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domingo, 30 de novembro de 2014

Poemas: 71 e 72

71

arte pela arte
longe das clausuras burguesas
dos grilhões da convenção social
enquanto papai pagar o aluguel
e a
         indispensável
                                  viagem à Paris
seu trabalho é sua alma
dinheiro não vale o seu sangue, você diz
sua câmera
            último modelo
        é presente do espírito santo
agora chore
esperneando pelo carinho
que seus ignorantes pais burgueses
           não souberam lhe dar
da forma e no tempo que você desejara


72*

fulano de monóculo em tarde nublada
disse fumando seu charuto
nomes são nada quando de fato
é o sobrenome capaz de amaldiçoar gerações

bem-aventurado o filho do famoso Silva, eu complemento
capaz de se confundir com filho do ordinário Silva
distante da definição da identidade

difícil vida do indivíduo inconfundível
indivisível de si mesmo e seu passado

-
*nunca mais vou pra cama sem papel e caneta, as aliterações e trocadilhos desse poema estavam tão perfeitas madrugada passada...

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Momento Musical #4 - David Bowie, Karen Dalton, The Brian Jonestown Massacre

No último momento musical eu segui um tema, mesmo tendo dito no primeiro que temas não seriam seguidos. Eis a consistência desse blog servida numa bandeja para vocês, leitores. Em compensação, o mm de hoje, número quatro, trata de três músicos que não têm absolutamente nada a ver um com um outro - o que alguns poderiam considerar um tema (a falta de um tema), mas não me venham com historinhas conceituais. (Interrupção irrelevante da CIVouVI: o senhor nomeado administrador desse blog deve parar de falar com si próprio como se estivesse falando com leitores, todos sabemos, infelizmente, que o senhor não é capaz de reunir leitores. [Querem saber, seus putos da Comissão da Casa do Caralho, isso já perdeu a graça. Se eu sou um problema são grande, me substituam.] Esse é a melhor ideia que o senhor já teve em todo esse tempo de administração incompetente. [Muito boa essa, tô esperando sentado meu substituto. Ah, e essas interrupções tão previsíveis, ok?] Como o senhor quiser.) Bom, vamos aos músicos e seus álbuns.

David Bowie - Hunky Dory 


O problema de falar sobre David Bowie é que ele não faz parte de um gênero musical, ele é um gênero musical, e um que muda frequentemente. Ele ganhou a reputação de camaleão com o passar dos anos, em parte merecida já que ele tem a tendência de mesclar com qualquer estilo que esteja na moda em determinado período, mas nunca é artificial. A "adaptação musical" é sempre do jeito dele, e é isso que eu acredito que faz a música dele tão memorável. Esse disco, Hunky Dory, de 1971, é um dos meus favoritos dele. Mas não me peçam pra classificá-lo. Escutem, vale mais a pena que ler o que eu estou escrevendo.

Karen Dalton - In My Own Time


Essa cantora...descobri da existência dela tão recentemente, mas ela gravou esse disco, uma das coisas mais perfeitas que eu já ouvi, em 1971 (ei, aparentemente essas escolhas têm algo em comum, mas não é intencional). Pela primeira vez na minha vida fiquei de luto pela morte de alguém que não conheci, e ela morreu em 1993. O mais trágico é que ela gravou três discos, em vida. Só. Tá certo que esse sozinho compensa pela discografia inteira de muitos artista. Sério, quando eu digo que minhas indicações são garantias, levem a sério pelo menos essa. Esse álbum vale a pena, não me importa do que você gosta, clique lá no play. Agora. Clicou, cretino(a)? Acho bom. Viu? Eu tava certo. Nunca mais duvide de mim. Fique de luto comigo.

The Brian Jonestown Massacre - Take It From the Man!

A década de 90 foi estranha pra música. Às vezes um estranho bom, outras um estranho ruim. Esse álbum representa todo o bem que a década de 90 fez pra música - que por sua vez foi tentar imitar a década de 60. Tem momentos experimentais que vão assustar um ou outro ouvinte, mas eu superestimo confio em meus leitores, sei que eles farão a escolha certa e ouvirão o disco (todos os três, a propósito. E no final verão cores e sentirão como se estivessem flutuando com a melodia. 

Acho que eu fui persuasivo o suficiente. Chega, é um post sobre música, não sobre o quanto eu acho que todos deveriam ouvir a tal música. E se vocês não ouvirem, o problema é de vocês e somente de vocês - eu já me fiz o favor de conhecer cada uma das faixas de cada um desses discos.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Barba Ensopada de Sangue - Daniel Galera [2012]


Por algum motivo a capa vem em três cores. O meu livro veio com a vermelha, mas pode ser azul ou verde. Não faz diferença, mas, na minha opinião, a vermelha faz mais sentido.

Há um tempo fiz a resenha de Até o dia em que o cão morreu, romance de estreia de Daniel Galera. Tinha gostado bastante do livro e dito que leria os outros assim que possível. Por causa de toda a atenção que Barba ensopada de sangue recebeu em sua época de lançamento (incluindo, além das vendas e da reação de público e crítica, vários prêmios), decidi que seria o próximo livro que leria desse autor.

O pai do protagonista sem nome vai se suicidar. A única coisa que ele quer de seu filho é que ele leve sua cachorra para ser sacrificada. Ele não obedece o pai e, ao invés disso, a leva com ele até Garopaba, cidadezinha do litoral de Santa Catarina. Vai até lá pela tranquilidade e para investigar uma história que seu pai lhe contara antes de morrer sobre seu avô. Sobre como ele sumiu após um baile na cidade, supostamente assassinado, mas sem testemunhas e sem que seu corpo pudesse ser encontrado. Ele aluga um apartamento e arranja um emprego na academia local como professor de natação para sobreviver. Leva uma vida normal, vez ou outra questionando alguns moradores sobre seu avô. O estranho é que ninguém parece se lembrar dele, mas sempre que ouvem a história o tratam com hostilidade, como se ele estivesse se metendo em território proibido.

Narrado em terceira pessoa, Barba Ensopada de Sangue consegue fazer que o leitor entre na mente do personagem sem nome devido à atenção aos detalhes. O protagonista sofre de uma doença que o faz esquecer de rostos em um curto período de tempo, até mesmo do seu próprio rosto e dos seus familiares, por isso ele foca em outros detalhes. Se ele conhece uma mulher e acha que vai vê-la novamente, repara no cabelo, em alguma marca na pele etc. - isso ele faz com todos os personagens. Por ser professor de educação física, ele tem um amplo conhecimento da anatomia humana, usando sempre os termos precisos para cada parte do corpo, assim como descreve cada passo dos exercícios diários que ele pratica e, durante as aulas que ele dá na academia, faz os outros praticarem. Vi em uma entrevista com o autor que, apesar da inserção dele na mente do protagonista fazer parecer que o livro estaria mais próximo da primeira pessoa, ele decidiu escrever em terceira justamente por isso, para poder trabalhar na narração como um escritor pensando como um professor de educação física. Afinal, por mais que o professor saiba anatomia e todos os termos complexos do corpo, dificilmente ele sabe dominar uma narrativa. A terceira pessoa permite que ele vá além, que ele saia da voz do narrador com mais liberdade sem nunca soltar tanto assim a sua mente, o que funciona muito bem em Barba Ensopada de Sangue, diria que é a narração é o ponto alto do livro.

Apesar de girar em torno de um assassinato, raros são os momentos em que essa busca move o enredo. Nesse ponto me lembrei de Haruki Murakami. Como os protagonistas do japonês, o sem-nome é levado pela investigação, e não o contrário. Ele tenta viver normalmente pela maior parte do tempo. Tem seu emprego, passeia com a cachorra, vive alguns relacionamentos emocionalmente deslocados com mulheres que conhece pela cidade, forma amizades (seus alunos e um budista de apelido Bonobo, que se tornou meu personagem favorito) e desafetos (quase a cidade toda). Um cara normal que se vê puxado por algo muito maior que ele. E, porque o mistério da morte de seu avô o parece perseguir, ele decide chegar até o fim e resolver o caso - que, vou evitar ser específico para não estragar a experiência dos que não leram ainda, toma proporções "sobrenaturais", também, mais ou menos como o Murakami.

Daniel Galera tem um puta ouvido para diálogo. Ele não separa as falas da narrativa usando aspas ou travessões, como é o comum, ao invés disso ele cormacmccartheia o texto - quem já leu Cormac McCarthy vai entender o que eu quis dizer com isso. Não fica confuso por causa dessa diferença de vez. Cada pessoa tem seu jeito de falar, uns tem seus maneirismos e regionalismos, outros não. Os diálogos soam  como conversas reais e não literárias. Ele também Cormac McCartheia nas reviravoltas violentas, consequências de certos atos do sem-nome.

O uso de notas de rodapé, emprestado talvez das notas do David Foster Wallace (cujos contos e ensaios Daniel Galera ajudou a traduzir), complementam a história, com conversas por telefone, mensagens de facebook, até o trecho do diário de uma prostituta. Nele se revelam as várias subnarrativas do livro, que mesmo focando no assassinato do avô do protagonista, carrega outras histórias, como a relação do sem-nome com sua família (especialmente o irmão e a ex-esposa, que o largou pelo irmão). São pedaços da história que vão se revelando aos poucos, dando vida ao livro e suas personagens.

Só uma nota irrelevante, mas que achei divertido compartilhar. A cachorra, cujo nome é Beta (pois é, ela tem nome, a maioria das personagens têm nome, o protagonista não), é uma pastora australiana. Mesmo sabendo como é uma pastora australiana, enquanto eu lia, minha mente formava algo parecido com uma labradora. Não sei por quê. Vai saber como funcionam essas coisas da cabeça. Talvez porque imaginar uma pastora australiana correndo debaixo do sol de Garopaba, se metendo na areia da praia e mar adentro, sem nunca tomar um banho, fosse me deixar aflito durante o livro todo. Agora voltamos para a resenha normal, mas na verdade é só o parágrafo de conclusão que vem a seguir, seus olhos já devem ter escorregado e observado que o texto está acabando.

As descrições de cenário seguem conforme as descrições das pessoas. Sem-nome é observador, por isso aponta cada detalhe dos caminhos que traça, as casas, a praia, o mar, os restaurantes, as paisagens naturais. Apesar de morar perto, nunca estive em Garopaba, mas depois de ler Barba... sinto como se já a houvesse visitado. Todos esses detalhes formam mais de 400 páginas, que nunca ficam chatas. É a junção perfeita de um livro como obra de arte e como entretenimento. Agora quero ler Mãos de Cavalo, que ouvi ser o melhor do Daniel Galera.

Nota: 5/5

Não confie em mim, leia um trecho aqui e depois compre o livro: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12453.pdf

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Pintura Para Principiantes #2 - Jackson Pollock

Anúncio irrelevante: a Comissão Imaginária de Vistoria ou de Vistoria Imaginária vem por meio deste informar que o senhor nomeado administrador deste blog foi intimado à seguir com as colunas que um dia decidira criar. Em respeito aos leitores, essa constante interrupção, coisas que começam, mas não terminam, há de parar. Seguimos agora com a programação normal, a segunda edição do quadro Pintura Para Principiantes, ou PPP (nós da CIVouVI, que admiramos as siglas, aprovamos essa escolha do nomeado administrador, aparentemente sua incompetência tem limites. [Ei! Isso foi desnecessário.] Não interfira com nossos anúncios. [Mas eles levam meia hora.] Basta! Se nos fazemos, de uma hora para outra, presentes no seu conteúdo, caro senhor, é porque por si só o senhor não dá conta do serviço.).


Nenhum leitor deve lembrar, mas no capítulo anterior (publicado meses atrás) falei de Edward Hopper. No último parágrafo, mencionei que o pintor perdeu popularidade conforme crescia o expressionismo abstrato, movimento do qual o nome mais reconhecido talvez fosse o de Jackson Pollock, que, portanto, seria o próximo tema. Como da última vez, deixo claro que não sou crítico de arte. Meu interesse por pintura é recente e meu objetivo aqui é fazer que o leitor aprenda aos poucos comigo. Isso vale mais ainda para um artista como Pollock, que até hoje causa polêmica no meio crítico, dividindo os que veem o valor da obra dele e os que não.

Nascido em 1912, Jackson Pollock começou sua carreira em 1930, inspirado por Digo Rivera e os surrealistas. No inicio, suas pinturas, embora sempre carregassem o aspecto abstrato, eram consideradas inteligíveis. Havia algo de tenebroso nelas, obscuro e por vezes violento, mas não chegavam ao caótico que caracterizaria suas principais obras.


Going West (1938), por exemplo, apresenta uma imagem, mesmo que surreal em suas formas arredondadas, escuras e oníricas, compreensível como se parte de uma narrativa. No mesmo ano, a pintura The Flame, não tão distante do estilo de Going West, já se aproxima do que viria a ser o objetivo de Pollock com a pintura. Sua maneira rústica de reproduzir chamas, com pinceladas brutas, linhas fortes e cores escuras, ele reflete, não a realidade do fogo, mas o fogo de acordo com sua visão particular, distorcida por suas próprias emoções.

   
Ainda procurando sua voz e altamente influenciado pela obra de Picasso e Miró, ele pinta The Moon Woman Cuts the Circle. Muito mais abstrato que as obras anteriores, focando na distribuição das cores e formas que geram uma ideia vaga do tema baseado pelo título. 


Foi em 1947 que ele surgiu com seu estilo e em 1949 expôs a Number One, feita em uma tela enorme, posta no chão. Pollock, então, caminhava ao redor da tela e respingava, gotejava e atirava tinta de parede na tela. O resultado era, aparentemente aleatório, o que dividiu os críticos da época. Por um lado, era sem precedentes. Nada assim nunca tinha sido efeito. Outros se perguntavam se precisava ser feito, visto que era uma obra que ignorava por completo as técnicas convencionais de pintura da época. Pollock dizia que seu objetivo era se tornar parte da pintura e esse era o único meio viável, tornar cada pincelada um movimento particular, motivado por emoção. As revistas daquele tempo diziam que assistir a Jackson Pollock pintando era como assistir a um ritual. Cada movimento que ele fazia parecia calculado e era refletido na tela.

Number One (1949)
 
Number 5 (1948)

Convergence (1952)

Blue Poles; ou Number 11 (1952)

Hoje o estilo é bastante conhecido e até considerado normal, embora sátiras e críticas não sejam incomuns. Falando como principiante admirador da arte, eu gosto. Mas entendo porque não agradaria alguns. A desordem das pinturas feitas entre 1947 e 1953 me fazem pensar na desordem da própria mente humana e, indo um pouco mais longe na filosofia de boteco, na arbitrariedade da vida.

Gostaria de ouvir a opinião dos leitores. Gostaram do estilo? Que pintor eu deveria abordar na próxima edição? Estou tentado a falar de um surrealista, mas estou aberto a sugestões. Por hoje é só. Pra encerrar, segue essa cena de Play It Again, Sam.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

O vôo da madrugada - Sérgio Sant'anna [2004]


Vi no Youtube não faz tanto tempo um trecho curto de um debate sobre o mercado editorial entre Daniel Pellizzari e Antônio Xerxenesky, um autor já resenhado nessas bandas, outro cuja coletânea de contos A página assombrada eu tenho, mas não li. Em determinado momento, Xerxenesky diz que o conto é a nova poesia, ninguém lê contos. Espera, tem acento em Xerxenesky? Não, mas o nome do livro é A página assombrada por fantasmas; pronto, corrigido. Ele está certo. Romances são bem universais entre leitores. A poesia, depois do Toda poesia, do Leminski, reviveu ou pelo menos deu cria, gerando edições similares para Ana C. e Waly Salomão. O conto morreu e permanece morto. É uma pena. Despertei para o conto só depois de um ano de leitura séria na minha vida, graças ao ou culpa de Dublinenses, do Joyce. Não podia ser mais clichê da minha parte, mas convenhamos que é uma puta coletânea. Pulei dele para Hemingway, Carver, Bolaño. Então peguei um livro do Sérgio Sant'anna ano passado e me prendi no estilo. O vôo da madrugada (mantendo a velha ortografia em respeito à edição) ganhou o Jabuti de sua forma em 2004 (pode ter sido em 2005, não sei como funciona a premiação especificamente). Disse isso na minha resenha do Carver, mas vou repetir já que é raro que meus leitores sejam completistas. Poderia fazer uma resenha para cada conto, até o mais curto, que consiste de uma folha apenas, e seriam todas longas como quaisquer outras das minhas resenhas. Mas não o farei, haja tempo. Vou mesclar tudo e, por conseqüência, fazer uma resenha superficial que, esperançosamente, alimentará a curiosidade dos meus três leitores e meio.

São dezesseis narrativas divididas em três partes. A primeira consiste de doze contos. Um não poderia ser mais variado que o outro. Cheios de brincadeiras metalinguísticas (ou deveria dizer metalingüísticas, mantendo a consistência da velha ortografia em homenagem ao título da edição, antiga porém viva? Farei isso, a pergunta foi retórica), indo de temas como o incesto, fantasmas (e atração sexual por um fantasma), fragmentos autobiográficos (ou não?) analisando a mente do contista (do contista real ou fictício?), uma análise da voz que te chama para a morte, uma conversa entre uma mulher e seu psicanalista, mais autobiografia (ou não), mais sobre a sedução da morte. Não se enganem leitores, essas não são sinopses, muito menos análises. São palavras que definem ou não os temas. Não definem, são muito rasas para definirem qualquer coisa, mas podem ser como palavras-chave. Os contos em si fazem o leitor pensar cada um dos vários significados que eles carregam. Fazem o leitor pensar no que é ficção também e qual seu papel.

A parte dois é apenas uma narrativa. Chega a ser novela? Deixarei essas definições para os críticos e professores, isso aqui é apenas um blog, uma indicação de amigo, um amigo que vocês não conhecem nem nunca viram sequer verão. O gorila, é título. Um homem, que se identifica como Gorila, faz ligações para mulheres aleatórias. Crime?, piada?, assédio?, insulto? Cada leitor pensa uma coisa, da mesma forma que cada personagem-alvo pensou uma coisa. Os papéis se invertem, vítima se torna criminoso (ou não). A narrativa é experimental. Parte diálogo, com pausas de poesia e ensaio, roteiro de tevê, trama policial. A novela faz um pouco de tudo. Sugiro ao leitor, nesse ponto, uma pausa para reflexão. Leia outra coisa antes de ir à parte três. Um conto de outro autor, talvez. Não dê muito tempo à pausa, contudo. Pense na novela. Melhor dizendo, faça uma pausa a cada narrativa e reflita sobre ela. Isso serve para toda boa coleção de contos.

Chegamos à parte três e é possível que você ainda esteja me lendo. É possível que você tenha deixado de ler quando soube que se tratava de um livro de contos. Se você for um tipo especial de idiota, é possível que você tenha deixado de ler quando soube se tratar de um livro nacional. Cada qual com sua opinião. Não se preocupem com o tipo especial de idiota, ele não está mais aqui para ser ofendido. É na terceira parte, intitulada Três textos do olhar (e você adivinhe em quantas narrativas essa parte se divide), que os limites entre a narrativa, o conto e o ensaio crítico se quebram. Uma mulher nua em um quadro se torna razão de uma análise sobre a nudez e, ao mesmo tempo, personagem do seu próprio espaço, que pode ser conto ou crítica, tanto faz. Então no segundo conto, por meio de uma fotografia, somos transportados para outro tempo, outros costumes. Mulher fotografada se torna personagem de uma história fictícia, modelo para um jovem pintor não existente que a apresenta às obras de Schiele e se transforma. A arte, no segundo conto, liberta mentes e transforma uma boa mulher de família esposa fiel em adúltera, o que não importa, já que a história não é real (ou é? Será que importa? Nada no livro é real, então que importa a vida presumida de uma mulher fotografada no Brasil da década de 20?). No terceiro, o alvo dos conto-críticas são as meninas de Balthus, como se pode presumir pelo título Contemplando as meninas de Balthus. Histórias criadas usando de combustível as sensações causadas pela arte visual estática.

Nada é perfeito. Das dezesseis narrativas, decerto algumas vão agradar e outras não. Fui tocado de certa maneira por todas, umas com mais intensidade outras com menos. Mas da mesma forma que as mulheres do Gorila interpretaram os telefonemas dele de formas diferentes, vocês interpretaram os contos de formas diferentes. Os seus favoritismos podem ou não ser iguais aos meus. Você pode não gostar de nenhum ou de todos. Ele ali pode gostar da primeira parte. Ela da terceira. O tipo especial de idiota já não está mais aqui. Eu indico a leitura. Você faça o que bem entender.

Nota: 5/5  

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Morte no quarto 812 [Conto] - parte 1

Querida Mariana,

não sei bem por onde começar. Não posso imaginar como você vá se sentir ao ler essa carta, acho que a única coisa que posso te pedir é que você me entenda. Acho que primeiro de tudo tenho que dizer que te desejo o melhor, que só tomei essa decisão que agora pode te parecer loucura porque sei que você se tornou uma mulher capaz, que assimilou ao máximo a educação que eu e sua mãe tentamos te passar. Você só tem vinte e três anos, mas tenho a sensação de que está segura, também fiz questão, antes de tomar qualquer atitude egoísta, que você não teria que precisar de mim financeiramente de novo. Não é muito que eu te deixo, é apenas o suficiente para te manter por alguns anos e meu apartamento, que você pode vender, caso não queira viver lá, eu compreendo, no seu lugar talvez não quisesse também. Acho que para esses momentos da sua vida que eu não vou acompanhar, só posso esperar que você seja feliz.

            Levantou-se da cadeira por um instante. Deixou a caneta sobre o papel para que descansassem um pouco. A caligrafia refletia o tremor de suas mãos, tinha medo que isso fosse passar uma sensação de angústia à destinatária ainda maior do que a que ela já seria submetida apenas pela ocasião. O fato de que ele não escrevia nada a mão há anos não ajudava. Tentou se lembrar de quando foi a última vez que usou papel e caneta. No passado recente, apenas para algumas poucas assinaturas. Muito provável tivesse sido nos papéis do seu divórcio. Atravessou o quarto, que era mais espaçoso do que ele esperava, e sentou-se na cama ao lado do telefone que ficava sobre a cabeceira.
            - Recepção, boa tarde.
            - Boa tarde, aqui é do quarto 812, quanto seria uma garrafa de uísque?
            - Depende da marca, senhor.
            - Quais você tem?
            - Temos Johnny Walker Red, Black, Gold e Blue label. Essas variam entre cento e oitenta e novecentos e cinquenta reais; temos Ballantine’s e Jameson por duzentos reais; temos Jack Daniels por duzentos e dez reais; temos Wild Turkey por duzentos e cinquenta reais; Chivas Regal doze anos por trezentos e quinze reais; Glenfiddich doze anos por trezentos e oitenta reais; e Chivas Regal dezoito anos por quatrocentos e trinta reais.
            Preços de hotel, como sempre.
            - Obrigado, qualquer coisa eu ligo de volta.
            - Eu que agradeço, senhor.

            Teria que passar no supermercado, compraria lá uma garrafa. Pena que queria dar uns tragos antes de sair do hotel. Não estava certo de que poderia comprar os materiais da lista enquanto sóbrio. O método era o que mais o incomodava. A velha corda no pescoço, tão rústica e antiquada, tão simples e eficaz. Sua preferência pessoal era o tiro na cabeça, parecia o mais rápido. Pensar na parte prática lhe causava náuseas. No projétil quente e veloz passando pelo cano da pistola, o chumbo sem freios encontrando sua testa, passando pelas camadas finas de pele e músculo como se não estivessem ali, então o crânio exige algum esforço, mas nada que interrompa a trajetória ou diminua consideravelmente a velocidade, toda a massa encefálica é atravessada, até que outra parte do crânio é atingida e, também, penetrada, quebrada para que a bala saia, ignorando mais uma camada de músculo, pele e, dessa vez, cabelo, e leve consigo partes do cérebro, sangue, osso, pele e cabelo, espalhando tudo pelo chão e pelas paredes; o projétil ainda viaja indiferente, parando ao atingir a parede manchada com as gotículas de sangue, talvez um pedaço de cérebro com tendências aerodinâmicas, mas não sem antes lutar um pouco e perfurá-la em uma profundidade de alguns dedos, e lá ele fica até que limpem a sujeira e removam o corpo; quem encontrar a bala vai sentir aquele arrepio na espinha de quem vê a própria morte no objeto que matou a outro, sentir sua fragilidade resumida naquele pedaço manchado de chumbo, então, dependendo da sensibilidade da pessoa, pode reviver mentalmente a cena e imaginar a bala saindo do revólver, repetir todo o processo até que ela volte à parede e as suas mãos calçadas com luvas de borracha. Se o procedimento durasse minutos, seria agonizante, mas são segundos, menos, um piscar de olhos, tamanha é a fragilidade do ser humano. E então? Ele achava que era só isso. Não estava cem por cento certo, mas achava muito difícil uma vida após a morte. Ainda assim, não era essa a parte que o incomodava. Pensava no momento, em como, apesar da trajetória da bala ser percorrida em um piscar de olhos, tempo é relativo. Em quantas coisas ele é capaz de pensar em um piscar de olhos? Em quantas coisas pensaria antes da bala levar sua vida? Haveria tempo para o arrependimento? Haveria tempo para a dor? Sentia a pele da sua testa repuxar. Coçou a cabeça, passou a mão pelo rosto, mas a impressão de que algo se rastejava por baixo da pele de sua testa não aliviava. Outro fator o mantinha intrigado, a que momento o nada – ou qualquer outra coisa que viesse após a morte – tomava conta? Não era médico, mas imaginava que o cérebro podia aguentar alguma quantia de dano antes de parar de funcionar. Podia ser logo no começo ou mais para o meio ou somente no fim de tudo e logicamente passaria tudo em um instante muito breve para ser percebido. Era por isso que preferia o tiro a pular da janela de um prédio alto, a persuasão da velocidade. O efeito da passagem lenta do tempo deveria ser o mesmo quando em queda livre, só que o tempo real é muito maior para chegar da janela do oitavo andar de um hotel até o concreto da rua do que da bala de pistola para atravessar uma cabeça. Mas será que ele sentiria a bala percorrer o interior da sua cabeça, considerando que de fato o tempo se movesse mais devagar durante o ato, conforme sua percepção? A dúvida não fazia sentido e a resposta era irrelevante. Por que ainda estava pensando naquilo? Tinha decidido meses antes que não iria se matar com um tiro na cabeça. Chegou a dar uma lida na burocracia necessária para comprar uma arma e era tudo muito caro e demorado. Não que para onde ele estava indo ele fosse precisar de tempo e dinheiro, mas se pudesse fazer de outra forma, com menos desperdício – queria deixar o máximo à filha, afinal –, ele o faria. Comprar a arma clandestinamente era outra opção, no entanto ele não tinha ideia de quem lhe poderia fornecer. Quando era adolescente, queria experimentar maconha; nem disso, algo tão banal, ele conseguiu encontrar um vendedor. Teria que procurar e fazer perguntas suspeitas ao pessoal da firma em que ele trabalhava, descobrir se alguém lá era atirador ou colecionava armas de fogo – isso se quisesse ser discreto – era muita dor de cabeça. Decidiu, então, pelo enforcamento.

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Comecei esse conto já faz meses. Vou terminar, mas antes quero terminar meu romance, antes de me dedicar aos contos (tenho toda uma coleção de contos planejada). Vou me esforçar pra trabalhar nesse esse fim de semana, nem que seja pelo blog, caso vocês, meus leitores que sei que existem, se interessarem o suficiente pra me estimular. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A coisa mais genial que eu já vi:


SAMUEL BECKETT MOTIVATIONAL CAT POSTERS (Pôsteres motivacionais de gatos, do Samuel Beckett).
Isso existe, e eu só descobri agora. Não é da minha índole fazer posts apenas divulgando uma coisa, sem acrescentar um texto ou uma opinião, acho preguiçoso. Mas isso precisa viajar o mundo e ser descoberto. Eis este tumblr: http://beckittns.tumblr.com/
De que ele consiste, você pergunta. Sabem aqueles típicos pôsteres de gatos com frases motivacionais clichê? Então, imagine os mesmos pôsteres com frases do escritor mais deprimente da história (e um gênio, um dos vários escritores que eu queria ser, gostaria de acrescentar). Mas por que estou descrevendo quando poderia estar mostrando?

Em um instante tudo irá se esvair e nós estaremos mais sozinhos, em meio ao nada! (Tradução livre e minha - isso vale pra todas as frases.)

Ele cantou sua cançãozinha,
ele bebeu sua garrafa de stout,
ele afastou uma lágrima,
ele se fez confortável.
Assim  são as coisas no mundo.
Tudo que eu quero fazer
é sentar meu rabo
e peidar
e pensar em Dante.
não poderia a visão beatífica
se tornar fonte de tédio
a longo prazo?
nada é mais engraçado que a infelicidade.
O sol brilhou,
não tendo alternativa,
sobre o nada novo.
Obs.: essa é a primeira frase de Murphy, um dos seus romances. Isso sim é começar com o pé direito.

Bom, no site tem todo um arquivo para o deleite geral dos meus leitores, sem a minha tradução. Divirtam-se.


Obs.: a Diretoria, também conhecida como Comissão Imaginária de Vistoria ou de Vistoria Imaginária, gostaria de demonstrar seu repúdio por esse tipo de postagem preguiçosa, assim como sua decepção com o nomeado administrador desse blog. (Agora vai ser sempre essa porra. O senhor não venha com esse palavreado chulo para conosco, ponha-se no seu lugar, o senhor não sabe nem ao menos formular interrogações apropriadamente. Desculpa.)

domingo, 2 de novembro de 2014

Poesia: 70

imagem recorrente imaginária
cenário:
à mesa de um restaurante barato ao meio-dia
Eros esterilizado
eu e você
uma epifania
daquelas que só quem perde seis anos da vida pode ter
a satisfação da lição aprendida
pergunto:
você está feliz?
resposta:
sim
isso me basta
ajo como se tivesse escolha
como se a resposta mudasse algo
não mudaria
mas estou pela primeira vez
completo
digo que estive apaixonado por ela esse tempo todo
ela diz que já sabia disso
eu sabia que ela sabia
sem jeito (nós ficamos)
é que agora, eu digo
sinto que passou
entre aspas
é outro amor agora
o que se sente por uma memória agradável
por bons momentos
quero que fique feliz
Eros se rebate
digo palavras que
não fossem elas sinceras
deveriam me levar à forca
pena de morte poética
crime:
idéias de auto-ajuda
mas é isso mesmo
só posso pedir perdão pelas palavras
Erato e Eros cospem na minha face
depois na minha alma e na minha libido
não me sinto derrotado

-
Vontade estranha de botar uma dedicatória nesse daí. Se não fosse minha vontade de me manter anônimo (salvo pelo meu nome e a cidade em que moro, informação que todo mundo que lê esse blog sabe), faria, mas esse não é um blog diário em que eu vômito meus problemas de maneira pseudo-reflexiva em busca de criar identificação entre mim e os leitores. Também acho melodramático deixar tão claro que determinado poema/conto/romance tem um quê de autobiográfico. As tragédias de amor tampouco valem um tostão em tempos pós-facebookianos. Amores não-correspondidos já tão velhos então, nauseantes. E a pessoa em si nem lê o que eu faço, apesar de saber que existe. Eu acho. De repente lê, mas não diz nada. Remoer por tantas linhas a dúvida do dedicar ou não dedicar também é excessivamente dramático e, até certo ponto, falso. Afinal, se a ideia era não deixar claro se o acontecimento descrito é real ou não, esse parágrafo deveria ter sido omitido. Depois de tudo isso, mais vale dedicar e dar fim a essa história. Mas dar nome aos alvos é muita cara-de-pau, quase uma invasão. Solução:

Dedicado à moça que roubou meu livro do Mia Couto. A essa altura, considere-o um presente.

Obs.: a diretoria pede desculpas aos leitores pela explosão metalinguística. O autor será devidamente repreendido, visto que esse não é o lugar para esse tipo de coisa.
Obs. 2.: a Diretoria, também conhecida como Comissão Imaginária de Vistoria (ou de Vistoria Imaginária), pede perdão por ter deixado passar a obscena troca de um mais por um mas. O autor, já em observação por seu infame metamonólogo, foi duplamente punido. A CIVouVI agradece a compreensão e informa que, se pudesse ocupar uma mente melhor, o faria.