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domingo, 19 de julho de 2015

Poema 81

linhas de prédios, tudo cinza,
janelas sem luz numa sexta-feira às dez e meia.
sacos de lixo largados enfeitam
as portas de ferro trancadas das lojas.

em meu templo urbano da decadência
cenário monocromático de filme romeno
vejo dois jovens caminhando em círculos
sobre a fonte desligada abastada de moedas
e um casal se beijando no banco da praça
enquanto uma moça de fora assiste
pela janela do apartamento e boceja
e fecha as cortinas e apaga a luz.

uma velha metida a besta, disse uma gari
para outra,
ontem me disse
ela apagou meu cigarro e me disse
apaga isso que isso mata, acredita?
eu disse, gente morre de raiva também.
e um estranho me vê rindo da genialidade
e passa.
uma bicicleta passa, namorados,
a garota faz sons de moto (vrum vrum vrum) com a boca.
tô fazendo mal pra mim ou pra tu,
a gari continua.
eu sigo rindo, então paro.

essa rua é tão vazia à noite.
moraria nessa melancolia nua
não fosse o problema do dia.

outra bicicleta. ponho as mãos no bolso.
alguém me disse, sozinho, sempre se finja armado,
ou, se der merda, grita fogo.
ele se aproximou falando e rindo. isso não podendo estar armado.
pensei em métodos de defesa que nunca precisei praticar,
mas era só um cara
meia idade, cultivando um mullet e
cantando canções evangélicas,
cumprimentando uns outros jovens que vinham em sua direção.

vejo, ao me aproximar do boteco destino,
palhaços na corda bamba
e danças circulares nas praças escuras
adentro uma nuvem de nicotina que se espalha.
boa noite, alguém me diz,
e eu sento no balcão e peço uma cerveja.
nessa vida eu ainda não consegui ficar entediado
com o mais do mesmo que nunca é bem igual
quando o sol se põe.

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