Páginas

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

The Amazing Spider-Man 2 (O Espetacular Homem Aranha 2) - Marc Webb [2014]


Uma resenha de adaptação de história em quadrinhos é meio deslocada do conteúdo geral desse blog, tá, mas o primeiro filme foi resenhado mais ou menos na época da estreia também, uma resenha em geral positiva, e é verdade que eu lia e gostava bastante das histórias do Homem Aranha em quadrinhos entre o fim da minha infância e começo da adolescência. Vi os filmes da trilogia "antiga" dirigida pelo Sam Raimi e, em retrospecto, não são filmes que envelheceram muito bem (com exceção do segundo) e o terceiro é péssimo. Então eu me animei quando fiquei sabendo do reboot, apesar de achar esses artifícios de Hollywood desnecessários. Aconteceu que o primeiro filme foi ótimo, bem focado nos personagens, gerando uma história emocionalmente cativante e divertida na maior parte do tempo. Estava até ansioso pra ver a continuação e por isso mesmo vou adiantar que essa resenha pode sair longa e cheia de spoilers. Não precisa chorar, o principal spoiler já está circulando por aí desde a década de 70, então fique tranquilo que a resenha, em geral, não deve estragar a sua experiência assistindo esse filme, caso você já não tenha visto. Tendo dito isso, o filme é bem frustrante e isso sim pode estragar a sua experiência mais do que qualquer spoiler. Sim, essa é uma das minhas resenhas indecisas, bastante negativa, mas cheia de pontos positivos que acabam amenizando a situação.


O enredo vocês já devem saber, não estou falando de um filme novo afinal. Nessa continuação, Homem Aranha (interpretado por Andrew Garfield) é famoso em Nova York e começa a ser aceito pela população. Está com problemas no seu relacionamento com Gwen Stacy (Emma Stone, e não se preocupem, vou dedicar um parágrafo à atuação dela), já que no fim do filme anterior Peter Parker prometeu ao falecido pai dela (interpretado por Denis Leary, um dos pontos altos do primeiro filme), e ele se preocupa com a segurança dela e toda aquela história. É aí que o enredo perde completamente o controle e o velho amigo de infância do Peter, Harry Osborn (Dane DeHaan) reaparece porque o pai dele está morrendo (pois é, nesse filme o Norman Osborn tem 2 minutos de cena no leito de morte e tudo sobre ele é explicado em um diálogo corrido de exposição), aí acontece que Harry Osborn também está morrendo porque a doença que mata o pai dele é hereditária, muito embora Norman tenha morrido bem velho, o que indica que a doença leva tempo pra matar, mas foda-se. No meio dessa loucura, o Jamie Foxx cai num tanque de enguias e vira o Electro, então Jamie Foxx se torna um sociopata da noite pro dia e decide matar todo mundo, principalmente o Homem Aranha, que ele amava, mas deixou de amar porque...eu sei lá. É muita coisa em pouco tempo, é isso que eu quero dizer. Ah, e o Rhino aparece nos últimos 5 minutos do filme, porque algum produtor de Hollywood assim exigiu.


Puta que o pariu, por onde eu começo? Apesar da minha sinopse amargurada, o filme não é ruim. Não é horrível pelo menos. Bom, é melhor que Homem Aranha 3, caso isso sirva de consolo. Mas também não é um bom filme. É uma ótima comédia romântica, dessas mais indies à 500 com Ela (também dirigido por Marc Webb por coincidência ou não), só que no meio de uma adaptação medíocre de HQ. O pior de tudo é que tinha tudo pra ser um bom filme. Muitas cenas são comoventes e bem filmadas, e os diálogos e atuações são reais e humanos. Porra, o problema é que Hollywood não aprende com os erros. A mesma coisa que destruiu Homem Aranha 3 e que causou o reboot da franquia, acontece aqui. Muitas linhas de enredo atochadas em 2 horas e 20 minutos de filme, o que me deu a impressão de ter visto uma versão resumida de Homem Aranha 2, 3 e 4 de uma vez só.


Vou falar dos pontos negativos primeiro, pra tirar isso do caminho. A começar pelo que envolve o Duende Verde - Harry Osborn. Ele surge do nada. Acontece um diálogo sobre como ele passou dez anos fora para estudar e estava de volta para herdar a empresa do pai, tudo em um diálogo bem travado e feito para exposição, compensando o fato de que o personagem não teria tempo de ser suficientemente desenvolvido até o final do filme porque outras linhas de enredo interromperiam aquela. Aí eu penso, esses roteiristas não escrevem pensando nas continuações? Por que não colocaram o Harry Osborn no primeiro filme? Só um papel secundário de amigo do Peter Parker. Aí o público teria tempo de conhecê-lo e ao seu pai, desse modo o personagem teria desenvolvimento. Do jeito que acontece, ele ganha uma importância repentina que simplesmente não faz muito sentido e parece que alguém apertou fast-forward no filme, ou que entre o primeiro e o segundo filme houve algum "entreato" que não foi lançado nos cinemas, deixando um espaço em branco na cabeça do espectador que por sua vez tem dificuldade para se importar com o personagem.


A falta de desenvolvimento é compensada, pelo menos, pela história interessante do Harry e pelo talento do Dane DeHaan (ator que até agora eu nunca tinha visto), que faz um vilão excelente, um pouco exagerado, mas na medida certa. Isso não acontece com Electro, nem Jamie Foxx que em geral é um bom ator conseguiu salvar esse personagem. Ele aparece do nada como um cara solitário, mas feliz, até que um número de epifanias psicológicas fazem dele um sociopata, isso em menos de 5 minutos. É um tanto inacreditável e, novamente, parece que deram fast-forward na história e que eu pisquei e perdi alguma coisa - alguma coisa muito importante. O personagem é chato e não se sabe qual tom o filme quer seguir com a história dele. É impossível saber se ele é uma pessoa perturbada e sombria ou se ele tem um senso de humor - já que depois que ele vira o Electro ele fica fazendo umas graças meio deslocadas em determinadas cenas. Ele até poderia ficar interessante, se o filme fosse só para ele. Como eles fizeram com o Lagarto no primeiro filme. Esse foi o maior acerto do antecessor, dividir o filme entre a história humana do Peter Parker (Gwen, tio Ben, tia May...) e a vida como Homem Aranha (alguns crimes aleatórios e o Lagarto). Essa estrutura, se seguida na continuação, não seria repetitiva, seria essencial. O roteiro teria tempo de dedicar suficiente desenvolvimento para esses personagens psicologicamente complexos - porque eles têm potencial de se tornarem, de fato, complexos e bem construídos.

Isso é que torna o filme fraco, a correria, a mistura de tons e humores (as várias cenas do fantasma do Denis Leary aparecendo para o Peter com cara de pai decepcionado foram muito engraçadas pra mim, e eu não acho que essa tenha sido a intenção, por exemplo), e a falta de desenvolvimento. Não dá pra culpar os roteiristas (que são quatro, sei lá eu por que) ou o diretor. Eu tenho certeza que o primeiro rascunho desse roteiro era exatamente como eu falei que devia ser, separado, mas algum executivo de produção disse que precisava de mais, mais vilões, mais ação, então eles foram obrigados a enfiar mais coisas, e deu no que deu.


É o que faz desse filme tão frustrante, porque, se não fosse isso, seria um bom filme. E vou explicar o motivo. Se tem uma coisa que essa franquia acertou foi no elenco. É perda de tempo ficar falando de como Andrew Garfield e Emma Stone conseguiram se encaixar perfeitamente em seus papéis e como eles conseguiram desenvolver uma química perfeita em cena, mas puta que o pariu como eles conseguiram se encaixar perfeitamente em seus papéis e como eles conseguiram desenvolver uma química perfeita em cena! Os dois são ótimos atores e eu realmente quero ver o futuro deles, principalmente da Emma Stone, que já vai sair no filme do Woody Allen desse ano, Mágica ao Luar, e está contratada para o filme do Woody Allen do ano que vem. Eu acho que ela tem um quê de Diane Keaton, com uma beleza peculiar e uma personalidade simples, mas forte, então essa é uma carreira que eu quero ver aonde vai parar. Sério, de todos os defeitos do filme, esses dois não foram responsáveis por nenhum deles. Pelo contrário, eles fazem o filme valer a pena. Principalmente pelo final, mas deixem isso pra lá por enquanto, porque eu pretendo falar disso mais tarde (a verdade é que eu ainda não falei de todos os defeitos - vou deixar o principal para o fim).

Outro grande acerto dessa continuação foi a primeira cena. Tá, grande acerto em partes. Deixe eu explicar, o filme começa com a morte dos pais de Peter Parker, o que foi ótimo, porque eu não tinha visto esse aspecto do personagem desenvolvido até então. A cena do avião é meio "filme de ação", o que não faz muito sentido, já que os pais dele eram cientistas provavelmente sem nenhum treinamento físico para brigar, ainda mais em um avião em queda e contra um assassino profissional, mas a cena não é de todo ruim. Também é meio duvidosa a origem do notebook moderno do pai de Peter em plena década de 90, com direito a internet no avião e alta velocidade de upload, mas tudo bem - eles são cientistas, mexem com tecnologia avançada, eu posso suspender minha descrença até aí -, só que o upload é feito do avião para um servidor escondido em um metrô abandonado que usa internet discada - puta que o pariu, filme! A própria cena do metrô, que vem mais para o meio do filme e que está ligada a essa primeira cena, também não faz muito sentido e deveria ter sido melhor explicada. Mas eu gostei de ver os pais de Peter recebendo alguma atenção, ou seja, a intenção foi boa, apesar da execução meio furada. Não foi nem de perto a coisa mais furada do filme.


Talvez a melhor coisa depois dos protagonistas seja o fato de que, apesar dos defeitos, nem tudo está perdido para o terceiro filme. Eles deram um sinal do que pode vir a ser uma história interessante, nenhum dos vilões morreu - diferentemente da versão do Sam Raimi, que vivia matando os vilões principais, deixando os filmes sem ter para onde ir -, então coisas boas podem vir no futuro (inclusive, a personagem Felicia, também conhecida como Gata Negra, já foi introduzida nesse filme, interpretada pela Felicity Jones, então eles devem fazer alguma coisa com isso no terceiro filme). Coisas terríveis também, mas eu vou me manter otimista. Essa é uma das poucas franquias de Hollywood que eu ainda sou capaz de ver com bons olhos.

Agora quero falar da pior parte, que veio logo depois da melhor parte do filme. É o seguinte, todo mundo sabe que a Gwen Stacy morre no final. Aconteceu nos quadrinhos e foi, na época, bastante chocante já que personagens de quadrinho não tinham o hábito de morrer, principalmente as namoradas dos protagonistas. Isso impressionou as crianças da época. E agora eles refizeram a cena no cinema, muito bem por sinal. Até me surpreendi com quão gráfica foi a cena, mostrando a cabeça dela bater no chão e tudo - pra um filme tão juvenil, é impressionante que Hollywood tenha deixado essa passar. E a reação do Andrew Garfield, tanto na hora quanto depois (na cena do cemitério, muito bem filmada, com as temporadas do ano passando enquanto ele ficava em frente ao túmulo) é muito bem atuada. É raro ver tanta carga emocional dedicada a um filme de HQ, então eu não estaria exagerando ao dizer que essa foi a melhor, mais tocante, cena dessa nova geração de filmes de quadrinho mainstream. E seria o ponto ideal para terminar o filme, começando o terceiro com um Peter Parker indeciso, uma Nova York sem Homem Aranha, e um bom desenvolvimento do luto do personagem. Mas não, isso se resolve em dois, três minutos, e na cena seguinte já temos um Homem Aranha recuperado e lutando contra o muito desnecessário Rhino (sério, Paul Giamatti é um excelente ator, ele devia estar precisando muito do dinheiro pra aceitar esse papel quase invisível). Vá se foder, filme. Eu quase poderia ter gostado de você, mesmo com toda a correria, se você pelo menos soubesse como terminar. Mas não. Não! Você tinha que mostrar essa porra desse Rhino, quebrar todo o clima emocional da morte da Gwen, só pra acrescentar mais um vilão sem importância ou desenvolvimento na última cena.


Chega, esse foi O Espetacular Homem Aranha 2, e eu esperava mais. Na verdade, eu esperava menos. Menos no enredo e mais na qualidade. Não dá pra dizer que é um péssimo filme. A todo momento acontecem boas cenas e a atuação é excelente, mas o déficit de atenção do roteiro chega a ser insuportável. Esse filme poderia ter sido divido em três facilmente, três filmes, todos eles muito melhores que esse aí, mas como sempre os grandes executivos de Hollywood não aprendem e destroem filmes com grande potencial. Não seria um grande filme de qualquer forma, mas seria excelente entretenimento. Por culpa da pressa e falta de desenvolvimento, nem isso o filme é.

Nota: 2,5/5 - ia dar 2,75, mas essas notas quebradas são muita frescura. Arredondei, e arredondei pra menos. E olha, muito me tenta, agora que estou postando, um mês depois de escrever a resenha, baixar a nota pra 2,0.

sábado, 23 de agosto de 2014

Poesias: 61, 62 e 63

61

digam-me onde fica
a fábrica de seres humanos
estou certo de que há uma dessas em algum canto

62

em todas as minhas buscas
há algo de literário, alheio, voyeurístico.
minhas idas e vindas são fetichistas
quero culpar alguém por isso.

63

pretensos poetas de guardanapo
uni-vos,
pois é na depressão,
é nos copos vazios
é nas paixões de segundos
é na sensação de consciência perante o nada
que nós nos sentimos algo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Minha Luta, vol. 1 - A Morte do Pai (Min Kamp 1) - Karl Ove Knausgård [2009]


Fazia tempo que eu não lia a última frase de um livro e sentia um arrepio na espinha. Eu sei, eu sei, resenhas exigem construção, justificativa, e eu estou pulando etapas, mas é bom que fique claro que esse deve ser um dos melhores livros escritos nos últimos dez anos. Tendo se tornado uma espécie de fenômeno literário na Noruega, colecionando elogios hiperbólicos como "novo Proust", e pondo de volta no mapa a literatura norueguesa, o livro me chamou a atenção, mas eu estava cético. Quais seriam as chances afinal de uma série de 6 livros, totalizando mais de 3.500 páginas, autobiográfica, ser interessante? Por que eu haveria de me interessar pela vida pessoal de um escritor norueguês desconhecido?

Pulando entre vários momentos da sua vida, Karl Ove (permitam-me omitir o sobrenome) narra como era o relacionamento entre ele e seu pai, falando da infância, adolescência, até a idade adulta, quando ele recebe a notícia de que seu pai morreu e como isso o afetou. A ordem dos acontecimentos, no entanto, não segue uma estrutura. Em um momento ele pode estar falando do seu presente, do esforço que é escrever um livro e ao mesmo tempo cuidar dos três filhos e dar atenção à esposa e dividir as tarefas domésticas e ainda ter que se preocupar com dinheiro e a própria qualidade do que se está escrevendo, então, em meio a um passeio na parque, ele pensa em algo e, a uma maneira proustiana, passa a divagar sobre essa lembrança, extensivamente, então logo volta a narrar o passeio no parque, e o leitor, por sua vez, está tão preso à prosa magnética de Karl Ove que nem se importa com os saltos no tempo e no espaço, acompanha tudo no mesmo ritmo, como se ele também estivesse no parque e também tivesse lembrado daquele momento no passado que o leitor não viveu, mas é como se tivesse vivido. E que o leitor dessa resenha tenha em mente que quando eu falo extensivamente eu quero dizer uma página completa dedicada ao preparo de um chá, 150 páginas sobre a limpeza de uma casa antes de um velório, 511 página no total, sendo que o livro não é exatamente cheio de acontecimentos - tenham em mente também que isso não é uma crítica. 

No fim do livro, o leitor acaba sabendo mais sobre Karl Ove do que sobre alguns de seus familiares (eu, por exemplo, tenho certeza que sei mais sobre a vida desse autor que sobre a vida de meus pais), mas isso não dá a impressão de uma literatura egocêntrica ou solipsista, pelo contrário, ao conhecer esses detalhes, não só factuais mas emocionais, da vida de Karl Ove, o leitor acaba por rever momentos do seu próprio passado que podem ter feito que ele se sentisse igual ao autor, isso quando os momentos e sentimentos não são exatamente iguais - o que me fez questionar a variedade da experiência humana.

Nada no livro é extraordinário. A autobiografia costuma ser forma de literatura apenas para celebridades ou figuras trágicas - quando não os dois. É comum associar esse gênero com uma história de superação, uma tentativa de imortalização, e coisa assim. Não é o caso em Minha Luta. Nunca no livro ele tenta disfarçar suas vergonhas ou ironizar - o que seria mais comum - as derrotas da sua vida. O livro, pelo contrário, começa com uma humilhação. Nada grave, apenas um momento da infância no qual ele se sentiu humilhado. Tão banal que nem seria necessário incluir na história, só agravaria a vergonha da situação. Mesmo assim ele faz. É isso que torna o primeiro volume de Minha Luta um livro tão especial, a honestidade do autor para com ele mesmo. 

Obviamente tanta honestidade não vem sem represália. Pelo que li por aí, a primeira medida da família do pai de Karl Ove foi tentar impedir a publicação do livro. Então, quando isso não surtiu efeito, ameaçaram processá-lo. Para evitar que isso acontecesse, o autor criou nomes falsos para os membros da família de seu pai, todos os outros nomes (da sua mãe, da sua esposa e ex-esposa, dos seus filhos, do seu irmão, dos seus amigos do tempo de escola) são verdadeiros. Essa foi a polêmica gerada pelo livro. Que um escritor foi capaz de colocar sua própria vida e a de todos os que conviveram com ele desde quando ele era criança no papel e distribuir pelo país (na Noruega, os volumes do livro já venderam mais de 500 mil cópias, e o país tem pouco mais de 5 milhões de habitantes). Não conseguindo impedir a publicação, a família do pai de Karl Ove cortou relações com ele. Seu casamento quase não sobreviveu às verdades pessoais que ele incluiu nos livros. Vai saber o que os filhos dele não vão pensar quando finalmente lerem os livros. Mesmo assim ele fez. Fez aquilo que todos nós morreríamos de medo de fazer, falar a nossa versão da verdade para o mundo. Pior nossa versão da verdade sobre nós mesmos.

Chega a ser impressionante que o livro não fique exaustivo. Já falei da cena do chá, mas não é só isso. Se você já se empolgou com um autor a ponto de falar que leria a lista de compras dele, esse é seu dia de sorte, em Minha Luta você lerá a lista de compras do autor. É um momento chato na leitura? Não. Por incrível que pareça, ele consegue gerar no leitor um nível de interesse surpreendente considerando o quão trivial é o conteúdo do livro. Talvez seja por isso mesmo que tenha se tornado um fenômeno. A banalidade seja tão universal que todos se identificam e buscam no livro alguma forma de resposta, que obviamente o livro não tem. O autor, afinal, é um ser humano, e não um guru. Tampouco ele sabe as respostas para as nossas perguntas, ele também vive se perguntando sobre as coisas.

Uma leitura desse tipo já me fazia falta. Não me identifico dessa maneira com uma história faz tempo, por isso até já fiz questão de comprar o volume dois. Vou dar uma pausa antes de começar a leitura, imagino que uma hora ou outra, sem a devida distância, eu vá me cansar da vida dele. Às vezes eu acho que é para isso que a literatura serve, para essa transfusão de consciência, para que o leitor seja capaz de sair do eu e entrar na vida do outro por um instante (outro real ou fictício), para que o leitor possa pensar como outra pessoa. Esse é o livro ideal, se é isso que você procura.

Nota: 5/5

Trecho no site da Companhia das Letras: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13088.pdf

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Momento Musical #1 - Frank Zappa, Mimi & Richard Fariña e The Greenhornes



Entre as minhas tentativas de mudar um pouco o jeito que eu faço o blog estava a ideia de parar com as resenhas de música. Principalmente porque elas são chatas de fazer e repetitivas. Ora, como avaliar música? Ouvindo, falar sobre não adianta nada. Então, ao invés de avaliar álbuns, de agora em diante vou apenas indicar músicos que eu gosto, alguns de seus discos, e vocês façam o favor de procurarem por aí. Como vocês já sabem, uma indicação minha é praticamente sinônimo de qualidade, então estejam certos de que coisas interessantes passaram por aqui. Como falar de um músico só exigiria que eu fizesse pesquisas biográficas e coisas do gênero pra poder encher um texto, decidi ignorar tudo isso e falar de três músicos de uma vez. Isso mesmo, três pelo preço de um, aproveitem. Essa linha de posts se chamará Momento Musical (mais ou menos como Pintura para Principiantes, só que mais arrogante), e, para a estreia, venho lhes apresentar: Frank Zappa (clássico da década de 60), Mimi & Richard Fariña (dupla folk que poderia muito bem estar no patamar de Bob Dylan, não fosse a morte prematura de Richard em 66) e The Greenhornes (rock contemporâneo, que eu descobri assistindo ao filme Broken Flowers - que logo terá resenha -, do Jim Jarmusch).
Frank Zappa

Meio que considerado uma ovelha negra do rock da década de sessenta, Zappa fez tudo diferente do resto. Quando a moda era ser hippie, ele tirava sarro dos hippies, quando a moda era o rock boneca inflável (apelido que eu dou às bandas da década de 80) ele tirou sarro desses também. Assim como de quase todos os aspectos político-sociais de cada época. Fez tudo isso enquanto explorando ao máximo cada estilo musical, do rock ao jazz, do erudito ao doo-wop. Não existem dois discos iguais do Frank Zappa, por isso eu sugiro que, caso você goste das músicas de amostra aqui, baixem logo a discografia toda.




Mimi & Richard Fariña

Irmã de Joan Baez, Mimi, casou-se com Richard Fariña na década de 60. Juntos eles formaram uma dupla folk, gravaram 2 discos (tá, 2,5 considerando que teve um póstumo com umas raspas de panela e músicas solo da Mimi), que hoje são raridade até na internet, e se tornaram grandes nomes da cena musical de Greenwich Village. Alguns críticos diziam que eles poderiam ter ser tornado os maiores nomes do gênero na época, ameaçando até a soberania do Bob Dylan, não fosse a morte prematura de Richard Fariña em 66, dias depois de ele ter publicado seu romance, Been down so long that it looks like up to me (traduzido em português em edição extinta como Tanto tempo na pior que o que pintar é uma boa). Um daqueles casos que te fazem pensar o que viria caso ele não tivesse morrido, tanto na música quanto na literatura.



Obs.: tenho o livro e pretendo ler e resenhar o quanto antes.

The Greenhornes

Rock estilo banda de garagem. Não sei muito sobre eles, só ouvi na trilha sonora do filme e baixei quantos discos pude encontrar. Não sei se a banda está na ativa ainda, mas vale a pena ouvir. O som é bem simples, e isso talvez seja o que mais agrada. Sem floreios, apenas o bom e velho rock, com um toque de blues.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Lanterna Mágica (Laterna Magica) - Ingmar Bergman [1987]

 

Um agravante à insegurança ao se preparar para fazer uma resenha é a procrastinação. Terminei de ler esse livro ano passado, certo de que teria uma resenha genial para fazer - tenho tendência a ignorar a humildade antes de começar um projeto, que culpa tenho eu que tudo soa muito melhor na minha cabeça que no papel? -, então li a introdução escrita por Woody Allen, porque, sim, eu leio as introduções e prefácios somente após de ter lido o livro, pois assim evito que as ideias dos outros influenciem minha leitura. Pronto, a merda estava feita, nada do que eu venha a escrever aqui seria tão bom quanto o texto do Woody Allen, que conseguiu ser pessoal, brevemente analítico mas sem afetações, e engraçado. Bom, não sou Woody Allen, muito menos sou Ingmar Bergman, mas acho que sou o suficiente para vocês, nobres doutores, que me leem.


Não tem muito o que se dizer sobre a sinopse de Lanterna Mágica, de Ingmar Bergman, além de que é uma autobiografia - a primeira autobiografia que li. Agora vou falar bastante sobre o livro e, consequentemente, Ingmar Bergman, então é melhor que eu explique quem ele é, caso alguém aqui não saiba. Ingmar Bergman foi um cineasta sueco, o mais conhecido de seu país e um dos mais importantes da história do cinema (já resenhei aqui o clássico Morangos Silvestres, e vi Sétimo Selo duas vezes, mas não tive coragem de resenhar). Mas Lanterna Mágica não fala sobre cinema, só muito brevemente. O título, por exemplo, é uma referência a um brinquedo que Bergman teve como criança, uma espécie de projetor que mostrava uma história infantil com imagens - lanterna mágica em si foi o nome que deram ao projetor que veio antes do cinema, mas após o cinema ele virou um brinquedo infantil. Grande parte do livro é dedicada à infância e adolescência do cineasta, e não espere aqui uma história graciosa, contada por uma celebridade afim de alimentar seu próprio ego. Bergman é sincero, quase rancoroso em alguns momentos (principalmente em relação ao seu pai). Ele conta ao mundo as coisas que a maior parte de nós prefere manter em segredo. Então, quando ele se dedica a falar da sua própria arte, não fala dos seus sucessos cinematográficos, mas dos fracassos, da luta por orçamento, dos seus esforços no teatro - meio que ele mais parece amar. Fala um pouco das suas influências também, artísticas e filosóficas, mas a base da obra está no intimo, não nos detalhes de produção da peça, mas da diarreia que ele sofre sempre que uma estreia se aproxima; não dos muitos prêmios e admiradores, mas de quando foi preso por sonegação fiscal durante um ensaio. Ele não enfeita sua vida, não esconde o desagradável, apenas conta o que aconteceu.

É difícil para mim indicar esse livro, por melhor que seja, para alguém que não conheça ou não se interesse pelo diretor. Para que a leitura seja plenamente agradável, é importante - não exatamente necessário - que o leitor tenha visto um ou dois filmes dele pelo menos, apenas o suficiente para que as ideias dele também se tornem interessantes. O que não quer dizer que seja um livro ruim, pelo contrário. Ele escrevia seus roteiros e, se você já viu algum filme dele, sabe que ele é cheio de monólogos e narrações bastante literárias. A prosa de Bergman é seca, mínima, sem floreios, mas precisa e sentimental, intima, como se ele estivesse te contando as histórias pessoalmente, direto ao leitor.


Não há nenhum detalhe técnico literário que eu possa explorar. É somente uma autobiografia, mas uma autobiografia muito boa. O que mais tem por aí são artistas falando de suas lutas, histórias de superação  - quem a esse ponto já não sente náuseas ao ouvir falar de histórias de superação? -, histórias de sucesso. É raro um ser humano ter coragem de falar daquilo que o envergonha, daquilo que o humilha, sem se vitimizar ou escrever logo em cima uma reviravolta heroica. Para mim, esse tipo de biografia perde a humanidade, tem a intenção de tornar a pessoa um mito. Esse foi meu grande alívio com Lanterna Mágica, tanto que o livro me prendeu.

Também não esperem ver uma biografia do tipo: tudo começou no ano tal, quando eu nasci no determinado hospital da respectiva cidade, no dia tal, hora tal. Não, ele não segue uma estrutura linear. Ora ele fala de uma surra que levou do pai, então pula para o dia que ele perdeu a virgindade, então volta para a infância e como ele gostava de se esconder no armário para brincar com a Lanterna Mágica. Ele pula entre os vários pontos que ele julga relevantes tratar. É bom lembrar então, não leia esperando um "por trás das cenas" de suas várias gravações. Acho que Sétimo Selo nem é mencionado durante o livro todo, e pouco se fala dos livros que chegam a ser citados. Em muitos momentos, ele parece não citar de propósito o nome dos filmes aos quais ele faz referência, para fugir dessa parte da vida dele, a parte que o tornou famoso.


Por agora vocês já devem ter reparado que se trata de um bom livro, mas vou reafirmar para os que possam não ser tão rápidos: é uma ótima autobiografia, melhor se você sabe quem é o autor - obviamente. Bem escrita, melhor que muitos romances, honesta, sem os problemas típicos que envolvem um autor falando de si mesmo, e, por ser da Cosac Naify, ainda vem em uma bela edição de capa dura. Indico a leitura, com as restrições já mencionadas.

Nota: 4/5

domingo, 10 de agosto de 2014

Invictus - Clint Eastwood (2009)


Isso não é uma resenha, é uma anedota. Nem mesmo chega a ser uma daquelas histórias de ida ao cinema que em algum momento se entrecruzam com a história do filme e então a resenha surge. Vi esse filme no começo de 2010 e mesmo naquela época tinha pouquíssimas coisas a dizer sobre ele. Talvez mais tarde descreva o motivo disso, mas antes preciso justificar a existência desse post tantos anos após o acontecimento. Faz tanto tempo que é até triste de relembrar. Na época eu tinha dezoito anos, recém chegado na cidade. Nunca tinha ido ao cinema local, então, quando ouvi da estreia de Invictus, uns quatro meses após ele ter saído de cartaz no resto do Brasil, decidi ir ver só porque fazia tempo que eu não ia ao cinema.

É, vai em frente, filme. Bota umas cenas do protagonista brincando com crianças subnutridas, assim talvez eu me emocione. Se não, pelo menos talvez eu me importe com os personagens...
Tenho a tendência de chegar cedo nos lugares, possivelmente por sempre ter de ir a pé. Quando chego muito antes a uma sessão de cinema, meu hábito é tomar uns chopes em qualquer lugar da praça de alimentação que esteja mais barato (ou seja, não importa o lugar, porque os putos tabelam os preços). Descobri que uma pouca quantidade de álcool no sangue permite que a mente se abra para filmes provavelmente chatos - como eu logo descobriria ser o caso de Invictus. A cerveja ajuda a distrair e faz que o espectador perca todo aquele senso crítico, aceitando melhor certos problemas, deixando que o filme aconteça. Mas não é sobre o filme que eu vim falar, não nesse parágrafo.

Sentei a uma mesa de frente para o cinema. Em um vídeo recente, Camila Deus Dará em seu blog disse que adolescentes em grandes grupos indo ao cinema são um perigo. De fato eles são e, em cinemas, são também presença obrigatória. Nunca fui ao cinema sem que um grupo de adolescentes estivesse presente. Nesse caso, eles sentavam à mesa em frente à minha, um rapaz e três garotas, não daria mais de treze anos para nenhum deles. Riam histericamente e tentavam de qualquer maneira chamar a atenção dos outros indiscriminadamente. Bebendo, só me restava torcer para que o ingresso que eles carregavam não fosse para Invictus - não é um filme adolescente, afinal. Mas só eu ter considerado essa ideia já deveria me servir de garantia que eles estariam na mesma sala que eu.

Entrei na sala e escolhi uma cadeira. O cinema de Itajaí era - digo era pois está em reforma - projetado de modo a causar um estranho fenômeno: não importando qual fileira se escolha, todas são ruins. A tela é pequena demais e a sala não tem inclinação o suficiente. Quando muito no fundo, o telão mais parece a tevê da sua sala de estar, já qualquer fileira próxima do meio da sala força o espectador a manter o pescoço para cima, como se fosse a primeira fila. Tentei me ajustar ao incômodo, hoje com mais experiência até tenho uma matemática formada na minha cabeça. Fui andando devagar, olhando em direção à tela. Quando sentia estar próximo de uma angulação menos desagradável, sentava na cadeira para verificar. Então tentava a fileira de trás, então a da frente. Um experimento exaustivo que eu não praticaria se, naquele momento, não estivesse sozinho na sala. Quando ouvi passos se aproximando atrás de mim, aceitei o desconforto e fiquei onde estava, sentado na cadeira da ponta, próximo ao corredor - aquele medo de que ocorra um desastre e eu fique preso em meio à multidão - multidão essa de quinze pessoas, no máximo.Os passos que me seguiam eram de um casal de meia idade, outros casais desse tipo viriam logo mais. Casais mais jovens também, mas nenhum grupo de amigos ou solitários, que não eu mesmo. Então eis que eles, aqueles adolescentes, entraram na sala. Passaram logo ao meu lado pelo corredor, rindo de nem deus sabe o quê. Duas das garotas, no entanto, ficaram para trás, se separaram do casal juvenil e se acomodaram numa fileira que, ao meu ver, seria simplesmente infernal de tão próxima à tela. E o casal foi ainda mais perto da tela, sem dúvida em busca de um torcicolo para o resto da vida. A moça do casal tirou do bolso uma camisinha e a abanou para as amigas, como se não houvesse mais ninguém naquela sala de cinema semi-cheia. As amigas de trás riram, ela riu, eu penso que é tudo uma brincadeira, um jogo juvenil com o intuito de chocar a nós, velhos antiquados que largávamos nossas carcaças pelo cinema, ignorantes da ousadia daqueles sábios namorados que acabavam de atingir a puberdade - como se alguém ali além deles soubesse o que é uma boa foda...

Todos estavam, enfim sentados. Pouco barulho. Algumas conversas sussurradas bem espalhadas por cada canto da sala, mas que definitivamente parariam, e pararam, quando as luzes apagassem. Nem mesmo os adolescentes se manifestavam, para minha própria surpresa. Esperava mais teatro, mais exploração do ego, mas não houve nada - em retrospecto, devia ter tomado a quietude repentina como premonição. As luzes apagaram, passou um trailer projetado completamente fora do telão. Os projetistas tentaram as pressas ajustar, ora baixo demais, ora alto, até que acertaram. O som era cheio de eco e a sala não tão bem isolada, a ponto que era possível ouvir ainda os sons da sala ao lado, que já deviam estar quase no fim do filme que assistiam. Sacos de pipoca e mastigação criavam a atmosfera do local, um celular tocou e foi silenciado no terceiro toque, vez ou outra alguém sussurrava - eram os trailers ainda, quem se importa? Até que a vinheta da produtora de Invictus indicou o começo do filme. Queria eu lembrar de alguma coisa para poder inserir aqui uma descrição detalhada. Uma coisa eu lembro, era sobre rugby. Rugby na África do Sul, no período em que o Morgan Freeman (interpretado pelo Nelson Mandela) tinha se tornado mandachuva do país, e ia ter uma copa de Rugby por lá ou coisa assim, me perdoem, faz mais de quatro anos e eu não tenho como enfatizar ainda mais o quanto o filme é esquecível. Um pouco depois da cena introdutória falando do Morgan Freeman na prisão, tudo narrado pelo próprio, muito bonito, e um bocejo meu, eis que algo me despertou. Um senhor cruzou o corredor ao meu lado a passos rápidos, resmungando e balançando os braços em indignação. Escutei algo como: eles tão transando ali porra. Não podia ser. Tá certo que fazia sentido, eles tinham a camisinha, mas eu podia jurar que era só um blefe, uma graça para eles terem do que se gabar na escola na segunda que viria. O senhor ali devia estar exagerando, no máximo aquilo não passava de um boquete. A luz de duas lanternas passearam pelas paredes da sala escura, vozes contidas, mas indignadas acompanhavam. Eram seguranças devidamente uniformizados que vinham para levar o casal exibicionista de volta à creche. E as duas amiguinhas, baixando a cabeça, foram atrás. E eu fiquei, pensando.

"Ah, então você é o caucasiano encomendado para salvar o dia, prazer em conhecê-lo."
Hoje, anos depois, posso repetir o que disse naquele tempo apenas ajustando a idade: eu, aos vinte e três anos, nunca transei em um cinema. Não sei por que, gosto de cinema e gosto de sexo, seria uma combinação interessante. Mas penso que seria estranho, raramente duas paixões dão certo quando se misturam, é bom manter os mundos separados. Amo literatura, amo música, mas não consigo ler ouvindo música. Manter-me ativo enquanto Morgan Freeman narra a história de sua vida em um telão brilhando na minha cara, não daria certo. Anos atrás eu presenciei uma cena menos incoerente. Um grupo de amigos e eu decidimos, pra comemorar o aniversário de um dos amigos presentes no grupo, assistir À Meia Noite Encarnarei Seu Cadáver, ou seja lá qual for o nome do filme do Zé do Caixão que estreou em 2007 ou 2008 - minha memória está indo embora. Foi numa quinta, à meia noite, na pré-estreia. Obviamente, estávamos nós no cinema e um casal, dessa vez maiores de dezoito anos - creio eu, não fiquei até mais tarde conversando com eles depois do filme, embora eu tenha certeza de que hoje eles estão muito bem casados, bebendo vinho em caveiras, em algum cemitério de Santos. O casal estava bem distante, nas primeiras fileiras, e nós ocupávamos quase uma fileira inteira mais para o meio do cinema. Sei lá em que ponto do filme, um amigo cutucou o outro e apontou para o casal da frente perguntando: alguém viu a mulher sair? Ninguém tinha visto nada, mas estávamos certos de que tinha ido ao banheiro ou ido pegar mais pipoca, coisa assim. O tempo passou e nada dela voltar. Tínhamos esquecido dela quando sua cabeça ressurgiu de trás dos encostos das cadeiras como o sol nascendo no horizonte. Nós não dissemos uma palavra, embora a vontade fosse dar-lhe uma salva de palmas.

Morgan Mandela imitando a nossa expressão ao vermos a cabeça da moça voltar à posição de descanso.
Claro, o boquete oculto na pré-estreia do filme do José Mojica Marins é muito mais aceitável que o cinepornô infantil em Invictus. Primeiro, porque foi entre dois adultos em consenso. Segundo, porque eu tenho que admirar uma mulher que não se intimida por uma plateia de adolescentes logo atrás dela enquanto ela faz o seu trabalho. Terceiro, pelo menos À Meia Noite Encarnarei seu Cadáver tem algo de sexual. Verdade que era principalmente necrofilia, mas mesmo assim, eu tenho certeza que era isso que aqueles dois estavam buscando quando saíram de casa para o encontro romântico, um pouco de sexo entre vivos e mortos, nada demais. Ei, melhor assistir que praticar. Ao menos havia algum estímulo, perturbado que fosse, e não só o Morgan Freeman tentando resolver o apartheid na África - que, obviamente, é resolvido no final do filme, graças ao branquelo ganhando a final do torneio de rugby (quem diria?, o azarão ganhando no final, logo no último minuto...que emocionante...não é como se eu já tivesse visto isso antes em algum filme de esportes).

Tá certo, me exaltei. Só me senti velho no final daquilo tudo. A passagem de gerações, e como quando eu tinha treze anos eu estava só esboçando meus primeiros pensamentos sexuais - que não chegavam nem à realidade nem à sala de cinema. Talvez seja uma questão geracional, hoje os jovens estejam mais precoces. Talvez, daqui há dez anos, crianças de sete anos estejam organizando orgias à Calígula nos elevadores panorâmicos dos shoppings. Quem sabe um dia tudo isso será visto com naturalidade. Provavelmente não. E longe de mim ser uma senhora defensora da moral e dos bons costumes. Na hora, pouco me importei com toda a comoção e exibição de camisinhas, desde que eles não atrapalhassem o filme com gemeção pornográfica, tudo estaria bem, ao meu ver. Não é como eles estivessem do meu lado afinal, nem cheguei a ver nada ao vivo, só muvuca e reclamações até a expulsão. E o filme em si, muito possível que, não fosse esse incidente, eu já tivesse me esquecido dele.

Nota: 2,5/5 - Não é ruim, não é bom, não é nada. Típico picolé de chuchu.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

poemas 58, 59 e 60

58

sofro suspiros soníferos,
sonhos insones
sob lençóis sonâmbulos,
sussurros esclarecedores
que oprimem o sono.

59

a abstração da poesia
é uma pessoa pendurada
no penhasco com
uma das mãos estendida
fingindo não precisar de ajuda.

60

pense por um instante
que de fato não há presente,
que aquele segundo que vinha
agora é passado recente
e mais segundos escorrem
como grãos de areia
por entre os dedos de um punho fechado.

aonde caem esses pobres grãos condenados?


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Mãe filha e a morte que não chega - Parte 2, final (conto)


Veja a parte 1 clicando aqui.

O interfone tocou e até isso me deixava angustiada. Já havia desaprendido a estar na presença de outras pessoas que não a minha mãe. Mas era meu filho, então não tinha problema. Vou admitir que quando ele decidiu sair de casa me senti traída. Estávamos naquilo juntos. Ele me ajudava com os remédios, me ajudava a cuidar dela sempre que eu precisava sair. Antes de ele ir embora eu tinha um resto de vida. Pensamentos egoístas, já que no lugar dele eu faria o mesmo. Lembro-me de quando eu era adolescente, sempre que dizia a minha mãe que tinha planos ela fazia um escândalo. Se dissesse que ia à praia com amigas ela logo perguntava por que, como se precisasse de motivo para querer sair de casa. Então ela dizia que eu queria era me mostrar, me chamava de vadia. Tinha deixado de me bater, cansado da agressão física, demonstrava uma preferência pela agressão psicológica. Dizia que eu queria sumir de casa, me livrar dela – o que era verdade -, que então ela facilitaria o trabalho e, enquanto eu estivesse fora, ia tomar todos os remédios disponíveis na casa, ligar o gás do fogão, pular da janela. Era tudo tão pesado que eu desistia, me trancava no quarto esperando o dia que a morte dela me traria liberdade. Claro que a cada ano ela amansava mais, de pouco a pouco ia tomando consciência da velhice, da dependência, me queria feliz para que ela pudesse gozar de algum conforto, para que eu não a pusesse porta a fora. Por isso casei na primeira oportunidade, com o primeiro homem com quem me relacionei, para poder ter o meu teto, a minha vida. Toda vez que eu sentia que estava pressionando meu filho a alguma coisa, ouvia os gritos da minha mãe ecoando na memória, os sons dos pratos que ela atirava na parede ou até em minha direção ou de meu pai – sortudo que morreu cedo para se livrar do martírio -, e parava, pedia desculpas. Isso não o impediu de sair de casa. Tinha medo que ele o tivesse feito por causa disso, para ter sua própria vida longe de mim, que eu tenha sido para ele o que minha mão foi para mim. Ele nunca me falou.
Casou-se ano passado, com uma garota boa, graças a Deus. Não pude ir à cerimônia. Ele insistiu, disse que me levava no carro, que carregava a avó na cadeira de rodas. Fazendo tudo com antecedência, não haveria problema. Mas ele esqueceu que ela já não tinha o controle de antes. Seu intestino imprevisível, esse era o maior risco e o que fazia dormir de olhos abertos mais que qualquer outra coisa. E se ela tivesse um troço no meio da cerimônia, mesmo que ele arranjasse uma mesa próxima ao banheiro durante a festa, tudo fosse calculado para facilitar a movimentação, um acidente qualquer seria um desastre, estragaria tudo e eu morreria de vergonha. Neguei, não fui ao casamento do meu filho por culpa dela, nem à formatura da faculdade. Engraçado é que ele ainda comentou quando pedira a namorada em casamento que ainda levaria uns anos para eles conseguirem os meios para casar, então a avó talvez já não estivesse viva e eu pudesse ir. Ficaram noivos por quatro anos, ela não teve um problema de saúde nesse meio tempo, e eu não sabia se chorava ou agradecia por isso. Ela também não sabia, pelo menos uma vez por mês ela tinha o hábito de pedir a Deus para que a levasse; às vezes ria dizendo que havia sido esquecida, às vezes chorava certa de que havia sido esquecida. Ele tocou a campainha e, depois de verificar pelo olho mágico se era mesmo ele, abri a porta. Entrou com as sacolas e as largou na bancada da cozinha enquanto eu trancava de novo a porta da entrada. Deu-me um beijo no rosto quando entrei na cozinha.
- Como vão as coisas?
- Bem. Como sempre. E você?
- Também.
- Trabalho?
- Isso não muda nunca.
- Camila?
- Ela vai bem também. A vó?
- Daquele jeito. Mal, mas inteira.
- Eu comprei os remédios que você pediu, estão em uma dessas sacolas. Shampoo também. Pão, água, suco, frios – apontava cada sacola, retirava alguns itens e os guardava na geladeira -, aquelas bolachas que você gosta, chá, aquelas sopas de pacote. Faltou alguma coisa.
- Não, acho que não.
- Qualquer coisa avisa.
- Tá.
- O pai deu notícias.
- Não.
- Mas ele tá ajudando com as contas?
- Sim, mas é só. Ele paga tudo pela internet. Tá no nome dele, então ele deve conseguir os boletos desse jeito também. Mas aqui ele não deu mais as caras. Você falou com ele?
- Não.
- Mas devia. É seu pai. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se eu pudesse, também saía dessa.
Continuou guardando as coisas. Tentei mudar de assunto.
- E vocês?, tão pensando em filhos?
- Pensando. Eu acho cedo demais.
- Ela não?
- Ela queria dois, mas agora só quer um. Viu a dor de cabeça que uma amiga dela tá tendo com dois, deve ter sido por isso.
- É melhor agora que depois de velho. Aí pelo menos quando a criança crescer vocês ainda têm tempo de aproveitar a vida.
- Pode ser, mas é caro. Fralda, escola, mais uma boca pra alimentar.
- Já não basta a sua mãe, né?
- Ninguém falou nada disso.
- Mas eu sei. É difícil. Se eu pudesse fazer alguma coisa você não teria que passar por nada disso – perdi o controle e comecei a chorar.
- Ângela – ouvi o chamado vindo da sala.
Enxuguei as lágrimas, fiquei parada um instante processando o chamado, sem reação. Meu filho continuava guardando as coisas, então parou e me fitou.
- Ângela – dessa vez mais mórbido, o que me fez acordar. – Ângela.
- Calma, não tá vendo que eu tô ocupada. Tô chegando.
Devagar, lhe puxei da poltrona quando vi que era tarde demais, ela já estava toda suja. E quando ela levantou a merda começou a lhe escorrer por entre pernas, e ela chorava por não conseguir parar. Eu continuei a puxá-la para que ela chegasse ao banheiro o mais rápido possível, mas ela não se mexia para andar.
- Ajuda, mãe. A gente que chegar ao banheiro.
Ela conseguiu arrastar um pé na frente do outro, devagar. Atrás de nós havia um caminho de merda em gotas se formando entre a poltrona da sala e o banheiro. Tirei a roupa dela e a fiz sentar no vaso, minhas mãos estavam todas sujas por tocar na roupa empapada. Só então, quando ela estava sentada, pude reparar no cheiro e, se não estivesse acostumada por ter de lidar com isso quase semanalmente, teria vomitado ali mesmo. Era o cheiro de um cadáver tomando conta de cada cômodo. Joguei as roupas em um saco de lixo e as levei até a área de serviço. Deixei o saco dentro do tanque, sem saber se jogaria as roupas fora ou se as tentaria lavar. Enquanto isso ela continuava sentada no banheiro, acho que ainda tinha o que fazer, e meu filho falava, creio eu que com a esposa, no celular.
- Ok. Já estou indo. Ok. Até daqui a pouco. Beijo.
- Você já tem que ir?
- Sim. Você vai ficar bem?
- Tô acostumada com isso já, não se preocupa. Vai embora mesmo, que o cheiro tá insuportável.
- Tá, então eu já vou.
- Você vem amanhã?
- Não sei. Pode ser. Não sei se eu já não tenho alguma coisa combinada com a Camila.
- Certo. Qualquer coisa avisa.
- Tá precisando de alguma coisa amanhã.
- Não, o que você trouxe hoje vai servir por algum tempo. Eu ligo avisando se faltar qualquer coisa.
- Tá bem.
Ele me deu um beijo na testa e se despediu. Eu fechei a porta e olhei para a sujeira na sala que eu ainda teria que limpar. Eu tinha avisado para ela me chamar com antecedência, mas era sempre assim, sempre tarde demais. Não sabia se ela já não tinha sensibilidade. Às vezes achava que era de propósito, que queria que eu a limpasse e a sua sujeira. Se não fosse a expressão de humilhação na cara dela sempre que isso acontecia, veria alguma razão na minha hipótese. Da porta do banheiro, enquanto eu tentava limpar a poltrona com um pano embebido em álcool, a ouvia rezar e continuar chorando, sempre com gemido - hum...hum...hum – cada vez mais alto. E eu queria gritar com ela, pedir para que parasse com o barulho, avisar que tínhamos vizinhos que deviam estar pensando que era eu quem a maltratava apesar de tudo. Nunca ouvi uma reclamação de vizinhos ou síndicos, talvez nem soubessem quem eu era já que nunca saía do apartamento, só raramente para levar o lixo – quando meu filho não vinha para levar. Mesmo assim, imaginava que falavam de mim, da nossa situação estranha. Ainda mais quando eu dava banho nela ou cortava suas unhas, que era quando ela fazia os maiores escândalos, reclamando da temperatura da água, dizendo que eu a esfregava com muita força. Gritava como se estivesse apanhando, como se estivesse sob tortura, e tudo que eu podia fazer era sussurrar pedindo para que ela parasse.
- Ângela.
Corri para o banheiro e abri a porta.
- Que foi agora?
- Tá frio.
            - Já terminou aí?
            - Já.
            - Mesmo?
            - Já.
            Então eu a limpei e a vesti.
            - Quero me deitar.
            - Tem certeza? É cedo ainda, não vai ver a novela.
            - Não. Tô cansada.
            Levei-a até o quarto, ela se deitou e eu a cobri. E sempre o mesmo hum...hum...hum.
            - Qualquer coisa chama.
            - Tá bem, filha.
            - Qualquer coisa, ok? Qualquer sinal de que alguma coisa pode acontecer, chama.
            - Não zomba de mim.
            - É sério.
            - Boa noite.
            - Boa noite.
            Ela ainda não dormiria, nem eu. Agora ela ficaria deitada de olhos abertos até as duas horas da manhã, me chamaria para levá-la ao banheiro pelo menos três vezes, e eu ficaria sentada esse tempo todo em frente à televisão, sem nunca prestar atenção nas imagens. Fui até a cozinha e peguei o pacote de chá, camomila, desses de saco. Eu sei que dizem que isso não é chá de verdade, chá de verdade é feito direto com a erva, mas acho que seria pedir demais ao meu filho que ele fosse em uma dessas lojas de produtos naturais só para comprar um pacote de ervas. Se eu soubesse que ele já iria a uma dessas lojas, pediria, mas não acho que vá. Fervi a água, não muito mais que uma xícara, considerando a possível evaporação. Então despejei a água fervida na xícara e coloquei dois dos sacos dentro da água por alguns minutos, depois os joguei no lixo. Voltei ao sofá da sala e a essa altura eu já não sabia a hora, eu já não sabia a programação, não sabia qual foi o dia que passara nem qual dia estaria chegando. Só sabia que, fosse o que fosse, era exatamente igual ao dia anterior. A poltrona estava desbotada de tantas vezes que a esfreguei com álcool por causa desses incidentes. O cheiro, podendo ou não estar no ambiente, estava impregnado nas minhas narinas. O chá tinha gosto de água quente, talvez água quente com um leve aroma de alguma coisa. Lavei a louça do dia, desliguei a televisão, apaguei a luz da sala, verifiquei duas vezes se a porta estava bem trancada.
            Decidi que era hora de me deitar.
            - Ângela.

            Antes levei minha mãe mais uma vez ao banheiro. E hum...hum...hum..., a levei de volta para cama e a cobri. Dessa vez, quando se deitou, ela fechou os olhos, e eu a assisti encostada ao batente da porta do quarto. De impulso, minha mente forjou uma imagem. Eram as minhas mãos segurando um travesseiro sobre a cabeça de minha mãe. Será que ela entenderia?, se debateria?, lutaria contra? Eu não teria coragem. Em um segundo do início do ato, me imaginaria sob o travesseiro, meu filho o segurando contra minha cabeça, e eu perderia o ar. E a partir do momento que se dá início a um processo desses, não tem como voltar atrás, não tem esquecimento. Mas pensei nisso de qualquer forma, agora não adianta negar para mim mesma. Em algum lugar isolado da minha consciência, muito bem trancada em uma gaveta, estava a imagem da morte da minha mãe. Não a interpretava como um assassinato, sequer como uma agressão. Era quase um ato de carinho e compaixão. Deixe de sofrer minha querida mãe, viva livre, diria, voe em liberdade plena pela primeira vez na vida, liberdade que eu nunca tive, que você nunca permitiu que eu tivesse, diria beijando a testa de seu cadáver recente. Poderia fazer o mesmo com a minha vida a seguir. O gás que ela vivia prometendo que ligaria, as pílulas que ela me ameaçava tomar. Eu o poderia fazer, sem ameaças, sem culpa, pelo contrário. Levaria comigo o futuro peso nas costas de meu filho, ele concordando ou não. Mas não poderia, era inútil pensar naquilo. O que me afligia era que, naquele rosto dormente, velho, não havia um sinal de morte. Não era saudável, mas nada que lhe afligia era mortal. Intestino solto não mata ninguém, preso tampouco – e ela tinha crises constantes de prisão de ventre. A fraqueza do corpo e dos movimentos, nada disso mata um ser humano. Seus órgãos vitais seguiam trabalhando, com o auxílio de remédios, mas seguia de qualquer forma. Eu não deixaria de remediá-la. Ao que tudo indicava, ela poderia dormir essa madrugada e não acordar ou viver pelos próximos dez anos ou mais, poderia viver mais que eu. Será que ela morreria? Revirou-se um pouco na cama, alheia aos meus pensamentos. Aquele dia, para ela, fora mais um a passar, mais um de tantos que já vivera e viria a viver. E eu deveria ir logo para cama. Se a vida não iria acabar, ao menos que acabasse o dia.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Pintura para principiantes #1 - Introdução e Edward Hopper


Essa é a estreia de uma coluna nova aqui no Delirium Scribens. Estou entediado com as coisas que eu costumo fazer por aqui, então decidi criar uma novidade. Falarei de pinturas. Quais minhas credenciais para falar desse assunto? As mesmas que tenho para falar de cinema, literatura e música - absolutamente nenhuma. Talvez possa até dizer que tenho menos moral para falar de pintura que qualquer uma dessas outras artes, porque ao menos com as outras eu tenho experiência de contato e/ou experiência prática. Logo aviso que não esperem aqui uma análise complexa ou exata da vida e obra de diversos artistas, apenas uma introdução superficial para você, que assim como eu, não sabe nada de pintura, mas gostaria de saber.

Como não entendo sobre a técnica da pintura ainda (talvez aprenda com o tempo, talvez não), não me meterei a falar sobre isso, sobre o estilo das pinceladas e outros detalhes que um crítico de arte competente definitivamente perceberia. Por outro lado falarei daquilo que creio ser realmente importante, o que uma pintura causa internamente, quais sentimentos elas trazem a tona, como uma pintura pode afetar seu espectador. Além disso, pretendo falar um ou dois breves parágrafos sobre a vida do pintor em questão, não com fins biográficos, mas para contextualizá-lo na história.

O primeiro a ser tratado nessa nova coluna é Edward Hopper. Por quê? Ora, foi ele quem fez com que eu me interessasse por pintura. Sim, meu interesse é que regerá as futuras colunas, não cronologia ou grau importância. Repetirei para que não haja dúvidas, minhas finalidade aqui não é acadêmica, é apenas divulgação cultural, um jeito bacana de gerar interesse sobre esse assunto nas pessoas.

Nascido em Nova York, 1882, Edward Hopper ficou conhecido pelas suas pinturas altamente influenciadas pelo impressionismo francês. Seu principal cenário foi o cotidiano, os cenários comuns dos Estados Unidos, a "natureza urbana" - por assim dizer, como se isso fizesse qualquer sentido. São pinturas reais, que capturam as diferentes emoções do dia-a-dia, da simplicidade da vida, da solidão e tédio do que viria a se tornar o "sonho americano".

Summer Interior (1909)
Um dos meus favoritos por algum motivo. Tem algo de misterioso nessa mulher largada no chão do quarto, durante o dia, o rosto escurecido, a cabeça baixa. É uma figura melancólica, solitária. O quadro emana um erotismo desesperado. O espectador se vê obrigado a imaginar o que aconteceu de tão desconsolador. 

Night Windows (1928)
Tanto na pintura anterior quanto nessa - muito mais nessa -, o expectador tem um ponto de vista distante da cena, voyerístico. Dessa vez, além de imaginar quem é a mulher e o que ela faz, se é levado a imaginar quem é que a assiste. É uma invasão da intimidade, praticamente. Um ponto de destaque na obra do Edward Hopper é a forma que ele trabalhava as luzes e sombras. O efeito da luz no exterior do prédio é muito interessante, e a noção de movimento que a cortina passa flutuando para fora do apartamento por causa do vento. De novo a solidão se faz presente.

Early Sunday Morning (1930)
O cenário comercial da cidade pela manhã. Isso eu li no site "edwardhopper.net" - referência para quase todas as informações biográficas desse texto -, o título original da pintura não mencionava "Domingo", ou seja, a pintura pode ser interpretada como uma referência a depressão econômica em 1929, com as lojas fechadas e a falta de vida no centro comercial. 

Sun in an Empty Room (1963)
Essa é uma pintura curiosa. Não há nada nela, e por isso mesmo todos os temas comuns nas pinturas dele estão presentes. É uma imagem solitária o trecho da casa vazio, o sol entrando pela janela. Novamente o jogo de luzes e sombras. O mistério da observação do cenário desconhecido.

Automat (1927)
Essa é uma pintura famosa dele. A mulher sozinha no café, bem-vestida e maquiada, no meio da noite. Não se sabe se ela está voltando de algum lugar, indo para algum lugar. Novamente não se sabe quem a observa. Em 1927, pernas a mostra não eram exatamente aceitas, então há uma sensualidade na forma que as pernas sob a mesa estão mais iluminadas que o resto do quadro. O detalhe da fileira de lâmpadas refletidas na vidraça é genial. Uma das minhas favoritas.

Nighthawks (1942)
Tá, essa é a pintura mais famosa dela e a minha favorita. Porque foi ela que fez eu me interessar por pintura. Conheci por meio de um disco, na verdade, Nighthawks at the Dinner, do Tom Waits - que eu já resenhei aqui e sugiro que todos ouçam. Novamente, tenho algo nela. A solidão da noite, as figuras avulsas tomando café; um homem sozinho, um casal (possivelmente), juntos mas não exatamente, e o garçom ali, talvez ouvindo alguma coisa ou só seguindo com seu trabalho. É uma cena cheia de tédio, de novo assistida de longe, talvez por um passante na esquina. Um momento da madrugada - imagino que seja madrugada, pois não tem mais ninguém por perto. Eu realmente gosto dessa pintura.

Assim termina a primeira coluna sobre pintura. Uma curiosidade, também lida no edwardhopper.net foi que, no fim da carreira, ele perdeu a popularidade por causa do crescimento do expressionismo abstrato, Jackson Pollock, por exemplo, por isso ele será o próximo alvo dessa coluna, que será escrita sei lá eu quando. Raramente peço feedback por aqui, costumo fazer aquilo que me interessa, mas gostaria de saber o que meus dois leitores e meio pensam. Gostaram disso? Se interessam por pintura? Acharam a obra do Edward Hopper interessante? Essas perguntas de sempre.