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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Asterios Polyp - David Mazzucchelli [2009]


Primeira vez que resenho uma HQ por essas bandas? É, primeira vez, embora eu estivesse certo de que já havia feito essa resenha antes - às vezes penso tanto no que escrever para um post que chego a acreditar que o pensamento tomou forma, infelizmente não acontece. Não sou um leitor assíduo de HQs, na verdade eu tive algumas experiências na infância e na adolescência com esse meio, mas muito superficialmente, nada memorável, por assim dizer. Um belo dia, e sei lá eu o motivo disso, decidi revisitar esse mundo dos quadrinhos e admito que fiquei fascinado. É um setor tão pouco explorado e tão cheio de possibilidades. Entre as artes, creio que o quadrinho está em ascensão, com vários nomes inovando o setor. A que mais me chamou atenção nesse retorno foi Asterios Polyp.


O personagem que dá título ao livro é um arquiteto, professor universitário, que, logo no primeiro quadrinho, é forçado a sair do seu apartamento, que pega fogo após a queda de um raio. Ele, então, pega um ônibus e vai até uma cidade bem distante no interior dos EUA, e lá ele arranja um emprego de mecânico. Partindo daí a narrativa da saltos entre o presente e o passado. É descrita a infância de Asterios, sua juventude, o sucesso acadêmico, o casamento conturbado, tudo ao mesmo tempo em que ele tenta descobrir a si mesmo na nova cidade.


Tem muitos detalhes interessantes para discutir nessa HQ, tanto que eu não sei bem por onde começar - também não ajuda que eu a tenha lido ano passado e só agora tenha decidido falar sobre. O que mais me pareceu interessante no começo foi o ponto de vista da narração. A história é contada pelo irmão gêmeo natimorto de Asterios, que, supõe-se, o acompanhou em espírito o tempo todo. Isso é particularmente interessante devido à personalidade de Asterios. Se o livro fosse em primeira pessoa, seria uma história totalmente narcisista, visto que Asterios é um tanto arrogante, esnobe e metido a intelectual. Se fosse em terceira, não seria pessoal o bastante. O ponto de vista de um irmão morto, além de eu nunca ter visto nada assim antes, também oferece esse meio termo entre o pessoal e o impessoal.


O maior dos temas explorados nessa HQ é a dualidade do ser humano. Durante todo o enredo Asterios fala sobre suas teorias perante razão/emoção, destino/livre arbítrio etc. Sua esposa, por exemplo, é um completo oposto dele. Enquanto ele é um acadêmico tão racional a ponto de ser chato, ela é uma artista plástica passional. Essa dualidade se reflete até nos traços, que por vezes fogem do padrão e assumem uma visão mais psicológica que física nas descrições das imagens - se é que isso faz algum sentido. Exemplo: nas várias brigas que Asterios tem com a esposa, quando ele fala os arredores tomam forma geométrica, como um esboço arquitetônico; quando ela fala, tudo toma forma de traços abstratos.


Até mesmo entre o presente e o passado há uma dualidade clara. No passado ele vivia na cidade grande, seguindo instintos materiais e hedonistas. No presente ele vive no interior, solitário e introspectivo, buscando alguma espiritualidade influenciada pela cultura nativo-americana. As cores também seguem esse padrão. Ora são usadas cores frias (passado, monólogos de Asterios), ora cores quentes (presente, brigas com a esposa).


Asterios Polyp recebeu vários prêmios na época de seu lançamento, incluindo 3 prêmios Eisner e 3 prêmios Harvey, foi muito aclamada pela crítica - incluindo esse humilde crítico que vos fala - e tudo muito merecidamente. Se você gosta de quadrinhos, vá em frente e leia. Se não conhece o meio, dê uma chance, pode quebrar alguns preconceitos.

Nota: 5/5  


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Mãe filha e a morte que não chega - Parte 1 (conto)



- Vamos lá, mãe, faz força se não eu não consigo – disse, segurando o braço dela com firmeza.
            Já não conseguia mais levantar sozinha desde o começo do ano. Todo o dia era a mesma coisa quando ela precisava sair do sofá ou da cama para ir ao banheiro ou para a mesa da cozinha – únicos trajetos que ela ainda percorria. Seu braço era tão frágil, só osso, e estalava sempre que eu o segurava. Emagrecera tanto de uns anos pra cá, mas também, ela só aguentava uma refeição por dia. Dormia às onze da noite e acordava só depois do sol se pôr. Pra mim, era um alívio. Sabia que era errado, mas não teria meios de cuidar dela e da casa. Além do mais, desse jeito, pra quê acordar?
            Fiz um pouco de carne e comprei pão pra acompanhar.
            - Quer que eu ponha a carne dentro do pão ou prefere comer os dois juntos? – perguntei depois de acomodá-la à mesa, mas ela não me ouviu, só ficou olhando pra minha cara com um meio sorriso no rosto. Falei um pouco mais alto, nada, então outra vez ainda mais alto.
            - Tanto faz. Como você achar melhor.
            - Não tem como eu achar melhor, é você quem vai comer, mãe.
            - Pode ser dentro.
            - O dente aguenta?
            - Acho que sim.
            Fiz do jeito que ela pediu, mesmo sabendo que ela não ia aguentar. Por que já não cortei a carne de uma vez? Essa é uma coisa que sempre fazia com ela, dar opções mesmo sabendo o resultado. Vendo em retrospecto parece um jogo sádico, mas não. Acho que estou acostumada ao tempo em que ela podia escolher e tinha todos os dentes na boca, todos ainda resistentes, e quando ela ainda andava sozinha, e respondia perguntas normalmente, pensando por si própria. Foi da noite para o dia. Ela era tão esperta, lúcida, rápida. Foi só completar oitenta anos, quando ela teve um enfisema pulmonar seguido de um princípio de infarto, que tudo mudou. O médico me disse, quando ela ainda estava entubada na UTI, que ela era um caso imprevisível, uma bomba-relógio, que podia viver mais uma semana ou mais seis meses. De seis meses não passaria. Eu fui vê-la, meu rosto estava inchado de tanto chorar prevendo a sua morte. Estava acordada, deitada na cama com uma expressão sofrida, abatida como eu nunca a tinha visto antes. Pediu à enfermeira papel e caneta, e nessa hora meu coração disparou. Jurava que seriam as suas últimas palavras que ela escreveria ali, já que o tubo enfiado pela garganta lhe impedia a fala. “Tá doendo, tem como tirar?”, o bilhete dizia. Era como se ela não soubesse o que lhe tinha passado, como se sua saúde estivesse perfeita e seu problema não fosse seus órgãos vitais em mal estado, mas o tubo que devia estar lhe arranhando por dentro. Se dava para tirar? Nenhuma noção, de fato, de que sem aquilo ela nem respiraria. Respondi que não, minha aflição já tinha passado. Por algum motivo, apesar do pessimismo do médico, tinha certeza de que ela não morreria naquele hospital. Se morreria em seis meses ou não, isso não tinha como medir naquela época. Uma coisa que eu sabia, enquanto ela tentava rasgar e puxar a carne e o pão, sem sucesso, apenas tirando o bife inteiro de dentro das fatias, deixando o pendurado na boca, lhe sujando todo o queixo até que seu único dente debaixo cedesse e largasse a carne insalivada sobre o prato – que ela já estava com noventa e cinco anos, e apesar de todo o sofrimento, nada nela dizia que estava perto da morte. Fui ao armário e lhe dei um garfo e faca. Ela esfregava uma folha de papel toalha na boca, deixando algumas migalhas espalhadas ao redor dos lábios, que eu limpei com outra folha de papel toalha, e ela protestou a minha intervenção desviando a cabeça e gemendo reclamações.
            - Tem que limpar, vai ficar com migalha na cara agora?
            - Devagar.
            Pensei em dizer que estava devagar, que fui cuidadosa, mas não importava mais. Os gemidos eram a parte mais dolorosa. Eram rítmicos, profundos, acompanhando a respiração. Soavam como um cansaço eterno, e me afligiam. A cada gemido dela eu sentia como se me roubassem o ar, eu sentia toda a exaustão junto comigo, era um peso que eu carregava nas costas o dia todo, sem trégua, nem quando ela dormia, nem quando eu estava longe, porque o som já estava gravado na minha mente e se repetia; se tornara parte da minha realidade, mesmo que ela morresse eu estava certa de que continuaria a ouvir seus gemidos até que eles se tornassem os meus próprios. Mas ela ainda tem uma vantagem. Estou aqui para dividir esse peso que ela carrega, para ajudá-la a se levantar. Eu não tenho mais ninguém e prefiro não pensar na minha velhice, que talvez já tenha chegado. As mãos dela tremiam de tanta força que ela tentava fazer para cortar a carne. Eu cortei o meu pedaço, que até então não tinha conseguido tocar, estava macio. Levantei da minha cadeira, peguei o garfo e faca das mãos dela e me pus a cortar por ela.
            - Não precisa. Eu tô fazendo.
            - Como não precisa? Daqui a pouco o prato cai da mesa e essa carne continua inteira.
            - Você implica comigo.
            Implico? Talvez, mas naquela hora eu não sabia. Nunca fui enfermeira, porra. Não sei cuidar de outras pessoas. A única coisa que eu queria era que por um instante ela reconhecesse que não a atirei em um asilo, embora pudesse, embora qualquer outra pessoa na minha condição já o teria feito. Esse poderá ser o meu destino, então por que não poderia ser o dela? Mas eu não conseguia nem imaginar uma coisa dessas. Dizem que os asilos não são mais como eram antes, que até são melhores para o idoso já que lá eles recebem assistência médica constante e, principalmente, profissional, e lá eles têm convívio com outros idosos, uma vida social, muito possível mais convivência social do que eu tive nesses últimos quinze anos. Só que não me desce. A imagem do velho esquálido, sempre aguardando uma visita como um cão abandonado esperando o retorno da família que nunca vem, solitário em um quarto pequeno a moda hospitalar, alimentado com todo o tipo de remédio e sedativos, maltratado por uma gangue de enfermeiros graduados em sadismo. Com certeza isso não é mais uma realidade tão comum – assim como tenho certeza que isso acontece em muitos lugares -, mas essa deve ser a impressão do abandonado.
            Agora ela conseguia comer, devagar, mastigando como se todo o movimento da mandíbula fosse um trabalho complexo. Hum...hum...hum, e agora os gemidos eram úmidos, e ela tossia enquanto mastigava fazendo voar migalhas para todos os lados. Não tinha mais estômago para comer com ela, mas seria muito humilhante simplesmente deixá-la lá solitária na cozinha. Botava comida no meu prato e enrolava, fingia lhe prestar atenção para não ter que comer enquanto ela mastigava com a boca aberta por não conseguir sustentar direito a parte inferior da mandíbula, e porque às vezes ela tinha que parar no meio da mastigação para respirar. Quando ela terminava e eu a levava para ver televisão na sala, minha comida já estava fria. Vez ou outra eu requentava, mas aquele foi um dia que eu não tive vontade nem de fazer isso e comi do jeito que estava.
            Todos os dias, após a refeição, eu lhe dava seus remédios. Até o momento eram nove pílulas, uma para cada coisa – pressão, intestino, rins, coração, então outra servia para controlar os efeitos colaterais de uma, e outra ainda controlava os efeitos colaterais dessa. Isso já era automático, ela nem perguntava nada. Servia-lhe um copo d’água, ela tomava de três a quatro pílulas de uma vez, sem reclamações.
            - Quer ir ao banheiro?
            - Agora não.
            - Tem certeza?
            - Não quero agora.
            - Tá, mas se sentir qualquer coisa avisa, se não é tarde demais.
            Liguei a televisão. Assistiria o jornal, a novela, e por volta das dez e meia pediria para ir se deitar, então dormiria até às seis da tarde do dia seguinte. Nesse meio tempo, ela iria me acordar pelo menos cinco vezes na madrugada para ir ao banheiro. O seu chamado era fantasmagórico. Repetia meu nome com voz arrastada, quase um choro, quantas vezes fosse necessário para me acordar, e eu pulava da cama toda vez, pensando que dessa vez seria algo grave, um infarto, um último suspiro. Não importa quantas vezes por noite, para mim é sempre o mesmo pavor, e eu prefiro não dormir a ser acordada por esses chamados.

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Agora que terminei meu livro - estou só dando um tempo pra começar as revisões -, quero me dedicar a alguns contos, já que deletei muitos da primeira fase - a fase obscura - do blog. Tenho vários contos não terminados aqui, mas esse eu pretendo terminar. Também pretendo terminar os que estou devendo aqui num futuro próximo.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Lolita - Vladimir Nabokov (1955)

Eu sei, feia pra cacete a foto. Mas não tenho câmera pra ficar tirando foto do meu livro e essa era a única disponível no Pai Google.
Resenhar clássicos é uma coisa que eu sempre quis evitar. Digamos que o motivo principal da resenha é a divulgação, e Nabokov, principalmente em se tratando de Lolita, não precisa ser divulgado. Quando a resenha não tem por objetivo divulgar, mas analisar - território que eu também já trafeguei com minhas resenhas -, sua obra também já foi dissecada por dezenas, centenas, de críticos, todos, possivelmente, muito mais competentes que eu. E isso não serve só para Lolita, mas qualquer outro clássico. Ainda assim, esse blog anda escasso de resenhas literárias justamente por causa dessa minha regra pessoal, então vou abrir uma exceção e escrever sobre Lolita. Mas que isso já sirva de aviso que a resenha se trata de uma breve opinião pessoal, um texto no mínimo vulgar - como diria o próprio Humbert Humbert -, feito sem pretensões analíticas e acadêmicas.

"Lolita, luz de minha vida, fogo de meus lombos. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO.LI.TA”. (O tão famoso e aclamado início.)

A começar pela sinopse - e gostaria de acrescentar ao leitor desse humilde blog que já estou cansado dessa estrutura de resenha: introdução/sinopse/x parágrafos de análise/veredicto; somente sigo com ele por não conhecer método melhor; por mim, largaria as resenhas, mas se o fizesse o blog morreria - talvez conhecida universalmente. Humbert Humbert é um russo de meia-idade, acadêmico, culto, poliglota, mas com uma fraqueza moral - as garotas que ele chama "nymphets" (ninfetas, apesar da minha edição não ter traduzido o termo). Há uma justificativa para esse desvio, quando ele próprio era um menino, se apaixonou por uma garota de 12 anos, mas ela morreu antes que o amor dos dois fosse efetivado (embora ele tenha chegado perto algumas vez). Essa frustração da infância é a causa da sua obsessão adulta, ele argumenta ao falar com o leitor como se falasse a um juiz. E desse ponto de partida, ele segue descrevendo sua história, seu primeiro casamento na Rússia, seus muitos problemas envolvendo psiquiatras, sua vinda aos EUA, seu encontro com Charlotte Haze, cuja filha, Dolores (Lô, Lola, Dolly, Lolita...), é o alvo principal da obra e a obsessão de Humbert. O resto do livro trata das tentativas de Humbert realizar seu romance com Lolita, mas pra saber o que se passa você vai ter que ler o livro.

“Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.” (O início em inglês, para referência.)

A primeira coisa que você precisa saber antes de atacar a leitura de Lolita é que Humbert Humbert é aquilo que chamamos de narrador não confiável, mais que isso, ele é o rei dos narradores não confiáveis. Ao longo da história, não só ele vai fazer uso de toda a espécie de artifício literário para desviar a cabeça do leitor do crime que ele descreve no livro (pedofilia, pra começar), ele vai tentar nos convencer de que suas atitudes não só não são tão graves, como também poderiam até ser vistas como corretas. E para isso ele vai lançar todo o tipo de referência acadêmica obscura, linguagem rebuscada e até mesmo vai mentir diretamente para o leitor, fazendo que, até o fim da obra, este não saiba exatamente no que acreditar. Puta merda, que livro bom.


"Em tardes particularmente tropicais, na pegajosa intimidade da sesta, eu gostava de sentir o frescor da poltrona de couro contra minha nudez maciça enquanto a tinha em meu colo. Lá ficava ela, como qualquer criança, a enfiar o dedo no nariz enquanto lia as seções menos exigentes do jornal, tão indiferente a meu êxtase como se estivesse sentada sobre um objeto qualquer – um sapato, uma boneca, o cabo de uma raquete de tênis – e fosse preguiçosa demais para afastá-lo".


Agora que o leitor dessa resenha não se intimide quando falo de linguagem rebuscada. Ela chega a ficar complicada em certos momentos, mas é proposital. O uso de termos e referências desconhecidas ou estrangeiras (ele, como professor de poesia francesa, usa termos franceses o tempo todo - muitas vezes não traduzidos na edição da Abril, de 1974) é propositalmente confuso, um jeito de diminuir a percepção do leitor e ao mesmo tempo encantá-lo, já que os termos não diminuem o tom poético da narrativa. Esse é o ponto forte de Lolita, o ritmo, o lirismo, a beleza da linguagem tão cuidadosamente esculpida por Nabokov. Lolita não é considerado um dos melhores livros da literatura sem motivo.

"Sou suficientemente orgulhoso de saber alguma coisa para ter a modéstia de admitir que não sei tudo".

É tão perfeito, que chega a ser frustrante. Essa foi a impressão que ele causou entre os críticos da época - quer dizer, depois de todo o choque causado pela pedofilia. Era sem precedentes um russo expatriado que escrevesse tão bem em segunda língua, sem pegar emprestado do estilo de nenhum outro autor escrevendo na época. O único termo para definir Nabokov é gênio, e eu quase decidi aposentar essa minha ideia de escrever ficção ao terminar de ler esse livro - só não aposentei porque sou muito cara de pau.

"Teve, acaso, uma precursora? Sim, teve-a, de fato. Na verdade, bem poderia não ter havido Lolita alguma, não houvesse eu amado, num certo verão, uma certa garotinha inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Cerca de tantos anos antes de Lolita ter nascido quantos contava eu naquele verão? Pode-se sempre esperar, de um criminoso, uma prosa de estilo extravagante".

Uma coisa eu tenho que acrescentar de negativo. A minha edição é da Abril, lançada em 1974. A tradução a cargo de Brenno Silveira é excelente. Verdade que ele mantém diversos termos em inglês, julgando que o leitor os reconheceria, e não traduz nem em nota de rodapé os termos franceses - caso você não tenha nenhum conhecimento de inglês ou de francês e tenha essa edição para ler (uma edição comum em sebos e barata, por isso indico), leia com o google tradutor disponível. O maior defeito dessa edição são os erros de revisão, muitas letras trocadas, deixando claro que o revisor dormiu no trabalho. Não sei se isso é coisa da época, se os editores brasileiros eram mais relaxados na década de 70, mas fica feio um livro tão cuidadoso ao mesmo tempo tão errado. Lógico que isso não vai prejudicar a nota, mas tenham ciência disso caso peguem essa edição (que, repito, apesar dos erros, é recomendável pela precisão e fluidez). Se você sabe inglês, leia o original - é o que eu pretendo fazer no futuro próximo.

Nota: 5/5

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Poemas 55, 56 e 57

55

a cultura brasileira
é a estética do sofrimento.

56

tenho uma sede insaciável pelos rios que correm por entre vales de suas pernas,
me banharei nessa obsessão saudável em planos imaginários de anos,
quero ouvir seus sons de natureza,
selvageria minha talvez, tanto melhor que seja.
que nossos rugidos façam inveja aos leões,
daí então jorrarei minha libido sofrida da espera
pelos mistérios do seu ser.

57

Arte não é moça virgem
de ser cortejada com presentes
e flores e joalheria fina,
não é cortesã de ir com qualquer um
que a pega na esquina
e lhe balança na cara carteira,
a Arte é uma canalha, mas das grandes,
a Arte é amante livre, inteira
ingrata, libertina, musa,
divina à heroína
que te vicia e te usa sem satisfazer
nunca,
mas que após o primeiro toque
ninguém a de largar.

domingo, 13 de julho de 2014

Ghost Dog: The Way of the Samurai [Ghost Dog] - Jim Jarmusch (1999)


Mais uma aparição do Jim Jarmusch por aqui. Ele está se tornando um dos meus cineastas favoritos. Não digo no que se refere à importância dele para o cinema, mas pelo meu gosto pessoal. E é claro que ele tem sua importância, afinal não dá pra falar da cena independente do cinema americano sem falar do Jarmusch, que foi um dos primeiros a buscar fontes alternativas de financiamento (incluindo o próprio bolso), tudo em busca de manter ao máximo o controle criativo. Tendo visto cinco dos filmes dele, seu estilo está ficando mais claro para mim, principalmente as brincadeiras com os gêneros dos filmes - nesse caso, filmes de assassinos de aluguel/artes marciais.


Tantos anos atrás, um mafioso chamado Louie (John Tormey), salva um jovem negro de um espancamento em um beco de Nova York. Os anos passam, o jovem se tornou um assassino de aluguel indetectável, que atende pelo nome Ghost Dog (Forest Whitaker). Depois de cumprir um serviço para Louie, Ghost Dog se vê perseguido pela máfia intimidada de italianos de Nova York, que desejam queimar os arquivos do assassinato - incluindo o assassino.


Acontece que o enredo desse filme não significa nada. Pois é, os assassinatos, a caça humana, os tiroteios, nada disso é foco no filme, e as cenas de ação que de fato ocorrem vez ou outra são quase que por esbarrão. Um modo do diretor dizer, vocês querem ação, então toma aí um pouco, agora deixem eu voltar pro meu filme. O que realmente interessa é o conceito de câmbio cultural, conceito esse presente em todos os filmes de Jim Jarmusch, e cada vez mais claro nos mais recentes.


Ghost Dog é um estudioso do Hagakure (livro sobre Bushido escrito no século XVIII, época em que o papel do samurai estava em decadência), portanto as cenas são divididas com citações desse livro. Eis o primeiro símbolo de câmbio cultural - um americano do século XX se dedicando ao estudo de uma filosofia e código de honra japoneses, do século XVIII. Após o primeiro assassinato, a filha do chefão da máfia, Louise Vargo (Tricia Vessey), entrega uma cópia de Rashomon (conto clássico da literatura japonesa, formado de vários pontos de vista diferentes sobre um mesmo caso). Esse talvez seja o maior dos símbolos, pois o livro, após ser lido, é passado para uma menina que Ghost Dog conhece na praça, e que com ele desenvolve uma amizade - câmbio cultural, não só entre países, mas entre pessoas.


Então existe o câmbio cultural apenas entre as personagens. Ghost Dog, americano, é contratado pela máfia italiana presente em Nova York - máfia essa em decadência, mais ou menos como o samurai na época do Hagakure. Esses italianos tem dificuldades pra entender a diversidade cultural de Nova York, dando sinais de racismo em algumas cenas. O melhor amigo de Ghost Dog - que tem amigos, apesar da vida reclusa - é um francês, Raymond (Issach de Bankolé), provavelmente - pelo sotaque -, filho de imigrantes africanos. Raymond não fala inglês, Ghost Dog não fala francês; eles não exatamente se entendem - os diálogos dos dois são intencionalmente cômicos -, ainda assim existe uma compreensão além da linguagem.


Aí seguimos para o câmbio cultural entre o filme e o espectador. Muitas das cenas de Ghost Dog foram inspiradas pelo filme Le Samouraï (já resenhado aqui), dirigido por Jean-Pierre Melville, no fim da década de 60. Um dos assassinatos é uma referência direta ao filme A Marca do Assassino (1967), de Seijun Suziki. Esse filme foi o primeiro a contar com uma trilha sonora feita por um rapper (RZA, do Wu-Tang Clan), em ritmo de rap. Até mesmo autorreferência, ao mostrar Nobody, personagem indígena de outro filme do Jarmusch, Homem Morto (1995), recitando sua famosa frase: "Stupid fucking white man." E inúmeras outras mais sutis.


Enfim, o que eu quero dizer com tudo isso, é que existe um enredo em Ghost Dog, e a forma que ele é executado é muito interessante e divertida. Mas é apenas 15% do filme. A intenção de Jarmusch provavelmente foi mostrar as diversas trocas culturais pelas quais nós humanos passamos durante nossas interações. O filme em si é uma grande troca cultural, o jeito que o diretor descobriu de entreter o espectador e ao mesmo tempo o deixar interessado por literatura clássica e cinema japonês, filmes franceses, rap, e tantas outras coisas. Que fique bem claro, sem deixar que o filme se torne uma sequência de referências gratuitas, porque não é. Agora vocês não querem, obviamente, que eu faça um texto inteiro recontando o filme. Assistam, só isso, não só esse filme, mas às referências também. Esse blog, afinal, também não passa de um grande meio de intercâmbio cultural.

Nota: 4/5


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Copa do Mundo: um parecer de ignorante



Em um bar de Itajaí, no dia oito de julho de dois mil e quatorze, assisti ao jogo Brasil e Alemanha, nas semifinais da Copa do Mundo. Ato banal, mas como disse um cidadão que também estava no mesmo bar na mesma hora, histórico. Não pela suposta humilhação, isso é bobagem de gente exagerada com muito tempo livre e vontade de reclamar. Não houve humilhação, futebol é um jogo, entretenimento, não guerra. E foi isso que houve naquele fim de tarde, entretenimento. Com toda segurança, independente dos resultados, posso dizer que essa tão maldita Copa foi uma das melhores da história. Cheia de resultados absurdos para os especialistas, não deixand de surpreender em momento algum, o que fez até que eu, que não ligo pra futebol, parasse pra assistir aos jogos - isso é bom entretenimento. E o leitor vai ter que permitir que eu ignore o lado político e social dessa questão. Partindo do momento em que foi decidido que o Brasil sediaria a Copa, nada mais poderia ser feito - aquela velha história do "se o estupro é inevitável, relaxa" (estupro esse que custou, supostamente, 34 bilhões - e nenhum juiz foi comprado com esse dinheiro, porra Dilma!).

Uma dupla de jornalistas também estavam no bar, fazendo um jornalismo um tanto duvidoso. Queriam porque queriam dar a impressão de que aquele era um ambiente típico alemão, muito embora nenhum dos donos fosse alemão, as cervejas fossem de todos os países e ninguém lá - com exceção de um cara meio revoltado político - estava torcendo pra Alemanha. Ela ainda disse pro dono, enquanto eles discutiam o tom da matéria, que a ideia era dar a impressão de "estar torcendo pro Brasil em território inimigo". O mais próximo que se tinha de estrangeiro lá era um trio de espanhóis, mas mesmo eles torciam pro Brasil. Não sei também se foi uma questão de patriotismo, mas eu não vi uma cerveja alemã na prateleira, e o chope era brasileiro - Itajaí, o nome da marca, chope local, e de alta qualidade também, posso apontar. Minhas escolhas de cerveja pro jogo foram patriotas, pelo menos. Comecei com o chope Itajaí estilo APA, segui para uma cerveja escura estilo Porter da Ways (rótulo brasileiro, apesar do nome), fraquejei com uma belga no meio do caminho - a essa altura o Brasil já tinha levado quatro gols e eu queria algo mais forte -, aí fechei com chave de ouro com uma outra brasileira, dessa vez da Wäls, Russian Imperial Stout, escura como a substância que lhe dá nome - Petroleum.

Por que me distraio falando de cervejas? Porque a essa altura já não há mais o que dizer do jogo. Tinha acabado antes de começar. Ainda no escritório, no fim do expediente, conversamos um pouco sobre o que poderia ser o jogo. Minha impressão de ignorante, baseada no jogo contra o Chile, foi: se o Brasil levar o primeiro gol, eles perdem o controle. Dito e feito, lá estavam os onze jogadores brasileiros feito formigas sob a lupa. A Alemanha, depois do segundo gol, já não jogava, brincava. Escolhiam qual seria o próximo jogador a marcar gol - e marcavam quase sem querer. As jornalistas fotografavam cenas ensaiadas de decepção com um casal na mesa a minha frente, tomei um gole extra longo da cerveja para cobrir meu rosto no fundo com o copo. A decepção logo virou cinismo quando nós todos no bar começamos a rir da performance patética, conversar uns com os outros mesmo que ninguém se conhecesse. Comentávamos os problemas do país, um ou dois temiam que a derrota pudesse trazer violência - o que não aconteceu ainda, mas estou esperando. Em meio as conversas e cervejas, a seleção pouco importava na verdade.

Havíamos encarado que o time não estava bom desde o começo, que um resultado desses contra a Alemanha, embora surpreendente pelas proporções, não é tão absurdo. Considerando os adversários passados do Brasil nessa Copa - Croácia, Camarões, México, Chile e Colômbia -, a Alemanha foi o primeiro time tradicionalmente forte enfrentado. Longe de mim querer dar uma de profeta do que já passou. Imaginava a derrota do Brasil, mas nunca por sete a um. O que quero dizer é que, essa Copa, o Brasil não merecia ganhar. E os próprios jogadores sabiam, tanto que não tinha um jogo mais difícil que eles não perdessem a cabeça ou caíssem chorando e rezando pra todos os deuses depois da vitória. Dessa vez a sorte acabou, perderam e perderam bonito. Mas não foi qualquer derrota, foi a maior derrota da história das Copas, feito que por si só já é grandioso. E eu vi esse jogo e vou me lembrar dele sempre que for época de Copa. Contarei desse jogo, do bar, da cerveja, da época, pros meus netos - se nossa civilização perdurar até o nascimento dos meus netos. O que aconteceu ontem não foi humilhação, foi história.

Chorando ou não, os jogadores sabem que aquilo pouco importa. A admiração de milhares de brasileiros, que importa? Depois do jogo pelo terceiro lugar, cada um voltará pro seu respectivo emprego milionário, talvez com direito a aumento. Minha vontade é exigir que o Neymar seja transferido pro SUS - Copa não se faz com hospitais, afinal -, mas isso não vai acontecer. A torcida chorou também, vaiou, depois torceu pra Alemanha, e hoje estão todos trabalhando, seguindo com a vida. É um jogo, afinal de contas. É bom que o povo brasileiro aprenda isso. Mas o nosso povo "não desiste nunca", insiste no erro até a morte. 

Que ao menos a Holanda trate a Argentina da mesma forma hoje. Aí, pelo menos, ainda teremos um Brasil e Argentina pra esquentar o sangue. E a final, ora, foda-se, provavelmente será um bom jogo.  

terça-feira, 1 de julho de 2014

poemas: 53, 54


53

eu e a musa
dançando sobre a lua de holofote,
e eu me iludindo a perceber
sinais de afeto no olhar dela.


54

algumas cervejas depois
em um encontro de motoqueiros,
voltamos para casa andando lado a lado
como duas sombras na rua
pelas nuas calçadas de uma noite de quinta.
trocamos experiências e vontades drogadas
- suas memórias de extasy,
minhas curiosidades enteogênicas, psicodélicas -,
agendamos viagens imaginárias
e recitamos nostalgias recentes de saudade,
ela queria dançar embriagada pelos bares de Dublin,
ela queria fumar maconha em Amsterdam,
ela queria ver os cantos pobres do México.
eu queria estar com ela.
vamos, então, eu disse,
pegar uma passagem só de ida.
eu escrevo e recito poemas malfeitos,
você canta e traduz a letra da canção em libras, ao mesmo tempo,
a uma multidão passante de nativos confusos para
ganharmos alguns trocados,
viveremos em pousadas baratas,
trabalhando em troca de comida e teto.
mochileiros fazem muito mais com muito menos.
que loucura, ela diz, e ri de si mesma e ri de mim,
e uma mulher do outro lado da rua nos pede um isqueiro,
então nos xinga antes de ouvir a resposta.
e rimos juntos.
eu amo essas coisas loucas que acontecem
quando saímos da rotina, ela diz.