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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Charlie Hebdo e o protesto dos escritores



Até o momento, seis escritores membros da PEN American Center recusaram participar da festa deles, marcada para mês que vem, que homenageará a revista satírica Charlie Hebdo. Dentre eles estão Francine Prose (romancista, ensaísta, contista, pouco traduzida no Brasil - encontrei apenas três trabalhos de não-ficção), Michael Ondaatje (romancista e poeta, autor de Paciente Inglês, entre outros) e Rachel Kushner (romancista autora de Lança-Chamas, entre outros). O motivo, de acordo com Prose, por mais que o ataque à sede do jornal seja injustificável e a revista tenha demonstrado coragem ao seguir com seu trabalho mesmo em meio às constantes ameaças, o fato deles insistirem em fazer humor com os oprimidos torna a revista indigna de um prêmio ou homenagem desse porte. A PEN (Poets, Essayists, Novelists) é uma organização não-governamental que reuni escritores em nome da liberdade de expressão.

Francine Prose - que nunca li, mas agora quero.

Por mais óbvio que seja que um crime como o atentado à sede da revista Charlie Hebdo não deva ser tolerado, o protesto não é sem causa ou desrespeitoso perante às vítimas. De início, minha reação foi contra os escritores. É difícil continuar chamando de preconceito os textos e charges ligando o islamismo a atos terroristas quando, constantemente, críticas ao islamismo vem seguidas de reações violentas e terroristas. Não ajuda a defesa de nenhum advogado quando uma parcela considerável da população islâmica diz não concordar com o ataque, mas considerar que é consequência, afinal, se você mexe com Mohammed, deve estar preparado para uma reação. Ficou visível que a parcela de islâmicos que de fato repudia ataques como esse é uma minoria - embora existam e se expressem. Fosse a revista uma produção de um país islâmico, mesmo com ressalvas, poderia se dizer que era de se esperar, pois as leis do país são punitivas perante ofensas à Mohammed. Essa não é cultura francesa. Considerando o conceito de liberdade de expressão, na França, a Charlie Hebdo podia fazer o que faz, sem que qualquer consequência fosse devida. Sim, as imagens são ofensivas, mas restaria aos ofendidos protestarem fazendo uso de força proporcional (boicotes, sátiras inversas, artigos, enfim, palavra contra palavra). Fora de um país islâmico, a ideia de que "infiéis devem morrer" é repulsiva - na verdade o é em qualquer lugar, mas isso deve levar em consideração um sem número de aspectos culturais e históricos que não cabe a esse texto abordar.

No entanto, ao ler o artigo publicado pela Francine Prose para o The Guardian, tudo passou a fazer mais sentido. Injustificável que sejam os ataques terroristas à revista, isso não torna a obra das vítimas dignas de premiação. Eram corajosos, de fato, mas os desenhos se resumiam a caricaturas grosseiras que se referiam de forma ofensiva não só a religiões - que merecem ofensas na maioria das vezes - como às consideradas minorias - basicamente qualquer um que não seja homem branco europeu heterossexual, ou seja, os atacados são uma grande maioria. Ou seja, sim, o ataque terrorista foi um crime, um insulto internacional à liberdade de expressão, mas não torna a Charlie Hebdo premiável, da mesma forma que um artista não se torna melhor depois que morre - vide Michael Jackson e Paul Walker, por exemplo, que se tornaram lendas de seus setores artísticos após morrerem, mesmo que o merecimento da reputação seja questionável.

Que tem cara de quem sempre está achando alguma coisa engraçada. É como se ele vivesse com um pequeno comediante dentro da sua cabeça contando anedotas 24 horas por dia.
Salman Rushdie, talvez o único autor que possa se sentir ofendido ao  ouvir defesas aos terroristas islâmicos, visto que ele foi forçado a se esconder por tantos anos após o aiatolá Khomeini decretar sentença de morte (fatwa) ao autor pelas críticas ao Estado Islâmico em Versos Satânicos, se manifestou, chamando os seis autores que protestaram de covardes ("pussies", nas palavras dele). Na época em que ele correu risco de morte, dezenas de autores se expressaram em sua defesa, assim como a PEN - que também premiou o autor em 2010. Desde então, Salman Rushdie tem se mostrado um forte crítico ao islã, deixando claro que os atentados que o Estado Islâmico comete frequentemente contra a liberdade deveriam ser criticados e satirizados, e critica também o relativismo cultural normalmente aplicado sobre essas questões - basicamente a ideia de que "sim, é absurda a maneira que o Estado Islâmico trata a mulher, mas é a cultura deles, então é melhor a gente não se meter".

A pergunta que fica, considerando os posicionamentos de Francine Prose e Salman Rushdie, quem está mais certo? Parece claro que nenhum dos dois está totalmente errado, mas, entre eles, qual se sobressai? Procurei superficialmente por mais manifestações de outros autores envolvidos na polêmica, mas não achei nada que fosse além do que já foi publicado pelos dois. Não vi muita defesa ao posicionamento de Rushdie. Seria covardia deles?, medo que amanhã ou depois, por causa da premiação, a PEN e seus membros se tornem alvos? Isso é uma possibilidade. O que exatamente separa um livro como Versos Satânicos das sátiras de Charlie Hebdo? O que faz de um digno de prêmios e homenagens e outro vítima dos próprios atos? Um crítica social e outro caricatura grosseira?


Fiz meu trabalho e procurei uma edição da Charlie Hebdo - a ideia de escrever esse texto veio de repente, então não deu tempo de ler Versos Satânicos, até terminar a leitura, a coisa toda já teria perdido relevância. Meu francês é péssimo, então, se entendi dez porcento do conteúdo foi muito, no entanto não é necessário ser alfabetizado pra perceber que o tema das charges pode ser visto como ofensivo e vai muito além da religião. Eu não ri, principalmente porque eu acho muito fácil fazer graça com grupos que já são historicamente oprimidos e porque nada me choca mais, mas isso é apenas a minha opinião e meu senso de humor. Nesse aspecto, concordo com a forma que Francine Prose descreveu os quadrinhos. Mas isso é o suficiente pra recusar um prêmio à revista? O suficiente pra esquecer o fato que os ataques à revista não foram um ato isolado e sim terrorismo contra a liberdade de expressão? Prose diz que a liberdade de expressão garante a existência de partidos neo-nazistas, mas nem por isso devemos premiá-los. Eu acrescento que a mesma liberdade de expressão permite ridicularizemos esses partidos, e isso é lindo.

Cansado dos dois lados, restou ver o que diz a organização que vai premiar a revista, os responsáveis por tudo isso. Vejamos, antes de qualquer manifestação sobre os autores e seus posicionamentos, o que a PEN diz sobre si mesma e seus membros em sua cartilha. Nela está escrito "Membros da PEN devem, a todo o tempo, fazer uso de sua influência em favor do bom entendimento e respeito mútuo entre as nações; eles se comprometem a fazer o máximo para dissipar ódios de raça, classe e nação, e para patrocinar o ideal de uma humanidade vivendo em paz em um mundo. Não exatamente o que o pessoal da Charlie Hebdo faz.

Andrew Solomon, atual presidente da PEN, dá a entender que, com ou sem protestos, a premiação seguirá, mas ainda falta tempo para o grande dia, a situação pode mudar. Ele se manifestou dizendo que a premiação é pela demonstração de coragem dos artistas envolvidos na Charlie Hebdo, não necessariamente concordando com o conteúdo por vezes ofensivos às minorias oprimidas da França. Como?, eu pergunto. Como exatamente uma organização premia uma obra, sem valorizar a obra em si, apenas um momento excepcional de coragem e demonstração de defesa à liberdade de expressão.

É difícil medir objetivamente o valor cômico da Charlie Hebdo. Se você não é um francês branco de classe média alta heterossexual e não-religioso, provavelmente não vai te agradar, mas essa não é a questão. O que Prose diz está certo. A PEN existe pra valorizar atos reais em defesa da liberdade de expressão. Considerando o que a PEN diz sobre si mesma, a Charlie Hebdo, independente de sua qualidade, não se encaixa no perfil, e isso fica mais claro ainda quando até o presidente da organização insiste que o prêmio é a coisa certa a fazer, mas procura não se relacionar a obra premiada em si. Parece até uma provocação meio broxa. "Vamos reconhecer a obra dessa revista famosa por ser opressiva às minorias, isso vai gerar polêmica e notoriedade internacional, mas vamos deixar claro que não concordamos com o que essas obras expressam". Não faz muito sentido, no fim das contas. A reação do Salman Rushdie parece a mais autêntica, mas também soa como revolta juvenil - por mais leviano que possa soar dizer que a revolta de um cara contra a religião que o tentou matar é juvenil; é mais uma questão de como ele se manifesta (pussies!) do que contra o quê. É tudo um jogo de "vamos ver o que acontece", o que me faz questionar o valor real dessas premiações pra começo de conversa.

Uma polêmica que interessa somente às elites e ignora às sensibilidades daqueles que a revista pode ofender. Isso não é politicamente correto, é o básico que um ser humano pode demonstrar de empatia. Tampouco é censura. Em nenhum momento digo que as publicações da Hebdo são erradas e não deveriam existir - nem qualquer autor disse isso. O ataque terrorista que a revista sofreu não pode ser diminuído como uma reação razoável às ofensas, atitudes como essas não devem ser relativizadas, consideradas culturais ou justificáveis. Devem ser vistas pelo que são e ridicularizadas para que não ganhem força - vale lembrar que o cartunista da Hebdo recentemente anunciou que não voltará a caricaturizar Mohammed; ele não se manifestou sobre desenhos retratando mulheres negras na forma de macacos (já aconteceu). O ato não torna certas charges de tom racista, misógino e intolerante aceitáveis tampouco. Me pego repetindo o que Prose já disse. Foi uma tragédia, mas não torna a obra geral da Hebdo digna de premiação (partidos neo-nazistas podem existir, mas não devem ser homenageados). O fato da PEN concordar com essa afirmação, faz de todo esse assunto um exercício do absurdo. É a típica síndrome da hipérbole de caráter post mortem, que já defini anos atrás, se manifestando, quando o trágico faz do medíocre ou do repreensível algo genial.

Obs.: eram seis o número de escritores contra a homenagem à Charlie Hebdo no momento em que comecei a escrever o texto. Agora, no fim, mais vinte e seis se uniram ao protesto, incluindo Joyce Carol Oates (que, curiosamente, já se mostrou uma velhinha racista no twitter) e Junot Díaz.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Raymond Carver

Por Maria Ferreira

Antes de começar, quero dizer que há tempos Carver é um escritor muito prezado por essas bandas. Em outubro de 2013, o Rafa traduziu alguns de seus poemas, em dezembro do mesmo ano resenhou o conto Por que não dançam? e em janeiro do ano seguinte resenhou o livro Iniciantes, além disso,  o autor já foi citado inúmeras vezes em outras postagens. Quando eu percebi isso, quase desanimei de escrever sobre ele por aqui, mas resolvi seguir com a ideia porque este ano eu tive o meu primeiro contato com o autor e porque cada pessoa tem sua interpretação individual (apesar da minha não diferenciar muito da do Rafa).



Raymond Carver foi um escrito norte-americano, que se aventurou como poeta, ensaísta e contista e encontrou seu ápice na narrativa curta. Nasceu em 1938, no estado de Oregon. Casou-se aos dezenove anos ao engravidar  uma jovem três anos mais nova, com quem teve dois filhos.
Viveu uma vida turbulenta, marcada pela pobreza e pelo vício no álcool. Precisou trabalhar em diversos subempregos para sustentar a família.

Em 1974 publicou Will You Please Be Quiet, Please? e em 1981, publicou seu livro What We Talk About When Talk Love (Do que estamos falando quando falamos de amor), um de seus livros mais conhecidos e que foi responsável pelo título de minimalista que o autor recebeu. Hoje é sabido que este livro foi completamente alterado por seu editor Gordon Lish. Um caso que provoca certa polêmica, porque há pessoas que dizem que se não fosse por ele, o autor talvez não tivesse obtido tanto reconhecimento e há pessoas que são favoráveis ao autor.

Raymond Carver e Tess Gallagher


Divorciou-se da esposa em 1977. Ano que, com a ajuda dos Alcoólicos Anônimos, conseguiu se livrar do vício e ano que conheceu a poetisa Tess Gallagher, com quem morou nos dez anos seguintes e casaram-se em 1988, pouco antes de Carver falecer devido a um câncer de pulmão.

Atualmente, Carver é considerado um dos grandes contistas do século vinte. Seus contos se inserem no chamado "realismo sujo" pela constante presença do cotidiano, a representação da vida de pessoas simples, numa escrita seca e sem metáforas.

Os contos do autor podem ser encontrados no Brasil pelos livros "Iniciantes", de 2009 e "68 Contos de Raymond Carver", de 2010; ambos publicados pela Companhia das Letras. É importante dizer que em "Iniciantes" temos a versão original dos contos alterados por Gordon Lish e em "68 Contos...", temos a versão alterada. A Rocco publicou o livro "Fique Quieta, por favor", mas atualmente a edição de encontra esgotada. Seus poemas ainda continuam inéditos por aqui, mas é possível encontramos algumas traduções pela internet.


terça-feira, 28 de abril de 2015

Poemas 77 e 78




77

obrigado, Camus,
tu tava certo.
meus músculos doem
e minha pedra travou, a infeliz,
não bem no cume, no meio do caminho,
talvez seja meu topo.
fiquei lá agarrado
resistindo à força que a puxava
de volta pro chão.
é inútil, tu tá certo, cara,
ela desce, queira eu ou não.
posso muito bem aproveitar
a vista da descida e
na próxima subida
fingir um sorriso
até que o sorriso vire verdade.

78

o mundo é uma ampulheta sem areia.
em seu centro há uma chama e
em cima estamos nós e todo o resto.
tudo vai queimando devagar
e o tempo nos faz cinzas
em queda livre calma até o fundo.

domingo, 26 de abril de 2015

Momento Musical #9 - T. Rex, Nilsson, Syd Barrett





Nessa edição do Momento Musical eu decidi indicar álbuns com os quais eu ando obcecado. Discos para os quais, cedo ou tarde, quando bate aquela dúvida sobre o que ouvir, eu retorno. Ao mesmo tempo, eu procuro evitar aqueles artistas que todo mundo conhece ou que nunca foram esquecidos. Esses três, em particular, são clássicos, mas não mantiveram, por qualquer motivo, o mesmo reconhecimento que alguns de seus contemporâneos. Estou aqui pra espalhar a palavra desses caras.

T. Rex - Electric Warrior (1971)


T. Rex começou como uma banda que pendia mais pro folk - e nesse período eles iam pelo nome Tyrannossaurus Rex. Aí eles deixaram o som mais elétrico e, praticamente, criaram a estética do que viria a ser o rock. Pro bem ou pro mal, se não fosse pelo Marc Bolan (líder da T. Rex) e pelo David Bowie, bandas como Kiss, Whitesnake, Scorpions, não existiriam ou não seriam as mesmas. Muito do que surgiu no rock pós 73 deve pra essa banda - infelizmente, em se tratando de som, as bandas pós 73 não seguiram o mesmo padrão de qualidade. T. Rex, considerando o que existia no rock daquela época, é muito original, não soa como nenhum dos seus contemporâneos. Entre o fim da década de 60 e começo de 70, com o fim da popularidade da psicodelia, Led Zeppelin e Deep Purple se tornaram meio que um padrão do que devia ser o rock - exceto pelo pessoal do rock progressivo, que trilhava um caminho quase oposto -, T. Rex, no entanto, soa como T. Rex, o que é muito bom.

Nilsson - Nilsson Schmilsson (1971)




Falando de artistas que soam como eles próprios, não conheço nada na música pop que soe como Harry Nilsson. Muitas das músicas que ele interpreta são clássicos do jazz e do blues, outras são composições próprios, mas todas são muito particulares. Não existe, que eu sabia, nada assim rolando hoje em dia. Não consegui achar o disco todo, normalmente isso faria eu não falar sobre o artista, mas dessa vez eu fiz uma exceção, porque vale a pena. Coloquei aqui algumas das minhas músicas favoritas do disco e no fim do texto vai ter um link pra uma playlist que alguém fez reunindo todas as músicas. Não sei bem que fim levou o Harry Nilsson. Quero dizer, ele morreu em 1994, mas antes disso ele já tinha sumido. Ele era bem popular, mas por algum motivo parou de fazer música na década de 1980. Como eu queria que outros artistas (Yes, Genesis, Bob Dylan, Scorpions, Whitesnake, Santana etc. etc.) tivessem feito o mesmo. Alguns artistas retornam ao interesse do público depois de  um longo período de esquecimento, mas isso nunca aconteceu com o Nilsson...pena. Link da playlist: https://www.youtube.com/watch?v=4wgrzp1DCs4&list=PLdvAo5zrwY6iqn2DWdRobnbsW_FV9MMwp&index=1

Syd Barrett - The Madcap Laughs (1970)


E falando de gente que sumiu, Syd Barrett talvez seja o melhor exemplo disso. A mente genial e louca que começou o Pink Floyd, antes do Roger Waters. Pessoalmente, acho que as melhores músicas do Pink Floyd são as da era Barrett, no entanto ele exagerou nas doses de LSD, o que acontecia com frequência naquela época, e ele se tornou impossível de trabalhar com. Ele chegou a lançar uns discos solos, pra nossa sorte, e The Madcap Laughs é o mais conhecido deles. As músicas são de uma qualidade poética impressionante. São bem simples, mas as letras são ricas, cheias de jogos de palavras. Sugiro que vocês as procurem quando forem ouvir o disco, isso torna a experiência mais profunda. Ele morreu em 2006, mas desde 1972 ele não fazia muito porque, bom, ele era reconhecidamente instável, como os bons costumam ser.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Tristeza


Às vezes me sinto tão triste que parece que tudo fora de mim é mais vivo. Fico perdido, confuso... não sei? Não. Não vou ter nenhuma crise existencial: até por que consigo resolver meus problemas existencialistas com algumas doses de uísque (15 anos bem resolvidos). A tristeza que sinto é oca, sem sentido. Parece que alguma coisa fica mordendo meu trilho. A tristeza é humana e, na medida do possível tento escapar dessa fera lépida que me atormenta continuamente. Leio, releio nas entrelinhas da vida encontrando sempre respostas que já sei, busquei aos poucos soluções nos loucos, nos sem compromisso, mas eles já não tinham o que dizer sobre a tristeza. A verdade é que todos sabem que o mundo tem uma infinidade de problemas muito piores do que essa minha tristeza, mas tento justificar o injustificável. Existe no mundo uma tristeza das mães, dos filhos, dos animais, “objetos”, estrelas, mar, céu... Essa tristeza dói tanto que ela acaba se tornando uma tristeza coletiva. Tenho a impressão que essa tristeza chegue numa frequência menor em mim (microscópica), talvez, a tristeza foi aos poucos sendo metamorfoseada em meu corpo. A tristeza é como uma fúria no meu deserto. Minha tristeza, vossa tristeza, todas as tristezas que sentimos é algum estilhaço do mundo. A arte é na sua essência triste e simplória, assim como a vida. Essa tristeza que sinto é necessária para minha sobrevivência, mas bem que ela poderia vir menos mexer com a minha índole. No dicionário diz-se que tristeza é: falta de alegria, esmorecimento, desânimo, abatimento, melancolia. Não quero dizer que o seu Aurélio esteja errado, mas tristeza é o estado natural das coisas. O ser humano colocou tristeza na sua genealogia. A tristeza já existia muito antes do big bang, neologismo ignóbil de fazeres desconhecidos, parônima selvagem. Como se diz a palavra tristeza em alemão? Agora como se diz tristeza de forma universal? Ninguém quer responder. Acabo este texto no meio da rua enquanto vejo um homem cair do nada na calçada, meia dúzia corre para socorrê-lo. Chego devagar, e logo, reconheço que se tratava de um AVC. Ligo para ambulância dou todas as coordenadas.  Resolvido. Pego o ônibus.  Já em casa... Descubro que não, não existe tristeza mais triste que o fardo de viver. O cotidiano é quem nos deixa triste, repetitivamente tristes. Somos e seremos tristes algum dia e não ligaremos mais para isso. Quem sabe, se não estivesse tão triste teria ficado com o homem até a chegada de sua morte no leito do hospital, mas a tristeza certas vezes não perdoa ninguém que cruza seu caminho. As ruas silenciam. Vou dormir. 

“A arte existe porque a vida não basta.”

Ferreira Gullar acertou na artéria do corpo mundo com essa frase. A arte ela é onisciente quando o assunto necessita de ir além. Tenho que confessar: a arte foi uma maldição que jogaram em mim, mas dentro dessa loucura que chamam de vida, não sei o que seria de mim sem ela. Lembro o meu primeiro choque com Dickens, Godard, Kubrick, Hemingway, Truffaut, Victor Hugo, Greenaway, Dostoievski, José Alcides Pinto, Allan Poe, Moreira Campos, Fernando Sabino, Gorki, Faulkner, Kafka (até hoje sonho me transformando, saindo de uma casca). Depois veio a poesia e um interesse maior pela música. A arte serve para sairmos da casca de nós mesmos. Doutrina totalmente kafkiana. Na arte tudo se transforma ou se torna uma transformação. Foi necessário que escutasse muito Bob Dylan para entender as pedras que rolam. Bebido por muitas horas para lembrar os caminhos de Zaratustra. O poder que arte tem de criar uma nova perspectiva é simples: basta você ter uma mente aberta, ou então, tenha sempre um pé de cabra para abri-la. O artista no geral, ganha o interesse para produzir arte quando sente falta de repostas que ele daria. O universo das respostas é estreito. Sobre os dilemas que viciam o ser humano e o mundo temos essa pergunta primaria que a humanidade vai levando até seu perecer. Esse questionamento é quase mítico dentro de um pensamento não científico, mas esses círculos de pensamentos continuam e continuará sendo o gatilho para o livramento metafísico da vida.  Tento me imaginar com um livro escrito por mim resolvendo os problemas do meu eu de dezesseis anos. As minhas escolhas e minhas perguntas foram desfiguradas pelo tempo, porém, não tive muitas decepções amorosas para criar aquele ego ultra narcisista; havia nascido maduro, perdido o caminhar da minha juventude, abandonado o meu cordão umbilical lá no sertão (quem saiba daí aquela tristeza), enfim, mudei tanto o meu caminhar que no fim, a melhor reposta que daria para o meu eu de dezesseis anos seria para não escutar essa filha da puta do futuro. Com meus dezesseis anos pensava em ser Sartre fundido num trapalhão (Muçum), logo depois quando li Salinger queria fuder com o mundo com meus gritos misantrópicos, punks cheios da minha virtuose. Com o tempo entendi como a arte mexeu comigo. A arte me deixou meio ranzinza, pessimista, anárquico, me levou a lugares estranhamos e desconhecidos, mas deu total liberdade para discordar de suas intenções. Toda arte que já consumi me basta, dentro de um contexto: a falta do excesso é o que torna a perfeição absoluta e, como um artista medíocre que sou eu me autoavalio. Parem! Eu confesso: sou um sujeito sem jeito que tem lá seu valor quando consegue organizar seus erros. Parem! Confesso: toda noite que morre, a arte é quem me socorre. E se a vida imita a arte? Eu consumo a arte, mas a vida é quem me consome, então, a arte é a vida? O certo é que o fim é o principio “a arte existe porque a vida não basta.”

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Hard-Boiled Wonderland and the End of the World (Sekai no owari to Hādo-Boirudo Wandārando) - Haruki Murakami [1985]




Já fazia tanto tempo desde o último texto sobre Haruki Murakami aqui. Fazia tempo também que eu não lia nada dele. Depois que travei no terceiro livro de Wind-up Bird Chronicle, achei que tinha cansado dele, ultrapassado algum tipo de limite. Só precisava de umas férias, agora já está tudo bem e eu voltei a querer ler tudo que esse japonês maluco já escreveu. Não voltei a Wind-up Bird ainda, farei isso logo, antes de pegar 1Q84. Antes eu quis ler o livro que o próprio Murakami diz melhor representar seu estilo e ser o seu favorito dentre a sua obra (costumava ser, uns anos atrás, quando ele deu uma entrevista pra Paris Review, hoje eu não sei se ainda é). Se o meu problema com o Muraka era que ele estava começando a soar sempre como mais do mesmo, Hard-Boiled Wonderland and the End of the World (título bem longo e difícil de traduzir, eu sei. Seria algo como País das Maravilhas Cozido e o Fim do Mundo. Esse cozido sendo o termo culinário para Hard-Boiled, e não o literário, que era pra ser pra que o título faça sentido. Hard-Boiled é o gênero literário que Raymond Chandler e Dashiell Hammett ajudaram a definir, um tipo de história de detetive, violento e com personagens amorais etc. É um estilo bem popular no Japão e que influenciou bastante o estilo do Murakami.) serviu pra me mostrar todo um lado do autor que eu não conhecia e que pode ser o lado mais interessante dele.

Uma Tóquio que pode ser futurista (o texto não define nenhuma data) está dividida entre dois grupos em guerrilha, o Sistema, que é um grupo regulamentado quase governamental, e a Fábrica, grupo criminoso. O primeiro usa Calcutecs, processadores humanos de dados eletrônicos, para proteger informação. O outro faz uso de Calcutecs que se rebelaram pra roubar informação. Um Calcutec do Sistema, alienado de toda a briga, sem nome (como todos os outros personagens do livro), é contratado por um cientista recluso para  processar um monte de informação. Esse cientista pesquisa remoção e manipulação de som e  desenvolveu uma forma de ler o subconsciente das pessoas, tudo isso baseado no trabalho que ele realizava quando funcionário do Sistema. Trabalhando para o cientista, o Calcutec descobre que só tem mais 36 horas de vida.

No Fim do Mundo, cidade estranha e isolada (a edição americana vem com um mapa desenhado para melhor compreensão do leitor), chega um novo morador. Mas existe uma particularidade em Fim do Mundo, os moradores têm suas sombras removidas e largadas para morrem, fazendo que eles percam suas mentes. Cada morador tem uma função e é mencionado como tal pelo narrador (o Guardião do Portão, a Bibliotecária, o Coronel etc.). O lado de fora é cercado por bestas que são alimentadas e cuidadas pelo Guardião do Portão, que é um gigante. Durante o inverno, boa parte das bestas morrem, então suas caveiras são removidas e limpas para que seus sonhos sejam lidos. O narrador é o Leitor de Sonhos, o único que tem acesso às informações deixadas pelas bestas. Confortável que o narrador esteja com sua vida de Leitor de Sonhos, ele ainda deseja voltar para sua sombra e salvá-la, salvando sua própria mente, no entanto isso é proibido pelas leis do Fim do Mundo, que proíbe os moradores de terem sombras, saírem da cidade ou passarem muito tempo nas florestas.

Isso não fez o menos sentido, só que mais do que isso tiraria a graça de ler o livro e ir descobrindo aos poucos o que relaciona uma história com a outra e como as coisas se resolvem.

Em geral, é uma história do Haruki Murakami. Todos os ingredientes específicos dele estão aqui, mas acontece que, saídos do forno, o prato foi completamente diferente. Ou talvez tenha sido a mesma comida, mas com um sabor incomum. Aqui temos um personagem principal passivo e solitário, satisfeito com a própria vida, que se vê pego por algo maior que ele em circunstâncias que ele não consegue controlar. Como sempre nas histórias do Murakami, tem uma garota ali para guiá-lo nesse caminho novo e bizarro. No caso da linha narrativa de Hard-Boiled, tem duas. A garota gordinha (é o nome que o narrador dá pra ela), neta de dezessete anos do cientista, que só se veste de rosa e nunca sai do laboratório, mas, apesar do ambiente protegido em que cresceu, é muito mais forte do que parece; e a bibliotecária, a mulher por quem o narrador se apaixona, que tem um estômago sem fundo, estando sempre com fome e podendo comer o quanto quiser sem nunca engordar. Elas que cuidam do narrador em sua jornada. Já na linha do Fim do Mundo, existe apenas a bibliotecária (outra), nascida em Fim do Mundo, perdeu sua sombra e sua mente ainda criança. Acredita que sua mãe morreu ainda mantendo sua mente, mas não sabe ao certo. O narrador se apaixona por ela e fica tentado a largar sua sombra para viver com ela em Fim do Mundo.

Logo de cara uma coisa já se destaca. Uma das linhas narrativas é um suspense, fortemente inspirado na ficção científica da época (Blade Runner, a cultura do Cyberpunk, ainda recém-nascida nesses dias) e, obviamente, dos livros Hard-Boiled, com seus capangas de um terceiro partido que quer se meter no meio da briga entre o Sistema e a Fábrica, femmes fatales, conspirações que dizem que o Sistema e a Fábrica são controlados pela mesma pessoa, e mistérios complicados que nem sempre encontram explicação. A outra é muito mais próxima da fantasia e usa uma linguagem muito mais formal e descritiva que a outra linha narrativa. O tom é bem mais poético e contemplativo que a correria tecnológica de Hard-Boiled. No Fim do Mundo não há guerras, estão todos bem e iguais e é isso que enche o narrador de medo.

Não é necessário dizer que também há música e cultura pop. Se não houvesse, seria o livro de outro autor que eu estaria resenhando. Lógico que na linha narrativa do Fim do Mundo não tem cultura pop, mas Hard-Boiled é cheio. E uma das coisas que cativa o narrador em Fim do Mundo é a presença de instrumentos musicais perdidos, que ele não sabe exatamente o que são, mas gosta do som que eles emitem, não por ser bonito - ele não sabe tocar -, mas por ser algo que ele nunca ouviu antes.

A repetição dos temas nos livros do Murakami é um defeito, isso não tem como negar. Outro é o fato dos narradores dele serem tão passivos que é como se o enredo os pegasse pela mão e os puxasse pelos acontecimentos. Isso vai irritar alguns. Na verdade eu creio que toda a parcela da população de leitores que não gosta de Murakami não gosta por causa disso. Eu me identifico. Ler uma história do Murakami é quase sempre como ler uma história feita sob medida pra mim. Isso não é muito saudável pra um leitor, mas é difícil de evitar. Hard-Boiled talvez tenha os narradores menos passivos. Solitários, silenciosos, flexíveis, pode ser. Mas eles tomam controle da situação uma hora ou outra, o que pra mim foi uma novidade. Por isso digo que foi o livro mais diferente dele dentre os que eu li e só isso já valeu a leitura. 

Se você nunca leu Murakami, eu não diria pra começar por esse. Por mais que eu ache esse o melhor livro dele, as traduções americanas são de doer. A prosa não é ruim, mas a revisão é abaixo da média. Devia ter contado o número de erros gramaticais que eu, que apesar de ser fluente em inglês não tenho o idioma como língua materna, consegui pegar, mas o imbecil do editor deixou passar, só que depois de um tempo eu fui perdendo a conta. Só isso basta pra vocês entenderem que foram muitos. Isso vai desagradar. É uma pena que a Alfaguara não tenha planos pra lançar esse livro ainda. (Ei! Se algum funcionário da Alfaguara passar por aqui, anotem essa dica! Esse é um livro do Muraka que não pode faltar no acervo de vocês, viram? - vai que cola.) Então, vocês que não sabem nada do autor, vão ler Norwegian Wood. Fiquem longe dos livros americanos traduzidos pelo Alfred Birnbaum e olhem torto pra Wind-up Bird Chronicle, traduzido pelo Jay Rubin (esse a culpa é da editora americana que mandou cortar sei lá quantas páginas do livro e mudar a ordem de alguns capítulos - queria eu entender essas editoras que compram os direitos pra traduzir um livro, mas exigem que o tradutor o desfigure por completo...). Apesar disso tudo, Hard-Boiled esse se tornou meu livro favorito dele, eu acho. Tá bem ali ao lado de Norwegian Wood. Os dois tão quase empatados. Uma boa edição brasileira de Hard-Boiled pode desempatar.

Aqui o resultado do Murakami Bingo:
Acho que eu já falei que esse quadro é do Grant Snider, mas nunca joguei o site do cara aqui. Pronto: http://www.incidentalcomics.com/ - Podem passar lá, o cara tem umas tiras - que não são bem tiras, mas eu não sei o termo - excelentes. (Agora vocês me digam quantos blogs indicam duas coisas em uma resenha. O que seria de vocês sem mim?)
E a nota: 5/5