Páginas

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Charlie Hebdo e o protesto dos escritores



Até o momento, seis escritores membros da PEN American Center recusaram participar da festa deles, marcada para mês que vem, que homenageará a revista satírica Charlie Hebdo. Dentre eles estão Francine Prose (romancista, ensaísta, contista, pouco traduzida no Brasil - encontrei apenas três trabalhos de não-ficção), Michael Ondaatje (romancista e poeta, autor de Paciente Inglês, entre outros) e Rachel Kushner (romancista autora de Lança-Chamas, entre outros). O motivo, de acordo com Prose, por mais que o ataque à sede do jornal seja injustificável e a revista tenha demonstrado coragem ao seguir com seu trabalho mesmo em meio às constantes ameaças, o fato deles insistirem em fazer humor com os oprimidos torna a revista indigna de um prêmio ou homenagem desse porte. A PEN (Poets, Essayists, Novelists) é uma organização não-governamental que reuni escritores em nome da liberdade de expressão.

Francine Prose - que nunca li, mas agora quero.

Por mais óbvio que seja que um crime como o atentado à sede da revista Charlie Hebdo não deva ser tolerado, o protesto não é sem causa ou desrespeitoso perante às vítimas. De início, minha reação foi contra os escritores. É difícil continuar chamando de preconceito os textos e charges ligando o islamismo a atos terroristas quando, constantemente, críticas ao islamismo vem seguidas de reações violentas e terroristas. Não ajuda a defesa de nenhum advogado quando uma parcela considerável da população islâmica diz não concordar com o ataque, mas considerar que é consequência, afinal, se você mexe com Mohammed, deve estar preparado para uma reação. Ficou visível que a parcela de islâmicos que de fato repudia ataques como esse é uma minoria - embora existam e se expressem. Fosse a revista uma produção de um país islâmico, mesmo com ressalvas, poderia se dizer que era de se esperar, pois as leis do país são punitivas perante ofensas à Mohammed. Essa não é cultura francesa. Considerando o conceito de liberdade de expressão, na França, a Charlie Hebdo podia fazer o que faz, sem que qualquer consequência fosse devida. Sim, as imagens são ofensivas, mas restaria aos ofendidos protestarem fazendo uso de força proporcional (boicotes, sátiras inversas, artigos, enfim, palavra contra palavra). Fora de um país islâmico, a ideia de que "infiéis devem morrer" é repulsiva - na verdade o é em qualquer lugar, mas isso deve levar em consideração um sem número de aspectos culturais e históricos que não cabe a esse texto abordar.

No entanto, ao ler o artigo publicado pela Francine Prose para o The Guardian, tudo passou a fazer mais sentido. Injustificável que sejam os ataques terroristas à revista, isso não torna a obra das vítimas dignas de premiação. Eram corajosos, de fato, mas os desenhos se resumiam a caricaturas grosseiras que se referiam de forma ofensiva não só a religiões - que merecem ofensas na maioria das vezes - como às consideradas minorias - basicamente qualquer um que não seja homem branco europeu heterossexual, ou seja, os atacados são uma grande maioria. Ou seja, sim, o ataque terrorista foi um crime, um insulto internacional à liberdade de expressão, mas não torna a Charlie Hebdo premiável, da mesma forma que um artista não se torna melhor depois que morre - vide Michael Jackson e Paul Walker, por exemplo, que se tornaram lendas de seus setores artísticos após morrerem, mesmo que o merecimento da reputação seja questionável.

Que tem cara de quem sempre está achando alguma coisa engraçada. É como se ele vivesse com um pequeno comediante dentro da sua cabeça contando anedotas 24 horas por dia.
Salman Rushdie, talvez o único autor que possa se sentir ofendido ao  ouvir defesas aos terroristas islâmicos, visto que ele foi forçado a se esconder por tantos anos após o aiatolá Khomeini decretar sentença de morte (fatwa) ao autor pelas críticas ao Estado Islâmico em Versos Satânicos, se manifestou, chamando os seis autores que protestaram de covardes ("pussies", nas palavras dele). Na época em que ele correu risco de morte, dezenas de autores se expressaram em sua defesa, assim como a PEN - que também premiou o autor em 2010. Desde então, Salman Rushdie tem se mostrado um forte crítico ao islã, deixando claro que os atentados que o Estado Islâmico comete frequentemente contra a liberdade deveriam ser criticados e satirizados, e critica também o relativismo cultural normalmente aplicado sobre essas questões - basicamente a ideia de que "sim, é absurda a maneira que o Estado Islâmico trata a mulher, mas é a cultura deles, então é melhor a gente não se meter".

A pergunta que fica, considerando os posicionamentos de Francine Prose e Salman Rushdie, quem está mais certo? Parece claro que nenhum dos dois está totalmente errado, mas, entre eles, qual se sobressai? Procurei superficialmente por mais manifestações de outros autores envolvidos na polêmica, mas não achei nada que fosse além do que já foi publicado pelos dois. Não vi muita defesa ao posicionamento de Rushdie. Seria covardia deles?, medo que amanhã ou depois, por causa da premiação, a PEN e seus membros se tornem alvos? Isso é uma possibilidade. O que exatamente separa um livro como Versos Satânicos das sátiras de Charlie Hebdo? O que faz de um digno de prêmios e homenagens e outro vítima dos próprios atos? Um crítica social e outro caricatura grosseira?


Fiz meu trabalho e procurei uma edição da Charlie Hebdo - a ideia de escrever esse texto veio de repente, então não deu tempo de ler Versos Satânicos, até terminar a leitura, a coisa toda já teria perdido relevância. Meu francês é péssimo, então, se entendi dez porcento do conteúdo foi muito, no entanto não é necessário ser alfabetizado pra perceber que o tema das charges pode ser visto como ofensivo e vai muito além da religião. Eu não ri, principalmente porque eu acho muito fácil fazer graça com grupos que já são historicamente oprimidos e porque nada me choca mais, mas isso é apenas a minha opinião e meu senso de humor. Nesse aspecto, concordo com a forma que Francine Prose descreveu os quadrinhos. Mas isso é o suficiente pra recusar um prêmio à revista? O suficiente pra esquecer o fato que os ataques à revista não foram um ato isolado e sim terrorismo contra a liberdade de expressão? Prose diz que a liberdade de expressão garante a existência de partidos neo-nazistas, mas nem por isso devemos premiá-los. Eu acrescento que a mesma liberdade de expressão permite ridicularizemos esses partidos, e isso é lindo.

Cansado dos dois lados, restou ver o que diz a organização que vai premiar a revista, os responsáveis por tudo isso. Vejamos, antes de qualquer manifestação sobre os autores e seus posicionamentos, o que a PEN diz sobre si mesma e seus membros em sua cartilha. Nela está escrito "Membros da PEN devem, a todo o tempo, fazer uso de sua influência em favor do bom entendimento e respeito mútuo entre as nações; eles se comprometem a fazer o máximo para dissipar ódios de raça, classe e nação, e para patrocinar o ideal de uma humanidade vivendo em paz em um mundo. Não exatamente o que o pessoal da Charlie Hebdo faz.

Andrew Solomon, atual presidente da PEN, dá a entender que, com ou sem protestos, a premiação seguirá, mas ainda falta tempo para o grande dia, a situação pode mudar. Ele se manifestou dizendo que a premiação é pela demonstração de coragem dos artistas envolvidos na Charlie Hebdo, não necessariamente concordando com o conteúdo por vezes ofensivos às minorias oprimidas da França. Como?, eu pergunto. Como exatamente uma organização premia uma obra, sem valorizar a obra em si, apenas um momento excepcional de coragem e demonstração de defesa à liberdade de expressão.

É difícil medir objetivamente o valor cômico da Charlie Hebdo. Se você não é um francês branco de classe média alta heterossexual e não-religioso, provavelmente não vai te agradar, mas essa não é a questão. O que Prose diz está certo. A PEN existe pra valorizar atos reais em defesa da liberdade de expressão. Considerando o que a PEN diz sobre si mesma, a Charlie Hebdo, independente de sua qualidade, não se encaixa no perfil, e isso fica mais claro ainda quando até o presidente da organização insiste que o prêmio é a coisa certa a fazer, mas procura não se relacionar a obra premiada em si. Parece até uma provocação meio broxa. "Vamos reconhecer a obra dessa revista famosa por ser opressiva às minorias, isso vai gerar polêmica e notoriedade internacional, mas vamos deixar claro que não concordamos com o que essas obras expressam". Não faz muito sentido, no fim das contas. A reação do Salman Rushdie parece a mais autêntica, mas também soa como revolta juvenil - por mais leviano que possa soar dizer que a revolta de um cara contra a religião que o tentou matar é juvenil; é mais uma questão de como ele se manifesta (pussies!) do que contra o quê. É tudo um jogo de "vamos ver o que acontece", o que me faz questionar o valor real dessas premiações pra começo de conversa.

Uma polêmica que interessa somente às elites e ignora às sensibilidades daqueles que a revista pode ofender. Isso não é politicamente correto, é o básico que um ser humano pode demonstrar de empatia. Tampouco é censura. Em nenhum momento digo que as publicações da Hebdo são erradas e não deveriam existir - nem qualquer autor disse isso. O ataque terrorista que a revista sofreu não pode ser diminuído como uma reação razoável às ofensas, atitudes como essas não devem ser relativizadas, consideradas culturais ou justificáveis. Devem ser vistas pelo que são e ridicularizadas para que não ganhem força - vale lembrar que o cartunista da Hebdo recentemente anunciou que não voltará a caricaturizar Mohammed; ele não se manifestou sobre desenhos retratando mulheres negras na forma de macacos (já aconteceu). O ato não torna certas charges de tom racista, misógino e intolerante aceitáveis tampouco. Me pego repetindo o que Prose já disse. Foi uma tragédia, mas não torna a obra geral da Hebdo digna de premiação (partidos neo-nazistas podem existir, mas não devem ser homenageados). O fato da PEN concordar com essa afirmação, faz de todo esse assunto um exercício do absurdo. É a típica síndrome da hipérbole de caráter post mortem, que já defini anos atrás, se manifestando, quando o trágico faz do medíocre ou do repreensível algo genial.

Obs.: eram seis o número de escritores contra a homenagem à Charlie Hebdo no momento em que comecei a escrever o texto. Agora, no fim, mais vinte e seis se uniram ao protesto, incluindo Joyce Carol Oates (que, curiosamente, já se mostrou uma velhinha racista no twitter) e Junot Díaz.

Um comentário:

  1. Para além do tema que é complexo, gostei muito dessa sua busca pela verdade por trás dos fatos.Aprendi um pouco mais hoje.:)

    Bom feriado.

    ResponderExcluir

caixa do afeto e da hostilidade