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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Como tomar no cu sem fazer sexo: analisando 50 Tons de Cinza (E. L. James - 2011)

Olá, você que ainda esbarra com esse canto obscuro e empoeirado da internet. Eu lancei um livro semana passada. Tá na Amazon. Talvez você goste de ler.

O link: https://tinyurl.com/yy394a8y

Meus agradecimentos a quem vier a comprar. Comprou? Leu? Gostou? Deixa lá um comentário pras pessoas ficarem sabendo que o livro é bacana.




Existem diferentes papéis que o erotismo pode exercer na literatura. Os principais, a grosso modo, seriam: transgressão, afetar o leitor psicologicamente usando descrições explícitas de atos sexuais, incomuns ou não, causando constrangimento ou, em maiores escalas, abalando costumes sociais – Marques de Sade poderia se encaixar nesse modo, assim como Georges Bataille (cujo clássico História do Olho supera, ainda nas primeiras dez páginas, toda a sacanagem contida em 50 tons de cinza; exemplo: uma moça de dezessete anos arrebenta um ovo com o cu), no entanto é válido apontar que o grau de erotismo necessário para transgredir é variável conforme o período em que vivia o escritor (uns diriam que a literatura de D. H. Lawrence é bastante recatada, mesmo assim, em seu tempo, ele foi banido, enquanto hoje é possível ver na internet duas mulheres vomitando e cagando uma na outra sem que haja investigações policiais e processos –; excitação, servir de meio sensual alternativo para pessoas que, no momento, não têm um parceiro disponível e precisam botar a mão na massa e buscar alívio solitário, ou usado para abastecer a criatividade de um casal entediado e reacender aquela pálida chama da fogueira de alcova; mais comum hoje seria o erotismo como consequência existencial, em que o autor inclui a vida sexual das personagens na narrativa porque elas são representações de seres humanos e seres humanos, em sua maioria, fazem sexo. Uma categoria separada seria a dos gênios que conseguem mesclar todas essas formas, gente como: Anaïs Nin e Henry Miller. De alguma maneira, o mais recente fenômeno da literatura erótica conseguiu falhar em todos esses aspectos.

Falo de 50 tons de cinza, a série de livros que, desde seu lançamento, vendeu 125 milhões de cópias mundialmente. Mais que praticamente tudo nas livrarias hoje em dia, com exceção dos lápis de cor. Meu objetivo com a leitura foi tentar identificar a razão disso. Em nenhum momento esperei gostar do livro. Não, estaria além das minhas capacidades. A ideia era encarnar um personagem e enxergar a história com os olhos do público-alvo. Ao fim das 400 e muitas páginas do primeiro volume, percebi que foi um exercício de futilidade. Seria impossível, contudo, explicar de uma vez porque o livro falha, por isso decidi dividir a análise em temas.

1. Narrativa

Para os que vivem em uma caverna e não sabem do que se trata 50 tons de cinza, segue um breve resumo do primeiro volume (único que li e lerei):

Formanda em literatura, Anastasia Steele tem 21 anos e é virgem. Ela divide um apartamento com uma amiga chamada Kate, que escreve pro jornal da faculdade e teria que entrevistar Christian Grey, bilionário de 27 anos e responsável por toda essa merda de livro. Como Kate está doente, Anastasia a substituiu. Por motivos de enredo, o ricaço pica das galáxias se apaixona pela folha de papel sulfite que o entrevista. Acontece que Christian é um sociopata e começa a perseguir Anastasia, aparecendo em tudo quanto é lugar que ela vai. Sempre que os dois se encontram ele diz que ela não deve se aproximar, que ele tem gostos peculiares que ela não conseguiria satisfazer e coisa e tal, mas tampouco ele deixa que ela se afaste. Anastasia, que tem idade mental de uma criança de 5 anos que nunca aprendeu a não falar com estranhos, em vez de chamar a polícia, fica intrigada com o “mistério” do Christian (não com o dinheiro e com a beleza, de forma alguma) e da sequência ao chove não molha que se prolonga por mais de 50 páginas.

Duas semanas depois, as coisas parecem avançar, e Christian leva a relação – que até então não passou de uns beijos, se chegou a tanto – para o próximo nível, mostrando para Anastasia o equivalente adulto de um homem estranho dentro de uma vã cheia de doces: um contrato regulando como se dará o relacionamento entre os dois, caso aconteça. Se você, leitor, é amante dos documentos legais, regozije-se, pois E. L. James incluiu todas as páginas do livro no contrato, para que você não perca nada.

Mas Ana não se sente confortável com certos aspectos do contrato – as partes que ele diz que vai controlar a alimentação dela, que ele pretende castigá-la sempre que ela o contrariar, que ele pretende enfiar o punho no cu dela… coisas típicas desses contratos legais, vocês sabem como é – e hesita em assinar. 

Os dois acabam seguindo a relação mesmo assim, deixando bem claro que aquelas tantas páginas do contrato que a autora forçou você a ler não servem para porra nenhuma. Ocorre então o despertar sexual de Anastasia – que eu cobrirei melhor durante a análise. 

As próximas 400 páginas envolvem apenas os dois fazendo sexo. De vez em quando Anastasia se questiona se está fazendo a coisa certa, mas logo passa – quando os dois transam de novo. E assim vai, até que ela leva uns tapas com muita força e faz aquilo que ela devia ter feito na primeira página: foge.

2. Qualidade literária

Dos muitos problemas em 50 tons de cinza, o mais aparente é a escrita. Estou certo de que E. L. James, antes desse romance, nunca escreveu nem uma mensagem de texto. Não é de surpreender que a base para esse livro tenha sido a série Crepúsculo. Alguém pode querer me dizer agora que é tudo uma questão de gosto. Bom, é e não é. Gostar do livro é uma questão de gosto, de fato. Isso não muda a qualidade geral da prosa. Nem tudo de que se gosta é bem-feito. Eu amo Sharknado, isso não quer dizer que seja um filme bom. (É ótimo.)

Desconsiderando erros de colocação temporal (por exemplo, em uma cena, Christian Grey liga de manhã para Anastasia, ela desliga o telefone e vai preparar o jantar – ou a ligação foi longa pra caralho, ou E. L. James esqueceu que horas eram e nenhum dos revisores se deu conta), e outras coisas mais técnicas, o livro ainda é cheio de repetições, déjà vus e frases mal construídas. Lógico que, se você gosta do livro, chances são que você não é assim tão ligada em literatura e não se importou com nada disso – por isso mesmo não pretendo entrar em detalhes sobre a qualidade da prosa. Agora não venha me dizer que um livro em que os personagens murmuram cinco vezes por página é bem escrito.

Se existem frases memoráveis ao longo do texto é pela hilaridade não intencional contida nelas. A genial: “Eu não faço amor. Eu fodo… com força.”, vem à mente de imediato, e o livro é permeado desses pequenos momentos de comédia literária, com frases esquisitas que nenhum ser humano diria, mas que aqui são consideradas sexy por algum motivo. Desde 1977 eu não li tantos “baby” em um livro, melhor seria que a tradutora chutasse o balde e escrevesse logo “broto” no lugar. O que me faz pensar que, para um cara que conseguiu se tornar um empreendedor de sucesso ainda jovem, sabe tocar piano clássico, pilota avião, sapateia, assobia e chupa cana ao mesmo tempo, ele é bem chato. Os dois nunca têm assunto. Toda a conversa deles se limita a trocas levemente irônicas de provocações – terminando, normalmente, em arrependimento para Anastasia, que passa as páginas seguintes temendo pela própria vida (porque o relacionamento deles é saudável) – que rapidamente se tornam cansativas e irritantes. É um desafio ler um terço do livro sem querer esganar os dois ou sem desejar que o helicóptero em que eles embarcaram caia. 

Pode parecer bobagem reclamar da maneira que as personagens falam, afinal são criações da autora e ela pode fazer o que achar melhor, mas não é assim que a banda toca. Quando nada na descrição da personalidade da personagem condiz com suas ações ou jeito de ser, isso é um problema de caracterização – erro literário típico de iniciante que não percebe que, por mais que fictícias, personagens são representações de seres humanos e precisam de liberdade. E essa é a melhor maneira de definir Anastasia. Ela é formanda em letras e é a primeira da classe – se não me engano, a essa altura as informações do livro estão sendo forçadas a se retirar da minha memória para dar espaço a coisas melhores. Isso deveria significar que ela não é de todo burra. Não é o caso. A garota é sequelada. Não compreende coisas que não poderiam estar mais claras. Isso poderia ser culpa de sua inocência virginal, só que o diploma em letras quer dizer que ela leu a maior parte dos clássicos da literatura americana e/ou inglesa, que inclui muita sacanagem e, mesmo que de segunda mão, experiência de vida. Inocência é uma coisa, crescer numa bolha emocional é outra. Rompimento de hímen, até onde eu sei, não causa queda de QI. Não quero me adiantar aqui porque mais será dito quando eu me pôr a analisar a relação dos dois.

Como quem narra a história é essa toalha molhada que atende pelo nome de Anastasia, o leitor está preso à mente limitada dela. E nunca na minha vida eu desejei tanto por um narrador onisciente. (Tem quem diga que preferiria uma narração do Christian Grey [o que aparentemente vai acontecer – prova de que o diabo existe e está entre nós], mas não, ele não resolveria essa limitação porque ele é tão limitado quanto ela – o mal está na raiz, a autora, que não poderia vir com uma boa narração mesmo que tivesse em mãos a melhor das personagens.) Como a terceira pessoa nunca surge para aliviar a mente do leitor, este é obrigado a passar as centenas de páginas ouvindo a voz patética dela falar e falar e falar e murmurar e murmurar, e, como se não bastasse, o texto ainda é cheio de interjeições infantis como “uau”, “meu Deus”, “minha nossa”, “cacete”, e variações. Puta merda – uso aqui meu direito de adicionar uma interjeição vazia. De vez em quando, ainda, a narração nos oferece acesso aos mais íntimos pensamentos de Anastasia – esses vêm em itálico. O que eles dizem: “o que é isso?”, “o que ele quis dizer?”, quem sou eu?, onde estou? Sim, porque Anastasia tem pensamentos muitos ativos. Sua mente é tão agitada que convive com duas entidades psicológicas, separadas da origem e autoconscientes, para as quais pretendo dedicar o próximo tema.

3. Os três patetas: Anastasia, Inconsciente e Deusa Interior

Personificações do Tico e Teco, as vozes na cabeça de Anastasia, que tornam o pensamento dela mais claro (?) e a leitura insuportável, são chamadas Inconsciente e Deusa Interior. Um passa a história insultando Anastasia enquanto o outro só se masturba. Antes que eu me adiante, vamos definir a personalidade dessas duas alucinações, sim?

Comecemos pelo Inconsciente porque, dos dois, é o que mais me emputece. Não se enganem, a Deusa Interior é tão ruim quanto, mas ela é o tipo de idiota inofensiva, enquanto o Inconsciente é uma demonstração do quanto a autora não estava preparada para escrever o horóscopo de uma revista de fofoca, que dirá um romance. Desde a primeira página, o Inconsciente serve como o bom senso, o lado inibitivo da “mente” de Anastasia, que, por sarcasmo mal escrito e tentativas sem graça de piadas autodepreciativas – afinal o inconsciente é parte de Anastasia, tenha ele consciência disso ou não –, tentam mostrar a ela que o que ela está fazendo é errado ou incompatível com a personalidade dela ou apontar um mal a ser evitado. Em termos psicanalíticos, é o Superego. Isso mesmo, caros leitores, uma das coisas mais presentes nesse livro é, por definição, um erro. É difícil explicar como isso aconteceu. E. L. James deve ter achado a palavra inconsciente bonita, então decidiu repeti-la o máximo de vezes possível ao longo do livro, sem nunca pesquisar no Google o seu significado. É verdade que o Superego não é de todo consciente, mas o de Anastasia parece ser, visto que ela tem um acesso muito claro a ele – e mesmo assim o chama de Inconsciente. Nenhuma das milhões de leitoras parou para pensar nesse detalhe? Não é preciso um diploma em psicologia pra perceber que tem algo errado. Então é isso, o Inconsciente é só essa coisa que passa o livro todo reprimindo Anastasia e sendo ignorado, tanto pela personagem quanto pelo leitor, que, inevitavelmente, passa a pular as frases em que ele aparece.

A Deusa Interior, por outro lado, é um tipo completamente oposto de chateação. Ela dança, comemora, pula etc. Mantendo a civilidade, ela é o Id da personagem. O impulso, a fonte da libido, os desejos e por aí vai. A Deusa Interior, sendo franco, é a vagina da Anastasia. Mas deus nos livre da palavra vagina aparecer no texto. A autora tem algum problema com qualquer menção nominal aos órgãos reprodutivos. É bem verdade que o uso de termos biológicos num livro de sexo pode fazer as cenas soarem como uma aula de anatomia, mas nem apelidos ela usa. Ela poderia ter vulgarizado de vez e soltado logo a boceta, ou, como pelo visto ela não tem medo do ridículo, lançar uma xoxota aqui e ali, até perseguida poderia ser perdoado em lugar da real escolha da autora. Não, ela tinha que fazer a personagem dizer coisas como “lá embaixo”, que não é nem um eufemismo digno. A mais ingênua das mulheres não usaria essa expressão. Lá embaixo é o que uma criança responde ao juiz quando ele lhe pergunta: “onde foi que o padre te tocou?” Mas eu estava falando da Deusa Interior. É que não tem muito a se falar sobre ela, por isso eu me perco nos meus pensamentos – deve ser meu inconsciente trabalhando. A Deusa Interior é o equivalente feminino do “pensar com a cabeça do pau”, nada além. 

Então o leitor é forçado, pelas quase quinhentas páginas, a ler dezenas e dezenas de breves reações do Inconsciente e da Deusa Interior aos pensamentos e escolhas de Anastasia. Que eu me lembre, os dois nunca se encontram. Eles sempre se dirigiam diretamente a Anastasia, nunca um ao outro, o que foi uma oportunidade perdida para muita galhofaria, tortadas na cara e dedos no olho, no maior estilo Moe (Inconsciente), Larry (Anastasia) e Curly (Deusa Interior). Nada disso muda o fato de que, se o editor tivesse passado a faca em todas as menções a essas duas criaturas, a leitura teria sido menos desagradável, pra começar porque isso cortaria pela metade o número de páginas. 

4. Falsa luz no fim do túnel e a raiz de todo o mal.

Então, já no último capítulo ou algo assim, eu me surpreendo. Pela primeira vez, Anastasia toma uma decisão acertada. Ela leva umas porradas do pica das galáxias e decide que chega, aquela vida não é para ela, os dois não devem mais se ver. Seria isso um sinal de amadurecimento?, E. L. James mostrando que não é só uma escritora incompetente, mas alguém com inconsciência, decidida a quebrar o formato padrão das histórias sobre meninas inocentes tentando mudar os homens terríveis por quem elas se apaixonam? Não, porque o livro tem duas continuações, logo não é necessário ler todos os volumes pra saber que ela volta atrás e ele promete mudar e os dois voltam a ficar juntos e se casam e têm dois filhos e meio e um Golden Retriever e então as agressões do pica das galáxias começam a ficar mais frequentes principalmente porque o corpo de Anastasia já não é aquilo tudo e a pica já não está explorando tão bem a galáxia fazendo umas aterrizagens de emergência ou não decolando e Anastasia desenvolve um vício em antidepressivos e analgésicos e as crianças descobrem a sala de jogos e o cachorro morre de câncer e finalmente eles terminam em um longo e doloroso processo de divórcio em que nenhum dos dois é visto como capaz de criar as crianças e os dois se suicidam. Eu posso sonhar; a autora não escreveu o que vem depois do felizes para sempre.

Pois é, por um momento eu quase vi algo que pudesse redimir essa história. Se ela tivesse ido embora e não tivesse continuação, o livro continuaria sendo uma merda mal escrita, mas teria uma razão de ser. Mostrar que não dá pra mudar um parceiro abusivo, que certas pessoas são incompatíveis, enfim, uma versão adulta da história. Se ela tivesse feito isso, com toda a honestidade, eu teria dito que o livro é uma merda. Do jeito que está, ele é uma merda ofensiva, insistindo que amor e persistência podem mudar uma pessoa. Receita para um desastre. E tem gente que acredita. Por mim, se as pessoas estivessem elogiando o livro porque todo mundo gosta de uma sacanagem, tudo bem. O livro é péssimo em sacanagem também, mas não vem ao caso, cada um com seus gostos. Mas daí a dizer que é uma história de amor, superação e o caralho à quatro, isso é intragável e, dependendo do quanto a leitora em questão realmente acredita nisso, prejudicial.

A maneira como as pessoas mais apaixonadas por essa história insistem que Anastasia se interessa por algo mais no seu Grey que os bilhões de dólares e a vara me intriga. Nada no livro dá a entender o contrário. De vez em quando Anastasia diz para si mesma que não é isso, mas ela não é capaz de definir o que é. E o pior de tudo, e que categoriza o abuso na relação, é que ela nem tem padrões comparativos adquiridos em relações passadas para ajudar a definir se o que ela está vivendo é bom ou não. Nada do que ela diz sobre o relacionamento é confiável, nem mesmo o tamanho do dote do ricaço. A mulher nunca nem se masturbou antes de transar com ele, como ela sabe que ele é tão grande assim? Ela não conhece nem os próprios dedos, porra. E mesmo que ele tivesse aquilo tudo, baseado nas descrições da autora, as proezas sexuais do cidadão não funcionariam na vida real. É que, pra sorte dele, ela guardou todos os orgasmos que ela não atingiu em sua vida adulta dentro de um armário na casa da Deusa Interior e ela é capaz de atingir cinco em sequência com o toque de uma pluma. Até a autora tem suas dúvidas sobre a capacidade do rapaz e vive se forçando a avisar as leitoras de que o que acabou de acontecer foi sexy, só para que não reste dúvidas.

Minha dica para Anastasia e qualquer outra moça que possa estar envolvida em um dilema desses na vida real é: se o cara aparece na loja em que você trabalha sem que você tenha dito para ele onde é, você pergunta como ele descobriu e ele responde que tem seus meios, ele compra corda, um taco de baseball, uma máscara de esqui e uma motosserra, e então te convida para sair, diga não. Então corra o máximo que suas pernas suportarem, mude de país ou compre algumas armas de fogo.

5. Conclusão.

O fato de que esse livro atingiu os números de venda que atingiu e se tornou tamanho fenômeno me impressionaria se as pessoas já não tivessem esse hábito de comprar livros ruins. É normal, temos aí Paulo Coelho, Dan Brown, Stephenie Meyer. Tudo que ela fez foi escrever um livro ruim com sexo. Fórmula para o sucesso. A surpresa é que demorou tanto tempo para acontecer.

Todas as leitoras que dizem amar esse livro por serem mulheres liberadas e bem resolvidas com a própria sexualidade, sinto em lhes dizer, mas não é verdade. Esse livro é literatura erótica para quem não gosta de literatura erótica, é sadomasoquismo para quem não sabe o que é sadomasoquismo, é sexo para quem não faz sexo. Ruim em todos os graus, tanto literários quanto eróticos, falhando em tudo aquilo a que se propõe fazer. Isso é tão claro que pode-se dizer que as pessoas que gostariam de ler 50 Tons de Cinza já leram, e aqueles que não gostariam perceberam pelo faro o lixo literário irredimível que é esse livro. A única coisa que eu gostaria de ler relacionado a 50 Tons de Cinza é a perspectiva da faxineira do senhor Grey. As coisas que essa mulher já deve ter visto e sofrido, isso sim é uma história.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Withnail & I (Os desajustados) - Bruce Robinson [1987]

Pôster com arte de Ralph Steadman.

Olá, você que ainda esbarra com esse canto obscuro e empoeirado da internet. Eu lancei um livro semana passada. Tá na Amazon. Talvez você goste de ler.

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Meus agradecimentos a quem vier a comprar. Comprou? Leu? Gostou? Deixa lá um comentário pras pessoas ficarem sabendo que o livro é bacana.




O ano é 1969, em Londres. Dois jovens atores, Withnail, interpretado por Richard E. Grant, "e Eu" (como ele aparece nos créditos, embora algum maluco tenha visto o nome do personagem escrito num telegrama e descoberto que era pra ser Marwood), interpretado por Paul McGann, são dois jovens atores, desempregados, dividindo um apartamento decadente em Camden. Withnail cada vez mais se entrega ao álcool, bebendo até fluído de isqueiro, "e Eu", apesar de ser mais sensato, tem seus problemas com drogas (assim como Withnail) e com o traficante, Danny (Ralph Brown), parecem que nunca mais vão conseguir um trabalho. As perspectivas melhoram para "e Eu", quando ele consegue uma audição. Mas Withnail, devido a seu temperamento imprevisível, mal consegue contato com seu agente.

Para relaxar, deixar de lado a vida em Londres e a colônia de bactérias criada na pia, eles pegam emprestado a cabana de luxo do tio rico de Withnail, Monty (Richard Griffiths), tio esse que acredita que Withnail é um grande ator, prestes a interpretar Hamlet no teatro - porque é isso que Withnail o diz. Os dois têm dificuldades para aprender a lidar com as limitações do campo. Mas isso não é nada em comparação a visita que Monty, no armário desde adolescente, os presta, para tentar seduzir "e Eu" - novamente, porque Withnail disse que ele poderia estar interessado; preço a pagar pela estadia.

Nós queremos os melhores vinhos disponíveis à humanidade.
Esse filme é descrito como uma comédia. Bom, isso não é de todo errado, mas não esperem gargalhar. É a questão da comédia britânica. Aquela que não vive tanto das piadas, ao invés faz uso de cinismo, ironia e até tragédia para que o espectador dê umas risadas, de preferência enquanto repensa a própria vida. Assim eu descreveria "Os Desajustados". É a típica tragicomédia - termo que já pode ser considerado um clichê, mas que nesse caso se aplica. Devido às frases marcantes, normalmente proferidas por Withnail e o tema facilmente relacionável entre os "tipos artísticos", desde 1987, ele se tornou um clássico cult, considerado uma das mais icônicas comédias da Inglaterra.

Eu sou um ator treinado reduzido ao status de um mendigo.
Vendo o filme, a primeira coisa que me veio à mente foi o retrato do gênio incompreendido, remetendo logo ao, mais recente, Inside Llewyn Davis. Tanto um quanto o outro têm o personagem que é muito certo do seu próprio talento. Quase não tem oportunidades de usá-lo, mas está certo de que ele existe. Como disse "e Eu" para Withnail, quando Withnail lhe disse que seu pai sofria sempre que o via sobre o palco: - Então ele deve aprovar sua profissão. Por outro lado, temos "e Eu", muito mais inseguro, quase um espectador dentro do filme. Nunca o vemos recitando Shakespeare, mas é ele que consegue um emprego. 


Como a fazemos morrer?

Existe um certo homoerotismo na amizade dos dois. Uns dirão que é maldade minha, porém devem haver teses comprovando isso que eu digo. Para começar, apenas três mulheres aparecem durante todo o filme. E elas não têm mais que cinco segundos em cena. E só aparecem porque Withnail as insulta de dentro de seu carro, quando embriagado e partindo em viagem para o campo com "e Eu". Sim, e os dois passam dias sozinhos numa cabana isolada da civilização. A figura de Monty e o jeito "tespiano-afetado" de Withnail, não contribuem. Longe de mim pregar visões antiquadas de masculinidade por aqui, mas o filme dá essas deixas constantemente. Tanto que, para fugir de Monty, "e Eu" declara amar Withnail (e quando Withnail tenta convencer de que "e Eu" é homossexual e está atraído por Monty, diz que o rejeitou em um momento passado). Sem falar que a despedida dos dois não deixa nada a desejar a um "Casablanca". Detalhes que acrescentam à complexidade do filme e pedem por um revisitar no futuro próximo.

Monty seu terrível Zé Buceta.
Festa da falta de contexto.
Essa é uma das melhores comédias que eu já vi, e a melhor esse ano. Já está na minha lista de filmes favoritos e pretendo vê-lo de novo logo. Percebo que não falei nada sobre as atuações, mas é porque está perfeito. Não tem o que se dizer. Tanto Withnail quanto "e Eu" dominam seus papéis. "E Eu" de maneira mais controlada, com mais nuances, e Withnail extravagante feito relâmpago. A trilha sonora com Jimi Hendrix também não é nada mal. Não vi defeitos, mesmo. Indico para quem quer rir, mas com algo diferente. Um riso trabalhado.

Que figura estranha é um homem...quão feito um deus!
Nota: 5/5

domingo, 20 de setembro de 2015

Eureka (Yurîka) - Shinji Aoyama [2000]



Olá, você que ainda esbarra com esse canto obscuro e empoeirado da internet. Eu lancei um livro semana passada. Tá na Amazon. Talvez você goste de ler.

O link: https://tinyurl.com/yy394a8y

Meus agradecimentos a quem vier a comprar. Comprou? Leu? Gostou? Deixa lá um comentário pras pessoas ficarem sabendo que o livro é bacana.





Mesmo que existam muito mais filmes do que qualquer um seria capaz de assistir em uma existência, chega-se ao ponto em que fica difícil achar novidades. Estatisticamente falando, deveria ser impossível ficar entediado com o cinema e ter a sensação de que já se viu de tudo (o mesmo vale para a vida, pensando bem...), mas acontece (de novo, assim como a vida). Mas existe um lado positivo nesse tédio absurdo. Quando acontece, e, mesmo que seja incomum, acaba acontecendo, pode mudar sua visão sobre cinema. Este foi meu caso com Eureka, de Shinji Aoyama, que eu vi ano passado, mas que me deixou sem palavras até agora.


O ônibus de Makoto Sawai (Kôji Yakusho) foi sequestrado. Alguns dos passageiros já foram assassinados e, não fosse o tiro do sniper da polícia a abater o sequestrador, ele seria o próximo. Anos depois, ele volta a sua cidade, ainda traumatizado. Não dirige mais ônibus, então arranja um emprego fazendo trabalhos manuais. Descobre, então, onde vivem as crianças que estavam no mesmo ônibus, os irmãos Kozue e Naoki Tamura (interpretados pelos irmãos da vida real, Aoi e Mazaru Miyazaki). Os dois vivem sozinhos, não vão à escola e não conseguem mais falar. Vendo isso, Makoto decide viver com eles, cuidar deles como se fossem seus filhos.

Começa uma série de assassinatos na cidade (todas mulheres), e a reaparição de Makoto o torna um suspeito. Após umas encrencas com a polícia, Makoto arranja um trailer e sai em viagem sem destino com as crianças e o primo universitário delas, que foi visitá-los durante as férias. Tudo parece bem, no entanto a trilha de assassinatos parece segui-los onde quer que eles estejam.


O primeiro detalhe que chama atenção é o quão longo é o filme. São quase quatro horas. O objetivo do diretor com isso é contar a história da maneira mais minuciosa possível. E consegue. Nada dá a impressão de se estender por mais tempo que o necessário. Todas as cenas parecem importantes ou valem a pena assistir. A segunda coisa que mais chama atenção é a cor. A gravação foi feita a cores, mas o filme foi dessaturado. Eu nunca vi nada assim antes. Isso ajuda ainda mais a fotografia, que já é bela. Se um filme vai ter quatro horas, eu diria que ele deve ser agradável para os olhos. Eureka é, tornando difícil piscar por todo esse período.


Sobre a história que ele conta, nunca fica chata. Na verdade, foi isso que tanto me impressionou no filme e fez que eu sentisse que estava vendo algo inédito para mim. É difícil classificá-lo. Drama seria a escolha mais provável, considerando que, deixando de lado as várias pequenas coisas que complementam o enredo, o filme é sobre três pessoas - duas delas crianças - aprendendo a lidar com estresse pós-traumático, retornando a vida normal. Esse retorno, inclusive, explica a escolha da cor. Esse tom sépia pode simbolizar o distanciamento dessas pessoas da realidade - e o retorno às cores, na última cena, significaria uma recuperação. (Isso não foi bem um spoiler, só uma coisa que aconteceu. Vá assistir, você vai perceber que saber que o filme ganha cor no final não estraga nada.) Mesmo assim, drama não seria exato.


O filme carrega muito, a partir da segunda parte, aquela impressão de filme de viagem. Eles acampam no trailer, observam os arredores, o primo e o motorista conversam enquanto Kozue tira fotos com uma polaroid. Mas não é tudo. Existe também o suspense envolvendo a possível presença de um serial killer. Principalmente quando um dos suspeitos, Makoto, sai da cidade, mas os assassinatos o acompanham. Até que se descubra o culpado, até as cenas mais belas do filme são cercadas dessa tensão típica, além de encher o espectador de dúvidas sobre o carácter e a estabilidade mental de todos os personagens.


As quatro horas de filme podem intimidar, mas eu digo que vale a tentativa. É uma experiência única, que inclui basicamente tudo que se pode esperar da arte do cinema. Mesmo que a história não te prenda, a beleza da fotografia vai, por exemplo. Não indico dividir o filme em duas partes ou mais porque isso vai te tirar do clima. Até o mais longo dos filmes é uma coisa só e deve ser visto como tal. De qualquer forma, diria que, mesmo que você começasse a ver com a ideia de dividir em duas partes, talvez não conseguisse.

Nota: 5/5



domingo, 9 de agosto de 2015

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação [Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi] - Haruki Murakami (2013)


Mais um livro do Murakami sendo resenhado por estas bandas. Ainda tem alguém contando quantos já foram? De qualquer forma, para mim, os livros dele deixaram de ser surpresa. O que não quer dizer que deixaram de me agradar. Até por eu ter passado um tempo afastado desse japonês maluco, esse retorno me fez desenvolver certas teorias sobre o que é que atrai tanto os leitores aos livros dele. Não é como se Murakami fosse um mestre da literatura ou mesmo algo inédito - no Japão ele foi inédito, mas o tipo de literatura que ele iniciou por lá já era lugar comum no resto do mundo. Então por que ele é possivelmente a única celebridade literária, em tempos recentes, que conseguiu unir público e crítica?* Falemos de O incolor Tsukuru Tazaki.

Nos tempos de escola, Tsukuru fazia parte de um grupo de amigos. Era ele e mais quatro. Coincidentemente (ou não), os nomes de cada amigo de Tsukuru representam cores.  Tem o Vermelho, intelectual do grupo, filho de um acadêmico; o Azul, esportista carismático; Preta, rechonchuda extrovertida e engraçada; e Branca, corpo de modelo, beleza incomparável, boa pianista e extremamente tímida. Eles não se separaram uma vez que fosse por todo o período colegial, então veio a formatura e, os amigos Power Rangers ficaram em Nagoia, enquanto Tsukuru foi estudar engenharia em Tóquio. O grupo, ainda assim, seguiu trocando cartas e se reviam sempre que Tsukuru vinha visitar sua família. Até que, numa dessas visitas, quando ele liga para os amigos, nenhum deles o atende. Depois de muito insistir, Azul pede para que ele não ligue mais e avisa que Tsukuru foi expulso do grupo. Motivo? Ele não diz e Tsukuru, que faz o mesmo curso de como ser passivo que todos os outros protagonistas do Muraka frequentaram, não pergunta. Aceita a expulsão e se entrega por meses a um estilo de vida isolado e suicida. Dezesseis anos depois, Tsukuru tem um emprego estável e parece conformado com sua vida. Cabe a Sara, mulher que ele conhece e pela qual Tsukuru se apaixona, convencê-lo a ir rever seus amigos e solucionar esse mistério, já que a dúvida está prejudicando o psicológico e a vida afetiva dele com muito mais força do que ele imagina. Quando a pipa do Tsukuru finalmente não sobe, ele decidi peregrinar em busca de seus amigos. Peregrinação essa que dura alguns dias (os anos de peregrinação são referência a uma composição de Liszt muito citada durante o livro).

Pode parecer que eu disse muito com essa sinopse, mas isso é só o começo.

Fui me curando das minhas encrencas com Murakami depois de ler Hardboiled Wonderland. Foi o primeiro livro dele que, mesmo depois de tendo lido tantos outros, me deu uma sensação excitante de novidade. Talvez por isso eu tenha me decepcionado um pouco com Tsukuru. O surrealismo presente em Hardboiled, aquela impressão de ser atirado em um mundo completamente novo e bizarro, não existe nesse novo romance. Meu jeito de classificá-lo seria Norwegian Wood light. O que não é ruim, mas nunca fica bom. É insípido.

Um pouco da trajetória de Murakami para vocês que podem não estar cientes. (Senta que lá vem história...) Em 1979, quando Murakami publicou seu primeiro romance (Kaze no uta o kike, traduzido pro inglês como Hear the wind sing - Ouça o vento cantar), foi algo novo na literatura japonesa. Experimental, com doses surreais, totalmente diferente da literatura pessoal e autobiográfica na tradição japonesa. E foi por esse lado que Muraka seguiu, vendendo poucos milhares de cópias no Japão, formando uma base sólida de admiradores, mas ao mesmo tempo desprezado pelo público geral e pela crítica. Em 1987, famoso pela loucura em sua obra, ele decidiu dar uma volta de 180° e escrever uma história bem juvenil e realista. Isso virou Norwegian Wood. Surgiu o Murakami celebridade. Sendo um cara reservado, Muraka reprovou o clamor das multidões e fugiu do Japão. Os livros que vieram depois, principalmente Dance dance dance**, foram um retorno às raízes do seu trabalho. Talvez para ver se ele despistava o público. Talvez para apresentar ao novo público a verdadeira essência da sua literatura. Não sei, não conheço o cara. Só sei, pela entrevista que ele deu à Paris Review, que Norwegian Wood foi um livro calculado, com o objetivo de agradar o público japonês, a crítica, e vender milhões. Por mais que goste de Norwegian Wood, acabei me apegando ao lado surreal do autor e acho que é nesse território em que ele se encontra na sua melhor forma. Por isso, ver Tsukuru como um segundo livro realista, mas não tão bom quanto o primeiro.

O lado positivo é que, em certos aspectos, ele evita os clichês típicos do Murakami (isso vai ser visível quando eu mostrar os resultados do Murakami Bingo). É quase como se ele tivesse feito uma decisão consciente de escrever algo diferente dos livros mais recentes dele. Mas ele nunca se afasta tanto assim a ponto de tornar Tsukuru algo destacável na obra dele. Sim, ele não cita um artista de jazz que eu tenha percebido, tampouco cita cultura pop, não descreve orelhas femininas, nenhum gato dá o ar da graça (pasmem!), ninguém desaparece, não surgem passagens secretas e nem dimensões alternativas. Uma mulher (Sara) é, como sempre, a responsável por colocar a história nos trilhos, mas ela é muito menos ativa. Enquanto em livros passados as mulheres costumam pegar a mão dos protagonistas do Murakami e os puxar por toda a história, nesse ela só diz "por que você não faz isso?" e isso basta pra que ele ache e corra atrás do enredo.

Apesar disso, o protagonista é típico Murakami. Completamente passivo e solitário. Considera-se uma pessoa vazia, mas vai se descobrindo aos poucos e percebendo que não é bem assim. Não vive exatamente inserindo em seu meio, apenas se equilibra pelas bordas, sem tentar compreender ou fazer parte das coisas ao seu redor. Normalmente, os protagonistas do Murakami, mesmo compartilhando desses traços, têm um algo a mais que os torna diferentes um do outro. Tsukuru não. Tsukuru Tazaki é como o modelo bruto para esse tipo de personagem, mas sem nada esculpido no bloco. Isso pode até resumir o que esse livro foi pra mim. Típica obra do Murakami, mas sem toda a construção que se espera. Só aquele mesmo bloco genérico que ele usa sempre. Tantas vezes Tsukuru se descreve como uma pessoa vazia, que acabou se refletindo no romance todo.

Outro aspecto geral da obra do Murakami é o final aberto. Ele cria várias situações e mistérios, mas nem sempre os explora até o final. O que eu gosto. Mas não é esse o caso. Aqui os mistérios se concluem. E se concluem rápido demais. Eu diria que, se Tsukuru tivesse tomado a atitude de investigar os motivos de sua expulsão um mês depois do acontecido, ao invés de dezesseis anos, o resultado seria o mesmo. Bem sem graça. Mesmo assim, o final é aberto. O mistério é resolvido, mas o livro termina antes de um encontro que ele viria a ter com a Sara, como se cinco páginas do manuscrito tivessem se perdido. O que não me incomodou de forma alguma, afinal o que seria dito no encontro pode ser deduzido e não faz parte da peregrinação afinal. Não sei, acho que por anos de peregrinação eu esperava mais tempo tentando resolver o mistério principal, e não dezesseis anos de amargura somados a cinco conversas de solução. Minha culpa, talvez, não é bom criar expectativas.

Tendo dito tudo isso, esse livro não é de forma alguma ruim. Só é o mais fraco dentre os livros do Murakami que eu li, a ponto de eu não poder indicar nem pro leitor que já o conhece nem pro leitor que não o conhece. Indico praquele completista teimoso (eu), que, quando se apega a um autor, quer ler absolutamente tudo. Lógico que, nesse meio tempo, o contato com as obras inferiores desse autor faz com que a magia se perca - o que humaniza bastante o artista, e isso é bom. Tsukuru Tazaki é essa obra inferior, que, ao mesmo tempo, não destoa do resto da bibliografia do Murakami (não fica aquela dúvida "foi ele mesmo que escreveu isso).

Isso me leva a outro ponto. Por pior que eu tenha achado o livro, não foi uma leitura desagradável. Acho que o motivo disso foi o momento em que eu o li. Murakami - e essa é outra das minhas teorias sem fundamento - precisa de um clima para ser bem aproveitado. Ele é aquele tipo de autor que te entende. E eu precisava disso quando comecei a leitura. Não estava conseguindo avançar com livro nenhum. Perdia a concentração muito rápido por melhor que a escrita fosse. O único que me tirou disso foi o Murakami. E de certa forma ele sempre conseguiu fazer isso comigo, a ponto que minhas leituras dos livros dele foram se tornando terapêuticas. Creio que isso é porque a prosa do Murakami conseguiu atingir um grau de equilíbrio quase budista. Ele é literatura comercial pra quem não gosta de literatura comercial. Ele é alta literatura pra quem não gosta de alta literatura. No grande espectro literário, com E. L. James no grau mais baixo e James Joyce no grau mais alto, Haruki Murakami se encontra no centro exato, de modo que ele, no seu melhor, é capaz de agradar qualquer um. Por isso eu insisto que não foi uma leitura perdida, só não das mais agradáveis.

O resultado do Murakami Bingo ficou:

Pois é, quase nada.

Nota: 3/5

*Digo único e, com essa afirmação, estou excluindo o Knausgaard, porque o norueguês, ao contrário do Murakami, só fez grande sucesso com a crítica e na Noruega. Sim, ele foi traduzido para dezenas de línguas, mas o número de vendas dos livros dele, por mais fascinantes que sejam, é irrisória em comparação. A série do Knausgaard vendeu, em casa, centenas de milhares de cópias. O mais recente livro do Muraka, no Japão, vendeu um milhão na semana de lançamento. Esse número, no mercado literário contemporâneo, é sem precedentes - para um autor respeitado e premiado.

** Estou lendo agora Dance dance dance, passei da metade e logo vocês vão ter resenha aqui. É tanto um retorno às raízes que serve como um quarto filho bastardo da "trilogia do Rato" (composta pelos dois primeiros livros dele mais Caçando Carneiros). Muito superior a Tsukuro, mas um tanto redundante. Faltou um revisor pra dizer: você pode cortar essas tantas frases repetindo o sentido daquela primeira, basta escolher a melhor delas. De qualquer forma, estou achando que é um bom livro e quase completando todos os quadros do Murakami Bingo, enquanto, com esse livro, não marquei quase nada.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Androides sonham com ovelhas elétricas? (Do androids dream of electric sheep?) - Philip K. Dick [1968], seguido de uma breve comparação com Blade Runner



Eu provavelmente, antes de começar, deveria escrever uma coisa ou outra sobre a recente ausência total de resenhas nesse blog. Se alguém ainda se interessa em saber, o motivo é aquilo que eu já falei sobre várias vezes: detesto resenhar. Vejam bem, não que eu desgoste de falar sobre coisas que me agradaram, mas é que, quanto mais o tempo passa e eu penso sobre o ato de resenhar, mais inútil eu acho que ele é. Toda aquela questão do gosto ser subjetivo. Poderia resumir, por exemplo, numa frase recorrente em resenhas, principalmente amadoras em sites como Skoob, IMDB, locais que permitem a disseminação indiscriminada de opiniões pessoais. É muito comum encontrar nesses textos gente que diga não achar ter experimentado a mesmo coisa que os outros (geralmente quando a opinião em particular é diferente da média). Mais e mais eu acredito na literalidade dessa frase. Cada experiência é única, cada leitura forma um livro diferente etc. Não somos "programados" da mesma maneira. Isso quer dizer que não é interessante saber como foi a experiência do outro? Não. Talvez seja por isso que eu insista. Só espero que eu não seja levado tão a sério.

Num futuro próximo, pós-apocalíptico, resultado de uma guerra nuclear, os seres humanos são incentivados a emigrarem para Marte - ganhando um androide para chamar de seu na viagem -, colônia da Terra. Aqueles que não querem viver em Marte e aqueles que não podem porque foram atingidos pela radiação (chamados "especiais" ou cabeça de galinha) são obrigados a ocupar os pequenos cantos habitáveis da Terra. Por causa da radiação, a maior parte dos animais foi exterminado, por isso cuidar de um é sinal de status, principalmente quando o animal é raro e não doméstico. Rick Deckard, caçador de recompensas, tinha uma ovelha, mas ela morreu e foi substituída por uma elétrica - motivo de vergonha para Deckard e sua esposa, por isso ninguém da sua vizinhança sabe que ela é falsa, enquanto ele planeja comprar um animal de verdade, um grande, como um cavalo - que está começando a dar defeito.

Caçadores de recompensa são necessários para capturar e "aposentar" androides que fogem das colônias para viver na Terra - o que é proibido. Inicialmente era fácil distinguir um androide de um ser humano, mas, com os avanços tecnológicos, os modelos foram se aproximando cada vez mais da realidade, tornando necessário o uso de testes. O que Deckard usa, considerado o mais eficiente, é o Voigt-Kampff, em que uma série de perguntas é feita ao androide e o caçador analisa, com o auxílio de máquinas, suas reações. As perguntas buscam verificar a presença da única coisa do ser humano que o androide ainda não consegue simular, a empatia - principalmente perante animais (vale apontar que animais não são só sinal de status, a extinção da maior parte deles causou também uma mudança de atitude no ser humano e consumir carne, por exemplo, foi proibido e considerado imoral - essencialmente o livro diz que no futuro seremos todos veganos).

Deckard é encarregado de aposentar seis fugitivos de um modelo novo de androide, o Nexus-6, que supera o ser humano em várias características e é até capaz de fingir empatia - embora não reaja na mesma velocidade de um humano. Essa proximidade faz Deckard questionar a ética da sua função.

O livro é narrado em terceira pessoa, sendo que o ponto de vista varia entre Deckard e J. R. Isidore, um especial, que trabalha numa clínica para animais elétricos e abriga um grupo de androides após se apaixonar por uma delas - e ele se identificava melhor com androides do que seres humanos já que suas limitações eram muito similares às deles. Enquanto Deckard tem uma visão e conhecimento amplo da sociedade ao redor, Isidore conhece apenas o que o único entretenimento permitido no planeta o informa (os programas de rádio e televisão do Buster Gente Fina e seus Amigos Gente Boa) e aquilo que o mercerismo (religião dessa nova sociedade) prega.

É complicado falar desse livro por culpa de todos os pequenos detalhes. Em duzentas e trinta e poucas páginas, Philip K. Dick fala sobre religião, drogas - nesse caso, aparelhos eletrônicos que literalmente permitem que a pessoa escolha suas emoções como quem escolhe um prato de um cardápio de restaurante -, existência e o que faz um ser humano. Ele tem a habilidade de levar o leitor em suas próprias divagações e fazer com que ele também questione a si mesmo. Por exemplo, a partir de o momento em que uma forma inorgânica, artificial, moldada para parecer humana e programada para agir como tal, desenvolve autoconsciência e a ilusão de que é, como qualquer outro ser parecido com ela, viva, o que faz dela menos humana considerando que nós, não-artificiais, não sabemos de onde viemos, para que viemos etc. Com ou sem uma presença divina criativa, somos criatura; se do acaso ou do Macaco Sábio da Montanha, não importa. Também somos criativos. Se chegarmos ao ponto tecnológico de sermos capazes de criar uma forma de vida artificial, o que faria dessa criatura inferior a nós criaturas/criadoras? E se nossa criatura for, também, capaz de criar com a mesma habilidade. E assim segue. Pois é. Não sei. Efeitos colaterais desse livro, vejam só.

Então, em 1982, Blade Runner saiu nos cinemas, dirigido por Ridley Scott. É difícil comparar os dois, pois são animais diferentes. Arriscaria dizer que é a adaptação perfeita. Diferente do original, consciente da diferença entre os meios literatura e cinema, ainda respeitosa da essência da obra adaptada. Um complementa o outro, na verdade. O próprio autor, que viu algumas cenas - morreu antes do lançamento do filme - durante a edição, disse que as imagens eram representativas de sua imaginação (e se existe uma raça difícil de agradar é o escritor; lembrando que Stephen King odiou O Iluminado, e Anthony Burgess odiou Laranja Mecânica, ambos do Kubrick).

No filme, todo o lado que fala sobre os animais não foi citado. Lembro de ter visto uma cobra elétrica, mas ela é só cenário, talvez uma referência, mas Deckard não tem uma ovelha. Por questões mercadólogicas, o Deckard do filme é muito mais novo que o do livro, interpretado pelo Harrison Ford, já famoso por Guerra nas Estrelas. E ao invés de Deckard ser um caçador de recompensas como qualquer outro, de 50 e poucos anos, casado, de classe média baixa e, em geral, insatisfeito, ele é considerado o melhor blade runner (nome que o filme deu aos caçadores de recompensa, mas que não aparece nenhuma vez no livro - na verdade é referente a outro livro, quase desconhecido, de ficção científica), mas quer se aposentar, a caça aos androides de novo modelo é sua última. Os androides, por sua vez, não são só mais inteligentes, são mais fortes e ágeis que os seres humanos, e muito mais violentos no filme que no livro.

O Deckard do filme ainda é atingido pela dúvida existencial, mas é muito mais sutil. Soube que o filme foi para o cinema com narração dos pensamentos do Deckard (coisa que Harrison Ford odiou fazer), mas eu não vi essa versão. Indico pra todos a versão Director's Cut, que tem cenas a mais e cortaram a narração. As expressões do Ford bastam pra deixar a crise existencial subentendida. Já Isidore, quase não faz parte do filme. O seu ponto de vista não é mostrado, no seu lugar, acompanhamos a androide que vive com ele em maior detalhe - toda a questão dos cabeça de galinha é ignorada. O filme também não mostra o Buster Gente Fina nem muito menos seus Amigos Gente Boa.

Incompleto que seja, o filme é um espetáculo visual. Apesar de 2019 não ser mais um futuro distante e estarmos longe do tipo de sociedade retratada e suas tecnologias - e, em contrapartida, os termos superado em muitos aspectos -, é uma experiência e tanto. Um dos melhores filmes de ficção científica, com toda certeza. Tem momentos de ação, mas não deixa seu ritmo ser regido por eles, mantendo um clima neo noir, ao estilo Raymond Chandler encontra robôs, armas laser e carros voadores. O livro tem tudo isso, mas de maneira bem mais contida e num clima mais filosófico e contemplativo. De fato, se completam. Algumas pessoas preferem ler o livro primeiro, outros preferem ver o filme, esse é um dos raros casos em que isso não importa. Dificilmente alguém fará um sem ser levado a fazer o outro.

Nota: 5/5

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Momento Musical #10 - Elvis Costello, Leoš Janáček, Frank Zappa

Quando eu não sei o que escrever aqui, posto uma poesia que esteja largada. Quando não tem mais poesia, faço um momento musical. É fácil. Basta achar uns discos bacanas no youtube e fazer um comentário em baixo. Se alguém ouve as músicas ou não, não sei. Não importa. Só sei que estou passando por um período desses, então toma-lhe música.

Elvis Costello - Armed Forces (1979)


(Pois é, não tinha um daqueles vídeos com o disco inteiro pra economizar, então vou jogar aqui 3 faixas de amostra.)

Da série: coisas que se salvam da década de 80. Elvis Costello é bem bacana. Esse disco veio antes da década de 80, então pode ser por isso que eu goste mais dele. As letras também são ótimas. Elvis é dessa linha de cantores que não cantam porra nenhuma mas compõem como mestres (Bob Dylan, Frank Zappa, Lou Reed vêm à mente). Destaque pra What's so funny 'bout peace, love and understanding, que fez parte da cena do karaokê em Lost in Translation (ainda não falei desse filme, né? T'aí o assunto pro próximo post).

Leoš Janáček - Quartetos de Cordas nº 1 e 2 (1923 e 1928)



Esse é um dos compositores favoritos do Milan Kundera. Foi só por isso que eu o conheci, porque ele é citado várias vezes na entrevista que o autor deu à Paris Review, em 1984. Janáček é um compositor moderno bastante peculiar. Alguns especialistas dizem que ele é o primeiro dos minimalistas. As composições dele são cheias de padrões e repetições típicas do estilo, com harmonizações em tons incomuns. A razão de eu não falar mais de música erudita aqui é por eu não saber tão sobre - a parte técnica da coisa, quero dizer -, mas as músicas dele são uma experiência e tanto. Kundera o considera uma influência para estrutura de seus livros. Faz sentido, se vocês prestarem atenção. Principalmente na polifonia e nas repetições temáticas. Pessoalmente, me agradam os quartetos de cordas, por isso escolhi essas duas composições. O segundo quarteto também foi uma das últimas - ou última - composição dele, e ela tem algo de intenso que me faz querer voltar a ela sempre. Se tornou um dos meus favoritos também.

Frank Zappa - Hot Rats (1969)


Zappa foi uma das figuras mais fascinantes da década de 60 - que não é conhecida pela falta de figuras. Um dos poucos com a coragem de inserir técnicas da música clássica moderna em músicas populares. Às vezes arrogante, às vezes subestimava seu público - mas quem poderia culpá-lo disso -, mas Hot Rats eu diria que é um dos seus melhores momentos. Um dos porque o cara era prolífico. Fez um pouco de tudo, do experimental ao pop à sátira à música erudita. O cara é uma representação em áudio do que é a vanguarda. Apesar da banda dele ser cercada de polêmicas e muitos de seus discos terem sido alvo de críticas e tentativas de censura por conteúdo explícito, esse é praticamente instrumental, com exceção de algumas linhas cantadas - por ninguém menos que Captain Beefheart (falarei dele um dia) - em Willie the Pimp.

Vão ouvir agora.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Hard-Boiled Wonderland and the End of the World (Sekai no owari to Hādo-Boirudo Wandārando) - Haruki Murakami [1985]




Já fazia tanto tempo desde o último texto sobre Haruki Murakami aqui. Fazia tempo também que eu não lia nada dele. Depois que travei no terceiro livro de Wind-up Bird Chronicle, achei que tinha cansado dele, ultrapassado algum tipo de limite. Só precisava de umas férias, agora já está tudo bem e eu voltei a querer ler tudo que esse japonês maluco já escreveu. Não voltei a Wind-up Bird ainda, farei isso logo, antes de pegar 1Q84. Antes eu quis ler o livro que o próprio Murakami diz melhor representar seu estilo e ser o seu favorito dentre a sua obra (costumava ser, uns anos atrás, quando ele deu uma entrevista pra Paris Review, hoje eu não sei se ainda é). Se o meu problema com o Muraka era que ele estava começando a soar sempre como mais do mesmo, Hard-Boiled Wonderland and the End of the World (título bem longo e difícil de traduzir, eu sei. Seria algo como País das Maravilhas Cozido e o Fim do Mundo. Esse cozido sendo o termo culinário para Hard-Boiled, e não o literário, que era pra ser pra que o título faça sentido. Hard-Boiled é o gênero literário que Raymond Chandler e Dashiell Hammett ajudaram a definir, um tipo de história de detetive, violento e com personagens amorais etc. É um estilo bem popular no Japão e que influenciou bastante o estilo do Murakami.) serviu pra me mostrar todo um lado do autor que eu não conhecia e que pode ser o lado mais interessante dele.

Uma Tóquio que pode ser futurista (o texto não define nenhuma data) está dividida entre dois grupos em guerrilha, o Sistema, que é um grupo regulamentado quase governamental, e a Fábrica, grupo criminoso. O primeiro usa Calcutecs, processadores humanos de dados eletrônicos, para proteger informação. O outro faz uso de Calcutecs que se rebelaram pra roubar informação. Um Calcutec do Sistema, alienado de toda a briga, sem nome (como todos os outros personagens do livro), é contratado por um cientista recluso para  processar um monte de informação. Esse cientista pesquisa remoção e manipulação de som e  desenvolveu uma forma de ler o subconsciente das pessoas, tudo isso baseado no trabalho que ele realizava quando funcionário do Sistema. Trabalhando para o cientista, o Calcutec descobre que só tem mais 36 horas de vida.

No Fim do Mundo, cidade estranha e isolada (a edição americana vem com um mapa desenhado para melhor compreensão do leitor), chega um novo morador. Mas existe uma particularidade em Fim do Mundo, os moradores têm suas sombras removidas e largadas para morrem, fazendo que eles percam suas mentes. Cada morador tem uma função e é mencionado como tal pelo narrador (o Guardião do Portão, a Bibliotecária, o Coronel etc.). O lado de fora é cercado por bestas que são alimentadas e cuidadas pelo Guardião do Portão, que é um gigante. Durante o inverno, boa parte das bestas morrem, então suas caveiras são removidas e limpas para que seus sonhos sejam lidos. O narrador é o Leitor de Sonhos, o único que tem acesso às informações deixadas pelas bestas. Confortável que o narrador esteja com sua vida de Leitor de Sonhos, ele ainda deseja voltar para sua sombra e salvá-la, salvando sua própria mente, no entanto isso é proibido pelas leis do Fim do Mundo, que proíbe os moradores de terem sombras, saírem da cidade ou passarem muito tempo nas florestas.

Isso não fez o menos sentido, só que mais do que isso tiraria a graça de ler o livro e ir descobrindo aos poucos o que relaciona uma história com a outra e como as coisas se resolvem.

Em geral, é uma história do Haruki Murakami. Todos os ingredientes específicos dele estão aqui, mas acontece que, saídos do forno, o prato foi completamente diferente. Ou talvez tenha sido a mesma comida, mas com um sabor incomum. Aqui temos um personagem principal passivo e solitário, satisfeito com a própria vida, que se vê pego por algo maior que ele em circunstâncias que ele não consegue controlar. Como sempre nas histórias do Murakami, tem uma garota ali para guiá-lo nesse caminho novo e bizarro. No caso da linha narrativa de Hard-Boiled, tem duas. A garota gordinha (é o nome que o narrador dá pra ela), neta de dezessete anos do cientista, que só se veste de rosa e nunca sai do laboratório, mas, apesar do ambiente protegido em que cresceu, é muito mais forte do que parece; e a bibliotecária, a mulher por quem o narrador se apaixona, que tem um estômago sem fundo, estando sempre com fome e podendo comer o quanto quiser sem nunca engordar. Elas que cuidam do narrador em sua jornada. Já na linha do Fim do Mundo, existe apenas a bibliotecária (outra), nascida em Fim do Mundo, perdeu sua sombra e sua mente ainda criança. Acredita que sua mãe morreu ainda mantendo sua mente, mas não sabe ao certo. O narrador se apaixona por ela e fica tentado a largar sua sombra para viver com ela em Fim do Mundo.

Logo de cara uma coisa já se destaca. Uma das linhas narrativas é um suspense, fortemente inspirado na ficção científica da época (Blade Runner, a cultura do Cyberpunk, ainda recém-nascida nesses dias) e, obviamente, dos livros Hard-Boiled, com seus capangas de um terceiro partido que quer se meter no meio da briga entre o Sistema e a Fábrica, femmes fatales, conspirações que dizem que o Sistema e a Fábrica são controlados pela mesma pessoa, e mistérios complicados que nem sempre encontram explicação. A outra é muito mais próxima da fantasia e usa uma linguagem muito mais formal e descritiva que a outra linha narrativa. O tom é bem mais poético e contemplativo que a correria tecnológica de Hard-Boiled. No Fim do Mundo não há guerras, estão todos bem e iguais e é isso que enche o narrador de medo.

Não é necessário dizer que também há música e cultura pop. Se não houvesse, seria o livro de outro autor que eu estaria resenhando. Lógico que na linha narrativa do Fim do Mundo não tem cultura pop, mas Hard-Boiled é cheio. E uma das coisas que cativa o narrador em Fim do Mundo é a presença de instrumentos musicais perdidos, que ele não sabe exatamente o que são, mas gosta do som que eles emitem, não por ser bonito - ele não sabe tocar -, mas por ser algo que ele nunca ouviu antes.

A repetição dos temas nos livros do Murakami é um defeito, isso não tem como negar. Outro é o fato dos narradores dele serem tão passivos que é como se o enredo os pegasse pela mão e os puxasse pelos acontecimentos. Isso vai irritar alguns. Na verdade eu creio que toda a parcela da população de leitores que não gosta de Murakami não gosta por causa disso. Eu me identifico. Ler uma história do Murakami é quase sempre como ler uma história feita sob medida pra mim. Isso não é muito saudável pra um leitor, mas é difícil de evitar. Hard-Boiled talvez tenha os narradores menos passivos. Solitários, silenciosos, flexíveis, pode ser. Mas eles tomam controle da situação uma hora ou outra, o que pra mim foi uma novidade. Por isso digo que foi o livro mais diferente dele dentre os que eu li e só isso já valeu a leitura. 

Se você nunca leu Murakami, eu não diria pra começar por esse. Por mais que eu ache esse o melhor livro dele, as traduções americanas são de doer. A prosa não é ruim, mas a revisão é abaixo da média. Devia ter contado o número de erros gramaticais que eu, que apesar de ser fluente em inglês não tenho o idioma como língua materna, consegui pegar, mas o imbecil do editor deixou passar, só que depois de um tempo eu fui perdendo a conta. Só isso basta pra vocês entenderem que foram muitos. Isso vai desagradar. É uma pena que a Alfaguara não tenha planos pra lançar esse livro ainda. (Ei! Se algum funcionário da Alfaguara passar por aqui, anotem essa dica! Esse é um livro do Muraka que não pode faltar no acervo de vocês, viram? - vai que cola.) Então, vocês que não sabem nada do autor, vão ler Norwegian Wood. Fiquem longe dos livros americanos traduzidos pelo Alfred Birnbaum e olhem torto pra Wind-up Bird Chronicle, traduzido pelo Jay Rubin (esse a culpa é da editora americana que mandou cortar sei lá quantas páginas do livro e mudar a ordem de alguns capítulos - queria eu entender essas editoras que compram os direitos pra traduzir um livro, mas exigem que o tradutor o desfigure por completo...). Apesar disso tudo, Hard-Boiled esse se tornou meu livro favorito dele, eu acho. Tá bem ali ao lado de Norwegian Wood. Os dois tão quase empatados. Uma boa edição brasileira de Hard-Boiled pode desempatar.

Aqui o resultado do Murakami Bingo:
Acho que eu já falei que esse quadro é do Grant Snider, mas nunca joguei o site do cara aqui. Pronto: http://www.incidentalcomics.com/ - Podem passar lá, o cara tem umas tiras - que não são bem tiras, mas eu não sei o termo - excelentes. (Agora vocês me digam quantos blogs indicam duas coisas em uma resenha. O que seria de vocês sem mim?)
E a nota: 5/5

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A Redoma de Vidro (The Bell Jar) - Sylvia Plath [1963]


É estranho quando um livro bom é ofuscado por um livro muito bom. Pra mim, em particular, é prejudicial, já que eu tento escrever resenhas depois das leituras. O que aconteceu foi que eu As Virgens Suicidas, do Jeffrey Eugenides, e ao terminar achei muito bom. Pretendo falar mais sobre essa outra leitura mais tarde, mas o que aconteceu aqui basicamente foi, antes de pegar As Virgens Suicidas, estava lendo 50 Tons de Cinza - e existe mais uma outra explicação sobre isso também que não vem ao caso agora e que eu vou guardar até que minha resenha desse livro saia, o que vocês podem saber sobre isso por enquanto é que eu fui pago pra fazer essa leitura -, então qualquer coisa que eu lesse, uma frase bem feita que fosse, faria eu me apaixonar por um livro. Foi desse degrau que eu subi para a leitura de As Virgens, do subterrâneo para o décimo andar, assim num pulo. Aí eu peguei A Redoma de Vidro (The Bell Jar), da Sylvia Plath, logo em seguida - algo em mim queria ler sobre moças depressivas, provavelmente. E tudo aquilo que eu tinha construido mentalmente sobre a qualidade de As Virgens Suicidas ruiu. Essa resenha não vai nem deveria comparar os dois livros. Mas existem paralelos bem leves entre os dois e o leitor mais dedicado do blog vai poder, mais tarde, fazer essa comparação por si mesmo, lendo uma resenha após a outra.

A Redoma de Vidro, que eu decidi resenhar primeiro, é considerado um roman à clef, por causa dos paralelos entre a história supostamente fictícia do romance e a vida da autora, que foi internada por um tempo e, no fim, se matou por causa da depressão - esse não é o fim do livro, é o fim da autora. O alterego de Sylvia é Esther Greenwood, uma garota de seus 19 anos, estudante universitária em um estágio de verão para uma famosa editora de Nova Iorque. A narrativa varia entre o "presente" - embora ela toda seja escrita no passado - e as memórias da personagem - a escola, o namorado, descobertas sobre a sexualidade etc. Normalmente esse tráfego entre os tempos se dá de forma quase proustiana, partindo de um momento que engatilha a lembrança do passado. Naquele verão, no entanto, Esther percebe algo de diferente em si mesma. Uma incerteza que antes não existia. Ela não sabe o que quer, não consegue mais ler, não consegue mais escrever ou dormir. Aos poucos, com o fim do estágio e a volta à casa da mãe, a vida vai se tornando insuportável e, quase sem saber por que, ela planeja diversas tentativas de suicídio, até decidir qual ela vai por em prática. Resgatada, ela se vê entre clínicas psiquiátricas, passa por tratamento de choque, é remediada, tudo numa tentativa de trazer de volta a Esther de antes, seja ela quem for.

Esse livro é bem mais complicado do que parece. Não é de surpreender que ele tenha sido um dos mais populares entre garotas jovens americanas por tantos anos. Pude ler no original e a prosa poética da Sylvia desliza como música pela mente, mas isso não é nada comparado a sinceridade dentro do texto. Mesmo que o leitor não tenha nada em comum com Esther ou Sylvia, em nenhum momento consiga se identificar com o que lhe é descrito, é impossível não sentir alguma empatia. Não é à toa que ele tenha sido primeiramente publicado por pseudônimo, sendo ele uma chave capaz de abrir as portas daquilo que havia de mais interno na vida de Sylvia, sua mente, seus medos, suas dúvidas e até sua doença, que ela, tendo vivido no tempo que viveu, não pôde compreender tão bem quanto nós tentamos compreender nos dias de hoje.

Nunca fica claro o grau de depressão de Esther, se é bipolaridade ou o quê. Ela nunca é diagnosticada e isso só aumenta a sinceridade no texto. Hoje, que todo mundo tem acesso a livros de psicologia para iniciantes ou à Wikipedia, não é difícil pra um autor medíocre escrever sobre depressão criando um personagem que segue a risca cada um dos sintomas da doença, como quem segue uma lista de ingredientes. A Redoma de Vidro não é assim. Esther não sabe o que tem, por consequência, nem o leitor. Não sabe descrever os sintomas. Sabe apenas que ela não consegue escrever e nem ler e nem dormir, e que a falta desses prazeres tornou sua vida insuportável.

Mas não é um livro só sobre depressão. Ele também define muito bem o que era ser mulher na década de 50/60, que infelizmente não é muito diferente dos dias de hoje - salvo que hoje o machismo, apesar de fundido à sociedade, é devidamente mascarado. Esther, que aprendeu a vida toda a quase fetichizar sua virgindade e proteger sua pureza, é obrigada a encarar que o mesmo não é exigido do seu namorado de escola, que ela declara como hipócrita e passa a desprezar, ao saber que ele perdeu a virgindade antes de começar a se relacionar com ela. Então ela passa a querer ser igual, mas não pode ter um filho. Aí ela se vê diante do dilema: ser mãe ou ter uma carreira, ser livre e sozinha ou ser uma mulher de família, virgem reprimida ou vadia perante à sociedade. Esther, talvez da mesma forma que Sylvia, não encontra respostas para essas perguntas.

Esse é um livro importante e valioso, que carrega uma mensagem atemporal. Uns diriam que é ideal para mulheres entre os quinze e vinte e tantos anos. Pode ser. Mas é importante para homens também. É uma questão de empatia. Aprender a ver as coisas pelos olhos de outro. É impossível para um homem entender completamente a condição da mulher, mas livros como esse ajudam a criar uma perspectiva mesmo que artificial. E, deixando de lado o aspecto social, mais do que tudo A Redoma de Vidro é literatura de primeira qualidade.

Nota: 5/5

Obs.: eu li no original, mas existe uma tradução brasileira até que recente lançada pela Biblioteca Azul.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Chinua Achebe


Chinua Achebe nasceu em 1930, em Ogidi, sudeste da Nigéria. Seu nome completo é Albert Chinualumogu Achebe,  mas na universidade renegou seu nome britânico, Albert, para adotar seu nome indiano, abreviado, Chinua. Filho de pais cristãos evangélicos, sendo o pai professor de uma escola missionária. Recebeu sua educação em inglês,  mas nunca se afastou da cultura igbo, a qual pertencia etnicamente.
Em 1944, ingressou na Universidade de Ibadan, onde estudou Medicina, Teologia, História e Língua e Literatura Inglesas, obtendo seu diploma em 1953.
Escreveu sempre em língua inglesa, mas nunca deixou de incorporar vocábulos e narrativas igbo. Se tornou um grande narrador do colonialismo europeu na África, tendo como algo marcante em sua literatura, a facilidade de transformar em escrita o que antes fazia parte da tradição oral.


Em 1958, publicou o livro Things Fall A Part (publicado no Brasil pela Companhia das Letras, como O Mundo Se Despedaça), que causou um impacto muito grande, sendo um doa livros mais lidos do século XX. Para se ter ideia, é leitura obrigatória nas escolas da África e é estudado em muitos países de língua inglesa.
Este livro retrata bem componentes da cultura africana antes da intervenção do colonizador: a divisão por tribos, a presença dos ancestrais, a hierarquização dentro da família. No livro, temos em Okonkwo, uma síntese do homem africano antes da colonização: um bravo guerreiro, que possui três mulheres e muitos filhos, sempre em busca de prosperidade e respeito. Quando o homem branco chega, Okonkwo vê o mundo se desmoronar na sua frente, literalmente, quando pessoas próximas a ele, aderem a nova crença trazida.

Em 1960, o autor publicou Longer At Ease e em 1964, Arrow Of God, publicados no Brasil pela Companhia das Letras como A Paz Dura Pouco e A Flecha de Deus, respectivamente.

Em seu extenso currículo encontramos o cargo de professor universitário em maior destaque.
Vítima de um acidente de carro em 1990, o autor passou a andar de cadeira de rodas. Ficou sem escrever por muito tempo, mas continuou dando aulas. 
Veio a falecer aos 82 anos, nos Estados Unidos, onde residia com sua mulher e seus quatro filhos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Minhas previsões para o Oscar 2015


Chegou aquela época do ano em que todo blogueiro que normalmente não vê nada além de blockbuster se torna um cinéfilo experiente, a temporada das premiações, a principal dela sendo o Oscar. Ano passado fiz meus chutes minhas análises profundas e embasadas. Podem ver aqui, não me saí tão mal. Agora repito o papel de profeta do apocalipse, mostrando a lista de candidatos pra vocês e dizendo o ganhador. Afinal, eu sou um especialista (vocês nunca viram minha cara, mas eu uso óculos, então acreditem, eu sei do que eu falo). De novo, não vou falar de curtas e de documentários porque seria forçar a barra.

Melhor filme (porque aqui não é que nem a cerimônia de verdade. Aqui a gente começa pelo que importa)
Nomeados:

American Sniper
Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)
Boyhood
The Grand Budapest Hotel
The Imitation Game
Selma
The Theory of Everything
Whiplash

Por preguiça Para dar credibilidade às previsões, vi apenas dois dos filmes listados. Achei a lista mais chata do que o normal, cheia de filmes históricos, biografias e aquele filme de propaganda de guerra do Clint Eastwood. Boyhood é, aparentemente, o favorito, só pelo tamanho da produção (foram 12 anos em preparo e toda essa história que todo mundo já falou sobre), mas, pelo que eu ouvi, o resultado é pouco acima da média. Gostei de Hotel Budapeste, tem mais substância que o resto da filmografia do Wes Anderson, falando com sutileza dos efeitos da Segunda Guerra na Europa, mas acho que o Wes é um daqueles destinados a não ganhar nunca. Meu favorito é Birdman. Difícil...difícil. Eu não ia, mas vou com meu instinto e digo que o prêmio vai pra Birdman. A crítica foi bem universal na recepção dele, e o filme em si vai muito além de um artifício. Decidido: Birdman.


Melhor Diretor

Wes Anderson - The Grand Budapest Hotel
Alejandro González Iñarritu - Birdman...
Richard Linklater - Boyhood
Bennett Miller - Foxcatcher
Morten Tyldum - The Imitation Game

Mesma dúvida do primeiro. Wes Anderson, por mais que o filme tenha mais substância, ainda é o mesmo cara da simetria e das cores que todo mundo já viu e todo mundo ou aprendeu a amar ou já está de saco cheio. Estou pulando essas biografias porque todo mundo já cansou dessas iscas de Oscar, né? Os peixes não estão mais mordendo, desculpem. Ficam os dois, Iñarritu e Linklater. Iñarritu teve que medir os passos dos atores para conseguir fazer que tudo parecesse um corte só. Isso é muito mais trabalho que reunir uns amigos pra filmar um sem número de vezes durante 12 anos. Desculpa Linklater, mas eu não me impressionei tanto. Meu voto: Iñarritu.

Melhor Ator

Steve Carell - Foxcatcher
Bradley Cooper - American Sniper
Benedict Cumberbatch - The Imitation Game
Michael Keaton - Birdman
Eddie Redmayne - The Theory of Everything

Aqui a coisa muda de figura. Digo, foi bom ver o Keaton mostrando que é bom ator de novo. Mas o papel dele em Birdman foi quase autobiográfico, nenhum grande esforço aqui. Interpretar o Stephen Hawking, mesmo em um filme considerado em geral medíocre, é difícil. Não vi A Teoria de Tudo, mas o que dizem por aí é que ele carregou o filme nas costas, e eu acredito. Não tem como fazer uma interpretação mediana de alguém que sofre de esclerose lateral amiotrófica sem que ninguém perceba. Meu veredicto: Eddie Redmayne.



Melhor Atriz

Marion Cotillard - Deux Jours, Une Nuit
Felicity Jones - The Theory of Everything
Julianne Moore - Still Alice
Rosamund Pike - Gone Girl
Reese Witherspoon - Wild

Meu voto normalmente iria pra Marion Cotillard, só porque eu votaria nela pra qualquer coisa por qualquer motivo, mas eu preciso lembrar do que aconteceu em 2013? A Emmanuelle Riva, atriz lendária do cinema francês em o que pode ter sido o seu melhor papel em 56 anos de carreira, perdeu pra Jennifer Lawrence, que tudo que fez foi gritar bastante. Eu sinceramente não sei, não vi nenhum desses filmes. Dizem que Gone Girl é ótimo, mas é um suspense, e a Academia não costuma gostar desses. Wild parece inspirador o bastante, mas o final é feliz, então não vai ganhar. Still Alice é sobre Alzheimer...O parecer dos críticos foi que Julianne Moore salvou o que seria, do contrário, um filme medíocre, então, por questões de simetria e consistência, meu voto vai pra ela.

Melhor Ator Coadjuvante

Robert Duvall - The Judge
Ethan Hawke - Boyhood
Edward Norton - Bridman
Mark Ruffalo - Foxcatcher
J. K. Simmons - Whiplash



Dizem que o papel do J. K. Simmons em Whiplash é muito bom. Vi bastante gente que detesta o Ethan Hawke mudar de ideia por causa de Boyhood. Mas Edward Norton tá muito bem em Birdman, tão bom quanto o Michael Keaton. Vai pro Edward Norton.


Melhor Atriz Coadjuvante

Patricia Arquette - Boyhood
Laura Dern - Wild
Keira Knightley - The Imitation Game
Emma Stone - Birdman
Meryl Streep - Into the Woods.

Emma Stone é uma coisinha, sério, que nem a Marion Cotillard, votaria nela pra qualquer coisa. Mas ela não caiu nas graças da Academia do jeito que a Jennifer Lawrence caiu, e o papel dela é muito pequeno e fragmentado, embora bem interessante. Eu não sei por que eles continuam fazendo isso com a Meryl Streep, todo mundo sabe que ela não vai ganhar. Acho que é só pro apresentador ter aquela piada pronta. Perdeu a graça, mesmo. Por eliminação, Patricia Arquette é minha escolha. Até porque eu não posso dar todos os prêmios à Birdman, por mais que eu queira.

Melhor Roteiro Original

Birdman - Alejandro González Iñarritu et al.
Boyhood - Richard Linklater
Foxcatcher - E. Max Frye e Dan Futterman
The Grand Budapest Hotel - Wes Anderson e Hugo Guinness
Nightcrawler - Dan Gilroy

Boyhood, grande feito que seja, não tem um roteiro fora do normal, então já elimino de cara. Não sei o que Grand Budapest tá fazendo aí se foi baseado nos textos do Stefan Zweig, talvez não tenha se baseado em um específico e isso não seja suficiente pra considerar como adaptação. Se assim for, o roteiro é muito bom, brincando até com camadas (garota lendo um livro - autor contando como fez o livro - autor falando como conheceu o dono do hotel - dono do hotel contando história - autor finalizando história - autor terminando de dizer como fez o livro - garota fechando o livro), então a estrutura da narrativa é muito interessante. Iñarritu também faz um jogo com gêneros e montagem muito bom, sem falar que o texto tem que ter ritmo pra se encaixar no relógio da edição. Nightcrawler parece muito original, apesar de eu não ter tido a oportunidade de ver. Não é anormal o prêmio de melhor roteiro ir para alguém que não ganhou nenhum dos outros prêmios principais (vide Tarantino), mesmo assim vou arriscar Iñarritu. Que fique claro que essa é a categoria que me gerou maior conflito interno.


Melhor Roteiro Adaptado

American Sniper - Jason Hall
The Imitation Game - Graham Moore
Inherent Vice - Paul Thomas Anderson
The Theory of Everything - Anthony McCarten
Whiplash - Damien Chazelle

Hmm, difícil ser imparcial aqui, considerando que uma adaptação de algo tão ambicioso e confuso como um livro do Thomas Pynchon só pode ser premiável, e a reputação do Paul Thomas Anderson acende minhas expectativas. Estou tentando a chutar Whiplash ou O Jogo da Imitação, pela falta de prêmios para esses dois. Principalmente porque Whiplash não veio de um livro, mas de um curta do próprio diretor. É, outro conflito interno aqui...vai O Jogo da Imitação, não ganhou nada ainda e acho difícil esse filme passar sem prêmios.

Melhor Animação

Big Hero 6 - Don Hall et al.
The Boxtrolls - Anthoni Stacchi et al.
How to Train Your Dragon 2 - Dean Deblois e Bonnie Arnold
Song of the Sea - Tomm Moore e Paul Young
Kaguya-hime no Monogatari - Isao Takahata

É raro esse prêmio ir pra um estrangeiro, mas nenhum desses nomes me chamou atenção. Tudo me parece mais do mesmo aqui, com exceção dessa animação japonesa aí. Da última vez tive a mesma impressão, mas me rendi e votei em Frozen. Não dessa vez, meu voto vai pra Kaguya-hime no Monogatari - vocês ouviram aqui primeiro, se eu acertar, quero ser considerado profeta.


Melhor Filme de Língua Estrangeira

Ida - Pawel Pawlikowski
Leviafan - Andrey Zvyagintsev
Mandariinid - Zaza Urushadze
Timbuktu - Abderrahmane Sissako
Relatos Salvajes - Damián Szifrón

Tenho uma técnica pra escolher o ganhador dessa categoria. Sempre identifico o favorito e vou com o segundo colocado. Faço isso há anos, sempre acerto. O favorito esse ano acho que é Leviatã, porque o diretor é o mais reconhecido. O segundo...a Argentina tem um bom histórico cinematográfico, mas aparentemente Relatos Selvagens tem toques de comédia, a Academia não gosta disso. Tangerinas é o que está levando mais prêmios. Decidido, meu voto vai pra: Mandariinid.

Melhor Cinematografia

Nomeados:
Birdman - Emmanuel Lubezki
The Grand Budapest Hotel - Robert Yeoman
Ida - Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski
Mr. Turner - Dick Pope
Unbroken - Roger Deakings

Se tem uma coisa que um filme do Wes Anderson tem é boa fotografia. É provável que Ida tenha uma cinematografia mais interessante, mas filmes estrangeiros podem ser eliminados quase imediatamente dos prêmios gerais. Vai pra O Grande Hotel Budapeste.


Melhor Edição

Nomeados:
American Sniper - Joel Cox e Gary D. Roach
Boyhood - Sandra Adair
The Grand Budapest Hotel - Barney Pilling
The Imitation Game - William Goldenberg
Whiplash - Tom Cross

Uai, nada de Birdman com toda a coisa de parecer um corte só? Eita, facilita meu trabalho. Boyhood. 12 anos de produção e filmagem, sem discussão aqui. Próximo!

Melhor Design de Produção

Nomeados:
The Grand Budapest Hotel - Adam Stockhausen e Anna Pinnock
The Imitation Game - Maria Djurkovic e Tatiana Macdonald
Interstellar - Nathan Crowley e Gary Fettis
Into the Woods - Dennis Gassner e Anna Pinnock
Mr. Turner - Suzie Davies e Charlotte Watts

Ano passado eu não sabia o que isso era. Esse ano eu ainda não sei. Estou tentado a chutar Interstellar porque, bom ou ruim, é uma puta produção, mas não foi indicado pra mais nada, então o melhor é descartar. É, acho que vai pra O Grande Hotel Budapeste, pronto. Não me importo o suficiente pra elaborar.


Melhor Figurino

Nomeados:
The Grand Budapest Hotel - Milena Canonero
Inherent Vice - Mark Bridges
Into the Woods - Colleen Atwood
Maleficent - Anna B. Sheppard
Mr. Turner - Jacqueline Durran

Parafraseando meu chute do ano passado: não faço ideia. Hotel Budapeste, porque foda-se.

Melhor Maquiagem

Nomeados:
Foxcatcher - Bll Corso e Dennis Liddiard
The Grand Budapest Hotel - Frances Hannon e Mark Coulier
Guardians of the Galaxy - Elizabeth Yianni-Georgiou e David White

Gostei de Guardiões da Galáxia, mas não acho que tenha chances. Hotel Budapeste de novo.


Melhor Trilha Sonora

Nomeados:
The Grand Budapest Hotel - Alexandre Desplat
The Imitation Hame - Alexandre Desplat
Intestellar - Hans Zimmer
Mr. Turner - Fary Yershon
The Theory of Everything - Jóhann Jóhannsson

Posso chutar que vai pra esse tal de Alexandre Desplat? É trapaça, mas é uma questão de números. Acho que todo mundo já cansou do Hans Zimmer e eu não sei nada dos outros caras. Hmm...tá, eu vou escolher um: O Grande Hotel Budapeste.

Melhor Canção Original

Nomeados:
Everything is Awesome de The Lego Movie - Shawn Patterson
Glory de Selma - John Legend
Grateful de Beyond the Lights - Diane Warren
I'm Not Gonna Miss You de Glen Campbell: I'll Be Me - Glen
Lost Stars de Begin Again - Gregg Alexander e Danielle Brisebois

Olha, eu vi o "Filme do Lego" e a música era meio que um símbolo do ridículo da sociedade automatizada, então não sei porque tá concorrendo, quer dizer, a composição tem 6 palavras no máximo. Vai pra Selma, porque o John Legend é um bom compositor e Selma precisa de um prêmio pelo menos.


Melhor Mixagem de Som

Nomeados:
American Sniper - John Reitz et al.
Birdman - Jon Taylor et al.
Interstellar - Gary A. Rizzo et al.
Unbroken - Jon Taylor et al.
Whiplash - Craig Mann et al.

Vou dizer Whiplash. E não só porque eu não quero que American Sniper ganhe qualquer coisa. Mas porque um filme de música depende de mixagem de som. Do contrário, por melhor que o ator seja, a interpretação de "tocar o instrumento" não fica convincente. Se tem um filme dessa lista que depende de um som bem mixado é Whiplash.

Melhor Edição de Som

Nomeados:
American Sniper - ninguém liga
Birdman - sério, ninguém sabe quem são essas pessoas
The Hobbit: The Battle of... - me recuso a digitar
Interstellar - quase uma hora fazendo esse post
Unbroken - foda-se

Então, em Birdman tem uma cena em que o Michael Keaton dá um tapa na porta no mesmo momento em que, na trilha sonora, ouve-se o som de um prato de bateria batendo. Edição perfeita. Birdman leva o Oscar.


Melhores Efeitos Visuais

Nomeados:
Captain America: The Winter Soldier - não vou repetir a piada
Dawn of the Planet of the Apes - da categoria anterior
Guardians of the Galaxy - mas vou omitir
Interstellar - os responsáveis
X-Men: Days of Future Past - por questão de brevidade

Interstellar. Porque é o único da lista que a Academia respeita.

Vejamos quantas eu acerto. Minhas escolhas podem parecer arbitrárias, mas a verdade é que eu me esforço ao máximo para imitar o estilo da Academia quando formulo essas previsões. Tem categorias que eu posso jurar que eles só tiram um nome de dentro de um chapéu pra definir o ganhador.