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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Do ato de não escrever



Fevereiro, mês em que as resoluções de ano novo se quebram, quando se pensa positivo, porque, de verdade de verdade, é por volta da segunda semana de janeiro que as promessas costumam cair por terra. A minha era não deixar esse blog parado por mais de duas semanas. A última postagem desse blog é de janeiro e não fui eu quem fiz. Escrevi para outro blog, de bom grado e com muito ânimo. Aqui, nada.

Não, essa não é uma postagem de choradeira, falando de insatisfações, sedes por coisas diferentes e todo aquele papo que vocês já conhecem tão bem. Na verdade, estou me sentindo muito bem quanto a minha própria escrita, como nunca antes. Não é um estado de plena satisfação porque isso não existe com nada. A única satisfação plena vem com a morte, aí não dá pra ficar insatisfeito. Estou encarando com a cabeça erguida o fato de que nada que eu escrevo nunca vai ficar tão bom quanto eu quero que fique ou acho que poderia ter ficado e de que nada que eu escrevo é tão ruim quanto eu acho que é e de que nada que eu escrevo é tão bom quanto eu acho que é, quando acho que algo que faço é bom - existem sim esses momentos, com mais frequência do que se imaginaria, considerando o quanto que eu reclamo.

Nem pensem em bloqueio. Está longe disso. Tenho ideias a dar com o pau e estou com asco do clichê do tormento da página em branco, o quero longe de mim e de tudo que eu faço, por favor. Dezenas e dezenas de rascunhos sobre assuntos, filmes, artistas, livros dos mais diversos. E sei como escrever cada um deles de um jeito relativamente competente. Acreditem, o blog não está parado por falta de assunto - nunca esteve - nem por falta de ideias ou sequer falta de vontade.

O ato de não escrever pelo simples fato de nunca se chegar ao teclado e digitar as palavras necessárias é bem mais complexo que bloqueio ou insatisfações ou desânimo. Pode ser generalizado, vocês que também escrevem que me digam, mas pode ser um defeito de fábrica meu. Por algum motivo, deixo de escrever. Não de vez, todo dia escrevo nem que seja um parágrafo. Só não vai pro blog. Ou tenho postagens quase prontas, faltando aquele último parágrafo, aquela última linha que eu até escreveria se revisse o texto, mas nunca o faço e então a última linha nunca vem e o texto nunca se fecha.

É quase uma autosabotagem, se eu achasse que esse blog um dia pudesse me trazer alguma coisa, mas não acho que trará - estou bem certo de que não trará porque eu não sei exatamente o que eu quero que ele me traga ou se quero que me traga alguma coisa e quase me esforço para que essa situação não mude -, então não faz sentindo nenhum. O fenômeno cerebral desconhecido que me faz não escrever é o mesmo que me faz ficar de frente à janela por minutos pensando se saio ou não em determinada noite de sexta. Processo que nunca envolve qualquer dilema ou debate interno, mas que ainda assim me paralisa.

Aí, da noite para o dia ou do dia para a noite, vem a vontade de quebrar esse hiato. Acontece que, para mim, ele nunca aparenta ser tempo perdido. As semanas paradas do blog me parecem um dia, algumas horas. A vontade é só terminar aquela tal resenha e postar sem qualquer explicação sobre o sumiço. Não é como se eu devesse algo a alguém ou como se houvesse alguém aqui para quem eu pudesse dever alguma coisa. E pouco antes de clicar no publicar, vem esse pequeno texto sem razão de ser, definindo esse fenômeno. Possivelmente que ele tenha vindo assim com tanta facilidade porque eu mesmo quero ler sobre isso que me toma e eu não sei o que é. Ver o ato de não escrever de fora, como se o texto fosse um espelho esquisito. Analiso a mim mesmo por meio das palavras que fiz para mim. 

Esse dito fenômeno soa um tanto como preguiça, a tão amada procrastinação. É um pouco diferente. Procrastina quem faz alguma coisa no lugar daquilo que se deveria estar fazendo. Ah!, e a coisa adiada é um dever, o que esse blog nunca foi para mim e essa é a exata razão pela qual eu o amo tanto. Gosto de acreditar que o hiato, dessa vez, foi porque estou trabalhando no meu livro - sim, aquele, reescrito quatro vezes, do qual falei sobre a primeira vez em 2012, e agora está chegando na casa das 110 páginas, acho que está 60% pronto, falta definir umas coisas e tenho duas opções para o final, preciso me decidir qual delas usar, mas é bem provável que eu escreva as duas antes de escolher. É, definitivamente, um motivo. Mas o tal fenômeno do não escrever, que na verdade é apenas um não escrever algo específico, já que outra coisa está sendo escrita - se bem que, essa outra coisa também é escrita muito pouco, coisa de uma hora, entre pausas de horas em que nada acontece - e que não é preguiça, segue como razão primária. Saber o que escrever e como, mesmo assim não fazer, sem qualquer motivo lógico, moral ou emocional. Vou, por autoproteção, acreditar que acontece com todo mundo e deixar pra lá. Por hoje, voltei. Então, como vão vocês? Tudo em ordem?


2 comentários:

  1. Ah, então é assim? Você some por semanas, sem dar notícias e depois aparece, do nada, perguntando se estamos bem?
    Bom, pelo menos eu sei que e verdade esse papo de estar tudo rascunhado e só faltar um parágrafo final. Sugiro que você revise seus textos para concluí-los. Eu amo ler tudo o que você escreve porque você simplesmente escreve muito bem e isso é um fato, não tem o que contestar.

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  2. Eu dei um tempo no blog no período das festas de fim de ano, até porque eu estava viajando. Pra voltar foi difícil, voltar ao ritmo de escrever posts de qualidade e vencer a preguiça na hora de responder comentários e divulgar o blog.
    Mas cá estamos com animo renovado e desejo o mesmo à você!

    Beijos, O Outro Lado da Raposa

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