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domingo, 30 de dezembro de 2012

Após o Anoitecer - Haruki Murakami (Resenha)


Primeiramente, sinto pela minha ausência nos últimos dias. Foi por um curto período e ninguém se deu falta, mas ainda assim, foi estranho para mim me ausentar desse meu pequeno centro terapêutico pessoal. A questão é que eu sempre me sinto pouco a vontade nessa época do ano, não consigo entender todo o significado, entende? Não? Não se preocupe, estou preparando (fazendo notas mentais e inserindo esse assunto em meus devaneios) um post sobre isso, que será jogado aqui um dia desses.

Sabe, este blog tem um monte de tradições (ou repetições) considerando sua pouca idade. Comentários sobre a beleza das atrizes presentes nos filmes resenhados; comentários sobre o baixo número de visitas, desconsiderando minha aparente indisposição para tomar atitudes que mudem a situação; uso de memórias ou casos pessoais para cobrir alguns parágrafos dos textos; posts com continuações nunca postadas; observações não-relacionadas ao assunto do texto e, vez ou outra, incoerentes e, finalmente, resenhas dos livros do Murakami. A verdade é que não leio muitos livros atuais e não me sinto a vontade resenhando clássicos - não me acho digno -, meu amigo Muraka, é o único autor "atual" que eu dei confiança e não me decepcionou - Kundera talvez se encaixe também, mas ele é bem mais velho... -; e como esse blog não é de resenhas gerais, mas sim resenhas das coisas que eu conheço, leio escuto e assisto, me vejo forçado a escrever mais e mais sobre o seu Haruki. Que posso fazer se esse é genial?

Vamos ao livro. Mari é uma jovem de 19 anos, insegura e que está tentando se recuperar do fato de ter passado a juventude sob a sombra de sua irmã mais velha, Eri, modelo por profissão e perfeita por força do acaso, que, cansada da coisa toda decide dormir e não acorda mais. Mari, decidi sair durante uma noite e então encontra o trombonista de jazz, Takahashi, que devido à alguns problemas familiares, procura um sentido para a vida. Nesse meio tempo, uma prostituta chinesa é espancada no Alphaville (busque no google a referência), e sua gerente, Kaoru, precisa da ajuda de Mari (fluente em chinês), para descobrir o que houve e resolver o caso. Com isso, acaba se envolvendo com a máfia chinesa. Bastante coisa para só 204 páginas, não?

A narração acontece em terceira pessoa (caso raro para o Murakami) e acompanhada de um pequeno relógio, para que o leitor acompanhe o período da madrugada em que se ocorre o cenário descrito. O livro também, como já é de se esperar, fica um tanto surreal em certos pontos, de modo a tornar a história ainda mais fascinante. Além disso tudo, o autor decide usar a 1ª pessoa do plural em muitos pontos da narração, como se este quisesse levar consigo o leitor para dentro desse mundo chamado madrugada de Tóquio.

Um livro fascinante, com muitos pontos deixados em aberto para interpretação do leitor, como o sono eterno de Eri, que pode ser simbolismo para uma vida superficial e fora da realidade, e a presença do homem sem rosto - que nunca é explicada. Vale não só a leitura, mas uma releitura. 

E como não poderia faltar, vamos ao resultado do Haruki Murakami Bingo, fala Lombardi:
Unexpected phone call - cats - old jazz record - train station - parallel worlds - tokyo at night - unusual name.
E, como sempre, nenhuma fileira completa.



Nota: 5,0/5,0 - porque eu ainda não consegui encontrar nenhum livro ruim para resenhar nesse blog...

sábado, 8 de dezembro de 2012

Sobre a Música - parte 2 (Hora da História com o Tio Rapha)

Onde foi que eu parei da última vez mesmo? Estava falando alguma coisa sobre o rock psicodélico, década de 60, verão do amor e como essa forma de pensar e formar sociedade, dos hippies, me influenciou na adolescência, certo? Deve de ter sido alguma coisa assim... Hoje eu vou variar os gêneros, falar sobre o que aconteceu depois e, quem sabe se der tempo, fazer algumas críticas, pois é isso que eu faço de melhor nessa vida - reclamar.
A transição do Heavy Metal moderno para o rock de 60 fez com que eu mudasse por completo minha visão sobre música. Antes eu me importava com a parte técnica do negócio, o que, em retrospecto, parece bastante ridículo, considerando que meu conhecimento técnico sobre música é mínimo. De qualquer forma, me interessava por quantas notas um guitarrista conseguia enfiar em seu solo, por segundo; por quanto tempo a música durava; mudanças abruptas de ritmo; alcançe vocal e afinação do vocalista; enfim, toda essa bobagem pretensiosa que não significa porra nenhuma. Os hippies me ensinaram que tudo isso pode ir à merda, basta se importar com o conteúdo de sua música e deixar a coisa levar. Jimi Hendrix era um gênio, mas o próprio admitia cometer erros graves, técnicamente falando, em seus shows. Mas agora você, caro leitor, me diga se é perceptível, ou melhor se realmente importa. Feche os olhos e tente se isolar do resto do mundo ouvindo um disco ao vivo do Hendrix e me diga se existe, no rock, coisa mais perfeita. Janis Joplin desafinava, Grace Slick desafinava, Bob Dylan nunca acertou um tom na vida, mesmo assim, são as melhores vozes do gênero. Eram simples, eram puros, mas se importavam com a música, com a arte da coisa. É esse "se importar" que realmente me interessa. Bandas como Spirit, Grateful Dead, o músico Frank Zappa, Tomorrow, atingiram um sucesso comercial mínimo durante suas carreiras, mas em nenhum momento adaptaram suas composições para deixar mais agradável para o ouvinte. Faziam o que queriam e isso simplismente não existe mais em nossa indústria musical. Talvez com exceção de Black Crowes (pelo menos nos últimos discos), Siena Root, Baby Woodrose, Weird Owl e coisas assim, mas quem é que ouviu falar desses caras?

Creio que isso é coisa de época esse "se importar". Antes fazia parte da música, era inseparável, era o fator que a garantia o título de arte. Com certeza deve ter existido algum compositor barroco que adaptava suas composições conforme o desejo do rei, mas este se perdeu no tempo. Deve ter sido um grande sucesso na época, mas logo foi cansando e o substituíram por algum novo compositor, com a mesma falha de caráter, mas dessa vez com composições clássicas, ou talvez óperas. Os de verdade, aqueles que lançavam sua alma e sua mente nas notas, esses são ouvidos até hoje. Talvez os jovens mais ignorantes não saibam os nomes desses caras, mas com certeza já ouviram suas músicas.
E é partindo dessa ideia que eu começo minhas reclamações. Não sou desses que definem a qualidade de uma música partindo do gênero. Acho que todos têm seus representantes respeitáveis e todos têm os vergonhosos. Convenhamos, uma pessoas não gostar de sertanejo universitário, mas ouvir Poison, não é tão diferente assim, certo? Desculpe-me se te ofendi, mas é a verdade, ambas se venderam para o que estava na moda na época. Hoje são uns playboys de camisa polo apertada, cabelo espetado e bota de cowboy, falando sobre balada, bebida ruim e dinheiro; antes eram umas bonecas infláveis, com um penteado igual ao da sua mãe, vestindo só Krishna sabe o que, falando sobre cocaína, mulher fácil e bebida boa (até que os temas não eram ruins, mas a musicalidade era fraca...). O que eu quero dizer é que, assim como o sertanejo, o tão amado rock também ficou inteiramente pretensioso e se vendeu para qualquer coisa que desse algum dinheiro. Independentemente, o resultado é sempre o mesmo. Que fim levou Poison? O mesmo que levou Wham, Peter Frampton (perdão, ele tem seus méritos, mas I'm In You foi de foder a alma),  A-ha, o compositor que eu inventei que tocava para amansar o ego do rei e, logo logo, aquele vesgo afeminado e o cara parecido com o Neymar (quase todo mundo hoje dia) - o esquecimento.

Não existe gênero musical sagrado. Todos têm algum representante vergonhoso que merece o fim que recebe. A parte triste é que, coisa boa não falta, no entanto a maior parte das pessoas prefere a música ruim, dá valor e apoia a música ruim - até mesmo as pessoas que reclamam do funk e do sertanejo. O motivo disso é que os reclamões raramente se dão ao trabalho de caçar as coisas boas e perdem seu tempo ouvindo justamente aquilo que tanto dizem odiar. Tal qual o cretino que fala mal do Faustão todo o Domingo, enquanto assiste as Cassetadas (ainda existe isso?).

Eu me perdi legal nessa porra... O objetivo era falar um pouco sobre a parte boa do rock, que eu não cobri no texto anterior, e partir para o jazz e o blues, mas eu já escrevi demais nesse texto, que era pra ter sido postado aqui ontem. Acho que o objetivo disso tudo foi dizer: não reclame, procure qualquer coisa que te agrada. Exceto que aquilo que não te agrada lhe esteja sendo imposto, então você reclama, mas em qualquer outra circunstância - cale a boca e vá à caça (ou à merda, tanto faz pra mim)!

Mais alguns exemplos das bandas citadas hoje, premiando você que leu essa porra até o fim (ou simplesmente correu com o mouse para o fim do texto), em especial pra quem diz que não tem nada bom na música atual:







segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Dançando no Escuro (2000) - Resenha

Quanto mais eu ouvia ou lia sobre os filmes do dinamarquês Lars Von Trier, mas eu os evitava. Gosto de uma tragédia tanto quanto qualquer um, mas seus roteiros e o clima de seus filmes me faziam pensar que ele se esforçava para desenvolver uma depressão profunda em qualquer um que viesse a assistir seus filmes. No entanto, ouvi maravilhas quanto a qualidade de sua obra e esforço em tornar seus filmes uma obra de arte. Então decidi assistir ao musical Dançando no Escuro.
 
Nunca valorizei musicais. Minha opinião é a mesma do Jeff (personagem do filme), não consigo entender o porquê dos personagens começarem a dançar e cantar, sem motivo, em situações cotidianas. Pra mim isso é idiotice. Ainda assim abro exceções para My Fair Lady (por causa da Audrey) e alguns outros que me convenceram de que, apesar da cantoria, o enredo é plausível. Dançando no Escuro, entrou na lista das minhas exceções. Nunca vi um musical assim antes, feito de modo que até a cantoria se encaixa de alguma forma no roteiro, sem dar aquela impressão de "pausa abrupta para música".
 
Vamos a história. Selma (Björk), veio da Tchecoslovaquia para os EUA, na esperança de juntar dinheiro para uma operação nos olhos de seu filho. Ela sofre de uma doença congênita e está, aos poucos, ficando cega. Seu filho sofre da mesma doença, embora não saiba, pois a preocupação pode piorar seu estado. Selma não gosta do capitalismo, crê que o comunismo de sua terra natal é melhor para as pessoas, mas ama os musicais americanos. Divide seu tempo entre o trabalho em uma fábrica (arriscado considerando sua doença), a criação de seu filho (dividida com os vizinhos e proprietários do terreno que ela aluga) e os ensaios de um musical amador da cidade. Tudo vai bem, até que merda acontece e eu entendi porque os filmes do Lars von Trier causam depressão. Não falarei o que acontece, veja e descubra. Exceto que você tenha tendências suicídas, nesse caso, fique longe desse filme.
 
Esse filme é o último da trilogia "Corações de Ouro" do diretor, que se baseia no tema "heroínas que, independentemente da tragédia, mantém seu coração de ouro". Isso define bem o filme. Ainda assim, a heroína não é perfeita todo o tempo, ela sofre e se desespera como qualquer outra pessoa que vê sua vida chegando ao fim e o futuro do seu filho em risco. É um filme humano, que explora nosso lado desumano e o teatro dos tribunais. Tudo isso junto aos sonhos musicais (compostos e interpretados por Björk, com letra do Lars) de Selma, que deixam o tom do filme mais leve, embora fique sempre claro de que estes não são nada mais que uma tentativa de fuga ilusória do destino terrível. Ficou claro que não é um desses filmes para se assistir casualmente, para entretenimento.
 
Outro detalhe, o filme é feito levando em consideração as regras do Dogma 95. Quebra algumas regras, mas segue as mais importantes. Pra quem não sabe, Dogma 95 é um manifesto feito pelo Lars e outro diretor do mesmo estilo, buscando limitar os meios de seus filmes, tornando-os mais simples e difíceis de agradar, fazendo com que o roteiro e as atuações tenham que compensar pela ausência de efeitos e outras distrações. Muito interessante, considerando que estamos na geração "foda-se o roteiro, faça 3-D". Essas são as regras do manifesto:
 
1. Filmagem deve ser feita no local. Acessórios e cenários não devem ser utilizados. Se um acessório específico ofr necessário para a história, a localização deve ser escolhida de modo que o acessório possa ser encontrado.
2. O som nunca deve ser produzido fora das imagens ou vice versa. Música não deve ser usada exceto que esta ocorra dentro da cena filmada. - Esse filme quebra essa regra, embora a origem das músicas seja gerada pela cena.
3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos - ou a imobilidade - devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).
4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).
5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.
6. O filme não deve conter nenhuma ação "superficial". (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer). - isso também acontece no filme.
7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual).
8. São inaceitáveis os filmes de gênero.
9. O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.
10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Gostei bastante. Acho que mais diretores deveriam se interessar por esse tipo de limitação, ou pelo menos não depender tanto das técnologias e facilidades atuais. Vale cada minuto das 2h14mins de filme.

Nota: 5,0/5,0

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sobre a Ética no Restaurante Self-Service (Hora da História com o Tio Rapha)



Olá, você que ainda esbarra com esse canto obscuro e empoeirado da internet. Eu lancei um livro semana passada. Tá na Amazon. Talvez você goste de ler.

O link: https://tinyurl.com/yy394a8y

Meus agradecimentos a quem vier a comprar. Comprou? Leu? Gostou? Deixa lá um comentário pras pessoas ficarem sabendo que o livro é bacana.





Moro sozinho desde o meio de meus dezessete anos, quando comecei a faculdade em uma cidade distante de minha terra natal. Como todos aqueles que já passaram por essa nobre experiência, tive algumas dificuldades em meus primeiros anos. Nunca tive qualquer habilidade para trabalhos manuais ou domésticos, não tenho coordenação motora, senso de direção ou equilíbrio  se não bastasse, não sei cozinhar tampouco. Eu sozinho em um quarto-e-sala no meio de uma terra desconhecida, seria a receita para o desastre. Mas eu sobrevivi. Trabalhei pra caralho pra conseguir comer em restaurantes por quilo (self-service) da pior categoria e lavar roupa em lavanderias amigáveis com universitários (que oferecem desconto). Com isso, devo dizer que não foi sofrimento algum - foi até bem confortável. Tentei aprender o básico da vida domesticada, mas não é pra mim.
 
 
A escola em que fiz ensino médio era consciente da possibilidade de seus alunos saírem da cidade após a formatura, por isso ofereceu, gratuitamente, aulas de culinária, adaptadas de modo que até o maior dos imbecis seria capaz de aprender qualquer coisa. Esse era justamente o problema, a maior parte dos alunos eram imbecis (incluo-me nessa). Some isso ao fato da aula ser grátis - convenhamos, é difícil levar algo que não te fere o bolso a sério -, poucos saíram de lá com qualquer conhecimento. Os alunos que já sabiam cozinhar usavam aqueles que não sabiam para fazer o trabalho desagradável, cortar cebolas, descascar batatas, picar cenoura, alho e por aí vai - era o que eu fazia, não era minha vontade, mas os olhos verdes da moça que me pedia para fazer esse serviço me hipnotizavam. Então, na hora de cozinhar de verdade, algum imbecil gritava: - Truco! - e nos reuníamos à mesa até que servissem o prato, magicamente, pronto. Foi uma bela perda de tempo, mas a culpa foi toda minha. 
 
 
Mas esse texto não é sobre culinária e sim sobre restaurantes. Em Itajaí, devo dizer que me tornei uma espécie de pioneiro do paladar. Um restaurateur da classe operária, por assim dizer. Almocei em basicamente todos os restaurantes self-service da cidade, conheci os padrões, as combinações diárias, variações semanais, preço por quilo, acompanhei as mudanças, frequentei inaugurações, fiz indicações e resenhas verbais, descobri os melhores horários para evitar filas e como conseguir uma mesa independente da situação, além de breves análises sociológicas sobre o tipo de ser humano que frequenta esses ambientes.  Isso me permitiu desenvolver uma espécie de código de ética. Não etiqueta, etiqueta é para senhoras frescas que dedicam a vida a segregar garfos e facas, enquanto ingerem uma refeição do tamanho do meu punho, subdividida em cinco pratos. Não é sobre isso que esse texto trata, mas sim sobre normas de comportamento social, não escritas em legislação, mas que deveriam sujeitar a punição o sujeito que as quebra.
 
 
Peço que o leitor visualize uma fila de quilo ao meio-dia e quinze. Sim, meio-dia e quinze, não meio-dia em ponto. Meio-dia em ponto é quando os funcionários dos grandes prédios comerciais estão se matando por um espaço no elevador (que por sua vez será o tema de minha próxima história), os quilos ainda não estão lotados nesse horário (lembrando que esse guia somente é válido para Itajaí e cidades de tamanho igual ou menores). Os quinze minutos são um detalhe essencial, pois é quando as pessoas começam a chegar, em manadas, nos restaurantes; quando a fila começa a sair do restaurante e tomar conta das ruas. É nesse tipo de situação que se baseiam as primeiras regras:
 
 
Regra 1: Nunca vá até um conhecido bater papo só para furar a fila.
Isso acontece com uma frequência assustadora. Um cretino decide conversar com aquele amigo do colegial que ele não via faz dez anos. Por acaso, o tal amigo está quase alcançando a pilha de pratos em frente à comida. Ele não quer falar com o amigo, nem se lembra dele. O único objetivo do cretino é entrar na frente de todos. Não se intimide de constranger uma pessoa assim, mesmo que para isso seja necessário incitar uma revolta. Gente assim merece a cadeira elétrica.
Regra 2: É proibido guardar lugar. Se uma pessoa não está com você na fila, ela não está na fila.
Regra 3: Mantenha uma distância razoável da pessoa em sua frente, mas não deixe que uma distância maior que um braço se abra. Use o bom senso, do contrário pode-se considerar que você abandonou a fila.
Regra 4: Sempre pegue o prato do topo da pilha.
 
 
Essas são as regras da fila. Deve ter mais coisa, mas isso pode ser revisado um dia. Vamos avançar para o principal. Você não está mais na fila, tem um prato e talheres em mãos. Chegou a hora de se servir.
 
 
Regra 5: Não pense. Você sabe o que é a comida, pegue-a ou deixe-a. Tem dezenas de pessoas famintas atrás de você, respeite isso. Se você não respeita as pessoas, respeite a fome. A comida não vai falar com você, nem muito menos vir andando ao seu prato, se quiser decidir vá ao restaurante à la carte.
Regra 6: Não devolva a comida. Tocou seu prato, é seu, ponto final.
Regra 7: Não olhe pra trás. Se você deixou passar alguma comida específica e uns passos a frente mudou de ideia - tarde demais. Siga em frente com a vida ou volte para o fim da fila.
Regra 8: A comida disponível não é só sua, ela tem que alimentar toda a fila até a reposição. Limite seus instintos animais. Não carregue consigo todos os doze filés de frango. Em uma utopia, a quantidade de comida seria regulada.
 
 
Na hora de pesar e escolher a bebida:
 
 
Regra 9: São três etapas simples - pôr o prato na balança, pesar, retirar o prato da balança. Não é tão difícil.
Regra 10: Pense na bebida enquanto estiver na fila, depois disso, siga a regra 5.
Regra 11: Em todas as etapas, mantenha movimento. Essa é a chave para todas as filas - se é possível seguir, siga.
 
 
Essa parte é delicada. Escolher a mesa.
 
 
Regra 12: Nenhuma das mesas tem um prêmio escondido debaixo da cadeira. Não tem porque passar horas de pé pensando, se você vir uma mesa vazia, pegue-a.
Regra 13: Não deixe sua carteira, capacete de moto, celular ou qualquer outro pertence em uma mesa, enquanto estiver na fila. Em uma utopia, esses itens seriam considerados abandonados e passariam a pertencer àquele que pegasse a mesa primeiro.
Regra 14: Você está sozinho ou com um acompanhante, fique longe das mesas para quatro pessoas, exceto que essas sejam as únicas disponíveis.
Regra 15: As cadeiras vazias de sua mesa podem e devem ser ocupadas por qualquer um, caso todas as mesas estiverem cheias.
Regra 16: Se o restaurante estiver cheio e você tiver que se sentar com um desconhecido, peça permissão.
Regra 17: Quando uma pessoa pedir permissão para se sentar com você e o restaurante estiver cheio - aceite.
Regra 18: Nunca se sente com um desconhecido se ainda houver uma mesa vazia.
Regra 19: O primeiro a pegar a mesa é seu dono até que este termine sua refeição.
Regra 20: Evite conversas ou mesmo contato visual com o dono da mesa.
Regra 21: Ao dono da mesa é reservado o direito de ignorar qualquer um que a ele dirija a palavra.
Regra 22: Se seu prato e sua bebida estão vazios. Saia. Vá para casa, vá para o trabalho, vá para a rua, vá para a puta que te pariu, mas desocupe a mesa.
 
 
Acho que é o suficiente. Cobre os principais momentos, da fila até o fim da refeição. O código não é fixo e, a todo o momento, algo pode ser adicionado a ele. Retirado, somente se seguido de devida argumentação. Sigam as regras e até a proxima história com o Tio Rapha.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Meu Primeiro Livro (Hora da História com o Tio Rapha)

O leitor que acompanha essa bagunça que eu insisto em chamar de blog, sabe que eu sou um contista irregular, poeta ruim, cronista medíocre e romancista indeciso, ou seja, de tempos em tempos fico sem material e preciso improvisar fazendo resenhas apressadas e criando colunas que, por mais que eu diga que são contínuas, nunca voltam. Por isso eu me recuso a criar um cronograma - não consigo trabalhar com prazos e não acho que ninguém aqui se importa.
Decidi então criar, depois de escrever meus sonhos, tentar fazer um conto com temática medieval e me aventurar com haikai, a "Hora da História com o Tio Rapha". Por que Tio Rapha? Porque todos me chamam de Rapha, mesmo eu não gostando que homens me chamem assim, e o tio dá um toque de sabedoria. Lembro-me da primeira vez que fui chamado de tio. Estava saindo do cinema, com um grupo de amigos. Creio que tinhamos acabado de assistir o Motoqueiro Fantasma - e que filme horrível foi este -, estávamos rindo das cenas e ridicularizando o Nicolas Cage. Eu tinha dezesseis anos (isso foi em 2007, acho eu), estava começando a desenvolver minha arrogância cinematográfica. Não eram bons tempos, mas eu era jovem e pensava ter um futuro pela frente. Um futuro que não se baseasse em escrever devaneios e memórias em um blog visto por ninguém e, ao mesmo tempo, agindo como se fosse lido por vários, ou pelo menos tivesse um certo "cult following". Ela deveria ter uns catorze anos no máximo. Loura, magra e maquiada como uma pré-adolescente. Andava despreocupada a passos desajeitados e risos juvenis, segurando o braço da amiga que era como uma imagem do espelho, um pouco maior e mais cheia talvez. A mais bonita entre as duas cutucou meu ombro distraído pelos comentários sarcásticos que fazia sobre o filme risivelmente ruim. Sério, já falei que o filme foi ruim?
Viro para trás e sua aparência me surpreende. Quero saber se a conheço de algum lugar ou por que ela me chamava. Então ela diz: - "Tio, que horas são?" E eu respondo: -"Tio? Que história é essa! Tá bom, são nove e meia." Tio... Naquele momento, pensava que ela tinha a minha idade. Hoje penso que ela deveria ser mais nova, mas não sei, pode ser que fosse a noite, embora aquela rua fosse iluminada o bastante. Virei lentamente de volta para os meus amigos que seguravam o riso. Tinha de haver uma explicação para ela vir falar comigo e não era minha simpatia. Mas o tio foi de lascar.
Eu me perdi completamente nessa história, sobre o que eu ia falar mesmo? Sim! A coluna nova - Hora da História com o Tio Rapha.
A ideia aqui é falar sobre um assunto qualquer. Uma lembrança, um tema, um livro. Sem aquele tom de resenha, crônica ou ensaio. Só uma conversa. Ver se eu consigo atrair algum leitor usando um tom mais pessoal e amigável. Mas acho que é melhor eu ir direto ao tema de hoje, se não esse post fica quilométrico.
Queria falar sobre meu primeiro livro. Não o primeiro que fui forçado a ler ou que alguma tia me deu e eu atirei para o canto com desinteresse. O primeiro que eu escolhi e disse, "vou ler esse filho da puta."  Li, fui até o fim e gostei. O suficiente para ler outro e outro e por aí vai.
Para minha vergonha, já estava relativamente velho quando perdi a virgindade literária. Tinha lido outros livros, é verdade, mas por obrigação escolar, o que, em termos sexuais, equivale a punheta, ou seja, não conta. Minha primeira vez foi com Misto Quente do velho Bukowski. Li em e-book, em inglês, nos momentos de ociosidade do trabalho, no computador da empresa. Tinha começado a trabalhar lá fazia pouco tempo, então não era muito ocupado. Li o bicho em três dias. Nunca tinha lido nada tão rápido na minha vida. Estava impressionado com o estilo e a sinceridade do autor. A verdade é que eu não sabia que livros assim existiam. Conhecia apenas os pólos opostos - clássicos escolares e livros juvenis (hoje conhecidos como YA) e nenhum dos dois me agradava na época (hoje gosto e entendo os clássicos, pelo menos alguns). Depois segui para Cartas Na Rua e Factotum, o último em livro físico, pois a tela de computador passou a me dar nos nervos, e na tranquilidade de casa.
Misto Quente, pra quem não sabe, é um romance de memória ficcional (como quase todos do Bukowski), que fala sobre o desenvolvimento de Henry Chinaski, da infância ao começo da idade adulta. As principais descobertas do homem - mulheres e álcool. A frieza do mundo, o abandono e a "mediocrenização" - a forma que a sociedade conspira para destruir qualquer sinal de individualidade que resta em um ser humano, com o objetivo de torná-lo parte da máquina - e a revolta contra isso. Um livro inspirador que, se eu tivesse conhecido durante a adolescência, teria mudado tudo - talvez nem tivesse me incomodado por ter sido chamado de tio.
Buk mudou minha vida. Se não tivesse passado por ele, talvez passasse a vida sem livros, o que seria triste. Sugiro a todos que nunca o leram ou nunca leram na vida, vale cada palavra de cada página.
Gostei dessa "coluna", provavelmente seguirei com ela no futuro. Espero que vocês, minhas centenas de leitores diários, tenham gostado também, o suficiente para comentar e falar sobre sua primeira vez literária. Talvez continue com aquela coluna sobre os sonhos... O problema é que, justamente quando eu me propus a escrever algo assim, parei de me lembrar dos meus sonhos ao acordar. É carma, eu sabia que algo assim ia acontecer. Bom, chega por hoje.