Páginas

Mostrando postagens com marcador Postagens da Maria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Postagens da Maria. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Ao Farol- Virginia Woolf

Atenção, esta resenha contém spoiler!!!

Num breve resumo do enredo, pode-se dizer que este livro conta a estória de uma família que passa as férias numa casa de veraneio na Escócia, enquanto o maior desejo de um dos filhos, o mais novo, é visitar o Farol que tem ali perto, porém é continuamente impedido pelo mau tempo.

O livro é dividido em três partes: "A janela", "O tempo passa" e "O farol", as quais são compostas por 19, 10 e 13 capítulos, respectivamente. Os acontecimentos narrados ocorrem em dois dias distintos, separados por um intervalo de dez anos. Assim, em "A janela" vemos os acontecimentos do final de uma tarde e noite de setembro; em "O tempo passa", vemos os acontecimentos de dez anos após esse primeiro dia. Nesse período ocorre a Primeira Grande Guerra. Em "O farol" vemos o que acontece numa manhã após a Guerra.

Quanto aos personagens, temos a família do sr. e da sr. Ramsay com seus oito filhos. Do mais velho para o mais novo: Andrew, Prue, Nancy, Cam, Jasper, Roger, Rose e James; os convidados da família: Lily Briscoe, que é pintora; William Bankes, que é botânico; Charles Tanslay, Minta Doyle, Paul Rayley e Augustus Carmichael, que é poeta; e os empregados que cuidam da casa na segunda parte: a sra. MacNab, a sra. Bast e seu filho George.

O livro se inicia com uma fala da sra. Ramsay dizendo ao seu filho James que eles irão ao farol no dia seguinte caso o tempo esteja bom. O menino fica contente com o que ouve, mas o pai não deixa que a alegria dure muito dizendo que o tempo não estará bom, fazendo com que James o odeie.
 Ao longo dos capítulos, aparecem alguns dos convidados da família. Entre eles Charles Tanslay, que é pouco estimado pelas crianças. Logo após, Lily Briscoe que faz sua primeira aparição pintando um quadro da sra. Ramsay enquanto a vê pela janela com James e aqui, a janela é figura central. Não é à toa que este é o título da primeira parte. E o capítulo é encerrado com a visão da cabeça da sra. Ramsay "Absurdamente recortada pela moldura dourada" ( ou seja, pela janela).

Agora, vou me deter mais demoradamente no capítulo cinco dessa primeira parte. Logo no primeiro parágrafo, nos deparamos com dois tipos de exposição dos fatos: o narrar e o mostrar, que se dão através do discurso direto da personagem e do discurso do narrador. Temos o pensamento da personagem e a narração direta ao mesmo tempo. Por isso é preciso muito cuidado para não se perder durante a leitura. Um pouco mais para a frente, a voz da narrativa vaga numa indeterminação, é difícil atribuir se o que está sendo dito é feito pelo narrador ou é um pensamento da personagem, além disso, vemos que um simples ponto muda todo o sentido de uma frase.
Nesse capítulo, a sra. Ramsay tricota uma meia marrom para levar de presente ao filho do faroleiro e usa James como modelo de medição. O menino, tomado de ciúmes, fica se remexendo a fim de atrapalhar o trabalho da mãe, que se irrita e é um pouco mais severa com ele. Por fim, ela consegue medir a meia e constata que ainda está muito curta.

Em "O tempo passa", parte com menor número de capítulos, apenas 10 (curioso notar que dez é justamente o número de anos compreendido nessa parte). Ao longo dos capítulos, a passagem do tempo é quase palpável, acompanhamos a decadência e abandono da casa de veraneio que é atingida pelas intempéries, mas segue resistindo com os cuidados da sra. MacNab, da sra. Bast e de seu filho George.
Nessa parte, eclode  a Primeira Grande Guerra, Andrew é morto atingido pela explosão de uma granada, Prue morre por causa de uma complicação no parto e a sra. Ramsay também morre. Não há preparação prévia para dar a notícia das mortes, então somos pegos de surpresa com elas são anunciadas [dentro de colchetes], como se fosse só um detalhe. A implacabilidade do tempo e dos acontecimentos se faz muito marcante, mas de uma forma quase poética.

Passada a Guerra, a casa de veraneio é novamente habitada e em "O farol", finalmente se concretiza a ida ao farol, após dez anos. O sr. Ramsay leva James e Cam ao farol, os dois vão contra suas vontades, mas preferem não contrariar o pai. Paralelamente à ida ao farol, Lily Briscoe pinta seu quadro, aquele mesmo ela tinha iniciado há dez anos atrás e o termina no mesmo momento que o barco chega ao farol. Essa terceira parte é permeada pela falta que a sra. Ramsay faz, principalmente a Lily, que é a que mais evoca lembranças dos tempos passados.

O livro é genial, não tanto pela história em si, mas sim pela forma como se dá a narrativa, num fluxo de consciência no qual o estado psíquico das personagens é mais valorizado do que as ações concretas. Indico fortemente a leitura e certamente o lerei novamente.

Li este livro para a matéria de Introdução aos Estudos Literários e o professor indicou o livro da L&PM, com a tradução da Denise Bottmann, mas como está esgotado e não se encontra mais tão facilmente, ele também indicou o da Autêntica, com tradução do Tomaz Tadeu. A primeira leitura que fiz, foi do livro com a tradução da Denise e para escrever esta postagem estava com a tradução do Tomaz em mãos. Particularmente, achei a tradução da Denise mais indicada para um primeiro contato com o livro da Virginia, como foi o meu caso, mas a do Tadeu, apesar de ser um pouco mais rebuscada, também é boa.
Deixo abaixo, nas duas traduções, um trecho que eu gostei:

"(...) deviam aprender desde a infância que a vida é difícil, os fatos inflexíveis, e que a jornada até aquela terra fabulosa onde nossas mais vivas esperanças se extinguem, nossas frágeis embarcações soçobram nas trevas (...), exige, acima de tudo, coragem, verdade, e a força de resistir". -Tradução de Denise Bottmann.
"(...) deviam estar conscientes desde a infância de que a vida é difícil; os fatos, inarredáveis; e a passagem para aquela terra lendária onde nossas mais vivas esperanças se extinguem, nossos frágeis barcos afundam na escuridão (...) é uma passagem que exige, sobretudo, coragem, verdade, e força para resistir". -Tradução de Tomaz Tadeu.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

No teu deserto- Miguel Sousa Tavares

Olá, você que ainda esbarra com esse canto obscuro e empoeirado da internet. Eu lancei um livro semana passada. Tá na Amazon. Talvez você goste de ler.

O link: https://tinyurl.com/yy394a8y

Meus agradecimentos a quem vier a comprar. Comprou? Leu? Gostou? Deixa lá um comentário pras pessoas ficarem sabendo que o livro é bacana.





Passava da meia-noite quando eu iniciei a leitura de "No teu deserto" do português Miguel Sousa Tavares e o que seria só um início descompromissado, para ver como que era, acabou me deixando acordada, sem conseguir largar o livro até quase duas horas da manhã. Não fosse madrugada de um sábado para domingo, eu teria problemas para acordar cedo depois, o que não foi bem o que aconteceu, porque não eram nem sete horas da manhã e eu já estava acordada, terminando de ler o livro.
A minha primeira incursão noturna me rendeu 99 páginas de uma vez só, quase sem folêgo, não conseguia largar o livro de forma alguma. Acho que a narração descritiva aliada com a poesia que é a linguagem do português de Portugal foi determinante para me ganhar por inteira.
O livro é basicamente as lembranças de uma viagem para o deserto do "Sahara" (Saara) feito por um jornalista, que venderia as imagens para a tv portuguesa, narradas de forma descritiva vinte anos depois. Ele, com seus 36 anos, viajou acompanhado de Claúdia, uma jovem moça loira de olhos azuis, quinze anos mais nova. De início, acompanhamos suas desventuras para chegarem a tempo de pegarem o navio que os levaria para Argel, a fim de que conseguissem autorização para entrarem em outro país com todo o material de filmagem. Sua equipe, contando com o seu, era composta de dezesseis jipes e quatro motos. Eles viajaram separados e se encontrariam em um determinado ponto, depois que o "chefe" conseguisse as autorizações. 
Damos boas risadas nessa primeira parte, com toda correria para não perderem o barco e até respiramos aliviados quando conseguem embarcar. Depois, voltamos a rir com eles, que para conseguirem um lugar para dormir têm de subornar um funcionário do navio que só sabe cobrar dez mil pesetas por cada trabalho que é solicitado, depois de muito conversarem, conseguem diminuir o preço. Avançando um pouco, nossos dois aventureiros, depois de quatro dias, de muitos contra-tempos, conseguem as autorizações e vão se encontrar com o resto da equipe a tempo.
Esses quatro dias iniciais que passaram juntos, serviram para dar o tom de como seria o resto da viagem na companhia um do outro, teriam mais cinco semanas pela frente. Parece um história de amor, tudo é descrito de uma forma tão apaixonada que dá a entender que os dois se amaram muito, mas em nenhum momento a descrição revela detalhes concretos, só podemos inferir, imaginar.

"Cláudia, não precisas falar porque vamos calados. A coisa mais difícil e bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio". -(p.95)

Tenho para mim que é um livro totalmente autobiográfico, mas o autor vale-se da literatura para inserir o que seria os pensamentos de Cláudia em contraposição aos seus, assim vemos dois lados da história.


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O amor de uma boa mulher- Alice Munro



Olá, você que ainda esbarra com esse canto obscuro e empoeirado da internet. Eu lancei um livro semana passada. Tá na Amazon. Talvez você goste de ler.

O link: https://tinyurl.com/yy394a8y

Meus agradecimentos a quem vier a comprar. Comprou? Leu? Gostou? Deixa lá um comentário pras pessoas ficarem sabendo que o livro é bacana.




O livro é composto por oito contos e todos, de uma forma ou de outra, prosam sobre o papel da mulher na sociedade.
O primeiro conto é o que dá título ao livro, "O amor de uma boa mulher". Ele começa com uma informação aparentemente aleatória, a de que um museu preserva uma caixa de instrumentos de optometria, importante porque pertenceu a um médico que se afogou no rio. Logo após, a autora começa a nos dar mais informações. Aparece três garotos que descobrem o carro do optometrista afogado no rio e eles voltam para casa a fim de contarem sobre sua descoberta, então a autora destrincha a vida de cada um deles e nos faz conhecer como eles se relacionam com seus familiares e com as pessoas que os cercam, feito isso, a autora interrompe e parte para outra narração aparentemente sem ligação alguma com a primeira. Uma enfermeira cuida de uma paciente muito doente, que antes de morrer lhe revela um segredo envolvendo a morte do optometrista e assim, quando menos esperamos, as três histórias se entrecruzam e é genial.

Os contos que se seguem "Jacarta", "A ilha de cortes", "Salve o ceifador", "As crianças ficam","Podre de rica", "Antes da mudança" e "O sonho de mamãe", falam sobre traição, relacionamento entre pais e filhos, casamento, aborto e é surpreendente porque as histórias se passam ma década de 50 mas vemos que em alguns aspectos não evoluímos tanto a ponto de não termos nenhuma relação com aquele passado. Este último foi o que mais mexeu comigo. Ele é narrado por um bebê e achei fantástico como Munro construiu uma narrativa que prende o leitor da primeira palavra à última. Jill era casada com um piloto da Força Aérea que morreu na guerra quando ela estava grávida. Ela se viu sem alternativas a não ser passar a morar com a familia de seu marido, que consistia na mãe e as irmãs Ailsa e Iona. Quando a criança nasceu, Jill teve muita dificuldade em cuidar dela porque ela simplesmente não aceitava a mãe, só aceitava que Iona a alimentasse, mudando assim, toda a sua rotina. Quando Iona precisa se ausentar e Jill fica sozinha com seu filho, o bebê não para de chorar um minuto e a mãe não sabe o que fazer, tomada pelo desespero, dá remédio para a criança e ambas caem no sono, só despertando quando Iona volta, mas esta faz um escândalo porque acha que a criança está morta. É, de certo modo, agoniante acompanhar a narrativa, só pude respirar quando cheguei no último ponto final.
São histórias do cotidiano, mas a autora expõe de uma forma que até as coisas mais simples tomam proporções inimagináveis. É preciso ler disposto a se encantar, a se chocar e a se surpreender.

Alice Munro foi a décima terceira mulher a ganhar o Nobel. Ela ganhou em 2013, surpreendo porque foi a primeira vez que um autor só de contos ganhou o prêmio.  

No Brasil, temos seus livros pela Companhia das Letras: "Fugitiva" (2006), "Felicidade demais" (2010), "Vida querida" (2013) e "O amor de uma boa mulher" (2013). E pela Globo livros: "Ódio, amizade, namoro, amor, casamento" (2004).

terça-feira, 30 de junho de 2015

Eduardo Galeano: Um vizinho latino-americano para se conhecer melhor

Estava pensando sobre o que escrever esse mês e estive quase certa que seria sobre a Chimamanda Ngozi Adichie, já que recentemente li o último livro que faltava para eu ter lido todos os livros dela publicados no Brasil, mas eis que os ventos mudaram de direção e o Eduardo Galeano surgiu no caminho.


No dia 18 desse mês de junho assisti a uma palestra que tinha como título esse que peguei emprestado para intitular minha postagem: "Eduardo Galeano: Um vizinho latino-americano para se conhecer melhor" e desde então estou entusiasmada para ler seus livros. Especialmente um de seus ensaios mais conhecidos: "As veias abertas da América Latina". Que foi escrito quando Galeano estava exilado em 1971, foi proibido em diversos países que passavam por regimes ditatoriais na época e mais de quarenta anos depois, continua sendo um livro importante para se compreender o cenário geopolítico, social e cultural da América Latina. É um livro de fácil compreensão, parecendo que se está tendo uma conversa com o autor, na qual, aprendemos muito mais do que em uma aula de história na escola.
Outro fato que também me despertou a atenção é que nesse ensaio, Galeano fala um pouco sobre Carolina Maria de Jesus:
" Carolina Maria de Jesus nasceu no meio da sujeira e dos urubus.
Cresceu, sofreu, trabalhou duro; amou homens, teve filhos. Num livrinho, anotava com letra ruim suas tarefas e seus dias".
Eduardo Hughes Galeano, nasceu em Montevidéu, Uruguai, no dia 3 de setembro de 1940 e faleceu no dia 13 de abril de 2015, portanto, viveu 74 anos. Nos deixou mais de quarenta livros e todos eles traduzidos para diversos idiomas.
Foi um grande fã de futebol. Escreveu em 1995 o livro "O futebol ao sol e à sombra", onde narra o final da Copa de 1950, na qual o Uruguai ganhou de 2x1 do Brasil no Rio de Janeiro.
Em seu livro " Mulheres", de 1997, que ele mesmo editou, reúne personagens femininas que tiveram relevância ao longo dos séculos. Neste livro está presente o seguinte microrrelato (percebam como é poético):
"eu adormeço às margens de uma mulher:eu adormeço às margens de um abismo".
 Galeano foi cronista, ensaísta, repórter, crítico e publicou obras distintas, mas, mais que tudo, foi um grande pensandor. Tinha uma forte relação com as palavras. Não por acaso a escrita ocupou a maior parte de seus anos. Nos aproximou do Universo, desde o micro até o macro. Tratou de temas variados: do futebol à política, abrangendo a Literatura, os direitos humanos, a liberdade de expressão, a importância da imprensa e as questões socioambientais; tudo isso sem ser panfletário, dando voz a quem não tinha, os que eram oprimidos por causa da religião, por questões sociais, econômicas, esportivas, sexuais.


Tendo esse texto apenas como um leve apanhado de quem foi Eduardo Galeano, me respondam: é ou não é um vizinho para se conhecer melhor?


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Defesa das bibliotecas por serem democráticas

Fugindo um pouco da temática que os meus outros textos trabalharam, que era mais a questão biográfica de alguns autores com os quais tive contato, como Carolina Maria de Jesus, Chinua Achebe e Raymond Carver, na postagem desse mês irei expor um pouco da minha opinião pessoal sobre a democracia das bibliotecas.
Particularmente, acho que posso ser considerada uma entusiasta de bibliotecas, se é que isso existe. Se uma pessoa diz que está querendo ler algum livro, eu vou citar uma lista de bibliotecas em que o livro pode ser encontrado.

A situação financeira de uma pessoa é um fator que influencia na compra de livros e como minha situação financeira nunca foi das melhores, mas eu sempre gostei muito de ler, não me deixei e não me deixo limitar pela falta de capital e invisto com vigor nas bibliotecas. Não tenho muitos livros, alguns poucos foram comprados, mas a maioria ganhei de presente. Se vocês virem o meu Skoob, fica mais fácil visualizar, porque vocês perceberão que tenho um número pequeno de livros, mas o número de livros lidos é muito superior, o que é facilmente explicado pela minha dependência, digamos assim, de bibliotecas.

Há quem diga que brasileiro não lê porque os livros são caros, eu digo que brasileiro não lê porque brasileiro não quer ler. Claro que tenho plena consciência de que também há uma série de fatores que atuam nisso, motivos mais complexos e que precisam ser aprofundados, mas uma pessoa dizer que não lê porque livro é caro, é uma desculpa que não cola. Não sei as outras cidades, mas em São Paulo há diversas ações que visam democratizar o acesso a leitura, como o projeto Livro na Faixa, os Ônibus-Bibliotecas e a disponibilidade de centenas de bibliotecas pela cidade toda.

Enfim, o que quero dizer desde o começo, é que não precisa pagar para pegar livros em bibliotecas, é de graça e é por isso que eu apoio tanto as bibliotecas, porque sendo de graça, não tem exclusão social e o acesso é democratizado.


quarta-feira, 29 de abril de 2015

Raymond Carver

Por Maria Ferreira

Antes de começar, quero dizer que há tempos Carver é um escritor muito prezado por essas bandas. Em outubro de 2013, o Rafa traduziu alguns de seus poemas, em dezembro do mesmo ano resenhou o conto Por que não dançam? e em janeiro do ano seguinte resenhou o livro Iniciantes, além disso,  o autor já foi citado inúmeras vezes em outras postagens. Quando eu percebi isso, quase desanimei de escrever sobre ele por aqui, mas resolvi seguir com a ideia porque este ano eu tive o meu primeiro contato com o autor e porque cada pessoa tem sua interpretação individual (apesar da minha não diferenciar muito da do Rafa).



Raymond Carver foi um escrito norte-americano, que se aventurou como poeta, ensaísta e contista e encontrou seu ápice na narrativa curta. Nasceu em 1938, no estado de Oregon. Casou-se aos dezenove anos ao engravidar  uma jovem três anos mais nova, com quem teve dois filhos.
Viveu uma vida turbulenta, marcada pela pobreza e pelo vício no álcool. Precisou trabalhar em diversos subempregos para sustentar a família.

Em 1974 publicou Will You Please Be Quiet, Please? e em 1981, publicou seu livro What We Talk About When Talk Love (Do que estamos falando quando falamos de amor), um de seus livros mais conhecidos e que foi responsável pelo título de minimalista que o autor recebeu. Hoje é sabido que este livro foi completamente alterado por seu editor Gordon Lish. Um caso que provoca certa polêmica, porque há pessoas que dizem que se não fosse por ele, o autor talvez não tivesse obtido tanto reconhecimento e há pessoas que são favoráveis ao autor.

Raymond Carver e Tess Gallagher


Divorciou-se da esposa em 1977. Ano que, com a ajuda dos Alcoólicos Anônimos, conseguiu se livrar do vício e ano que conheceu a poetisa Tess Gallagher, com quem morou nos dez anos seguintes e casaram-se em 1988, pouco antes de Carver falecer devido a um câncer de pulmão.

Atualmente, Carver é considerado um dos grandes contistas do século vinte. Seus contos se inserem no chamado "realismo sujo" pela constante presença do cotidiano, a representação da vida de pessoas simples, numa escrita seca e sem metáforas.

Os contos do autor podem ser encontrados no Brasil pelos livros "Iniciantes", de 2009 e "68 Contos de Raymond Carver", de 2010; ambos publicados pela Companhia das Letras. É importante dizer que em "Iniciantes" temos a versão original dos contos alterados por Gordon Lish e em "68 Contos...", temos a versão alterada. A Rocco publicou o livro "Fique Quieta, por favor", mas atualmente a edição de encontra esgotada. Seus poemas ainda continuam inéditos por aqui, mas é possível encontramos algumas traduções pela internet.


sábado, 28 de fevereiro de 2015

Chinua Achebe


Chinua Achebe nasceu em 1930, em Ogidi, sudeste da Nigéria. Seu nome completo é Albert Chinualumogu Achebe,  mas na universidade renegou seu nome britânico, Albert, para adotar seu nome indiano, abreviado, Chinua. Filho de pais cristãos evangélicos, sendo o pai professor de uma escola missionária. Recebeu sua educação em inglês,  mas nunca se afastou da cultura igbo, a qual pertencia etnicamente.
Em 1944, ingressou na Universidade de Ibadan, onde estudou Medicina, Teologia, História e Língua e Literatura Inglesas, obtendo seu diploma em 1953.
Escreveu sempre em língua inglesa, mas nunca deixou de incorporar vocábulos e narrativas igbo. Se tornou um grande narrador do colonialismo europeu na África, tendo como algo marcante em sua literatura, a facilidade de transformar em escrita o que antes fazia parte da tradição oral.


Em 1958, publicou o livro Things Fall A Part (publicado no Brasil pela Companhia das Letras, como O Mundo Se Despedaça), que causou um impacto muito grande, sendo um doa livros mais lidos do século XX. Para se ter ideia, é leitura obrigatória nas escolas da África e é estudado em muitos países de língua inglesa.
Este livro retrata bem componentes da cultura africana antes da intervenção do colonizador: a divisão por tribos, a presença dos ancestrais, a hierarquização dentro da família. No livro, temos em Okonkwo, uma síntese do homem africano antes da colonização: um bravo guerreiro, que possui três mulheres e muitos filhos, sempre em busca de prosperidade e respeito. Quando o homem branco chega, Okonkwo vê o mundo se desmoronar na sua frente, literalmente, quando pessoas próximas a ele, aderem a nova crença trazida.

Em 1960, o autor publicou Longer At Ease e em 1964, Arrow Of God, publicados no Brasil pela Companhia das Letras como A Paz Dura Pouco e A Flecha de Deus, respectivamente.

Em seu extenso currículo encontramos o cargo de professor universitário em maior destaque.
Vítima de um acidente de carro em 1990, o autor passou a andar de cadeira de rodas. Ficou sem escrever por muito tempo, mas continuou dando aulas. 
Veio a falecer aos 82 anos, nos Estados Unidos, onde residia com sua mulher e seus quatro filhos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Carolina Maria de Jesus

Olá. Sou a Maria Ferreira do blog Minhas Impressões e uma vez por mês estarei aqui trazendo alguma coisa para vocês. Esse mês de janeiro quase não sai porque eu não fazia a menor ideia do que escrever,  mas o Raphael é uma cara legal e me deu total liberdade. Desse modo, inauguro o meu espaço com uma postagem sobre Carolina Maria de Jesus, porque ela é pouco conhecida e divulgada, mas as pessoas costumam se surpreender quando têm contato com a obra dela.


Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914, na cidade de Sacramento, estado de Minas Gerais. Onde viveu até 1947, quando migrou para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Chegando aqui, foi morar na zona norte da cidade, na extinta favela do Canidé, onde construiu sua própria casa usando papelão, madeira e lata.
Inicialmente, trabalhou como empregada doméstica e por não se adaptar a esse trabalho, passou a ser catadora de papel. Em cadernos que encontrou no lixo, começou a escrever como eram seus dias, a rotina na favela em que morava, em forma de diário.
Foi mãe solteira de três crianças: João José, José Carlos e Vera Eunice. 
"Como é horrível ver um filho comer e perguntar: 'Tem mais?' Esta palavra 'tem mais' fica oscilando dentro do cérebro de uma mãe que olha as panelas e não tem mais".
 "Que suplício catar papel ultimamente! Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Ela está com dois anos, e não gosta de ficar em casa. Eu ponho o saco na cabeça e a levo nos braços. Suporto o peso do saco na cabeça e suporto o peso da Vera Eunice nos braços. Tem hora que me revolto. Depois me domino. Ela não tem culpa de estar no mundo".
Em 1958, foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas e em 1960 teve seu livro, "Quarto de despejo: diário de uma favelada" publicado. Dizer que foi um sucesso é pouco, o livro teve grande repercussão nacional e internacionalmente. A tiragem inicial de dez mil exemplares se esgotou na primeira semana, foi editado oito vezes no mesmo ano e atualmente se encontra traduzido para mais de treze idiomas. E apesar de tudo isso, que é impressionante, hoje em dia, pouco se ouve e se sabe sobre Carolina. E qual o motivo disso? Não é interessante para as elites que as pessoas fiquem sabem de umas verdades, fiquem sabendo que o descaso social é muito grande e pouco é feito para erradicá-lo.
''O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo,e nas crianças".
Carolina, mulher negra, pobre, da favela, foi um tapa na cara daquela sociedade dominada por autores brancos de classe média. Sua escrita incomodou muita gente e continua incomodando, por isso ela é tão pouco conhecida atualmente, pelo menos no Brasil.
"O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, que deitam e não dormem porque se deitam sem comer".

Com o sucesso que obteu na época, Carolina comprou uma casa de alvenaria no bairro Alto de Santana e passou a ser convidada para dar palestras em faculdades, em outros estados. Foi aclamada pela crítica e todos queriam conhecer essa mulher, pouco instruída que estava fazendo tanto sucesso. Mas quando morreu em 1977, Carolina já tinha caído no esquecimento e poucas pessoas compareceram em seu enterro.
"Os meninos come muito pão. Eles gostam de pão mole. Mas quando não tem eles comem pão duro. Duro é o que pão que nós comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida que do favelado".
Ano passado foi comemorado o seu centenário e em diversas cidades, principalmente aqui em São paulo, foram realizados diversos eventos em homenagem à Carolina. Eventos nos quais, Vera Eunice, filha de Carolina, esteve presente.
Aqui em São Paulo, a biblioteca do Museu Afro-Brasil foi batizada com o nome dela e seu acervo conta com seus livros que foram traduzidos para outros idiomas.
 ''Será que Deus vai ter pena de mim? Será que eu arranjo dinheiro hoje? será que Deus sabe que existe as favelas e que os favelados passam fome?"