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sábado, 10 de janeiro de 2015

Inside Llewyn Davis: balada de um homem comum (Inside Llewyn Davis) - Ethan e Joel Coen [2013]


Preparados para mais um momento "vamos ver o quanto eu me lembro daquele filme que eu vi tanto tempo atrás e me esqueci de resenhar"? Pois será isso a postagem de hoje. Antes de qualquer coisa, uma nota. Viram só como eu tô organizado nesse começo de ano? 10 dias, 4 postagens - mais ou menos o total de postagens em um mês do ano passado. Vamos ver se assim essa porra vai pra frente. Antes de eu começar, peço também que não confundam Inside Llewyn Davis com a paródia pornô desse filme, lançada alguns meses depois, chamada Inside Llewyn Davis. É fácil confundir.


Já o filme é baseado naquela época que eu tanto gosto, a década de sessenta. Não o fim, mas o começo, 1961 pra ser exato. Mais ou menos quando o cenário folk em Greenwich Village, Nova Iorque, se desenvolveu. Llewyn Davis (Oscar Isaac) é um músico tentando ganhar espaço nesse meio, mas sem muito sucesso. Não é exatamente um iniciante, o disco que ele gravou quando ainda fazia parte de uma dupla fez sucesso, é sua carreira solo  - iniciada depois que seu parceiro, Mike, se suicidou - que não deslancha. Enquanto isso, seu amigo, também músico, Jim (Justin Timberlake) parece estar se dando bem. Jim é casado com Jean (Carey Mulligan), que também faz música em parceria com o marido.

Cansado de Village, Llewyn tenta a sorte em Chicago, pegando carona com um músico de jazz interpretado por John Goodman e um poeta beat. E o filme, então, é sobre essa jornada de ida e volta. Busca infrutífera, não por sucesso, mas por uma chance de ser - ter um disco gravado e distribuído.


A história de Llweyn é levemente baseada na vida de Dave van Ronk. Digo levemente porque as coisas que se passam no filme provavelmente não foram reais, apenas detalhes como o amor por Greenwhich Village, a insistência em fazer a música que ele quer ao invés da que vende, sem falar que as atitudes dos outros músicos, pessoal de gravadora e donos dos bares deve ser, pelo menos em parte, base em relatos da época, mais especificamente o livro de memórias que Dave van Ronk escreveu em parceria com o jornalista e pesquisador musical, Elijah Wald, chamado The Mayor of MacDougal Street (ainda não traduzida para o português e que eu tenho aqui, na minha estante. Ele às vezes me sussurra pedindo pra ser lido, mas os seus vizinhos falam mais alto). Também é uma semelhança o fato de Bob Dylan, antes da fama, ter usado Dave van Ronk como mentor - o que é só insinuado no filme, por meio de uma quase aparição de alguém vestido no estilo Dylan, tocando uma música dele.
 
 
O mais interessante no filme é a forma que eles tratam o conceito de "gênio". O mais comum no cinema é que o "gênio" seja mostrado como um incompreendido, alguém que merece muito mais reconhecimento do que de fato recebe, alguém que se recusa a atender as exigências do mercado em troca de uma arte pessoal, original e sincera. Histórias assim existem, mas são uma minoria. O cinema faz que elas pareçam banais de tanto que são contadas. Meu medo era que Inside Llewyn Davis fosse um filme desses, e é com grande alegria que eu digo que não é.
 
 
Sim, toda essa história do gênio é insinuada, salvo pela parte da genialidade em si. Muitas vezes Llewyn parece mais um cara teimoso, que quer ser visto como o maior nome da música folk, mas cujo temperamento o impede de chegar lá. O filme trata desse outro lado como eu nunca tinha visto antes.  O gênio que se vê como tal, quer ser visto como tal, mas não faz por onde. Acha que deve ser reconhecido somente pelas suas intenções, pela sua integridade moral visível quando ele, mesmo tendo talento e sendo procurado, se recusa a entregar às gravadoras o que elas querem. É muito nobre, no entanto, um gênio sem obra é só um cara comum deitado no sofá, pensando. Uma visão bastante melancólica, pode ser, e isso é porque o filme como um todo é bastante melancólico. Até o uso das cores, sempre entre o azul e o cinza, num clima eternamente nublado, escorre melancolia.




 
Por outro lado, a estrutura mostra um pouco de otimismo. No começo do filme o gato dos Gorfein (casal de idosos que admiram o trabalho do Llewyn) foge. Ao longo do filme, Llewyn tenta encontrar o gato, chamado o Ulysses, e, eventualmente, encontra um gato, mas que ele descobre mais tarde não ser o mesmo, já que Ulysses é macho e o que ele encontrou é uma fêmea. Ulysses desaparece, sem que se saiba para onde, mas volta pra casa um dia antes de Llweyn voltar de Chicago.

Ulysses, claro, uma referência à Odisseia - que eu não li, não podendo então dar um parecer mais exato dessa referência -, visto que o gato sai em uma jornada e volta para casa, mas também pode ser interpretado como uma representação do próprio Llewyn, que vai para Chicago e volta para casa (essa é a jornada do enredo. Ambos, quando voltam, voltam com marcas. Em Llewyn as marcas são internas, pelas experiências vividas. Ulysses, com uma listra a mais no pelo, ao menos é o que parece.


Essa é uma das minhas cenas preferidas. Vou apontar agora que a trilha sonora é tão boa quanto o filme, tendo sido, creio que ou toda ou a maior parte, interpretada pelos atores e atrizes. Essa música especificamente foi composta em referência a uma canção homônima gravada mais ou menos no mesmo período pela dupla The Goldcoast Singers. A única diferença é que a original fala da guerra do Vietnã e a do filme fala sobre a corrida espacial. Nada disso importa, o que eu quero apontar é a tensão, tão sutil, presente na cena. Parece que um deles ou vai se ofender ou vai estourar de frustração, mas, no fim, acabam esquecendo tudo em nome da música - que apesar da incredulidade de Llewyn, dá certo.


Eu indico muito esse filme. Por tudo. Pela atuação, pelo clima, pela época, pela música. Achei perfeito, um dos melhores de 2013. Indico também o disco Inside Dave van Ronk (viram a referência, pois é, quando Llewyn mostra seu disco para o produtor em Chicago, a capa é uma versão do disco real, com Oscar Isaac no lugar do Dave), que é o disco que resume o que foi a música folk.

Nota: 5/5

E se vocês acharam que eu não ia colocar umas músicas do Dave van Ronk aqui, vocês ainda não me conhecem.




quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Pintura Para Principiantes #3 - Edgar Degas


Como eu disse no PPP número dois, nessa edição vou falar de um impressionista, mas um impressionista que rejeitava esse termo, embora tenha trabalhado durante o pico do impressionismo e tenha sido amigo de gente como Monet, Manet, Renoir, Cézanne, artistas que se tornaram ícones desse movimento artístico. Edgar Degas (1834 - 1917) preferia o termo realista, para definir o estilo de sua arte. Foi mais conhecido por suas pinturas e desenhos de bailarinas e por focar seu estilo na captura do movimento da dança. Quanto a Degas, o ser humano, há controvérsias sobre o tipo de pessoa que ele era. De início ele parecia se esforçar para dar auxílio aos seus colegas de trabalho, mas com o passar dos anos ele foi se tornando cada vez mais recluso, ser cruel com suas modelos, perfeccionista etc. etc. Era também um conhecido antissemita, eis a importância de separar o artista de sua obra.


Sendo um perfeccionista, era comum ele criar várias versões de uma mesma pintura até que o momento que ele desejava capturar fosse retratado da melhor maneira possível. Por isso também ele tinha fama de grande desenhista, sempre fazendo rascunhos das suas pinturas antes de passá-las para as telas, hábito que estava se perdendo devido ao estilo impressionista de pintar o momento enquanto ele acontece, muitas vezes no local em que ele acontece. Pelo contrário, Degas era favorável, não a pintar a realidade, mas a usar meios falsos para simular a realidade. É visível a forma como as pinceladas tentando imitar o movimento da dança, do flutuar das saias, aos graciosos passos e gestos.


Essa pintura em particular demonstra ainda mais as intenções de Degas em retratar movimento. A imagem que ele forma não é muito diferente da que uma câmera antiga capturaria, caso a pessoa fotografada se mexesse.


Não só dançarinas, ele também pintava retratos da época. Na pintura acima, chamada L'Absinthe, dois boêmios, o homem é o poeta do romantismo, Paul Verlaine (aquele que comia e era comido pelo Rimbaud), tomando absinto em um café de Paris. Apesar da criatividade atribuída ao absinto, é visível no quadro a depressão e a solidão.


Degas pintava também nus incomuns para a época. Diferentemente do foco estético normalmente buscado em uma pintura desse estilo, Degas tinha por objetivo invadir a intimidade. Suas modelos eram retratadas durante o banho, após o banho, se secando, se vestindo, se penteando. Novamente, focando na movimentação, mas ao mesmo tempo na fragilidade. Ele não pintava poses, cenários aparentemente controlados. O que ele queria era expor aquilo que a sociedade de sua época preferiria manter escondido, a nudez por si só tendo se tornado lugar comum.



A impressão que fica é a de alguém buscando a perfeição em seu próprio estilo. E eu queria saber mais de pintura para poder fazer análises mais profundas, mas é só isso que eu sei. Como eu disse, isso aqui é tanto uma apresentação para vocês quanto para mim. Vamos aprendendo aos poucos. Se tem alguém por aí que entenda mais de pintura que eu, por favor contribua comentando sobre o assunto.


A ideia agora é manter uma espécie de cronograma no blog. Não vou especificar aqui para que não haja cobranças, já que a primeira coisa que eu vou fazer vai ser quebrar esse cronograma, mas o que eu quero é espalhar os temas. Não passar um mês inteiro sem falar de pintura, depois fazer 3 postagens seguidas sobre o mesmo tema. Quero botar ordem nesse barraco. Tentarei fazer, por semana, um post de literatura, um de música, um de cinema e um de pintura. Textos próprios sobre temas variados podem ou não surgir, mas as postagens sobre arte são "fixas", pelo menos até que eu mude de ideia.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Momento Musical #6 - Funkadelic, Sly & The Family Stone, Black Merda, Mulatu Astatke

Mais um feito inédito no blog, estou seguindo uma sugestão de um comentário. Quem fez foi a Carol, do Uma Cadeira, Por Favor (e se você gosta de cinema, clique no link porque ela sabe das coisas), que sugeriu Funkadelic pro Momento Musical. Bem lembrado, então não só inclui Funkadelic na lista, como decidi seguir o tema Funk/Soul/Jazz pro Momento Musical número seis, até porque já é um estilo que eu estava querendo cobrir faz tempo. Isso é pra vocês saberem que eu presto atenção nos comentários de vocês e sugestões são bem-vindas. Vamos aos discos selecionados.

Funkadelic - Funkadelic (1970)


Esse é o primeiro disco da banda e um dos meus favoritos. Não é tão experimental quanto "Free your mind...and your ass will follow", que veio depois. Eles tem esse lado atmosférico na música deles, que deixam as letras parecidas com instruções de hipnose, que eu acho muito bacana, diferente do funk puro. A banda é impecável. A música em geral é tão hipnótica que fica difícil ouvi-la e fazer outras coisas ao mesmo tempo, como por exemplo escrever um post sobre música...Bom, eles se chamam Funkadelic por um motivo e, nas palavras de George Clinton, na primeira faixa, it will blow your funky mind.

Sly & The Family Stone - Stand! (1969)


Hoje em dia é difícil dizer que existe alguma igualdade na sociedade, mas na década de 60 os conflitos raciais estavam a beira de estourar uma guerra, as coisas estavam ficando violentas mesmo, com o assassinato de Malcolm X ('65) e Martin Luther King ('68), pra citar os mais conhecidos historicamente. Em meio a esse ambiente conturbado, havia aquele grupo feliz, que queria apenas igualdade, paz e boa música. Surge Sly & The Family Stone, uma das primeiras bandas, se não a primeira, a unir negros, brancos, homens e mulheres. Um marketeiro idiota usaria o termo "diversificada" pra definir a banda, mas a verdade é que se trata apenas de uma banda de humanos (sem querer discriminar os animais, acontece que cães são péssimos com instrumentos de corda e sopro, além do problema do déficit de atenção, e gatos seguem apenas carreira solo etc.). Ah!, já ia esquecendo, o disco é muito foda.

Black Merda - Black Merda (1970)


Uma banda, infelizmente, esquecida pelo tempo. Black Merda pode parecer um nome engraçado no Brasil, mas o que eles quiseram fazer foi imitar a grafia "falada" da palavra Murder, ao mesmo tempo descrevendo a situação racial da época, 1970, quando negros eram assassinados sem que houvesse consequência. Em estilo, eles eram mais para o rock que para o funk, lembrando uma versão menos frenética de Jimi Hendrix Experience. Vale conhecer, eu juro que não sei porque eles não foram maiores naquele tempo.

Mulatu Astatke - New York–Addis–London: The Story of Ethio Jazz 1965–1975


Mudando um pouco de estilo, esse está mais para jazz que qualquer outra coisa, mas não chega a se separar tanto do funk, do soul, incluindo na receita um pouco de afro-beat e música latina, Mulatu Astatke é um ícone do chamado ethio-jazz (jazz originado na Etiópia). O disco não é um álbum, mas uma compilação de músicas que ele gravou entre 65 e 75. A idade do Momento Musical é fugir de compilações e focar em álbuns, porque desde o surgimento do mp3 o álbum tem perdido sua importância e os ouvintes têm focado nos "hits", o que me incomoda um pouco. O problema é que nem sempre o Youtube vai ter um álbum ali disponível. Aí eu vou ter que me decidir se eu mesmo faço o upload e me arrisco a entrar nessa putaria dos direitos autorais, deixo de falar do músico cujo álbum não está no Youtube, ou me contento em disponibilizar uma ou duas faixas. Nesse caso específico, Mulatu Astatke tem uma carreira tão extensa e rica (e ainda ativa), que focar em um álbum negligenciaria muito do estilo dele. Além do mais, essa compilação é perfeita, tem um pouco de tudo e é o que eu sugeriria a um curioso que não conhecesse nada do jazz etíope.

Por hoje é só, minhas crianças. Escutem a música, isso é o mais importante.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A poesia de Paulo Scott

Tem jeito melhor de começar um ano de postagens, após ter feito a promessa de que resenharia coisas que nunca me considerei digno de resenhar, com um texto sobre poesia - que nunca tive coragem de falar sobre, se não por um ponto de vista impessoal e teórico, embora academicamente inapto? Pois assim começarei, falando de um dos poucos poetas contemporâneos que acompanho, o Paulo Scott. Não irei tão longe a ponto de resenhar uma coleção específica, e dar nota a ela, seguindo meu formato usual, não. Vou falar dos dois livros que li dele, tentar descrever algumas das sensações que eles me causaram, e isso pode ser considerado uma indicação automática para vocês, parcela dos meus leitores, que gostam de poesia.


Fui surpreendido pelo lançamento de Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo (Companhia das Letras), em 2014 - já falando como se fosse algo distante, mas a verdade é que quase publiquei o texto tendo escrito "esse ano" -, coleção mais recente do Paulo Scott. Demorei um pouco para comprar, porque, talvez por ser poesia, nem todas as livrarias o tinham disponível. Mesmo assim consegui comprar e ler o livro antes do fim do ano passado e, devo dizer, foi uma das minhas leituras favoritas no ano (mesmo que eu tenha terminado a dita leitura ontem, por volta das sete da noite).

Não foi a primeira coleção do Paulo Scott que eu li. Já havia lido também a primeira, creio eu que em 2014 também, mas logo no começo, chamada A timidez do monstro (Objetiva). Por isso, a primeira coisa que me ocorreu durante a leitura de Mesmo sem dinheiro foi a diferença no estilo. Antes que eu me estenda, vou avisar que o livro foi dividido em duas partes. A primeira, chamada Livro Um, é onde a diferença mais notável está. O Livro Dois, embora carregue alguns dos aspectos do Livro Um que diferenciam essa coleção da primeira, tem uma linguagem muito mais aproximada.


 Diferentemente de A timidez do monstro, o Livro Um de Mesmo sem dinheiro tem em cada poema uma narrativa, levemente abstrata, mas não muito. Paulo Scott desenvolve personagens em seus poemas, cenários que podem ser reais ou fictícios, sempre breves e precisos que, por trás da linguagem poética, contam uma história muito maior. E eis o motivo de eu sempre ter evitado resenhar livros de poesia. Os parágrafos a seguir desse texto estarão cheios de suposições sobre as intenções do autor que eu, nunca tendo falado com ele, não teria como saber. A questão é que, e isso é uma opinião pessoal minha, um poema, como qualquer outra obra de arte, quando tornado público deixa de ser do autor. Na prática, lógico que o texto segue pertencendo ao autor, estou falando do significado dele. Um leitor nunca lê a poesia do poeta, ele lê sua própria poesia nas palavras do poeta. Ele vai entrar no texto e investir no texto os seus próprios sentimentos, mesmo que isso não faça tanto sentido. Por isso, tudo que virá a seguir não pode de forma alguma ser considerado correto, objetivo ou imutável. O leitor pode, deve, ter impressões diferentes, tão diferentes quanto as reais intenções, se existentes, do poeta.

Enquanto em A timidez do monstro a linguagem parece ser propositalmente hermética, formada de associações líricas entre as palavras, mais focadas em som que em sentido, o Livro Um de Mesmo sem dinheiro segue um caminho direto, quase doméstico.

Fidelidade

ficava clareando os olhos gaúchos no espelho
tentando aprender o modo certo de falar na tevê

ficava irritada, meio cega e míope, seu nome paraíso
e não sabia se o próprio choro era choro de verdade

fizeram-lhe óculos para esse tipo de exame final
média seis e cuecas na altura de joelho na testa

lentes roxas em grau sumô natural luzes apagadas
lentes autolubrificantes espessura goles e goles de festa (p. 20, Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo)

Os personagens são esposas, maridos, filhos, gente encarando a idade adulta com insegurança, as crises do não estar sendo tão produtivo quanto se cria que seria quando jovem. A ansiedade está presente em ambas as coleções, mas em Mesmo sem dinheiro ela parece ter mais foco, ou pelo menos um foco diferente. Digamos que a mente por trás da poesia seja a mesma, mas o filtro poético pelo qual as palavras passaram para se tornarem o que vieram a ser é outro.

de tarde na vila madalena

vago sol
que cai
e feta
sobre
o lombo
de livros (p. 31, A timidez do monstro)

Um detalhe que ajuda a definir o clima de A timidez do monstro, não presente na nova coleção, é as ilustrações. Feitas por Guilherme Pilla, elas representam essa violência abstrata e não direcionada do primeiro livro muito bem, ajudam a complementá-lo, como as ilustrações devem ajudar. Mesmo sem esqueite, no quesito violência, assume um tom mais passivo, talvez por isso mais adulto.

Primeira temporada completa

1.
descer de petrópolis com os olhos fechados
contando até dezoito antes de abri-los de novo
enquanto a companheira dorme na garupa
da vespa, achando que são frequência, papel

2.
então me liga quando chegar na beira da praia
e me conta como é voar com a infelicidade
enfiada no rabo - curso do seja homem
e repita que nunca mais torceu pelo touro

3.
chuva de pólen sobre cativeiros de peixes
assim ficaram teus olhos depois que abri os meus
casca de sexta-feira, carpas nadando em antibiótico
(show de exorcismo e) pudim de resfenol

4.
pedindo desesperada para eu frear - m. brando
em sessão da tarde - você me encara, determinada,
pergunta se o sol nasce ali mesmo
se a gente tipo é casado ou tipo vai só namorar (p. 42 - Mesmo sem esqueite...)

O Livro Dois já relembra o estilo de A timidez do monstro, não sei se há algo de proposital nisso (não sei se qualquer coisa que disse até agora fez muito sentido). As rimas e aliterações, embora ainda livres, estão mais presentes, e as palavras voltam a favorecer o som que o sentido.

olho que é grade que ouve
ovo que é linha no poema

sem atritar a surdez do ovo
e de novo que é filme de foto

o couro mais forte do corpo
pele global nata lacrada ovo

o olho é um ovo que engole
um ovo que nasce geminado

portanto o olhar não é só (p. 68 - Mesmo sem esqueite...)

Não é só poesia que o Paulo Scott publicou, mas foram só as poesias que eu li - não por algum motivo específico,  na verdade agora quero partir para a prosa. Além desses dois livros dos quais falo, ele publicou Voláteis (romance, pela Objetiva/Alfaguara), Habitante Irreal (seu romance mais conhecido, pela Objetiva/Alfaguara), Ithaca Road (romance da coleção Amores Expressos, pela Companhia das Letras) e Ainda Orangutangos (contos, pela Record). Houve ainda mais uma coleção de poesias, Senhor Escuridão, pela Record, que ainda não li. Por ter lido apenas o primeiro e o último livro dele, a impressão maior que tive é que, entre eles, houve uma grande mudança no estilo, e eu não acompanhei a transformação (se essa de fato aconteceu) por não ter lido os outros livros. Pretendo lê-los o quanto antes.

cavocando o cano da vocação

as formigas estão felizes
capinam as gotas açucaradas
sobre a pia de granito verde
envolvo-as num círculo de sabão
(é forte odor de maçã)
Avelina abre a porta e me surpreende
meu dorso de maracanã eriça
e perpassa em correntes
uma brisa esquecida
uma solidão de paraíso (p. 78 - A timidez do monstro)

No começo da resenha disse que ele é um dos poucos poetas contemporâneos que acompanho, mas já recolhi alguns nomes e pretendo mudar isso esse ano. Tem coisas interessantes acontecendo por aí hoje em dia e eu quero saber o que são.

Hoje sem nota. O livro está aí, indicado para quem queira ler. E abaixo tem um link para o primeiro poema de Mesmo sem dinheiro, disponibilizado pela Companhia das Letras. Divirtam-se crianças.
 
http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13760.pdf

domingo, 21 de dezembro de 2014

Momento Musical #5 - The Mamas and the Papas, Love, The Velvet Underground


Nessa casa da mãe Joana que é o Momento Musical, por mais que eu tente evitar, acabo caindo num tema. É inconsciente. Defino as bandas de improviso, cinco minutos antes de escrever a postagem, aí uma meio que se conecta a outra dessa maneira. Estou escutando o disco enquanto penso no próximo, e o próximo acaba vindo. Na edição de hoje, são bandas da minha tão amada década de 60. Uma delas, a primeira, é meio deslocada, mais ligada ao pop que ao psicodélico, mas não está tão distante. Vamos à música que é o que importa.

The Mamas & The Papas -  If you can believe your eyes and ears


Minha primeira memória dessa banda é bem distante. Era a minha mãe quem gostava especificamente da música California Dreamin'. Nunca foi muito meu estilo, eu achava, até ouvir esse disco por completo uns dois anos atrás. O som é leve, cheio de harmonias vocais, meio folk, meio pop com uma pitada de psicodélico (que era meio onipresente no som de 66-68). Acho que não gostava por nunca ter prestado atenção mesmo. É uma banda relaxante.

Love - Forever Changes


Esse disco é um dos melhores do seu período, o que é dizer muito (foi lançado em 67, e agora você vai no Google e pesquisa "álbuns lançados em 67", se vocês gostam desse tipo de música, mas não são tão ligados na história por trás dela, vocês terão um orgasmo). Encabeçou toda uma geração, mas hoje ninguém lembra deles. Culpo o nome da banda. Convenhamos, nossa geração baixa música e descobre tudo pela internet. Tenta pesquisar a palavra Love na internet. Vai demorar umas 30 páginas do Google, até encontrar alguma informação sobre a banda. Mais bagunçado ainda é pesquisar Love no PirateBay. Sorte de vocês que o tio Rapha existe e trás essas joias diretamente pra vocês, sem necessidade de perder tempo pesquisando.

The Velvet Underground - Loaded


Fiquei triste pra cacete quando o Lou Reed morreu ano passado. Puta compositor, e eu acho que o melhor trabalho dele está nesse disco. Já me peguei ouvindo esse álbum e cantando junto com Sweet Jane, Who Loves the Sun, Oh! Sweet Nuthin'. Esse é um dos meus discos favoritos da história do rock e eu não faço ideia de por que essa é a primeira vez que ele figura aqui no blog (se bem que tem dezenas de álbuns que eu amo e nunca falei sobre por aqui - só aguardem as próximas edições do Momento Musical).

É isso. Não farei mais Momentos Musicais esse ano, mas 2015 estará aí logo. Quem sabe eu até bote ordem nesse barraco, organize minhas postagens por semana. Não prometo porra nenhuma, mas não é impossível de acontecer.