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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Divórcio - Ricardo Lísias [2013]


Peguei esse livro emprestado dois meses atrás. Nunca tive coragem de pedir livros emprestados para ninguém, não importando o quão bem eu conhecesse a pessoa, por causa da pressão. Passado muito tempo, se eu não terminasse a leitura e devolvesse o livro, ia começar a me sentir cada vez mais culpado. Fiz essa exceção porque queria ler algo do Lísias já faz tempo, mas não sabia qual comprar, e sempre que fazia uma lista de futuras compras, deixava o dele para depois. Então me atirei nessa pressão psicológica propositalmente para me forçar a ler o livro, e em um ritmo razoável. A pessoa que me emprestou havia passado as últimas semanas elogiando Divórcio, então pedi o empréstimo. Ela aceitou, até porque já havia emprestado dois livros para essa pessoa.

Feito em uma série de fragmentos divididos em 15 capítulos - que o livro chama de quilômetros, mesmo número de quilômetros da São Silvestre -, Divórcio conta a história de como Ricardo Lísias (personagem, não autor) se divorciar da esposa após um casamento de quatro anos. Os fragmentos são formados de pensamentos do autor durante e depois do divórcio, momentos do passado, trechos do diário que a esposa do narrador mantinha (causa principal da separação) e autoanálise. Seguindo a linha já bastante tradicional na literatura francesa de autoficção, Ricardo se põe como personagem, mas não exatamente.

A narrativa de Divórcio trafega a linha tênue entre ficção e realidade, com o autor, talvez intencionalmente, fazendo o leitor ceder àquela voz que o acompanha enquanto ele lê, que insistem em dizer que aquilo aconteceu daquela forma, que o eu-lírico e o eu autor são um e o mesmo. Ele faz isso colocando, ao lado das invenções (o treino para São Silvestre que ele nunca fez e a corrida da qual ele não participou - embora ele narre com a verossimilhança de um participante) os fatos - citações aos montes sobre o livro Céu dos Suicidas, que existe e foi Ricardo Lísias, autor, quem escreveu. Resisti o que pude, mas, como imagino tenha sido o caso da maior parte dos leitores, botei o nome dele no Google e fui investigar quanto daquilo foi real. Saí da pesquisa sabendo tanto quanto quando entrei - nada. Nem sei dizer ao certo se o cara foi casado. E, querem saber, bom que tenha sido assim. Não vem ao caso quem é Ricardo Lísias, o autor. O livro trata de Ricardo Lísias, o personagem, e, para este, tudo que se passou no livro foi real, mesmo que tudo não passe de ficção.

Apesar das distrações, das fofocas, do drama, do real contra a ficção, o livro fala mesmo é de jornalismo. Desse mundo que todos sabem ser corrupto chamado mídia, a principal responsável pela informação. Lísias escreve sem medo sobre o poder que existe nesse meio, e o poder que estes que o representam (jornalistas) acreditam ter. Nesses momentos, a prosa beira a fúria, o que só aumenta a curiosidade do leitor para saber se Divórcio é biografia ou não. Ironia que vou julgar ter sido intencional, fazer o leitor se entregar ao mesmo mundo do jornalismo que o autor condena.

Devo dizer, entretanto, que as repetições do livro me cansaram. A metáfora insistente sobre "estar sem pele" e as descrições exaustivas da pele voltando e não voltando e se ferindo me fizeram sair da narrativa muitas vezes. Escolha estilística, imagino, mas pra mim não funcionou. O livro não fica ruim por causa disso, o resto do conteúdo compensa. Para mim ele foi além do jornalismo e brincou com esse obsceno gosto humano por tudo que é do outro, mesmo que o outro seja um fundo de banalidade tão ordinário quanto você.

Atropelando as repetições, o romance é muito interessante. Me deixou curioso pelas outras obras do autor, principalmente agora que já estou vacinado e desencanei da realidade, pelo menos quando estou lendo (às vezes nem preciso ler pra isso).

Nota: 4/5

Não confie em mim. Leia um trecho e, se gostar, compre o livro: http://www.objetiva.com.br/arquivos/capas/Divorcio__1oCapitulo.pdf?1416486760

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Les Amants Réguliers (Amantes Constantes) - Philippe Garrel [2005]


Eu tenho esse fascínio pela década de 60 que muitos de vocês já conhecem, foi isso que me levou a me interessar pelas crises políticas da época (a ditadura militar brasileira, os hippies e a contracultura nos EUA, a primavera de Praga, e os eventos de maio de 68 em Paris). Fiquei sabendo em meio às minhas pesquisas particulares da existência desse filme e logo o baixei e assisti. O diretor é Phillipe Garrel, que, em 68, fez parte da revolução, ao lado de Godard e Truffaut. Esse filme, Les Amant Réguliers (não confundam minha preferência pelo título original com pedantismo ou francofilia, é porque o título nacional é composto de duas palavras que rimam e vocês não fazem ideia do quanto isso me incomoda), é de 2005, mas tenta recapturar o espírito daquela época. Sem colocar a carroça na frente dos bois, li sobre a possibilidade desse filme ter sido uma resposta a Os Sonhadores (The Dreamers), do Bertolucci, de 2003, que trata mais ou menos do mesmo tema, a diferença sendo The Dreamers mais focado no lado erótico/sexual, e Les Amants... mais filosófico/introspectivo (não contendo uma só cena de nudez). Em uma cena, inclusive, uma personagem se volta à câmera e cita Antes da Revolução (Prima della rivoluzione), de 64, enunciando muito bem ao espectador o nome de quem dirige: Bernardo Bertolucci. Pode ou não ter sido um cutucão, um jeito discreto de dizer: você costumava se importar. Isso foi o que um crítico disse, e vocês sabem como são os críticos. Como nunca ouvi nem Garrel nem Bertolucci falarem nada sobre isso, e até onde sei os dois são amigos, não tomarei partido no caso. Mencionei apenas caso algum leitor mais informado quisesse me esclarecer.


Os conflitos entre os estudantes e os policiais na França em 1968 (época em que o governo era bastante conservador) estão cada vez maiores e mais violentos. Um grupo de jovens artistas, entre eles o poeta François (Louis Garrel) e a escultora Lilie (Clotilde Hesme), tem hábito de se reunir na casa de um amigo deles para fumar ópio, trabalhar, discutir, dançar e planejar os próximos passos da revolução. Um policial um dia vai à casa de François para perguntar porque ele não se apresentou para o exame militar obrigatório. Ele se recusa a ir com o policial e, quando este busca reforços, ele foge. Depois desse evento, François se torna mais engajado na revolução.


Em um dos "ataques", ele conhece Lilie e a reencontra numa das festas dadas na casa do "padrinho" deles todos. Os dois iniciam um relacionamento, ela tem dificuldades com a monogamia no começo, mas logo se apaixonam. A revolução, agora em 69, já foi em sua maior parte esquecida. Os trabalhadores voltaram a trabalhar e os estudantes à universidade.


É um filme de três horas, então já adianto que é indicado apenas aos que se interessam pelo tema e/ou gostam de histórias envolvendo artistas drogados e seus muitos questionamentos que os impedem de trabalhar. Se você gosta desse tipo de história (eu gosto), não será chato, as três horas passarão voando. Perfeito também para os aficionados sobre a época, já que o filme parece ter o objetivo de mostrar um retrato preciso do que foi viver naquele tempo, feito por um diretor que o viveu, lutou na revolução junto das tantas personalidades do período. Isso não quer dizer que o retrato seja romantizado ou ausente de críticas, pelo contrário, o vazio das personagens é bem demonstrado e a falta de sentido generalizada é muito bem explorada.


Estéticamente, Les Amants Régulier é uma homenagem à Nouvelle Vague. Preto e branco, cheios de diálogos tirados de livros de filosofia existencialista francesa, música somente quando necessário, quebras da quarta parede, referências a outras artes, jump-cuts, até mesmo as personagens têm um quê de godardianas, sendo que suas interações parecem cortadas diretamente dos filmes da primeira fase do auteur.


Não tem jeito de eu ser objetivo aqui. O filme, apesar de longo - uns diriam, sem estarem errados, longo demais -, tem tudo que eu gosto, trata de vários assuntos que me interessam, desde a liberdade sexual à liberdade criativa. Isso não me impede de entender que não é para todos. E não, isso não é uma dessas frases elitistas, como se o filme fosse muito complexo ou denso para certas pessoas, que, por isso, seriam inferiores. De forma alguma, muito pelo contrário. O que eu quero dizer é que ele pode ser extremamente desinteressante para muitos, e, para esses, sugiro qualquer outro filme. Talvez até algo do Godard, que com certeza é menos pessoal que esse filme do Garrel.

Nota: 5/5   

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Momento Musical #4 - David Bowie, Karen Dalton, The Brian Jonestown Massacre

No último momento musical eu segui um tema, mesmo tendo dito no primeiro que temas não seriam seguidos. Eis a consistência desse blog servida numa bandeja para vocês, leitores. Em compensação, o mm de hoje, número quatro, trata de três músicos que não têm absolutamente nada a ver um com um outro - o que alguns poderiam considerar um tema (a falta de um tema), mas não me venham com historinhas conceituais. (Interrupção irrelevante da CIVouVI: o senhor nomeado administrador desse blog deve parar de falar com si próprio como se estivesse falando com leitores, todos sabemos, infelizmente, que o senhor não é capaz de reunir leitores. [Querem saber, seus putos da Comissão da Casa do Caralho, isso já perdeu a graça. Se eu sou um problema são grande, me substituam.] Esse é a melhor ideia que o senhor já teve em todo esse tempo de administração incompetente. [Muito boa essa, tô esperando sentado meu substituto. Ah, e essas interrupções tão previsíveis, ok?] Como o senhor quiser.) Bom, vamos aos músicos e seus álbuns.

David Bowie - Hunky Dory 


O problema de falar sobre David Bowie é que ele não faz parte de um gênero musical, ele é um gênero musical, e um que muda frequentemente. Ele ganhou a reputação de camaleão com o passar dos anos, em parte merecida já que ele tem a tendência de mesclar com qualquer estilo que esteja na moda em determinado período, mas nunca é artificial. A "adaptação musical" é sempre do jeito dele, e é isso que eu acredito que faz a música dele tão memorável. Esse disco, Hunky Dory, de 1971, é um dos meus favoritos dele. Mas não me peçam pra classificá-lo. Escutem, vale mais a pena que ler o que eu estou escrevendo.

Karen Dalton - In My Own Time


Essa cantora...descobri da existência dela tão recentemente, mas ela gravou esse disco, uma das coisas mais perfeitas que eu já ouvi, em 1971 (ei, aparentemente essas escolhas têm algo em comum, mas não é intencional). Pela primeira vez na minha vida fiquei de luto pela morte de alguém que não conheci, e ela morreu em 1993. O mais trágico é que ela gravou três discos, em vida. Só. Tá certo que esse sozinho compensa pela discografia inteira de muitos artista. Sério, quando eu digo que minhas indicações são garantias, levem a sério pelo menos essa. Esse álbum vale a pena, não me importa do que você gosta, clique lá no play. Agora. Clicou, cretino(a)? Acho bom. Viu? Eu tava certo. Nunca mais duvide de mim. Fique de luto comigo.

The Brian Jonestown Massacre - Take It From the Man!

A década de 90 foi estranha pra música. Às vezes um estranho bom, outras um estranho ruim. Esse álbum representa todo o bem que a década de 90 fez pra música - que por sua vez foi tentar imitar a década de 60. Tem momentos experimentais que vão assustar um ou outro ouvinte, mas eu superestimo confio em meus leitores, sei que eles farão a escolha certa e ouvirão o disco (todos os três, a propósito. E no final verão cores e sentirão como se estivessem flutuando com a melodia. 

Acho que eu fui persuasivo o suficiente. Chega, é um post sobre música, não sobre o quanto eu acho que todos deveriam ouvir a tal música. E se vocês não ouvirem, o problema é de vocês e somente de vocês - eu já me fiz o favor de conhecer cada uma das faixas de cada um desses discos.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Barba Ensopada de Sangue - Daniel Galera [2012]


Por algum motivo a capa vem em três cores. O meu livro veio com a vermelha, mas pode ser azul ou verde. Não faz diferença, mas, na minha opinião, a vermelha faz mais sentido.

Há um tempo fiz a resenha de Até o dia em que o cão morreu, romance de estreia de Daniel Galera. Tinha gostado bastante do livro e dito que leria os outros assim que possível. Por causa de toda a atenção que Barba ensopada de sangue recebeu em sua época de lançamento (incluindo, além das vendas e da reação de público e crítica, vários prêmios), decidi que seria o próximo livro que leria desse autor.

O pai do protagonista sem nome vai se suicidar. A única coisa que ele quer de seu filho é que ele leve sua cachorra para ser sacrificada. Ele não obedece o pai e, ao invés disso, a leva com ele até Garopaba, cidadezinha do litoral de Santa Catarina. Vai até lá pela tranquilidade e para investigar uma história que seu pai lhe contara antes de morrer sobre seu avô. Sobre como ele sumiu após um baile na cidade, supostamente assassinado, mas sem testemunhas e sem que seu corpo pudesse ser encontrado. Ele aluga um apartamento e arranja um emprego na academia local como professor de natação para sobreviver. Leva uma vida normal, vez ou outra questionando alguns moradores sobre seu avô. O estranho é que ninguém parece se lembrar dele, mas sempre que ouvem a história o tratam com hostilidade, como se ele estivesse se metendo em território proibido.

Narrado em terceira pessoa, Barba Ensopada de Sangue consegue fazer que o leitor entre na mente do personagem sem nome devido à atenção aos detalhes. O protagonista sofre de uma doença que o faz esquecer de rostos em um curto período de tempo, até mesmo do seu próprio rosto e dos seus familiares, por isso ele foca em outros detalhes. Se ele conhece uma mulher e acha que vai vê-la novamente, repara no cabelo, em alguma marca na pele etc. - isso ele faz com todos os personagens. Por ser professor de educação física, ele tem um amplo conhecimento da anatomia humana, usando sempre os termos precisos para cada parte do corpo, assim como descreve cada passo dos exercícios diários que ele pratica e, durante as aulas que ele dá na academia, faz os outros praticarem. Vi em uma entrevista com o autor que, apesar da inserção dele na mente do protagonista fazer parecer que o livro estaria mais próximo da primeira pessoa, ele decidiu escrever em terceira justamente por isso, para poder trabalhar na narração como um escritor pensando como um professor de educação física. Afinal, por mais que o professor saiba anatomia e todos os termos complexos do corpo, dificilmente ele sabe dominar uma narrativa. A terceira pessoa permite que ele vá além, que ele saia da voz do narrador com mais liberdade sem nunca soltar tanto assim a sua mente, o que funciona muito bem em Barba Ensopada de Sangue, diria que é a narração é o ponto alto do livro.

Apesar de girar em torno de um assassinato, raros são os momentos em que essa busca move o enredo. Nesse ponto me lembrei de Haruki Murakami. Como os protagonistas do japonês, o sem-nome é levado pela investigação, e não o contrário. Ele tenta viver normalmente pela maior parte do tempo. Tem seu emprego, passeia com a cachorra, vive alguns relacionamentos emocionalmente deslocados com mulheres que conhece pela cidade, forma amizades (seus alunos e um budista de apelido Bonobo, que se tornou meu personagem favorito) e desafetos (quase a cidade toda). Um cara normal que se vê puxado por algo muito maior que ele. E, porque o mistério da morte de seu avô o parece perseguir, ele decide chegar até o fim e resolver o caso - que, vou evitar ser específico para não estragar a experiência dos que não leram ainda, toma proporções "sobrenaturais", também, mais ou menos como o Murakami.

Daniel Galera tem um puta ouvido para diálogo. Ele não separa as falas da narrativa usando aspas ou travessões, como é o comum, ao invés disso ele cormacmccartheia o texto - quem já leu Cormac McCarthy vai entender o que eu quis dizer com isso. Não fica confuso por causa dessa diferença de vez. Cada pessoa tem seu jeito de falar, uns tem seus maneirismos e regionalismos, outros não. Os diálogos soam  como conversas reais e não literárias. Ele também Cormac McCartheia nas reviravoltas violentas, consequências de certos atos do sem-nome.

O uso de notas de rodapé, emprestado talvez das notas do David Foster Wallace (cujos contos e ensaios Daniel Galera ajudou a traduzir), complementam a história, com conversas por telefone, mensagens de facebook, até o trecho do diário de uma prostituta. Nele se revelam as várias subnarrativas do livro, que mesmo focando no assassinato do avô do protagonista, carrega outras histórias, como a relação do sem-nome com sua família (especialmente o irmão e a ex-esposa, que o largou pelo irmão). São pedaços da história que vão se revelando aos poucos, dando vida ao livro e suas personagens.

Só uma nota irrelevante, mas que achei divertido compartilhar. A cachorra, cujo nome é Beta (pois é, ela tem nome, a maioria das personagens têm nome, o protagonista não), é uma pastora australiana. Mesmo sabendo como é uma pastora australiana, enquanto eu lia, minha mente formava algo parecido com uma labradora. Não sei por quê. Vai saber como funcionam essas coisas da cabeça. Talvez porque imaginar uma pastora australiana correndo debaixo do sol de Garopaba, se metendo na areia da praia e mar adentro, sem nunca tomar um banho, fosse me deixar aflito durante o livro todo. Agora voltamos para a resenha normal, mas na verdade é só o parágrafo de conclusão que vem a seguir, seus olhos já devem ter escorregado e observado que o texto está acabando.

As descrições de cenário seguem conforme as descrições das pessoas. Sem-nome é observador, por isso aponta cada detalhe dos caminhos que traça, as casas, a praia, o mar, os restaurantes, as paisagens naturais. Apesar de morar perto, nunca estive em Garopaba, mas depois de ler Barba... sinto como se já a houvesse visitado. Todos esses detalhes formam mais de 400 páginas, que nunca ficam chatas. É a junção perfeita de um livro como obra de arte e como entretenimento. Agora quero ler Mãos de Cavalo, que ouvi ser o melhor do Daniel Galera.

Nota: 5/5

Não confie em mim, leia um trecho aqui e depois compre o livro: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12453.pdf

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O vôo da madrugada - Sérgio Sant'anna [2004]


Vi no Youtube não faz tanto tempo um trecho curto de um debate sobre o mercado editorial entre Daniel Pellizzari e Antônio Xerxenesky, um autor já resenhado nessas bandas, outro cuja coletânea de contos A página assombrada eu tenho, mas não li. Em determinado momento, Xerxenesky diz que o conto é a nova poesia, ninguém lê contos. Espera, tem acento em Xerxenesky? Não, mas o nome do livro é A página assombrada por fantasmas; pronto, corrigido. Ele está certo. Romances são bem universais entre leitores. A poesia, depois do Toda poesia, do Leminski, reviveu ou pelo menos deu cria, gerando edições similares para Ana C. e Waly Salomão. O conto morreu e permanece morto. É uma pena. Despertei para o conto só depois de um ano de leitura séria na minha vida, graças ao ou culpa de Dublinenses, do Joyce. Não podia ser mais clichê da minha parte, mas convenhamos que é uma puta coletânea. Pulei dele para Hemingway, Carver, Bolaño. Então peguei um livro do Sérgio Sant'anna ano passado e me prendi no estilo. O vôo da madrugada (mantendo a velha ortografia em respeito à edição) ganhou o Jabuti de sua forma em 2004 (pode ter sido em 2005, não sei como funciona a premiação especificamente). Disse isso na minha resenha do Carver, mas vou repetir já que é raro que meus leitores sejam completistas. Poderia fazer uma resenha para cada conto, até o mais curto, que consiste de uma folha apenas, e seriam todas longas como quaisquer outras das minhas resenhas. Mas não o farei, haja tempo. Vou mesclar tudo e, por conseqüência, fazer uma resenha superficial que, esperançosamente, alimentará a curiosidade dos meus três leitores e meio.

São dezesseis narrativas divididas em três partes. A primeira consiste de doze contos. Um não poderia ser mais variado que o outro. Cheios de brincadeiras metalinguísticas (ou deveria dizer metalingüísticas, mantendo a consistência da velha ortografia em homenagem ao título da edição, antiga porém viva? Farei isso, a pergunta foi retórica), indo de temas como o incesto, fantasmas (e atração sexual por um fantasma), fragmentos autobiográficos (ou não?) analisando a mente do contista (do contista real ou fictício?), uma análise da voz que te chama para a morte, uma conversa entre uma mulher e seu psicanalista, mais autobiografia (ou não), mais sobre a sedução da morte. Não se enganem leitores, essas não são sinopses, muito menos análises. São palavras que definem ou não os temas. Não definem, são muito rasas para definirem qualquer coisa, mas podem ser como palavras-chave. Os contos em si fazem o leitor pensar cada um dos vários significados que eles carregam. Fazem o leitor pensar no que é ficção também e qual seu papel.

A parte dois é apenas uma narrativa. Chega a ser novela? Deixarei essas definições para os críticos e professores, isso aqui é apenas um blog, uma indicação de amigo, um amigo que vocês não conhecem nem nunca viram sequer verão. O gorila, é título. Um homem, que se identifica como Gorila, faz ligações para mulheres aleatórias. Crime?, piada?, assédio?, insulto? Cada leitor pensa uma coisa, da mesma forma que cada personagem-alvo pensou uma coisa. Os papéis se invertem, vítima se torna criminoso (ou não). A narrativa é experimental. Parte diálogo, com pausas de poesia e ensaio, roteiro de tevê, trama policial. A novela faz um pouco de tudo. Sugiro ao leitor, nesse ponto, uma pausa para reflexão. Leia outra coisa antes de ir à parte três. Um conto de outro autor, talvez. Não dê muito tempo à pausa, contudo. Pense na novela. Melhor dizendo, faça uma pausa a cada narrativa e reflita sobre ela. Isso serve para toda boa coleção de contos.

Chegamos à parte três e é possível que você ainda esteja me lendo. É possível que você tenha deixado de ler quando soube que se tratava de um livro de contos. Se você for um tipo especial de idiota, é possível que você tenha deixado de ler quando soube se tratar de um livro nacional. Cada qual com sua opinião. Não se preocupem com o tipo especial de idiota, ele não está mais aqui para ser ofendido. É na terceira parte, intitulada Três textos do olhar (e você adivinhe em quantas narrativas essa parte se divide), que os limites entre a narrativa, o conto e o ensaio crítico se quebram. Uma mulher nua em um quadro se torna razão de uma análise sobre a nudez e, ao mesmo tempo, personagem do seu próprio espaço, que pode ser conto ou crítica, tanto faz. Então no segundo conto, por meio de uma fotografia, somos transportados para outro tempo, outros costumes. Mulher fotografada se torna personagem de uma história fictícia, modelo para um jovem pintor não existente que a apresenta às obras de Schiele e se transforma. A arte, no segundo conto, liberta mentes e transforma uma boa mulher de família esposa fiel em adúltera, o que não importa, já que a história não é real (ou é? Será que importa? Nada no livro é real, então que importa a vida presumida de uma mulher fotografada no Brasil da década de 20?). No terceiro, o alvo dos conto-críticas são as meninas de Balthus, como se pode presumir pelo título Contemplando as meninas de Balthus. Histórias criadas usando de combustível as sensações causadas pela arte visual estática.

Nada é perfeito. Das dezesseis narrativas, decerto algumas vão agradar e outras não. Fui tocado de certa maneira por todas, umas com mais intensidade outras com menos. Mas da mesma forma que as mulheres do Gorila interpretaram os telefonemas dele de formas diferentes, vocês interpretaram os contos de formas diferentes. Os seus favoritismos podem ou não ser iguais aos meus. Você pode não gostar de nenhum ou de todos. Ele ali pode gostar da primeira parte. Ela da terceira. O tipo especial de idiota já não está mais aqui. Eu indico a leitura. Você faça o que bem entender.

Nota: 5/5