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sábado, 18 de outubro de 2014

Momento Musical #3 - Leon Russell, Elton John, Dr. John

Para a terceira edição dessa coluna que não é temática apesar de tudo (com exceção do tema música, óbvio), escolhi falar de três pianistas. Mas não só quaisquer pianistas, estes são, talvez, os mais importantes pianistas da história do rock. Como sempre, um álbum de cada: suficiente para vocês conhecerem, não tanto a ponto de vocês cansarem. Vocês já sabem, uma indicação minha é praticamente uma garantia de qualidade, então divirtam-se ouvindo os discos.


Começando com Leon Russell, sua barba e seu cabelão, itens tão icônicos de sua persona, mantidos até hoje, vez ou outra com a adição de uma cartola e óculos escuros. Com um estilo e sotaque sulista, ele misturou rock, soul, country e fez do resultado uma música totalmente pessoal. Conhecendo o estilo de Leon Russell, é impossível confundi-lo com outro músico. Tanta particularidade também faz dele difícil de descrever, então vocês vão ter que ver por vocês mesmos. Só uma nota, esse cara já tocou com praticamente todo mundo (Joe Cocker, George Harrison, Elton John, Eric Clapton, entre outros). Muito possivelmente vocês já o ouviram em algum lugar, só não sabem ainda.





O músico mais popular que vocês já me viram falando sobre nesse blog. Gosto da música do Elton John, mas só até o fim da década de setenta. Depois, não sei o que houve com ele. Não sei o que houve com a música em geral na década de oitenta, dezenas de músicos tão bons se perderam, ou sumiram ou gravaram pop insípido, uma decepção. Mas, ei, pelo menos os discos antigos estão aí para sempre. Estava na dúvida entre dois álbuns, Madman Across the River ou Goodbye Yellowbrick Road. Acabei escolhendo o segundo, é mais marcante que o outro. Não vou gastar o tempo de vocês descrevendo um músico que todo mundo conhece, então chega.




E, por último, o grande Dr. John volta a dar as caras nesse blog. Dá última vez foi com uma resenha do álbum mais recente dele, que é ótimo por sinal. Hoje é com um clássico, o disco mais conhecido dele, Right Place Wrong Time, cuja música homônima todos já ouviram. O cara mais exótico dessa lista, misturando um pouco de tudo em sua música, mais a cultura de New Orleans. Com funk, blues, soul e tudo mais, esse é um puta álbum que, se você nunca ouviu, ora, não precisa me agradecer, aqui está ele. Agora pare de gastar sua vida e escute-o.




domingo, 5 de outubro de 2014

Mar Inquieto (Shiosai) - Yukio Mishima [1954]


Ok, domingo de eleição, sou obrigado a falar qualquer coisa sobre, certo? São quase cinco horas da tarde, quem votou, votou. Uma novidade pra vocês, não importa qual candidato vocês favoreçam, os problemas de hoje continuaram sendo problemas amanhã. Nada vai mudar, seja a Dilma reeleita, seja eleito o Rui Costa Pimenta numa espécie de reviravolta do azarão. Falemos de literatura, que é algo importante para humanidade. Política no Brasil é apenas chateação. Não gostaria que nenhum dos candidatos sequer vivesse no mesmo país que eu, que dirá o governasse. Tá, com exceção do Eduardo Jorge. Com ele eu tomaria uma cerveja, fumaria um baseado e conversaria sobre os velhos tempos que não voltam mais. De qualquer forma, o melhor a se fazer é ignorar o governo brasileiro, fingir que ele não existe. Que tal a ideia? O governo é como aquele filho indesejado que, mesmo depois de velho, continua a tirar dinheiro da família, por mais que você queira ver o puto pelas costas. Fechemos nossos olhos, façamos nosso trabalho e cuspamos na cara dos nossos líderes, eis a nossa solução.

Agora o que realmente importa.

Existe a ideia errônea de que um grande livro necessita, por consequência, uma grande história ou grande inovação. Eis que de tempos em tempos surge algo simples, mas que pela sua execução e sinceridade, cresce aos olhos do leitor. Usemos de exemplo Romeu e Julieta. Talvez a peça de Shakespeare menos admirada pelos críticos, embora de longe a mais conhecida e citada pelo público. Vista por cima, não passa de uma história de amor adolescente. É inegável, no entanto, a imortalidade da história, que, mesmo na época de Shakespeare, já não era original. O que Shakespeare fez foi tirar o lado "lição de moral" da peça, e contá-la pelo que ela é, dois adolescentes que se apaixonam e, por culpa dos extremos dessa fase da vida, se matam, sem dizer se isso foi errado ou não, apenas uma tragédia. O que Yukio Mishima faz em Mar Inquieto é reviver a história de amor adolescente, no contexto cultural do Japão da década de cinquenta, em meio aos contrastes da modernidade da cidade grande contra o tradicionalismo das ilhas ainda isoladas.

Quando o pai de Shinji Kubo morrera durante a Segunda Guerra Mundial, o garoto de dezessete anos se viu obrigado a sustentar sua mãe e irmão. Apesar da tragédia e da vida economicamente contida, a vida que eles levam na ilha pesqueira é pacífica. Todos conhecem e respeitam Shinji pelo seu trabalho como auxiliar do pescador Jukichi Oyama. Então o filho de Terukichi Myata, um homem rico e temido na ilha, e ele trás de volta à sua casa Hatsue, sua filha adotiva. A beleza de Hatsue atrai vários pretendes, incluindo Shinji, em quem ela também se interessa. Yasuo Kawamoto, arrogante filho de família rica, que estuda em Tóquio e despreza as tradições da ilha, também se interessa por Hatsue, principalmente por causa da fortuna de Terukichi. Boatos começam a rodar pela ilha de que Shinji tirou a virgindade de Hatsue. Por Shinji ser de família pobre, Terukichi o proíbe de ver Hatsue. Os dois trocam cartas para tentar manter o amor proibido e o resto cabe a você ler o livro e descobrir.

Diferentemente dos primeiros livros de Yukio Mishima, esse é muito mais ingênuo. Em Confissões de uma Máscara, o tema da descoberta sexual é recorrente, mas com um toque de sadismo e homoerotismo. Mar Inquieto tem um tom de inocência e simplicidade surpreendente para uma obra de Yukio Mishima. Mesmo os curtos momentos de erotismo tem um lado de descoberta. A narrativa é leve e poética, cheia de imagens marítimas a ponto que o leitor pode cheirar o sal do oceano.

A tragédia de Romeu e Julieta, comparação que eu usei no primeiro parágrafo, não está presente em Mar Inquieto. Na verdade, em se tratando de roteiro, não há nada de novo nesse livro de Mishima. É uma história agradável sobre amor juvenil. Isso não torna o livro ruim. A beleza da prosa do autor compensa a simplicidade do roteiro. É um conto quase moralista, sobre o verdadeiro amor juvenil, sem grandes idealismos.

Mishima criticava o hábito dos intelectuais de ignorarem a saúde física. Ele era mestre em artes marciais e se dedicava a manter um corpo que ele considerava perfeito. Esse ideal de equilíbrio entre o físico e o mental é bem demonstrado nesse livro. Shinji e Yasuo são opostos. Um é simples, trabalhador, forte e respeitável às tradições. Outro é estudante universitário, intelectual, urbano, fisicamente fraco. Mishima deixa claro seu favorecimento pelo primeiro. Por outro lado, Shinji é simples, porém não é idiota. É equilibrado considerando suas limitações.

Mar Inquieto é um livro que poderia ser indicado para qualquer um. É simples sem ser idiota. Trata sobre o amor juvenil sem ser contada de modo juvenil. A prosa é limpa, poética e vívida. Talvez não seja o melhor livro desse autor. A leitura depende do que o leitor em questão está procurando. Se o que você quer é uma leitura densa, erótica e psicológica, esse não é o melhor começo. Do contrário, se o que você busca é uma leitura agradável, mas que respeita a inteligência do leitor, esse livro é perfeito.

Nota: 4/5

domingo, 28 de setembro de 2014

Momento Musical #2 - Joni Mitchell, The Grateful Dead, Dave van Ronk


Muito tempo depois do primeiro momento musical, volto com mais sugestões para vocês, meus leitores ávidos pelas minhas indicações imperdíveis. Dessa vez, como se tratam de artistas de discografia vasta e variada, sugerirei apenas um disco de cada, aquele que define cada músico, de certa forma, aquele que marca o ápice da carreira de cada um.

Joni Mitchell - Blue


Lançando em 1971, esse foi um dos principais discos lançados pela geração responsável por reviver (mais uma vez) o folk americano, meio que o transgredindo no processo. Falarei mais disso quando chegar a vez do Dave van Ronk, mas, basicamente, a música folk é a música repassada de geração pra geração, contando histórias, uma espécie de retrato de um povo (cada cultura tem sua forma de música "folk", que poderia se traduzir como popular, mas, na música, a palavra popular tem má fama, então digamos que é "do povo", parece o mesmo, mas reflita e verá que não é). Essa geração, Joni Mitchell, Bob Dylan (principalmente o Dylan), Leonard Cohen compunham suas próprias músicas. Eis a transgressão, música folk costuma ser tradicional, contada por alguém sei lá eu quando e repassada e reformulada eternamente. Eles criaram suas próprias "histórias de geração". E Joni Mitchell, ninguém a de me convencer que essa mulher não é um anjo com essa voz...Blue virou um clássico dessa geração, cada faixa vale a pena. Ela é (ainda viva!, embora meio fora de área) uma grande compositora, musicista (tocando piano, violão, dulcimer, talvez outras coisas que eu não esteja sabendo) e, se não bastasse, canta desse jeito aí que vocês estão ouvindo agora - porque vocês estão ouvindo que eu sei. Precisa de mais apresentações?

The Grateful Dead - From the Mars Hotel



Já falei que essa é uma das minhas bandas de rock favoritas? Bem provável. Esse blog já tem mais de dois anos, não me lembro de tudo que já postei aqui (só esperem por possíveis resenhas repetidas daqui mais dois anos, quando eu senilizar de vez), mas acho que tem uma resenha do disco American Beauty. Acontece que essa banda é meio ame ou odeie. Se você gosta de psicodelia, aperte o play no vídeo e você se divertirá pra cacete. Se não...dê uma chance, porra, não custa nada, já tô jogando o disco todo aqui pra você, nem vai te dar o trabalho de procurar. Como em tudo que Grateful Dead faz, envolve mistura de gêneros, mistura de drogas e improvisos aos montes. Você vai ouvir blues, country, rock, jazz, e coisas entre esses gêneros que ainda não foram definidas por ouvidos humanos acadêmicos e sóbrios.

Dave van Ronk - Inside Dave van Ronk


Não consegui achar esse disco inteiro, mas eu sei que se vocês gostarem dessas faixas vocês vão acabar procurando o resto. A história é a seguinte, os meus leitores mais ligados ao cinema devem ter visto o filme do ano passado dirigido pelos irmãos Coen, Inside Llewyn Davis (ou, na pior das hipóteses, a paródia pornô desse filme, chamada Inside Llewyn Davis), embora eu lhes esteja devendo essa resenha. Bom, se vocês viram o filme, sabem que foi baseado na vida de Dave van Ronk, e o título do filme é uma referência direta a esse disco, e a capa do disco que o Llewyn Davis lança no filme é igual a capa do disco van Ronk.


Mas quem foi Dave van Ronk. Estava falando da ressurreição da música folk na década de 60. Na verdade essa foi uma de várias ressurreições, já que foi Woody Guthrie que popularizou o estilo na década de 30-40 (notem que estou falando exclusivamente do folk americano), depois Peter Seeger (falecido em janeiro desse ano) e outros vieram na década de 40 e 50. Dave van Ronk, no estilo desses caras, surgiu entre as décadas de 50 e 60 e liderou a geração do Greenwich Village (Joan Baez, Mimi & Richard Fariña, Carolyn Hester, Bob Dylan etc.). Mais tradicional que seus sucessores, ele costumava, como seus antecessores, fazer releituras de músicas tradicionais, mas do muito particular dele. Dylan o considerava um mentor, o que já deveria ser mais que suficiente certificado de qualidade.


Ao contrário de muitos que ele veio a influenciar, nunca gozou de muito sucesso com o público. Não tinha carro e se recusava a viajar de avião. Sempre morou no Greenwich Village, até a morte, e se tornou ícone quase religioso da música local. Infelizmente, raros são os casos de artistas isolados que conseguem ganhar dinheiro com sua arte. Na maior parte desses casos, quem perde é o grande público.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Nos Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever) - John Badham [1977]

A imagem mais satirizada da década de 70. Não é porque o filme é bom que ele não tem motivos de ser ridicularizado.
Das minhas primeiras memórias sobre a minha relação com o cinema, um filme meio que se destaca. Em retrospecto, eu era novo demais quando assisti Nos Embalos de Sábado à Noite pela primeira vez, acho que não tinha nem dez anos de idade. Mas acho que devia estar em uma fase particularmente curiosa, pois me lembro de ter ido à finada Blockbuster com meus pais e me metido na sessão de Clássicos. Nessa mesma época, assisti Cantando na Chuva. A única coisa que esses dois filmes têm em comum é que, quando os vi pela primeira vez, não entendi absolutamente nada sobre o que eles representavam. A diferença é que anos mais tarde eu voltei a ver Cantando na Chuva, enquanto Nos Embalos de Sábado à Noite (que por questão de economia chamarei de agora em diante de SNF) não me interessou tanto assim. Isso até esse fim de semana, quando finalmente decidi ver de novo. Surpreendentemente, ainda me lembrava de muita coisa dele.


Se tem uma coisa que todos conhecem desse filme é a primeira cena. Tony Manero (John Travolta), vendedor de tinta, andando pela rua ao som de Staying Alive, do Bee Gees. Depois do trabalho, sempre que pode, ele gasta todo seu dinheiro para dançar na discoteca 2001: Odissey. Conhecemos suas amizades, seu estilo de vida, o aparente hedonismo, a falta de preocupação com o futuro, enfim, um grupo normal de jovens. Enquanto durante o dia ele não passa de um vendedor de tinta, desprezado pela família, na discoteca ele é o rei e todos o amam. A discoteca, então, organiza um concurso de dança. É aí que ele encontra Stephanie (Karen Lynn Gorney), uma mulher que busca um futuro em Nova York, mas que não está nem um pouco interessada em Tony. Mesmo assim ela enxerga o talento em Tony e aceita entrar no concurso com ele. A convivência faz que Tony decida mudar em certos aspectos, vendo que nem tudo na sua vida pode se manter igual para sempre.


1977 foi o ano em que a música disco e as discotecas atingiram seu auge. Nessa época, esses lugares eram o equivalente ao que uma balada sertaneja é hoje no Brasil. Por isso mesmo, embora as músicas presentes na trilha sonora de SNF sejam tão datadas a ponto de ser possível identificar só de ouvido o mês em que elas foram gravadas, o tema se mantém universal, simplesmente porque Tony Manero e seu grupo, o tipo de pessoa que eles representam, ainda existe, mudando apenas a aparência, penteados, roupas, etc. Mesmo assim, SNF se tornou um dos filmes mais subestimados de seu tempo com o passar dos anos. Vejam bem, é verdade que foi a obra mais lucrativa da década de 70, mas desde 79, quando a discoteca se tornou um ícone da decadência, o filme se tornou motivo de piada, John Travolta mal conseguiu arranjar trabalho, assim como qualquer um dos envolvidos nessa produção. A pior parte disso tudo, não é nem merecido. SNF talvez seja o melhor filme retratando a geração de seu tempo.


SNF é um filme sobre jovens escapistas que muitas vezes beira o niilismo. A forma que Tony, mesmo encontrando alguma paz enquanto dança, não vê futuro algum no ato; o irmão dele, antes visto pela família como um sinal de esperança por se tornar padre, perde a fé; Stephanie, a única no filme com alguma perspectiva, não deixa de ser tão decadente quanto todos os outros. É como se o filme dissesse que, para essas pessoas, não há futuro desejável e só resta escapar nem que seja por uma noite de sábado. Isso fica claro mesmo na primeira cena de dança, quando todos os presentes na discoteca formam uma espécie de dança em conjunto, deixando os problemas de lado por um momento. Crítico de cinema Gene Siskel dizia que essa era sua cena favorita entre todos os números de dança cinematográficos, assim como dizia SNF ser seu filme favorito. Essas cenas leves de dança são contrabalançadas com o realismo da relação entre os personagens. Em um momento eles dançam, em outro há um estupro; em um momento eles se preparam para o concurso, no outro um dos amigos de Tony cai de uma ponte. Esse detalhe é o que separa SNF de um Flashdance e o deixa mais próximo de qualquer filme sobre decadência geracional.


Relacionáveis que os personagens possam ser, nenhum é agradável. Tony é um narcisista ignorante, os amigos dele são misóginos e homofóbicos, Stephanie é pretensiosa e arrogante. Não é um filme de heróis e vilões, todos são pessoas.  O roteirista, Norman Maxler, reza a lenda, costumava gravar conversas reais entre estranhos em lugares públicos para melhorar o realismo dos seus diálogos. Não sei se é verdade ou não, mas os diálogos em SNF serviriam de evidência favorável. A forma que eles falam, muitas vezes desconexa e sem eloquência, serve justamente para aumentar a humanidade de todos. Nesse momento o filme deixa de ser sobre dança, e se torna sobre esse grupo de pessoas que, para esquecer seus problemas, dançam. As críticas que vieram nos anos seguintes, sobre como esse filme vangloriava a música disco, se tornam infundadas, já que a atmosfera de cinismo que permeia a história fazem do filme o exato contrário.


Adiei o filme por tanto tempo, achando que seria mais um romance cheio de dança, acontece que não é.  O peso com que certos temas são tratados no filme chegam a surpreender. É um clássico esquecido pelos motivos errados, que vale a pena ser revisitado.

Nota: 4/5

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Alguns poemas traduzidos de Frank O'Hara

Olá, você que ainda esbarra com esse canto obscuro e empoeirado da internet. Eu lancei um livro semana passada. Tá na Amazon. Talvez você goste de ler.

O link: https://tinyurl.com/yy394a8y

Meus agradecimentos a quem vier a comprar. Comprou? Leu? Gostou? Deixa lá um comentário pras pessoas ficarem sabendo que o livro é bacana.




Nascido em 1926, Frank O'Hara foi um poeta e crítico de arte americano famoso pelos versos autobiográficos, pessoais, inspirados pelo jazz, surrealismo e pelo expressionismo abstrato. Morreu cedo, aos 40 anos, atropelado por um Jeep em Fire Island, tendo lançado algumas coleções de poesia e vários artigos de não-ficção sobre os artistas que estavam fazendo sucesso naquela época em Nova York (Jackson Pollock, William Kooning, Franz Kline etc.). No Brasil, que eu saiba, a obra dele ainda é praticamente desconhecida, sendo que nenhum de seus livros foi traduzido por aqui. Até agora. Aqui vocês vão encontrar 5 poemas dele traduzidos por mim. Os originais eu tirei desse site, caso alguém queira ver: http://www.frankohara.org/ Por hoje é só, divirtam-se com a leitura.


ANIMAIS

Você se esquece de como nós éramos antes
quando ainda éramos de primeira classe
e o dia veio gordo com uma maçã na boca

de nada adianta preocupar com o Tempo
mas nós tínhamos alguns truques nas mangas
e fizemos umas curvas fechadas

todos os pastos pareciam nossas refeições
não precisávamos de velocímetros
de gelo e água nós fazíamos coquetéis

Eu não iria querer que fosse mais rápido
ou verde que agora se você estivesse comigo Ó você
foi o melhor de todos os meus dias

CANÇÃO
      
Eu estou preso no trânsito em um táxi
o que é típico
e não só da vida moderna

lama sobe trepada pela treliça dos meus nervos
a maioria dos amantes de Eros terminam com Venus
muss es sein? es muss nicht sein*, eu vos digo


como eu odeio doença, é como uma preocupação
que se torna realidade
e simplesmente não deve ser capaz de acontecer

em um mundo onde você é possível
meu amor
nada pode dar errado para nós, diga-me


AVE MARIA
  
Matronas da América
                               deixem seus filhos irem ao cinema!
tirem eles de casa assim eles não ficam sabendo do que vocês aprontam
é verdade que ar fresco faz bem para o corpo
                                                             mas e quanto a alma
que cresce nas trevas, gravada em imagens prateadas
e quando vocês envelhecerem como envelhecerem vocês devem
                                                                         eles não vão lhes odiar
eles não vão lhes criticar eles não vão saber
                                                            eles estarão em algum país glamouroso
que eles viram pela primeira vez numa tarde de sábado ou matando aula

eles podem até lhes ser gratos
                                                  pela primeira experiência sexual deles
que lhes custou apenas uns centavos
                                              e não perturbou a paz do lar
eles saberão de onde vem as barras de chocolate
                                                                    e os sacos gratuitos de pipoca
tão gratuitos quanto sair do cinema antes do fim do filme
com uma estranha agradável cujo apartamento fica no Edifício Paraíso na Terra
perto da Ponte Williamsburg
                                               ó matronas vocês terão feito os pivetinhos
tão feliz que mesmo que ninguém os pegue no cinema
não fará diferença
                                               e se alguém os pegar será apenas puro tempero
e eles estarão verdadeiramente entretidos de qualquer forma
ao invés de vadiando pelo quintal
                                                       ou nos quartos deles
                                                                                     lhes odiando
prematuramente já que vocês não terão feito nada horrivelmente maldoso ainda
exceto por protegê-los das alegrias mais sombrias
                                                                o que por sua vez é imperdoável
então não me culpem se vocês não seguirem esse conselho
                                                                         e a família se destruir
e seus filhos ficarem velhos e cegos em frente a televisão
                                                                                      vendo
filmes que vocês não deixaram eles verem quando eram jovens


HOJE

Ó! cangurus, lantejoulas, sodas de chocolate!
Vocês são mesmo lindas! Pérolas,
gaitas, jujubas, aspirinas! todas
as coisas que eles sempre falaram sobre

ainda fazem de um poema uma surpresa!
Essas coisas estão conosco todos os dias
até mesmo em cabeças-de-praia e caixões. Elas
têm significado. Elas são fortes como rochas.

DORMINDO SOBRE A ASA

Talvez seja para evitar alguma grande tristeza,
como em uma tragédia da Restauração o herói clama “Durma!
Ó pois o longo profundo sono e então esqueça!”
que se voa, flutuando por sobre as cidades sem costa,
guinando ascendente da calçada como um pombo
o faz quando um carro buzina ou uma porta bate, a porta
dos sonhos, vida perpetuada em amores coloridos em tons
e belas mentiras todas em línguas diferentes.

O medo também se vai, como o cimento, e você
está sobre o Atlântico. Onde fica a Espanha? onde fica
quem? A Guerra Civil foi travada para libertar os escravos,
foi? Uma repentina corrente baixa de ar te relembra da gravidade
e sua posição a respeito do amor humano. Mas
aqui é onde estão os deuses, especulando, perplexos.
Umas vez que você está desamparado, você está, dá pra acreditar
nisso? Nunca acordar para o triste esforço de um rosto?
sempre viajar por sobre qualquer vastidão impessoal,
estar por fora, para sempre, nem dentro nem para!

Os olhos rolam adormecidos como se virados pelo vento
e as pálpebras flutuam levemente abertas feito uma asa.
O mundo é um iceberg, tanta coisa é invisível!
e foi e é, e ainda a forma, ela pode estar dormindo
também. Essas características gravadas no gelo de alguém
amado que morreu, e você é um escultor sonhando espaço
e velocidade, sua mão apenas poderia ter feito isso.
Curiosidade, a mão apaixonada do desejo. Morte,
ou sono? Há velocidade o suficiente? E, mergulhando,
você renuncia tudo que você fez por si mesmo,
o reino do seu auto-navegar, pois você deve despertar

e respirar seu próprio calor nessa imagem amada
esteja ela morta ou meramente desaparecendo,
como o espaço está desaparecendo e sua singularidade.

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*Alemão para "deve ser? não deve ser". Jogo com a pergunta de Beethoven no quarteto de cordas nº 16, opus 35 (no caso, a frase é "muss es sein? es muss sein!"). Nesse caso, a pergunta serve para questionar os padrões de sexualidade, tema que ainda era "novidade" na época (entre aspas, já que homossexualidade é coisa discutida desde a Grécia Antiga), vide o verso "a maioria dos amantes de Eros (sexo) terminam com Vênus (mulher)", então segue "deve ser? não deve ser".