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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Cagando e andando pra você; ou, a quebra do solipsismo





Você está andando pela rua, digamos que é uma noite de sábado por volta das dez horas, indo em direção ao seu bar de preferência ou qualquer que seja sua ideia banal de diversão de sábado à noite, que quer que seja que não envolva você sentado sozinho em casa olhando pra parede, e nesse caminho você é obrigado a passar em frente a um hospital em que, mesmo de fora, você vê as pessoas doentes ou sofrendo, esperando por atendimento, e os familiares destes, em igual sofrimento, esperando ou lidando com as notícias, e você é só um passante, mas você vê, e isso basta pra que a sua consciência dê suas voltas usuais e indesejadas, e você se sente triste, mesmo sem conhecer ninguém de fato envolvido nos diversos e simultâneos acontecimentos que levaram todas aquelas pessoas ao hospital. Normalmente – o bonito seria dizer – sua tristeza viria do fato de que existem pessoas vivendo nessas circunstâncias, contudo o real motivo é a constatação de que sua falta de envolvimento é um atentado fatal àquela sua última esperança de que a existência é, em si, uma experiência solipsista, de que no fim – o seu fim – contrariando o que você gostaria de acreditar, a vida vai continuar sem você, o que parece bastante óbvio, já que a ideia do solipsismo sempre te pareceu um tanto absurda, no entanto, o mesmo vale para o cristianismo – na sua percepção, afinal o tal amor de Cristo que os crentes tanto gritam sobre, você nunca o sentiu. Então você pensa, que diferença faz depois da morte?, afinal, toda religião ou teoria metafísica envolvendo o que vem depois da morte é sempre uma questão de preferência, pois o medo da morte é mais poderoso que a ciência e que a razão, sendo o hospital um choque de razão indo de encontro a sua crença – nesse caso o solipsismo –, que você mesmo reconhece insignificante, porém desejada, e o desejado, poderoso que seja, perde a força em diante do peso dos fatos, principalmente quando, poucos passos depois, você avista uma missa de sétimo dia na igreja, que você também pode ver por dentro e está cheia e mais algumas pessoas de preto, ternos e gravatas e vestidos, e rostos tristes, mas não tanto quanto um dia já estiveram – e é essa a sua evidência de que se trata de uma missa de sétimo dia e não qualquer outro ritual socialmente aceitável, não considerado primitivo e ancestral como tantos outros, pois o cadáver já perdeu seu caráter trágico e se tornou homenageado –, poucos choram por essa pessoa cuja morte já completa uma semana e que você não sabe quem é, mesmo assim ele reúne tanta gente, como os doentes no hospital, e você não está de forma alguma relacionado, e isso faz você pensar que, se você morresse hoje, não reuniria tanta gente, enquanto esse cadáver, rico ou pobre, velho ou jovem – os únicos atributos que parecem ser considerados quando alguém morre – fez mais do que você, moveu mais pessoas que você – para o bem ou para o mal –, mais amizades, mais contatos, mais laços familiares, seja o que for, mais que você, e sua vida continuou independente do fim da dele, então qual o motivo pelo qual a vida de tantos outros seres humanos deveria parar com o fim da sua. E, novamente, toda sua tristeza não vai para o sofrimento ou morte de tantos, mas pelo abatimento daquele seu bom e velho solipsismo, e toda essa questão de vida e morte, tão profunda, é somente um exagero pretensioso, pois, nos rendamos ao clichê da árvore que quando cai distante de todos, no meio das florestas inexploradas ainda faz barulho, ou, ainda mais banal, seus próprios hábitos podem ser analisados... Chega, esse uso da segunda pessoa nada mais é que um implorar pela empatia do leitor desse conto, truque mais barato da literatura metalinguística, esse inverter das pessoas para, então, trazer à tona a realidade, se esforçando para que o leitor sinta alguma coisa com o monólogo tão forçado – o segundo pior truque é a realização consciente do mesmo truque, mas nesse ponto o leitor terá que entender meu desespero amador e me perdoar pelo golpe descarado, pois explicar o golpe não o torna menos ofensivo, basta que o leitor se esforce em compreender sua necessidade. Um clichê, um golpe, um truque, não seria reconhecido como tal não fosse sua efetividade. O morto, o hospital, a igreja, nada disso é necessário, nem mesmo o você. Minha falsa impressão de solipsismo morreria mesmo que eu não me metesse nesse cenário e que usasse então meu usual: tenho a vontade de ir ao bar, no entanto penso no tanto que tenho para fazer, no quão mais fácil é escrever a sós, sem música, sem as conversas, sem as luzes infames dos celulares, então não vou, passo o tempo em que deveria estar escrevendo pensando em tudo que se passa no bar quando eu não estou lá, fico pensando e me distraio daquilo que devia estar fazendo, me distraio com programas de televisão que baixo pela internet – apesar de insistir em dizer por aí que não tenho televisão –, me distraio com tudo que a internet tem para oferecer, e não escrevo uma palavra, pensando em tudo aquilo que não presenciei no bar e como isso é mais da vida se passando sem mim antes mesmo de eu morrer, e não viver – no sentido usual que se aplica a palavra viver, o tal viver de verdade, experimentar, explorar – se mostra inútil quando eu não uso o tempo perdido – não vivendo, digamos – para produzir algo em seu lugar que possa ser chamado de valioso. Eu ou você, a essa altura foda-se a pessoa, estamos todos sós e insatisfeitos, mas, voltando a mim – pois tudo sempre volta a mim, independente da minha vontade –, ir ao bar, conseguir escrever por não ter tantas distrações como em casa – no fim, as distrações do bar ainda estão direcionadas aos outros e não a mim, como em casa elas costumam estar por falta de outra pessoa que elas possam distrair –, não ajuda a diminuir a impressão de que a vida passa – ir ao bar ou não ir ao bar, escrever ou não escrever, ficar em casa ou sair de casa, atos diferentes com resultados iguais – sem que eu a viva. Então surge, entre nós, agora assumidamente na mesma posição – outro truque descarado, mas que peço que ignorem – aquela velha pergunta: e de quê vale tudo isso?, pergunta essa tão inquirida aos escritores, e para a qual nenhum de nós – se me é permitido me incluir nessa classe – consegue responder, e me pergunto se é muita decepção para o leitor – um leitor – que eu também admita que não sei?, que obviamente também deixo a vida passar, que aquilo que escolhi como minha arte me exige isso, essa função de câmera bêbada do cotidiano que filma um documentário chamado minha geração, mas escolhe ser produção e não elenco?, respondo sem responder, argumentando que sem alguém no meu papel seria pior, pois não haveria pergunta, mas esse é outro truque e cabe ao leitor cair nele ou não.

2 comentários:

  1. Você escreve à mão ou no computador? Por quê?

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    1. Depende. Esse conto foi à mão porque o primeiro rascunho eu escrevi num bar. Pois é. Em geral, se eu tenho um computador por perto, escrevo no computador. É uma questão de praticidade em todos os sentidos (tempo e espaço).

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