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terça-feira, 30 de junho de 2015

Eduardo Galeano: Um vizinho latino-americano para se conhecer melhor

Estava pensando sobre o que escrever esse mês e estive quase certa que seria sobre a Chimamanda Ngozi Adichie, já que recentemente li o último livro que faltava para eu ter lido todos os livros dela publicados no Brasil, mas eis que os ventos mudaram de direção e o Eduardo Galeano surgiu no caminho.


No dia 18 desse mês de junho assisti a uma palestra que tinha como título esse que peguei emprestado para intitular minha postagem: "Eduardo Galeano: Um vizinho latino-americano para se conhecer melhor" e desde então estou entusiasmada para ler seus livros. Especialmente um de seus ensaios mais conhecidos: "As veias abertas da América Latina". Que foi escrito quando Galeano estava exilado em 1971, foi proibido em diversos países que passavam por regimes ditatoriais na época e mais de quarenta anos depois, continua sendo um livro importante para se compreender o cenário geopolítico, social e cultural da América Latina. É um livro de fácil compreensão, parecendo que se está tendo uma conversa com o autor, na qual, aprendemos muito mais do que em uma aula de história na escola.
Outro fato que também me despertou a atenção é que nesse ensaio, Galeano fala um pouco sobre Carolina Maria de Jesus:
" Carolina Maria de Jesus nasceu no meio da sujeira e dos urubus.
Cresceu, sofreu, trabalhou duro; amou homens, teve filhos. Num livrinho, anotava com letra ruim suas tarefas e seus dias".
Eduardo Hughes Galeano, nasceu em Montevidéu, Uruguai, no dia 3 de setembro de 1940 e faleceu no dia 13 de abril de 2015, portanto, viveu 74 anos. Nos deixou mais de quarenta livros e todos eles traduzidos para diversos idiomas.
Foi um grande fã de futebol. Escreveu em 1995 o livro "O futebol ao sol e à sombra", onde narra o final da Copa de 1950, na qual o Uruguai ganhou de 2x1 do Brasil no Rio de Janeiro.
Em seu livro " Mulheres", de 1997, que ele mesmo editou, reúne personagens femininas que tiveram relevância ao longo dos séculos. Neste livro está presente o seguinte microrrelato (percebam como é poético):
"eu adormeço às margens de uma mulher:eu adormeço às margens de um abismo".
 Galeano foi cronista, ensaísta, repórter, crítico e publicou obras distintas, mas, mais que tudo, foi um grande pensandor. Tinha uma forte relação com as palavras. Não por acaso a escrita ocupou a maior parte de seus anos. Nos aproximou do Universo, desde o micro até o macro. Tratou de temas variados: do futebol à política, abrangendo a Literatura, os direitos humanos, a liberdade de expressão, a importância da imprensa e as questões socioambientais; tudo isso sem ser panfletário, dando voz a quem não tinha, os que eram oprimidos por causa da religião, por questões sociais, econômicas, esportivas, sexuais.


Tendo esse texto apenas como um leve apanhado de quem foi Eduardo Galeano, me respondam: é ou não é um vizinho para se conhecer melhor?


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Poema 80

 
quando eu falo de medo da morte
esse medo de que falo não vem do fim.
ele vem em parte do instante, da dúvida,
da ideia que as luzes podem se apagar agora
por qualquer razão ou razão alguma.
e foda-se céu e inferno e purgatório
e toda sorte de divindades e forças
formas de punição e recompensa, tudo correias e
cintos de castidade,
loucuras de gente que repudia sua própria humanidade.
quem quer saber de Aquino ao conhecer Sade?

o que é o sofrimento do inferno e seu fogo e torturas
comparado à certeza de que a realidade é temporária?
que tudo acaba e nosso tempo nada significa?
que sentido real é ilusão, canção de ninar adultos?
fecho os olhos e tento experimentar o nada,
a sensação que vivi antes de nascer, e
meu coração dispara e tenho medo que não volte
porque se não voltar é o fim e o fim é o começo do meu pavor.

pior que isso, imaginem, seria a ausência do fim,
que terror a eternidade.
paraíso inferno purgatório - torturas em comum.
        paraíso como tortura da servidão
        purgatório como tortura do tédio
        inferno como tortura em si.
mas o terror real vem do eterno
da sequência sem interrupção
da frase sem ponto.
ver os outros partindo enquanto
você fica para trás e espera sem saber o quê.
gerações e gerações que passam, construções que viram pó 
enquanto você contempla impotente e sem descanso.
maldição como nenhuma outra.  
     
a fecundação é uma sentença,
o sofrimento consequência,
e ainda querem tornar pecado o prazer que
resiste, todavia, ao redor.
o que resta?, eu pergunto

quinta-feira, 25 de junho de 2015

No meio do caminho #1

Antes de qualquer coisa, fica aqui registrado o agradecimento à colaboradora do blog e amiga Maria, do Minhas Impressões, que fez uma divulgação bacana do blog e deu uma ideia pra uma coluna nova. Vejamos o que dá isso aqui.

A ideia de "No meio do caminho" é dizer o que eu estou lendo agora, como está a leitura, ao estilo resultado parcial da Telesena. Tenho mania de dividir meu tempo entre mais de um livro, até que um engrena mais que o outro, aí me foco nesse até terminar. Agora estou lendo:

O Erotismo - Georges Bataille.
Autor conhecido como um dos primeiros membros do surrealismo francês do começo do século XX, Bataille foi, além de romancista, filósofo, tendo publicado vários livros teóricos sobre vários temas (religião, simbolismo, sexo, tabu, psicologia, economia, entre outros temas). Também era, em suas próprias palavras, um louco lúcido. Fascinado pelo conceito de sacrifício humano, fundou a sociedade secreta Acéphale, que, reza a lenda, tinha intenção de sacrificar uma pessoa como ritual de inauguração. Nenhum dos membros se habilitou a ser carrasco, por isso desistiram da ideia. O Erotismo toca nesse e em vários outros pontos, no que tange a sexualidade humana, a violência e os conceitos de tabu (que ele chama de interdito) e transgressão. Um livro no mínimo complicado. Não serei capaz de resenhá-lo porque simplesmente não é o tipo de livro que se resenha. A maneira como os temas são tratados é fascinante e, apesar de eu estar ainda na página 100, quero estudar mais sobre o assunto. (E convenhamos que a capa é um espetáculo.)

As pessoas parecem flores finalmente - Charles Bukowski
Primeiro, de vários volumes de poesia publicados postumamente, que leio do Charles Bukowski. Antes dele, li Misto quente, Cartas na rua, Factótum e O amor é um cão dos diabos. A poesia do Bukowski é como um conto feito em versos livres. Todo mundo sabe que a lírica dele é questionável, pra dizer o mínimo. Mas, da mesma forma que Bob Dylan consegue ser um dos melhores cantores da música mesmo sendo um cantor de merda, Bukowski consegue transmitir emoção como se não fosse nada. O cara é visceral e forma imagens de beleza surpreendente, considerando a, em geral, "feiura" de sua matéria prima. Costumo dizer que ele é um Henry Miller rústico, sem aquela linguagem bem polida (não confundir o polida com educada ou formal, o sentido que eu quero aplicar aqui é de "bem construída"). Provavelmente será o primeiro da lista que vou terminar.

O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro - Sérgio Sant'anna
Considerada uma das principais coletâneas de contos do Sérgio - já passou tantas vezes por aqui que não vejo razão pra formalidades -, foi publicado pela primeira vez na década de 80 e relançado ano passado. Estou lendo aos poucos, um conto por vez, sem pressa.

50 tons de cinza - E. L. James
 Pra esse eu acho que devo umas explicações. É o seguinte, eu fui pago pra ler essa porra. Me deram 21 reais e me emprestaram o livro. Aceitei. Faz meses que tô enrolando com essa desgraça. Tô na página 330, mais ou menos, e é um tédio. Terá resenha. Acho que será minha obra-prima. O livro, no entanto, é bem seguro dizer que é o pior que eu já li na vida - sério, me fez sentir falta do Draccon (pelo menos do Draccon foi curto). Posso incluir aqui que meu preço pra ler as continuações subiu consideravelmente.

É isso. São 4 livros, coisa pra cacete. Tenho planos de resenhar 3 deles, então, provavelmente, só um será resenhado. Não sei se gostei desse esquema de postagem, me pareceu encheção de linguiça. Vocês acharam alguma coisa?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Alguém me dá um desfibrilador urgente, este blog está morrendo.


Então meu povo, não adianta esconder, eu sei que tem leitor por aqui. Poucos, mas tem. Aqui estou me dirigindo a vocês pra perguntar: o que cês querem que eu escreva nessa porra?

Seguinte, conteúdo na minha cabeça não falta, a merda é saber como colocar ele aqui. Resenha é tudo a mesma coisa. Não importa quem faça, onde, com que abordagem, só muda a coisa resenhada. Tá, tem gente que fala mais, tem gente que fala menos, tem gente mais técnica, tem gente passional. As resenhas mudam conforme o resenhista, mas toda a resenha de um resenhista é igual às outras resenhas.

Conto? Poesia? Boto aqui quando tem. Se não tem, é porque acabou o estoque. Não sou desses que escrevem sobre qualquer coisa, duas páginas, e jogam no blog sem preocupação. Eu tenho o mal do perfeccionismo. Se a porra do conto não estiver conforme os meus misteriosos padrões de qualidade, não sai. Não mostro pra ninguém nem fodendo.  Na maior parte das vezes, sem ter um final na cabeça, nem começo. Romances podem começar sem final; contos não. E poesia precisa de uma ignição, uma chama que a alimente. Não é coisa que se faz partindo de um tema forçado. Isso é bom pra praticar, mas é vergonhoso de deixar que leiam.

Crônica pessoal? Me admira gente que consegue arrancar texto de qualquer coisa. Tem gente nesse mundo de blog que vê uma poça d'água de formato diferente e isso já vira um texto pessoal, cheio de autoanálise e autoajuda. Admiro essa gente porque eles fazem uma coisa que eu não sei fazer. Espremer texto de coisas. Será que eu não sou profissional o bastante? Pergunta retórica, povo, não sou profissional mesmo, ai de mim me tornar um. A palavra "blogueiro" me dá arrepios. E sinto náuseas quando escuto certas pessoas falando de escritor profissional (leia: aquele canalha que caga quinze livrecos por ano - seis infantojuvenis, quatro de crônicas, um romance thriller, três infantis e um manual sobre como escrever).

O que falta? Aqueles meus posts sobre música? Pintores? (Logo eu que não sei porra nenhuma de pintura.) Gente, existe o Google. É dali que eu tiro o conteúdo. O texto é um copia-e-cola descarado. Um tédio de fazer. Só não é tédio quando eu estou ouvindo as músicas ou olhando as pinturas, mas eu não preciso de uma postagem pra isso. E qualquer outro troço - artístico ou não - que eu decida falar sobre vai sofrer o mesmo destino. Três textos empolgados, quase - ouso dizer - com cheiro de coisa nova, e então cair na mesmice.

Sinto que o blog está morrendo. Falta de leitores? Como se arranjam leitores? Tem gente que consegue, mas não sei o segredo. Simpatia, provavelmente. Devo ter o blog mais antipático da internet. Só a página principal já é um repelente. E esses textos, que vem de tantos em tantos meses, reclamando, não ajudam. Porque o blog vai persistir, como o Sílvio Santos, minhas calças caíram, minha dentadura voou e o parafuso que me restava na cabeça soltou, mas cá estou eu. Sou apegado. Apagar o blog me dá medo e deixar largado me traz culpa. Não sei o que eu tô fazendo mais, se é que um dia eu soube.

Não tem reclamação mais vazia que essa porque, como dizia Dr. Falcão, supunhetemos que de repentelho amanhecesse e minha página do facebook surgisse com duas mil curtidas. E daí? Aí a caixa de comentários aparecesse com dez comentários por postagem, metade contribuição de outros blogueiros por causa de um comentário que eu deixei pra ele, outra metade gente pedindo pra eu contribuir. Pronto, seria o golpe final pro meu blog. Aí eu me envergonharia dele e de mim. Queria ter a chance de perguntar pra um desses ó grandes blogueiros como eles se sentem quando veem trinta comentários, quarenta que seja, numa só postagem, mil visualizações num dia, uma porrada de compartilhamentos, se existe qualquer prazer nisso.

A questão aqui é o ego. É essa vontade bizarra de querer ser visto como um gênio sem ter feito qualquer coisa de genial. Sem ter feito qualquer coisa. Qualquer sucesso virá seguido imediatamente de uma insatisfação, essa é a natureza humana. Meio pretensioso tratar disso em um texto que é essencialmente sobre um blog, mas se encaixa para qualquer coisa. Se o que você faz é um blog, essa será sua preocupação. A partir do momento que você recebe as tais milhares de curtidas, você passa a desejar dezenas de milhares, então centenas, então milhões, e aí o blog deixa de ser o bastante. Nesse ponto, o blogueiro lança um livro e repassa as mesmas ansiedades que antes eram do blog para o livro - a coisa nova; coisa essa que é uma representação dele em objeto. Aí o livro vira bestseller, mas o desejo não é mais esse. O desejo passa a ser posteridade - que a obra dure até após a morte do autor, que é a coisa mais absurda que alguém pode desejar nos dias de hoje, mas, supondo que ocorra, é da mesma forma insignificante já que não existe uma eternidade por assim dizer, eventualmente tudo, de bom ou de mau, rui, simplesmente porque civilizações inteiras ruíram e um livro é só um livro, um conjunto de palavras, uma representação física de uma consciência.

É isso mesmo que vocês estão lendo, eu transformei uma reclamação em uma análise niilista da existência, me desculpem. E vocês podem acreditar que meu próximo passo será voltar atrás nisso tudo e voltar a falar do blog. Vejam bem, a partir do momento que se conclui que nada disso importa pro universo, por que isso segue importando pra mim? Por que eu não consigo seguir com meu velho copia-e-cola, espalhando coisas que eu gostaria que os outros conhecessem? Estava funcionando até então e é o máximo que eu posso sonhar em conseguir - alcançar um número mínimo de pessoas e ajudá-las a conhecer coisas que elas não conseguiam antes (meio que como uma versão mastigada do Google - você não vai procurar sozinho, então toma aqui o que eu achei). Pior ainda, por que eu sigo reclamando mesmo sabendo muito bem que, vindo a suposta solução, ela não me trará prazer algum? Basicamente, estou propondo um problema que, não só não tem solução, eu estou pronto para resistir a qualquer hipótese de solução. Eis o ser humano, meu povo.

Obs.: de qualquer forma, eu ficaria agradecido com quaisquer sugestões para conteúdo.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Androides sonham com ovelhas elétricas? (Do androids dream of electric sheep?) - Philip K. Dick [1968], seguido de uma breve comparação com Blade Runner



Eu provavelmente, antes de começar, deveria escrever uma coisa ou outra sobre a recente ausência total de resenhas nesse blog. Se alguém ainda se interessa em saber, o motivo é aquilo que eu já falei sobre várias vezes: detesto resenhar. Vejam bem, não que eu desgoste de falar sobre coisas que me agradaram, mas é que, quanto mais o tempo passa e eu penso sobre o ato de resenhar, mais inútil eu acho que ele é. Toda aquela questão do gosto ser subjetivo. Poderia resumir, por exemplo, numa frase recorrente em resenhas, principalmente amadoras em sites como Skoob, IMDB, locais que permitem a disseminação indiscriminada de opiniões pessoais. É muito comum encontrar nesses textos gente que diga não achar ter experimentado a mesmo coisa que os outros (geralmente quando a opinião em particular é diferente da média). Mais e mais eu acredito na literalidade dessa frase. Cada experiência é única, cada leitura forma um livro diferente etc. Não somos "programados" da mesma maneira. Isso quer dizer que não é interessante saber como foi a experiência do outro? Não. Talvez seja por isso que eu insista. Só espero que eu não seja levado tão a sério.

Num futuro próximo, pós-apocalíptico, resultado de uma guerra nuclear, os seres humanos são incentivados a emigrarem para Marte - ganhando um androide para chamar de seu na viagem -, colônia da Terra. Aqueles que não querem viver em Marte e aqueles que não podem porque foram atingidos pela radiação (chamados "especiais" ou cabeça de galinha) são obrigados a ocupar os pequenos cantos habitáveis da Terra. Por causa da radiação, a maior parte dos animais foi exterminado, por isso cuidar de um é sinal de status, principalmente quando o animal é raro e não doméstico. Rick Deckard, caçador de recompensas, tinha uma ovelha, mas ela morreu e foi substituída por uma elétrica - motivo de vergonha para Deckard e sua esposa, por isso ninguém da sua vizinhança sabe que ela é falsa, enquanto ele planeja comprar um animal de verdade, um grande, como um cavalo - que está começando a dar defeito.

Caçadores de recompensa são necessários para capturar e "aposentar" androides que fogem das colônias para viver na Terra - o que é proibido. Inicialmente era fácil distinguir um androide de um ser humano, mas, com os avanços tecnológicos, os modelos foram se aproximando cada vez mais da realidade, tornando necessário o uso de testes. O que Deckard usa, considerado o mais eficiente, é o Voigt-Kampff, em que uma série de perguntas é feita ao androide e o caçador analisa, com o auxílio de máquinas, suas reações. As perguntas buscam verificar a presença da única coisa do ser humano que o androide ainda não consegue simular, a empatia - principalmente perante animais (vale apontar que animais não são só sinal de status, a extinção da maior parte deles causou também uma mudança de atitude no ser humano e consumir carne, por exemplo, foi proibido e considerado imoral - essencialmente o livro diz que no futuro seremos todos veganos).

Deckard é encarregado de aposentar seis fugitivos de um modelo novo de androide, o Nexus-6, que supera o ser humano em várias características e é até capaz de fingir empatia - embora não reaja na mesma velocidade de um humano. Essa proximidade faz Deckard questionar a ética da sua função.

O livro é narrado em terceira pessoa, sendo que o ponto de vista varia entre Deckard e J. R. Isidore, um especial, que trabalha numa clínica para animais elétricos e abriga um grupo de androides após se apaixonar por uma delas - e ele se identificava melhor com androides do que seres humanos já que suas limitações eram muito similares às deles. Enquanto Deckard tem uma visão e conhecimento amplo da sociedade ao redor, Isidore conhece apenas o que o único entretenimento permitido no planeta o informa (os programas de rádio e televisão do Buster Gente Fina e seus Amigos Gente Boa) e aquilo que o mercerismo (religião dessa nova sociedade) prega.

É complicado falar desse livro por culpa de todos os pequenos detalhes. Em duzentas e trinta e poucas páginas, Philip K. Dick fala sobre religião, drogas - nesse caso, aparelhos eletrônicos que literalmente permitem que a pessoa escolha suas emoções como quem escolhe um prato de um cardápio de restaurante -, existência e o que faz um ser humano. Ele tem a habilidade de levar o leitor em suas próprias divagações e fazer com que ele também questione a si mesmo. Por exemplo, a partir de o momento em que uma forma inorgânica, artificial, moldada para parecer humana e programada para agir como tal, desenvolve autoconsciência e a ilusão de que é, como qualquer outro ser parecido com ela, viva, o que faz dela menos humana considerando que nós, não-artificiais, não sabemos de onde viemos, para que viemos etc. Com ou sem uma presença divina criativa, somos criatura; se do acaso ou do Macaco Sábio da Montanha, não importa. Também somos criativos. Se chegarmos ao ponto tecnológico de sermos capazes de criar uma forma de vida artificial, o que faria dessa criatura inferior a nós criaturas/criadoras? E se nossa criatura for, também, capaz de criar com a mesma habilidade. E assim segue. Pois é. Não sei. Efeitos colaterais desse livro, vejam só.

Então, em 1982, Blade Runner saiu nos cinemas, dirigido por Ridley Scott. É difícil comparar os dois, pois são animais diferentes. Arriscaria dizer que é a adaptação perfeita. Diferente do original, consciente da diferença entre os meios literatura e cinema, ainda respeitosa da essência da obra adaptada. Um complementa o outro, na verdade. O próprio autor, que viu algumas cenas - morreu antes do lançamento do filme - durante a edição, disse que as imagens eram representativas de sua imaginação (e se existe uma raça difícil de agradar é o escritor; lembrando que Stephen King odiou O Iluminado, e Anthony Burgess odiou Laranja Mecânica, ambos do Kubrick).

No filme, todo o lado que fala sobre os animais não foi citado. Lembro de ter visto uma cobra elétrica, mas ela é só cenário, talvez uma referência, mas Deckard não tem uma ovelha. Por questões mercadólogicas, o Deckard do filme é muito mais novo que o do livro, interpretado pelo Harrison Ford, já famoso por Guerra nas Estrelas. E ao invés de Deckard ser um caçador de recompensas como qualquer outro, de 50 e poucos anos, casado, de classe média baixa e, em geral, insatisfeito, ele é considerado o melhor blade runner (nome que o filme deu aos caçadores de recompensa, mas que não aparece nenhuma vez no livro - na verdade é referente a outro livro, quase desconhecido, de ficção científica), mas quer se aposentar, a caça aos androides de novo modelo é sua última. Os androides, por sua vez, não são só mais inteligentes, são mais fortes e ágeis que os seres humanos, e muito mais violentos no filme que no livro.

O Deckard do filme ainda é atingido pela dúvida existencial, mas é muito mais sutil. Soube que o filme foi para o cinema com narração dos pensamentos do Deckard (coisa que Harrison Ford odiou fazer), mas eu não vi essa versão. Indico pra todos a versão Director's Cut, que tem cenas a mais e cortaram a narração. As expressões do Ford bastam pra deixar a crise existencial subentendida. Já Isidore, quase não faz parte do filme. O seu ponto de vista não é mostrado, no seu lugar, acompanhamos a androide que vive com ele em maior detalhe - toda a questão dos cabeça de galinha é ignorada. O filme também não mostra o Buster Gente Fina nem muito menos seus Amigos Gente Boa.

Incompleto que seja, o filme é um espetáculo visual. Apesar de 2019 não ser mais um futuro distante e estarmos longe do tipo de sociedade retratada e suas tecnologias - e, em contrapartida, os termos superado em muitos aspectos -, é uma experiência e tanto. Um dos melhores filmes de ficção científica, com toda certeza. Tem momentos de ação, mas não deixa seu ritmo ser regido por eles, mantendo um clima neo noir, ao estilo Raymond Chandler encontra robôs, armas laser e carros voadores. O livro tem tudo isso, mas de maneira bem mais contida e num clima mais filosófico e contemplativo. De fato, se completam. Algumas pessoas preferem ler o livro primeiro, outros preferem ver o filme, esse é um dos raros casos em que isso não importa. Dificilmente alguém fará um sem ser levado a fazer o outro.

Nota: 5/5

domingo, 14 de junho de 2015

Nada de novo no front



Ser escritor às vezes tem haver com sanar a dor, ir, buscar, gritar, partir. Um escritor só vira escritor porque é obrigado a escrever. Ser escritor é uma maldição. Escrever é reverberar os medos, as confianças, os sonhos, as lágrimas. Quantas pessoas um escritor pode ajudar através de um texto (além de ajudar ele mesmo)? Escrever é isso e, um pouco mais. Escrever é derramar solidão nas palavras, fazer do sangue a tinta. Sempre quando escrevo esqueço lembrando: dos vazios que nos cercam. A arte de escrever vem das noites viradas. O bater dos punhos nas teclas. Aquela garota que não sai da minha cabeça se vai neste texto que escrevo agora, mas não demora. Lá se vai o meu amor novamente num ângulo fechado. Ser escritor é cair no sono constante do fracasso. Perder num dia. Continuar. Continuar. Continuar. Cair faz parte. O escritor ganha de vez em quando, mas aí ele percebe que ganhar não é tudo (não adianta). Perder é marketing. Escrever é dominar o silêncio com os sussurros urbanos. Penso na juventude descobrindo a escrita tentando jogar alguma coisa no pedaço de papel. O jovem escritor desabafa: se alivia com todo o direito. Ele escreve sobre sua solidão, sua alegria repentina, sua rotina, seus anseios, suas dúvidas, e assim, descobrimos que todo escritor mente, trapaça, balbucia sobre tudo porque ele se esconde nos seus textos. Já rasguei muitos textos com medo de alguém ler. Já me perdi numa mascara social que não soube como tirar, mas escrever também é isso. A sinceridade vem com o tempo. Faz tempo que não tenho sido sincero. Tenho escrito pessimamente. Faltava alguma coisa na minha escrita algo que tinha perdido. Todos os dias assim que abro os olhos penso no futuro e como ele me assusta. A vida é foda assim mesmo... sou romântico de mais às vezes... Já era noite cheguei em casa fui para o banheiro acendi um cigarro (fazia tempo que não fumava) sentei na privada e fiquei pensado: nos desesperamos facilmente com tudo (como disse sou romântico, sentimental). Fui para frente do computador. Agora já era madrugada coloquei o disco do Ornette Coleman bem baixinho suave (ele morreu recentemente não sei se vocês sabem) peguei aquela garrafa de uísque e, comecei a trabalhar num romance que há tempos adio. Gosto de escrever de madrugada porque os silêncios são mais barulhentos. O som dos meus dedos batendo nas teclas, o som do uísque sendo derramado no copo, isso sim é romantismo. Queria colocar sangue novamente naquilo que escrevo. Existem muitas distrações por aí no mundo virtual: pornografia, facebook, youtube... Eu sei a culpa é minha. Antigamente escrevia poesias nos guardanapos de bar, nos panfletos de supermercado etc. Ninguém nunca me atrapalhou. Lembrei uma vez que escrevi um bom poema e li em voz alta. Esqueci o papel no bar.  O escritor envelhece rápido porque já nasceu maduro. Nunca tente roubar do acaso. Os telefones não são para serem atendidos sempre. Escrevo pensando em você agora me lendo se perguntado: que louco é esse? Ou, talvez não. Você apenas esteja lendo por ler, se desinteressando aos poucos pela linha do tempo perdida. Escrever pode ser confuso como tudo na vida, mas a pergunta é: você tem coragem para escrever? Não se preocupem ando meio sentimental.  

sábado, 6 de junho de 2015

Era uma vez adolescente ou sim, é mais um besteirol americano



Eu sempre fui um cara tímido, mas extrovertido. Para você falar comigo basta falar comigo. Não sou bom em iniciativas. Na verdade nunca fui e, talvez, nunca serei bom em iniciativas. Cada vez que envelheço me torno mais antisocial ainda. Quando tinha lá meus catorze/dezessete anos eu era mais influenciável, me apaixonava fácil pelas garotas etc... etc... Ligava mais para aparência e coisa e tal. Ultimamente criei meio que uma ultrabarreira anti qualquer coisa que tente socializar comigo. Nada contra o resto do mundo, mas a minha aversão as pessoas cada dia se torna maior. Isso já é fato. Saiu para algum canto com um amigo ele tenta me apresentar um grupo de amigos dele e BUM. Não consigo mais socializar dessa forma. Eu sei virei meio que um Wood Allen com Bukowski de saída com Crumb. Criei um monstro? Não sei? Algo me mordeu muito na minha adolescência. Me tornei o patinho feio dos filmes americanos que conseguiu se encontrar (mas nada de volta por cima, faz favor) sem essa porra de piedade sanguessuga. É porque na minha adolescência as garotas só queriam ficar com os caras “gatinhos tipo malhação (novela)” e eu lógico nunca fui um desses caras. Sofri muito com estética. Ainda sofro (sim, elas ainda querem os caras gatinhos). Deixa quieto. Conheci uma garota. Droga. Sempre tem uma garota. Criei uma tabela. Quando você lê muito, meio que você acaba lendo as pessoas facilmente. Eu vi que essa garota era do tipo “só gatinhos.” Minha tabela é irreal. Infelizmente julgo as pessoas assim como eu sei que elas me julgam. Eu ando meio roto, sabe? Logo a primeira impressão que as pessoas têm de mim é que eu sou um zero a esquerda. Elas acertaram em cheio, eu faço por onde merecer. Essa garota sabe; não to afim dela, mas algo me toma a curiosidade. Num mundo tão plástico como o de hoje eu vejo que cada um tem meio que sua válvula de choro. Por exemplo: se um dia fizerem um filme/livro sobre mim ou você caro leitor(a) vão relatar que eu/você era um idiota, gênio, maluco, tímido vai chover adjetivos... mas o ponto principal é que o personagem tinha algum charme (que na verdade nunca existiu). Não sei como funciona isso, mas é uma coisa meio louca. Você sempre foi você, até o ponto que alguém descobriu isso e, todos querem arrancar um pedaço seu. Você se sente julgado como um egoísta. Você sempre foi você e nada mais. Cria-se meio que um cânone linguístico corporal. Não sei? Me perdi nesse raciocínio. Queria conseguir explicar isso. Nos filmes ou nos livros acontece isso e, o mais irônico é que as pessoas erradas é que se identificam com a porra do jovem melancólico e solitário. As garotas não compreendem que o cara legal não tem nada de legal, o cara que é solitário e melancólico também não é legal, mas os filmes, livros etc. tentam subverter isso ridiculamente. No fim tudo é uma merda. Talvez o que eu queira dizer é como as pessoas não são mais sinceras umas com as outras. Essa garota talvez... se eu tivesse mais tempo me apaixonaria por ela. Escreveria poemas para ela... Isso não pode mais acontecer porque eu vejo na maioria das pessoas o “não” social. Onde a embalagem é codificada num 3x4 do insta. Sacam? Ninguém mais se apaixona pela convivência. Os trejeitos. Os medos. O morder dos lábios. Relacionamentos são sempre assim. Amigos. Namoradas. Conhecidos. Eles vão e vem. Só você não vê que algo fica. O que fica é você. Não sei? Acho que às vezes penso muito sobre isso. Leitores/escritores me ouçam: muitos escritores só se tornaram escritores para tentar resolver problemas de relacionamentos, problemas existenciais etc. É reverberar o problema dele em outro (nos outros). Escrevemos nossas derrotas na pele dos olhos de alguém. Não que isso seja bom ou ruim, isso ajuda muito. O ato de escrever para outros nos torna mais libertos do fracasso, ou da vitoria. Não sei? Você tem que começar e ter força para terminar, não é só se reinventar. Critique-se. Uma autodúvida é sempre necessária.  E esse foi o meu texto só para adolescentes de hoje. Não sei? E como “o não saber” das coisas às vezes é a melhor coisa que você não sabe prezar. Não sei, mas se você leu isso como um texto de autoajuda você se fudeu. Até mais.   

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Cagando e andando pra você; ou, a quebra do solipsismo





Você está andando pela rua, digamos que é uma noite de sábado por volta das dez horas, indo em direção ao seu bar de preferência ou qualquer que seja sua ideia banal de diversão de sábado à noite, que quer que seja que não envolva você sentado sozinho em casa olhando pra parede, e nesse caminho você é obrigado a passar em frente a um hospital em que, mesmo de fora, você vê as pessoas doentes ou sofrendo, esperando por atendimento, e os familiares destes, em igual sofrimento, esperando ou lidando com as notícias, e você é só um passante, mas você vê, e isso basta pra que a sua consciência dê suas voltas usuais e indesejadas, e você se sente triste, mesmo sem conhecer ninguém de fato envolvido nos diversos e simultâneos acontecimentos que levaram todas aquelas pessoas ao hospital. Normalmente – o bonito seria dizer – sua tristeza viria do fato de que existem pessoas vivendo nessas circunstâncias, contudo o real motivo é a constatação de que sua falta de envolvimento é um atentado fatal àquela sua última esperança de que a existência é, em si, uma experiência solipsista, de que no fim – o seu fim – contrariando o que você gostaria de acreditar, a vida vai continuar sem você, o que parece bastante óbvio, já que a ideia do solipsismo sempre te pareceu um tanto absurda, no entanto, o mesmo vale para o cristianismo – na sua percepção, afinal o tal amor de Cristo que os crentes tanto gritam sobre, você nunca o sentiu. Então você pensa, que diferença faz depois da morte?, afinal, toda religião ou teoria metafísica envolvendo o que vem depois da morte é sempre uma questão de preferência, pois o medo da morte é mais poderoso que a ciência e que a razão, sendo o hospital um choque de razão indo de encontro a sua crença – nesse caso o solipsismo –, que você mesmo reconhece insignificante, porém desejada, e o desejado, poderoso que seja, perde a força em diante do peso dos fatos, principalmente quando, poucos passos depois, você avista uma missa de sétimo dia na igreja, que você também pode ver por dentro e está cheia e mais algumas pessoas de preto, ternos e gravatas e vestidos, e rostos tristes, mas não tanto quanto um dia já estiveram – e é essa a sua evidência de que se trata de uma missa de sétimo dia e não qualquer outro ritual socialmente aceitável, não considerado primitivo e ancestral como tantos outros, pois o cadáver já perdeu seu caráter trágico e se tornou homenageado –, poucos choram por essa pessoa cuja morte já completa uma semana e que você não sabe quem é, mesmo assim ele reúne tanta gente, como os doentes no hospital, e você não está de forma alguma relacionado, e isso faz você pensar que, se você morresse hoje, não reuniria tanta gente, enquanto esse cadáver, rico ou pobre, velho ou jovem – os únicos atributos que parecem ser considerados quando alguém morre – fez mais do que você, moveu mais pessoas que você – para o bem ou para o mal –, mais amizades, mais contatos, mais laços familiares, seja o que for, mais que você, e sua vida continuou independente do fim da dele, então qual o motivo pelo qual a vida de tantos outros seres humanos deveria parar com o fim da sua. E, novamente, toda sua tristeza não vai para o sofrimento ou morte de tantos, mas pelo abatimento daquele seu bom e velho solipsismo, e toda essa questão de vida e morte, tão profunda, é somente um exagero pretensioso, pois, nos rendamos ao clichê da árvore que quando cai distante de todos, no meio das florestas inexploradas ainda faz barulho, ou, ainda mais banal, seus próprios hábitos podem ser analisados... Chega, esse uso da segunda pessoa nada mais é que um implorar pela empatia do leitor desse conto, truque mais barato da literatura metalinguística, esse inverter das pessoas para, então, trazer à tona a realidade, se esforçando para que o leitor sinta alguma coisa com o monólogo tão forçado – o segundo pior truque é a realização consciente do mesmo truque, mas nesse ponto o leitor terá que entender meu desespero amador e me perdoar pelo golpe descarado, pois explicar o golpe não o torna menos ofensivo, basta que o leitor se esforce em compreender sua necessidade. Um clichê, um golpe, um truque, não seria reconhecido como tal não fosse sua efetividade. O morto, o hospital, a igreja, nada disso é necessário, nem mesmo o você. Minha falsa impressão de solipsismo morreria mesmo que eu não me metesse nesse cenário e que usasse então meu usual: tenho a vontade de ir ao bar, no entanto penso no tanto que tenho para fazer, no quão mais fácil é escrever a sós, sem música, sem as conversas, sem as luzes infames dos celulares, então não vou, passo o tempo em que deveria estar escrevendo pensando em tudo que se passa no bar quando eu não estou lá, fico pensando e me distraio daquilo que devia estar fazendo, me distraio com programas de televisão que baixo pela internet – apesar de insistir em dizer por aí que não tenho televisão –, me distraio com tudo que a internet tem para oferecer, e não escrevo uma palavra, pensando em tudo aquilo que não presenciei no bar e como isso é mais da vida se passando sem mim antes mesmo de eu morrer, e não viver – no sentido usual que se aplica a palavra viver, o tal viver de verdade, experimentar, explorar – se mostra inútil quando eu não uso o tempo perdido – não vivendo, digamos – para produzir algo em seu lugar que possa ser chamado de valioso. Eu ou você, a essa altura foda-se a pessoa, estamos todos sós e insatisfeitos, mas, voltando a mim – pois tudo sempre volta a mim, independente da minha vontade –, ir ao bar, conseguir escrever por não ter tantas distrações como em casa – no fim, as distrações do bar ainda estão direcionadas aos outros e não a mim, como em casa elas costumam estar por falta de outra pessoa que elas possam distrair –, não ajuda a diminuir a impressão de que a vida passa – ir ao bar ou não ir ao bar, escrever ou não escrever, ficar em casa ou sair de casa, atos diferentes com resultados iguais – sem que eu a viva. Então surge, entre nós, agora assumidamente na mesma posição – outro truque descarado, mas que peço que ignorem – aquela velha pergunta: e de quê vale tudo isso?, pergunta essa tão inquirida aos escritores, e para a qual nenhum de nós – se me é permitido me incluir nessa classe – consegue responder, e me pergunto se é muita decepção para o leitor – um leitor – que eu também admita que não sei?, que obviamente também deixo a vida passar, que aquilo que escolhi como minha arte me exige isso, essa função de câmera bêbada do cotidiano que filma um documentário chamado minha geração, mas escolhe ser produção e não elenco?, respondo sem responder, argumentando que sem alguém no meu papel seria pior, pois não haveria pergunta, mas esse é outro truque e cabe ao leitor cair nele ou não.