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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Haruki Murakami e o Nobel; ou por que vocês têm que parar de encher o saco com isso.

Murakami e gato. O gato desapareceu depois da foto.

Leitores costumam ter uma relação bipolar com o Nobel. É igual cinéfilos e o Oscar. Ambos são prêmios desvalorizados, vistos como falsos representantes daquilo que há de melhor nas artes que eles tentam prestigiar. O que mais se vê são comentários mencionando as omissões dos prêmios (como Nabokov/Kubrick não ganhou nada?) e erros (Que porra é Eyvind Johnson?/Crash ganhou oscar?) usados de argumento para provar a falta de valor do prêmio, no entanto, chegada a época dos resultados, todos têm um favorito e uma opinião sobre os concorrentes. (Isso é particularmente engraçado no caso do Nobel, já que ninguém além dos responsáveis pela premiação tem acesso à listagem de candidatos, e todas as previsões e apostas são baseadas em pura especulação.) Então, quando o tal favorito perde, os prêmios voltar a ter valor nenhum, os ganhadores voltam a ser escolhidos por vantagens acadêmicas e politicagem (obviamente não seria o caso, fosse o favorito o vencedor), e ninguém se lembra do prêmio até mais ou menos chegar a época de uma nova premiação.

Se tem algo que simboliza perfeitamente esse exercício exaustivo de futilidade é o favoritismo por Haruki Murakami. Mais uma vez ele perdeu. O motivo do favoritismo, ele é muito popular e o nome dele apareceu entre os primeiros num site de apostas. Vale lembrar que não há evidência nenhuma de que a Academia tem Murakami em seu radar. Com certeza eles o conhecem e existem possibilidades altas de que ele está listado entre as opções,  mas não há provas concretas. Só saberemos daqui a 50 anos, quando as listagens forem publicadas*. Nesse dia, renascerá a polêmica, mesmo que os autores já estejam mais do que mortos, como aconteceu quando publicaram a listagem do ano em que Steinbeck foi laureado ao invés de Marguerite Duras, Lawrence Durrell e J. R. R. Tolkien. Multidões de nerds surgiram dos esgotos da internet em protesto a esse julgamento, mesmo que todos os envolvidos nele já estivessem mortos - aí entendemos o motivo da espera. Tudo isso por causa de um prêmio desprovido de relevância cultural, motivado por interesses de acadêmicos elitistas, eurocêntricos, comprados. (Não estou dizendo que os acadêmicos não sejam elitistas, eurocêntricos, comprados. Estou apenas apontando a ironia da revolta.)

De qualquer forma, alguém decidiu que, não só o Murakami merece o prêmio, mas que todo o ano ele perde por um triz. Então debates vem à tona tentando desvendar a razão dessa negligência, mesmo quando a resposta é tão simples: a maioria dos envolvidos (sempre autores, poetas, pessoas envolvidas na criação literária, de acordo com Peter Englund, secretário permanente da Academia sueca) votou em outro autor, que o determinado número de envolvidos, representantes dessa maioria, julgou estar mais próximo dos valores defendidos pelo Nobel e, portanto, merecer mais. Parece uma observação simplista (porque é), mas considerando que o Nobel tem um histórico de escolher autores mais engajados politicamente, com uma obra mais séria e academicamente polida, e que eles criaram o hábito de variar o gênero e nacionalidade do ganhador após inúmeras acusações - bastante precisas, por sinal - de euro e androcentrismo. Vendo por essa perspectiva, faz todo o sentido do mundo que Svetlana Alexievich tenha ganho esse ano e, não sendo ela, que outros autores, ainda vivos e mais relevantes, viriam primeiro que o Muraka.

Li um texto que dizia que o motivo da rejeição ao Murakami é sua falta de presença na política. Isso é incorreto. A participação política de Murakami é sutil e nem sempre está contida em sua literatura. Seus personagens podem ser, ou se dizer, apolíticos, mas vivem em ambientes políticos, como todos nós, mesmo que o ambiente em questão seja totalmente fictício (o Fim do Mundo, em Hardboiled Wonderland, com suas regras, não deixa de ser político, cheio de características típicas de um governo totalitário, até com um quê stalinista). A auto-exclusão política do narrador, por consequência, torna quaisquer críticas sociais/políticas um tanto ingênuas, mas elas estão lá. Em Dance Dance Dance são feitas várias menções aos problemas do capitalismo. O mesmo pode ser visto em Após o Anoitecer e Caçando Carneiros. Em Norwegian Wood, a universidade em que o narrador estuda passa por frequentes revoltas estudantis típicas da década de 60, nas quais o narrador obviamente não se envolve, mas nunca é omitida do texto, fazendo que o leitor a assista, mesmo que de muito longe para poder enxergar qualquer coisa. Em Wind-up Bird Chronicle, um capítulo ou mais é dedicado aos relatos de um militar aposentado sobre sua função na Manchúria, durante a Segunda Guerra Mundial. Underground é um livro inteiro feito com relatos de sobreviventes e membros do culto religioso responsável pelo ataque de gás sarin no metrô de Tóquio. Ele usa essas entrevistas para descrever certas características da cultura japonesa - especialmente o gosto pela servidão e a mentalidade de rebanho - que ele abomina. (Válido apontar que esse mesmo tema foi usado pelo laureado, Kenzaburo Oe, alguns anos após receber o Nobel e da publicação do livro do Murakami. Oe foi um forte crítico da literatura do Murakami, nas fases iniciais, hoje parece ter mudado de opinião, embora o considere cultura de massa.) Uns poderiam dizer que isso é só um detalhe, que não é o grosso da literatura do Murakami, e com isso eu concordo. Mas dificilmente eu diria que a maior parte dos ganhadores do Nobel tenha mais política em seus textos que o Murakami. Yasunari Kawabata (primeiro Nobel japonês), por exemplo, não tinha nada, e era completamente contrário aos textos idealistas ou políticos, fazendo parte de um movimento focado na arte pela arte. Além do mais, quando se diz que o Nobel leva em consideração a presença política do autor, não vale apenas para a produção literária. E isso o Murakami adquiriu em tempos recentes. Ele fez vários pronunciamentos questionando a maneira como se dão as relações diplomáticas entre Japão e China, e crítica severamente o hábito japonês de ignorar seus pecados históricos, cutucando feridas profundas. Exemplo é maneira como ele cita os campos de concentração que o exército japonês manteve na China durante a Segunda Guerra Mundial. Campos pequenos em comparação aos alemães, mas tão cruéis quanto, utilizados principalmente para experimentos médicos e militares (atos costumeiros podem incluir: testes de resistência humana a baixas temperaturas, mantendo adultos desnutridos e sem roupa no frio extremo e forçando uma mãe a enterrar o seu bebê na neve para ver quanto tempo ele sobreviveria; experimentos em câmaras pressurizadoras; amarrar civis ou prisioneiros de guerra em postes, cercados por bombas, para medir o alcance destas e o tamanho do estrago no corpo humano conforme a distância etc.). Mencionou o estupro de Nanking (outro crime de guerra cometido pelo Japão contra a China). Tudo motivado pelas tentativas de grupos nacionalistas japoneses apagarem esses momentos dos livros de história - momentos estes que já não são ensinados nas escolas de lá. Se isso não é engajamento político, eu não sei o que é. Se o Nobel tem um mínimo de zelo por simetria em suas escolhas, Murakami já classificaria pelo simples fato de estar acima de Kawabata em se tratando de engajamento.

Falemos um pouco desse gosto que todos acreditam que os acadêmicos do Nobel têm pelo engajamento. Pra começar, existe uma dualidade aqui. Há o engajamento bom e o engajamento ruim. Nem todo o engajamento é visto com bons olhos pelos acadêmicos. Vejam bem, acredito que existam poucos autores - quem sabe até seres humanos - mais politizados que Yukio Mishima. O homem acreditava nos ideais conservadores do Japão feudal e nos poderes divinos do imperador, organizou uma milícia e tentou um golpe militar. Lógico, após seu discurso, ele foi ridicularizado e cometeu seppuku. (A tradição do ritual suicida dos samurais sempre o atraiu esteticamente, então não se sabe se ele falhou e cometeu suicídio ou se falhou para cometer suicídio, biógrafos debatem. Também, reza a lenda que o encarregado de o decapitar após o término do ritual falhou. Tentou, sem sucesso, cortar a cabeça de Mishima algumas vezes até ceder a espada para outra pessoa, mais competente. Em vergonha pela falha e por ter aumentado consideravelmente a já incrível agonia pela qual o autor estava passando, o encarregado cometeu seppuku também. O substituto decapitou a ambos com sucesso e talvez esteja vivo ainda.) Outro exemplo de engajamento ruim é Ezra Pound. Indicado por vários anos para o Nobel e tão merecedor quanto qualquer outro poeta, o homem era um baita fascista, defensor ferrenho de Mussolini. Tanto que foi preso por traição pelo governo americano. Heidegger também foi indicado e perdeu. Talvez porque ele tenha se filiado ao partido nazista. E tenha cultivado um bigode de Chaplin (também conhecido por enfeitar a cara de um outro certo ditador alemão, meio desconhecido... vocês não devem ter ouvido falar dele, deixa pra lá). Ninguém pode dizer que eles não são engajados, só que para o time errado. Até nisso o Murakami tem uma vantagem. Está engajado para o time certo.

O problema aqui é outro. Todos amamos Murakami. Ele escreve numa prosa simples, fluida, histórias fantásticas etc. etc. Não há dúvidas que ele é um puta escritor. Mas é material de Nobel? Pra começar, um Nobel não é certificado de qualidade. É apenas um grupo enorme de intelectuais, acadêmicos, gente importante do meio literário, alguns até laureados pela própria instituição. Se é difícil um bando de boêmio chegar a um consenso sobre qualquer coisa no boteco, imagina pensadores "sérios" decidindo pra qual colega entregar um prêmio de tantos milhões de euros? Critérios como qualidade literária e engajamento político são reducionistas nessas horas, considerando que os candidatos são escolhidos por indicação e o vencedor por voto após debate. Por melhor que o Murakami seja pra nós, ele não é bom o bastante. Vejam bem, todos que já leram muito do Murakami (eu, por exemplo) sabem que ele é cheio dos clichês. Não são clichês nem fórmulas tradicionais, mas são os que ele adotou. E ele ama os clichês dele de paixão. Gatos, gente desaparecendo, mulheres que servem de guia pra história, todos os livros dele têm isso. Em resumo, esse tipo de defeito, pega mal.

Com isso eu não quero dizer que ele não vá ganhar o Nobel nunca. De repente, como ele ainda tem alguns anos de carreira, ele consiga fazer a grande obra-prima, que mude a cabeça de todos os seus críticos. Posso dizer com segurança que ele não ganhou até agora porque não merece. Isso não significa que todos os ganhadores até agora mereceram, nem muito menos que eu saiba do que eu estou falando. Minha opinião é tão especulativa e fútil quanto a de todos outros, talvez, eu gosto de acreditar, apenas um pouco melhor pesquisada (eu trouxe, afinal, dados para vocês, não?). Eu tenho fé no Murakami, gosto da literatura dele, mas tô pouco me fodendo se ele vai receber ou não o Nobel. Sinceramente, prefiro que não ganhe. Sinceramente, ele não tá na mesma categoria. É o seguinte, ele tem aquele estilo jazzman, beat atrasado, contra-cultura, que não combina. É hippie entre banqueiros, sacam? Ele não vai ganhar, na minha opinião, da mesma forma que o Kerouac não ganhou. Outro estilo, outra vida. Relaxem, meus filhos. 


* A lista de candidatos de 1964, ano em que Sartre foi laureado, inclui 76 autores, entre eles: Vladimir Nabokov, Yukio Mishima, Jorge Luis Borges, Junichiro Tanizaki, Yasunari Kawabata, Pablo Neruda, Alberto Moravia, André Malraux, Ernst Jünger, Eugène Ionesco e Samuel Beckett. Alguns desses autores ganharam anos depois, outros nunca. Alguns, como vocês podem ter percebido, até hoje são caso de polêmica. Na verdade, para melhor compreensão do pensamento (ir)racional dos Acadêmicos do Nobel, uma olhada nos arquivos de candidatos se faz muito necessária. Por exemplo, o fato de Paul Valéry ter sido negligenciado por mais de uma década (ao todo, foi nomeado 27 vezes entre 1930 e 1945, ano de sua morte) e James Joyce, Guimarães Rosa e Virginia Woolf nem serem citados serve para ilustrar o quão arbitrário é o processo de decisão dos laureados.

Curiosidade 1: o único autor brasileiro nomeado nos anos publicados até hoje foi Érico Veríssimo, em 1963, que eu tenha visto. Giorgios Seferis foi o ganhador nesse ano.

Curiosidade 2: pro ano que vem, meu dinheiro está no Adonis.

Esse é o primeiro post sobre o Nobel nesse blog. Outro sairá, da próxima vez falando dos brasileiros.

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