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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sobre a Ética no Restaurante Self-Service (Hora da História com o Tio Rapha)

Moro sozinho desde o meio de meus dezessete anos, quando comecei a faculdade em uma cidade distante de minha terra natal. Como todos aqueles que já passaram por essa nobre experiência, tive algumas dificuldades em meus primeiros anos. Nunca tive qualquer habilidade para trabalhos manuais ou domésticos, não tenho coordenação motora, senso de direção ou equilíbrio  se não bastasse, não sei cozinhar tampouco. Eu sozinho em um quarto-e-sala no meio de uma terra desconhecida, seria a receita para o desastre. Mas eu sobrevivi. Trabalhei pra caralho pra conseguir comer em restaurantes por quilo (self-service) da pior categoria e lavar roupa em lavanderias amigáveis com universitários (que oferecem desconto). Com isso, devo dizer que não foi sofrimento algum - foi até bem confortável. Tentei aprender o básico da vida domesticada, mas não é pra mim.
 
 
A escola em que fiz ensino médio era consciente da possibilidade de seus alunos saírem da cidade após a formatura, por isso ofereceu, gratuitamente, aulas de culinária, adaptadas de modo que até o maior dos imbecis seria capaz de aprender qualquer coisa. Esse era justamente o problema, a maior parte dos alunos eram imbecis (incluo-me nessa). Some isso ao fato da aula ser grátis - convenhamos, é difícil levar algo que não te fere o bolso a sério -, poucos saíram de lá com qualquer conhecimento. Os alunos que já sabiam cozinhar usavam aqueles que não sabiam para fazer o trabalho desagradável, cortar cebolas, descascar batatas, picar cenoura, alho e por aí vai - era o que eu fazia, não era minha vontade, mas os olhos verdes da moça que me pedia para fazer esse serviço me hipnotizavam. Então, na hora de cozinhar de verdade, algum imbecil gritava: - Truco! - e nos reuníamos à mesa até que servissem o prato, magicamente, pronto. Foi uma bela perda de tempo, mas a culpa foi toda minha. 
 
 
Mas esse texto não é sobre culinária e sim sobre restaurantes. Em Itajaí, devo dizer que me tornei uma espécie de pioneiro do paladar. Um restaurateur da classe operária, por assim dizer. Almocei em basicamente todos os restaurantes self-service da cidade, conheci os padrões, as combinações diárias, variações semanais, preço por quilo, acompanhei as mudanças, frequentei inaugurações, fiz indicações e resenhas verbais, descobri os melhores horários para evitar filas e como conseguir uma mesa independente da situação, além de breves análises sociológicas sobre o tipo de ser humano que frequenta esses ambientes.  Isso me permitiu desenvolver uma espécie de código de ética. Não etiqueta, etiqueta é para senhoras frescas que dedicam a vida a segregar garfos e facas, enquanto ingerem uma refeição do tamanho do meu punho, subdividida em cinco pratos. Não é sobre isso que esse texto trata, mas sim sobre normas de comportamento social, não escritas em legislação, mas que deveriam sujeitar a punição o sujeito que as quebra.
 
 
Peço que o leitor visualize uma fila de quilo ao meio-dia e quinze. Sim, meio-dia e quinze, não meio-dia em ponto. Meio-dia em ponto é quando os funcionários dos grandes prédios comerciais estão se matando por um espaço no elevador (que por sua vez será o tema de minha próxima história), os quilos ainda não estão lotados nesse horário (lembrando que esse guia somente é válido para Itajaí e cidades de tamanho igual ou menores). Os quinze minutos são um detalhe essencial, pois é quando as pessoas começam a chegar, em manadas, nos restaurantes; quando a fila começa a sair do restaurante e tomar conta das ruas. É nesse tipo de situação que se baseiam as primeiras regras:
 
 
Regra 1: Nunca vá até um conhecido bater papo só para furar a fila.
Isso acontece com uma frequência assustadora. Um cretino decide conversar com aquele amigo do colegial que ele não via faz dez anos. Por acaso, o tal amigo está quase alcançando a pilha de pratos em frente à comida. Ele não quer falar com o amigo, nem se lembra dele. O único objetivo do cretino é entrar na frente de todos. Não se intimide de constranger uma pessoa assim, mesmo que para isso seja necessário incitar uma revolta. Gente assim merece a cadeira elétrica.
Regra 2: É proibido guardar lugar. Se uma pessoa não está com você na fila, ela não está na fila.
Regra 3: Mantenha uma distância razoável da pessoa em sua frente, mas não deixe que uma distância maior que um braço se abra. Use o bom senso, do contrário pode-se considerar que você abandonou a fila.
Regra 4: Sempre pegue o prato do topo da pilha.
 
 
Essas são as regras da fila. Deve ter mais coisa, mas isso pode ser revisado um dia. Vamos avançar para o principal. Você não está mais na fila, tem um prato e talheres em mãos. Chegou a hora de se servir.
 
 
Regra 5: Não pense. Você sabe o que é a comida, pegue-a ou deixe-a. Tem dezenas de pessoas famintas atrás de você, respeite isso. Se você não respeita as pessoas, respeite a fome. A comida não vai falar com você, nem muito menos vir andando ao seu prato, se quiser decidir vá ao restaurante à la carte.
Regra 6: Não devolva a comida. Tocou seu prato, é seu, ponto final.
Regra 7: Não olhe pra trás. Se você deixou passar alguma comida específica e uns passos a frente mudou de ideia - tarde demais. Siga em frente com a vida ou volte para o fim da fila.
Regra 8: A comida disponível não é só sua, ela tem que alimentar toda a fila até a reposição. Limite seus instintos animais. Não carregue consigo todos os doze filés de frango. Em uma utopia, a quantidade de comida seria regulada.
 
 
Na hora de pesar e escolher a bebida:
 
 
Regra 9: São três etapas simples - pôr o prato na balança, pesar, retirar o prato da balança. Não é tão difícil.
Regra 10: Pense na bebida enquanto estiver na fila, depois disso, siga a regra 5.
Regra 11: Em todas as etapas, mantenha movimento. Essa é a chave para todas as filas - se é possível seguir, siga.
 
 
Essa parte é delicada. Escolher a mesa.
 
 
Regra 12: Nenhuma das mesas tem um prêmio escondido debaixo da cadeira. Não tem porque passar horas de pé pensando, se você vir uma mesa vazia, pegue-a.
Regra 13: Não deixe sua carteira, capacete de moto, celular ou qualquer outro pertence em uma mesa, enquanto estiver na fila. Em uma utopia, esses itens seriam considerados abandonados e passariam a pertencer àquele que pegasse a mesa primeiro.
Regra 14: Você está sozinho ou com um acompanhante, fique longe das mesas para quatro pessoas, exceto que essas sejam as únicas disponíveis.
Regra 15: As cadeiras vazias de sua mesa podem e devem ser ocupadas por qualquer um, caso todas as mesas estiverem cheias.
Regra 16: Se o restaurante estiver cheio e você tiver que se sentar com um desconhecido, peça permissão.
Regra 17: Quando uma pessoa pedir permissão para se sentar com você e o restaurante estiver cheio - aceite.
Regra 18: Nunca se sente com um desconhecido se ainda houver uma mesa vazia.
Regra 19: O primeiro a pegar a mesa é seu dono até que este termine sua refeição.
Regra 20: Evite conversas ou mesmo contato visual com o dono da mesa.
Regra 21: Ao dono da mesa é reservado o direito de ignorar qualquer um que a ele dirija a palavra.
Regra 22: Se seu prato e sua bebida estão vazios. Saia. Vá para casa, vá para o trabalho, vá para a rua, vá para a puta que te pariu, mas desocupe a mesa.
 
 
Acho que é o suficiente. Cobre os principais momentos, da fila até o fim da refeição. O código não é fixo e, a todo o momento, algo pode ser adicionado a ele. Retirado, somente se seguido de devida argumentação. Sigam as regras e até a proxima história com o Tio Rapha.

Um comentário:

  1. Hahaha, adorei as regras de números 5, 20, 21, e 22...
    Sempre frequentei faculdades que ficavam na mesma cidade em que estava morando, por isso sempre comi em casa mesmo, não tive tempo de ter esse conhecimento todo sobre as filas dos restaurantes, mas dei muita risada lendo sua experiencia...

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