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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Alguns poemas traduzidos de Frank O'Hara


Nascido em 1926, Frank O'Hara foi um poeta e crítico de arte americano famoso pelos versos autobiográficos, pessoais, inspirados pelo jazz, surrealismo e pelo expressionismo abstrato. Morreu cedo, aos 40 anos, atropelado por um Jeep em Fire Island, tendo lançado algumas coleções de poesia e vários artigos de não-ficção sobre os artistas que estavam fazendo sucesso naquela época em Nova York (Jackson Pollock, William Kooning, Franz Kline etc.). No Brasil, que eu saiba, a obra dele ainda é praticamente desconhecida, sendo que nenhum de seus livros foi traduzido por aqui. Até agora. Aqui vocês vão encontrar 5 poemas dele traduzidos por mim. Os originais eu tirei desse site, caso alguém queira ver: http://www.frankohara.org/ Por hoje é só, divirtam-se com a leitura.


ANIMAIS

Você se esquece de como nós éramos antes
quando ainda éramos de primeira classe
e o dia veio gordo com uma maçã na boca

de nada adianta preocupar com o Tempo
mas nós tínhamos alguns truques nas mangas
e fizemos umas curvas fechadas

todos os pastos pareciam nossas refeições
não precisávamos de velocímetros
de gelo e água nós fazíamos coquetéis

Eu não iria querer que fosse mais rápido
ou verde que agora se você estivesse comigo Ó você
foi o melhor de todos os meus dias

CANÇÃO
      
Eu estou preso no trânsito em um táxi
o que é típico
e não só da vida moderna

lama sobe trepada pela treliça dos meus nervos
a maioria dos amantes de Eros terminam com Venus
muss es sein? es muss nicht sein*, eu vos digo


como eu odeio doença, é como uma preocupação
que se torna realidade
e simplesmente não deve ser capaz de acontecer

em um mundo onde você é possível
meu amor
nada pode dar errado para nós, diga-me


AVE MARIA
  
Matronas da América
                               deixem seus filhos irem ao cinema!
tirem eles de casa assim eles não ficam sabendo do que vocês aprontam
é verdade que ar fresco faz bem para o corpo
                                                             mas e quanto a alma
que cresce nas trevas, gravada em imagens prateadas
e quando vocês envelhecerem como envelhecerem vocês devem
                                                                         eles não vão lhes odiar
eles não vão lhes criticar eles não vão saber
                                                            eles estarão em algum país glamouroso
que eles viram pela primeira vez numa tarde de sábado ou matando aula

eles podem até lhes ser gratos
                                                  pela primeira experiência sexual deles
que lhes custou apenas uns centavos
                                              e não perturbou a paz do lar
eles saberão de onde vem as barras de chocolate
                                                                    e os sacos gratuitos de pipoca
tão gratuitos quanto sair do cinema antes do fim do filme
com uma estranha agradável cujo apartamento fica no Edifício Paraíso na Terra
perto da Ponte Williamsburg
                                               ó matronas vocês terão feito os pivetinhos
tão feliz que mesmo que ninguém os pegue no cinema
não fará diferença
                                               e se alguém os pegar será apenas puro tempero
e eles estarão verdadeiramente entretidos de qualquer forma
ao invés de vadiando pelo quintal
                                                       ou nos quartos deles
                                                                                     lhes odiando
prematuramente já que vocês não terão feito nada horrivelmente maldoso ainda
exceto por protegê-los das alegrias mais sombrias
                                                                o que por sua vez é imperdoável
então não me culpem se vocês não seguirem esse conselho
                                                                         e a família se destruir
e seus filhos ficarem velhos e cegos em frente a televisão
                                                                                      vendo
filmes que vocês não deixaram eles verem quando eram jovens


HOJE

Ó! cangurus, lantejoulas, sodas de chocolate!
Vocês são mesmo lindas! Pérolas,
gaitas, jujubas, aspirinas! todas
as coisas que eles sempre falaram sobre

ainda fazem de um poema uma surpresa!
Essas coisas estão conosco todos os dias
até mesmo em cabeças-de-praia e caixões. Elas
têm significado. Elas são fortes como rochas.

DORMINDO SOBRE A ASA

Talvez seja para evitar alguma grande tristeza,
como em uma tragédia da Restauração o herói clama “Durma!
Ó pois o longo profundo sono e então esqueça!”
que se voa, flutuando por sobre as cidades sem costa,
guinando ascendente da calçada como um pombo
o faz quando um carro buzina ou uma porta bate, a porta
dos sonhos, vida perpetuada em amores coloridos em tons
e belas mentiras todas em línguas diferentes.

O medo também se vai, como o cimento, e você
está sobre o Atlântico. Onde fica a Espanha? onde fica
quem? A Guerra Civil foi travada para libertar os escravos,
foi? Uma repentina corrente baixa de ar te relembra da gravidade
e sua posição a respeito do amor humano. Mas
aqui é onde estão os deuses, especulando, perplexos.
Umas vez que você está desamparado, você está, dá pra acreditar
nisso? Nunca acordar para o triste esforço de um rosto?
sempre viajar por sobre qualquer vastidão impessoal,
estar por fora, para sempre, nem dentro nem para!

Os olhos rolam adormecidos como se virados pelo vento
e as pálpebras flutuam levemente abertas feito uma asa.
O mundo é um iceberg, tanta coisa é invisível!
e foi e é, e ainda a forma, ela pode estar dormindo
também. Essas características gravadas no gelo de alguém
amado que morreu, e você é um escultor sonhando espaço
e velocidade, sua mão apenas poderia ter feito isso.
Curiosidade, a mão apaixonada do desejo. Morte,
ou sono? Há velocidade o suficiente? E, mergulhando,
você renuncia tudo que você fez por si mesmo,
o reino do seu auto-navegar, pois você deve despertar

e respirar seu próprio calor nessa imagem amada
esteja ela morta ou meramente desaparecendo,
como o espaço está desaparecendo e sua singularidade.

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*Alemão para "deve ser? não deve ser". Jogo com a pergunta de Beethoven no quarteto de cordas nº 16, opus 35 (no caso, a frase é "muss es sein? es muss sein!"). Nesse caso, a pergunta serve para questionar os padrões de sexualidade, tema que ainda era "novidade" na época (entre aspas, já que homossexualidade é coisa discutida desde a Grécia Antiga), vide o verso "a maioria dos amantes de Eros (sexo) terminam com Vênus (mulher)", então segue "deve ser? não deve ser".

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