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domingo, 19 de abril de 2015

Poema 76



I

eu procuro a poesia
eu a procuro em qualquer buraco em que ela queira se esconder
eu a procuro nos bares e seus olhos tristes e mesas vazias com marcas redondas úmidas
            e nos fundos dos copos marcados pela espuma da cerveja barata e na solidão
            generalizada e no mofo e urina e dor ah! dor pois o que mais há é dor
eu a procuro nas ruas e nos padrões dos monumentos construídos de pedra e aço e vidro
            e carne em ode ao dinheiro e na escuridão das janelas quando ainda é cedo e o
            mundo fora deveria vibrar e celebrar a vida e no ritmo dos passos das pessoas
            em marcha de formiga desavisada do caos eminente
e no medo daquele que foi acolhido pela rua após o abandono da sociedade e no medo
daquele que está só de passagem e naquela onipresente dor
eu a procuro nas pessoas e nos seus diferentes olhares e sonhos e humores e argumentos
e brigas e escolhas e formatos e loucuras e loucuras e loucuras e amores e besteiras e pavores
 e em suas viscerais verdades ocultas e vergonhas e passados e mentiras e desejos
carnais passionais boçais amorais absurdos ridículos patéticos desejos de
            foder matar ajudar insultar acariciar e escarrar
e na dor pois a dor é tudo e está em todos desde o começo da vida pós-uterina
eu a procuro no que há de sagrado e no que há de profano e no que há de herético e no
            que há de erótico e no que há de delirante e no que há alucinógeno e no que há
            de sóbrio e no que há de ébrio e no que há de violento e no que há de honesto
            e em tudo que há e em tudo que não há
eu a procuro na mulher e em tudo que há nela e na paixão e no desprezo e nas que eu
amo e amei e nas que me amam e me amaram e nas que eu aprendi a odiar e nas que
aprenderam a me odiar e nas que me odeiam sem precisar de curso ou lição
e nas que se entregam e nas que se protegem e nas que sorriem ou choram e  nas que
sorriem e choram e nas que dão e sentem prazer e nas que vivem e que dão vida e lógico nas que sentem e logo doem pois se há algo há dor
eu a procuro na beleza e na arte e na vida e no álcool e no prazer e na visão hedonista da
existência que prega que vive bem aquele que se deixa viver e é nisso que há
beleza
é no vinho
é no sexo
é no amor
é nas letras
é na música
é na loucura
é na porra da vida
é na poesia em si pois a vida é a poesia e a poesia é a vida é a verdade e o caminho
sem a poesia não há Dor e nem Vida e nem Mundo
nem Beleza
e só sabe o que é beleza aquele que viveu além dela e vê que linda é a forma e o caos e
            o que não é igual e nada de fato é igual
o belo está em tudo como a poesia está em tudo
ela está em quem ama e em quem odeia e em quem dói e onde há amor e ódio e dor e
            paz e violência e vida e morte
em tudo em todos
a poesia é meus caros
                                     a Poesia é

II

por um instante
tudo para
os ruídos o mundo
as vontades as ideias
a caneta se arrasta pelo papel
faz-se a poesia
tudo está bem

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