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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Poema 80

 
quando eu falo de medo da morte
esse medo de que falo não vem do fim.
ele vem em parte do instante, da dúvida,
da ideia que as luzes podem se apagar agora
por qualquer razão ou razão alguma.
e foda-se céu e inferno e purgatório
e toda sorte de divindades e forças
formas de punição e recompensa, tudo correias e
cintos de castidade,
loucuras de gente que repudia sua própria humanidade.
quem quer saber de Aquino ao conhecer Sade?

o que é o sofrimento do inferno e seu fogo e torturas
comparado à certeza de que a realidade é temporária?
que tudo acaba e nosso tempo nada significa?
que sentido real é ilusão, canção de ninar adultos?
fecho os olhos e tento experimentar o nada,
a sensação que vivi antes de nascer, e
meu coração dispara e tenho medo que não volte
porque se não voltar é o fim e o fim é o começo do meu pavor.

pior que isso, imaginem, seria a ausência do fim,
que terror a eternidade.
paraíso inferno purgatório - torturas em comum.
        paraíso como tortura da servidão
        purgatório como tortura do tédio
        inferno como tortura em si.
mas o terror real vem do eterno
da sequência sem interrupção
da frase sem ponto.
ver os outros partindo enquanto
você fica para trás e espera sem saber o quê.
gerações e gerações que passam, construções que viram pó 
enquanto você contempla impotente e sem descanso.
maldição como nenhuma outra.  
     
a fecundação é uma sentença,
o sofrimento consequência,
e ainda querem tornar pecado o prazer que
resiste, todavia, ao redor.
o que resta?, eu pergunto

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