Páginas

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Poesia: 69

quem irá dançar
as melodias dos músicos mortos
cujas partituras viraram poeira

quem irá cantar
suas letras compostas
em língua morta

notas enterradas pelo tempo
história sem registro
passado sem memória

sábado, 25 de outubro de 2014

A Humilhação (The Humbling) - Philip Roth [2009]


Ninguém é perfeito, essa é a moral dessa resenha. Um dos três melhores escritores americanos vivos, de acordo com o crítico Harold Bloom, junto de Don deLillo e Thomas Pynchon, depois de 30 livros escritos, também falha. Já tinha ouvido coisas péssimas desse livro, desde a Taciele do finado (ou em coma) Viva Livros até a Michiko Kakutani do New York Times. Definitivamente não é o melhor livro de introdução à obra do Philip Roth, mas eu insisti. Queria ler o livro antes do lançamento da adaptação pra cinema, com Al Pacino no papel principal - logo mais falarei uma coisa ou outra sobre o trailer desse filme e as minhas expectativas. O resultado me deixou claro que Philip Roth, mesmo quando ruim, ainda é razoavelmente bom, mas mesmo um escritor desse porte erra, e A Humilhação pode ter sido o maior erro da carreira dele.

Aos 65 anos, Simon Axler, ator de teatro responsável por dar vida aos grandes personagens de Shakespeare, Sófocles, O'Neill, esquece como atuar. Após performances terríveis em Macbeth e em A Tempestade, ele entra em depressão, se vê sem identidade. Sua esposa, ex-bailarina, não sabendo lidar com o marido em tal estado, vai embora para morar perto dos filhos na Califórnia. Pensando em suicídio, Simon se interna numa clínica psiquiátrica. Lá ele conhece outros suicidas, em especial Sybil, com quem ele divide seus problemas. Fora da clínica, algum tempo depois, ele recebe a visita de Pegeen Mike, filha de uns amigos também atores, lésbica, e os dois entram em um relacionamento.

Eu gostei desse enredo. As possibilidades são tantas e o conceito em si é ótimo. Falando dos prós em primeiro lugar, Roth entra com perfeição na mente de um ator de 65 anos que perde o talento. A descrição dos medos e ansiedades da velhice é o ponto forte do livro e muitos dos conceitos sobre morte, identidade, amor e loucura quase fazem a leitura valer a pena. Até porque a escrita em si, o jeito como as palavras usadas estão alinhadas, é muito bom. A Humilhação tinha tudo para ser um bom livro, mas, assim como Simon Axler no palco, falha em convencer e tocar o leitor.

Para começar nos problemas, a narração raramente mostra as complicações. O leitor fica sabendo dos acontecimentos ou por exposição superficial ou por meio de diálogos muito literários para saírem da boca de um ser humano normal. Quando Simon falha no palco, não estamos com ele, acompanhando o fracasso. Roth apenas nos diz, em poucas linhas, que Simon esqueceu como atuar e nós temos que acreditar nele. 

Em alguns momentos chega a parecer que Roth acertou o passo. Quando, por exemplo, a relação entre Simon e Pegeen é detalhada. A forma como um transforma o outro, o que se passa na cabeça de Simon durante o relacionamento, a transformação e aparente submissão de Pegeen, e os hábitos sexuais que os dois desenvolvem. Esses trechos são o ponto alto da narrativa, mas não deveriam ser. Quero dizer, é a parte mais interessante do livro, mas ela é envolta de tantas outras partes ainda mais essenciais e importantes que simplesmente passam e se resolvem com um ou dois parágrafos que chega a ser frustrante.

Nunca é bom para o enredo conter uma história secundária melhor que a primária, mas é o que acontece em A Humilhação. A vida de Sybil, essa sim merecia um livro. Mais de uma vez, enquanto lendo a vida de Simon, quis parar de ler e procurar pelo livro de Sybil. Ela sim sofreu, ela sim tinha motivos para se matar. Eu leria com gosto um livro sobre a Sybil, sr. Roth, fique sabendo. Não que o livro do Simon seja ruim, só não consegui me importar com ele.

A Pegeen e a relação dela com os pais também é outro grande defeito do livro. Tudo que se passa entre Pegeen e seus pais e o que eles acham de Simon é descrito por Pegeen em várias conversas com Simon. E essa conversa é cheia de "ele disse", "ela disse", "eu disse", quando muito melhor seria ter todas essas cenas narradas de verdade.

Ouvi críticas a previsibilidade da história. Não vou seguir por esta linha. É previsível, sem dúvida, mas tenho uma explicação. Ao largo da obra, Roth dá exemplos de tragédias e, ao mesmo tempo, A Humilhação segue a estrutura básica de uma tragédia, sem entrar em detalhes para não estragar a experiência de futuros leitores (não estragar ainda mais, é o que eu quero dizer). O fim da tragédia, por definição, é previsível. Acrescentaria, mas isso é só interpretação minha, podendo não ser intenção do autor, que um dos autores citados, Tchekhov, dizia que, se no primeiro ato o autor aponta uma pistola, no terceiro ele deve dispará-la. A estrutura e o final podem ter sido uma referência, por isso digo que o final foi intencionalmente previsível, o que é direito do autor e algo completamente aceitável - quem foi que disse que todo fim deve surpreender afinal? 

Durante a mesma entrevista em que Roth fala sobre escrever o oposto de Teatro de Sabbath, ele também cita Saul Bellow, outro grande escritor americano e uma das maiores influências dele. No fim da vida, Saul Bellow decidiu que não valia a pena escrever romances longos, considerando as possibilidades de sua morte gerar um trabalho incompleto (ironicamente, Bellow teve um filho aos 84 anos de idade...). Que fique claro que apesar das tantas críticas à brevidade de A Humilhação, não tenho nada contra a narrativa curta. Pelo contrário, admiro quando um autor consegue dizer o máximo usando o mínimo de palavras. O importante é que a obra curta não soa como um resumo de algo maior. Isso é o que A Humilhação se tornou, um resumo de um livro mais extenso e mais interessante.

Resta agora aguardar o filme, se é que ele já não lançou. Pela cara do trailer, ele mostra tudo que Roth decidiu apenas contar vaga e apressadamente. O excesso de comédia me deixou com um pé atrás, dando a entender que eles queria transformar a história em um filme do Woody Allen, mas mesmo isso pode até ficar interessante, se feito com sutileza. Não quero fazer previsões para não acabar decepcionado, então ficarei por aqui e, quando eu assistir o filme retomo essa discussão, fazendo um comparativo leve.

Não indico esse livro para quem não conhece o Roth. É ruim. Não é horrível, tivesse o livro sido escrito por outra pessoa, eu teria sido menos rígido na crítica e na nota. Foi o único dele que li até o momento, então não posso indicar outras obras com segurança, mas, apesar de tudo, asseguro que A Humilhação não me deixou apreensivo a conhecer o resto da obra de Roth, pelo contrário. Se em um livro tão fraco, ele foi capaz de atingir uma prosa de alta qualidade, os bons livros dele devem ser memoráveis. Indicaria apenas aos leitores mais completistas do autor, aqueles que, não importando o que eu dissesse, leriam o livro de qualquer maneira.

Nota: 2/5 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Poesia: 68

céu de ideias tão nebuloso
apaixonado pelos morros verdes mundanos
trocam úmidas ideias
sussurros em gotas
mensagens em língua inexistente

imagino como seria
ser um entre as inúmeras folhas
imerso na névoa
recebendo o vento
dentro dessa paz inestimável

domingo, 19 de outubro de 2014

Sobre vender livros; um relato.

Novidades dessa terra distante chamada Itajaí, inaugurou-se no shopping, dia quinze de outubro, uma livraria catarinense. Para vocês que não sabem, anos atrás houve aqui uma livraria época, logo em frente à faculdade, esta fechou pouco depois de eu me mudar para cá. Desde então essa pequena cidade pôde contar com nada em se tratando de literatura, com exceção de um sebo, grande e com acervo surpreendente, porém ainda assim contendo apenas livros usados e uns poucos livros novos superfaturados. Não é surpresa que, quando soube da notícia, me animei e fiz planos para visitar essa tal livraria logo na inauguração. Bom, não na inauguração, pois dia quinze foi quinta e quinta eu trabalho e é foda sair de casa depois do expediente, é foda sair de casa toda vez que me vejo em casa, para ser sincero. Mas no fim de semana após a abertura me pareceu um dia razoável para conhecer o lugar. Eis que hoje - sábado, data em que fui à livraria e em seguida escrevi o texto, não necessariamente a data em que vocês leem o post -, com meio litro de vinho do porto no sangue - notei que o álcool muito facilita para mim o ato de fazer compras, não sei bem por que, acho que simplesmente porque interajo melhor com seres humanos com algum incentivo -, vinho este que me abastece ao redigir este relato agora, fui conhecer o recanto. Esperava menos. Esperava duas ou três estantes mal organizadas, atoladas de Nicholas Sparks e Paulo Coelho. O que encontrei foi uma livraria de verdade, com vendedores o suficiente para um público razoável, e variedade para satisfazer até leitores chatos como este que vos escreve.

Não gosto de comprar seja o que for, me deixa nervoso. A sensação de vendedores me cercando e sugerindo coisas que não quero me incomodam, eis a necessidade do álcool. Normalmente, quando sóbrio, tento constranger vendedores, deixando claro que não tenho dinheiro para as coisas que eles me indicam ou que não tenho interesse ou conhecimento sobre o produto. Não é intencional, sei que são trabalhadores honestos e respeitáveis, é só um instinto que busca proteger minha carteira, inapropriado talvez, mas já digo a vocês, leitores que me julgam, que nunca tive problemas com vendedores justamente por causa desse meu instinto; raramente sou cercado e forçado a ver coisas que não me interessam. Essa foi minha primeira surpresa agradável na livraria catarinense do shopping Itajaí, ninguém me cercou. Sim, os vendedores me notaram e fizeram uma ou duas passagens em minha frente para que eu os notasse e pedisse informação - o que eu não fiz -, mas não estabeleceram contato. Eles me deixaram sentir a atmosfera da livraria em paz - e vocês leitores bem sabem que livrarias têm atmosferas próprias. Me permitiram ver os títulos, folhear um ou dois livros. Só então, quando eu acidentalmente examinei uma mesma estante duas vezes achando que eram estantes diferentes - efeito colateral da bebida -, que um vendedor me perguntou o que eu procurava.


Ainda queria ver títulos sem a incomodação de um vendedor, então o encaminhei a uma caçada que eu imaginava seria infrutífera. Pedi qualquer livro que fosse do Sérgio Sant'anna. Se eles tivessem algum - eu já havia vasculhado a sessão de literatura brasileira, portanto seria muito difícil que ele encontrasse qualquer coisa -, havia setenta porcento de chances de eu já ter o livro. Caso encontrassem um que eu não tivesse, bom para mim, livros do Sérgio Sant'anna são sempre bons e ele tem dois lançamentos nos quais eu estou de olho (Homem-Mulher, livro novo lançado esse ano, e Concerto de João Gilberto em Copacabana, relançamento de um de seus clássicos, programado para lançar mês que vem - e é por esse meu conhecimento que eu acho que a Companhia das Letras devia me ceder uma parceria, mas, ei, não me importa, vou resenhar de graça os livros dessa editora de qualquer forma). Dois minutos depois ele volta com a esperada notícia de que eles não tinham nada do autor ainda, mas a loja estava aberta a apenas três dias e mais coisas viriam no futuro próximo, tanto que eu podia notar que as estantes estavam vazias ainda, salvo pelas sessões de biografias e juvenil, estas estavam socadas. Mandei-o a uma nova busca, dessa vez com real interesse. Queria o livro novo do Milan Kundera, Festa da Insignificância. Fiz questão de dizer para ele autor, nome do livro, editora e ano de lançamento, para auxiliar a busca e para que ele soubesse que não falava com qualquer leitor casual por aí, que eu sabia o que eu queria e como encontrar. Essa segunda busca levou mais tempo, o suficiente para eu encontrar o novo romance da Luisa Geisler, a mais jovem das autoras a ter um de seus contos publicados na Granta dos melhores autores jovens brasileiros, e com uma coleção de prêmios surpreendente para sua idade, chamado Luzes de emergência se acenderão automaticamente.


Enquanto eu lia a sinopse do livro da Luisa, o vendedor voltou com A Festa da Insignificância em mãos. Perguntei os preços de tudo. Verdade que estavam mais caros do que estariam se eu comprasse pelo Ponto Frio ou pelo Extra, mas a vibração de uma livraria é outra. Além do mais, quanto tempo eu esperei por uma dessas abrir aqui nessa terra literariamente desamparada? Tenho mais é que prestigiar e usar meu dinheiro como um investimento, um agradecimento aos deuses da literatura que seja.

Estava decidido a levar os dois livros e ir embora, eis que surge a razão desta crônica improvisada - o verdadeiro vendedor de livros, o exemplo a ser seguido por todos que ambicionam tal carreira. Do nada, ele surgiu com um livro em mãos.

- Eu vi que o senhor estava vendo literatura nacional, conhece Evandro Affonso Ferreira.


Esse homem tem uma bola de cristal ou coisa assim? Não falei pra ninguém que procurava esse autor, não demonstrei que estava frustrado por não encontrá-lo. Como ele sabia? O bom vendedor de livros é observador. Deixa o comprador vasculhar as estantes, deixa que ele pegue um ou dois livros para análise - presta atenção no que está sendo analisado -, deixa até que outro vendedor tome para si o comprador - prestando atenção no que esse vendedor trás para o comprador. Só então ele vem com exatamente o que o comprador em questão procura. Os piores dias de minha vida foram todos, o lançamento do autor. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele acrescentou:

- O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam - livro anterior do autor - é um dos melhores que eu já li na vida, levou o Jabuti ano passado.

Sim, eu sabia. Estava atrás desse livro do mendigo há meses, mas sempre que ia às livrarias online me esquecia dele. Li Barba ensopada de sangue esse ano, livro que perdeu para O mendigo, claro que queria lê-lo. Perguntei se não tinha esse livro ao invés do lançamento mais recente.

- Não senhor, ainda não, talvez no futuro.

Gostaria de apontar que muito me incomoda, aos vinte três anos, ser chamado de senhor, mas não falei nada por achar que é padrão entre esses vendedores. Disse que ia levar aquele de qualquer forma, desde que eles me dissessem o preço, já que, dependendo da resposta, a compra do livro da Luisa estava em jogo, ela que me perdoe. Não foi necessário, levei os três. Fiz a compra e, ainda por cima, um desses cartões fidelidade que não faço em lugar nenhum. Saí satisfeito, testemunha do que eu juro ter sido a venda perfeita. Infelizmente, o vendedor, como todo o artista, não soube ganhar dinheiro. Na hora de me entregar o cartão que iria contabilizar a comissão do vendedor - se ele ganharia comissão, não sei -, apenas o primeiro vendedor me deu um cartão. O outro, fez a venda perfeita, mas saiu de mãos vazias. A não ser que, depois, eles tenham negociado alguma coisa. Duvido, o vendedor, acima de tudo, é um canalha por natureza. Esse é o nosso mundo injusto.

Eis aqui uma indicação totalmente gratuita, feita de coração. Não se enganem achando que eu ganhei um puto que seja para fazer esse texto. Ninguém nunca me pagou por minhas palavras escritas, nem acho que um dia irão - minhas esperanças decaem dia após dia. Mas se você, que me lê, é de Itajaí ou região - ora se apresente, filho(a) da puta, quero conhecer você -, vá à livraria catarinense do shopping Itajaí. Você será bem atendido e saíra com os livros que procura.

sábado, 18 de outubro de 2014

Momento Musical #3 - Leon Russell, Elton John, Dr. John

Para a terceira edição dessa coluna que não é temática apesar de tudo (com exceção do tema música, óbvio), escolhi falar de três pianistas. Mas não só quaisquer pianistas, estes são, talvez, os mais importantes pianistas da história do rock. Como sempre, um álbum de cada: suficiente para vocês conhecerem, não tanto a ponto de vocês cansarem. Vocês já sabem, uma indicação minha é praticamente uma garantia de qualidade, então divirtam-se ouvindo os discos.


Começando com Leon Russell, sua barba e seu cabelão, itens tão icônicos de sua persona, mantidos até hoje, vez ou outra com a adição de uma cartola e óculos escuros. Com um estilo e sotaque sulista, ele misturou rock, soul, country e fez do resultado uma música totalmente pessoal. Conhecendo o estilo de Leon Russell, é impossível confundi-lo com outro músico. Tanta particularidade também faz dele difícil de descrever, então vocês vão ter que ver por vocês mesmos. Só uma nota, esse cara já tocou com praticamente todo mundo (Joe Cocker, George Harrison, Elton John, Eric Clapton, entre outros). Muito possivelmente vocês já o ouviram em algum lugar, só não sabem ainda.





O músico mais popular que vocês já me viram falando sobre nesse blog. Gosto da música do Elton John, mas só até o fim da década de setenta. Depois, não sei o que houve com ele. Não sei o que houve com a música em geral na década de oitenta, dezenas de músicos tão bons se perderam, ou sumiram ou gravaram pop insípido, uma decepção. Mas, ei, pelo menos os discos antigos estão aí para sempre. Estava na dúvida entre dois álbuns, Madman Across the River ou Goodbye Yellowbrick Road. Acabei escolhendo o segundo, é mais marcante que o outro. Não vou gastar o tempo de vocês descrevendo um músico que todo mundo conhece, então chega.




E, por último, o grande Dr. John volta a dar as caras nesse blog. Dá última vez foi com uma resenha do álbum mais recente dele, que é ótimo por sinal. Hoje é com um clássico, o disco mais conhecido dele, Right Place Wrong Time, cuja música homônima todos já ouviram. O cara mais exótico dessa lista, misturando um pouco de tudo em sua música, mais a cultura de New Orleans. Com funk, blues, soul e tudo mais, esse é um puta álbum que, se você nunca ouviu, ora, não precisa me agradecer, aqui está ele. Agora pare de gastar sua vida e escute-o.




quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Poesia: 67

olho da mente como espelho
enterrado nos mares azuis de tecido

               afundando

               afundando

               afundando

em direção ao amanhã sem escolha
a impressão da passagem do tempo em direção ao mesmo lugar
grande medo dos que nada tem a temer que seja real temor

fome
por exemplo
talvez frio

a necessidade da insatisfação contra a vontade da morte

domingo, 5 de outubro de 2014

Mar Inquieto (Shiosai) - Yukio Mishima [1954]


Ok, domingo de eleição, sou obrigado a falar qualquer coisa sobre, certo? São quase cinco horas da tarde, quem votou, votou. Uma novidade pra vocês, não importa qual candidato vocês favoreçam, os problemas de hoje continuaram sendo problemas amanhã. Nada vai mudar, seja a Dilma reeleita, seja eleito o Rui Costa Pimenta numa espécie de reviravolta do azarão. Falemos de literatura, que é algo importante para humanidade. Política no Brasil é apenas chateação. Não gostaria que nenhum dos candidatos sequer vivesse no mesmo país que eu, que dirá o governasse. Tá, com exceção do Eduardo Jorge. Com ele eu tomaria uma cerveja, fumaria um baseado e conversaria sobre os velhos tempos que não voltam mais. De qualquer forma, o melhor a se fazer é ignorar o governo brasileiro, fingir que ele não existe. Que tal a ideia? O governo é como aquele filho indesejado que, mesmo depois de velho, continua a tirar dinheiro da família, por mais que você queira ver o puto pelas costas. Fechemos nossos olhos, façamos nosso trabalho e cuspamos na cara dos nossos líderes, eis a nossa solução.

Agora o que realmente importa.

Existe a ideia errônea de que um grande livro necessita, por consequência, uma grande história ou grande inovação. Eis que de tempos em tempos surge algo simples, mas que pela sua execução e sinceridade, cresce aos olhos do leitor. Usemos de exemplo Romeu e Julieta. Talvez a peça de Shakespeare menos admirada pelos críticos, embora de longe a mais conhecida e citada pelo público. Vista por cima, não passa de uma história de amor adolescente. É inegável, no entanto, a imortalidade da história, que, mesmo na época de Shakespeare, já não era original. O que Shakespeare fez foi tirar o lado "lição de moral" da peça, e contá-la pelo que ela é, dois adolescentes que se apaixonam e, por culpa dos extremos dessa fase da vida, se matam, sem dizer se isso foi errado ou não, apenas uma tragédia. O que Yukio Mishima faz em Mar Inquieto é reviver a história de amor adolescente, no contexto cultural do Japão da década de cinquenta, em meio aos contrastes da modernidade da cidade grande contra o tradicionalismo das ilhas ainda isoladas.

Quando o pai de Shinji Kubo morrera durante a Segunda Guerra Mundial, o garoto de dezessete anos se viu obrigado a sustentar sua mãe e irmão. Apesar da tragédia e da vida economicamente contida, a vida que eles levam na ilha pesqueira é pacífica. Todos conhecem e respeitam Shinji pelo seu trabalho como auxiliar do pescador Jukichi Oyama. Então o filho de Terukichi Myata, um homem rico e temido na ilha, e ele trás de volta à sua casa Hatsue, sua filha adotiva. A beleza de Hatsue atrai vários pretendes, incluindo Shinji, em quem ela também se interessa. Yasuo Kawamoto, arrogante filho de família rica, que estuda em Tóquio e despreza as tradições da ilha, também se interessa por Hatsue, principalmente por causa da fortuna de Terukichi. Boatos começam a rodar pela ilha de que Shinji tirou a virgindade de Hatsue. Por Shinji ser de família pobre, Terukichi o proíbe de ver Hatsue. Os dois trocam cartas para tentar manter o amor proibido e o resto cabe a você ler o livro e descobrir.

Diferentemente dos primeiros livros de Yukio Mishima, esse é muito mais ingênuo. Em Confissões de uma Máscara, o tema da descoberta sexual é recorrente, mas com um toque de sadismo e homoerotismo. Mar Inquieto tem um tom de inocência e simplicidade surpreendente para uma obra de Yukio Mishima. Mesmo os curtos momentos de erotismo tem um lado de descoberta. A narrativa é leve e poética, cheia de imagens marítimas a ponto que o leitor pode cheirar o sal do oceano.

A tragédia de Romeu e Julieta, comparação que eu usei no primeiro parágrafo, não está presente em Mar Inquieto. Na verdade, em se tratando de roteiro, não há nada de novo nesse livro de Mishima. É uma história agradável sobre amor juvenil. Isso não torna o livro ruim. A beleza da prosa do autor compensa a simplicidade do roteiro. É um conto quase moralista, sobre o verdadeiro amor juvenil, sem grandes idealismos.

Mishima criticava o hábito dos intelectuais de ignorarem a saúde física. Ele era mestre em artes marciais e se dedicava a manter um corpo que ele considerava perfeito. Esse ideal de equilíbrio entre o físico e o mental é bem demonstrado nesse livro. Shinji e Yasuo são opostos. Um é simples, trabalhador, forte e respeitável às tradições. Outro é estudante universitário, intelectual, urbano, fisicamente fraco. Mishima deixa claro seu favorecimento pelo primeiro. Por outro lado, Shinji é simples, porém não é idiota. É equilibrado considerando suas limitações.

Mar Inquieto é um livro que poderia ser indicado para qualquer um. É simples sem ser idiota. Trata sobre o amor juvenil sem ser contada de modo juvenil. A prosa é limpa, poética e vívida. Talvez não seja o melhor livro desse autor. A leitura depende do que o leitor em questão está procurando. Se o que você quer é uma leitura densa, erótica e psicológica, esse não é o melhor começo. Do contrário, se o que você busca é uma leitura agradável, mas que respeita a inteligência do leitor, esse livro é perfeito.

Nota: 4/5

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Azul é a cor mais quente (La Vie d'Adèle: Chapitres 1 & 2) - Abdellatif Kechiche [2013]


Dos muitos subgêneros contidos na pornografia, um dos mais populares, e quisera eu ter as estatísticas necessárias para embasar essa minha afirmação, é o "lesbianismo" (entre aspas, pois raramente as mulheres envolvidas nesses filmes são de fato lésbicas). O tema também é bastante trabalhado no cinema não-pornô, embora com diferentes intenções. Isso, quero dizer, na maioria das vezes. Ironicamente ou não, a maioria dos filmes lançados sobre lésbicas são feitos por homens heterossexuais (novamente, queria eu ter uma lista exaustiva para poder embasar essa afirmação; por mais que eu tente puxar da minha memória exemplos, só me vem a mente Quarto em Roma e o filme do qual falo agora, mas prometo que existem mais, só me falta motivação de pesquisar, já que chances são que esse texto será lido por três pessoas, e três pessoas não são o suficiente para eu me importar) e, por consequência, as obras acabam saindo fetichistas, pra dizer o mínimo. Isso me fez enrolar até agora para assistir Azul é a Cor Mais Quente, adaptação dirigida por Abdellatif Kechiche, do quadrinho quase homônimo à versão brasileira (Le bleu est une couleur chaude - por que as versões americana e brasileira adicionaram o superlativo, eu não sei) de Julie Maroh. Nada contra filmes fetichistas ou pornografia, o problema é quando esse tipo de filme tem duração de quase três horas. Adianto aos leitores que minha primeira impressão estava errada. Nota: impressionante como, mesmo quando a versão brasileira acerta a tradução do nome, ela dá um jeito de errar.


Trata-se da história de Adèle (interpretada por Adèle Exarchopoulos, e o nome igual não é só uma coincidência, explicarei mais tarde - só pra constar, o nome da personagem no original é Clementine), uma adolescente entre seus 15 e 16 anos que descobre sua sexualidade. Na escola, as amigas dela a pressionam a sair com um rapaz que parece estar a fim dela. Ela vai e os dois vivem um relacionamento, mas Adèle não está satisfeita com ele. Ela se sente atraída por uma garota do seu grupo de amigas, mas é rejeitada. Então, em um bar de lésbicas, ela encontra Emma (Léa Seydoux), uma mulher de cabelo azul, um pouco mais velha, que estuda artes na faculdade e sonha em ser pintora. As duas começam um relacionamento intenso e que vai se tornando cada vez mais sério, até o ponto em que elas moram juntas. Ao redor desse relacionamento, o filme explora temas como tolerância, sexualidade e maturidade.


O que mais chamou atenção das pessoas que viram o filme, pelo que eu pude perceber, é o quão explícito ele é. O diretor prestou muita atenção nos detalhes durante as cenas de sexo para que elas pudessem parecer reais sem que as atrizes transassem de verdade. E foi isso que me fez acreditar que o filme seria fetichista. Isso e, supostamente, ele demorou dez dias para gravar uma das cenas de sexo. De qualquer forma, funciona. O realismo é suficiente para que a audiência sinta a intensidade entre as duas, sinta que existe paixão naquele relacionamento, como em qualquer "primeiro amor".


Não foi só no sexo que Kechiche prezou pelo realismo. Outro motivo de polêmica nos bastidores desse filme foi ele ter exigido que elas aparecessem sem maquiagem em muitas das cenas, permitiu que elas apenas lessem o script uma vez e insistisse que elas esquecessem suas falas em troca de improviso e filmaram a atriz Adèle enquanto ela estava fora do personagem, comendo ou dormindo no trem em direção ao local da filmagem. O realismo é tanto, que muitas vezes o tom do filme deu a impressão de se tratar de um documentário. Ah, e antes que eu me esqueça, eis a razão de ele ter mudado o nome da personagem Clementine para Adèle, mesmo nome da atriz, porque ela foi filmada durante as refeições ou enquanto dormia no trem em direção ao local de gravação e, nesses momentos, as pessoas não paravam de chamá-la de Adèle, então mudaram de uma vez o nome da personagem. Há controvérsias com relação a essa forma de tratamento entre diretores e elenco, mas quem vai dizer que é errado quando funciona? Kubrick abusou emocionalmente de Shelley Duvall durante as filmagens de O Iluminado. Hitchcock era famoso por odiar atores e tratá-los como peças indesejadas mas necessárias para montar sua criação. No fim das contas, funciona. Atuar é uma profissão emocional, diferente de qualquer trabalho de escritório, as regras são outras. O objetivo do diretor é tirar justamente a emoção exata do seu ator em determinada cena, mesmo que para tanto seja necessário insultá-lo, isolá-lo, constrangê-lo, tudo para que o resultado final seja o melhor possível. Fazer isso ou não, cabe ao diretor decidir, mas eu não consigo discordar da atitude. Por consequência, a pressão mental e exigência física causada pela direção fez com que as emoções expressadas pelas atrizes fossem reais. Não próximas do real, não realistas, mas reais, e a diferença para espectador atento é perceptível. A Adèle atriz e a Adèle personagem se tornaram uma durante as quase três horas de cinema. O mesmo pode ser dito sobre a Léa Seydoux. 


É comum que filmes mais "artísticos" se deixem levar por um conceito sobre a história em si ou sobre os personagens. Os conceitos trabalhados em Azul é a cor mais quente são complexos no mínimo. Em uma determinada cena, Emma expõe suas pinturas para um grupo de amigos e artistas em um jantar. Os presentes então começam a discutir sexualidade e a diferença da percepção do prazer entre os sexos, e essa discussão na minha opinião foi fascinante, principalmente porque o filme tenta passar a ideia em cenas. A questão do compromisso e dependência entre casais também é bem exposta, com a profundidade necessária. Isso sem falar da óbvia questão da autoaceitação e aceitação perante a sociedade, essa tratada com muito mais sutileza. Mesmo assim, o forte do filme, o que vai te fazer ficar sem piscar durante as três horas, é a humanidade das personagens. Esse não é um filme abstrato como tantos no seu meio.


O mais importante foi que, aquilo que começou como uma garota descobrindo sua sexualidade e se identificando lésbica, logo se tornou apenas uma história de amor. Não uma história de amor "com lésbicas". Isso foi o principal, do contrário o filme teria caído no já descrito fetichismo. No fim das contas, é isso que a sociedade teria que entender sobre o homossexualismo, que não é nada além de duas pessoas se amando. Por acaso essas pessoas são do mesmo sexo, mas isso não importa, não faz do amor entre os dois diferentes, muito menos teria de fazer o filme diferente. Ser possível assistir Azul é a cor mais quente e, no meio do caminho, esquecer que se tratam de lésbicas e poder vê-las apenas como um casal, foi o que me fez ver além da qualidade do filme, mas também sua relevância na história do cinema.

Nota: 5/5

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Poesia: 66

somos seres tão bem camuflados
que nos deixamos esquecer do maquinário complexo
dos processos escatológicos infindos que nos mantém vivos
tão bem camuflados
que esquecemos a imensa fragilidade humana
que vemos o reflexo no espelho como o todo
tentando fingir que não existe o que se passa por trás do exposto
ignorando que é uma fina camada de pele que cobre o que nos mata
que somos o mais frágil dos vasos
inimigos de nós mesmos
e ainda algo em nossas mentes cisma
em nos dizer que não somos animais