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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Barba Ensopada de Sangue - Daniel Galera [2012]


Por algum motivo a capa vem em três cores. O meu livro veio com a vermelha, mas pode ser azul ou verde. Não faz diferença, mas, na minha opinião, a vermelha faz mais sentido.

Há um tempo fiz a resenha de Até o dia em que o cão morreu, romance de estreia de Daniel Galera. Tinha gostado bastante do livro e dito que leria os outros assim que possível. Por causa de toda a atenção que Barba ensopada de sangue recebeu em sua época de lançamento (incluindo, além das vendas e da reação de público e crítica, vários prêmios), decidi que seria o próximo livro que leria desse autor.

O pai do protagonista sem nome vai se suicidar. A única coisa que ele quer de seu filho é que ele leve sua cachorra para ser sacrificada. Ele não obedece o pai e, ao invés disso, a leva com ele até Garopaba, cidadezinha do litoral de Santa Catarina. Vai até lá pela tranquilidade e para investigar uma história que seu pai lhe contara antes de morrer sobre seu avô. Sobre como ele sumiu após um baile na cidade, supostamente assassinado, mas sem testemunhas e sem que seu corpo pudesse ser encontrado. Ele aluga um apartamento e arranja um emprego na academia local como professor de natação para sobreviver. Leva uma vida normal, vez ou outra questionando alguns moradores sobre seu avô. O estranho é que ninguém parece se lembrar dele, mas sempre que ouvem a história o tratam com hostilidade, como se ele estivesse se metendo em território proibido.

Narrado em terceira pessoa, Barba Ensopada de Sangue consegue fazer que o leitor entre na mente do personagem sem nome devido à atenção aos detalhes. O protagonista sofre de uma doença que o faz esquecer de rostos em um curto período de tempo, até mesmo do seu próprio rosto e dos seus familiares, por isso ele foca em outros detalhes. Se ele conhece uma mulher e acha que vai vê-la novamente, repara no cabelo, em alguma marca na pele etc. - isso ele faz com todos os personagens. Por ser professor de educação física, ele tem um amplo conhecimento da anatomia humana, usando sempre os termos precisos para cada parte do corpo, assim como descreve cada passo dos exercícios diários que ele pratica e, durante as aulas que ele dá na academia, faz os outros praticarem. Vi em uma entrevista com o autor que, apesar da inserção dele na mente do protagonista fazer parecer que o livro estaria mais próximo da primeira pessoa, ele decidiu escrever em terceira justamente por isso, para poder trabalhar na narração como um escritor pensando como um professor de educação física. Afinal, por mais que o professor saiba anatomia e todos os termos complexos do corpo, dificilmente ele sabe dominar uma narrativa. A terceira pessoa permite que ele vá além, que ele saia da voz do narrador com mais liberdade sem nunca soltar tanto assim a sua mente, o que funciona muito bem em Barba Ensopada de Sangue, diria que é a narração é o ponto alto do livro.

Apesar de girar em torno de um assassinato, raros são os momentos em que essa busca move o enredo. Nesse ponto me lembrei de Haruki Murakami. Como os protagonistas do japonês, o sem-nome é levado pela investigação, e não o contrário. Ele tenta viver normalmente pela maior parte do tempo. Tem seu emprego, passeia com a cachorra, vive alguns relacionamentos emocionalmente deslocados com mulheres que conhece pela cidade, forma amizades (seus alunos e um budista de apelido Bonobo, que se tornou meu personagem favorito) e desafetos (quase a cidade toda). Um cara normal que se vê puxado por algo muito maior que ele. E, porque o mistério da morte de seu avô o parece perseguir, ele decide chegar até o fim e resolver o caso - que, vou evitar ser específico para não estragar a experiência dos que não leram ainda, toma proporções "sobrenaturais", também, mais ou menos como o Murakami.

Daniel Galera tem um puta ouvido para diálogo. Ele não separa as falas da narrativa usando aspas ou travessões, como é o comum, ao invés disso ele cormacmccartheia o texto - quem já leu Cormac McCarthy vai entender o que eu quis dizer com isso. Não fica confuso por causa dessa diferença de vez. Cada pessoa tem seu jeito de falar, uns tem seus maneirismos e regionalismos, outros não. Os diálogos soam  como conversas reais e não literárias. Ele também Cormac McCartheia nas reviravoltas violentas, consequências de certos atos do sem-nome.

O uso de notas de rodapé, emprestado talvez das notas do David Foster Wallace (cujos contos e ensaios Daniel Galera ajudou a traduzir), complementam a história, com conversas por telefone, mensagens de facebook, até o trecho do diário de uma prostituta. Nele se revelam as várias subnarrativas do livro, que mesmo focando no assassinato do avô do protagonista, carrega outras histórias, como a relação do sem-nome com sua família (especialmente o irmão e a ex-esposa, que o largou pelo irmão). São pedaços da história que vão se revelando aos poucos, dando vida ao livro e suas personagens.

Só uma nota irrelevante, mas que achei divertido compartilhar. A cachorra, cujo nome é Beta (pois é, ela tem nome, a maioria das personagens têm nome, o protagonista não), é uma pastora australiana. Mesmo sabendo como é uma pastora australiana, enquanto eu lia, minha mente formava algo parecido com uma labradora. Não sei por quê. Vai saber como funcionam essas coisas da cabeça. Talvez porque imaginar uma pastora australiana correndo debaixo do sol de Garopaba, se metendo na areia da praia e mar adentro, sem nunca tomar um banho, fosse me deixar aflito durante o livro todo. Agora voltamos para a resenha normal, mas na verdade é só o parágrafo de conclusão que vem a seguir, seus olhos já devem ter escorregado e observado que o texto está acabando.

As descrições de cenário seguem conforme as descrições das pessoas. Sem-nome é observador, por isso aponta cada detalhe dos caminhos que traça, as casas, a praia, o mar, os restaurantes, as paisagens naturais. Apesar de morar perto, nunca estive em Garopaba, mas depois de ler Barba... sinto como se já a houvesse visitado. Todos esses detalhes formam mais de 400 páginas, que nunca ficam chatas. É a junção perfeita de um livro como obra de arte e como entretenimento. Agora quero ler Mãos de Cavalo, que ouvi ser o melhor do Daniel Galera.

Nota: 5/5

Não confie em mim, leia um trecho aqui e depois compre o livro: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12453.pdf

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O vôo da madrugada - Sérgio Sant'anna [2004]


Vi no Youtube não faz tanto tempo um trecho curto de um debate sobre o mercado editorial entre Daniel Pellizzari e Antônio Xerxenesky, um autor já resenhado nessas bandas, outro cuja coletânea de contos A página assombrada eu tenho, mas não li. Em determinado momento, Xerxenesky diz que o conto é a nova poesia, ninguém lê contos. Espera, tem acento em Xerxenesky? Não, mas o nome do livro é A página assombrada por fantasmas; pronto, corrigido. Ele está certo. Romances são bem universais entre leitores. A poesia, depois do Toda poesia, do Leminski, reviveu ou pelo menos deu cria, gerando edições similares para Ana C. e Waly Salomão. O conto morreu e permanece morto. É uma pena. Despertei para o conto só depois de um ano de leitura séria na minha vida, graças ao ou culpa de Dublinenses, do Joyce. Não podia ser mais clichê da minha parte, mas convenhamos que é uma puta coletânea. Pulei dele para Hemingway, Carver, Bolaño. Então peguei um livro do Sérgio Sant'anna ano passado e me prendi no estilo. O vôo da madrugada (mantendo a velha ortografia em respeito à edição) ganhou o Jabuti de sua forma em 2004 (pode ter sido em 2005, não sei como funciona a premiação especificamente). Disse isso na minha resenha do Carver, mas vou repetir já que é raro que meus leitores sejam completistas. Poderia fazer uma resenha para cada conto, até o mais curto, que consiste de uma folha apenas, e seriam todas longas como quaisquer outras das minhas resenhas. Mas não o farei, haja tempo. Vou mesclar tudo e, por conseqüência, fazer uma resenha superficial que, esperançosamente, alimentará a curiosidade dos meus três leitores e meio.

São dezesseis narrativas divididas em três partes. A primeira consiste de doze contos. Um não poderia ser mais variado que o outro. Cheios de brincadeiras metalinguísticas (ou deveria dizer metalingüísticas, mantendo a consistência da velha ortografia em homenagem ao título da edição, antiga porém viva? Farei isso, a pergunta foi retórica), indo de temas como o incesto, fantasmas (e atração sexual por um fantasma), fragmentos autobiográficos (ou não?) analisando a mente do contista (do contista real ou fictício?), uma análise da voz que te chama para a morte, uma conversa entre uma mulher e seu psicanalista, mais autobiografia (ou não), mais sobre a sedução da morte. Não se enganem leitores, essas não são sinopses, muito menos análises. São palavras que definem ou não os temas. Não definem, são muito rasas para definirem qualquer coisa, mas podem ser como palavras-chave. Os contos em si fazem o leitor pensar cada um dos vários significados que eles carregam. Fazem o leitor pensar no que é ficção também e qual seu papel.

A parte dois é apenas uma narrativa. Chega a ser novela? Deixarei essas definições para os críticos e professores, isso aqui é apenas um blog, uma indicação de amigo, um amigo que vocês não conhecem nem nunca viram sequer verão. O gorila, é título. Um homem, que se identifica como Gorila, faz ligações para mulheres aleatórias. Crime?, piada?, assédio?, insulto? Cada leitor pensa uma coisa, da mesma forma que cada personagem-alvo pensou uma coisa. Os papéis se invertem, vítima se torna criminoso (ou não). A narrativa é experimental. Parte diálogo, com pausas de poesia e ensaio, roteiro de tevê, trama policial. A novela faz um pouco de tudo. Sugiro ao leitor, nesse ponto, uma pausa para reflexão. Leia outra coisa antes de ir à parte três. Um conto de outro autor, talvez. Não dê muito tempo à pausa, contudo. Pense na novela. Melhor dizendo, faça uma pausa a cada narrativa e reflita sobre ela. Isso serve para toda boa coleção de contos.

Chegamos à parte três e é possível que você ainda esteja me lendo. É possível que você tenha deixado de ler quando soube que se tratava de um livro de contos. Se você for um tipo especial de idiota, é possível que você tenha deixado de ler quando soube se tratar de um livro nacional. Cada qual com sua opinião. Não se preocupem com o tipo especial de idiota, ele não está mais aqui para ser ofendido. É na terceira parte, intitulada Três textos do olhar (e você adivinhe em quantas narrativas essa parte se divide), que os limites entre a narrativa, o conto e o ensaio crítico se quebram. Uma mulher nua em um quadro se torna razão de uma análise sobre a nudez e, ao mesmo tempo, personagem do seu próprio espaço, que pode ser conto ou crítica, tanto faz. Então no segundo conto, por meio de uma fotografia, somos transportados para outro tempo, outros costumes. Mulher fotografada se torna personagem de uma história fictícia, modelo para um jovem pintor não existente que a apresenta às obras de Schiele e se transforma. A arte, no segundo conto, liberta mentes e transforma uma boa mulher de família esposa fiel em adúltera, o que não importa, já que a história não é real (ou é? Será que importa? Nada no livro é real, então que importa a vida presumida de uma mulher fotografada no Brasil da década de 20?). No terceiro, o alvo dos conto-críticas são as meninas de Balthus, como se pode presumir pelo título Contemplando as meninas de Balthus. Histórias criadas usando de combustível as sensações causadas pela arte visual estática.

Nada é perfeito. Das dezesseis narrativas, decerto algumas vão agradar e outras não. Fui tocado de certa maneira por todas, umas com mais intensidade outras com menos. Mas da mesma forma que as mulheres do Gorila interpretaram os telefonemas dele de formas diferentes, vocês interpretaram os contos de formas diferentes. Os seus favoritismos podem ou não ser iguais aos meus. Você pode não gostar de nenhum ou de todos. Ele ali pode gostar da primeira parte. Ela da terceira. O tipo especial de idiota já não está mais aqui. Eu indico a leitura. Você faça o que bem entender.

Nota: 5/5  

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A coisa mais genial que eu já vi:


SAMUEL BECKETT MOTIVATIONAL CAT POSTERS (Pôsteres motivacionais de gatos, do Samuel Beckett).
Isso existe, e eu só descobri agora. Não é da minha índole fazer posts apenas divulgando uma coisa, sem acrescentar um texto ou uma opinião, acho preguiçoso. Mas isso precisa viajar o mundo e ser descoberto. Eis este tumblr: http://beckittns.tumblr.com/
De que ele consiste, você pergunta. Sabem aqueles típicos pôsteres de gatos com frases motivacionais clichê? Então, imagine os mesmos pôsteres com frases do escritor mais deprimente da história (e um gênio, um dos vários escritores que eu queria ser, gostaria de acrescentar). Mas por que estou descrevendo quando poderia estar mostrando?

Em um instante tudo irá se esvair e nós estaremos mais sozinhos, em meio ao nada! (Tradução livre e minha - isso vale pra todas as frases.)

Ele cantou sua cançãozinha,
ele bebeu sua garrafa de stout,
ele afastou uma lágrima,
ele se fez confortável.
Assim  são as coisas no mundo.
Tudo que eu quero fazer
é sentar meu rabo
e peidar
e pensar em Dante.
não poderia a visão beatífica
se tornar fonte de tédio
a longo prazo?
nada é mais engraçado que a infelicidade.
O sol brilhou,
não tendo alternativa,
sobre o nada novo.
Obs.: essa é a primeira frase de Murphy, um dos seus romances. Isso sim é começar com o pé direito.

Bom, no site tem todo um arquivo para o deleite geral dos meus leitores, sem a minha tradução. Divirtam-se.


Obs.: a Diretoria, também conhecida como Comissão Imaginária de Vistoria ou de Vistoria Imaginária, gostaria de demonstrar seu repúdio por esse tipo de postagem preguiçosa, assim como sua decepção com o nomeado administrador desse blog. (Agora vai ser sempre essa porra. O senhor não venha com esse palavreado chulo para conosco, ponha-se no seu lugar, o senhor não sabe nem ao menos formular interrogações apropriadamente. Desculpa.)

sábado, 25 de outubro de 2014

A Humilhação (The Humbling) - Philip Roth [2009]


Ninguém é perfeito, essa é a moral dessa resenha. Um dos três melhores escritores americanos vivos, de acordo com o crítico Harold Bloom, junto de Don deLillo e Thomas Pynchon, depois de 30 livros escritos, também falha. Já tinha ouvido coisas péssimas desse livro, desde a Taciele do finado (ou em coma) Viva Livros até a Michiko Kakutani do New York Times. Definitivamente não é o melhor livro de introdução à obra do Philip Roth, mas eu insisti. Queria ler o livro antes do lançamento da adaptação pra cinema, com Al Pacino no papel principal - logo mais falarei uma coisa ou outra sobre o trailer desse filme e as minhas expectativas. O resultado me deixou claro que Philip Roth, mesmo quando ruim, ainda é razoavelmente bom, mas mesmo um escritor desse porte erra, e A Humilhação pode ter sido o maior erro da carreira dele.

Aos 65 anos, Simon Axler, ator de teatro responsável por dar vida aos grandes personagens de Shakespeare, Sófocles, O'Neill, esquece como atuar. Após performances terríveis em Macbeth e em A Tempestade, ele entra em depressão, se vê sem identidade. Sua esposa, ex-bailarina, não sabendo lidar com o marido em tal estado, vai embora para morar perto dos filhos na Califórnia. Pensando em suicídio, Simon se interna numa clínica psiquiátrica. Lá ele conhece outros suicidas, em especial Sybil, com quem ele divide seus problemas. Fora da clínica, algum tempo depois, ele recebe a visita de Pegeen Mike, filha de uns amigos também atores, lésbica, e os dois entram em um relacionamento.

Eu gostei desse enredo. As possibilidades são tantas e o conceito em si é ótimo. Falando dos prós em primeiro lugar, Roth entra com perfeição na mente de um ator de 65 anos que perde o talento. A descrição dos medos e ansiedades da velhice é o ponto forte do livro e muitos dos conceitos sobre morte, identidade, amor e loucura quase fazem a leitura valer a pena. Até porque a escrita em si, o jeito como as palavras usadas estão alinhadas, é muito bom. A Humilhação tinha tudo para ser um bom livro, mas, assim como Simon Axler no palco, falha em convencer e tocar o leitor.

Para começar nos problemas, a narração raramente mostra as complicações. O leitor fica sabendo dos acontecimentos ou por exposição superficial ou por meio de diálogos muito literários para saírem da boca de um ser humano normal. Quando Simon falha no palco, não estamos com ele, acompanhando o fracasso. Roth apenas nos diz, em poucas linhas, que Simon esqueceu como atuar e nós temos que acreditar nele. 

Em alguns momentos chega a parecer que Roth acertou o passo. Quando, por exemplo, a relação entre Simon e Pegeen é detalhada. A forma como um transforma o outro, o que se passa na cabeça de Simon durante o relacionamento, a transformação e aparente submissão de Pegeen, e os hábitos sexuais que os dois desenvolvem. Esses trechos são o ponto alto da narrativa, mas não deveriam ser. Quero dizer, é a parte mais interessante do livro, mas ela é envolta de tantas outras partes ainda mais essenciais e importantes que simplesmente passam e se resolvem com um ou dois parágrafos que chega a ser frustrante.

Nunca é bom para o enredo conter uma história secundária melhor que a primária, mas é o que acontece em A Humilhação. A vida de Sybil, essa sim merecia um livro. Mais de uma vez, enquanto lendo a vida de Simon, quis parar de ler e procurar pelo livro de Sybil. Ela sim sofreu, ela sim tinha motivos para se matar. Eu leria com gosto um livro sobre a Sybil, sr. Roth, fique sabendo. Não que o livro do Simon seja ruim, só não consegui me importar com ele.

A Pegeen e a relação dela com os pais também é outro grande defeito do livro. Tudo que se passa entre Pegeen e seus pais e o que eles acham de Simon é descrito por Pegeen em várias conversas com Simon. E essa conversa é cheia de "ele disse", "ela disse", "eu disse", quando muito melhor seria ter todas essas cenas narradas de verdade.

Ouvi críticas a previsibilidade da história. Não vou seguir por esta linha. É previsível, sem dúvida, mas tenho uma explicação. Ao largo da obra, Roth dá exemplos de tragédias e, ao mesmo tempo, A Humilhação segue a estrutura básica de uma tragédia, sem entrar em detalhes para não estragar a experiência de futuros leitores (não estragar ainda mais, é o que eu quero dizer). O fim da tragédia, por definição, é previsível. Acrescentaria, mas isso é só interpretação minha, podendo não ser intenção do autor, que um dos autores citados, Tchekhov, dizia que, se no primeiro ato o autor aponta uma pistola, no terceiro ele deve dispará-la. A estrutura e o final podem ter sido uma referência, por isso digo que o final foi intencionalmente previsível, o que é direito do autor e algo completamente aceitável - quem foi que disse que todo fim deve surpreender afinal? 

Durante a mesma entrevista em que Roth fala sobre escrever o oposto de Teatro de Sabbath, ele também cita Saul Bellow, outro grande escritor americano e uma das maiores influências dele. No fim da vida, Saul Bellow decidiu que não valia a pena escrever romances longos, considerando as possibilidades de sua morte gerar um trabalho incompleto (ironicamente, Bellow teve um filho aos 84 anos de idade...). Que fique claro que apesar das tantas críticas à brevidade de A Humilhação, não tenho nada contra a narrativa curta. Pelo contrário, admiro quando um autor consegue dizer o máximo usando o mínimo de palavras. O importante é que a obra curta não soa como um resumo de algo maior. Isso é o que A Humilhação se tornou, um resumo de um livro mais extenso e mais interessante.

Resta agora aguardar o filme, se é que ele já não lançou. Pela cara do trailer, ele mostra tudo que Roth decidiu apenas contar vaga e apressadamente. O excesso de comédia me deixou com um pé atrás, dando a entender que eles queria transformar a história em um filme do Woody Allen, mas mesmo isso pode até ficar interessante, se feito com sutileza. Não quero fazer previsões para não acabar decepcionado, então ficarei por aqui e, quando eu assistir o filme retomo essa discussão, fazendo um comparativo leve.

Não indico esse livro para quem não conhece o Roth. É ruim. Não é horrível, tivesse o livro sido escrito por outra pessoa, eu teria sido menos rígido na crítica e na nota. Foi o único dele que li até o momento, então não posso indicar outras obras com segurança, mas, apesar de tudo, asseguro que A Humilhação não me deixou apreensivo a conhecer o resto da obra de Roth, pelo contrário. Se em um livro tão fraco, ele foi capaz de atingir uma prosa de alta qualidade, os bons livros dele devem ser memoráveis. Indicaria apenas aos leitores mais completistas do autor, aqueles que, não importando o que eu dissesse, leriam o livro de qualquer maneira.

Nota: 2/5 

domingo, 19 de outubro de 2014

Sobre vender livros; um relato.

Novidades dessa terra distante chamada Itajaí, inaugurou-se no shopping, dia quinze de outubro, uma livraria catarinense. Para vocês que não sabem, anos atrás houve aqui uma livraria época, logo em frente à faculdade, esta fechou pouco depois de eu me mudar para cá. Desde então essa pequena cidade pôde contar com nada em se tratando de literatura, com exceção de um sebo, grande e com acervo surpreendente, porém ainda assim contendo apenas livros usados e uns poucos livros novos superfaturados. Não é surpresa que, quando soube da notícia, me animei e fiz planos para visitar essa tal livraria logo na inauguração. Bom, não na inauguração, pois dia quinze foi quinta e quinta eu trabalho e é foda sair de casa depois do expediente, é foda sair de casa toda vez que me vejo em casa, para ser sincero. Mas no fim de semana após a abertura me pareceu um dia razoável para conhecer o lugar. Eis que hoje - sábado, data em que fui à livraria e em seguida escrevi o texto, não necessariamente a data em que vocês leem o post -, com meio litro de vinho do porto no sangue - notei que o álcool muito facilita para mim o ato de fazer compras, não sei bem por que, acho que simplesmente porque interajo melhor com seres humanos com algum incentivo -, vinho este que me abastece ao redigir este relato agora, fui conhecer o recanto. Esperava menos. Esperava duas ou três estantes mal organizadas, atoladas de Nicholas Sparks e Paulo Coelho. O que encontrei foi uma livraria de verdade, com vendedores o suficiente para um público razoável, e variedade para satisfazer até leitores chatos como este que vos escreve.

Não gosto de comprar seja o que for, me deixa nervoso. A sensação de vendedores me cercando e sugerindo coisas que não quero me incomodam, eis a necessidade do álcool. Normalmente, quando sóbrio, tento constranger vendedores, deixando claro que não tenho dinheiro para as coisas que eles me indicam ou que não tenho interesse ou conhecimento sobre o produto. Não é intencional, sei que são trabalhadores honestos e respeitáveis, é só um instinto que busca proteger minha carteira, inapropriado talvez, mas já digo a vocês, leitores que me julgam, que nunca tive problemas com vendedores justamente por causa desse meu instinto; raramente sou cercado e forçado a ver coisas que não me interessam. Essa foi minha primeira surpresa agradável na livraria catarinense do shopping Itajaí, ninguém me cercou. Sim, os vendedores me notaram e fizeram uma ou duas passagens em minha frente para que eu os notasse e pedisse informação - o que eu não fiz -, mas não estabeleceram contato. Eles me deixaram sentir a atmosfera da livraria em paz - e vocês leitores bem sabem que livrarias têm atmosferas próprias. Me permitiram ver os títulos, folhear um ou dois livros. Só então, quando eu acidentalmente examinei uma mesma estante duas vezes achando que eram estantes diferentes - efeito colateral da bebida -, que um vendedor me perguntou o que eu procurava.


Ainda queria ver títulos sem a incomodação de um vendedor, então o encaminhei a uma caçada que eu imaginava seria infrutífera. Pedi qualquer livro que fosse do Sérgio Sant'anna. Se eles tivessem algum - eu já havia vasculhado a sessão de literatura brasileira, portanto seria muito difícil que ele encontrasse qualquer coisa -, havia setenta porcento de chances de eu já ter o livro. Caso encontrassem um que eu não tivesse, bom para mim, livros do Sérgio Sant'anna são sempre bons e ele tem dois lançamentos nos quais eu estou de olho (Homem-Mulher, livro novo lançado esse ano, e Concerto de João Gilberto em Copacabana, relançamento de um de seus clássicos, programado para lançar mês que vem - e é por esse meu conhecimento que eu acho que a Companhia das Letras devia me ceder uma parceria, mas, ei, não me importa, vou resenhar de graça os livros dessa editora de qualquer forma). Dois minutos depois ele volta com a esperada notícia de que eles não tinham nada do autor ainda, mas a loja estava aberta a apenas três dias e mais coisas viriam no futuro próximo, tanto que eu podia notar que as estantes estavam vazias ainda, salvo pelas sessões de biografias e juvenil, estas estavam socadas. Mandei-o a uma nova busca, dessa vez com real interesse. Queria o livro novo do Milan Kundera, Festa da Insignificância. Fiz questão de dizer para ele autor, nome do livro, editora e ano de lançamento, para auxiliar a busca e para que ele soubesse que não falava com qualquer leitor casual por aí, que eu sabia o que eu queria e como encontrar. Essa segunda busca levou mais tempo, o suficiente para eu encontrar o novo romance da Luisa Geisler, a mais jovem das autoras a ter um de seus contos publicados na Granta dos melhores autores jovens brasileiros, e com uma coleção de prêmios surpreendente para sua idade, chamado Luzes de emergência se acenderão automaticamente.


Enquanto eu lia a sinopse do livro da Luisa, o vendedor voltou com A Festa da Insignificância em mãos. Perguntei os preços de tudo. Verdade que estavam mais caros do que estariam se eu comprasse pelo Ponto Frio ou pelo Extra, mas a vibração de uma livraria é outra. Além do mais, quanto tempo eu esperei por uma dessas abrir aqui nessa terra literariamente desamparada? Tenho mais é que prestigiar e usar meu dinheiro como um investimento, um agradecimento aos deuses da literatura que seja.

Estava decidido a levar os dois livros e ir embora, eis que surge a razão desta crônica improvisada - o verdadeiro vendedor de livros, o exemplo a ser seguido por todos que ambicionam tal carreira. Do nada, ele surgiu com um livro em mãos.

- Eu vi que o senhor estava vendo literatura nacional, conhece Evandro Affonso Ferreira.


Esse homem tem uma bola de cristal ou coisa assim? Não falei pra ninguém que procurava esse autor, não demonstrei que estava frustrado por não encontrá-lo. Como ele sabia? O bom vendedor de livros é observador. Deixa o comprador vasculhar as estantes, deixa que ele pegue um ou dois livros para análise - presta atenção no que está sendo analisado -, deixa até que outro vendedor tome para si o comprador - prestando atenção no que esse vendedor trás para o comprador. Só então ele vem com exatamente o que o comprador em questão procura. Os piores dias de minha vida foram todos, o lançamento do autor. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele acrescentou:

- O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam - livro anterior do autor - é um dos melhores que eu já li na vida, levou o Jabuti ano passado.

Sim, eu sabia. Estava atrás desse livro do mendigo há meses, mas sempre que ia às livrarias online me esquecia dele. Li Barba ensopada de sangue esse ano, livro que perdeu para O mendigo, claro que queria lê-lo. Perguntei se não tinha esse livro ao invés do lançamento mais recente.

- Não senhor, ainda não, talvez no futuro.

Gostaria de apontar que muito me incomoda, aos vinte três anos, ser chamado de senhor, mas não falei nada por achar que é padrão entre esses vendedores. Disse que ia levar aquele de qualquer forma, desde que eles me dissessem o preço, já que, dependendo da resposta, a compra do livro da Luisa estava em jogo, ela que me perdoe. Não foi necessário, levei os três. Fiz a compra e, ainda por cima, um desses cartões fidelidade que não faço em lugar nenhum. Saí satisfeito, testemunha do que eu juro ter sido a venda perfeita. Infelizmente, o vendedor, como todo o artista, não soube ganhar dinheiro. Na hora de me entregar o cartão que iria contabilizar a comissão do vendedor - se ele ganharia comissão, não sei -, apenas o primeiro vendedor me deu um cartão. O outro, fez a venda perfeita, mas saiu de mãos vazias. A não ser que, depois, eles tenham negociado alguma coisa. Duvido, o vendedor, acima de tudo, é um canalha por natureza. Esse é o nosso mundo injusto.

Eis aqui uma indicação totalmente gratuita, feita de coração. Não se enganem achando que eu ganhei um puto que seja para fazer esse texto. Ninguém nunca me pagou por minhas palavras escritas, nem acho que um dia irão - minhas esperanças decaem dia após dia. Mas se você, que me lê, é de Itajaí ou região - ora se apresente, filho(a) da puta, quero conhecer você -, vá à livraria catarinense do shopping Itajaí. Você será bem atendido e saíra com os livros que procura.