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sábado, 3 de janeiro de 2015

Momento Musical #6 - Funkadelic, Sly & The Family Stone, Black Merda, Mulatu Astatke

Mais um feito inédito no blog, estou seguindo uma sugestão de um comentário. Quem fez foi a Carol, do Uma Cadeira, Por Favor (e se você gosta de cinema, clique no link porque ela sabe das coisas), que sugeriu Funkadelic pro Momento Musical. Bem lembrado, então não só inclui Funkadelic na lista, como decidi seguir o tema Funk/Soul/Jazz pro Momento Musical número seis, até porque já é um estilo que eu estava querendo cobrir faz tempo. Isso é pra vocês saberem que eu presto atenção nos comentários de vocês e sugestões são bem-vindas. Vamos aos discos selecionados.

Funkadelic - Funkadelic (1970)


Esse é o primeiro disco da banda e um dos meus favoritos. Não é tão experimental quanto "Free your mind...and your ass will follow", que veio depois. Eles tem esse lado atmosférico na música deles, que deixam as letras parecidas com instruções de hipnose, que eu acho muito bacana, diferente do funk puro. A banda é impecável. A música em geral é tão hipnótica que fica difícil ouvi-la e fazer outras coisas ao mesmo tempo, como por exemplo escrever um post sobre música...Bom, eles se chamam Funkadelic por um motivo e, nas palavras de George Clinton, na primeira faixa, it will blow your funky mind.

Sly & The Family Stone - Stand! (1969)


Hoje em dia é difícil dizer que existe alguma igualdade na sociedade, mas na década de 60 os conflitos raciais estavam a beira de estourar uma guerra, as coisas estavam ficando violentas mesmo, com o assassinato de Malcolm X ('65) e Martin Luther King ('68), pra citar os mais conhecidos historicamente. Em meio a esse ambiente conturbado, havia aquele grupo feliz, que queria apenas igualdade, paz e boa música. Surge Sly & The Family Stone, uma das primeiras bandas, se não a primeira, a unir negros, brancos, homens e mulheres. Um marketeiro idiota usaria o termo "diversificada" pra definir a banda, mas a verdade é que se trata apenas de uma banda de humanos (sem querer discriminar os animais, acontece que cães são péssimos com instrumentos de corda e sopro, além do problema do déficit de atenção, e gatos seguem apenas carreira solo etc.). Ah!, já ia esquecendo, o disco é muito foda.

Black Merda - Black Merda (1970)


Uma banda, infelizmente, esquecida pelo tempo. Black Merda pode parecer um nome engraçado no Brasil, mas o que eles quiseram fazer foi imitar a grafia "falada" da palavra Murder, ao mesmo tempo descrevendo a situação racial da época, 1970, quando negros eram assassinados sem que houvesse consequência. Em estilo, eles eram mais para o rock que para o funk, lembrando uma versão menos frenética de Jimi Hendrix Experience. Vale conhecer, eu juro que não sei porque eles não foram maiores naquele tempo.

Mulatu Astatke - New York–Addis–London: The Story of Ethio Jazz 1965–1975


Mudando um pouco de estilo, esse está mais para jazz que qualquer outra coisa, mas não chega a se separar tanto do funk, do soul, incluindo na receita um pouco de afro-beat e música latina, Mulatu Astatke é um ícone do chamado ethio-jazz (jazz originado na Etiópia). O disco não é um álbum, mas uma compilação de músicas que ele gravou entre 65 e 75. A idade do Momento Musical é fugir de compilações e focar em álbuns, porque desde o surgimento do mp3 o álbum tem perdido sua importância e os ouvintes têm focado nos "hits", o que me incomoda um pouco. O problema é que nem sempre o Youtube vai ter um álbum ali disponível. Aí eu vou ter que me decidir se eu mesmo faço o upload e me arrisco a entrar nessa putaria dos direitos autorais, deixo de falar do músico cujo álbum não está no Youtube, ou me contento em disponibilizar uma ou duas faixas. Nesse caso específico, Mulatu Astatke tem uma carreira tão extensa e rica (e ainda ativa), que focar em um álbum negligenciaria muito do estilo dele. Além do mais, essa compilação é perfeita, tem um pouco de tudo e é o que eu sugeriria a um curioso que não conhecesse nada do jazz etíope.

Por hoje é só, minhas crianças. Escutem a música, isso é o mais importante.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A poesia de Paulo Scott

Tem jeito melhor de começar um ano de postagens, após ter feito a promessa de que resenharia coisas que nunca me considerei digno de resenhar, com um texto sobre poesia - que nunca tive coragem de falar sobre, se não por um ponto de vista impessoal e teórico, embora academicamente inapto? Pois assim começarei, falando de um dos poucos poetas contemporâneos que acompanho, o Paulo Scott. Não irei tão longe a ponto de resenhar uma coleção específica, e dar nota a ela, seguindo meu formato usual, não. Vou falar dos dois livros que li dele, tentar descrever algumas das sensações que eles me causaram, e isso pode ser considerado uma indicação automática para vocês, parcela dos meus leitores, que gostam de poesia.


Fui surpreendido pelo lançamento de Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo (Companhia das Letras), em 2014 - já falando como se fosse algo distante, mas a verdade é que quase publiquei o texto tendo escrito "esse ano" -, coleção mais recente do Paulo Scott. Demorei um pouco para comprar, porque, talvez por ser poesia, nem todas as livrarias o tinham disponível. Mesmo assim consegui comprar e ler o livro antes do fim do ano passado e, devo dizer, foi uma das minhas leituras favoritas no ano (mesmo que eu tenha terminado a dita leitura ontem, por volta das sete da noite).

Não foi a primeira coleção do Paulo Scott que eu li. Já havia lido também a primeira, creio eu que em 2014 também, mas logo no começo, chamada A timidez do monstro (Objetiva). Por isso, a primeira coisa que me ocorreu durante a leitura de Mesmo sem dinheiro foi a diferença no estilo. Antes que eu me estenda, vou avisar que o livro foi dividido em duas partes. A primeira, chamada Livro Um, é onde a diferença mais notável está. O Livro Dois, embora carregue alguns dos aspectos do Livro Um que diferenciam essa coleção da primeira, tem uma linguagem muito mais aproximada.


 Diferentemente de A timidez do monstro, o Livro Um de Mesmo sem dinheiro tem em cada poema uma narrativa, levemente abstrata, mas não muito. Paulo Scott desenvolve personagens em seus poemas, cenários que podem ser reais ou fictícios, sempre breves e precisos que, por trás da linguagem poética, contam uma história muito maior. E eis o motivo de eu sempre ter evitado resenhar livros de poesia. Os parágrafos a seguir desse texto estarão cheios de suposições sobre as intenções do autor que eu, nunca tendo falado com ele, não teria como saber. A questão é que, e isso é uma opinião pessoal minha, um poema, como qualquer outra obra de arte, quando tornado público deixa de ser do autor. Na prática, lógico que o texto segue pertencendo ao autor, estou falando do significado dele. Um leitor nunca lê a poesia do poeta, ele lê sua própria poesia nas palavras do poeta. Ele vai entrar no texto e investir no texto os seus próprios sentimentos, mesmo que isso não faça tanto sentido. Por isso, tudo que virá a seguir não pode de forma alguma ser considerado correto, objetivo ou imutável. O leitor pode, deve, ter impressões diferentes, tão diferentes quanto as reais intenções, se existentes, do poeta.

Enquanto em A timidez do monstro a linguagem parece ser propositalmente hermética, formada de associações líricas entre as palavras, mais focadas em som que em sentido, o Livro Um de Mesmo sem dinheiro segue um caminho direto, quase doméstico.

Fidelidade

ficava clareando os olhos gaúchos no espelho
tentando aprender o modo certo de falar na tevê

ficava irritada, meio cega e míope, seu nome paraíso
e não sabia se o próprio choro era choro de verdade

fizeram-lhe óculos para esse tipo de exame final
média seis e cuecas na altura de joelho na testa

lentes roxas em grau sumô natural luzes apagadas
lentes autolubrificantes espessura goles e goles de festa (p. 20, Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo)

Os personagens são esposas, maridos, filhos, gente encarando a idade adulta com insegurança, as crises do não estar sendo tão produtivo quanto se cria que seria quando jovem. A ansiedade está presente em ambas as coleções, mas em Mesmo sem dinheiro ela parece ter mais foco, ou pelo menos um foco diferente. Digamos que a mente por trás da poesia seja a mesma, mas o filtro poético pelo qual as palavras passaram para se tornarem o que vieram a ser é outro.

de tarde na vila madalena

vago sol
que cai
e feta
sobre
o lombo
de livros (p. 31, A timidez do monstro)

Um detalhe que ajuda a definir o clima de A timidez do monstro, não presente na nova coleção, é as ilustrações. Feitas por Guilherme Pilla, elas representam essa violência abstrata e não direcionada do primeiro livro muito bem, ajudam a complementá-lo, como as ilustrações devem ajudar. Mesmo sem esqueite, no quesito violência, assume um tom mais passivo, talvez por isso mais adulto.

Primeira temporada completa

1.
descer de petrópolis com os olhos fechados
contando até dezoito antes de abri-los de novo
enquanto a companheira dorme na garupa
da vespa, achando que são frequência, papel

2.
então me liga quando chegar na beira da praia
e me conta como é voar com a infelicidade
enfiada no rabo - curso do seja homem
e repita que nunca mais torceu pelo touro

3.
chuva de pólen sobre cativeiros de peixes
assim ficaram teus olhos depois que abri os meus
casca de sexta-feira, carpas nadando em antibiótico
(show de exorcismo e) pudim de resfenol

4.
pedindo desesperada para eu frear - m. brando
em sessão da tarde - você me encara, determinada,
pergunta se o sol nasce ali mesmo
se a gente tipo é casado ou tipo vai só namorar (p. 42 - Mesmo sem esqueite...)

O Livro Dois já relembra o estilo de A timidez do monstro, não sei se há algo de proposital nisso (não sei se qualquer coisa que disse até agora fez muito sentido). As rimas e aliterações, embora ainda livres, estão mais presentes, e as palavras voltam a favorecer o som que o sentido.

olho que é grade que ouve
ovo que é linha no poema

sem atritar a surdez do ovo
e de novo que é filme de foto

o couro mais forte do corpo
pele global nata lacrada ovo

o olho é um ovo que engole
um ovo que nasce geminado

portanto o olhar não é só (p. 68 - Mesmo sem esqueite...)

Não é só poesia que o Paulo Scott publicou, mas foram só as poesias que eu li - não por algum motivo específico,  na verdade agora quero partir para a prosa. Além desses dois livros dos quais falo, ele publicou Voláteis (romance, pela Objetiva/Alfaguara), Habitante Irreal (seu romance mais conhecido, pela Objetiva/Alfaguara), Ithaca Road (romance da coleção Amores Expressos, pela Companhia das Letras) e Ainda Orangutangos (contos, pela Record). Houve ainda mais uma coleção de poesias, Senhor Escuridão, pela Record, que ainda não li. Por ter lido apenas o primeiro e o último livro dele, a impressão maior que tive é que, entre eles, houve uma grande mudança no estilo, e eu não acompanhei a transformação (se essa de fato aconteceu) por não ter lido os outros livros. Pretendo lê-los o quanto antes.

cavocando o cano da vocação

as formigas estão felizes
capinam as gotas açucaradas
sobre a pia de granito verde
envolvo-as num círculo de sabão
(é forte odor de maçã)
Avelina abre a porta e me surpreende
meu dorso de maracanã eriça
e perpassa em correntes
uma brisa esquecida
uma solidão de paraíso (p. 78 - A timidez do monstro)

No começo da resenha disse que ele é um dos poucos poetas contemporâneos que acompanho, mas já recolhi alguns nomes e pretendo mudar isso esse ano. Tem coisas interessantes acontecendo por aí hoje em dia e eu quero saber o que são.

Hoje sem nota. O livro está aí, indicado para quem queira ler. E abaixo tem um link para o primeiro poema de Mesmo sem dinheiro, disponibilizado pela Companhia das Letras. Divirtam-se crianças.
 
http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13760.pdf

domingo, 21 de dezembro de 2014

Momento Musical #5 - The Mamas and the Papas, Love, The Velvet Underground


Nessa casa da mãe Joana que é o Momento Musical, por mais que eu tente evitar, acabo caindo num tema. É inconsciente. Defino as bandas de improviso, cinco minutos antes de escrever a postagem, aí uma meio que se conecta a outra dessa maneira. Estou escutando o disco enquanto penso no próximo, e o próximo acaba vindo. Na edição de hoje, são bandas da minha tão amada década de 60. Uma delas, a primeira, é meio deslocada, mais ligada ao pop que ao psicodélico, mas não está tão distante. Vamos à música que é o que importa.

The Mamas & The Papas -  If you can believe your eyes and ears


Minha primeira memória dessa banda é bem distante. Era a minha mãe quem gostava especificamente da música California Dreamin'. Nunca foi muito meu estilo, eu achava, até ouvir esse disco por completo uns dois anos atrás. O som é leve, cheio de harmonias vocais, meio folk, meio pop com uma pitada de psicodélico (que era meio onipresente no som de 66-68). Acho que não gostava por nunca ter prestado atenção mesmo. É uma banda relaxante.

Love - Forever Changes


Esse disco é um dos melhores do seu período, o que é dizer muito (foi lançado em 67, e agora você vai no Google e pesquisa "álbuns lançados em 67", se vocês gostam desse tipo de música, mas não são tão ligados na história por trás dela, vocês terão um orgasmo). Encabeçou toda uma geração, mas hoje ninguém lembra deles. Culpo o nome da banda. Convenhamos, nossa geração baixa música e descobre tudo pela internet. Tenta pesquisar a palavra Love na internet. Vai demorar umas 30 páginas do Google, até encontrar alguma informação sobre a banda. Mais bagunçado ainda é pesquisar Love no PirateBay. Sorte de vocês que o tio Rapha existe e trás essas joias diretamente pra vocês, sem necessidade de perder tempo pesquisando.

The Velvet Underground - Loaded


Fiquei triste pra cacete quando o Lou Reed morreu ano passado. Puta compositor, e eu acho que o melhor trabalho dele está nesse disco. Já me peguei ouvindo esse álbum e cantando junto com Sweet Jane, Who Loves the Sun, Oh! Sweet Nuthin'. Esse é um dos meus discos favoritos da história do rock e eu não faço ideia de por que essa é a primeira vez que ele figura aqui no blog (se bem que tem dezenas de álbuns que eu amo e nunca falei sobre por aqui - só aguardem as próximas edições do Momento Musical).

É isso. Não farei mais Momentos Musicais esse ano, mas 2015 estará aí logo. Quem sabe eu até bote ordem nesse barraco, organize minhas postagens por semana. Não prometo porra nenhuma, mas não é impossível de acontecer.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Divórcio - Ricardo Lísias [2013]


Peguei esse livro emprestado dois meses atrás. Nunca tive coragem de pedir livros emprestados para ninguém, não importando o quão bem eu conhecesse a pessoa, por causa da pressão. Passado muito tempo, se eu não terminasse a leitura e devolvesse o livro, ia começar a me sentir cada vez mais culpado. Fiz essa exceção porque queria ler algo do Lísias já faz tempo, mas não sabia qual comprar, e sempre que fazia uma lista de futuras compras, deixava o dele para depois. Então me atirei nessa pressão psicológica propositalmente para me forçar a ler o livro, e em um ritmo razoável. A pessoa que me emprestou havia passado as últimas semanas elogiando Divórcio, então pedi o empréstimo. Ela aceitou, até porque já havia emprestado dois livros para essa pessoa.

Feito em uma série de fragmentos divididos em 15 capítulos - que o livro chama de quilômetros, mesmo número de quilômetros da São Silvestre -, Divórcio conta a história de como Ricardo Lísias (personagem, não autor) se divorciar da esposa após um casamento de quatro anos. Os fragmentos são formados de pensamentos do autor durante e depois do divórcio, momentos do passado, trechos do diário que a esposa do narrador mantinha (causa principal da separação) e autoanálise. Seguindo a linha já bastante tradicional na literatura francesa de autoficção, Ricardo se põe como personagem, mas não exatamente.

A narrativa de Divórcio trafega a linha tênue entre ficção e realidade, com o autor, talvez intencionalmente, fazendo o leitor ceder àquela voz que o acompanha enquanto ele lê, que insistem em dizer que aquilo aconteceu daquela forma, que o eu-lírico e o eu autor são um e o mesmo. Ele faz isso colocando, ao lado das invenções (o treino para São Silvestre que ele nunca fez e a corrida da qual ele não participou - embora ele narre com a verossimilhança de um participante) os fatos - citações aos montes sobre o livro Céu dos Suicidas, que existe e foi Ricardo Lísias, autor, quem escreveu. Resisti o que pude, mas, como imagino tenha sido o caso da maior parte dos leitores, botei o nome dele no Google e fui investigar quanto daquilo foi real. Saí da pesquisa sabendo tanto quanto quando entrei - nada. Nem sei dizer ao certo se o cara foi casado. E, querem saber, bom que tenha sido assim. Não vem ao caso quem é Ricardo Lísias, o autor. O livro trata de Ricardo Lísias, o personagem, e, para este, tudo que se passou no livro foi real, mesmo que tudo não passe de ficção.

Apesar das distrações, das fofocas, do drama, do real contra a ficção, o livro fala mesmo é de jornalismo. Desse mundo que todos sabem ser corrupto chamado mídia, a principal responsável pela informação. Lísias escreve sem medo sobre o poder que existe nesse meio, e o poder que estes que o representam (jornalistas) acreditam ter. Nesses momentos, a prosa beira a fúria, o que só aumenta a curiosidade do leitor para saber se Divórcio é biografia ou não. Ironia que vou julgar ter sido intencional, fazer o leitor se entregar ao mesmo mundo do jornalismo que o autor condena.

Devo dizer, entretanto, que as repetições do livro me cansaram. A metáfora insistente sobre "estar sem pele" e as descrições exaustivas da pele voltando e não voltando e se ferindo me fizeram sair da narrativa muitas vezes. Escolha estilística, imagino, mas pra mim não funcionou. O livro não fica ruim por causa disso, o resto do conteúdo compensa. Para mim ele foi além do jornalismo e brincou com esse obsceno gosto humano por tudo que é do outro, mesmo que o outro seja um fundo de banalidade tão ordinário quanto você.

Atropelando as repetições, o romance é muito interessante. Me deixou curioso pelas outras obras do autor, principalmente agora que já estou vacinado e desencanei da realidade, pelo menos quando estou lendo (às vezes nem preciso ler pra isso).

Nota: 4/5

Não confie em mim. Leia um trecho e, se gostar, compre o livro: http://www.objetiva.com.br/arquivos/capas/Divorcio__1oCapitulo.pdf?1416486760

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Les Amants Réguliers (Amantes Constantes) - Philippe Garrel [2005]


Eu tenho esse fascínio pela década de 60 que muitos de vocês já conhecem, foi isso que me levou a me interessar pelas crises políticas da época (a ditadura militar brasileira, os hippies e a contracultura nos EUA, a primavera de Praga, e os eventos de maio de 68 em Paris). Fiquei sabendo em meio às minhas pesquisas particulares da existência desse filme e logo o baixei e assisti. O diretor é Phillipe Garrel, que, em 68, fez parte da revolução, ao lado de Godard e Truffaut. Esse filme, Les Amant Réguliers (não confundam minha preferência pelo título original com pedantismo ou francofilia, é porque o título nacional é composto de duas palavras que rimam e vocês não fazem ideia do quanto isso me incomoda), é de 2005, mas tenta recapturar o espírito daquela época. Sem colocar a carroça na frente dos bois, li sobre a possibilidade desse filme ter sido uma resposta a Os Sonhadores (The Dreamers), do Bertolucci, de 2003, que trata mais ou menos do mesmo tema, a diferença sendo The Dreamers mais focado no lado erótico/sexual, e Les Amants... mais filosófico/introspectivo (não contendo uma só cena de nudez). Em uma cena, inclusive, uma personagem se volta à câmera e cita Antes da Revolução (Prima della rivoluzione), de 64, enunciando muito bem ao espectador o nome de quem dirige: Bernardo Bertolucci. Pode ou não ter sido um cutucão, um jeito discreto de dizer: você costumava se importar. Isso foi o que um crítico disse, e vocês sabem como são os críticos. Como nunca ouvi nem Garrel nem Bertolucci falarem nada sobre isso, e até onde sei os dois são amigos, não tomarei partido no caso. Mencionei apenas caso algum leitor mais informado quisesse me esclarecer.


Os conflitos entre os estudantes e os policiais na França em 1968 (época em que o governo era bastante conservador) estão cada vez maiores e mais violentos. Um grupo de jovens artistas, entre eles o poeta François (Louis Garrel) e a escultora Lilie (Clotilde Hesme), tem hábito de se reunir na casa de um amigo deles para fumar ópio, trabalhar, discutir, dançar e planejar os próximos passos da revolução. Um policial um dia vai à casa de François para perguntar porque ele não se apresentou para o exame militar obrigatório. Ele se recusa a ir com o policial e, quando este busca reforços, ele foge. Depois desse evento, François se torna mais engajado na revolução.


Em um dos "ataques", ele conhece Lilie e a reencontra numa das festas dadas na casa do "padrinho" deles todos. Os dois iniciam um relacionamento, ela tem dificuldades com a monogamia no começo, mas logo se apaixonam. A revolução, agora em 69, já foi em sua maior parte esquecida. Os trabalhadores voltaram a trabalhar e os estudantes à universidade.


É um filme de três horas, então já adianto que é indicado apenas aos que se interessam pelo tema e/ou gostam de histórias envolvendo artistas drogados e seus muitos questionamentos que os impedem de trabalhar. Se você gosta desse tipo de história (eu gosto), não será chato, as três horas passarão voando. Perfeito também para os aficionados sobre a época, já que o filme parece ter o objetivo de mostrar um retrato preciso do que foi viver naquele tempo, feito por um diretor que o viveu, lutou na revolução junto das tantas personalidades do período. Isso não quer dizer que o retrato seja romantizado ou ausente de críticas, pelo contrário, o vazio das personagens é bem demonstrado e a falta de sentido generalizada é muito bem explorada.


Estéticamente, Les Amants Régulier é uma homenagem à Nouvelle Vague. Preto e branco, cheios de diálogos tirados de livros de filosofia existencialista francesa, música somente quando necessário, quebras da quarta parede, referências a outras artes, jump-cuts, até mesmo as personagens têm um quê de godardianas, sendo que suas interações parecem cortadas diretamente dos filmes da primeira fase do auteur.


Não tem jeito de eu ser objetivo aqui. O filme, apesar de longo - uns diriam, sem estarem errados, longo demais -, tem tudo que eu gosto, trata de vários assuntos que me interessam, desde a liberdade sexual à liberdade criativa. Isso não me impede de entender que não é para todos. E não, isso não é uma dessas frases elitistas, como se o filme fosse muito complexo ou denso para certas pessoas, que, por isso, seriam inferiores. De forma alguma, muito pelo contrário. O que eu quero dizer é que ele pode ser extremamente desinteressante para muitos, e, para esses, sugiro qualquer outro filme. Talvez até algo do Godard, que com certeza é menos pessoal que esse filme do Garrel.

Nota: 5/5