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domingo, 18 de maio de 2014

Machado aos humildes; ou Qual é a da Patrícia Secco?

Não sou eu que falo difícil, vocês que mudaram a língua toda, seus putos.
Uma autora da qual nenhum de nós tinha ouvido falar até ontem se tornou o centro das atenções literárias dessa semana, para servir de preocupação à meia dúzia de desocupados. Estou falando de Patrícia Secco e seu infame projeto que visa facilitar as histórias de O Alienista, de Machado de Assis, e Pata da Gazela, de José de Alencar. E daí?, o que não falta nesse mundo é adaptação de clássicos para o público jovem. Pois é, esse é o problema. Adaptações desse tipo existem aos montes. Ah, mas Patrícia Secco inovou, disse que o público-alvo das suas futuras desfigurações não serão as crianças e os adolescentes, mas os adultos já alfabetizados, porém humildes. Ela fala do pedreiro, da faxineira, do lixeiro, da dona Maria, do seu José, dessa gente simples que sabe, mas não pode ler - afinal as classes média e alta são cheias de leitores. Assim o povo terá acesso tanto financeiro quanto cognitivo aos clássicos. Para Patrícia eu digo, se o problema é o linguajar, já existe dicionário.

O negócio é o seguinte. Financeiramente falando, clássicos são livros extremamente acessíveis. Sejam pelas milhares de edições de bolso facilmente disponíveis e variando entre os 5 e 15 reais (acho difícil que o projeto da dona Secco fique abaixo disso), seja por sebo, onde é possível encontrar edições conservadas, em capa dura pela mesma faixa de preço dos de bolso se não mais barato - minha edição conjunta de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro não passou de 6 reais (notem que foi dois por um, então três contos cada), nem a edição conjunta de Helena e O Alienista, nem uma coleção de contos e crônicas - porque, porra, eu sou humilde também, não posso largar fortunas em livros quando minhas contas já me arrancam o fígado. Quanto ao linguajar, não há nada que possa ser feito. Os leitores precisam entender que, sem linguagem, não resta muito da literatura. Uma palavra não é só um meio de contar história. Uma palavra sozinha carrega muito mais sentido que apenas a sua própria definição, quando escrita por um autor que sabe o que está fazendo; Machado sabia. Isso sem falar do contexto histórico que se perderia por completo com a modernização - "tradução", como alguns estão chamando o ato proposto - do vocabulário.

O que mais me incomoda nessa história toda não é a mudança nas obras desses autores, isso já aconteceu várias vezes. É a falta de necessidade por algo assim que realmente me irrita. E pior, com envolvimento do governo. Se a Patrícia tivesse desenvolvido a ideia, trabalhado na adaptação e apenas mandado para uma editora, seria problema dela. Por que envolver o governo? São tantos os projetos em prol da leitura que poderiam ser lançados, ela cria logo um que envolve a diluição dos melhores escritores do país?

Calma, deixa eu voltar um pouco, essa questão tem outros lados. Eu não serei elitista a ponto de dizer que apenas gente com determinado grau de cultura deve conhecer essas histórias - tecnicamente, é exatamente isso que eu estou dizendo, mas calma que eu logo me explico. Não serei idiota o suficiente para dizer que a solução desse problema é facilitar as histórias. A capacidade de compreensão literária de um indivíduo, como tudo na vida, surge com a prática. Uma pessoa que nunca leu, pode ser um motorista de ônibus ou diretor de multinacional, não será capaz de compreender Machado de Assis, e a linguagem dita rebuscada não será o único obstáculo. Voltando um pouco mais, não existe qualquer relação entre cultura e escolaridade. É muito possível que o motorista de ônibus que eu citei, com acesso a uma boa biblioteca e uma pitada de curiosidade, seja mais culto que o diretor de multinacional que não lê. Com isso, eu quero dizer que não é necessário facilitar Machado de Assis. A pessoa que não lê, em geral, provavelmente não lerá um clássico só porque ele foi facilitado. Existem milhares de livros fáceis, que serviriam de porta de entrada para a literatura mais complexa, sendo lançados todos os anos - não é errado dizer que a grande massa das publicações atuais são compostas de livros acessíveis, alguns desses até são bons. É assim que se forma um leitor, lhe apresentando algo que lhe seja interessante e compreensível. Esse livro trará, além da experiência em si, outro livro, talvez mais complexo - salvo quando o leitor aprendiz é preguiçoso, esse viverá para sempre na terra das leituras confortáveis e nada pode ser feito; a escolha da leitura, assim como o indivíduo leitor, é livre para fazer o que quiser. Voltando ao elitismo, eu quis dizer que apenas pessoas com determinado grau cultural deveriam ler Machado de Assis, mas não que a cultura é algo exclusivo a certas castas, pelo contrário. O que o governo ou a Patrícia Secco deveria desenvolver é uma forma de facilitar o acesso e desenvolvimento da cultura, não o acesso a Machado de Assis.

Foi assim comigo. Já contei essa história antes, mas repito, só comecei a ler depois de velho (19 anos, que não é velho, mas é tarde para começar a ler). Li Bukowski e gostei, nem imaginava que literatura dessas existia. Fui dele para Raymond Carver. De lá fui pra Hemingway. Cheguei em Dostoiévski e, depois, decidi encarar, com sucesso, Machado de Assis. Foi gradual. A ordem não foi bem essa, outras leituras intermediárias tiveram seu papel, mas hoje, não muito tempo depois, me tornei um leitor quase competente, apesar de leigo em teoria literária. Nunca li uma adaptação e nem pretendo. Não sou de pular etapas, se um livro é "muito difícil" para mim em um momento, leio outras coisas até eu conseguir aguentar o tranco. A lista de livros que funcionaram para mim, obviamente, não funcionariam para todo mundo por uma simples questão de gosto. O que é sempre igual, é o processo de avanço.

Tendo dito tudo isso, achei certas reações descabidas. Não sei quem é Patrícia Secco ou o que ela fez (uma porrada de livros infantojuvenis, de acordo com o Google), a primeira vez que ouvi seu nome foi agora durante toda a polêmica. Se ela de fato acredita nessa ideia, acho que deveria ser livre para realizá-la (e eu livre para ignorá-la e chamá-la desnecessária) - Machado de Assis é domínio público afinal de contas, e não é como se a obra original fosse ser substituída pela adaptada nas livrarias. Até acreditaria na boa vontade dela, se o governo não estivesse envolvido no projeto. Agora estou achando que ela quer ganhar dinheiro lançando mais uma coleção de clássicos "água com açúcar/mertiolate que não arde", para dar ao povo e eles fingirem que leem. Tapar o buraco que é a capacidade de leitura básica e de interpretação de texto do brasileiro médio. É uma atitude tipicamente brasileira. É encurtar as escadas ao invés de exercitar as pernas. É oferecer vagas de fácil acesso às universidades para alunos de escola pública ao invés de usar o dinheiro dos impostos para melhorar o ensino público de modo que os alunos sejam capazes de conseguir sozinhos uma vaga na universidade.

Talvez não tenha sido essa a intenção da autora. Talvez ela realmente esteja achando sua ideia genial e incompreendida. É difícil, no entanto, acreditar que não é tudo uma questão de ego. De ela querer ser a mão caridosa a alimentar nosso povo inculto. Pena que ela decidiu mastigar toda a comida antes de servir. E eu não acho, só para por um ponto final nessa questão, que seja elitista ser contrário a esse tipo de projeto. Acredito que seja necessário que o leitor de um clássico, qualquer que seja, ou qualquer outro livro complexo, deve adquirir aos poucos a cultura necessária para compreensão da obra - para que isso se alcance, acredito na divulgação (divulgação, repito, não facilitação) da cultura. Elitista é aquele que acredita que o único meio disponível às ditas "pessoas simples" seja o da simplificação. Que é impossível para aqueles que não têm dinheiro adquirirem conhecimento para compreenderem quaisquer que sejam os livros em sua integra, sem uma desnecessária desfiguração. Esse é o único caminho capaz de resolver a situação, não escondê-lo, embora seja mais complicado e não tão lucrativo - talvez seja esse o problema.  

sábado, 1 de março de 2014

Minhas previsões para o Oscar 2014


É época de Oscar, né? Eu sinceramente estou pouco me fodendo para o resultado, mas acontece que eu gosto de fazer previsões, sério, apostaria dinheiro, se tivesse para apostar. Adianto que não vi quase nenhum dos filmes que estão concorrendo, nem tenho conhecimento técnico para fazer escolhas lógicas, de qualquer forma, acho que conheço os padrões do Oscar e tenho uma ideia de como cada filme é, por isso vou fazer minhas escolhas e ver quantas acerto.

Melhor Filme
Nomeados:
Trapaça (2013)
Capitão Phillips (2013)
Clube de Compras Dallas (2013)
Gravidade (2013)
Ela (2013)
Nebraska (2013)
Philomena (2013)
12 Anos de Escravidão (2013)
O Lobo de Wall Street (2013)
Minha previsão: 12 Anos de Escravidão. Não vi, mas sei da história. De todos os nomeados, é o que foi mais universalmente aclamado, além de ser um relato detalhado e brutal  da escravidão, o que é sempre material de Oscar; melhor ainda por se tratar de um relato no ponto de vista de um escravo, não acho que existam muitos desses.
Melhor Ator

Nomeados:
Christian Bale for Trapaça (2013)
Bruce Dern for Nebraska (2013)
Leonardo DiCaprio for O Lobo de Wall Street (2013)
Chiwetel Ejiofor for 12 Anos de Escravidão (2013)
Matthew McConaughey for Clube de Compras Dallas (2013)

Difícil...Vou dizer Leonardo DiCaprio. As outras performances foram tão chamativas quanto a dele, mas sei lá, ele parece o mais rejeitado da lista. Acho que a Academia vai compensar, muito embora eu discorde da maioria e não ache que ele tenha merecido um Oscar até agora.

Melhor Atriz

Nomineadas:
Amy Adams for Trapaça (2013)
Cate Blanchett for Blue Jasmine (2013)
Sandra Bullock for Gravidade (2013)
Judi Dench for Philomena (2013)
Meryl Streep for Álbum de Família (2013)

Cate Blanchett, sem discussão.

Melhor Ator Coadjuvante

Nomeados:
Barkhad Abdi for Capitão Phillips (2013)
Bradley Cooper for Trapaça (2013)
Jonah Hill for O Lobo de Wall Street (2013)
Michael Fassbender for 12 Anos de Escravidão (2013)
Jared Leto for Clube de Compras Dallas (2013)

Essa eu nem sei. Vou chutar Jared Leto.

Melhor Atriz Coadjuvante

Nomeadas:
Sally Hawkins for Blue Jasmine (2013)
Julia Roberts for Álbum de Família (2013)
Lupita Nyong'o for 12 Anos de Escravidão (2013)
Jennifer Lawrence for Trapaça (2013)
June Squibb for Nebraska (2013)

Hmm...outra bem difícil. Teria sido mais fácil se eu tive assistido algum desses filmes além de Blue Jasmine, mas, entendam, parte do desafio aqui é fazer as previsão às cegas. Sally Hawkins não me impressionou, não simpatizo com a Julia Roberts e acho a Jennifer Lawrence superestimada (o melhor papel dela foi em Inverno da Alma, e só). Lupita Nyong'o leva meu voto.

Melhor Diretor

Nomeados:
Alfonso Cuarón for Gravidade (2013)
Steve McQueen for 12 Anos de Escravidão (2013)
David O. Russell for Trapaça (2013)
Martin Scorsese for O Lobo de Wall Street (2013)
Alexander Payne for Nebraska (2013)

Esse é mais complicado porque não tem um nome aí que não mereça. Vou fazer uma resenha de Gravidade mais tarde, está quase no fim, e eu sinceramente não sei como algumas cenas foram feitas de tão impressionante que é o filme. Voto em Steve McQueen, o cara sabe filmar, só não recebeu nada até hoje porque lhe faltava substância. Pronto, 12 Anos foi substância.

Melhor Roteiro Original

Nomeados:
Trapaça (2013): Eric Singer, David O. Russell
Blue Jasmine (2013): Woody Allen
Ela (2013): Spike Jonze
Nebraska (2013): Bob Nelson
Clube de Compras Dallas (2013): Craig Borten, Melisa Wallack

Não vai ser, mas quem merece é Ela, então voto em Ela.

Melhor Roteiro Adaptado ou Continuação

Nomeados:
Antes da Meia-Noite (2013): Richard Linklater
Capitão Phillips (2013): Billy Ray
12 Anos de Escravidão (2013): John Ridley
O Lobo de Wall Street (2013): Terence Winter
Philomena (2013): Steve Coogan, Jeff Pope

O Lobo de Wall Street, porque não recebeu muitos prêmios ainda.

Melhor Animação:

Nomeados:
Os Croods (2013)
Meu Malvado Favorito 2 (2013)
Ernest et Célestine (2012)
Frozen: Uma Aventura Congelante (2013)
Vidas ao Vento (2013)

Tá aí uma categoria da qual eu não entendo nada. Vidas ao Vento e Ernest et Célestine me atraíram muito, mas é difícil um filme estrangeiro levar a estatueta fora da sua categoria específica. Vou dizer Frozen, mas só porque é o mais provável.

Melhor Filme de Língua Estrangeira

Nomeados:
Alabama Monroe (2012): Felix Van Groeningen(Belgium)
L'image manquante (2013): Rithy Panh(Cambodia)
The Hunt (2012): Thomas Vinterberg(Denmark)
A Grande Beleza (2013): Paolo Sorrentino(Italy)
Omar (2013): Hany Abu-Assad(Palestine)

Esse me surpreendeu. Não só não vi nenhum desses filmes, como também foram totalmente contra a minha expectativa. Nos últimos anos essa categoria tem surpreendido, então acho que o favorito é The Hunt, do Vintenberg, por isso voto em A Grande Beleza.

Melhor Cinematografia

Nomeados:
Gravidade (2013): Emmanuel Lubezki
Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum (2013): Bruno Delbonnel
Nebraska (2013): Phedon Papamichael
Os Suspeitos (2013): Roger Deakins
O Grande Mestre (2013): Philippe Le Sourd

Todos esses tem um visual excelente. Vou em Gravidade. Parte de mim é contra dar um prêmio de fotografia para efeitos de computador, mas não tem como discutir.

Melhor Edição

Nomeados:
12 Anos de Escravidão (2013): Joe Walker
Trapaça (2013): Alan Baumgarten, Jay Cassidy, Crispin Struthers
Gravidade (2013): Alfonso Cuarón, Mark Sanger
Capitão Phillips (2013): Christopher Rouse
Clube de Compras Dallas (2013): Martin Pensa, John Mac McMurphy

Gravidade. Como eu disse, tem cenas que eu não faço ideia de como foram feitas, o filme quase não tem cortes ou tem cortes imperceptíveis. A edição é perfeita.

Melhor Design de Produção

Nomeados:
12 Anos de Escravidão (2013): Adam Stockhausen, Alice Baker
Trapaça (2013): Judy Becker, Heather Loeffler
Gravidade (2013)
O Grande Gatsby (2013): Catherine Martin, Beverley Dunn
Ela (2013): K.K. Barrett, Gene Serdena

Muita cara de pau a minha chutar um vencedor para um prêmio que eu mal conheço o significado. Vai para Trapaça, porque não dei nada para esse ainda (esclarecedor esse post não é minha gente, espero que vocês estejam anotando cada um dos meus insights cinematográficos).

Melhor Figurino

Nomeados:
Trapaça (2013): Michael Wilkinson
O Grande Gatsby (2013): Catherine Martin
12 Anos de Escravidão (2013): Patricia Norris
O Grande Mestre (2013): William Chang
The Invisible Woman (2013): Michael O'Connor

Não faço ideia. 12 Anos, porque foda-se.

Melhor Maquiagem

Nomeados:
Clube de Compras Dallas (2013): Adruitha Lee, Robin Mathews
Jackass Apresenta: Vovô Sem Vergonha (2013): Steve Prouty
O Cavaleiro Solitário (2013): Joel Harlow, Gloria Pasqua Casny

Clube de Compras Dallas, porque fodam-se esses outros dois filmes.

Melhor Trilha Sonora

Nomeados:
A Menina que Roubava Livros (2013): John Williams
Gravidade (2013): Steven Price
Ela (2013): William Butler, Andy Koyama
Walt nos Bastidores de Mary Poppins (2013): Thomas Newman
Philomena (2013): Alexandre Desplat

Eu gostei muito do uso da música, ou não uso, em Gravidade, mas não sei se é premiável. Walt nos Bastidores de Mary Poppins tem título de filme que ganha Oscar de trilha sonora, vai pra eles. Só quero que alguém me explique como Inside Llewyn Davis não foi indicado - talvez porque as músicas usadas não sejam originais...

Melhor Canção Original

Nomeados:
Meu Malvado Favorito 2 (2013): Pharrell Williams( "Happy")
Frozen: Uma Aventura Congelante (2013): Kristen Anderson-Lopez, Robert Lopez("Let It Go")
Mandela: Long Walk to Freedom (2013): Bono, Adam Clayton, The Edge, Larry Mullen Jr., Brian Burton("Ordinary Love")
Alone Yet Not Alone (2013): Bruce Broughton("Alone Yet Not Alone")
Ela (2013): Karen O("The Moon Song")

Gostei da música de ela, é bem simples, mas diz bastante. A voz meio ruim da Scarlett também combinou com o tom. Vai pra essa, porque não ouvi as outras e música de filme de animação vem tudo da mesma forma.

Melhor Mixagem de Som

Nomeados:
Gravidade (2013): Skip Lievsay, Niv Adiri, Christopher Benstead, Chris Munro
O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013): Christopher Boyes, Michael Hedges, Michael Semanick, Tony Johnson
Capitão Phillips (2013): Chris Burdon, Mark Taylor, Mike Prestwood Smith, Chris Munro
Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum (2013): Skip Lievsay, Greg Orloff, Peter F. Kurland
O Grande Herói (2013): Andy Koyama, Beau Borders, David Brownlow

Ah, agora sim. Gravidade, por causa daquilo que eu falei do uso da música.

Melhor Edição de Som

Nomeados:
All Is Lost (2013): Steve Boeddeker, Richard Hymns
Capitão Phillips (2013): Oliver Tarney
Gravidade (2013): Glenn Freemantle
O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013): Brent Burge
O Grande Herói (2013): Wylie Stateman

Gravidade de novo.

Melhores Efeitos Visuais

Nomeados:
Gravidade (2013): Timothy Webber, Chris Lawrence, David Shirk, Neil Corbould
O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013): Joe Letteri, Eric Saindon, David Clayton, Eric Reynolds
Homem de Ferro 3 (2013): Christopher Townsend, Guy Williams, Erik Nash, Daniel Sudick
O Cavaleiro Solitário (2013): Tim Alexander, Gary Brozenich, Edson Williams, John Frazier
Além da Escuridão: Star Trek (2013): Roger Guyett, Pat Tubach, Ben Grossmann, Burt Dalton

É sério que vai ter competição? Dá logo o prêmio pra Gravidade, porra.

Não falarei de documentário nem de curta-metragem porque seria abusar da paciência do leitor. Esses filmes aí eu posso não ter visto todos, mas sei do que se tratam.

Tão aí minhas apostas. Amanhã veremos se meu chute é forte conhecimento é tão vasto.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Sirva o exército, menino!

“Todo jovem, ao completar dezoito anos, deve se direcionar ao posto militar de sua cidade e cumprir com o alistamento obrigatório”.

Quem nunca, na infância ou na juventude, sentiu calafrios ao ouvir essas palavras na televisão e no rádio. O exército foi uma de minhas fobias de criança, com aquelas propagandas em que um homem uniformizado e autoritário, gritava palavras incoerentes sobre responsabilidade e amor à pátria para uma fileira de jovens. Não entendia realmente como funcionava aquilo e quando perguntava aos meus pais, ouvia sempre que meu pai fora dispensado por excesso de contingente, e meu avô por ter pés chatos – esse último caso geralmente era complementado pela minha mãe observando que “meus pés eram bastante côncavos”. Aos seis anos de idade, eu não fazia ideia do que significavam essas palavras, contingente, pé chato, pé côncavo, mas formava, ainda assim, suposições infantis e surreais das quais hoje já não me recordo.

Quando eu atingi a maioridade e tive que me alistar, juro que estava tão ocupado com outras preocupações, que só parava para pensar que aquele era o ano do exército quando tinha que fazer algo relacionado a isso. Estava sozinho, tinha acabado de me mudar para um apartamento em uma cidade distante da minha terra materna, começado uma faculdade e um emprego. Meus devaneios pertenciam a essas preocupações – os novos gastos, a família distante, os amigos abandonados, a namorada perdida, os horários corridos, ocupavam minha mente mais do que qualquer outra coisa. Na verdade, lembro-me que nessa época, minhas esperanças estavam em um pedaço de legislação que havia pesquisado no ano anterior que dizia, mais ou menos, que pessoas com ideologias filosóficas ou religiosas contrárias ao exército poderiam ser dispensadas. Era simples, no dia do alistamento, diria a pessoa responsável pelas inscrições que sou pacifista e, portanto, deveriam me liberar. Criei coragem e, no dia do alistamento, disse exatamente isso à atendente, que me respondeu com um sonoro “e...?”, enquanto me intimidava com um olhar de nojo, esperando que eu reagisse de alguma forma. Gaguejei um pouco, mas respondi que a lei mencionava que pessoas de ideologia religiosa ou filosófica contrária ao exército, poderiam ser liberadas. Ela me olhou como se não tivesse entendido e disse que aquilo só era válido para adventistas.

Acreditei naquela exceção. Poderia não ser verdade, mas, considerando as liberdades que os adventistas andam recebendo, era muito possível que eles sejam os únicos com o poder de receber dispensa automática do serviço militar. Aparentemente, eles fossem os únicos pacifistas oficiais do Brasil, mas isso é outro assunto.

Não tinha jeito, tinha que me alistar, no entanto isso não significava nada. Teria que esperar uns meses, me direcionar novamente até a secretaria do exército – que ficava a uma considerável distância da minha casa – para que me informassem se eu tinha sido selecionado para a segunda fase, que consistia de uma série de testes que eu logo lhes direi quais foram.

O dia dos resultados chegou logo, mas a essa altura eu já sabia que teria que fazer todos os testes, seguir até a última etapa antes da dispensa. Não tinha nenhum motivo para pensar assim, entretanto me parecia bastante óbvio que eu teria que seguir por todas as etapas. A secretaria era uma sala pequena, com aparência antiga e duas mulheres de meia-idade atendendo com um humor condizente a aparência. De vez em quando, um homem uniformizado passava e gritava instruções para as senhoras, tive medo que aquilo se tornasse minha vida – ouvir gritos de um idiota. Na parede tinha um quadro pendurado e orgulhosamente moldurado com os dizeres do juramento a bandeira. Devo ter lido compulsoriamente aquele quadro três ou quatro vezes enquanto aguardava os jovens que, antes de mim, recebiam suas condenações. Ao meu lado estava outro rapaz, acompanhado do pai orgulhoso por ter um filho que desejava seguir carreira militar. Sabia disso, pois ele não parava de falar sobre como o exército lhe foi uma experiência magnífica, como era importante o exército para ensinar responsabilidade a um jovem e toda uma série de coisas que, depois de algum esforço, consegui ignorar, graças à placa do juramento que me servia como chama de vela para meditação. A cada frase ele dava um tapa no ombro do filho, que sorria olhando para o pai como para uma estátua divina de Ho Chi Mihn.

Dirigimo-nos, eu e o orgulho do papai, praticamente ao mesmo tempo, à mesa em que se encontravam as duas senhoras, que naquele momento, já pareciam estar mortas. Eu recebi um papel que dizia que eu fui aprovado para a segunda fase, com o endereço do local onde seriam realizados os testes para a aprovação final. Não me surpreendi, até que ouvi choro. Ao meu lado, o aprendiz de soldado chorava, dizendo:

- Mas por que não, senhora? Eu quero me alistar! Eu quero servir à pátria! – algo me levava a crer que o pai da figura, ao ouvir estas palavras, teve o orgasmo mais bizarro de sua vida.
- Desculpe menino, mas não a nada que possamos fazer. – gritava o uniformizado, que surgiu do nada ao ver o choro do menino-modelo.
- Mas é o meu sonho... – seu pai teve orgasmos múltiplos, e o uniformizado uma indiscreta ereção, eu imaginava.
- Você estuda, meu jovem? Faz faculdade? – indagava o uniformizado.
- Engenharia naval - fungou e enxugou os olhos.
- Então! Vá estudar, aproveite a juventude. Essa sua faculdade vai te permitir um cargo bom no exército, caso você queira mesmo seguir carreira no futuro.

Enquanto esse diálogo acontecia, eu me direcionei ao cadáver que me atendia e sussurrei:

- Vocês não podem dar a minha vaga para esse coitado?

Ela não me respondeu. Só me olhou com reprovação e desgosto, o que me silenciou até o fim do processo. Por algum motivo, eu esperava um sim ou um riso, mesmo que isso fosse totalmente fora da personagem que a atendente interpretava.

Era isso. Eu, um estudante de comércio exterior, fisicamente inapto, contrário ao exército e indisciplinado, “roubei” a chance de um futuro engenheiro naval, responsável, amante do exército e com sérios problemas psicológicos (esse último é uma adivinhação minha). Qual é o critério dessa seleção? A intenção é gerar uma nova geração de soldados competentes ou simplesmente ser um grande inconveniente para o “pós-adolescente” avesso à vida de soldado? Restava-me aguardar os testes e o resultado final.

Naquela época eu era relativamente novo na cidade. Conhecia os lugares que eu frequentava, mas os nomes de rua e bairros para mim eram outro idioma. Ao ler o endereço, precisei buscar um mapa na internet. No grande dia, o imprimi e sai pelas ruas com ele, às cinco e meia da manhã (o teste era às oito, mas tinha medo de me atrasar), fazendo consultas a cada esquina, para garantir que estava no caminho certo. Já no meio do caminho, percebi que havia um erro na impressão e estava seguindo o caminho errado o tempo todo. Procurei pedir informação, mas é difícil falar com as pessoas antes das seis. Aproximei-me de uma varredora e lhe pedi informações, ela me indicou para a direção contrária a que estava seguindo. Chegando ao local onde deveria ser, - de acordo com a varredora - a base da Marinha (única possibilidade de alistamento em Itajaí) na qual se realizariam os exames, não encontrei nada que pudesse me servir de indicação. O único ponto de referência que tinha era o Mercado Público, que eu não sabia onde ficava e nem a varredora que eu abordara antes. Falei então, já depois das sete, com outra varredora, as únicas pessoas dispostas a ajudar no período da manhã em Itajaí. Essa sabia onde ficava o tal Mercado Público e, com o seu sotaque peixeiro irritante, disse:

- Vish nego! Pra chegar no Mercado Público tens que ir toda vida reto na direção da Igreja Matriz. Aquela igreja lá longe, ‘tas vendo?

Eu via a igreja. Ficava longe, mas era enorme, então servia de ponto de referência na cidade, independente de onde se estivesse. O que me irritou foi que, no momento que falei com a primeira varredora, estava razoavelmente próximo da igreja. Como poderia ela não saber onde ficava o Mercado se estávamos tão próximos dele? “Ela quis foder com a minha vida!” – pensei. Mas pouco importava, tinha que percorrer um longo caminho e não me restava muito tempo.

Consegui chegar as cinco para as oito, na praça onde fica a igreja. Encontrei um grupo de taxistas e perguntei em que direção ficava o Mercado Público. Um deles me direcionou para uma rua pela qual eu segui, até perceber, no meio do caminho, um homem vestido com o uniforme do exército e cabelo raspado. Perguntei se ele era da Marinha e ele afirmou. Acompanhou-me até o local do exame. Já estava uns quinze minutos atrasado, mas aparentemente não importava. Fui recebido por um marinheiro que perguntou se eu estava lá pelo alistamento obrigatório. O cansaço da caminhada de três horas me deixou razoavelmente hostil. Não ajudou que, para diminuir minhas chances de aprovação, no dia anterior eu fui ao mercado e comprei uma garrafa de uísque qualquer para me embriagar (isso sim deveria ser o dever de todo o jovem ao cumprir dezoito anos), só para fazer os exames de ressaca. “Onde está o Mickey, Pato Donald?” – pensei em responder, mas tive medo que ele fosse uma das autoridades que é crime desacatar. Então simplesmente afirmei e o segui até a sala de espera, na qual se encontravam dezenas de jovens que aguardavam seu nome ser gritado por outro uniformizado, que ficava em frente de um computador anotando as informações dos examinados.

Esse processo seria muito mais rápido se o militar em questão soubesse usar mais de um dedo para digitar. Por isso meu atraso foi irrelevante. Cheguei lá às oito e vinte, mas só fui chamado depois das nove.

Começou o tal teste. Fomos encaminhados para uma espécie de sala de aula, com carteiras e quadro negro. Lá um marinheiro, de cargo superior ao pato Donald da recepção, gritava instruções. Ficava imaginando o quanto o governo não gastava com pastilhas para a garganta para os soldados.

- O teste se divide em: um exame vocacional e intelectual, um exame físico e uma entrevista. O exame intelectual se divide em testes de lógica, matemática e engenharia mecânica.

Ao ouvir isso, lembrei-me do engenheiro naval e de como ele seria muito mais apto para tais testes do que eu, um simples auxiliar de exportação de uma firma de despacho aduaneiro. Até que eu li a prova e vi que pouco importava a aptidão do candidato. Qualquer um que tivesse passado pelo ensino fundamental, talvez nem isso, conseguiria fazer estes testes. Queria muito errar as questões, mas tinha medo que minha tentativa se tornasse óbvia. Tive que disfarçar e fazer parecer que os erros eram um acidente. Contudo, não deveria me preocupar com isso ainda. Primeiro teria que completar o exame vocacional. Já tinha feito um desses, o resultado foi “algo na área de humanas ou gestão”, nada nem sequer remotamente similar à militar.

Até hoje questiono a lógica daquele teste vocacional. Tínhamos uma série de quadros ilustrados indicando cada uma das possíveis áreas de atuação de um militar, com isso, marcávamos aquela que nos parecesse mais agradável. Um dos quadros tinha como opções: Operador de linhas telefônicas; operador de lança-chamas; mecânico; motorista. – Escolhi operador de linhas telefônicas, não sabia quais eram as funções, nunca operei uma porra de linha telefônica, mas estava escolhendo sempre a opção mais distante do serviço militar regular. Em outra questão dessa série, marquei que gostaria de ser médico, afinal todo o assistente de exportação que se preze, sabe realizar cirurgias emergenciais.

O maior dos insultos foi o exame intelectual e lógico. Principalmente por causa do fiscal da sala, que nos ficava rodeando e pressionando, como se aquele fosse o teste mais difícil concebível pela humanidade. Não vou falar sobre o teste de lógica, pois até hoje não o entendi, mas o tal teste intelectual foi, possivelmente, o mais fácil que eu já vi em toda a minha vida. Tão fácil, que o mais difícil era escolher uma opção errada que não parecesse tão forçada e levantasse suspeitas das minhas tentativas de forjar os resultados.

Uma das perguntas tinha o desenho de um balde, nele estavam marcados cinco pontos diferentes, um no topo da alça, e quatro em cada “extremidade”, superior e inferior do balde... balde de metal. O texto era: considerando a imagem abaixo, em qual dos pontos o soldado deve amarrar uma corda para erguer o balde sem derramar uma gota d’água? – Marquei que o ponto correto era o inferior direito. Não sei como amarraria uma corda nesse ponto, já que a corda teria que passar por dentro do balde de metal sólido, mas pouco me importava.

Durante a prova de matemática, o fiscal ficou ainda mais excitado e passou a pressionar os possíveis recrutas ainda mais, dizendo que “matemática é sempre difícil, mas um soldado deve ser rápido durante situações extremas”. A situação extrema, para ele, era o problema “2+5+3-4”, que, para mim, era igual a 14. Terminei a prova com tempo de sobra, o que chamou a atenção do fiscal, mas ainda teria que esperar o resto da sala, até que cada um de nós seria chamado, em grupos de três, para ainda outra sala, na qual seria realizado o exame físico.

Entrei na sala, que mais parecia uma enfermaria com um quadro negro, e, antes mesmo de dizer bom dia, os examinadores, dois homens (provavelmente soldados), exigiram que eu e os outros dois jovens que me acompanhavam, nos despíssemos e ficássemos somente em nossas roupas de baixo. Os outros dois que estavam comigo, cumpriram a lei social que diz: um grupo de homens seminus trancados em um mesmo ambiente não devem fazer contato visual. Ou, pelo menos, eu acho que a cumpriram, não os olhei para verificar. O examinador pediu para que cada um de nós puxasse uma barra de ferro presa a um aparelho que, supostamente, media nossa força. Estava fraco, não tinha tomado café da manhã, e minha cabeça estava me matando por causa do uísque da noite anterior, todos esses fatores devidamente planejados com antecedência. Fiz o máximo de força possível, mas não creio que o resultado tenha sido muito satisfatório, vide os olhares de reprovação que me foram lançados. Nunca havia recebido tantos olhares de reprovação na minha vida como naquela época. Tudo ficou ainda mais estranho quando fomos chamados individualmente para um canto coberto por uma cortina. Lá o segundo examinador fazia uma espécie de inspeção genital no examinado. Toda a movimentação manual era feita pelo próprio examinado, mas mesmo assim, não estava - e ainda não estou - acostumado a manipular meu pênis em frente a outro homem, ainda mais um que nem me deu bom dia. Mas o pior de tudo foi que ele nem me ligou no dia seguinte.

Todo o constrangimento passou, estava sendo direcionado para a última fase dos exames – a entrevista. Fui encaminhado para uma fila, relativamente curta e que se movia rapidamente, ela levava até o escritório do responsável por aquela área da Marinha. Não sei seu cargo, não me importava o suficiente para descobrir. Estava cansado, com fome e me sentindo péssimo, então ficava feliz ao ver que as entrevistas eram breves.

Chegou a minha vez, entrei e recebi autorização para me sentar.

- Seu nome é... Raphael Sal...cedo? É isso? – ele começou, com uma voz firme e desnecessariamente alta.
- Isso mesmo. – todas as minhas respostas foram curtas, cansadas e em voz baixa. Basicamente um oposto ao entrevistador.
- O senhor... Me desculpe a pergunta, mas hoje em dia ela é necessária. O senhor é homem?

Em minha mente se passaram as mais diversas respostas para essa pergunta, entretanto, tudo que eu queria era fazer a entrevista, receber o resultado e ir embora. Queria esquecer de todo aquele dia. Então eu segurei o “depende, na verdade só transo com árvores, e às vezes... elas transam comigo” na garganta, respondi que sim e seguimos em frente. Mais tarde, ao visitar uns amigos em minha cidade natal, ouvi que um deles tinha dito ser homossexual. Ele foi dispensado na hora. A única coisa que lhe disseram ao sair foi: - “Vê se come uma bocetinha um dia desses, rapaz!" – Em retrospecto, deveria ter feito o mesmo, ou mantido minha versão ecologicamente correta.

- Você estuda comércio exterior? Há quanto tempo?
- Comecei esse ano, então, uns quatro meses.
- Muito bom. Tem interesse em se alistar?
- Não. – ele riu da minha resposta rápida. Acho que ele ainda não tinha terminado a pergunta quando eu respondi.
- Vou ver o que posso fazer por você... Sabe nadar?
- Não, senhor.
- Se alistando pra marinha sem saber nadar?! Como assim? – ele parecia indignado pela falta de lógica (eu não o culpo...), contudo, Marinha é a única opção de alistamento em Itajaí, e ele sabia disso melhor que eu. Não apontei a estupidez do seu comentário, novamente, por medo do famigerado desacato, que pode incluir de ofensas verbais até respostas educadas, mas contrárias à vontade da dita autoridade.
- Pois é, senhor.
- Então, com você é só nos cem metros fundos?
- E sem volta, senhor.
 
Estava encerrada a entrevista e, com ela, todo o exame. Voltei à sala de espera inicial, até que um dos superiores de lá apareceu com os certificados carimbados com o resultado. Chamou os nomes daqueles que estariam dispensados, os outros teriam que aguardar por novas instruções. Fui dispensado por excesso de contingente. Não esperava o contrário, acontece que imaginava que iria ser dispensado muito antes. A sequência de surpresas desagradáveis me fez imaginar que teria que seguir o caminho todo e perder um ano da minha vida fazendo seja lá o que for que a Marinha faz.

É a isso que tudo se resume. O Brasil exige que todos os seus homens se alistem aos dezoito anos, mas como este país já é um dos que mais recebe voluntários interessados em seguir carreira, a grande maioria é dispensada. Para quê organizar toda uma série de exames e processos, se já se sabe que de nada serve? É como prestar um vestibular para uma faculdade que já distribuiu suas vagas. Além disso, por que o exército militar brasileiro, mesmo que este não recebesse voluntários o suficiente, precisaria de tantos recrutas? O último grande desempenho brasileiro em guerra foi durante a 2ª Guerra Mundial, e por grande, eu realmente quero dizer quase relevante. É verdade que nossos soldados foram úteis em muitas batalhas, mas a ausência brasileira não significaria a vitória alemã. Todos os recentes esforços do exército para a ocupação das favelas não deveria existir. Ocupar favela é serviço de policial, não soldado, no entanto, como a polícia não está preparada para grandes operações, o governo utiliza o exército como tapa-buraco. Como o Brasil é o país da gambiarra e do jeitinho, não adianta discutir. A não ser que haja uma espécie de Revolução Francesa por aqui nos próximos cinco anos (guilhotina inclusa), não haverá nenhuma mudança nesse sistema. Junto da minha dispensa, recebi o horário, data e endereço do Juramento à Bandeira, independentemente do que se passava pela minha cabeça.

O mais perturbador foi ver de perto a arrogância dos militares. Nunca simpatizei com esse grupo, acho que o mundo seria melhor sem eles. Militar é como um advogado, se a humanidade fosse perfeita, eles não seriam necessários. Durante o juramento à bandeira, fui obrigado a ouvir o responsável pela cerimônia proferir a palavra “civil” mais vezes do que eu escrevi a palavra “exame” ou “teste” nesse texto. Não há problema nenhum com essa palavra. Civis são todos que não fazem parte do exército de um país e, portanto, devem por ele ser protegidos. Além disso, pagam, por meio de tributos, o salário de cada soldado, sargento, general e almirante. O militar é um agente de segurança do governo, que existe para a proteção da soberania e do povo de uma nação, não necessariamente tornando-o superior àqueles cujo seu dever é proteger. A única ocasião em que militar é superior ao civil é durante um governo militar, o que já aconteceu no Brasil e, para não dizer coisa pior, não deu muito certo e, graças a Shiva, terminou. Foi justamente o contrário que presenciei na cerimônia.
 
O homem cujo título eu não me dignei a descobrir, tinha um tom de desprezo claro em sua voz, sempre que nos dizia que aquele momento significava que nos manteríamos como civis. Era possível sentir o nojo em sua pronúncia sempre que ele dizia essa palavra.

Mas de tudo isso, o maior absurdo é que, mesmo depois de tantos anos de opressão em uma ditadura militar - 0pressão esta, de consequências ainda desconhecidas, muitas vítimas ainda não foram encontradas -, o país ainda força seus jovens a fazerem parte dessa instituição que realizou um golpe de estado. E como se não bastasse, desse-lhes autoridade o suficiente, para tratar o povo, seus empregadores, como lixo. Em minha utopia pessoal, o Brasil dá fim ao exército militar. Os desempregados são incorporados à polícia militar, assim como todo o armamento e fundos de investimento. Guerras não são uma ameaça para esse país, mas mesmo que fossem, não é como se o exército brasileiro fosse capaz de gerar grande resistência, perderíamos em algumas semanas, salvo se o inimigo fosse a Bolívia, porém, até nessa hipótese, tenho minhas dúvidas. Tornaríamos uma força obsoleta, em uma força útil. O alistamento deixaria de ser “voluntariamente obrigatório”, como é hoje, e seria como na polícia, concurso. Não haveria mais riscos de uma nova ditadura militar (não que haja hoje, mas nunca se sabe), a polícia teria fundos, pessoal e armamentos, e os jovens do amanhã não terão que passar pelo que eu passei.

Quanto a mim, ao sair do juramento a bandeira – tendo mantido o silêncio durante a parte que dizia sobre “morrer pela pátria” -, passava do meio-dia e sol estava forte. Avistei não muito distante, um bar, e nele uma mesa na qual se encontrava um grupo de pessoas se refrescando com cervejas. Pensei em ligar para a empresa na qual trabalhava e inventar algum atraso na cerimônia, avisando que não voltaria após o horário de almoço, indo, então, juntar-me às cervejas, mas não poderia. Invejei-os por um instante e fui ao trabalho.