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domingo, 22 de junho de 2014

Indicando Discos #1


Discorri anteriormente por aqui a minha preferência por ouvir álbuns completos ao invés de músicas individuais - que é o que se tornou comum desde o mp3. Não tenho a mesma mania de objeto que tenho com a literatura pela música. Praticamente não tenho CDs, todas as minhas músicas estão em versão digital, apesar de eu ser consciente da qualidade inferior e ter vontade de comprar uma vitrola, enquanto para leitura eu preciso do livro físico - não caí na história do e-book.

Acontece que toda essa história de digital contra físico não é o motivo de eu estar escrevendo aqui hoje. Só vim pra indicar alguns álbuns que eu gosto bastante. Não é uma resenha, não é uma lista de favoritos. São músicos que talvez você não conheça e seriam interessantes de conhecer, não só por uma música, mas também pelo disco completo. Meu único critério é evitar clássicos, coisas que muito provavelmente vocês já conheçam - ou não conheçam, mas gosto de superestimar meus leitores.

1 - Grace Potter & The Nocturnals - Nothing But Water



Eu falei coisas ruins - muito ruins - do disco mais recente da Grace Potter. Não mudaria uma palavra, aquele disco foi uma bosta. Mas não muda o fato de que ela é uma das melhores artistas contemporâneas, e o som meio blues meio soul meio folk de Nothing But Water é a prova disso. Ah, e ela tem as melhores pernas de toda a indústria da música.

2 - North Mississippi Allstars






North Mississippi Allstars pega o tradicional blues do Mississippi e faz uma misturada com rock, funk, soul e uma pitada saudável de rap. Uma banda infelizmente ainda desconhecida dos anos '00.

3 - Tom Waits - Rain Dogs


Finalmente encontrei um disco completo no Youtube. Tem um pouco de tudo em Tom Waits, e Rain Dogs é uma amostra disso. Não tenho muito o que falar. Não dá pra engessar Tom Waits em gêneros, é apenas a música dele. Tem gente que gosta, tem gente que tem medo. Eu gosto com um pouco de medo.

4 - Jozef van Wissem & Jim Jarmusch - The Mistery of Heaven




O alaudista Jozef van Wissem em parceria com o diretor e guitarrista nas horas vagas, Jim Jarmusch, um disco atmosférico, minimalista, e bem diferente de tudo. Depois de ouvir por tempo suficiente, gostei dos sons. É um ótimo disco de fundo, sabem? A música em si é bem interessante. Não é todo dia que um alaúde é utilizado hoje em dia.

Essas são minhas sugestões. Como vocês já deviam saber, uma indicação minha é praticamente uma garantia de qualidade, então aproveitem. A ideia era colocar o disco todo aqui, mas o youtube me fez essa sacanagem de não ter todos eles disponíveis. De qualquer forma, estamos na internet, todos eles são bem fáceis de achar.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Estrangeiro - o livro de Albert Camus e o filme de Luchino Visconti


O Estrangeiro, de 1942, é um dos meus livros favoritos. Li faz alguns anos, antes da criação do blog, e por isso nunca escrevi uma resenha ou falei qualquer coisa sobre ele. Principalmente porque é um livro conceitual bastante complexo. O enredo é o que menos importa, são as teorias filosóficas que Albert Camus insere no contexto desse enredo que realmente interessam. Não significa que a história seja fraca. Não é, e a prosa febril e precisa de Camus insere o leitor por completo na mente conturbada de Mersault. Quando fiquei sabendo que o grande diretor italiano, Luchino Visconti, havia adaptado esse livro em filme em 1967, precisei ver o resultado. Até porque ele é estrelado por Marcelo Mastroianni (lenda do cinema italiano devido aos seus trabalhos com Fellini) e, talvez minha atriz favorita, já no Hall da Fama de menções do Delirium Scribens, pela qual eu carrego uma tara de longa data, Anna Karina.


Primeiro uma breve sinopse. A mãe de Mersault (Marcelo Mastroianni), um pied-noir (literalmente, pé preto, francês que vive na Argélia dos tempos de colônia), morreu. Ela já vivia na casa de repouso há alguns anos, cada vez mais eles se afastavam, Mersault não tinha condições de mantê-la em sua casa com todos os cuidados que sua idade exigia, ela também se sentia muito solitária em casa o tempo todo; aquela foi a decisão acertada para os dois, ele acreditava. Justificativas insuficientes para os supervisores da casa, que desde início se mostravam suspeitos de Mersault, por não chorar e fumar perante o caixão.


"Antes de deixar o escritório para almoçar, lavei as mãos. Ao meio-dia, isso me dá prazer. À tarde, nem tanto, porque a toalha que usamos está toda molhada: serviu durante todo o dia. Certa vez, fiz uma observação a esse respeito ao patrão. Respondeu-me que achava isto lamentável, mas que se tratava, ainda assim, de um detalhe sem importância." (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)


Nem vinte e quatro horas depois do enterro, ele já reencontra uma antiga companheira de trabalho, Marie (Anna Karina) e ele logo a apresenta a sua baguete. Ele tenta ajudar um amigo que se meteu em encrenca após agredir a esposa, o que os coloca na mira de uns árabes. Merda acontece, e agora você vai ler o livro ou ver o filme. Sugiro que leia o livro, logo explico meus motivos.


Comecemos pelos conceitos, já que eles são pelo menos oitenta porcento do livro. A principal característica da filosofia de Camus é que a existência humana é um absurdo. Que, de fato, após a morte de Deus (que ele assume morto, mas na verdade quer dizer que, tanto vivo quanto morto, não faz diferença), a vida não tem um sentido objetivo. As coisas apenas são e, portanto, decisões não importam. Mersault, sendo assim, é indiferente ao longo do filme. Seu chefe lhe oferece uma oportunidade de emprego em Paris, ele diz que não é importante. Sua namorada pergunta se ele vai casar com ela, ele diz que pode ser, mas não importa. Sua mãe morre, ele não consegue se abalar emocionalmente, afinal ninguém vive para sempre mesmo.

"Quando nos vestimos na praia, Marie olhava-me com olhos brilhantes. Beijei-a. A partir desse momento, não falamos mais. Apertei-a contra mim, e tivemos pressa de encontrar um ônibus, de voltar, de ir para a minha casa e de nos atirarmos na minha cama. Tinha deixado a janela aberta, e era bom sentir a noite de verão escorrer por nossos corpos bronzeados." (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

A sociedade, por outro lado, não funciona dessa maneira. Independentemente das coisas fazerem sentido ou não, seres humanos têm dificuldade em encarar o absurdo, inventando razões que justifiquem suas próprias existências (seja Deus, fama, poder, dinheiro, entretenimento etc.). Quando um homem como Mersault aparece, vê as coisas como elas são e decide viver cara-a-cara com o absurdo, ele se torna um estrangeiro. A palavra não vem no seu sentido pátrio, mas social. Claramente, Mersault sofre as consequências de uma vida de estrangeiro.


Deixando claro que o absurdo não significa que a vida não vale a pena ser vivida. Isso não é bem discutido em O Estrangeiro, e sim no ensaio O Mito de Sísifo, no qual Camus já começa dizendo que o maior problema filosófico da humanidade é o suicídio. Mais tarde é feita uma analogia entre a punição de Sísifo e a existência humana, sendo a rebelião a melhor resposta - viver de qualquer forma, e, principalmente, viver em liberdade. Mais ou menos isso, não sou acadêmico de filosofia, nem especialista em Camus. Se você realmente tem interesse nesses conceitos, sugiro que leia os livros e busque alguns documentários interessantes no Youtube, eles podem te explicar bem melhor que eu.

"Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz." (Trecho de O Mito de Sísifo.)

Essa é a principal qualidade do livro e o que faz com que valha a pena lê-lo. A capacidade de Camus de inserir na cabeça do leitor todos esses conceitos e questionamentos em uma prosa literária de altíssima qualidade, leve e clara. Por ser considerado um clássico, só o nome do livro pode intimidar alguns leitores, mas eu digo que isso é bobagem, qualquer pessoa com alguma bagagem literária pode ler e entender, não só O Estrangeiro, como a maior parte da obra de Camus.


Agora ao filme. Existem várias formas de se adaptar um livro para o cinema. Uma delas é quando um diretor realmente gosta de um livro e tenta ser fiel a ele, mas devido às diferenças de formato entre as artes, é obrigado a fazer algumas edições, arrancar cenas, acrescentar outras, para que tudo faça sentido em apenas noventa ou cento e vinte minutos; essa é a mais popular. A que eu mais gosto é quando um diretor pega uma obra e, ao invés de fazê-la em filme, faz uma obra diferente, interpretando o livro e acrescentando a voz própria do diretor. Nesse caso, o filme vira uma história sobre a relação de um leitor com o livro adaptado, o que é sempre interessante. São raros esses casos, Godard fez isso no começo da carreira, por exemplo. Então vem o mais arriscado, o caso desse filme, que tenta encenar o livro, cena por cena, em filme. O risco fica na extensão que o filme pode tomar (O Estrangeiro não teve esse problema, já que o livro tem oitenta e poucas páginas) e na possibilidade de se questionar qual a necessidade do filme, afinal, se ele não traz nada de novo, por que fazer? Existe mais um caso, mas esse é desprezível e, infelizmente, muito comum. São os filmes sobre livros de alta popularidade, feitos por grandes produtoras, com orçamentos milionários. Filmes em que não se há interesse na obra adaptada, apenas interesse no lucro que ele pode trazer. Nem vale a pena falar desses casos.

"Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldades passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isto era uma vantagem." (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

O Estrangeiro, de Luchino Visconti, tem apenas um momento diferente do livro, o começo. A primeira cena busca puxar o interesse do espectador mostrando Mersault sendo levado até a delegacia, algemado - uma cena da segunda metade do livro. Só depois disso é que acompanhamos o enterro e todas as outras cenas. Os diálogos são muito parecidos com o livro e, assim como nele, quase ausentes. Em algumas cenas, até existe narração igual a do livro. Em muitos momentos, me questionei da necessidade daquilo. Eu já havia lido o livro afinal.


Certamente, é bem atuado, o que já vale alguma atenção. Um problema que eu vi foi que o filme é restaurado. Supostamente, a família Camus foi contrária ao filme, dizendo que não interpretava bem a obra de origem (não entendi porque, visto que são exatamente iguais, mas...), o que dificultou a sobrevivência do filme com o passar do tempo. Isso prejudicou muito a qualidade de som, o que é muito ruim, considerando que a trilha sonora original tem momentos risíveis de inadequação, transformando uma obra atmosférica em um suspense barato.

"Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo." (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

Não ajuda também que Anna Karina tenha, provavelmente, sido dublada. Fiz uma pesquisa para ver se a informação procedia, não encontrei nada. Encontrei que Anna, dinamarquesa de nascença, mas que passou boa parte da vida na França, é também fluente em italiano, o que vai contra o meu argumento. Mas a voz dela nesse filme esta completamente fora de entonação (o tom e a expressão facial dela não faziam sentido), e ela falava muito rápido, quase de maneira apressada. Talvez tenha sido durante a restauração. De qualquer forma, é uma pena. A voz dela distrai muito durante o filme, e não é uma distração positiva.


Em geral, o trabalho é muito bem filmado. A atuação compensa os problemas de percurso e danos causados pela idade do filme e a história em si é muito interessante e fielmente recontada. Indico àqueles que não leram o livro, porém a esses indico mais a leitura. Se você leu o livro e, assim como eu, gosta, vale a pena dar uma olhada. Não se trata de uma das pérolas do cinema clássico, mas não é nenhum desastre. O livro, contudo, é de fato um clássico insubstituível, tanto da literatura, quanto da filosofia.

Notas:
Livro - 5/5
Filme - 3,5/5

sábado, 14 de junho de 2014

Like Someone In Love (Um Alguém Apaixonado) - Abbas Kiarostami [2012]


O título do filme é em inglês, ele foi filmado em Tóquio, os atores são japoneses e falam japonês durante o filme, a produção é francesa e o diretor é iraniano. Antes mesmo de assisti-lo, já tinha sido levado pelo filme só por causa dessa variedade de nacionalidades entre as partes envolvidas para sua criação. Essas mesclas culturais são sempre interessantes. E tem mais, vocês já ouviram algum metido a intelectual dizer por aí que só assiste filmes iranianos como se isso fosse um certificado de cultura? Então, é por causa do Kiarostami. Foi ele que, mais ou menos, botou o Irã no mapa do cinema, começando na década de 70. Por isso eu digo, não se deixem intimidar pelo metido, cinema iraniano é bom mesmo.


Akiko (Rin Takanashi, que, de acordo com IMDB, fez um papel em uma das várias temporadas de Super Sentai, a versão original do que aqui no ocidente é chamado de Power Rangers. Chupa essa, intelectual que não aceita quando a cultura pop encosta na sua sobrancelha elevada, Kiarostami agora tem uma ligação direta com Power Rangers) é prostituta. O cafetão dela, que tem como base um bar,  quer que ela, especificamente ela, atenda um senhor, cliente muito especial para ele. Não explica os motivos, mas diz que, quando ela o ver, entenderá. Ela se recusa, disse que a avó estava em Tóquio para a visitar e ela tinha que ver a velha àquela noite porque, sabe como é, vai saber quanto tempo ela ainda tem. O cafetão insistiu, ela continuou recusando, ele pediu para que ela pensasse no assunto. No táxi, indo até o ponto em que sua vó a estava esperando, ouviu novamente a mensagem que a senhora a tinha deixado no celular. Ela dizia ter visto a foto de uma garota em um panfleto, muito parecida com Akiko, mas que com certeza não se tratava dela. Envergonhada, Akiko prefere seguir à casa de seu cliente que rever a avó. O senhor (Tadashi Okuno, que pra minha surpresa não trabalhou em quase nada além disso) é um velho tradutor, escritor e professor de sociologia (matéria que Akiko estuda na faculdade). Não quer sexo, até porque, como dizia o Sílvio Santos, a pipa do vovô não sobe mais, a pipa do vovô não sobe mais, apesar de fazer muita força, o vovô foi passado pra trás (ele tentou dar uma empinadinha, a pipa não deu nem uma subidinha - tá bom, chega). Ele só quer companhia, uma conversa, um jantar.


No dia seguinte, o velho leva a moça à faculdade e descobre que o namorado dela (Ryô Kase, de Cartas Para Iwo Jima) é ciumento e agressivo. Ele para Akiko na porta da escola e faz uma cena. Vai até o carro do velho e imagina que ele é vô de Akiko, não cliente, e o velho segue com o jogo para proteger o segredo da garota. Mas nem tudo é perfeito nessa vida, então agora vocês que vejam o filme.


É impressionante como, em uma hora e quarenta de filme, quase nada acontece. Todo o enredo se passa em dois dias. Ainda, o ritmo não é arrastado, como às vezes é de se esperar nesse tipo de filme. Em determinado momento, fui ver quanto tempo tinha passado, crente de que não tinha chegado à primeira hora do filme, e já estava nos quinze minutos finais. Isso porque o nada que acontece não é chato. Os detalhes presentes na filmagem do Kiarostami são fascinantes para os olhos. Desde a primeira cena, em que Akiko tenta despistar o namorado por telefone, dizendo estar em uma cafeteria quando na verdade ela está a espera do cafetão - trocadilho intencional e autoral, não precisa agradecer Kiarostami - em seu bar, ela não  esta visível para o espectador que só ouve a sua voz e não sabe dizer quem ela é ou qual a importância do personagem ainda. Ao invés disso, o espectador é imerso naquele vai-e-vem do bar, naquilo que Akiko está vendo.


O filme inteiro é silêncioso - sem música, com exceção da cena em que o velho encontra Akiko e ele bota "Like Someone In Love" pra tocar na vitrola -, tem uma atmosfera tensa - no sentido de que o espectador é levado a acreditar que algo errado vai acontecer a qualquer momento -, mas ao mesmo tempo de rara harmonia. É um filme muito japonês. A simplicidade do enredo e o foco nas imagens e cores das paisagens remeteram, na minha visão, os haicais - e a conexão entre a poesia e os filmes do Kiarostami já são bem conhecidas pelo público. Uma cena, por exemplo, mostra a cidade vista pelo reflexo no para-brisa do carro do velho, então, aos poucos, a imagem real da cidade se apresenta. O enredo em si, também tem um tom nipônico, visto que ele, quase acidentalmente - já que isso nunca é mencionado, sou eu que estou interpretando agora -, trata de gerações. Do contraste entre o velho - pacífico, acadêmico, sábio - e o namorado de Akiko - agressivo, rejeitou os estudos desde cedo, impulsivo, apesar de ter um lado bem intencionado. Vale apontar que a cultura japonesa é conhecida por valorizar conhecimento e autocontrole.


Um Alguém Apaixonado é um daqueles filmes que parecem ter mais conteúdo fora do seu enredo do que dentro. É possível perceber um pouco da invasão ocidental no oriente, a questão já apresentada das gerações, uma discussão muito interessante sobre a questão do compromisso e do que é amor. Nós nunca sabemos nada dos personagens fora do que eles são no momento em que o filme acontece. Por que Akiko, que parece ser uma jovem tão normal, se prostitui? Por que ela mantém o relacionamento com o cara agressivo? Por que o cara continua com Akiko se ela só lhe causa preocupação e sofrimento? Qual a história daquele senhor? Não espere resposta pra nenhuma dessas perguntas. Até porque não interessa. É só uma história afinal, simples, breve, mas muito bem contada, como um conto de Raymond Carver (nada a ver com o filme, só me veio na cabeça). Eu gostei e quero conhecer mais do Abbas Kiarostami.  

Nota: 4/5




terça-feira, 10 de junho de 2014

poemas: 51 e 52

51

não me venham com papo de sociedade,
eu não a quero.
não quero suas exigências doentias,
seus maus hábitos
e códigos de conduta aos grilhões.
farei minhas regras,
muito obrigado.
quero viver por fora,
longe das escolhas de lados e políticas labirínticas.
evocarei os bons e velhos hedonistas
para minha constituição particular,
com convites dedicados aos que entendem,
entendem do prazer e
da poesia e da arte e do vinho,
da liberdade.

52

com seu ego etílico inflado
e armado com caneta e
pensamentos depravados
ele compartilha suas indiscriminadas
depressões e desesperos

Obs.: Falei no caralivro, no último post de poesia, que ia parar de inventar títulos e passar a numerar tudo. Tá aí. O blog tinha 50 poemas postados (margem de erro de 3 para mais ou para menos). Significa que eu postei 50 poemas aqui? Não. Devo ter publicado uns 100, metade foram pro limbo de onde eles nunca deveriam ter saído.

sábado, 7 de junho de 2014

Bored To Death (2009-2011) - Resenha de uma série cancelada e subestimada


Momento raro aqui no Delirium Scribens, eu indicando uma série. A cada tantos meses eu toco nesse assunto, falo um pouco das que eu assisto, mas sempre de modo geral e sem muita análise. Dessa vez farei uma resenha específica sobre a já cancelada Bored to Death. Mas Raphael, se já foi cancelada, a série é boa mesmo? É. Se você visita esse blog a tempo o suficiente, já deveria saber que uma indicação minha é praticamente uma garantia, então relaxe, leia o texto e depois procure pelo menos os primeiros episódios só pra verificar o quanto eu estou certo (2 anos de existência, é hora de dar férias à humildade nesse blog; 90% da credibilidade vem da falsa-autoridade, então vamos lá).


A história de Bored to Death gira em torno do escritor Jonathan Ames (Jason Schwartzman). Ele tem trinta anos, publicou seu primeiro romance "hard-boiled" considerado razoável pela crítica, sua namorada acaba de o abandonar (o piloto começa com ela de mudança) porque ele bebe demais e fuma muita maconha (embora ele esteja tentando diminuir seu consumo, restringindo o álcool apenas ao vinho branco). Sozinho e com bloqueio criativo para o seu segundo romance, ele coloca um anúncio na internet oferecendo seus serviços como detetive particular - ele não é licenciado, por isso faz um preço acessível. Além disso, ele tem que considerar os problemas pessoais do seu amigo cartunista, Ray Hueston (Zach Galifianakis), que vive as custas da namorada (outro relacionamento instável), Leah (Heather Burns), enquanto seu quadrinho, Super Ray (um super herói que tem como poder sua rola gigante), não consegue publicação, e George Christopher (Ted Danson), editor e colunista de uma revista em decadência, maconheiro nas horas vagas, autoproclamado como "sexualmente descontrolado desde a década de 60", e que oferece uns bicos de jornalista e uma figura paterna a Jonathan.

Participação do diretor Jim Jarmusch.
Foi um escritor chamado Jonathan Ames quem criou e escreveu os roteiros dessa série, mas eu não sei até que ponto ela é autobiográfica. Como escritor, Jonathan Ames publicou alguns livros de mistério e outros tantos de memórias e crônicas humorísticas - nada que eu tenha lido para opinar contra ou a favor. Mas isso não importa, o que mais me chamou atenção na série foi a criatividade do enredo em geral e o desenvolvimento psicológico de cada personagem.


A personalidade de Jonathan é ironicamente oposta a dos típicos detetives dos livros Hard-Boiled (Raymond Chandler, Dashiell Hemmett, por exemplo, frequentemente citados na série). Ele é inseguro, fisicamente fraco, frequentemente chapado, cheio de problemas emocionais à Woody Allen (o personagem, em geral, lembra bem os personagens do Woody Allen, agora que eu parei pra pensar). Mesmo assim ele aceita os casos que ele passa a receber e, como uma pessoa normal, sofre para resolvê-los. No começo coisas corriqueiras, como uma bêbada que quer saber se o namorado a está traindo, até coisas mais complicadas, como um russo ex-presidiário que quer reencontrar uma mulher que ele amava, mas é envolvida com a máfia. Falando assim, nem parece engraçado, mas é aí que está o humor dessa série. A comédia é sempre muito discreta e tão inserida no roteiro que espectador quase não percebe que "aquilo é engraçado". Raramente você vai morrer de rir com uma piada, ao invés disso o episódio inteiro funciona como um momento cômico, capaz de prender a atenção do começo ao fim, tanto com o enredo central, quanto os secundários e terciários inseridos no capítulo.

No fim das contas, os casos de detetive, que deveriam ser tão inusitados, acabam se tornando normais, não só para os personagens como para quem assiste também, o que por si só já é engraçado. Jonathan nunca se torna Philip Marlowe, mas ele aprende alguns truques, e é divertido acompanhar esse desenvolvimento.


Outro motivo que me fez indicar essa série e não qualquer outra é que, como a maior parte das pessoas que me visitam têm o hábito da leitura, os personagens da série também, então ela é cheia de referências (desde os clássicos da narrativa policial até Samuel Beckett) literárias, cinematográficas, musicais e psicanalíticas. O próprio clima dos episódios seguem um ritmo, por vezes satírico, sem nunca pesar a mão, de um filme noir. Temos femmes fatales, interrogatórios, tiroteios, perseguições, tudo no ambiente urbano comum da classe média de Nova York.

Durante as três temporadas, todos os três personagens recorrentes ganham seu desenvolvimento e histórias próprias ao redor da história de Jonathan - que às vezes perde importância perante as necessidades psicológicas dos seus amigos. Falando de problemas psicológicos dessa maneira, mais parece um drama, mas são esses problemas que geram a comédia. O humor, já dito sutil, é baseado em observações do absurdo cotidiano, na sexualidade dos personagens, no uso de drogas, nas decisões erradas, na depreciação e em questões mais filosóficas, como a mortalidade. Os personagens são todos deslocados e alheios as suas próprias vidas, buscando distração, seja se fingindo de detetive, se fingindo de super-herói, ou relembrando o passado em uma nuvem de Cannabis. Isso os torna suficientemente relacionáveis para que a série se sustente, apesar da comédia discreta e por vezes propositalmente obscurecida.


Agora você deve estar dizendo, sim, Raphael, você tem razão mais uma vez, eu quero ver essa série, mas e o final? Se ela foi cancelada no meio do caminho, será que o fim não é frustrante demais? Mais ou menos. Eu não considero o fim de todo satisfatório, até porque os acontecimentos da última temporada abrem espaço para continuações. Mas não chega a ser frustrante, considerando que ela não termina em "cliffhanger", nem deixa nada sem resolução. É como um livro de final aberto (coincidentemente, Jonathan, o personagem, diz gostar de deixar os finais dos livros dele em aberto - ou talvez não seja coincidência...), terminou, mas sempre dá pra explorar um pouco mais, desenvolver novas histórias, coisas assim. Esse tipo de livro deixa a conclusão a cargo da interpretação do leitor, então o fim dessa série é a mesma coisa. E essa foi só a minha impressão, talvez você assista e ache o final perfeito, principalmente se você vai ver a série já sabendo que ela termina (eu comecei a acompanhar em 2009, então vi o cancelamento de perto). Se você gosta de comédias, histórias com clima noir, mistérios - mesmo que satíricos -e bons personagens, provavelmente vai gostar da série também. Pelo menos não vai te tomar muito tempo, são só 8 episódios por temporada - por ser da HBO - de 25 minutos cada.

Nota: 4/5

Obs.: se alguém decidir assistir ou já conhecer ou ver e gostar, avise. Até agora não conheci uma viva alma que tenha assistido essa porra também.  

quinta-feira, 5 de junho de 2014

2 poemas curtos e quase certos

1

quão alheio estava
a precisar da poesia
para reparar a pura
e azulada pintura
da eterna exposição
desse museu in natura

2

esse mundo inverso
sem versos
sem fuga
te mostra o que é
que teus olhos
escondem de ti