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domingo, 31 de maio de 2015

O discurso iceberg e o politicamente correto



Meses atrás eu me deparei com uma pesquisa acadêmica que numerou os autores e personagens negros na literatura contemporânea. Não li a pesquisa, mas ficou claro que o resultado apontou um número inexpressivo tanto de um quanto de outro. Nos comentários da postagem de facebook compartilhando a matéria, como não poderia deixar de ser, havia uma divisão. De um lado gente branca criptoracista fazendo o típico comentário "não sou racista, mas" e então se pondo a dizer algo terrivelmente racista. Do outro o politicamente correto aplaudindo a pesquisa sem abordá-la de maneira alguma. Esse é o maior defeito da cultura do politicamente correto, a mania de mudar apenas discursos, sem tocar nas ações - o famoso varrer pra debaixo do tapete, só que agora o tapete já tá parecendo um morro de tanta sujeira escondida sob ele. Aplausos à matéria, mas, se alguém perguntasse o que fazer pra mudar isso, haveria silêncio ou insultos - até porque, independente dos lados, noventa porcento dos comentaristas eram brancos.

Não sou dado a polêmicas. Evito falar de política, sociologia, atualidades, entre outras coisas, primeiro porque existem milhares de pessoas muito mais capazes para tratarem desses assuntos, e segundo porque é uma puta dor de cabeça. Isso tá claro ao se ver que estou comentando sobre algo que vi há meses e que há muito já perdeu a relevância. Na época me cocei pra comentar isso na postagem, mas não fiz por covardia, a verdade é essa. Quem compartilhou a matéria sobre a pesquisa foi a grande Companhia das Letras. O conteúdo do texto acompanhando a matéria se resumia a perguntar aos leitores quantos livros brasileiros contemporâneos eles leram de autores negros ou com personagens negros. Pergunta relevante. Fiz uma pesquisa e vi que não li um livro - vamos destacar as palavras-chave pra que não restem dúvidas - de um autor brasileiro, contemporâneo e negro. Li com personagens negros, mas digamos que isso é irrelevante, ok? O que se vê na literatura é uma diminuição nas descrições físicas das personagens, justamente pra evitar esse tipo de discussão - prática com a qual eu concordo, porque seria muito chato/repetitivo um livro assim: "e Joana, que era negra, entrou na sala... Adolfo, que era índio..." etc., mais pareceria uma lista de receitas étnicas que literatura. O que importa são os autores porque é aí que está a mudança, certo? São os autores que passam as experiências, são os autores que contam as histórias, são os autores que ganham o respeito, são os autores que ganham o dinheiro. Concluí, após uma breve pesquisa no google, não existem muitos autores brasileiros negros contemporâneos - não na mesma proporção que brancos.

O leitor deste texto pondere comigo. É certo abordar o "leitor" nessas horas? E as editoras. Que vontade eu tive de perguntar à Companhia das Letras quantos autores contemporâneos brasileiros negros eles publicavam. Quantos planejavam publicar? Quantos originais eles recebiam por dia de autores contemporâneos brasileiros negros? Quantas vezes por mês eles passavam pela conversa: ok, esse livro é de negro, será que vai dar mercado? Estou citando nomes por uma questão de honestidade. Foram eles que eu vi compartilhando a matéria. Mas que fique claro que vale pra todos. E vocês, Rocco, como responderiam minhas perguntas? Record? Globo? Intrínseca? Novo Século? ...não deu (façam a voz do Kiko, por favor).

Típico discurso que só aborda a ponta do iceberg. Ninguém perguntou sobre como resolver o problema. A pesquisa acadêmica talvez tenha feito comentários - não sei, não a li (isso é um blog, não me julguem, meu trabalho pode e deve ser porco) -, mas ninguém falou sobre. 

Que esse texto não se confunda com uma dessas críticas rasas ao politicamente correto. A turminha da moda do politicamente incorreto também tá dando no saco. Toda hora reclamando que os direitos deles à intolerância e ao ódio estão sendo tolhidos. Mil perdões, mas, conforme a sociedade progride, isso é uma consequência. Pessoas ganham direitos, seus direitos de oprimir se perdem. É assim que funciona. Agradeça, como eu agradeço, que aparentemente não existem planos de vingança. Imaginem, fazer o homem branco passar por tudo que o homem branco fez todo o resto do mundo passar. Puta merda. Mas esse texto também não é sobre isso, é sobre o problema de varrer o problema pra debaixo do tapete.

Falemos sobre a diminuição da maioridade penal. O que mais se ouve é aquele velho discurso emocional e simplista: leva pra casa e cuida, então/lugar de bandido é na cadeia/tem que matar esses marginal tudo/o homem de bem tá fodido e mal pago/ volta ditadura/e latidos e latidos e rosnadas e rosnadas. Fazer o quê? Alguém tirou os brinquedos de roer da turma reacionária e agora eles tão espumando de raiva. Quem foi? No entanto, é bom deixar claro que só dizer que a diminuição da maioridade penal é errado não é o suficiente. 

Por que é errado? Bom, porque criança nenhuma se rende ao crime sem motivo. Existem dezenas de fatores sociais e econômicos que levam a isso. Muitos desses fatores já assolam o Brasil há décadas - desde sempre, mas antes era considerado certo segregar a sociedade e marginalizar o pobre, estamos apenas colhendo os frutos desse tipo de política. Existe solução, mas ela não é imediata. Requer tempo, dinheiro, não vai gerar resultados logo de cara (o que vai enfurecer os cães de Olavo de Carvalho). Além do mais, caso dê certo, vai diminuir a desigualdade social, e todo mundo sabe que o maior medo da classe média alta branca - não só brasileira, mas de todo e qualquer país capitalista de verdade - é o fim da desigualdade. Imagina, um porteiro com os mesmos direitos que um juiz, que absurdo! O processo que leva à possível solução é uma coisa indesejada pelo povo lá em cima. Mas existe. E não tá na redução da maioridade penal. Só que a redução da maioridade penal gera resultados imediatos. Não diminui a criminalidade, mas dá um monte de notícias pra mídia espalhar. Toda uma molecada - pobre - sendo presa e marginalizada. O sonho molhado de um rico é ver pobre levando cacetada, quanto mais jovem melhor, aí já corta o mal pela raiz. 

Não é surpreendente, eu incluiria, a diminuição da maioridade penal ter sido aprovada. O Brasil tem um longo histórico de tentar construir pirâmides pelo topo. Existem polêmicas envolvendo o famoso bolsa família e as famosas cotas, que certa parcela do povo - que eu não vou citar pelo apelido popular, mas só vou dizer que é um nome de um alimento bastante presente em festas de aniversário - amam odiar. São medidas corretas para aumentar o poder aquisitivo de grande parcela da população - essencialmente diminuir a miséria, já que não dá pra fazer muito com o dinheiro - e aumentar as oportunidades de ensino para uma outra parcela da população - imediatamente oposta à primeira. Seria perfeito, se não fosse uma pirâmide que é só um topo sem base flutuando no vazio.

Qual a base, tio Rapha? Não sei. Investimentos pras escolas públicas, talvez. É um começo. Já pensou se as escolas públicas fossem tão boas ou melhores que as particulares. Bom, se assim fosse, haveria migração em massa de crianças ricas para escolas públicas e, logo, não teriam vagas para as que realmente precisariam de ensino público. Mas visualizemos um mundo perfeito - sem gente cretina - só por um minuto. Seria um bom primeiro passo se todos, independente de classe social, tivessem direito a um ensino de alta qualidade, com professores tratados com dignidade (com isso eu quero dizer: que não levem tiros de bala de borracha, que não sejam tratados como terroristas pelos nossos bulldogs fardados - que insulto aos bulldogs!, me perdoem, eu quis dizer que nossos policiais são ignorantes e mal-treinados e violentos e elitistas e..., enfim, existem bulldogs mais sábios), bem pagos e estimados pela sociedade. Já pensou? Que belo sonho esse. Mas se enquadra na mesma categoria de coisas que o pessoal lá em cima não quer que aconteça.

Como não terminar esse texto, que aos poucos foi se desestruturando em uma reclamação agitada, com um belo "estamos fodidos"? Acho que isso foi só pra esclarecer certas coisas. Tem gente que gosta de apontar problemas, mas só pra soar bonito e socialmente consciente. É, legal, mas melhor ainda seria sair do discurso. Que é difícil, já que tem um bloqueio chamado interesse lá em cima que impede qualquer mudança. O terceiro motivo que me faz não falar de política, polêmicas e problemas por aqui, além da minha falta de qualificação e da dor de cabeça: é a chateação que é se ver dentro de um labirinto cheio de portas, mas sem saída. Deprime bastante falar e falar e não ter respostas. 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Defesa das bibliotecas por serem democráticas

Fugindo um pouco da temática que os meus outros textos trabalharam, que era mais a questão biográfica de alguns autores com os quais tive contato, como Carolina Maria de Jesus, Chinua Achebe e Raymond Carver, na postagem desse mês irei expor um pouco da minha opinião pessoal sobre a democracia das bibliotecas.
Particularmente, acho que posso ser considerada uma entusiasta de bibliotecas, se é que isso existe. Se uma pessoa diz que está querendo ler algum livro, eu vou citar uma lista de bibliotecas em que o livro pode ser encontrado.

A situação financeira de uma pessoa é um fator que influencia na compra de livros e como minha situação financeira nunca foi das melhores, mas eu sempre gostei muito de ler, não me deixei e não me deixo limitar pela falta de capital e invisto com vigor nas bibliotecas. Não tenho muitos livros, alguns poucos foram comprados, mas a maioria ganhei de presente. Se vocês virem o meu Skoob, fica mais fácil visualizar, porque vocês perceberão que tenho um número pequeno de livros, mas o número de livros lidos é muito superior, o que é facilmente explicado pela minha dependência, digamos assim, de bibliotecas.

Há quem diga que brasileiro não lê porque os livros são caros, eu digo que brasileiro não lê porque brasileiro não quer ler. Claro que tenho plena consciência de que também há uma série de fatores que atuam nisso, motivos mais complexos e que precisam ser aprofundados, mas uma pessoa dizer que não lê porque livro é caro, é uma desculpa que não cola. Não sei as outras cidades, mas em São Paulo há diversas ações que visam democratizar o acesso a leitura, como o projeto Livro na Faixa, os Ônibus-Bibliotecas e a disponibilidade de centenas de bibliotecas pela cidade toda.

Enfim, o que quero dizer desde o começo, é que não precisa pagar para pegar livros em bibliotecas, é de graça e é por isso que eu apoio tanto as bibliotecas, porque sendo de graça, não tem exclusão social e o acesso é democratizado.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Momento Musical #10 - Elvis Costello, Leoš Janáček, Frank Zappa

Quando eu não sei o que escrever aqui, posto uma poesia que esteja largada. Quando não tem mais poesia, faço um momento musical. É fácil. Basta achar uns discos bacanas no youtube e fazer um comentário em baixo. Se alguém ouve as músicas ou não, não sei. Não importa. Só sei que estou passando por um período desses, então toma-lhe música.

Elvis Costello - Armed Forces (1979)


(Pois é, não tinha um daqueles vídeos com o disco inteiro pra economizar, então vou jogar aqui 3 faixas de amostra.)

Da série: coisas que se salvam da década de 80. Elvis Costello é bem bacana. Esse disco veio antes da década de 80, então pode ser por isso que eu goste mais dele. As letras também são ótimas. Elvis é dessa linha de cantores que não cantam porra nenhuma mas compõem como mestres (Bob Dylan, Frank Zappa, Lou Reed vêm à mente). Destaque pra What's so funny 'bout peace, love and understanding, que fez parte da cena do karaokê em Lost in Translation (ainda não falei desse filme, né? T'aí o assunto pro próximo post).

Leoš Janáček - Quartetos de Cordas nº 1 e 2 (1923 e 1928)



Esse é um dos compositores favoritos do Milan Kundera. Foi só por isso que eu o conheci, porque ele é citado várias vezes na entrevista que o autor deu à Paris Review, em 1984. Janáček é um compositor moderno bastante peculiar. Alguns especialistas dizem que ele é o primeiro dos minimalistas. As composições dele são cheias de padrões e repetições típicas do estilo, com harmonizações em tons incomuns. A razão de eu não falar mais de música erudita aqui é por eu não saber tão sobre - a parte técnica da coisa, quero dizer -, mas as músicas dele são uma experiência e tanto. Kundera o considera uma influência para estrutura de seus livros. Faz sentido, se vocês prestarem atenção. Principalmente na polifonia e nas repetições temáticas. Pessoalmente, me agradam os quartetos de cordas, por isso escolhi essas duas composições. O segundo quarteto também foi uma das últimas - ou última - composição dele, e ela tem algo de intenso que me faz querer voltar a ela sempre. Se tornou um dos meus favoritos também.

Frank Zappa - Hot Rats (1969)


Zappa foi uma das figuras mais fascinantes da década de 60 - que não é conhecida pela falta de figuras. Um dos poucos com a coragem de inserir técnicas da música clássica moderna em músicas populares. Às vezes arrogante, às vezes subestimava seu público - mas quem poderia culpá-lo disso -, mas Hot Rats eu diria que é um dos seus melhores momentos. Um dos porque o cara era prolífico. Fez um pouco de tudo, do experimental ao pop à sátira à música erudita. O cara é uma representação em áudio do que é a vanguarda. Apesar da banda dele ser cercada de polêmicas e muitos de seus discos terem sido alvo de críticas e tentativas de censura por conteúdo explícito, esse é praticamente instrumental, com exceção de algumas linhas cantadas - por ninguém menos que Captain Beefheart (falarei dele um dia) - em Willie the Pimp.

Vão ouvir agora.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mário Gomes


Mário Gomes era um poeta marginal aqui de Fortaleza. Conhecido como o último poeta maldito cearense Mário Gomes tinha um arquétipo de maluco beleza, embora, já fora lúcido. Poeta voltado para o pornográfico Mário subia e descia nas curvas de Fortaleza lambia as partes intimas da cidade como quem lambe uma ferida com terra. Sua poesia me nocauteou. Passei dias e dias, tentado imaginar de que parte do espaço-quântico a poesia dele nasceu. Conversei com amigos. Nenhum deles conhecia a obra de Mário, mas pesquisei um pouco mais, então, encontrei um amigo escritor que tinha uma antologia de poemas do poeta bêbado. Li reli. Pirei. Mário Gomes é sem dúvida um acontecimento poético. Tive a sorte de ver ele pelo uma ultima vez na praça do Ferreira (fica no centro de Fortaleza). Mário era conhecido por todos ali; muito antes de sua loucura. O poeta Mário Gomes perambulava pelas ruas da cidade, eu perguntava sempre as pessoas: “você alguma vez viu um velho vestido um terno andando pela cidade com a cabeça abaixada?” Alguns sins e, alguns nãos, às vezes eu explicava quem era e às vezes eu só concordava com a pessoa “sim, ele é louco.” Ouvia sempre que, em alguns lugares ele era incomodado (porque as pessoas não tinham ideia de quem era aquele maluco...), quem o reconhecia dava um cigarro uns trocados um litro de vinho e deixava-o ir. Quase levei um soco dele certa vez, mas me justificarei em outra crônica. Mário Gomes morreu no dia 31 de dezembro de 2014. Contemporâneo de vários outros escritores cearenses que sou fã Mário é figura conhecida entre todos os movimentos literários do Ceará. Com tantos escritores morrendo Mário foi único que pensei nas questões do valor/desvalor de sua arte. Tenho medo de gourmetizarem o poeta assim como fizeram com: Patativa, Bukowski, Leminski etc... Homenagear depois de morto não vale, fazer busto e botar em ponto turístico... não sei se é por aí, melhor deixar quieto isso. Vamos para a parte mais importante dessa pseudocrônica que é a poesia de Mário Gomes, a pessoa que era Mário Gomes. Selecionei algumas fotos alguns poemas e um curtadoc que fizeram sobre o poeta andarilho.




Metamorfose


Ontem,
Ao meio- dia,
Comi um prato de lagartas
Passei a tarde defecando borboletas.







Ação Gigantesca


Beijei a boca da noite
e engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
pensando que era a hora do Juízo Final.

Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
voaram para o Além.
Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
e fui descansar na primeira nuvem
que passava naquele dia
em que o sol me olhava assustadoramente.

Fui dormir o sono da eternidade.
E me acordei mil anos depois,
Por detrás do Universo
.




Ação Gigantesca foi um dos melhores poemas que li na vida. A primeira vez que li esse poema foi como se algo explodisse o universo em zilhôes de pedacinhos. Mário se tornou o ser poético. Ele era a forma que a poesia escolheu para se materializar. Mário conseguiu expressar algo divino fora de qualquer senso. Passei um bom tempo embriagado com essa poesia. Um tempo depois li sua antologia poética agora estou em eterna reabilitação para me recuperar do porre de seus poemas. Me desculpem por ser meio/muito raso, mas a divulgação do poeta cearense para outras pessoas é sempre válida.

  



sábado, 9 de maio de 2015

Jimi Hendrix & Schopenhauer



Recentemente me mudei, era dia de faxina aqui em casa. Sempre antes de começar uma faxina tenho um pequeno ritual para fazer esse grande esforço quinzenal. Antes de começar a tirar poeira das coisas e, passar o pano na casa; bebo uma ou três cervejas sentado olhando pro nada, depois, começo a faxina. Sempre começo pelos meus discos. Por quê? Bem, eu os arrumo inicialmente porque é lá que vou fazer minha trilha sonora para começar a faxina. Enquanto eu escutav... quer dizer arrumava meus discos encontrei no meio (entre os discos), o livro do palhaço da melancolia Schopenhauer. Comecei a folhear. Vi as mazelas do amor e da morte. O livro parece que estava à procura de uma companhia. O disco que tinha colocado era Axis: Bold as Love a leitura parecia ter aquele ritmo calculado a cada virada de página. O melhor é que, o livro me dizia coisas não tão boas sobre l’amour. Fazia minha crença cair, desacreditar na condição sincera e afetuosa que se cria nas relações humanas, mas do outro lado começava a escutar coisas como “é melhor você esperar até amanhã/garota o que você está falando?” Comecei a pensar que se Dolly Mae explicasse para o velho Schop que o amor é bem mais... embaixo ele não teria sido tão pessimista assim. Já na litle wing o velho deixou o seu cachorro escutando a música e saiu, ficou sem palavras. Segundo os biógrafos de Schopenhauer ele detestava qualquer barulho que fosse, logo, odiava música não suportava uma nota se quer. Mas, isso é porque ele nasceu na época errada. Um bom blues com certeza iria mexer naquele coraçãozinho solitário. Ah, se ia! O alemão tinha bom humor conseguiria sobreviver a algumas tuitadas da vida moderna. O disco genial de Hendrix (diga-se de passagem) acaba com a música bold as love assim, também como acabará os dois vértices do velho Schopenhauer: com amor e morte.



"O mundo parece seguro amarrado numa coleira."



Desapego

Não parece que é. Estava bebendo num bar qualquer de Fortaleza. Pensava nas coisas que sempre penso: morte, vida, contas, poesia, mulher, nada, dinheiro, nada, e outras coisas sem sentido que não vale a pena comentar. Não parece que é. Joguei bola descalço e acabei perdendo a tampa do dedão. Não parece que é. Comecei a escrever um texto e, de repente, parei. Joguei meu coração na rua para ser atropelado; só porque fui embora e minha casa não me disse adeus. Como eu queria chorar agora entre estes muros surdos. Preparei minha mala algumas roupas, objetos, livros e uns trocados. Olhei uma ultima vez para cozinha, fechei a porta do quintal. A sala onde escrevia no dormir das madrugadas; louco de vinho com os dedos feridos no papel. Lembrei do quarto, do crepúsculo, dos lírios. Quantas vezes não morri dentro de um sonho. Larguei minhas fotografias amareladas numa sacola. Joguei pela ultima vez as cinzas do cigarro no chão. Quantas vezes eu ouvi aquela canção com a luz apagada uma garrafa de cerveja quente, embriagando minha solidão abusiva. O meu cachorro morto. Do outro lado da rua morava minha primeira namorada. Cintia. Cabelo castanho chanel no seu ouvido sussurrava Camões beijava-a como um Sísifo antes do martírio. É difícil retomar as lembranças quando não conseguimos agarrar o âmago da infância. O mundo parece seguro amarrado numa coleira. Lembro do meu primeiro dente de leite jogado no telhado (tradição). Lembro das pequenas epifanias. Coração. Amor. Amor. DECEPÇÃO. Alegria, breve, mas alegria. Caminhei sem olhar para trás. Aquela era a casa que morei durante 15 anos de lembranças infantis, juvenis, entendam como quiser, mas o importante agora é saber que: as únicas lembranças que contam são essas virgens lembranças. Quando não sabia o significado de quase nada. Isso é algo que ninguém pode fotografar, porque a memória é a única que consegue nos levar além das lembranças. As sensações é que são mais resistentes que simples fotografias reveladas. Uma camada de mim fica. Esse texto um dia vai ser só lembrança, assim como minhas digitais naquela casa. Até mais minha pequena.