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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Um poema de Maria Ferreira

Fato inédito! É a primeira vez que exponho um dos meus poemas na internet. Então, não vou dizer que espero que gostem, mas espero que não achem tão ruim quanto pode ser.


Saciar

Saciou-se em beijos:
O rosto, a boca, o corpo.
Saciou-se em lavanda:
O nariz, o pescoço.
Saciou-se em carícias:
A mão, o rosto, a barriga.
Saciou-se em prazer:
A boca, o cérebro, o sexo.
Saciou-se em ser pegada
no colo e levantada no alto.
Saciou-se em ser pegada
no colo e ser levada para a cama.
Saciou-se o ego, saciou-se os ficantes.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sobre as coisas que matam e o instinto materno do governo


Poucas coisas existem que sejam melhores que essa combinação.

Inicio confessando um crime que já cometo há alguns meses: me entreguei a um novo vício, agora fumo cachimbo. Não se deixem levar pela hipérbole do termo crime, é tabaco que eu carrego nesse cachimbo, nada mais (quaisquer outras substâncias eu negaria, mesmo que fizesse uso). Sim, hábito antigo. Acho que nem meu avô cachimbava. Talvez eu tenha tido um tio-avô dado aos charutos - e gerações de parentes viciados no cigarro, mas não vem ao caso -, me falta confirmação. E vício também é um palavra forte, prefiro chamar de hobby, porém quero evitar cair na inocência que já pude observar em outros fumantes de cachimbo - pela internet - que só não dizem que esse hábito é saudável porque seria ridículo, mas têm dificuldades para admitir que vicia.

Coloquemos da seguinte forma: a diferença entre um cigarro e um cachimbo é a mesma que entre fast-food e um restaurante de alta gastronomia ou entre uma Skol e uma cerveja artesanal; em excesso, ambos fazem mal, no entanto uma pessoa dificilmente se excederá em restaurantes caros ou com cervejas artesanais, simplesmente pelas limitações que uma apresenta em comparação com a outra. Comidas e cervejas refinadas tendem a fazer as sensações trabalharem. Não basta comer ou beber, é necessário perceber os aromas, os detalhes, a apresentação, coisas que vão além da finalidade pura e simples da comida e da bebida; enquanto o fast food e as cervejas de produção em massa (sacanagem a minha destacar a Skol quando existem tantas, nacionais e importadas, que são a mesma coisa) são imediatistas, atingem a sua finalidade (falando de prazer e não nutrição) logo de cara. Fast food e cerveja comercial são coisas fáceis de consumir e baratas, portanto é tentador consumi-las em maior quantidade (tentador e possível). Por mais que seja tentador comprar uma caixa daquela Imperial Stout dinamarquesa, ela custa 30 reais por long neck,  um obstáculo e tanto contra o excesso.


O tabaco para cachimbo é a mesma coisa. Na verdade, gera até mais obstáculos. O cigarro é simples, tire um do maço, acenda, trague, sinta a nicotina. Em quinze minutos ou menos ele acaba e você se sente bem.O cachimbo bem preparado exige um ritual. Existem várias maneiras de preencher um fornilho - e eu não pretendo encher o saco de vocês os explicando - e fazer errado pode estragar toda a fumada. Só isso exige uns minutos e prática. Então vem o acendimento, a forma correta de socar o tabaco que se expande para que ele fique aceso e queime de maneira uniforme. Feito tudo isso, o processo pode levar mais de quarenta e cinco minutos. Ninguém que fume cachimbo e tenha apenas dez minutos de tempo livre, independente da sede por nicotina, vai tentar encaixar uma fumada num tempo tão curto. Até porque, seria impossível queimar todo o tabaco e tabaco de qualidade é caro demais pra ser desperdiçado. Seria como beber metade da long neck de trinta reais e jogar o resto pelo ralo - um impropério.

A minha primeira vez envolveu um cachimbo brasileiro barato de madeira compensada (hoje aposentado, trocado por dois de briar, como deve ser) e uma bolsa de Borkum Riff Black, que eu não indico pra ninguém. Pensando melhor, indico. Vejam bem, não é bom tabaco. É aromático de farmácia daqueles que mordem a língua - não espero que todos entendam essa parte do texto, mas como ele não é sobre isso, foda-se. Ruim que seja, é barato, e todo iniciante precisa de referências. Isso vale pra tudo, minha criança, tome nota: pra saber o que é bom, você precisa chafurdar na lama. Por isso digo, decidiu, depois desse texto, cachimbar - não me responsabilize por qualquer problema que você venha a ter, eu comecei por minha conta em risco e ciente das possíveis consequências; sugiro que você faça o mesmo -, comece pelos aromáticos baratos encontrados em qualquer tabacaria física ou online. Prepare sua língua, ela ficará incapacitada durante todo o dia seguinte. Mas passa e nem deixa calos ou cicatrizes.


O que motivou esse texto foi o que eu vi nessa embalagem de tabaco meia-boca. Devido a essa guerra ridícula contra o tabaco, havia nela a foto de uma mulher. Metade da cara da garota estava normal, jovem, típica de modelo iniciante que posa pra esse tipo de foto por falta de serviço melhor; a outra metade deformada por rugas, com os olhos avermelhados etc. A mensagem: fumar faz mal pra pele e envelhece. Aí eu te pergunto: e o foda-se? Não que beleza e pele tratada não importe, mas esse é o grande problema? Se tu fumar, tu fica feio? As mensagens antitabagistas já foram melhorzinhas - não, nunca foram, mas tampouco melhoraram com o tempo. E é sobre essa patetice que eu quero falar.

Pensem comigo e com o Faulkner por um instante...
É necessário mesmo essas fotos malfeitas ameaçando o fumante? Posso estar errado, mas estamos em 2015, numa era que chamam de era da informação. Existe alguém que ainda não saiba que fumar faz mal? Pra que tanta preocupação governamental? Ok, eu conheço os argumentos antitabagistas, lá vai:

1. As corporações tabagistas são demoníacas.
Deveras. Não tenho como rebater esse. De incentivar crianças e mulheres grávidas a fumarem até fazer uso de todo o truque antiético que o Direito pode oferecer para fugir de responsabilidades, sim, a indústria tabagista é um problema sério. Esse texto não tem qualquer intenção de defendê-la ou diminuir os danos que ela causou à sociedade. Quando digo que todos os avisos são exagerados, digo, em contrapartida, que qualquer publicidade para o tabaco deve se manter proibida.

2. O mundo precisa se livrar desse mal.
Não. Me desculpe, mas o mundo não precisa de nada. Faz mal fumar, lógico. Deveria ser proibido, não. Tudo faz mal. O oxigênio é o principal motivo pelo qual o ser humano não é imortal. Vamos todos parar de respirar? Ok, argumento exagerado, mas não deixa de ser válido. Levar uma vida saudável é uma decisão individual. O contrário também. Levando em conta que a pessoa não está sendo forçada ou enganada, ela tem a opção e direito de intoxicar o próprio corpo com o que ela bem entender. E isso não vale só para o tabaco - chegarei nesse ponto em breve.

3. E as crianças? Pense nas crianças!
Isso é dever dos pais regular. A única coisa que o governo pode fazer é proibir a venda para menores - o que já acontece. A loja deve ter o bom senso de não vender para o menor e ser punida caso venda. Qualquer coisa além disso é dever dos pais, que, por sinal, estão cada vez mais preguiçosos e dependentes de meios alternativos para educar seus filhos. Nunca fumei um cigarro. O motivo disso nunca foi por temer problemas de saúde, e sim por temer a minha mãe. Caro leitor, minha querida mãe sente cheiro de tabaco como um tubarão percebe uma gota de sangue no oceano. Ela e meu pai fumaram por mais de uma década até pegarem trauma e deixarem bem claro que eu não deveria chegar perto - e se eu fizesse, minha mãe me moeria, enrolaria numa seda e me fumaria em duas tragadas. Façam isso com seus filhos, simples assim. Deixando claro que, quando comecei a fumar cachimbo eu tinha 23 anos, foi por decisão própria, e todo o aparato foi adquirido com o meu dinheiro. Então, crianças, aprendam que vocês têm pouquíssimos direitos e, quando crescerem, procurem um teto próprio e façam o que acharem melhor. Pais, deixem de ser preguiçosos, o mundo não vai esconder as coisas dos seus filhos para que vocês não precisem educá-los.

4. E os fumantes passivos?
Exatamente, e os fumantes passivos? Eles não têm nada a ver com a história. Eu não fumo em público, nem pretendo vir a fumar um dia, exceto que exista um contexto que justifique. Não vou entrar no mérito da validade científica do "fumo passivo". Digamos que eu não acredito em tudo que é publicado, afinal já li matérias dizendo que ser fumante passivo é mais perigoso que fumar, o que não faz nenhum sentido, nem tampouco vi pessoas que desenvolveram câncer de pulmão/boca/traqueia ou outras doenças relacionadas ao fumo somente por de vez em quando passarem por perto de alguém que está fumando (embora já tenha visto pessoas que viveram praticamente num convento e morreram das mesmas doenças). Considero isso menos um problema de saúde pública, mais uma questão de respeito. Pessoalmente, sou contra fumar em público simplesmente por isso: nem todo mundo gosta. Só acho engraçado que muita gente não gosta de álcool, no entanto o consumo da bebida é muito mais aceito em público (o famoso "beber socialmente") que em casa sozinho. Vai entender a humanidade.

Simples e direto ao ponto. Infelizmente estragam a arte das latas, que eu, particularmente, gosto. Por sorte as minhas não têm isso.

A pior parte é que esse texto é meio que eu entrando numa luta que não é minha e que faz pouco sentido. Vejam bem, não me incomoda nem um pouco os avisos no cigarro (eu não fumo cigarros mesmo) ou nos pacotes de tabacos nacionais (também parei de comprar esses e minha língua agradece). Ou seja, não só não me incomoda como também eu nem chego a ver as porras dos avisos. Aí eu comprei uma lata de tabaco importado e não vi aviso nenhum. Só atrás tinha uma frase alertando dos perigos do fumo e só. O suficiente na minha opinião. Bastaria, não? Afinal de contas, fumar, como qualquer hábito prejudicial, é um exercício individual de liberdade. Qual o motivo de seguir tentando convencer uma pessoa adulta e consciente de mudar um hábito ao qual ela resolveu se entregar por vontade própria desde o início?

Hunter S. Thompson - early years. Reza a lenda que ele fazia uma mistura de Vanilla Black Cavendish (um aromático bastante perfumado, mas, na minha opinião, sem gosto) com haxixe, pra poder fumar em público sem ser incomodado.

Vou mais além. Em geral, qual a lógica por trás desses avisos e por que a mesma lógica não é aplicada a tudo na vida? Digamos que o objetivo seja alertar da forma mais gráfica possível sobre os perigos da substância prejudicial apenas para que não reste dúvidas. Ok, sendo assim, por que eu não vejo sobre os rótulos da cerveja (ou qualquer bebida, só citei a cerveja pela popularidade) fotos de carros destruídos, lares quebrados e famílias disfuncionais, fotos dos órgãos danificados pelo abuso do álcool, de fetos deformados, de brigas de rua, de câncer na boca/traqueia/estômago/etc., de mendicância. São efeitos do abuso do álcool também - não só abuso, mas do uso constante por longos períodos de tempo também. E isso vindo de uma pessoa que bebe. Por que não enfeitar cada pacote de açúcar com os possíveis danos que a substância pode causar ao organismo? Chocolates com fotos de obesidade mórbida e membros amputados por consequência. Não acho que estou exagerando. A lógica é a mesma: alertar o consumidor dos danos em potencial. Além do mais, a indústria do tabaco pode ser demoníaca, mas a do álcool, do fast-food e do açúcar (nessa incluo doces em geral e refrigerantes) não fica atrás. Pelo contrário, estas últimas raramente são responsabilizadas pelos danos que causam aos seus consumidores, com exceção, talvez, do McDonald's. Por exemplo, o refrigerante. Em teoria, quando ele foi desenvolvido, o plano era fazer uma bebida doce que servisse como um momento de prazer, uma coisa casual, de uma garrafa (375ml) por semana - isso nas primeiras décadas de desenvolvimento da bebida, quando ela era criada muitas vezes por incidente farmacêutico. Hoje o refrigerante é produzido em massa, em garrafas até 3 litros e o consumo é incentivado a todo o momento. Vocês pensam que isso não é muito mais prejudicial que um maço de cigarros por semana ou até por dia? Mesmo assim, não se fala de botar avisos nos rótulos de Coca e Guaraná. Convenhamos, se tudo que faz mal vir com aviso, logo só as camisinhas vão seguir com a embalagem intacta, afinal, a única forma de impedir uma morte é prevenindo contra uma nova vida.

Eu não quero ser mal interpretado. Assim como sou contra fumar em público, sou contra as propagandas de cigarro e bebida - principalmente porque elas não falam do produto, ao invés disso só mostram um estilo de vida desejável e de maneira alguma relacionado ao produto. Só considero essa demonização tão direcionada ao tabaco bastante estúpida e impensada. Me preocupa seriamente que aos poucos nós estejamos caminhando a uma nova forma de proibição. Incitar um possível tráfico de cigarros, além de retrógrado - o objetivo agora deveria ser legalizar a maconha, não ilegalizar mais coisas -, não dá certo. Proibição nunca foi nem nunca será um caminho eficiente como medida de saúde pública. O que o governo deveria finalmente entender é que ele não é nossa mãe. Ele pode impedir que as indústrias dessas substâncias dominem o mundo limitando o que elas podem ou não fazer, mas não podem parar o consumo - e medidas que envolvem explorar medos e nojos são patéticas. Tenhamos em mente que existem registros escritos na Grécia antiga sobre o ato de fumar folhas de tabaco em objetos de barro parecidos com cachimbos, e que povos indígenas sempre tiveram esse hábito, tanto com tabaco quanto com ervas. Sempre vai existir porque o ser humano desenvolveu uma angústia que precisa ser aliviada por meio do prazer, e a nicotina - como o álcool e o açúcar e a gordura - é uma fonte de prazer, relaxamento, e, no caso do cachimbo, sabor.

***

Gostaria de saber a opinião de vocês, fumantes e não-fumantes, sobre esse assunto. Por enquanto não tenho planos de falar sobre cachimbos no blog. Pelo menos não quero dar dicas de como encher o fornilho, acender e manter aceso o tabaco etc. Resenhas de tabacos são uma possibilidade ou no blog ou na página do facebook. Vocês me digam se interessa.

domingo, 19 de julho de 2015

Poema 81

linhas de prédios, tudo cinza,
janelas sem luz numa sexta-feira às dez e meia.
sacos de lixo largados enfeitam
as portas de ferro trancadas das lojas.

em meu templo urbano da decadência
cenário monocromático de filme romeno
vejo dois jovens caminhando em círculos
sobre a fonte desligada abastada de moedas
e um casal se beijando no banco da praça
enquanto uma moça de fora assiste
pela janela do apartamento e boceja
e fecha as cortinas e apaga a luz.

uma velha metida a besta, disse uma gari
para outra,
ontem me disse
ela apagou meu cigarro e me disse
apaga isso que isso mata, acredita?
eu disse, gente morre de raiva também.
e um estranho me vê rindo da genialidade
e passa.
uma bicicleta passa, namorados,
a garota faz sons de moto (vrum vrum vrum) com a boca.
tô fazendo mal pra mim ou pra tu,
a gari continua.
eu sigo rindo, então paro.

essa rua é tão vazia à noite.
moraria nessa melancolia nua
não fosse o problema do dia.

outra bicicleta. ponho as mãos no bolso.
alguém me disse, sozinho, sempre se finja armado,
ou, se der merda, grita fogo.
ele se aproximou falando e rindo. isso não podendo estar armado.
pensei em métodos de defesa que nunca precisei praticar,
mas era só um cara
meia idade, cultivando um mullet e
cantando canções evangélicas,
cumprimentando uns outros jovens que vinham em sua direção.

vejo, ao me aproximar do boteco destino,
palhaços na corda bamba
e danças circulares nas praças escuras
adentro uma nuvem de nicotina que se espalha.
boa noite, alguém me diz,
e eu sento no balcão e peço uma cerveja.
nessa vida eu ainda não consegui ficar entediado
com o mais do mesmo que nunca é bem igual
quando o sol se põe.