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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Androides sonham com ovelhas elétricas? (Do androids dream of electric sheep?) - Philip K. Dick [1968], seguido de uma breve comparação com Blade Runner



Eu provavelmente, antes de começar, deveria escrever uma coisa ou outra sobre a recente ausência total de resenhas nesse blog. Se alguém ainda se interessa em saber, o motivo é aquilo que eu já falei sobre várias vezes: detesto resenhar. Vejam bem, não que eu desgoste de falar sobre coisas que me agradaram, mas é que, quanto mais o tempo passa e eu penso sobre o ato de resenhar, mais inútil eu acho que ele é. Toda aquela questão do gosto ser subjetivo. Poderia resumir, por exemplo, numa frase recorrente em resenhas, principalmente amadoras em sites como Skoob, IMDB, locais que permitem a disseminação indiscriminada de opiniões pessoais. É muito comum encontrar nesses textos gente que diga não achar ter experimentado a mesmo coisa que os outros (geralmente quando a opinião em particular é diferente da média). Mais e mais eu acredito na literalidade dessa frase. Cada experiência é única, cada leitura forma um livro diferente etc. Não somos "programados" da mesma maneira. Isso quer dizer que não é interessante saber como foi a experiência do outro? Não. Talvez seja por isso que eu insista. Só espero que eu não seja levado tão a sério.

Num futuro próximo, pós-apocalíptico, resultado de uma guerra nuclear, os seres humanos são incentivados a emigrarem para Marte - ganhando um androide para chamar de seu na viagem -, colônia da Terra. Aqueles que não querem viver em Marte e aqueles que não podem porque foram atingidos pela radiação (chamados "especiais" ou cabeça de galinha) são obrigados a ocupar os pequenos cantos habitáveis da Terra. Por causa da radiação, a maior parte dos animais foi exterminado, por isso cuidar de um é sinal de status, principalmente quando o animal é raro e não doméstico. Rick Deckard, caçador de recompensas, tinha uma ovelha, mas ela morreu e foi substituída por uma elétrica - motivo de vergonha para Deckard e sua esposa, por isso ninguém da sua vizinhança sabe que ela é falsa, enquanto ele planeja comprar um animal de verdade, um grande, como um cavalo - que está começando a dar defeito.

Caçadores de recompensa são necessários para capturar e "aposentar" androides que fogem das colônias para viver na Terra - o que é proibido. Inicialmente era fácil distinguir um androide de um ser humano, mas, com os avanços tecnológicos, os modelos foram se aproximando cada vez mais da realidade, tornando necessário o uso de testes. O que Deckard usa, considerado o mais eficiente, é o Voigt-Kampff, em que uma série de perguntas é feita ao androide e o caçador analisa, com o auxílio de máquinas, suas reações. As perguntas buscam verificar a presença da única coisa do ser humano que o androide ainda não consegue simular, a empatia - principalmente perante animais (vale apontar que animais não são só sinal de status, a extinção da maior parte deles causou também uma mudança de atitude no ser humano e consumir carne, por exemplo, foi proibido e considerado imoral - essencialmente o livro diz que no futuro seremos todos veganos).

Deckard é encarregado de aposentar seis fugitivos de um modelo novo de androide, o Nexus-6, que supera o ser humano em várias características e é até capaz de fingir empatia - embora não reaja na mesma velocidade de um humano. Essa proximidade faz Deckard questionar a ética da sua função.

O livro é narrado em terceira pessoa, sendo que o ponto de vista varia entre Deckard e J. R. Isidore, um especial, que trabalha numa clínica para animais elétricos e abriga um grupo de androides após se apaixonar por uma delas - e ele se identificava melhor com androides do que seres humanos já que suas limitações eram muito similares às deles. Enquanto Deckard tem uma visão e conhecimento amplo da sociedade ao redor, Isidore conhece apenas o que o único entretenimento permitido no planeta o informa (os programas de rádio e televisão do Buster Gente Fina e seus Amigos Gente Boa) e aquilo que o mercerismo (religião dessa nova sociedade) prega.

É complicado falar desse livro por culpa de todos os pequenos detalhes. Em duzentas e trinta e poucas páginas, Philip K. Dick fala sobre religião, drogas - nesse caso, aparelhos eletrônicos que literalmente permitem que a pessoa escolha suas emoções como quem escolhe um prato de um cardápio de restaurante -, existência e o que faz um ser humano. Ele tem a habilidade de levar o leitor em suas próprias divagações e fazer com que ele também questione a si mesmo. Por exemplo, a partir de o momento em que uma forma inorgânica, artificial, moldada para parecer humana e programada para agir como tal, desenvolve autoconsciência e a ilusão de que é, como qualquer outro ser parecido com ela, viva, o que faz dela menos humana considerando que nós, não-artificiais, não sabemos de onde viemos, para que viemos etc. Com ou sem uma presença divina criativa, somos criatura; se do acaso ou do Macaco Sábio da Montanha, não importa. Também somos criativos. Se chegarmos ao ponto tecnológico de sermos capazes de criar uma forma de vida artificial, o que faria dessa criatura inferior a nós criaturas/criadoras? E se nossa criatura for, também, capaz de criar com a mesma habilidade. E assim segue. Pois é. Não sei. Efeitos colaterais desse livro, vejam só.

Então, em 1982, Blade Runner saiu nos cinemas, dirigido por Ridley Scott. É difícil comparar os dois, pois são animais diferentes. Arriscaria dizer que é a adaptação perfeita. Diferente do original, consciente da diferença entre os meios literatura e cinema, ainda respeitosa da essência da obra adaptada. Um complementa o outro, na verdade. O próprio autor, que viu algumas cenas - morreu antes do lançamento do filme - durante a edição, disse que as imagens eram representativas de sua imaginação (e se existe uma raça difícil de agradar é o escritor; lembrando que Stephen King odiou O Iluminado, e Anthony Burgess odiou Laranja Mecânica, ambos do Kubrick).

No filme, todo o lado que fala sobre os animais não foi citado. Lembro de ter visto uma cobra elétrica, mas ela é só cenário, talvez uma referência, mas Deckard não tem uma ovelha. Por questões mercadólogicas, o Deckard do filme é muito mais novo que o do livro, interpretado pelo Harrison Ford, já famoso por Guerra nas Estrelas. E ao invés de Deckard ser um caçador de recompensas como qualquer outro, de 50 e poucos anos, casado, de classe média baixa e, em geral, insatisfeito, ele é considerado o melhor blade runner (nome que o filme deu aos caçadores de recompensa, mas que não aparece nenhuma vez no livro - na verdade é referente a outro livro, quase desconhecido, de ficção científica), mas quer se aposentar, a caça aos androides de novo modelo é sua última. Os androides, por sua vez, não são só mais inteligentes, são mais fortes e ágeis que os seres humanos, e muito mais violentos no filme que no livro.

O Deckard do filme ainda é atingido pela dúvida existencial, mas é muito mais sutil. Soube que o filme foi para o cinema com narração dos pensamentos do Deckard (coisa que Harrison Ford odiou fazer), mas eu não vi essa versão. Indico pra todos a versão Director's Cut, que tem cenas a mais e cortaram a narração. As expressões do Ford bastam pra deixar a crise existencial subentendida. Já Isidore, quase não faz parte do filme. O seu ponto de vista não é mostrado, no seu lugar, acompanhamos a androide que vive com ele em maior detalhe - toda a questão dos cabeça de galinha é ignorada. O filme também não mostra o Buster Gente Fina nem muito menos seus Amigos Gente Boa.

Incompleto que seja, o filme é um espetáculo visual. Apesar de 2019 não ser mais um futuro distante e estarmos longe do tipo de sociedade retratada e suas tecnologias - e, em contrapartida, os termos superado em muitos aspectos -, é uma experiência e tanto. Um dos melhores filmes de ficção científica, com toda certeza. Tem momentos de ação, mas não deixa seu ritmo ser regido por eles, mantendo um clima neo noir, ao estilo Raymond Chandler encontra robôs, armas laser e carros voadores. O livro tem tudo isso, mas de maneira bem mais contida e num clima mais filosófico e contemplativo. De fato, se completam. Algumas pessoas preferem ler o livro primeiro, outros preferem ver o filme, esse é um dos raros casos em que isso não importa. Dificilmente alguém fará um sem ser levado a fazer o outro.

Nota: 5/5

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