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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Postagem de fim de ano e os caralho a quatro.

Se não me engano, terminei o ano passado dizendo que tinha sido um ano ruim, pelo menos pra mim foi. Esse ano agora, não sei dizer se foi ruim, talvez não tenha chegado a tanto. De forma alguma foi bom. Foi esquisito. Falo em um sentido além do pessoal, coisas estranhas aconteceram no mundo. Não sei se vale a pena listar quais foram, nunca tive intenção de fazer comentários sociais nesse blog, embora tenha me aventurado por essas perigosas trilhas no passado, prometendo a mim mesmo nunca mais fazer isso só porque não vale a pena e não leva a lugar nenhum.

O que que eu posso fazer pra dar um toque de conclusão a esse outro ano em que o blog sobreviveu. Comentários sobre o blog em si, em retrospectiva, podem ser bons pra começar. Eu falo isso toda hora e toda hora é verdade, mas nesse ano isso se elevou de uma forma inesperada, falta alguma coisa pra mim nesse blog. Não sei dizer se é conteúdo, aparência, reconhecimento. Pode ser tudo isso, mas não sei o que fazer pra mudar a situação. Quando penso em tomar medidas pra tornar o blog mais conhecido, logo me vem uma voz perguntando se isso importa. Se a página no facebook, por exemplo, tivesse 401 curtidas ao invés de 41, ia mudar alguma coisa? Talvez. Muito possivelmente mais pessoas de fora quisessem se comunicar comigo, muitas não tão agradáveis quanto as que já tenho algum contato frequente. Comentários não tão necessários ou amigáveis. Não sei se faço questão disso. Só tem uma coisa de que eu estou certo, não adianta me enganar dizendo pra mim mesmo que o blog é pequeno porque o conteúdo não é típico ou o meu jeito de escrever não serve para agradar o leitor etc. etc. e todas aquelas desculpas para que eu possa me sentir feliz e underground. Não é verdade, vi muita gente esse ano com conteúdo mais obscuro que o meu e muitos mais leitores. O estilo da escrita pode ser um bloqueio pro leitor convencional, mas não tão grande. O blog é pequeno porque eu sou preguiçoso e não tenho coragem de sair por aí nesse mundo de divulgação. Apesar disso tudo, gosto do jeito que as coisas estão, mesmo que às vezes pareça que o blog é particular.

A aparência, o layout, definitivamente é uma coisa em que eu quero mexer ano que vem. Talvez eu não faça, mas a vontade existe, só me faltam os meios. Mesmo que eu soubesse fazer, ainda me resta a dúvida do que fazer. Não sei que visual refletiria a personalidade do blog. Uma coisa simples, lógico, mas não tão desleixada como agora, que mais parece um blog de teste, sem dono, só com textos jogados aleatoriamente. Parece que o blog é um daqueles que costuma durar três meses, mas acabou sobrevivendo por mais tempo - o que é bem o caso.

Em se tratando de conteúdo, minha insatisfação é abstrata. Já falo de filmes, livros, música, pintura, faço textos próprios, crônicas, contos, poesias, opiniões aleatórias e nem sempre compreensíveis. Não resta muito o que escrever sobre, considerando meus interesses. O número de postagens caiu consideravelmente esse ano, mas não por falta de conteúdo planejado na minha cabeça, foi por falta de ânimo mesmo, vontade de fazer a roda girar. Isso é um problema.

Uma coisa que eu ando pensando faz tempo, mas nunca fiz por onde para realizar, era inserir um(a) colunista no blog. Convidei umas pessoas com o passar dos anos, mas nunca ia pra frente. Acho que posso fazer aqui o anúncio oficial (dessa forma ele fica escondido o suficiente pra que só as pessoas com interesse real encontrem). Se você estiver lendo isso, saiba ler e escrever, tenha vontade de produzir textos e fazer parte de um blog, mas seja muito preguiçoso(a) pra criar seu próprio blog, entre na página contato, logo acima, e mande um e-mail (sim, eu poderia simplesmente escrever o e-mail aqui, mas esse é meu jeito de dizer que, nesse blog, você vai ter que se virar). Não vou te pagar nada (nem eu ganhei porra nenhuma com essa merda, porque você acha que ganharia), talvez eu não te aceite por razões aparentemente arbitrárias, mas estou disposto a colocar mais uma voz aqui que não seja a minha. Estou cansado de mim mesmo, essa é a verdade. O conteúdo em si, não tem regras. Será como o seu próprio blog dentro do meu. Sem controle de conteúdo, sem mediação. Tem uma pessoa especificamente que eu pedi para fazer parte do blog, mas que não aceitou por insegurança e preguiça (acho que foram só esses os motivos) que eu gostaria que mudasse de ideia em 2015, mas...isso é outra história. A vaga está aberta independentemente.

Bom, mudando de assunto abruptamente. O que eu mais ando vendo nesse fim de ano são listas de melhores filmes, melhores livros etc. Não farei isso. Dessa vez não é por causa do meu hábito de ir contra e querer me fazer de lobo solitário. É porque eu tenho muita dificuldade de, no fim do ano, identificar as coisas que eu fiz nesse ano, e não em anos passados. Não sei dizer quais filmes eu vi quando ou quais livros. No fim a lista não seria dos melhores, mas dos 10 ou 5 livros que eu me lembro de ter lido esse ano e, por coincidência, gostei.

Uma coisa é certeza, muitas vezes em 2014 me impedi de escrever uma resenha por achar que não tem nada que eu pudesse escrever que fosse digno do livro. Bom, isso continua sendo verdade, mas agora eu não acredito que exista tal coisa como uma resenha digna. Então resenharei coisas que sempre considerei muito acima da minha capacidade esse ano, nem que seja só pra dizer "ei, esse livro é bacana, leiam".

Eu tenho uma mensagem bonita de fim de ano pra vocês pra poder encerrar o post? Não, não tenho. Tentem não morrer, que tal essa? Ou morram, se for essa a vontade de vocês, quem sou eu pra impedir, vocês são livres, ora! E feliz ano novo.

Obs.: com uma semana de atraso, acabei de descobrir que o Joe Cocker morreu. Caralho! Isso não é jeito de acabar o ano. Bom, em homenagem a uma das melhores vozes da música, um vídeo surrupiado do Youtube: 



Tá, e a imitação perfeita que o John Belushi fazia dele também, só pra não acabar o ano tão mal assim:


domingo, 21 de dezembro de 2014

Momento Musical #5 - The Mamas and the Papas, Love, The Velvet Underground


Nessa casa da mãe Joana que é o Momento Musical, por mais que eu tente evitar, acabo caindo num tema. É inconsciente. Defino as bandas de improviso, cinco minutos antes de escrever a postagem, aí uma meio que se conecta a outra dessa maneira. Estou escutando o disco enquanto penso no próximo, e o próximo acaba vindo. Na edição de hoje, são bandas da minha tão amada década de 60. Uma delas, a primeira, é meio deslocada, mais ligada ao pop que ao psicodélico, mas não está tão distante. Vamos à música que é o que importa.

The Mamas & The Papas -  If you can believe your eyes and ears


Minha primeira memória dessa banda é bem distante. Era a minha mãe quem gostava especificamente da música California Dreamin'. Nunca foi muito meu estilo, eu achava, até ouvir esse disco por completo uns dois anos atrás. O som é leve, cheio de harmonias vocais, meio folk, meio pop com uma pitada de psicodélico (que era meio onipresente no som de 66-68). Acho que não gostava por nunca ter prestado atenção mesmo. É uma banda relaxante.

Love - Forever Changes


Esse disco é um dos melhores do seu período, o que é dizer muito (foi lançado em 67, e agora você vai no Google e pesquisa "álbuns lançados em 67", se vocês gostam desse tipo de música, mas não são tão ligados na história por trás dela, vocês terão um orgasmo). Encabeçou toda uma geração, mas hoje ninguém lembra deles. Culpo o nome da banda. Convenhamos, nossa geração baixa música e descobre tudo pela internet. Tenta pesquisar a palavra Love na internet. Vai demorar umas 30 páginas do Google, até encontrar alguma informação sobre a banda. Mais bagunçado ainda é pesquisar Love no PirateBay. Sorte de vocês que o tio Rapha existe e trás essas joias diretamente pra vocês, sem necessidade de perder tempo pesquisando.

The Velvet Underground - Loaded


Fiquei triste pra cacete quando o Lou Reed morreu ano passado. Puta compositor, e eu acho que o melhor trabalho dele está nesse disco. Já me peguei ouvindo esse álbum e cantando junto com Sweet Jane, Who Loves the Sun, Oh! Sweet Nuthin'. Esse é um dos meus discos favoritos da história do rock e eu não faço ideia de por que essa é a primeira vez que ele figura aqui no blog (se bem que tem dezenas de álbuns que eu amo e nunca falei sobre por aqui - só aguardem as próximas edições do Momento Musical).

É isso. Não farei mais Momentos Musicais esse ano, mas 2015 estará aí logo. Quem sabe eu até bote ordem nesse barraco, organize minhas postagens por semana. Não prometo porra nenhuma, mas não é impossível de acontecer.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Agora fodeu de vez


Não bastasse a página no facebook mais cedo esse ano, antes que 2014 acabe, anuncio o nascimento da minha conta no twitter. É isso mesmo, agora os leitores desse blog também poderão ter acesso aos meus mais indiscriminados pensamentos. A culpa é, em parte, de vocês. Agora estou aqui com bloqueio criativo pra lançar meu primeiro tuíte. 

Este sou eu lá: @deliriumscribs

Vocês podem seguir. Eu deixo. Espero que até lá eu já tenha escrito algo.

Prometo que não serei um poeta de twitter, isso é escrotice demais, até pra mim. Sim, eu tuitei essa frase. Hmm... É isso, encerro o post desse jeito? Que merda, hein? Deixa eu pensar se tem alguma coisa mais pra falar. Não. E isso já é uma enrolação descarada.

Ei, olhem aqui essa banda bacana que eu conheci esses dias:


Pronto, agora não me sinto culpado pela falta de conteúdo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Um triste quadro numa peça de teatro na Hercílio Luz numa tarde de sábado



Caía uma enxurrada de verão. Me vi pela segunda vez na nova livraria de Itajaí, meio por impulso meio por falta do que fazer. Por algum motivo eu parecia intimidar os vendedores, salvo por um deles. Um rapaz franzino, seguindo a moda de deixar a barba, mesmo que a barba não o seguisse, formando apenas penugens nas bochechas e no queixo. Não era o vidente da primeira vez que fui lá, pelo contrário. Entrei e, como é meu costume, fui até a área de literatura nacional. Tinha dado uma boa olhada nas estantes e na organização, podendo dizer que já conhecia o lugar desde a visita anterior. O moleque veio de uma maneira que eu considerei invasiva. Entendam, eu não preciso de muito pra não gostar de uma pessoa. O tom errado em um bom dia já é o suficiente pra eu olhar torto pra um desconhecido. Ele me parou e perguntou se eu precisava de ajuda. Respondi que não, tinha acabado de entrar. O certo a se fazer numa hora dessas é dizer, ok, e procurar outro cliente pra importunar. Lembram do que eu falei no último texto sobre minhas desventuras em livrarias - deixe o cliente se familiarizar com o local e use seus movimentos para se familiarizar com o cliente; se o rapaz tivesse lido meu blog, hoje ele seria um vendedor menos pior. Está procurando algo específico, ele insistiu. Não, eu disse. Ele deu uma risada nervosa e disse, é que você entrou com tanta segurança. Tive que me controlar pra não dizer, eu sei mais do que você, então sai do caminho. Disse apenas que já havia estado lá antes e conhecia o lugar. Acho que ele não falou mais nada.

De cara vi um livro que me chamou atenção. Mil rosas roubadas, do Silviano Santiago. Fui passá-lo no leitor de código de barras para ver o preço, mas não consegui acertar o ângulo. Aí eu me toquei que meu diálogo com o outro vendedor podia ter afetado os outros. Uma moça de aparência tão frágil quanto o rapaz incômodo perguntou se poderia ajudar. Bom, naquela ocasião ela poderia, então disse que sim, por favor - eu sou educado, apesar de tudo. Ela passou o livro no leitor. As mãos dela tremiam e ela parecia se recusar a olhar na minha direção, com a cabeça meio baixa e a voz também trêmula. Eu me senti mal. Verdade que o primeiro vendedor era um cretino e merecia algum grau de hostilidade - na minha cabeça -, mas eu não tinha nada contra o resto daquelas pessoas.

O arrependimento durou pouco, quando me vi em paz vasculhando as estantes sem ninguém me perguntando o que eu queria, sendo que, de fato, eu não queria nada. Separei uma antologia de poemas do Murilo Mendes e outra da Elizabeth Bishop (uma edição bacana e bilíngue da Companhia das Letras, com tradução do Paulo Henriques Britto); o romance O Drible, do Sérgio Rodrigues; o livro do Evandro Affonso Ferreira que o vendedor da ocasião anterior me tinha sugerido; o livro de um português que na contracapa foi comparado com Kafka, mas que não me lembro do nome; um do Miguel Sousa Tavares. Era tanta coisa na minha cabeça que minha hostilidade perante os vendedores poderia ser vista como simpatia. Imagina submeter uma pessoa ao meu sistema analítico de escolha, cheio de pesos, medidas e variáveis. Não detesto ninguém dessa maneira.

Fui ao caixa com o do Sérgio Rodrigues, o da Elizabeth Bishop e o do Evandro Affonso Ferreira. Ela me disse o valor e eu não tinha o suficiente pros três no bolso - me recuso a entrar no jogo do cartão de crédito. Pedi pra tirar o do Evandro. Paguei e fui embora. Ninguém me entregou cartão de comissão. Mas a história não é sobre isso.

Saindo do shopping, a chuva tinha passado. Grandes poças haviam se formado nas esquinas, mas o calor já tinha quase secado a calçada em partes onde água não estava acumulada. Peguei a Hercílio Luz pra voltar pra casa. Uma rua comercial que sempre procuro evitar por causa do barulho, do movimento, dos gritos e do cheiro desagradável, mas que depois do horário de trabalho fica tranquila, com todas as lojas fechando, os funcionários indo embora, compradores de última hora levando suas sacolas, pombos carregando restos de comida em seus bicos, artesãos guardando seus trabalhos; essa impressão de fim me acalma por algum motivo. Chegando no começo da rua - fiz o caminho inverso, entrando no fim e saindo na entrada -, na esquina onde fica a Casa de Cultura, havia uma cabine cercada por duas caixas de som. Uma voz dramática saía dos alto-falantes. O interior da cabine imitava a sala de uma locutora de rádio, com um microfone e uma placa em que estava escrito "no ar". Lembrei de ter visto um anúncio de que haveria uma peça ali às cinco da tarde. Eram seis, então a chuva devia ter adiado o começo. A sinopse que eu li dizia ser a história de uma locutora demitida após vinte e cinco anos de carreira, que decide, no último programa, desabafar. Cheguei quando ela havia sido demitida. De início, demorei pra me conectar à peça por culpa da linguagem. Talvez, sem meu conhecimento, ela se passasse em outra época, mas eu não percebi isso e, portanto, estranhei e muito o uso da palavra pinoia. Me senti assistindo à novela das oito. Não ajudava que a atriz fazia uso desse jeito sempre tão bem enunciado de falar, comum no teatro, mas que não me agrada nem um pouco. Esse linguajar antiquado e o jeito forçado de pronunciar as palavras seguiu durante toda a curta peça - ao todo não durou dez minutos, mas eu nem percebi que tinha sido tão pouco.

Em algum momento, uma coisa me cutucou a barriga. Tentei olhar ao redor pra verificar que tinha sido, mas meu foco estava preso à cabine e à atriz. Era verdade que a peça não passava de um grande clichê. Adivinhem qual era a perturbação da locutora: ela sofreu abusos familiares - que original. Me perdoem a insensibilidade, de forma alguma diminuo casos reais de abuso infantil ou de qualquer outro tipo. Mas na ficção, principalmente uma ficção que tem em seu roteiro a palavra pinoia, esse artifício está batido. Tem que ser muito bom pra funcionar. E essa atriz, afetada que fosse, era boa. Deixando de lado minhas barreiras iniciais, consegui me sensibilizar com a história clichê que ela contava, principalmente pela maneira que ela contava e por ela ter se sensibilizado também. Então novamente veio o cutucão e eu pude ver que era uma garota baixinha, regulando entre os dezoito e vinte e dois anos. Mesmo depois de eu ter olhado pra ela, ela seguiu me cutucando sem dizer nada. Imaginei que ela sofria de algum problema e o melhor seria não fazer nada. Então ela me entregou um panfleto plastificado. Minha atenção estava bastante dividida. Vi as palavras  do panfleto, mas não as entendi, nem imagino do que elas pudessem se tratar. Sei que eram sobre uma organização de apoio a alguma coisa - podia ser doença, deficiência, abuso. Peguei o panfleto, mas ainda não fazia ideia do que ela poderia estar querendo. Voltei a atenção à peça, ela me cutucou de novo. Posso te ajudar, falei. Ela me mostrou uma caderneta. Nela havia três colunas, nome / valor / assinatura, e  várias linhas abaixo de cada coluna, estando apenas duas fileiras de linhas preenchidas até então, ambas vinham com dez reais na coluna de valor. Entendi que ela queria uma doação. Não fazia ideia de por que ela não falava. Podia ser que ela fosse muda, mas algo insistia em me dizer que era parte da peça, ou um movimento em paralelo desenvolvido pela Casa de Cultura. A menina, não falando, queria me dizer algo que eu não estava conseguindo captar. No meu bolso eu tinha dez reais. Dei pra ela. Ela apontou a caderneta com uma caneta, insistindo pra eu assinar. Fiz. Ela sorriu, sem nunca mostrar os dentes ou abrir a boca - era isso que me insinuava que tudo se tratava de uma performance. Enquanto eu segurava a caderneta, ela pôs o braço ao lado do meu e apontou para um e para outro. Entendi que era para mostrar a diferença na cor das nossas peles. Então ela abriu os braços como se feixes de luz saíssem de suas mãos e englobassem a todos, um sinal de igualdade. E minha ideia de que ela era uma peça de teatro paralela à outra só crescia na minha cabeça. Quando ela fez o gesto, pensei em fazer uma piada dizendo que ela estava apontando a diferença entre os nossos tamanhos (e poderia bem ser), mas não achei apropriado - não podia esquecer das chances de ela não poder me ouvir. Ela agradeceu com um meneio de cabeça e foi fazer a mesma coisa com outra pessoa, sempre sem falar nada, sempre cutucando com a caneta. E agora eu me via observando as duas, a atriz na cabine e a garota que não falava. 

A emoção da atriz me fez acreditar que o desabafo se tratava de um improviso baseado na realidade. Aos poucos o público foi se mostrando incomodado. Ela falava de espancamentos e o que eu imagino ter sido um estupro (a linguagem foi mais abstrata nessa parte, e o microfone não ajudava a compreensão) na frente de famílias comuns, gente que nunca foi no teatro e não entendia o que estava acontecendo, crianças. Saí da realidade interna por um momento. Vi além da peça, incluindo o público como parte dela, tudo uma coisa só. Nada mais apropriado, visto que a cabine onde estava a atriz era na verdade uma vitrine de loja, justamente objetivando essa inserção estranha entre dois mundos supostamente opostos (arte/consumo). Vi a senhora que, revoltada, foi embora sussurrando a pouca vergonha que era aquela apresentação; a mãe tapando os ouvidos do filho pequeno sempre que a atriz falava um palavrão; o homem pedindo pra não assinar a caderneta de doação da garota que não falava; a própria garota indo de pessoa em pessoa e repetindo seus maneirismos; a atriz que chorava repetindo lágrimas reais perante a vida fictícia da personagem; eu com uma sacola de livraria na mão tentando de alguma maneira entender tudo aquilo (e formulando frases mentais na esperança de transformar aquilo em texto, já que não sei pintar ou filmar).

A atriz começou a desabotoar a blusa, gritando que era tudo que lhe faltava tirar, visto que, após o desabafo, já estava nua para os ouvintes. Um botão e ainda mais pessoas foram embora a passos de desconforto e desgosto. Num banco bem de frente para a cabine estavam os mais entusiastas entre o público. Creio que alguns sentados ali choravam e sentiam mesmo, como se fizessem parte da organização. A garota que não falava me viu e me cumprimentou a distância, devolvi o cumprimento. Era como se ela soubesse que eu queria saber qual era a dela - ou como se ela fosse totalmente indiferente. Óbvio que a atriz vestia uma camiseta fina de alça por baixo da blusa e grossas meias-calças brancas por baixo da saia. A peça seria proibida em dois segundos se envolvesse nudez pública em meio a crianças e gente de família - estes últimos tão cheios de pudores e sensibilidades. Ajoelhada, ela encerrou. Levantou-se, saiu da cabine e começou a tocar uma marchinha da época de ouro dos rádios - eis a explicação da pinoia. Os que restaram de nós começaram a aplaudir. Ela agradeceu, mais que tudo surpresa pelo número de pessoas que pararam para assistir a peça até o final.

Fui embora tocado de verdade. Não imaginava que uma apresentação dessas, informal, no meio da rua, era possível sem que houvesse desrespeito e distrações. Precisei transformar aquela cena em alguma coisa, fosse o que fosse, mesmo que fossem só palavras sem finalidade. Encarrego o leitor de tirar conclusões aqui. Para mim foi só uma tarde melancólica de sábado cercada por beleza fora do comum. Poderia ter abordado a garota que não falava depois da peça, perguntado se ela era parte daquilo ou se só estava atrás de doações para sua organização; se era muda ou só atriz; escolhi não fazer. Que importariam essas respostas afinal?  

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Divórcio - Ricardo Lísias [2013]


Peguei esse livro emprestado dois meses atrás. Nunca tive coragem de pedir livros emprestados para ninguém, não importando o quão bem eu conhecesse a pessoa, por causa da pressão. Passado muito tempo, se eu não terminasse a leitura e devolvesse o livro, ia começar a me sentir cada vez mais culpado. Fiz essa exceção porque queria ler algo do Lísias já faz tempo, mas não sabia qual comprar, e sempre que fazia uma lista de futuras compras, deixava o dele para depois. Então me atirei nessa pressão psicológica propositalmente para me forçar a ler o livro, e em um ritmo razoável. A pessoa que me emprestou havia passado as últimas semanas elogiando Divórcio, então pedi o empréstimo. Ela aceitou, até porque já havia emprestado dois livros para essa pessoa.

Feito em uma série de fragmentos divididos em 15 capítulos - que o livro chama de quilômetros, mesmo número de quilômetros da São Silvestre -, Divórcio conta a história de como Ricardo Lísias (personagem, não autor) se divorciar da esposa após um casamento de quatro anos. Os fragmentos são formados de pensamentos do autor durante e depois do divórcio, momentos do passado, trechos do diário que a esposa do narrador mantinha (causa principal da separação) e autoanálise. Seguindo a linha já bastante tradicional na literatura francesa de autoficção, Ricardo se põe como personagem, mas não exatamente.

A narrativa de Divórcio trafega a linha tênue entre ficção e realidade, com o autor, talvez intencionalmente, fazendo o leitor ceder àquela voz que o acompanha enquanto ele lê, que insistem em dizer que aquilo aconteceu daquela forma, que o eu-lírico e o eu autor são um e o mesmo. Ele faz isso colocando, ao lado das invenções (o treino para São Silvestre que ele nunca fez e a corrida da qual ele não participou - embora ele narre com a verossimilhança de um participante) os fatos - citações aos montes sobre o livro Céu dos Suicidas, que existe e foi Ricardo Lísias, autor, quem escreveu. Resisti o que pude, mas, como imagino tenha sido o caso da maior parte dos leitores, botei o nome dele no Google e fui investigar quanto daquilo foi real. Saí da pesquisa sabendo tanto quanto quando entrei - nada. Nem sei dizer ao certo se o cara foi casado. E, querem saber, bom que tenha sido assim. Não vem ao caso quem é Ricardo Lísias, o autor. O livro trata de Ricardo Lísias, o personagem, e, para este, tudo que se passou no livro foi real, mesmo que tudo não passe de ficção.

Apesar das distrações, das fofocas, do drama, do real contra a ficção, o livro fala mesmo é de jornalismo. Desse mundo que todos sabem ser corrupto chamado mídia, a principal responsável pela informação. Lísias escreve sem medo sobre o poder que existe nesse meio, e o poder que estes que o representam (jornalistas) acreditam ter. Nesses momentos, a prosa beira a fúria, o que só aumenta a curiosidade do leitor para saber se Divórcio é biografia ou não. Ironia que vou julgar ter sido intencional, fazer o leitor se entregar ao mesmo mundo do jornalismo que o autor condena.

Devo dizer, entretanto, que as repetições do livro me cansaram. A metáfora insistente sobre "estar sem pele" e as descrições exaustivas da pele voltando e não voltando e se ferindo me fizeram sair da narrativa muitas vezes. Escolha estilística, imagino, mas pra mim não funcionou. O livro não fica ruim por causa disso, o resto do conteúdo compensa. Para mim ele foi além do jornalismo e brincou com esse obsceno gosto humano por tudo que é do outro, mesmo que o outro seja um fundo de banalidade tão ordinário quanto você.

Atropelando as repetições, o romance é muito interessante. Me deixou curioso pelas outras obras do autor, principalmente agora que já estou vacinado e desencanei da realidade, pelo menos quando estou lendo (às vezes nem preciso ler pra isso).

Nota: 4/5

Não confie em mim. Leia um trecho e, se gostar, compre o livro: http://www.objetiva.com.br/arquivos/capas/Divorcio__1oCapitulo.pdf?1416486760

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Les Amants Réguliers (Amantes Constantes) - Philippe Garrel [2005]


Eu tenho esse fascínio pela década de 60 que muitos de vocês já conhecem, foi isso que me levou a me interessar pelas crises políticas da época (a ditadura militar brasileira, os hippies e a contracultura nos EUA, a primavera de Praga, e os eventos de maio de 68 em Paris). Fiquei sabendo em meio às minhas pesquisas particulares da existência desse filme e logo o baixei e assisti. O diretor é Phillipe Garrel, que, em 68, fez parte da revolução, ao lado de Godard e Truffaut. Esse filme, Les Amant Réguliers (não confundam minha preferência pelo título original com pedantismo ou francofilia, é porque o título nacional é composto de duas palavras que rimam e vocês não fazem ideia do quanto isso me incomoda), é de 2005, mas tenta recapturar o espírito daquela época. Sem colocar a carroça na frente dos bois, li sobre a possibilidade desse filme ter sido uma resposta a Os Sonhadores (The Dreamers), do Bertolucci, de 2003, que trata mais ou menos do mesmo tema, a diferença sendo The Dreamers mais focado no lado erótico/sexual, e Les Amants... mais filosófico/introspectivo (não contendo uma só cena de nudez). Em uma cena, inclusive, uma personagem se volta à câmera e cita Antes da Revolução (Prima della rivoluzione), de 64, enunciando muito bem ao espectador o nome de quem dirige: Bernardo Bertolucci. Pode ou não ter sido um cutucão, um jeito discreto de dizer: você costumava se importar. Isso foi o que um crítico disse, e vocês sabem como são os críticos. Como nunca ouvi nem Garrel nem Bertolucci falarem nada sobre isso, e até onde sei os dois são amigos, não tomarei partido no caso. Mencionei apenas caso algum leitor mais informado quisesse me esclarecer.


Os conflitos entre os estudantes e os policiais na França em 1968 (época em que o governo era bastante conservador) estão cada vez maiores e mais violentos. Um grupo de jovens artistas, entre eles o poeta François (Louis Garrel) e a escultora Lilie (Clotilde Hesme), tem hábito de se reunir na casa de um amigo deles para fumar ópio, trabalhar, discutir, dançar e planejar os próximos passos da revolução. Um policial um dia vai à casa de François para perguntar porque ele não se apresentou para o exame militar obrigatório. Ele se recusa a ir com o policial e, quando este busca reforços, ele foge. Depois desse evento, François se torna mais engajado na revolução.


Em um dos "ataques", ele conhece Lilie e a reencontra numa das festas dadas na casa do "padrinho" deles todos. Os dois iniciam um relacionamento, ela tem dificuldades com a monogamia no começo, mas logo se apaixonam. A revolução, agora em 69, já foi em sua maior parte esquecida. Os trabalhadores voltaram a trabalhar e os estudantes à universidade.


É um filme de três horas, então já adianto que é indicado apenas aos que se interessam pelo tema e/ou gostam de histórias envolvendo artistas drogados e seus muitos questionamentos que os impedem de trabalhar. Se você gosta desse tipo de história (eu gosto), não será chato, as três horas passarão voando. Perfeito também para os aficionados sobre a época, já que o filme parece ter o objetivo de mostrar um retrato preciso do que foi viver naquele tempo, feito por um diretor que o viveu, lutou na revolução junto das tantas personalidades do período. Isso não quer dizer que o retrato seja romantizado ou ausente de críticas, pelo contrário, o vazio das personagens é bem demonstrado e a falta de sentido generalizada é muito bem explorada.


Estéticamente, Les Amants Régulier é uma homenagem à Nouvelle Vague. Preto e branco, cheios de diálogos tirados de livros de filosofia existencialista francesa, música somente quando necessário, quebras da quarta parede, referências a outras artes, jump-cuts, até mesmo as personagens têm um quê de godardianas, sendo que suas interações parecem cortadas diretamente dos filmes da primeira fase do auteur.


Não tem jeito de eu ser objetivo aqui. O filme, apesar de longo - uns diriam, sem estarem errados, longo demais -, tem tudo que eu gosto, trata de vários assuntos que me interessam, desde a liberdade sexual à liberdade criativa. Isso não me impede de entender que não é para todos. E não, isso não é uma dessas frases elitistas, como se o filme fosse muito complexo ou denso para certas pessoas, que, por isso, seriam inferiores. De forma alguma, muito pelo contrário. O que eu quero dizer é que ele pode ser extremamente desinteressante para muitos, e, para esses, sugiro qualquer outro filme. Talvez até algo do Godard, que com certeza é menos pessoal que esse filme do Garrel.

Nota: 5/5