pela investigação, e não o contrário. Ele tenta viver normalmente pela maior parte do tempo. Tem seu emprego, passeia com a cachorra, vive alguns relacionamentos emocionalmente deslocados com mulheres que conhece pela cidade, forma amizades (seus alunos e um budista de apelido Bonobo, que se tornou meu personagem favorito) e desafetos (quase a cidade toda). Um cara normal que se vê puxado por algo muito maior que ele. E, porque o mistério da morte de seu avô o parece perseguir, ele decide chegar até o fim e resolver o caso - que, vou evitar ser específico para não estragar a experiência dos que não leram ainda, toma proporções "sobrenaturais", também, mais ou menos como o Murakami.

Daniel Galera tem um puta ouvido para diálogo. Ele não separa as falas da narrativa usando aspas ou travessões, como é o comum, ao invés disso ele cormacmccartheia o texto - quem já leu Cormac McCarthy vai entender o que eu quis dizer com isso. Não fica confuso por causa dessa diferença de vez. Cada pessoa tem seu jeito de falar, uns tem seus maneirismos e regionalismos, outros não. Os diálogos soam  como conversas reais e não literárias. Ele também Cormac McCartheia nas reviravoltas violentas, consequências de certos atos do sem-nome.

O uso de notas de rodapé, emprestado talvez das notas do David Foster Wallace (cujos contos e ensaios Daniel Galera ajudou a traduzir), complementam a história, com conversas por telefone, mensagens de facebook, até o trecho do diário de uma prostituta. Nele se revelam as várias subnarrativas do livro, que mesmo focando no assassinato do avô do protagonista, carrega outras histórias, como a relação do sem-nome com sua família (especialmente o irmão e a ex-esposa, que o largou pelo irmão). São pedaços da história que vão se revelando aos poucos, dando vida ao livro e suas personagens.

Só uma nota irrelevante, mas que achei divertido compartilhar. A cachorra, cujo nome é Beta (pois é, ela tem nome, a maioria das personagens têm nome, o protagonista não), é uma pastora australiana. Mesmo sabendo como é uma pastora australiana, enquanto eu lia, minha mente formava algo parecido com uma labradora. Não sei por quê. Vai saber como funcionam essas coisas da cabeça. Talvez porque imaginar uma pastora australiana correndo debaixo do sol de Garopaba, se metendo na areia da praia e mar adentro, sem nunca tomar um banho, fosse me deixar aflito durante o livro todo. Agora voltamos para a resenha normal, mas na verdade é só o parágrafo de conclusão que vem a seguir, seus olhos já devem ter escorregado e observado que o texto está acabando.

As descrições de cenário seguem conforme as descrições das pessoas. Sem-nome é observador, por isso aponta cada detalhe dos caminhos que traça, as casas, a praia, o mar, os restaurantes, as paisagens naturais. Apesar de morar perto, nunca estive em Garopaba, mas depois de ler Barba... sinto como se já a houvesse visitado. Todos esses detalhes formam mais de 400 páginas, que nunca ficam chatas. É a junção perfeita de um livro como obra de arte e como entretenimento. Agora quero ler Mãos de Cavalo, que ouvi ser o melhor do Daniel Galera.

Nota: 5/5

Não confie em mim, leia um trecho aqui e depois compre o livro: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12453.pdf

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Pintura Para Principiantes #2 - Jackson Pollock

Anúncio irrelevante: a Comissão Imaginária de Vistoria ou de Vistoria Imaginária vem por meio deste informar que o senhor nomeado administrador deste blog foi intimado à seguir com as colunas que um dia decidira criar. Em respeito aos leitores, essa constante interrupção, coisas que começam, mas não terminam, há de parar. Seguimos agora com a programação normal, a segunda edição do quadro Pintura Para Principiantes, ou PPP (nós da CIVouVI, que admiramos as siglas, aprovamos essa escolha do nomeado administrador, aparentemente sua incompetência tem limites. [Ei! Isso foi desnecessário.] Não interfira com nossos anúncios. [Mas eles levam meia hora.] Basta! Se nos fazemos, de uma hora para outra, presentes no seu conteúdo, caro senhor, é porque por si só o senhor não dá conta do serviço.).


Nenhum leitor deve lembrar, mas no capítulo anterior (publicado meses atrás) falei de Edward Hopper. No último parágrafo, mencionei que o pintor perdeu popularidade conforme crescia o expressionismo abstrato, movimento do qual o nome mais reconhecido talvez fosse o de Jackson Pollock, que, portanto, seria o próximo tema. Como da última vez, deixo claro que não sou crítico de arte. Meu interesse por pintura é recente e meu objetivo aqui é fazer que o leitor aprenda aos poucos comigo. Isso vale mais ainda para um artista como Pollock, que até hoje causa polêmica no meio crítico, dividindo os que veem o valor da obra dele e os que não.

Nascido em 1912, Jackson Pollock começou sua carreira em 1930, inspirado por Digo Rivera e os surrealistas. No inicio, suas pinturas, embora sempre carregassem o aspecto abstrato, eram consideradas inteligíveis. Havia algo de tenebroso nelas, obscuro e por vezes violento, mas não chegavam ao caótico que caracterizaria suas principais obras.


Going West (1938), por exemplo, apresenta uma imagem, mesmo que surreal em suas formas arredondadas, escuras e oníricas, compreensível como se parte de uma narrativa. No mesmo ano, a pintura The Flame, não tão distante do estilo de Going West, já se aproxima do que viria a ser o objetivo de Pollock com a pintura. Sua maneira rústica de reproduzir chamas, com pinceladas brutas, linhas fortes e cores escuras, ele reflete, não a realidade do fogo, mas o fogo de acordo com sua visão particular, distorcida por suas próprias emoções.

   
Ainda procurando sua voz e altamente influenciado pela obra de Picasso e Miró, ele pinta The Moon Woman Cuts the Circle. Muito mais abstrato que as obras anteriores, focando na distribuição das cores e formas que geram uma ideia vaga do tema baseado pelo título. 


Foi em 1947 que ele surgiu com seu estilo e em 1949 expôs a Number One, feita em uma tela enorme, posta no chão. Pollock, então, caminhava ao redor da tela e respingava, gotejava e atirava tinta de parede na tela. O resultado era, aparentemente aleatório, o que dividiu os críticos da época. Por um lado, era sem precedentes. Nada assim nunca tinha sido efeito. Outros se perguntavam se precisava ser feito, visto que era uma obra que ignorava por completo as técnicas convencionais de pintura da época. Pollock dizia que seu objetivo era se tornar parte da pintura e esse era o único meio viável, tornar cada pincelada um movimento particular, motivado por emoção. As revistas daquele tempo diziam que assistir a Jackson Pollock pintando era como assistir a um ritual. Cada movimento que ele fazia parecia calculado e era refletido na tela.

Number One (1949)
 
Number 5 (1948)

Convergence (1952)

Blue Poles; ou Number 11 (1952)

Hoje o estilo é bastante conhecido e até considerado normal, embora sátiras e críticas não sejam incomuns. Falando como principiante admirador da arte, eu gosto. Mas entendo porque não agradaria alguns. A desordem das pinturas feitas entre 1947 e 1953 me fazem pensar na desordem da própria mente humana e, indo um pouco mais longe na filosofia de boteco, na arbitrariedade da vida.

Gostaria de ouvir a opinião dos leitores. Gostaram do estilo? Que pintor eu deveria abordar na próxima edição? Estou tentado a falar de um surrealista, mas estou aberto a sugestões. Por hoje é só. Pra encerrar, segue essa cena de Play It Again, Sam.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

O vôo da madrugada - Sérgio Sant'anna [2004]


Vi no Youtube não faz tanto tempo um trecho curto de um debate sobre o mercado editorial entre Daniel Pellizzari e Antônio Xerxenesky, um autor já resenhado nessas bandas, outro cuja coletânea de contos A página assombrada eu tenho, mas não li. Em determinado momento, Xerxenesky diz que o conto é a nova poesia, ninguém lê contos. Espera, tem acento em Xerxenesky? Não, mas o nome do livro é A página assombrada por fantasmas; pronto, corrigido. Ele está certo. Romances são bem universais entre leitores. A poesia, depois do Toda poesia, do Leminski, reviveu ou pelo menos deu cria, gerando edições similares para Ana C. e Waly Salomão. O conto morreu e permanece morto. É uma pena. Despertei para o conto só depois de um ano de leitura séria na minha vida, graças ao ou culpa de Dublinenses, do Joyce. Não podia ser mais clichê da minha parte, mas convenhamos que é uma puta coletânea. Pulei dele para Hemingway, Carver, Bolaño. Então peguei um livro do Sérgio Sant'anna ano passado e me prendi no estilo. O vôo da madrugada (mantendo a velha ortografia em respeito à edição) ganhou o Jabuti de sua forma em 2004 (pode ter sido em 2005, não sei como funciona a premiação especificamente). Disse isso na minha resenha do Carver, mas vou repetir já que é raro que meus leitores sejam completistas. Poderia fazer uma resenha para cada conto, até o mais curto, que consiste de uma folha apenas, e seriam todas longas como quaisquer outras das minhas resenhas. Mas não o farei, haja tempo. Vou mesclar tudo e, por conseqüência, fazer uma resenha superficial que, esperançosamente, alimentará a curiosidade dos meus três leitores e meio.

São dezesseis narrativas divididas em três partes. A primeira consiste de doze contos. Um não poderia ser mais variado que o outro. Cheios de brincadeiras metalinguísticas (ou deveria dizer metalingüísticas, mantendo a consistência da velha ortografia em homenagem ao título da edição, antiga porém viva? Farei isso, a pergunta foi retórica), indo de temas como o incesto, fantasmas (e atração sexual por um fantasma), fragmentos autobiográficos (ou não?) analisando a mente do contista (do contista real ou fictício?), uma análise da voz que te chama para a morte, uma conversa entre uma mulher e seu psicanalista, mais autobiografia (ou não), mais sobre a sedução da morte. Não se enganem leitores, essas não são sinopses, muito menos análises. São palavras que definem ou não os temas. Não definem, são muito rasas para definirem qualquer coisa, mas podem ser como palavras-chave. Os contos em si fazem o leitor pensar cada um dos vários significados que eles carregam. Fazem o leitor pensar no que é ficção também e qual seu papel.

A parte dois é apenas uma narrativa. Chega a ser novela? Deixarei essas definições para os críticos e professores, isso aqui é apenas um blog, uma indicação de amigo, um amigo que vocês não conhecem nem nunca viram sequer verão. O gorila, é título. Um homem, que se identifica como Gorila, faz ligações para mulheres aleatórias. Crime?, piada?, assédio?, insulto? Cada leitor pensa uma coisa, da mesma forma que cada personagem-alvo pensou uma coisa. Os papéis se invertem, vítima se torna criminoso (ou não). A narrativa é experimental. Parte diálogo, com pausas de poesia e ensaio, roteiro de tevê, trama policial. A novela faz um pouco de tudo. Sugiro ao leitor, nesse ponto, uma pausa para reflexão. Leia outra coisa antes de ir à parte três. Um conto de outro autor, talvez. Não dê muito tempo à pausa, contudo. Pense na novela. Melhor dizendo, faça uma pausa a cada narrativa e reflita sobre ela. Isso serve para toda boa coleção de contos.

Chegamos à parte três e é possível que você ainda esteja me lendo. É possível que você tenha deixado de ler quando soube que se tratava de um livro de contos. Se você for um tipo especial de idiota, é possível que você tenha deixado de ler quando soube se tratar de um livro nacional. Cada qual com sua opinião. Não se preocupem com o tipo especial de idiota, ele não está mais aqui para ser ofendido. É na terceira parte, intitulada Três textos do olhar (e você adivinhe em quantas narrativas essa parte se divide), que os limites entre a narrativa, o conto e o ensaio crítico se quebram. Uma mulher nua em um quadro se torna razão de uma análise sobre a nudez e, ao mesmo tempo, personagem do seu próprio espaço, que pode ser conto ou crítica, tanto faz. Então no segundo conto, por meio de uma fotografia, somos transportados para outro tempo, outros costumes. Mulher fotografada se torna personagem de uma história fictícia, modelo para um jovem pintor não existente que a apresenta às obras de Schiele e se transforma. A arte, no segundo conto, liberta mentes e transforma uma boa mulher de família esposa fiel em adúltera, o que não importa, já que a história não é real (ou é? Será que importa? Nada no livro é real, então que importa a vida presumida de uma mulher fotografada no Brasil da década de 20?). No terceiro, o alvo dos conto-críticas são as meninas de Balthus, como se pode presumir pelo título Contemplando as meninas de Balthus. Histórias criadas usando de combustível as sensações causadas pela arte visual estática.

Nada é perfeito. Das dezesseis narrativas, decerto algumas vão agradar e outras não. Fui tocado de certa maneira por todas, umas com mais intensidade outras com menos. Mas da mesma forma que as mulheres do Gorila interpretaram os telefonemas dele de formas diferentes, vocês interpretaram os contos de formas diferentes. Os seus favoritismos podem ou não ser iguais aos meus. Você pode não gostar de nenhum ou de todos. Ele ali pode gostar da primeira parte. Ela da terceira. O tipo especial de idiota já não está mais aqui. Eu indico a leitura. Você faça o que bem entender.

Nota: 5/5  

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Morte no quarto 812 [Conto] - parte 1

Querida Mariana,

não sei bem por onde começar. Não posso imaginar como você vá se sentir ao ler essa carta, acho que a única coisa que posso te pedir é que você me entenda. Acho que primeiro de tudo tenho que dizer que te desejo o melhor, que só tomei essa decisão que agora pode te parecer loucura porque sei que você se tornou uma mulher capaz, que assimilou ao máximo a educação que eu e sua mãe tentamos te passar. Você só tem vinte e três anos, mas tenho a sensação de que está segura, também fiz questão, antes de tomar qualquer atitude egoísta, que você não teria que precisar de mim financeiramente de novo. Não é muito que eu te deixo, é apenas o suficiente para te manter por alguns anos e meu apartamento, que você pode vender, caso não queira viver lá, eu compreendo, no seu lugar talvez não quisesse também. Acho que para esses momentos da sua vida que eu não vou acompanhar, só posso esperar que você seja feliz.

            Levantou-se da cadeira por um instante. Deixou a caneta sobre o papel para que descansassem um pouco. A caligrafia refletia o tremor de suas mãos, tinha medo que isso fosse passar uma sensação de angústia à destinatária ainda maior do que a que ela já seria submetida apenas pela ocasião. O fato de que ele não escrevia nada a mão há anos não ajudava. Tentou se lembrar de quando foi a última vez que usou papel e caneta. No passado recente, apenas para algumas poucas assinaturas. Muito provável tivesse sido nos papéis do seu divórcio. Atravessou o quarto, que era mais espaçoso do que ele esperava, e sentou-se na cama ao lado do telefone que ficava sobre a cabeceira.
            - Recepção, boa tarde.
            - Boa tarde, aqui é do quarto 812, quanto seria uma garrafa de uísque?
            - Depende da marca, senhor.
            - Quais você tem?
            - Temos Johnny Walker Red, Black, Gold e Blue label. Essas variam entre cento e oitenta e novecentos e cinquenta reais; temos Ballantine’s e Jameson por duzentos reais; temos Jack Daniels por duzentos e dez reais; temos Wild Turkey por duzentos e cinquenta reais; Chivas Regal doze anos por trezentos e quinze reais; Glenfiddich doze anos por trezentos e oitenta reais; e Chivas Regal dezoito anos por quatrocentos e trinta reais.
            Preços de hotel, como sempre.
            - Obrigado, qualquer coisa eu ligo de volta.
            - Eu que agradeço, senhor.

            Teria que passar no supermercado, compraria lá uma garrafa. Pena que queria dar uns tragos antes de sair do hotel. Não estava certo de que poderia comprar os materiais da lista enquanto sóbrio. O método era o que mais o incomodava. A velha corda no pescoço, tão rústica e antiquada, tão simples e eficaz. Sua preferência pessoal era o tiro na cabeça, parecia o mais rápido. Pensar na parte prática lhe causava náuseas. No projétil quente e veloz passando pelo cano da pistola, o chumbo sem freios encontrando sua testa, passando pelas camadas finas de pele e músculo como se não estivessem ali, então o crânio exige algum esforço, mas nada que interrompa a trajetória ou diminua consideravelmente a velocidade, toda a massa encefálica é atravessada, até que outra parte do crânio é atingida e, também, penetrada, quebrada para que a bala saia, ignorando mais uma camada de músculo, pele e, dessa vez, cabelo, e leve consigo partes do cérebro, sangue, osso, pele e cabelo, espalhando tudo pelo chão e pelas paredes; o projétil ainda viaja indiferente, parando ao atingir a parede manchada com as gotículas de sangue, talvez um pedaço de cérebro com tendências aerodinâmicas, mas não sem antes lutar um pouco e perfurá-la em uma profundidade de alguns dedos, e lá ele fica até que limpem a sujeira e removam o corpo; quem encontrar a bala vai sentir aquele arrepio na espinha de quem vê a própria morte no objeto que matou a outro, sentir sua fragilidade resumida naquele pedaço manchado de chumbo, então, dependendo da sensibilidade da pessoa, pode reviver mentalmente a cena e imaginar a bala saindo do revólver, repetir todo o processo até que ela volte à parede e as suas mãos calçadas com luvas de borracha. Se o procedimento durasse minutos, seria agonizante, mas são segundos, menos, um piscar de olhos, tamanha é a fragilidade do ser humano. E então? Ele achava que era só isso. Não estava cem por cento certo, mas achava muito difícil uma vida após a morte. Ainda assim, não era essa a parte que o incomodava. Pensava no momento, em como, apesar da trajetória da bala ser percorrida em um piscar de olhos, tempo é relativo. Em quantas coisas ele é capaz de pensar em um piscar de olhos? Em quantas coisas pensaria antes da bala levar sua vida? Haveria tempo para o arrependimento? Haveria tempo para a dor? Sentia a pele da sua testa repuxar. Coçou a cabeça, passou a mão pelo rosto, mas a impressão de que algo se rastejava por baixo da pele de sua testa não aliviava. Outro fator o mantinha intrigado, a que momento o nada – ou qualquer outra coisa que viesse após a morte – tomava conta? Não era médico, mas imaginava que o cérebro podia aguentar alguma quantia de dano antes de parar de funcionar. Podia ser logo no começo ou mais para o meio ou somente no fim de tudo e logicamente passaria tudo em um instante muito breve para ser percebido. Era por isso que preferia o tiro a pular da janela de um prédio alto, a persuasão da velocidade. O efeito da passagem lenta do tempo deveria ser o mesmo quando em queda livre, só que o tempo real é muito maior para chegar da janela do oitavo andar de um hotel até o concreto da rua do que da bala de pistola para atravessar uma cabeça. Mas será que ele sentiria a bala percorrer o interior da sua cabeça, considerando que de fato o tempo se movesse mais devagar durante o ato, conforme sua percepção? A dúvida não fazia sentido e a resposta era irrelevante. Por que ainda estava pensando naquilo? Tinha decidido meses antes que não iria se matar com um tiro na cabeça. Chegou a dar uma lida na burocracia necessária para comprar uma arma e era tudo muito caro e demorado. Não que para onde ele estava indo ele fosse precisar de tempo e dinheiro, mas se pudesse fazer de outra forma, com menos desperdício – queria deixar o máximo à filha, afinal –, ele o faria. Comprar a arma clandestinamente era outra opção, no entanto ele não tinha ideia de quem lhe poderia fornecer. Quando era adolescente, queria experimentar maconha; nem disso, algo tão banal, ele conseguiu encontrar um vendedor. Teria que procurar e fazer perguntas suspeitas ao pessoal da firma em que ele trabalhava, descobrir se alguém lá era atirador ou colecionava armas de fogo – isso se quisesse ser discreto – era muita dor de cabeça. Decidiu, então, pelo enforcamento.

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Comecei esse conto já faz meses. Vou terminar, mas antes quero terminar meu romance, antes de me dedicar aos contos (tenho toda uma coleção de contos planejada). Vou me esforçar pra trabalhar nesse esse fim de semana, nem que seja pelo blog, caso vocês, meus leitores que sei que existem, se interessarem o suficiente pra me estimular. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A coisa mais genial que eu já vi:


SAMUEL BECKETT MOTIVATIONAL CAT POSTERS (Pôsteres motivacionais de gatos, do Samuel Beckett).
Isso existe, e eu só descobri agora. Não é da minha índole fazer posts apenas divulgando uma coisa, sem acrescentar um texto ou uma opinião, acho preguiçoso. Mas isso precisa viajar o mundo e ser descoberto. Eis este tumblr: http://beckittns.tumblr.com/
De que ele consiste, você pergunta. Sabem aqueles típicos pôsteres de gatos com frases motivacionais clichê? Então, imagine os mesmos pôsteres com frases do escritor mais deprimente da história (e um gênio, um dos vários escritores que eu queria ser, gostaria de acrescentar). Mas por que estou descrevendo quando poderia estar mostrando?

Em um instante tudo irá se esvair e nós estaremos mais sozinhos, em meio ao nada! (Tradução livre e minha - isso vale pra todas as frases.)

Ele cantou sua cançãozinha,
ele bebeu sua garrafa de stout,
ele afastou uma lágrima,
ele se fez confortável.
Assim  são as coisas no mundo.
Tudo que eu quero fazer
é sentar meu rabo
e peidar
e pensar em Dante.
não poderia a visão beatífica
se tornar fonte de tédio
a longo prazo?
nada é mais engraçado que a infelicidade.
O sol brilhou,
não tendo alternativa,
sobre o nada novo.
Obs.: essa é a primeira frase de Murphy, um dos seus romances. Isso sim é começar com o pé direito.

Bom, no site tem todo um arquivo para o deleite geral dos meus leitores, sem a minha tradução. Divirtam-se.


Obs.: a Diretoria, também conhecida como Comissão Imaginária de Vistoria ou de Vistoria Imaginária, gostaria de demonstrar seu repúdio por esse tipo de postagem preguiçosa, assim como sua decepção com o nomeado administrador desse blog. (Agora vai ser sempre essa porra. O senhor não venha com esse palavreado chulo para conosco, ponha-se no seu lugar, o senhor não sabe nem ao menos formular interrogações apropriadamente. Desculpa.)

domingo, 2 de novembro de 2014

Poesia: 70

imagem recorrente imaginária
cenário:
à mesa de um restaurante barato ao meio-dia
Eros esterilizado
eu e você
uma epifania
daquelas que só quem perde seis anos da vida pode ter
a satisfação da lição aprendida
pergunto:
você está feliz?
resposta:
sim
isso me basta
ajo como se tivesse escolha
como se a resposta mudasse algo
não mudaria
mas estou pela primeira vez
completo
digo que estive apaixonado por ela esse tempo todo
ela diz que já sabia disso
eu sabia que ela sabia
sem jeito (nós ficamos)
é que agora, eu digo
sinto que passou
entre aspas
é outro amor agora
o que se sente por uma memória agradável
por bons momentos
quero que fique feliz
Eros se rebate
digo palavras que
não fossem elas sinceras
deveriam me levar à forca
pena de morte poética
crime:
idéias de auto-ajuda
mas é isso mesmo
só posso pedir perdão pelas palavras
Erato e Eros cospem na minha face
depois na minha alma e na minha libido
não me sinto derrotado

-
Vontade estranha de botar uma dedicatória nesse daí. Se não fosse minha vontade de me manter anônimo (salvo pelo meu nome e a cidade em que moro, informação que todo mundo que lê esse blog sabe), faria, mas esse não é um blog diário em que eu vômito meus problemas de maneira pseudo-reflexiva em busca de criar identificação entre mim e os leitores. Também acho melodramático deixar tão claro que determinado poema/conto/romance tem um quê de autobiográfico. As tragédias de amor tampouco valem um tostão em tempos pós-facebookianos. Amores não-correspondidos já tão velhos então, nauseantes. E a pessoa em si nem lê o que eu faço, apesar de saber que existe. Eu acho. De repente lê, mas não diz nada. Remoer por tantas linhas a dúvida do dedicar ou não dedicar também é excessivamente dramático e, até certo ponto, falso. Afinal, se a ideia era não deixar claro se o acontecimento descrito é real ou não, esse parágrafo deveria ter sido omitido. Depois de tudo isso, mais vale dedicar e dar fim a essa história. Mas dar nome aos alvos é muita cara-de-pau, quase uma invasão. Solução:

Dedicado à moça que roubou meu livro do Mia Couto. A essa altura, considere-o um presente.

Obs.: a diretoria pede desculpas aos leitores pela explosão metalinguística. O autor será devidamente repreendido, visto que esse não é o lugar para esse tipo de coisa.
Obs. 2.: a Diretoria, também conhecida como Comissão Imaginária de Vistoria (ou de Vistoria Imaginária), pede perdão por ter deixado passar a obscena troca de um mais por um mas. O autor, já em observação por seu infame metamonólogo, foi duplamente punido. A CIVouVI agradece a compreensão e informa que, se pudesse ocupar uma mente melhor, o faria.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Poesia: 69

quem irá dançar
as melodias dos músicos mortos
cujas partituras viraram poeira

quem irá cantar
suas letras compostas
em língua morta

notas enterradas pelo tempo
história sem registro
passado sem memória

sábado, 25 de outubro de 2014

A Humilhação (The Humbling) - Philip Roth [2009]


Ninguém é perfeito, essa é a moral dessa resenha. Um dos três melhores escritores americanos vivos, de acordo com o crítico Harold Bloom, junto de Don deLillo e Thomas Pynchon, depois de 30 livros escritos, também falha. Já tinha ouvido coisas péssimas desse livro, desde a Taciele do finado (ou em coma) Viva Livros até a Michiko Kakutani do New York Times. Definitivamente não é o melhor livro de introdução à obra do Philip Roth, mas eu insisti. Queria ler o livro antes do lançamento da adaptação pra cinema, com Al Pacino no papel principal - logo mais falarei uma coisa ou outra sobre o trailer desse filme e as minhas expectativas. O resultado me deixou claro que Philip Roth, mesmo quando ruim, ainda é razoavelmente bom, mas mesmo um escritor desse porte erra, e A Humilhação pode ter sido o maior erro da carreira dele.

Aos 65 anos, Simon Axler, ator de teatro responsável por dar vida aos grandes personagens de Shakespeare, Sófocles, O'Neill, esquece como atuar. Após performances terríveis em Macbeth e em A Tempestade, ele entra em depressão, se vê sem identidade. Sua esposa, ex-bailarina, não sabendo lidar com o marido em tal estado, vai embora para morar perto dos filhos na Califórnia. Pensando em suicídio, Simon se interna numa clínica psiquiátrica. Lá ele conhece outros suicidas, em especial Sybil, com quem ele divide seus problemas. Fora da clínica, algum tempo depois, ele recebe a visita de Pegeen Mike, filha de uns amigos também atores, lésbica, e os dois entram em um relacionamento.

Eu gostei desse enredo. As possibilidades são tantas e o conceito em si é ótimo. Falando dos prós em primeiro lugar, Roth entra com perfeição na mente de um ator de 65 anos que perde o talento. A descrição dos medos e ansiedades da velhice é o ponto forte do livro e muitos dos conceitos sobre morte, identidade, amor e loucura quase fazem a leitura valer a pena. Até porque a escrita em si, o jeito como as palavras usadas estão alinhadas, é muito bom. A Humilhação tinha tudo para ser um bom livro, mas, assim como Simon Axler no palco, falha em convencer e tocar o leitor.

Para começar nos problemas, a narração raramente mostra as complicações. O leitor fica sabendo dos acontecimentos ou por exposição superficial ou por meio de diálogos muito literários para saírem da boca de um ser humano normal. Quando Simon falha no palco, não estamos com ele, acompanhando o fracasso. Roth apenas nos diz, em poucas linhas, que Simon esqueceu como atuar e nós temos que acreditar nele. 

Em alguns momentos chega a parecer que Roth acertou o passo. Quando, por exemplo, a relação entre Simon e Pegeen é detalhada. A forma como um transforma o outro, o que se passa na cabeça de Simon durante o relacionamento, a transformação e aparente submissão de Pegeen, e os hábitos sexuais que os dois desenvolvem. Esses trechos são o ponto alto da narrativa, mas não deveriam ser. Quero dizer, é a parte mais interessante do livro, mas ela é envolta de tantas outras partes ainda mais essenciais e importantes que simplesmente passam e se resolvem com um ou dois parágrafos que chega a ser frustrante.

Nunca é bom para o enredo conter uma história secundária melhor que a primária, mas é o que acontece em A Humilhação. A vida de Sybil, essa sim merecia um livro. Mais de uma vez, enquanto lendo a vida de Simon, quis parar de ler e procurar pelo livro de Sybil. Ela sim sofreu, ela sim tinha motivos para se matar. Eu leria com gosto um livro sobre a Sybil, sr. Roth, fique sabendo. Não que o livro do Simon seja ruim, só não consegui me importar com ele.

A Pegeen e a relação dela com os pais também é outro grande defeito do livro. Tudo que se passa entre Pegeen e seus pais e o que eles acham de Simon é descrito por Pegeen em várias conversas com Simon. E essa conversa é cheia de "ele disse", "ela disse", "eu disse", quando muito melhor seria ter todas essas cenas narradas de verdade.

Ouvi críticas a previsibilidade da história. Não vou seguir por esta linha. É previsível, sem dúvida, mas tenho uma explicação. Ao largo da obra, Roth dá exemplos de tragédias e, ao mesmo tempo, A Humilhação segue a estrutura básica de uma tragédia, sem entrar em detalhes para não estragar a experiência de futuros leitores (não estragar ainda mais, é o que eu quero dizer). O fim da tragédia, por definição, é previsível. Acrescentaria, mas isso é só interpretação minha, podendo não ser intenção do autor, que um dos autores citados, Tchekhov, dizia que, se no primeiro ato o autor aponta uma pistola, no terceiro ele deve dispará-la. A estrutura e o final podem ter sido uma referência, por isso digo que o final foi intencionalmente previsível, o que é direito do autor e algo completamente aceitável - quem foi que disse que todo fim deve surpreender afinal? 

Durante a mesma entrevista em que Roth fala sobre escrever o oposto de Teatro de Sabbath, ele também cita Saul Bellow, outro grande escritor americano e uma das maiores influências dele. No fim da vida, Saul Bellow decidiu que não valia a pena escrever romances longos, considerando as possibilidades de sua morte gerar um trabalho incompleto (ironicamente, Bellow teve um filho aos 84 anos de idade...). Que fique claro que apesar das tantas críticas à brevidade de A Humilhação, não tenho nada contra a narrativa curta. Pelo contrário, admiro quando um autor consegue dizer o máximo usando o mínimo de palavras. O importante é que a obra curta não soa como um resumo de algo maior. Isso é o que A Humilhação se tornou, um resumo de um livro mais extenso e mais interessante.

Resta agora aguardar o filme, se é que ele já não lançou. Pela cara do trailer, ele mostra tudo que Roth decidiu apenas contar vaga e apressadamente. O excesso de comédia me deixou com um pé atrás, dando a entender que eles queria transformar a história em um filme do Woody Allen, mas mesmo isso pode até ficar interessante, se feito com sutileza. Não quero fazer previsões para não acabar decepcionado, então ficarei por aqui e, quando eu assistir o filme retomo essa discussão, fazendo um comparativo leve.

Não indico esse livro para quem não conhece o Roth. É ruim. Não é horrível, tivesse o livro sido escrito por outra pessoa, eu teria sido menos rígido na crítica e na nota. Foi o único dele que li até o momento, então não posso indicar outras obras com segurança, mas, apesar de tudo, asseguro que A Humilhação não me deixou apreensivo a conhecer o resto da obra de Roth, pelo contrário. Se em um livro tão fraco, ele foi capaz de atingir uma prosa de alta qualidade, os bons livros dele devem ser memoráveis. Indicaria apenas aos leitores mais completistas do autor, aqueles que, não importando o que eu dissesse, leriam o livro de qualquer maneira.

Nota: 2/5