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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Momento Musical #1 - Frank Zappa, Mimi & Richard Fariña e The Greenhornes



Entre as minhas tentativas de mudar um pouco o jeito que eu faço o blog estava a ideia de parar com as resenhas de música. Principalmente porque elas são chatas de fazer e repetitivas. Ora, como avaliar música? Ouvindo, falar sobre não adianta nada. Então, ao invés de avaliar álbuns, de agora em diante vou apenas indicar músicos que eu gosto, alguns de seus discos, e vocês façam o favor de procurarem por aí. Como vocês já sabem, uma indicação minha é praticamente sinônimo de qualidade, então estejam certos de que coisas interessantes passaram por aqui. Como falar de um músico só exigiria que eu fizesse pesquisas biográficas e coisas do gênero pra poder encher um texto, decidi ignorar tudo isso e falar de três músicos de uma vez. Isso mesmo, três pelo preço de um, aproveitem. Essa linha de posts se chamará Momento Musical (mais ou menos como Pintura para Principiantes, só que mais arrogante), e, para a estreia, venho lhes apresentar: Frank Zappa (clássico da década de 60), Mimi & Richard Fariña (dupla folk que poderia muito bem estar no patamar de Bob Dylan, não fosse a morte prematura de Richard em 66) e The Greenhornes (rock contemporâneo, que eu descobri assistindo ao filme Broken Flowers - que logo terá resenha -, do Jim Jarmusch).
Frank Zappa

Meio que considerado uma ovelha negra do rock da década de sessenta, Zappa fez tudo diferente do resto. Quando a moda era ser hippie, ele tirava sarro dos hippies, quando a moda era o rock boneca inflável (apelido que eu dou às bandas da década de 80) ele tirou sarro desses também. Assim como de quase todos os aspectos político-sociais de cada época. Fez tudo isso enquanto explorando ao máximo cada estilo musical, do rock ao jazz, do erudito ao doo-wop. Não existem dois discos iguais do Frank Zappa, por isso eu sugiro que, caso você goste das músicas de amostra aqui, baixem logo a discografia toda.




Mimi & Richard Fariña

Irmã de Joan Baez, Mimi, casou-se com Richard Fariña na década de 60. Juntos eles formaram uma dupla folk, gravaram 2 discos (tá, 2,5 considerando que teve um póstumo com umas raspas de panela e músicas solo da Mimi), que hoje são raridade até na internet, e se tornaram grandes nomes da cena musical de Greenwich Village. Alguns críticos diziam que eles poderiam ter ser tornado os maiores nomes do gênero na época, ameaçando até a soberania do Bob Dylan, não fosse a morte prematura de Richard Fariña em 66, dias depois de ele ter publicado seu romance, Been down so long that it looks like up to me (traduzido em português em edição extinta como Tanto tempo na pior que o que pintar é uma boa). Um daqueles casos que te fazem pensar o que viria caso ele não tivesse morrido, tanto na música quanto na literatura.



Obs.: tenho o livro e pretendo ler e resenhar o quanto antes.

The Greenhornes

Rock estilo banda de garagem. Não sei muito sobre eles, só ouvi na trilha sonora do filme e baixei quantos discos pude encontrar. Não sei se a banda está na ativa ainda, mas vale a pena ouvir. O som é bem simples, e isso talvez seja o que mais agrada. Sem floreios, apenas o bom e velho rock, com um toque de blues.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Lanterna Mágica (Laterna Magica) - Ingmar Bergman [1987]

 

Um agravante à insegurança ao se preparar para fazer uma resenha é a procrastinação. Terminei de ler esse livro ano passado, certo de que teria uma resenha genial para fazer - tenho tendência a ignorar a humildade antes de começar um projeto, que culpa tenho eu que tudo soa muito melhor na minha cabeça que no papel? -, então li a introdução escrita por Woody Allen, porque, sim, eu leio as introduções e prefácios somente após de ter lido o livro, pois assim evito que as ideias dos outros influenciem minha leitura. Pronto, a merda estava feita, nada do que eu venha a escrever aqui seria tão bom quanto o texto do Woody Allen, que conseguiu ser pessoal, brevemente analítico mas sem afetações, e engraçado. Bom, não sou Woody Allen, muito menos sou Ingmar Bergman, mas acho que sou o suficiente para vocês, nobres doutores, que me leem.


Não tem muito o que se dizer sobre a sinopse de Lanterna Mágica, de Ingmar Bergman, além de que é uma autobiografia - a primeira autobiografia que li. Agora vou falar bastante sobre o livro e, consequentemente, Ingmar Bergman, então é melhor que eu explique quem ele é, caso alguém aqui não saiba. Ingmar Bergman foi um cineasta sueco, o mais conhecido de seu país e um dos mais importantes da história do cinema (já resenhei aqui o clássico Morangos Silvestres, e vi Sétimo Selo duas vezes, mas não tive coragem de resenhar). Mas Lanterna Mágica não fala sobre cinema, só muito brevemente. O título, por exemplo, é uma referência a um brinquedo que Bergman teve como criança, uma espécie de projetor que mostrava uma história infantil com imagens - lanterna mágica em si foi o nome que deram ao projetor que veio antes do cinema, mas após o cinema ele virou um brinquedo infantil. Grande parte do livro é dedicada à infância e adolescência do cineasta, e não espere aqui uma história graciosa, contada por uma celebridade afim de alimentar seu próprio ego. Bergman é sincero, quase rancoroso em alguns momentos (principalmente em relação ao seu pai). Ele conta ao mundo as coisas que a maior parte de nós prefere manter em segredo. Então, quando ele se dedica a falar da sua própria arte, não fala dos seus sucessos cinematográficos, mas dos fracassos, da luta por orçamento, dos seus esforços no teatro - meio que ele mais parece amar. Fala um pouco das suas influências também, artísticas e filosóficas, mas a base da obra está no intimo, não nos detalhes de produção da peça, mas da diarreia que ele sofre sempre que uma estreia se aproxima; não dos muitos prêmios e admiradores, mas de quando foi preso por sonegação fiscal durante um ensaio. Ele não enfeita sua vida, não esconde o desagradável, apenas conta o que aconteceu.

É difícil para mim indicar esse livro, por melhor que seja, para alguém que não conheça ou não se interesse pelo diretor. Para que a leitura seja plenamente agradável, é importante - não exatamente necessário - que o leitor tenha visto um ou dois filmes dele pelo menos, apenas o suficiente para que as ideias dele também se tornem interessantes. O que não quer dizer que seja um livro ruim, pelo contrário. Ele escrevia seus roteiros e, se você já viu algum filme dele, sabe que ele é cheio de monólogos e narrações bastante literárias. A prosa de Bergman é seca, mínima, sem floreios, mas precisa e sentimental, intima, como se ele estivesse te contando as histórias pessoalmente, direto ao leitor.


Não há nenhum detalhe técnico literário que eu possa explorar. É somente uma autobiografia, mas uma autobiografia muito boa. O que mais tem por aí são artistas falando de suas lutas, histórias de superação  - quem a esse ponto já não sente náuseas ao ouvir falar de histórias de superação? -, histórias de sucesso. É raro um ser humano ter coragem de falar daquilo que o envergonha, daquilo que o humilha, sem se vitimizar ou escrever logo em cima uma reviravolta heroica. Para mim, esse tipo de biografia perde a humanidade, tem a intenção de tornar a pessoa um mito. Esse foi meu grande alívio com Lanterna Mágica, tanto que o livro me prendeu.

Também não esperem ver uma biografia do tipo: tudo começou no ano tal, quando eu nasci no determinado hospital da respectiva cidade, no dia tal, hora tal. Não, ele não segue uma estrutura linear. Ora ele fala de uma surra que levou do pai, então pula para o dia que ele perdeu a virgindade, então volta para a infância e como ele gostava de se esconder no armário para brincar com a Lanterna Mágica. Ele pula entre os vários pontos que ele julga relevantes tratar. É bom lembrar então, não leia esperando um "por trás das cenas" de suas várias gravações. Acho que Sétimo Selo nem é mencionado durante o livro todo, e pouco se fala dos livros que chegam a ser citados. Em muitos momentos, ele parece não citar de propósito o nome dos filmes aos quais ele faz referência, para fugir dessa parte da vida dele, a parte que o tornou famoso.


Por agora vocês já devem ter reparado que se trata de um bom livro, mas vou reafirmar para os que possam não ser tão rápidos: é uma ótima autobiografia, melhor se você sabe quem é o autor - obviamente. Bem escrita, melhor que muitos romances, honesta, sem os problemas típicos que envolvem um autor falando de si mesmo, e, por ser da Cosac Naify, ainda vem em uma bela edição de capa dura. Indico a leitura, com as restrições já mencionadas.

Nota: 4/5

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Pintura para principiantes #1 - Introdução e Edward Hopper


Essa é a estreia de uma coluna nova aqui no Delirium Scribens. Estou entediado com as coisas que eu costumo fazer por aqui, então decidi criar uma novidade. Falarei de pinturas. Quais minhas credenciais para falar desse assunto? As mesmas que tenho para falar de cinema, literatura e música - absolutamente nenhuma. Talvez possa até dizer que tenho menos moral para falar de pintura que qualquer uma dessas outras artes, porque ao menos com as outras eu tenho experiência de contato e/ou experiência prática. Logo aviso que não esperem aqui uma análise complexa ou exata da vida e obra de diversos artistas, apenas uma introdução superficial para você, que assim como eu, não sabe nada de pintura, mas gostaria de saber.

Como não entendo sobre a técnica da pintura ainda (talvez aprenda com o tempo, talvez não), não me meterei a falar sobre isso, sobre o estilo das pinceladas e outros detalhes que um crítico de arte competente definitivamente perceberia. Por outro lado falarei daquilo que creio ser realmente importante, o que uma pintura causa internamente, quais sentimentos elas trazem a tona, como uma pintura pode afetar seu espectador. Além disso, pretendo falar um ou dois breves parágrafos sobre a vida do pintor em questão, não com fins biográficos, mas para contextualizá-lo na história.

O primeiro a ser tratado nessa nova coluna é Edward Hopper. Por quê? Ora, foi ele quem fez com que eu me interessasse por pintura. Sim, meu interesse é que regerá as futuras colunas, não cronologia ou grau importância. Repetirei para que não haja dúvidas, minhas finalidade aqui não é acadêmica, é apenas divulgação cultural, um jeito bacana de gerar interesse sobre esse assunto nas pessoas.

Nascido em Nova York, 1882, Edward Hopper ficou conhecido pelas suas pinturas altamente influenciadas pelo impressionismo francês. Seu principal cenário foi o cotidiano, os cenários comuns dos Estados Unidos, a "natureza urbana" - por assim dizer, como se isso fizesse qualquer sentido. São pinturas reais, que capturam as diferentes emoções do dia-a-dia, da simplicidade da vida, da solidão e tédio do que viria a se tornar o "sonho americano".

Summer Interior (1909)
Um dos meus favoritos por algum motivo. Tem algo de misterioso nessa mulher largada no chão do quarto, durante o dia, o rosto escurecido, a cabeça baixa. É uma figura melancólica, solitária. O quadro emana um erotismo desesperado. O espectador se vê obrigado a imaginar o que aconteceu de tão desconsolador. 

Night Windows (1928)
Tanto na pintura anterior quanto nessa - muito mais nessa -, o expectador tem um ponto de vista distante da cena, voyerístico. Dessa vez, além de imaginar quem é a mulher e o que ela faz, se é levado a imaginar quem é que a assiste. É uma invasão da intimidade, praticamente. Um ponto de destaque na obra do Edward Hopper é a forma que ele trabalhava as luzes e sombras. O efeito da luz no exterior do prédio é muito interessante, e a noção de movimento que a cortina passa flutuando para fora do apartamento por causa do vento. De novo a solidão se faz presente.

Early Sunday Morning (1930)
O cenário comercial da cidade pela manhã. Isso eu li no site "edwardhopper.net" - referência para quase todas as informações biográficas desse texto -, o título original da pintura não mencionava "Domingo", ou seja, a pintura pode ser interpretada como uma referência a depressão econômica em 1929, com as lojas fechadas e a falta de vida no centro comercial. 

Sun in an Empty Room (1963)
Essa é uma pintura curiosa. Não há nada nela, e por isso mesmo todos os temas comuns nas pinturas dele estão presentes. É uma imagem solitária o trecho da casa vazio, o sol entrando pela janela. Novamente o jogo de luzes e sombras. O mistério da observação do cenário desconhecido.

Automat (1927)
Essa é uma pintura famosa dele. A mulher sozinha no café, bem-vestida e maquiada, no meio da noite. Não se sabe se ela está voltando de algum lugar, indo para algum lugar. Novamente não se sabe quem a observa. Em 1927, pernas a mostra não eram exatamente aceitas, então há uma sensualidade na forma que as pernas sob a mesa estão mais iluminadas que o resto do quadro. O detalhe da fileira de lâmpadas refletidas na vidraça é genial. Uma das minhas favoritas.

Nighthawks (1942)
Tá, essa é a pintura mais famosa dela e a minha favorita. Porque foi ela que fez eu me interessar por pintura. Conheci por meio de um disco, na verdade, Nighthawks at the Dinner, do Tom Waits - que eu já resenhei aqui e sugiro que todos ouçam. Novamente, tenho algo nela. A solidão da noite, as figuras avulsas tomando café; um homem sozinho, um casal (possivelmente), juntos mas não exatamente, e o garçom ali, talvez ouvindo alguma coisa ou só seguindo com seu trabalho. É uma cena cheia de tédio, de novo assistida de longe, talvez por um passante na esquina. Um momento da madrugada - imagino que seja madrugada, pois não tem mais ninguém por perto. Eu realmente gosto dessa pintura.

Assim termina a primeira coluna sobre pintura. Uma curiosidade, também lida no edwardhopper.net foi que, no fim da carreira, ele perdeu a popularidade por causa do crescimento do expressionismo abstrato, Jackson Pollock, por exemplo, por isso ele será o próximo alvo dessa coluna, que será escrita sei lá eu quando. Raramente peço feedback por aqui, costumo fazer aquilo que me interessa, mas gostaria de saber o que meus dois leitores e meio pensam. Gostaram disso? Se interessam por pintura? Acharam a obra do Edward Hopper interessante? Essas perguntas de sempre.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Asterios Polyp - David Mazzucchelli [2009]


Primeira vez que resenho uma HQ por essas bandas? É, primeira vez, embora eu estivesse certo de que já havia feito essa resenha antes - às vezes penso tanto no que escrever para um post que chego a acreditar que o pensamento tomou forma, infelizmente não acontece. Não sou um leitor assíduo de HQs, na verdade eu tive algumas experiências na infância e na adolescência com esse meio, mas muito superficialmente, nada memorável, por assim dizer. Um belo dia, e sei lá eu o motivo disso, decidi revisitar esse mundo dos quadrinhos e admito que fiquei fascinado. É um setor tão pouco explorado e tão cheio de possibilidades. Entre as artes, creio que o quadrinho está em ascensão, com vários nomes inovando o setor. A que mais me chamou atenção nesse retorno foi Asterios Polyp.


O personagem que dá título ao livro é um arquiteto, professor universitário, que, logo no primeiro quadrinho, é forçado a sair do seu apartamento, que pega fogo após a queda de um raio. Ele, então, pega um ônibus e vai até uma cidade bem distante no interior dos EUA, e lá ele arranja um emprego de mecânico. Partindo daí a narrativa da saltos entre o presente e o passado. É descrita a infância de Asterios, sua juventude, o sucesso acadêmico, o casamento conturbado, tudo ao mesmo tempo em que ele tenta descobrir a si mesmo na nova cidade.


Tem muitos detalhes interessantes para discutir nessa HQ, tanto que eu não sei bem por onde começar - também não ajuda que eu a tenha lido ano passado e só agora tenha decidido falar sobre. O que mais me pareceu interessante no começo foi o ponto de vista da narração. A história é contada pelo irmão gêmeo natimorto de Asterios, que, supõe-se, o acompanhou em espírito o tempo todo. Isso é particularmente interessante devido à personalidade de Asterios. Se o livro fosse em primeira pessoa, seria uma história totalmente narcisista, visto que Asterios é um tanto arrogante, esnobe e metido a intelectual. Se fosse em terceira, não seria pessoal o bastante. O ponto de vista de um irmão morto, além de eu nunca ter visto nada assim antes, também oferece esse meio termo entre o pessoal e o impessoal.


O maior dos temas explorados nessa HQ é a dualidade do ser humano. Durante todo o enredo Asterios fala sobre suas teorias perante razão/emoção, destino/livre arbítrio etc. Sua esposa, por exemplo, é um completo oposto dele. Enquanto ele é um acadêmico tão racional a ponto de ser chato, ela é uma artista plástica passional. Essa dualidade se reflete até nos traços, que por vezes fogem do padrão e assumem uma visão mais psicológica que física nas descrições das imagens - se é que isso faz algum sentido. Exemplo: nas várias brigas que Asterios tem com a esposa, quando ele fala os arredores tomam forma geométrica, como um esboço arquitetônico; quando ela fala, tudo toma forma de traços abstratos.


Até mesmo entre o presente e o passado há uma dualidade clara. No passado ele vivia na cidade grande, seguindo instintos materiais e hedonistas. No presente ele vive no interior, solitário e introspectivo, buscando alguma espiritualidade influenciada pela cultura nativo-americana. As cores também seguem esse padrão. Ora são usadas cores frias (passado, monólogos de Asterios), ora cores quentes (presente, brigas com a esposa).


Asterios Polyp recebeu vários prêmios na época de seu lançamento, incluindo 3 prêmios Eisner e 3 prêmios Harvey, foi muito aclamada pela crítica - incluindo esse humilde crítico que vos fala - e tudo muito merecidamente. Se você gosta de quadrinhos, vá em frente e leia. Se não conhece o meio, dê uma chance, pode quebrar alguns preconceitos.

Nota: 5/5  


terça-feira, 22 de julho de 2014

Lolita - Vladimir Nabokov (1955)

Eu sei, feia pra cacete a foto. Mas não tenho câmera pra ficar tirando foto do meu livro e essa era a única disponível no Pai Google.
Resenhar clássicos é uma coisa que eu sempre quis evitar. Digamos que o motivo principal da resenha é a divulgação, e Nabokov, principalmente em se tratando de Lolita, não precisa ser divulgado. Quando a resenha não tem por objetivo divulgar, mas analisar - território que eu também já trafeguei com minhas resenhas -, sua obra também já foi dissecada por dezenas, centenas, de críticos, todos, possivelmente, muito mais competentes que eu. E isso não serve só para Lolita, mas qualquer outro clássico. Ainda assim, esse blog anda escasso de resenhas literárias justamente por causa dessa minha regra pessoal, então vou abrir uma exceção e escrever sobre Lolita. Mas que isso já sirva de aviso que a resenha se trata de uma breve opinião pessoal, um texto no mínimo vulgar - como diria o próprio Humbert Humbert -, feito sem pretensões analíticas e acadêmicas.

"Lolita, luz de minha vida, fogo de meus lombos. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO.LI.TA”. (O tão famoso e aclamado início.)

A começar pela sinopse - e gostaria de acrescentar ao leitor desse humilde blog que já estou cansado dessa estrutura de resenha: introdução/sinopse/x parágrafos de análise/veredicto; somente sigo com ele por não conhecer método melhor; por mim, largaria as resenhas, mas se o fizesse o blog morreria - talvez conhecida universalmente. Humbert Humbert é um russo de meia-idade, acadêmico, culto, poliglota, mas com uma fraqueza moral - as garotas que ele chama "nymphets" (ninfetas, apesar da minha edição não ter traduzido o termo). Há uma justificativa para esse desvio, quando ele próprio era um menino, se apaixonou por uma garota de 12 anos, mas ela morreu antes que o amor dos dois fosse efetivado (embora ele tenha chegado perto algumas vez). Essa frustração da infância é a causa da sua obsessão adulta, ele argumenta ao falar com o leitor como se falasse a um juiz. E desse ponto de partida, ele segue descrevendo sua história, seu primeiro casamento na Rússia, seus muitos problemas envolvendo psiquiatras, sua vinda aos EUA, seu encontro com Charlotte Haze, cuja filha, Dolores (Lô, Lola, Dolly, Lolita...), é o alvo principal da obra e a obsessão de Humbert. O resto do livro trata das tentativas de Humbert realizar seu romance com Lolita, mas pra saber o que se passa você vai ter que ler o livro.

“Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.” (O início em inglês, para referência.)

A primeira coisa que você precisa saber antes de atacar a leitura de Lolita é que Humbert Humbert é aquilo que chamamos de narrador não confiável, mais que isso, ele é o rei dos narradores não confiáveis. Ao longo da história, não só ele vai fazer uso de toda a espécie de artifício literário para desviar a cabeça do leitor do crime que ele descreve no livro (pedofilia, pra começar), ele vai tentar nos convencer de que suas atitudes não só não são tão graves, como também poderiam até ser vistas como corretas. E para isso ele vai lançar todo o tipo de referência acadêmica obscura, linguagem rebuscada e até mesmo vai mentir diretamente para o leitor, fazendo que, até o fim da obra, este não saiba exatamente no que acreditar. Puta merda, que livro bom.


"Em tardes particularmente tropicais, na pegajosa intimidade da sesta, eu gostava de sentir o frescor da poltrona de couro contra minha nudez maciça enquanto a tinha em meu colo. Lá ficava ela, como qualquer criança, a enfiar o dedo no nariz enquanto lia as seções menos exigentes do jornal, tão indiferente a meu êxtase como se estivesse sentada sobre um objeto qualquer – um sapato, uma boneca, o cabo de uma raquete de tênis – e fosse preguiçosa demais para afastá-lo".


Agora que o leitor dessa resenha não se intimide quando falo de linguagem rebuscada. Ela chega a ficar complicada em certos momentos, mas é proposital. O uso de termos e referências desconhecidas ou estrangeiras (ele, como professor de poesia francesa, usa termos franceses o tempo todo - muitas vezes não traduzidos na edição da Abril, de 1974) é propositalmente confuso, um jeito de diminuir a percepção do leitor e ao mesmo tempo encantá-lo, já que os termos não diminuem o tom poético da narrativa. Esse é o ponto forte de Lolita, o ritmo, o lirismo, a beleza da linguagem tão cuidadosamente esculpida por Nabokov. Lolita não é considerado um dos melhores livros da literatura sem motivo.

"Sou suficientemente orgulhoso de saber alguma coisa para ter a modéstia de admitir que não sei tudo".

É tão perfeito, que chega a ser frustrante. Essa foi a impressão que ele causou entre os críticos da época - quer dizer, depois de todo o choque causado pela pedofilia. Era sem precedentes um russo expatriado que escrevesse tão bem em segunda língua, sem pegar emprestado do estilo de nenhum outro autor escrevendo na época. O único termo para definir Nabokov é gênio, e eu quase decidi aposentar essa minha ideia de escrever ficção ao terminar de ler esse livro - só não aposentei porque sou muito cara de pau.

"Teve, acaso, uma precursora? Sim, teve-a, de fato. Na verdade, bem poderia não ter havido Lolita alguma, não houvesse eu amado, num certo verão, uma certa garotinha inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Cerca de tantos anos antes de Lolita ter nascido quantos contava eu naquele verão? Pode-se sempre esperar, de um criminoso, uma prosa de estilo extravagante".

Uma coisa eu tenho que acrescentar de negativo. A minha edição é da Abril, lançada em 1974. A tradução a cargo de Brenno Silveira é excelente. Verdade que ele mantém diversos termos em inglês, julgando que o leitor os reconheceria, e não traduz nem em nota de rodapé os termos franceses - caso você não tenha nenhum conhecimento de inglês ou de francês e tenha essa edição para ler (uma edição comum em sebos e barata, por isso indico), leia com o google tradutor disponível. O maior defeito dessa edição são os erros de revisão, muitas letras trocadas, deixando claro que o revisor dormiu no trabalho. Não sei se isso é coisa da época, se os editores brasileiros eram mais relaxados na década de 70, mas fica feio um livro tão cuidadoso ao mesmo tempo tão errado. Lógico que isso não vai prejudicar a nota, mas tenham ciência disso caso peguem essa edição (que, repito, apesar dos erros, é recomendável pela precisão e fluidez). Se você sabe inglês, leia o original - é o que eu pretendo fazer no futuro próximo.

Nota: 5/5