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domingo, 22 de junho de 2014

Indicando Discos #1


Discorri anteriormente por aqui a minha preferência por ouvir álbuns completos ao invés de músicas individuais - que é o que se tornou comum desde o mp3. Não tenho a mesma mania de objeto que tenho com a literatura pela música. Praticamente não tenho CDs, todas as minhas músicas estão em versão digital, apesar de eu ser consciente da qualidade inferior e ter vontade de comprar uma vitrola, enquanto para leitura eu preciso do livro físico - não caí na história do e-book.

Acontece que toda essa história de digital contra físico não é o motivo de eu estar escrevendo aqui hoje. Só vim pra indicar alguns álbuns que eu gosto bastante. Não é uma resenha, não é uma lista de favoritos. São músicos que talvez você não conheça e seriam interessantes de conhecer, não só por uma música, mas também pelo disco completo. Meu único critério é evitar clássicos, coisas que muito provavelmente vocês já conheçam - ou não conheçam, mas gosto de superestimar meus leitores.

1 - Grace Potter & The Nocturnals - Nothing But Water



Eu falei coisas ruins - muito ruins - do disco mais recente da Grace Potter. Não mudaria uma palavra, aquele disco foi uma bosta. Mas não muda o fato de que ela é uma das melhores artistas contemporâneas, e o som meio blues meio soul meio folk de Nothing But Water é a prova disso. Ah, e ela tem as melhores pernas de toda a indústria da música.

2 - North Mississippi Allstars






North Mississippi Allstars pega o tradicional blues do Mississippi e faz uma misturada com rock, funk, soul e uma pitada saudável de rap. Uma banda infelizmente ainda desconhecida dos anos '00.

3 - Tom Waits - Rain Dogs


Finalmente encontrei um disco completo no Youtube. Tem um pouco de tudo em Tom Waits, e Rain Dogs é uma amostra disso. Não tenho muito o que falar. Não dá pra engessar Tom Waits em gêneros, é apenas a música dele. Tem gente que gosta, tem gente que tem medo. Eu gosto com um pouco de medo.

4 - Jozef van Wissem & Jim Jarmusch - The Mistery of Heaven




O alaudista Jozef van Wissem em parceria com o diretor e guitarrista nas horas vagas, Jim Jarmusch, um disco atmosférico, minimalista, e bem diferente de tudo. Depois de ouvir por tempo suficiente, gostei dos sons. É um ótimo disco de fundo, sabem? A música em si é bem interessante. Não é todo dia que um alaúde é utilizado hoje em dia.

Essas são minhas sugestões. Como vocês já deviam saber, uma indicação minha é praticamente uma garantia de qualidade, então aproveitem. A ideia era colocar o disco todo aqui, mas o youtube me fez essa sacanagem de não ter todos eles disponíveis. De qualquer forma, estamos na internet, todos eles são bem fáceis de achar.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Estrangeiro - o livro de Albert Camus e o filme de Luchino Visconti

Olá, você que ainda esbarra com esse canto obscuro e empoeirado da internet. Eu lancei um livro semana passada. Tá na Amazon. Talvez você goste de ler.

O link: https://tinyurl.com/yy394a8y

Meus agradecimentos a quem vier a comprar. Comprou? Leu? Gostou? Deixa lá um comentário pras pessoas ficarem sabendo que o livro é bacana.



O Estrangeiro, de 1942, é um dos meus livros favoritos. Li faz alguns anos, antes da criação do blog, e por isso nunca escrevi uma resenha ou falei qualquer coisa sobre ele. Principalmente porque é um livro conceitual bastante complexo. O enredo é o que menos importa, são as teorias filosóficas que Albert Camus insere no contexto desse enredo que realmente interessam. Não significa que a história seja fraca. Não é, e a prosa febril e precisa de Camus insere o leitor por completo na mente conturbada de Mersault. Quando fiquei sabendo que o grande diretor italiano, Luchino Visconti, havia adaptado esse livro em filme em 1967, precisei ver o resultado. Até porque ele é estrelado por Marcelo Mastroianni (lenda do cinema italiano devido aos seus trabalhos com Fellini) e, talvez minha atriz favorita, já no Hall da Fama de menções do Delirium Scribens, pela qual eu carrego uma tara de longa data, Anna Karina.


Primeiro uma breve sinopse. A mãe de Mersault (Marcelo Mastroianni), um pied-noir (literalmente, pé preto, francês que vive na Argélia dos tempos de colônia), morreu. Ela já vivia na casa de repouso há alguns anos, cada vez mais eles se afastavam, Mersault não tinha condições de mantê-la em sua casa com todos os cuidados que sua idade exigia, ela também se sentia muito solitária em casa o tempo todo; aquela foi a decisão acertada para os dois, ele acreditava. Justificativas insuficientes para os supervisores da casa, que desde início se mostravam suspeitos de Mersault, por não chorar e fumar perante o caixão.


"Antes de deixar o escritório para almoçar, lavei as mãos. Ao meio-dia, isso me dá prazer. À tarde, nem tanto, porque a toalha que usamos está toda molhada: serviu durante todo o dia. Certa vez, fiz uma observação a esse respeito ao patrão. Respondeu-me que achava isto lamentável, mas que se tratava, ainda assim, de um detalhe sem importância." (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)


Nem vinte e quatro horas depois do enterro, ele já reencontra uma antiga companheira de trabalho, Marie (Anna Karina) e ele logo a apresenta a sua baguete. Ele tenta ajudar um amigo que se meteu em encrenca após agredir a esposa, o que os coloca na mira de uns árabes. Merda acontece, e agora você vai ler o livro ou ver o filme. Sugiro que leia o livro, logo explico meus motivos.


Comecemos pelos conceitos, já que eles são pelo menos oitenta porcento do livro. A principal característica da filosofia de Camus é que a existência humana é um absurdo. Que, de fato, após a morte de Deus (que ele assume morto, mas na verdade quer dizer que, tanto vivo quanto morto, não faz diferença), a vida não tem um sentido objetivo. As coisas apenas são e, portanto, decisões não importam. Mersault, sendo assim, é indiferente ao longo do filme. Seu chefe lhe oferece uma oportunidade de emprego em Paris, ele diz que não é importante. Sua namorada pergunta se ele vai casar com ela, ele diz que pode ser, mas não importa. Sua mãe morre, ele não consegue se abalar emocionalmente, afinal ninguém vive para sempre mesmo.

"Quando nos vestimos na praia, Marie olhava-me com olhos brilhantes. Beijei-a. A partir desse momento, não falamos mais. Apertei-a contra mim, e tivemos pressa de encontrar um ônibus, de voltar, de ir para a minha casa e de nos atirarmos na minha cama. Tinha deixado a janela aberta, e era bom sentir a noite de verão escorrer por nossos corpos bronzeados." (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

A sociedade, por outro lado, não funciona dessa maneira. Independentemente das coisas fazerem sentido ou não, seres humanos têm dificuldade em encarar o absurdo, inventando razões que justifiquem suas próprias existências (seja Deus, fama, poder, dinheiro, entretenimento etc.). Quando um homem como Mersault aparece, vê as coisas como elas são e decide viver cara-a-cara com o absurdo, ele se torna um estrangeiro. A palavra não vem no seu sentido pátrio, mas social. Claramente, Mersault sofre as consequências de uma vida de estrangeiro.


Deixando claro que o absurdo não significa que a vida não vale a pena ser vivida. Isso não é bem discutido em O Estrangeiro, e sim no ensaio O Mito de Sísifo, no qual Camus já começa dizendo que o maior problema filosófico da humanidade é o suicídio. Mais tarde é feita uma analogia entre a punição de Sísifo e a existência humana, sendo a rebelião a melhor resposta - viver de qualquer forma, e, principalmente, viver em liberdade. Mais ou menos isso, não sou acadêmico de filosofia, nem especialista em Camus. Se você realmente tem interesse nesses conceitos, sugiro que leia os livros e busque alguns documentários interessantes no Youtube, eles podem te explicar bem melhor que eu.

"Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz." (Trecho de O Mito de Sísifo.)

Essa é a principal qualidade do livro e o que faz com que valha a pena lê-lo. A capacidade de Camus de inserir na cabeça do leitor todos esses conceitos e questionamentos em uma prosa literária de altíssima qualidade, leve e clara. Por ser considerado um clássico, só o nome do livro pode intimidar alguns leitores, mas eu digo que isso é bobagem, qualquer pessoa com alguma bagagem literária pode ler e entender, não só O Estrangeiro, como a maior parte da obra de Camus.


Agora ao filme. Existem várias formas de se adaptar um livro para o cinema. Uma delas é quando um diretor realmente gosta de um livro e tenta ser fiel a ele, mas devido às diferenças de formato entre as artes, é obrigado a fazer algumas edições, arrancar cenas, acrescentar outras, para que tudo faça sentido em apenas noventa ou cento e vinte minutos; essa é a mais popular. A que eu mais gosto é quando um diretor pega uma obra e, ao invés de fazê-la em filme, faz uma obra diferente, interpretando o livro e acrescentando a voz própria do diretor. Nesse caso, o filme vira uma história sobre a relação de um leitor com o livro adaptado, o que é sempre interessante. São raros esses casos, Godard fez isso no começo da carreira, por exemplo. Então vem o mais arriscado, o caso desse filme, que tenta encenar o livro, cena por cena, em filme. O risco fica na extensão que o filme pode tomar (O Estrangeiro não teve esse problema, já que o livro tem oitenta e poucas páginas) e na possibilidade de se questionar qual a necessidade do filme, afinal, se ele não traz nada de novo, por que fazer? Existe mais um caso, mas esse é desprezível e, infelizmente, muito comum. São os filmes sobre livros de alta popularidade, feitos por grandes produtoras, com orçamentos milionários. Filmes em que não se há interesse na obra adaptada, apenas interesse no lucro que ele pode trazer. Nem vale a pena falar desses casos.

"Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldades passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isto era uma vantagem." (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

O Estrangeiro, de Luchino Visconti, tem apenas um momento diferente do livro, o começo. A primeira cena busca puxar o interesse do espectador mostrando Mersault sendo levado até a delegacia, algemado - uma cena da segunda metade do livro. Só depois disso é que acompanhamos o enterro e todas as outras cenas. Os diálogos são muito parecidos com o livro e, assim como nele, quase ausentes. Em algumas cenas, até existe narração igual a do livro. Em muitos momentos, me questionei da necessidade daquilo. Eu já havia lido o livro afinal.


Certamente, é bem atuado, o que já vale alguma atenção. Um problema que eu vi foi que o filme é restaurado. Supostamente, a família Camus foi contrária ao filme, dizendo que não interpretava bem a obra de origem (não entendi porque, visto que são exatamente iguais, mas...), o que dificultou a sobrevivência do filme com o passar do tempo. Isso prejudicou muito a qualidade de som, o que é muito ruim, considerando que a trilha sonora original tem momentos risíveis de inadequação, transformando uma obra atmosférica em um suspense barato.

"Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo." (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

Não ajuda também que Anna Karina tenha, provavelmente, sido dublada. Fiz uma pesquisa para ver se a informação procedia, não encontrei nada. Encontrei que Anna, dinamarquesa de nascença, mas que passou boa parte da vida na França, é também fluente em italiano, o que vai contra o meu argumento. Mas a voz dela nesse filme esta completamente fora de entonação (o tom e a expressão facial dela não faziam sentido), e ela falava muito rápido, quase de maneira apressada. Talvez tenha sido durante a restauração. De qualquer forma, é uma pena. A voz dela distrai muito durante o filme, e não é uma distração positiva.


Em geral, o trabalho é muito bem filmado. A atuação compensa os problemas de percurso e danos causados pela idade do filme e a história em si é muito interessante e fielmente recontada. Indico àqueles que não leram o livro, porém a esses indico mais a leitura. Se você leu o livro e, assim como eu, gosta, vale a pena dar uma olhada. Não se trata de uma das pérolas do cinema clássico, mas não é nenhum desastre. O livro, contudo, é de fato um clássico insubstituível, tanto da literatura, quanto da filosofia.

Notas:
Livro - 5/5
Filme - 3,5/5

sábado, 7 de junho de 2014

Bored To Death (2009-2011) - Resenha de uma série cancelada e subestimada


Momento raro aqui no Delirium Scribens, eu indicando uma série. A cada tantos meses eu toco nesse assunto, falo um pouco das que eu assisto, mas sempre de modo geral e sem muita análise. Dessa vez farei uma resenha específica sobre a já cancelada Bored to Death. Mas Raphael, se já foi cancelada, a série é boa mesmo? É. Se você visita esse blog a tempo o suficiente, já deveria saber que uma indicação minha é praticamente uma garantia, então relaxe, leia o texto e depois procure pelo menos os primeiros episódios só pra verificar o quanto eu estou certo (2 anos de existência, é hora de dar férias à humildade nesse blog; 90% da credibilidade vem da falsa-autoridade, então vamos lá).


A história de Bored to Death gira em torno do escritor Jonathan Ames (Jason Schwartzman). Ele tem trinta anos, publicou seu primeiro romance "hard-boiled" considerado razoável pela crítica, sua namorada acaba de o abandonar (o piloto começa com ela de mudança) porque ele bebe demais e fuma muita maconha (embora ele esteja tentando diminuir seu consumo, restringindo o álcool apenas ao vinho branco). Sozinho e com bloqueio criativo para o seu segundo romance, ele coloca um anúncio na internet oferecendo seus serviços como detetive particular - ele não é licenciado, por isso faz um preço acessível. Além disso, ele tem que considerar os problemas pessoais do seu amigo cartunista, Ray Hueston (Zach Galifianakis), que vive as custas da namorada (outro relacionamento instável), Leah (Heather Burns), enquanto seu quadrinho, Super Ray (um super herói que tem como poder sua rola gigante), não consegue publicação, e George Christopher (Ted Danson), editor e colunista de uma revista em decadência, maconheiro nas horas vagas, autoproclamado como "sexualmente descontrolado desde a década de 60", e que oferece uns bicos de jornalista e uma figura paterna a Jonathan.

Participação do diretor Jim Jarmusch.
Foi um escritor chamado Jonathan Ames quem criou e escreveu os roteiros dessa série, mas eu não sei até que ponto ela é autobiográfica. Como escritor, Jonathan Ames publicou alguns livros de mistério e outros tantos de memórias e crônicas humorísticas - nada que eu tenha lido para opinar contra ou a favor. Mas isso não importa, o que mais me chamou atenção na série foi a criatividade do enredo em geral e o desenvolvimento psicológico de cada personagem.


A personalidade de Jonathan é ironicamente oposta a dos típicos detetives dos livros Hard-Boiled (Raymond Chandler, Dashiell Hemmett, por exemplo, frequentemente citados na série). Ele é inseguro, fisicamente fraco, frequentemente chapado, cheio de problemas emocionais à Woody Allen (o personagem, em geral, lembra bem os personagens do Woody Allen, agora que eu parei pra pensar). Mesmo assim ele aceita os casos que ele passa a receber e, como uma pessoa normal, sofre para resolvê-los. No começo coisas corriqueiras, como uma bêbada que quer saber se o namorado a está traindo, até coisas mais complicadas, como um russo ex-presidiário que quer reencontrar uma mulher que ele amava, mas é envolvida com a máfia. Falando assim, nem parece engraçado, mas é aí que está o humor dessa série. A comédia é sempre muito discreta e tão inserida no roteiro que espectador quase não percebe que "aquilo é engraçado". Raramente você vai morrer de rir com uma piada, ao invés disso o episódio inteiro funciona como um momento cômico, capaz de prender a atenção do começo ao fim, tanto com o enredo central, quanto os secundários e terciários inseridos no capítulo.

No fim das contas, os casos de detetive, que deveriam ser tão inusitados, acabam se tornando normais, não só para os personagens como para quem assiste também, o que por si só já é engraçado. Jonathan nunca se torna Philip Marlowe, mas ele aprende alguns truques, e é divertido acompanhar esse desenvolvimento.


Outro motivo que me fez indicar essa série e não qualquer outra é que, como a maior parte das pessoas que me visitam têm o hábito da leitura, os personagens da série também, então ela é cheia de referências (desde os clássicos da narrativa policial até Samuel Beckett) literárias, cinematográficas, musicais e psicanalíticas. O próprio clima dos episódios seguem um ritmo, por vezes satírico, sem nunca pesar a mão, de um filme noir. Temos femmes fatales, interrogatórios, tiroteios, perseguições, tudo no ambiente urbano comum da classe média de Nova York.

Durante as três temporadas, todos os três personagens recorrentes ganham seu desenvolvimento e histórias próprias ao redor da história de Jonathan - que às vezes perde importância perante as necessidades psicológicas dos seus amigos. Falando de problemas psicológicos dessa maneira, mais parece um drama, mas são esses problemas que geram a comédia. O humor, já dito sutil, é baseado em observações do absurdo cotidiano, na sexualidade dos personagens, no uso de drogas, nas decisões erradas, na depreciação e em questões mais filosóficas, como a mortalidade. Os personagens são todos deslocados e alheios as suas próprias vidas, buscando distração, seja se fingindo de detetive, se fingindo de super-herói, ou relembrando o passado em uma nuvem de Cannabis. Isso os torna suficientemente relacionáveis para que a série se sustente, apesar da comédia discreta e por vezes propositalmente obscurecida.


Agora você deve estar dizendo, sim, Raphael, você tem razão mais uma vez, eu quero ver essa série, mas e o final? Se ela foi cancelada no meio do caminho, será que o fim não é frustrante demais? Mais ou menos. Eu não considero o fim de todo satisfatório, até porque os acontecimentos da última temporada abrem espaço para continuações. Mas não chega a ser frustrante, considerando que ela não termina em "cliffhanger", nem deixa nada sem resolução. É como um livro de final aberto (coincidentemente, Jonathan, o personagem, diz gostar de deixar os finais dos livros dele em aberto - ou talvez não seja coincidência...), terminou, mas sempre dá pra explorar um pouco mais, desenvolver novas histórias, coisas assim. Esse tipo de livro deixa a conclusão a cargo da interpretação do leitor, então o fim dessa série é a mesma coisa. E essa foi só a minha impressão, talvez você assista e ache o final perfeito, principalmente se você vai ver a série já sabendo que ela termina (eu comecei a acompanhar em 2009, então vi o cancelamento de perto). Se você gosta de comédias, histórias com clima noir, mistérios - mesmo que satíricos -e bons personagens, provavelmente vai gostar da série também. Pelo menos não vai te tomar muito tempo, são só 8 episódios por temporada - por ser da HBO - de 25 minutos cada.

Nota: 4/5

Obs.: se alguém decidir assistir ou já conhecer ou ver e gostar, avise. Até agora não conheci uma viva alma que tenha assistido essa porra também.  

quinta-feira, 29 de maio de 2014

La Grande Bellezza (A Grande Beleza) - Paolo Sorrentino [2013]


Tem horas que eu gostaria de ter estudado história da arte - ou de vir a estudar um dia - só para que eu saiba do que estou falando, se as minhas impressões de tudo realmente fazem sentido. Uma impressão que eu tenho é de que a Itália é um país instável para arte. Em épocas, a Itália conseguiu ser o centro artístico da Europa, gerando nomes reconhecíveis para a eternidade. Em outras, foi um completo deserto cultura. No cinema, por exemplo, é difícil citar nomes italianos de grande relevância após a década de 70, após Visconti, Pasolini, Fellini, de Sica; literatura não é diferente, viajando pelo tempo e deixando grandes espaços em branco (Dante - Leopardi - Moravia...). Isso ou sou eu que vi poucos filmes italianos da década de 80, 90 e 00, a culpa sempre pode ser minha. De qualquer forma, Sorrentino - que anteriormente já havia dirigido filmes interessantes, mas sem todo esse clamor da crítica - apareceu com A Grande Beleza e chamou a atenção de todo mundo, inclusive a minha.


O filme que, ao estilo de Fellini em Oito e Meio, passeia entre o real e o surreal, apresenta seu protagonista da melhor maneira possível, em uma festa da alta sociedade. Em meio à música terrível - geralmente remixagens de clássicos da música popular italiana ou somente música eletrônica -, o espectador é apresentado à decadência daqueles "ricos e famosos", com Jep Gambardella (Toni Servillo, que fez vários dos outros filmes do Sorrentino) no centro, comemorando seu 65º aniversário. Aos 25 anos, Jep escreveu o romance "O Aparato Humano", que virou um clássico instantâneo. Depois disso, nunca escreveu mais nada, usando como desculpa a sua vida social que o mantinha muito ocupado. Na verdade, os motivos de Jep variam ao longo do filme, assim como sua personalidade. O cínico fechado e cansado que aparece nos primeiros minutos, que desmascara a pretensão dos que o cercam e se declara um misantropo, aos poucos vai se abrindo, seu passado é apresentado e, com ele, os motivos dele ter se tornado quem se tornou.


Desde o início os contrastes que o filme quer apresentar são logo deixados claros. A primeira cena, com o grupo de turismo se encontrando em um dos vários pontos históricos de Roma, ao som de cantos quase celestiais, pacífica - embora termine com uma morte que nunca é explicada -, interrompida pela festa caótica de Jep. Uma cena se passa durante o dia, outra à noite; uma ao som de música erudita, outra eletrônica; uma vazia de pessoas, outra lotada. E mesmo na festa, esses opostos continuam, os velhos e os jovens, os que se encaixam nos padrões de beleza e os que não, e assim por diante. É difícil dizer se sobre o que exatamente é A Grande Beleza, mas eu argumentaria que é justamente sobre isso, aguardem que eu logo me explico.


Nos aspectos básicos de um filme, A Grande Beleza é perfeito. Destaque vai para a atuação de Toni Servillo que é o único personagem presente na história, mas os outros, em seus breves e fragmentados momentos, mantém o padrão de qualidade. As cenas também ficam gravadas na memória, tanto pela beleza das imagens quanto pelo significado. Esse é um filme que vale a pena rever e que faz que o espectador queira voltar nas cenas - o que eu fiz algumas vezes - para perceber coisas novas que na primeira vez passaram direto pela vista.


É difícil descrever um filme cujo o ponto forte é o conceito e não o enredo sem fazer com que ele soe chato ou parado. A Grande Beleza está longe disso, mesmo que a história seja apenas a crise de identidade de um playboy de 65 anos. Pode parecer simples, mas o filme faz um trabalho tão bem feito ao convidar o espectador para dentro da mente desse playboy que até a maneira como os cenários são filmados fazem lembrar o funcionamento da mente de um escritor, observando de detalhes, percebendo as sensações. É isso, A Grande Beleza é um filme sensorial, que impressiona pelas imagens e conta a história por meio delas, ao invés de usar um enredo típico. Por exemplo, a cena da criança que é usada em uma festa para impressionar os convidados. Os pais a chateiam, então ela vai até um número de baldes de tinta e os atira em uma tela deixada no centro da festa. Irritada, ela atira as tintas sobre a tela com a intenção de "estragar tudo", mas acaba criando uma obra de expressionismo abstrato que é vendida por muito dinheiro. No fim, não fica claro se a menina é ciente disso ou não. A cena não parece estar ligada a nada no enredo, mas trata justamente do tema geral do filme que leva em conta a pretensão e superficialidade do estilo de vida de Jep.


Esse filme foi o ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro. Não vi seus concorrentes para dizer se foi merecido ou não, nem acho que isso importa. O que eu sei é que esse é um filme excelente, original, com algumas referências a Fellini (cena do navio, por exemplo), por isso sugiro que vejam algo dele também. As partes mais surreais podem afastar àqueles que preferem enredos claros, mas isso é problema de vocês, não meu. Eu indico.

Nota: 5/5



domingo, 18 de maio de 2014

Machado aos humildes; ou Qual é a da Patrícia Secco?

Não sou eu que falo difícil, vocês que mudaram a língua toda, seus putos.
Uma autora da qual nenhum de nós tinha ouvido falar até ontem se tornou o centro das atenções literárias dessa semana, para servir de preocupação à meia dúzia de desocupados. Estou falando de Patrícia Secco e seu infame projeto que visa facilitar as histórias de O Alienista, de Machado de Assis, e Pata da Gazela, de José de Alencar. E daí?, o que não falta nesse mundo é adaptação de clássicos para o público jovem. Pois é, esse é o problema. Adaptações desse tipo existem aos montes. Ah, mas Patrícia Secco inovou, disse que o público-alvo das suas futuras desfigurações não serão as crianças e os adolescentes, mas os adultos já alfabetizados, porém humildes. Ela fala do pedreiro, da faxineira, do lixeiro, da dona Maria, do seu José, dessa gente simples que sabe, mas não pode ler - afinal as classes média e alta são cheias de leitores. Assim o povo terá acesso tanto financeiro quanto cognitivo aos clássicos. Para Patrícia eu digo, se o problema é o linguajar, já existe dicionário.

O negócio é o seguinte. Financeiramente falando, clássicos são livros extremamente acessíveis. Sejam pelas milhares de edições de bolso facilmente disponíveis e variando entre os 5 e 15 reais (acho difícil que o projeto da dona Secco fique abaixo disso), seja por sebo, onde é possível encontrar edições conservadas, em capa dura pela mesma faixa de preço dos de bolso se não mais barato - minha edição conjunta de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro não passou de 6 reais (notem que foi dois por um, então três contos cada), nem a edição conjunta de Helena e O Alienista, nem uma coleção de contos e crônicas - porque, porra, eu sou humilde também, não posso largar fortunas em livros quando minhas contas já me arrancam o fígado. Quanto ao linguajar, não há nada que possa ser feito. Os leitores precisam entender que, sem linguagem, não resta muito da literatura. Uma palavra não é só um meio de contar história. Uma palavra sozinha carrega muito mais sentido que apenas a sua própria definição, quando escrita por um autor que sabe o que está fazendo; Machado sabia. Isso sem falar do contexto histórico que se perderia por completo com a modernização - "tradução", como alguns estão chamando o ato proposto - do vocabulário.

O que mais me incomoda nessa história toda não é a mudança nas obras desses autores, isso já aconteceu várias vezes. É a falta de necessidade por algo assim que realmente me irrita. E pior, com envolvimento do governo. Se a Patrícia tivesse desenvolvido a ideia, trabalhado na adaptação e apenas mandado para uma editora, seria problema dela. Por que envolver o governo? São tantos os projetos em prol da leitura que poderiam ser lançados, ela cria logo um que envolve a diluição dos melhores escritores do país?

Calma, deixa eu voltar um pouco, essa questão tem outros lados. Eu não serei elitista a ponto de dizer que apenas gente com determinado grau de cultura deve conhecer essas histórias - tecnicamente, é exatamente isso que eu estou dizendo, mas calma que eu logo me explico. Não serei idiota o suficiente para dizer que a solução desse problema é facilitar as histórias. A capacidade de compreensão literária de um indivíduo, como tudo na vida, surge com a prática. Uma pessoa que nunca leu, pode ser um motorista de ônibus ou diretor de multinacional, não será capaz de compreender Machado de Assis, e a linguagem dita rebuscada não será o único obstáculo. Voltando um pouco mais, não existe qualquer relação entre cultura e escolaridade. É muito possível que o motorista de ônibus que eu citei, com acesso a uma boa biblioteca e uma pitada de curiosidade, seja mais culto que o diretor de multinacional que não lê. Com isso, eu quero dizer que não é necessário facilitar Machado de Assis. A pessoa que não lê, em geral, provavelmente não lerá um clássico só porque ele foi facilitado. Existem milhares de livros fáceis, que serviriam de porta de entrada para a literatura mais complexa, sendo lançados todos os anos - não é errado dizer que a grande massa das publicações atuais são compostas de livros acessíveis, alguns desses até são bons. É assim que se forma um leitor, lhe apresentando algo que lhe seja interessante e compreensível. Esse livro trará, além da experiência em si, outro livro, talvez mais complexo - salvo quando o leitor aprendiz é preguiçoso, esse viverá para sempre na terra das leituras confortáveis e nada pode ser feito; a escolha da leitura, assim como o indivíduo leitor, é livre para fazer o que quiser. Voltando ao elitismo, eu quis dizer que apenas pessoas com determinado grau cultural deveriam ler Machado de Assis, mas não que a cultura é algo exclusivo a certas castas, pelo contrário. O que o governo ou a Patrícia Secco deveria desenvolver é uma forma de facilitar o acesso e desenvolvimento da cultura, não o acesso a Machado de Assis.

Foi assim comigo. Já contei essa história antes, mas repito, só comecei a ler depois de velho (19 anos, que não é velho, mas é tarde para começar a ler). Li Bukowski e gostei, nem imaginava que literatura dessas existia. Fui dele para Raymond Carver. De lá fui pra Hemingway. Cheguei em Dostoiévski e, depois, decidi encarar, com sucesso, Machado de Assis. Foi gradual. A ordem não foi bem essa, outras leituras intermediárias tiveram seu papel, mas hoje, não muito tempo depois, me tornei um leitor quase competente, apesar de leigo em teoria literária. Nunca li uma adaptação e nem pretendo. Não sou de pular etapas, se um livro é "muito difícil" para mim em um momento, leio outras coisas até eu conseguir aguentar o tranco. A lista de livros que funcionaram para mim, obviamente, não funcionariam para todo mundo por uma simples questão de gosto. O que é sempre igual, é o processo de avanço.

Tendo dito tudo isso, achei certas reações descabidas. Não sei quem é Patrícia Secco ou o que ela fez (uma porrada de livros infantojuvenis, de acordo com o Google), a primeira vez que ouvi seu nome foi agora durante toda a polêmica. Se ela de fato acredita nessa ideia, acho que deveria ser livre para realizá-la (e eu livre para ignorá-la e chamá-la desnecessária) - Machado de Assis é domínio público afinal de contas, e não é como se a obra original fosse ser substituída pela adaptada nas livrarias. Até acreditaria na boa vontade dela, se o governo não estivesse envolvido no projeto. Agora estou achando que ela quer ganhar dinheiro lançando mais uma coleção de clássicos "água com açúcar/mertiolate que não arde", para dar ao povo e eles fingirem que leem. Tapar o buraco que é a capacidade de leitura básica e de interpretação de texto do brasileiro médio. É uma atitude tipicamente brasileira. É encurtar as escadas ao invés de exercitar as pernas. É oferecer vagas de fácil acesso às universidades para alunos de escola pública ao invés de usar o dinheiro dos impostos para melhorar o ensino público de modo que os alunos sejam capazes de conseguir sozinhos uma vaga na universidade.

Talvez não tenha sido essa a intenção da autora. Talvez ela realmente esteja achando sua ideia genial e incompreendida. É difícil, no entanto, acreditar que não é tudo uma questão de ego. De ela querer ser a mão caridosa a alimentar nosso povo inculto. Pena que ela decidiu mastigar toda a comida antes de servir. E eu não acho, só para por um ponto final nessa questão, que seja elitista ser contrário a esse tipo de projeto. Acredito que seja necessário que o leitor de um clássico, qualquer que seja, ou qualquer outro livro complexo, deve adquirir aos poucos a cultura necessária para compreensão da obra - para que isso se alcance, acredito na divulgação (divulgação, repito, não facilitação) da cultura. Elitista é aquele que acredita que o único meio disponível às ditas "pessoas simples" seja o da simplificação. Que é impossível para aqueles que não têm dinheiro adquirirem conhecimento para compreenderem quaisquer que sejam os livros em sua integra, sem uma desnecessária desfiguração. Esse é o único caminho capaz de resolver a situação, não escondê-lo, embora seja mais complicado e não tão lucrativo - talvez seja esse o problema.