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terça-feira, 29 de abril de 2014

Aniversário de dois anos do Delirium Scribens

[Como é impossível achar imagem que represente aniversário e não seja afrescalhada, vai sem imagem.]

Foi em 29/4 de 2012 que eu dei uma olhada num documento em word que eu mantinha, todo desorganizado como um caderno em papel sem separação, um texto depois do outro, opiniões curtas e longas, poesias e contos muito ruins (acho que fui melhorando com o tempo), crônicas mal-formadas; olhei pra tudo aquilo, que tinha começado por causa de uma moça - como sempre - e meio que saiu de controle, passando de terapia para vício, tinha que transformar aquilo em alguma coisa. Blog é de graça e não é como se alguém fosse ler, eu concluí, e nasceu esta porra. Mudou de nome, de Delirando e Escrevendo foi pra Delirium Scribens, porque latim é mais bonito e me lembra da cerveja belga Delirium Tremens, que "coincidentemente" é o nome dos tremores que alcoólatras em abstinência costumam sentir - tudo combina. Eu juro que achei que isso ia perder a graça uma hora ou outra, e perdeu várias vezes a ponto de eu manter um "último post" sempre guardado no rascunho, mas a graça volta sei lá eu por quê. Acho que gosto de falar com alguns leitores de vez em quando, é bom ouvir gente que não te conhece e trocar umas ideias, conheci muita gente bacana e talentosa desde que comecei, então isso valeu a pena. Mas que merda de sentimentalismo barato é esse?, eu nem bebi nada ainda. Já aviso, não se enganem, não farei promoção de aniversário. Disse isso no ano passado,  mas nunca me canso de repetir, cada vez com mais orgulho, essa porra não é casa de caridade, caralho! Mas o que farei eu para comemorar essa data? Ora, de uma coisa eu sempre me orgulhei, quem visita esse blog o faz por causa do conteúdo. Sei disso, porque não tem nada além disso aqui, nem mesmo a minha cara simpática. Esse é o blog mais antipático da internet, mas mesmo assim tem gente que me visita, uns a mais outros a menos tempo. Acho que é - espero que seja - porque gostam do que eu escrevo. Então farei um top 10 dos meus posts favoritos. Ideia egocêntrica? Pode apostar. Esse blog é mesmo egocêntrico pra cacete, caso não tenha percebido, e dono não é muito diferente. Por isso eu agradeço às visitas, comentários, mensagens de apoio moral, conversas e até trocas de e-mail, e peço pra que deem uma olhada nos posts que eu escolhi, caso não conheçam. Se você entrou aqui pela primeira vez, então aí que é seu dia de sorte mesmo, conheça o blog por essa lista e você a de amar ou odiar esse lugar, mas pelo menos seu ódio ou amor será bem embasado.

9 - Holy Motors - Leos Carax [2012] (Resenha) - escolhido mais pelo filme que pela resenha.
5 - O Sol Também Se Levanta - Ernest Hemingway [1926] (Resenha) - provavelmente o meu livro favorito.
4 - A Missa (Conto) - feito em homenagem ao meu avô, que morreu há 19 anos.
2 - 7 coisas que eu gosto (Tag) - um bom resumo dos objetivos desse blog.
1 - Confissão no quarto 219 (Conto) [Parte 1; Parte 2; Parte 3; Parte 4]- porque eu gosto muito desse conto, é bem pessoal. E tem quatro partes, então eu trapaceio e fecho com quatro posts em um.

Tá bom, é meio injusto eu comemorar 2 anos e não dar nada pra vocês que me acompanharam por parte desse tempo (tenho certeza que ninguém acompanhou o tempo todo). Mas promoção é injusto, aqui o esquema é poligamia islâmica, todo mundo ganha tudo ou ninguém ganha porra nenhuma. Nos links abaixo vocês vão encontrar uma versão em pdf de uma coletânea de poemas que eu preparei, tentei mandar pra editoras, mas até agora não tive sucesso, então elas que se fodam. Uns poemas vocês encontram no blog, outros não, mas a maioria foi modificado de alguma maneira.

Musas Insuspeitas - Raphael Dias

Não é só isso, eu não sou tão egocêntrico assim pra considerar um pdf de poemas meus um presente digno, por isso fiz o upload de um disco de uma banda que eu acabei de conhecer e vou ceder aqui, criminosamente. A banda é The Shaolin Afronauts, o nome do disco é Flight of the Ancients, de 2011. Fazia tempo que eu não ouvia música instrumental contemporânea tão original, uma mistura de tudo, jazz, funk, soul, música latina e africana, excelente mesmo. Não vou falar mais nada porque, a essa altura, vocês já deviam entender o valor do meu selo de qualidade, principalmente em se tratando de música. Aproveitem enquanto ninguém me processa.

The Shaolin Afronauts - Flight of the Ancients (2011)

Quanta generosidade pra um post só, puta que o pariu.
É isso, agora ninguém pode dizer que eu nunca dei nada pros meus leitores. Foi bom ter vocês por aqui nessa fração de dois anos na qual vocês estiveram por aqui, espero que fiquem e espero que mais gente apareça até o aniversário de 3 anos, para o qual eu não faço ideia do que vou preparar.

domingo, 27 de abril de 2014

Domingos

uma camisinha usada pode ser encontrada presa nos espinhos das rosas do muro nas sombras de uma manhã de domingo morto,]
quando se tenta se recuperar das dores e peso, consequências das infrutíferas buscas pelo coração das madrugadas de sábado,]
a caçada por uma companhia embriagada, emocionalmente deslocada e que se vai com a lua
e o sol é apenas dor na manhã de domingo morto e os caixas de supermercado te odeiam nas manhãs de domingo morto,]
as passeatas de roupas de banho voltam esquecendo o sorriso enterrado na areia
as famílias bem vestidas cheirando a banho recém-tomado lotam restaurantes e hospitais em horário de visita,]

nunca se tem o que comer nas tardes de domingo morto e todas as portas estão fechadas e os telefones não funcionam,]
ninguém fala, ninguém se olha, são pesadas as tardes de domingo morto,
quando as calçadas estão sujas de guardanapos de lanchonetes ao ar livre e embalagens de fast-food levadas pelo vento,]
molhadas pela chuva de verão no outono das três da manhã, não existem sorrisos nas tardes de domingo morto]
só restos dos churrascos feitos na fumaça sem graça e a música já não é alta e as conversas estão mudas,]
aquele silêncio incômodo de família que pede por despedidas e um volte sempre-aparece-até a próxima mentiroso,]

e as memórias voltam nas noites de domingo morto. as memórias são pessoas são solidão são medo e o telefone não funciona nos domingos mortos]
nem as conversas simuladas são desejadas, mas invadem a mente mesmo assim e o que não-sei-quem diria se eu a procurasse?,]
o que ela faz agora, o que ela andou fazendo nesse ano em que não a vi, as pessoas-memória são dor nas noites de domingo morto]
e a vida não tem gosto e nem cor nas noites de domingo morto, e o sono se recusa a vir nas noites de domingo morto,]

a semana precisa de um desfibrilador após a morte semanal durante os domingos, até que morra de novo, semana que vem.]

sexta-feira, 25 de abril de 2014

No Country For Old Men (Onde os Velhos Não Têm Vez) - Cormac McCarthy [2005]


Um dos raros casos em que eu li o livro antes de ver o filme, mesmo que a adaptação, traduzida como Onde os Fracos Não Têm Vez, tenha levado um Oscar em 2007 e tenha sido feita pelos irmãos Coen. Não sei por que, esse caso eu quis ler primeiro, principalmente por nunca ter tido contato com nada do Cormac McCarthy, autor considerado pelo crítico Harold Bloom, e dezenas de outros críticos, como um dos melhores escritores americanos vivos. Harold Bloom, contudo, não gostou de No Country For Old Men, e a obra é considerada a mais acessível de toda a bibliografia de McCarthy. Devido aos elogios, comumente direcionados à prosa de McCarthy mais que as suas histórias, li em inglês, idioma original da publicação.

Llewelyn Moss é um veterano da guerra do Vietnã, com 30 e poucos anos, casado com a jovem Carla Jean. As coisas estão duras para eles no sul dos EUA, próximo à fronteira com o México, mas, enquanto Moss está a caça de um antílope, ele se esbarra com o resultado de um tiroteio recente. Corpos largados no chão, carros arrebentados, vidro estilhaçado, um cachorro morto que não se sabe de onde veio, e um homem ainda agonizando, com uma bolsa com 2,4 milhões de dólares em dinheiro. Uma das caminhonetes está com a traseira cheia de heroína, que Moss ignora, mas leva consigo o dinheiro. Enquanto isso, Chigurh,um assassino de aluguel psicopata, foge da cadeia e se encarrega de encontrar o dinheiro roubado e levá-lo de volta ao seu dono. O xerife Ed Tom Bell investiga o tiroteio e todos os crimes que se desencadeiam a partir dele, buscando tanto Moss quanto Chigurh, ao mesmo tempo em que outro assassino de aluguel é contratado para encontrar o dinheiro com quem quer que esteja com ele.

A primeira coisa que qualquer um vai reparar em primeiro contato com o livro é a quase ausência das vírgulas. McCarthy é breve e bruto, mas não perde a poesia nem nos momentos de violência mais extrema. A narração é fragmentada entre diferentes pontos de vista, principalmente os de Moss, Chigurh e Bell, mas sempre em terceira pessoa, embora haja variações sutis em cada parte da história. Moss tem uma narrativa mais agitada, apressada e tensa. Bell é cansado, mais velho que os outros e se choca com a criminalidade que parece ter tomado conta de sua terra. Chigurh é calculista, meticuloso e calmo. Wells, o segundo assassino, também tem seus momentos, mas são poucos, mais como alguém que pega o bonde andando e tenta chegar na frente. Todas essas características transpiram pela prosa do autor, que cria, com esses personagens, uma espécie de faroeste moderno, cheio de discussões morais implícitas.

O enredo não pode ser chamado de simples nem de complexo. É uma sequência de eventos com efeito dominó, a primeira peça a cair é o dinheiro roubado, o resto é causa e consequência, e Chigurh é o mais ciente de tudo isso, vivendo ao redor desse fato, de que a vida em si segue as regras da causa e consequência, e que o jogar de uma moeda pode mudar um destino.

O livro tem um ritmo poético bem fluido por causa da escolha do autor de usar mais "e" do que vírgula (coisa rara no livro). Ponto e vírgula não existe em nenhum dos textos do autor e ele se recusa a indicar diálogos por meio de aspas ou travessões. Isso já é marca registrada e ele disse várias vezes que não gosta de poluir a página com milhares de traços que não significam nada, muito menos quando a ausência deles não parece fazer falta. E não faz. Não indicaria o livro para iniciantes na língua inglesa, mas se você tem um inglês intermediário e boa interpretação geral de texto, conseguirá entender bem o texto com poucas, se não nenhuma, viagens ao dicionário. O ponto alto do livro é a linguagem mesmo, a musicalidade e o peso da oralidade da fronteira na narrativa e nos diálogos, por isso a importância de ler no original, mas, se você não sabe o idioma, a tradução publicada pela Alfaguara parece bem competente.


Quase é possível sentir o sol do deserto e a poeira e o cheiro de sangue durante a leitura do livro, realmente, talvez não seja a mais marcante das obras do autor - é muito recente para isso -, mas é um bom livro. Não estou dizendo que a leitura é agradável, pois não é. Não vou me explicar nesse ponto, pois revelaria partes do enredo que não deveriam ser reveladas até o momento da leitura, mas confiem em mim, não é um livro bonitinho para passar o tempo. É pesado, mas não por isso difícil ou desagradável de se ler. Vou repetir, um bom livro de um dos melhores escritores atuais, que vale a pena conhecer. Agora vou ver o filme.

Nota: 4/5

segunda-feira, 21 de abril de 2014

2 haicais e 1 poema

1.

plantada no asfalto
ela era flor de pétalas
bailarinas ao vento

2.

bisbilhoteiro
pela persiana o
sol perturba

3.

escreve por não saber pintar
como fotógrafo tímido a
moça sentada no banco da praça
concentrada nas flutuações das nuvens
e pontos invisíveis no vácuo
escreve detalhes que não vê
cria o que não conhece e
ela posa feito modelo sem saber
mulher-arte, ele a faria música
se soubesse as notas
mas não sabe nada delas
nem de tons nem de cores
sabe das letras então escreve

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Tag: Versatile Blogger

Antes de começar, só vou dedicar umas linhas para falar da morte de Gabriel García Márquez. Pra quem não ouviu ainda, ele morreu hoje. Admito que não conheci ainda a obra dele, mas reconheço a importância que ele teve como representante da literatura latino-americana. Ele foi um dos se não o maior nome do período conhecido como boom da literatura latina com o seu realismo fantástico. Toda morte gera luto, mas com ele, assim como com todos que têm a chance de viver tanto quanto ele viveu, é diferente. Não é um luto de tristeza, propriamente dita, até porque ele já é imortal e a morte física depois de um determinado tempo se torna um alívio, mas um luto pelo vazio que ele deixa com sua ausência. Nunca fui religioso, então ao invés de desejar idas a lugares melhores, vou apenas expressar minha gratidão pela obra que ele deixou e que permanecerá indefinidamente após o fim de sua vida, e o fim da minha vida e a de todos nós, pois, enquanto houver literatura, haverá Gabriel García Márquez.
***


Chega disso, vamos ao post. É raríssimo que eu faça essas tags. Não é bem por não gostar, só acho que são perda de tempo. Essa, no entanto, me deu vontade de fazer porque faz tempo que quero fazer posts sobre certas coisas que gosto e quero indicar, e a tag fará que eu mate vários desses coelhos com uma cajadada.

As regras são:
- Agradecer quem indicou - então agradeço à Rafaela do blog odinist-a.blogspot.com.br, caso você não conheça, ela é uma das melhores poetisas desse mundo de blogs, que vale muito a pena conhecer. Se você não a segue ainda, faça agora - e eu só faço propaganda de quem merece nessa porra. Vou até ressaltar que essa é uma tag que eu já tinha visto e não gostava porque todos sempre respondiam da mesma forma. Ela foi diferente e falou um pouco sobre coisas específicas que ela gosta, fazendo que eu conhece um músico e um pintor que antes eu não conhecia. É baseado nisso que eu monto meu post agora, na esperança de apresentar a vocês algumas coisas que eu gosto, mas talvez você não conheça. Obrigado mais uma vez, Rafaela.
- Escolher 15 blogs com menos de 200 seguidores para responder a tag. Não farei isso, me processe. É o seguinte, gostou da tag, nunca fez, quer fazer - faça e não me encha o saco.
- Escrever 7 coisas que eu goste, então lá vai.

1. Literatura Beat

Gosto de livros. Todos sabem disso. É por isso que essa merda desse blog existe. O que você pode não saber, é que eu gosto pra cacete de literatura beat. Caso você não saiba o que é, é um movimento literário boêmio surgido no fim da década de 40, começo de 50, que pegou figuras "marginais", alucinógenos, surrealismo, sacanagem e transformou em arte literária, quebrando muitas "regras" da época, gerando até alguns desafetos entre os autores e o governo dos EUA. Para conhecer melhor esse "movimento", sugiro começar por Jack Kerouac, muitos livros dele estão traduzidos e facilmente disponíveis no Brasil, sem falar que On The Road é um resumo básico do que foi a época. Depois, caso goste de poesia, experimente Allen Ginsberg, que pegou os versos livres de Walt Whitman, a loucura de André Breton e a iluminação de William Blake, e se tornou um dos meus poetas favoritos. Depois ainda tem William S. Burroughs, Gary Snyder, Gregory Corso, Michael McClure; inúmeros, infelizmente difíceis de achar por aqui, muitos sem tradução ainda.

2. Nouvelle Vague 

Também gosto de cinema. Mas entre as diferentes escolas, a que de fato me atirou na "cinefilia" foi a nouvelle vague (que só significa "nova onda") do cinema francês, em meados de 50 e 60. Muitos países tiveram suas novas ondas, baseadas no movimento francês, como o Irã (de onde nasceu Kiarostami) e o Brasil (com Glauber Rocha), mas dentre essas minha preferida é a francesa. Você pode procurar conhecer começando por Jean-Luc Godard, François Truffaut. Aos poucos vá avançando para Jacques Rivette, Eric Rohmer. Pesquise, a internet tá aí pra isso, não é só pornografia e vídeos de gato (muito embora tanto um quanto o outro tenha seu papel na sociedade).

3. Jazz

Quanto mais improvisado melhor. John Coltrane, Miles Davis, Bill Evans, Eric Dolphy, Thelonious Monk. É um estilo de música que me hipnotiza, não consigo ouvir e fazer outra coisa ao mesmo tempo.

4. Surrealismo

Desregrado, agressivo e caótico, esse é provavelmente meu estilo artístico favorito independente da forma de arte. Tem André Breton e Federico García Lorca na literatura, Magritte e Dalí na pintura, Buñuel e "Fellini" (entre aspas, porque depende da obra) no cinema. Isso só pra citar dois de cada.

5. Edward Hopper

Esse foi o pintor que fez com que eu me interessasse por pintura. Tem algo de melancólico no realismo relativamente simples dele. É tocante, só isso.

6. Mulheres

É isso. Elas são minha maior paixão há anos, o motivo pelo qual eu escrevo, o motivo pelo qual eu saio de casa. Minha maior fonte de inspiração.

7. Tom Waits

Acho que o músico não-erudito mais original ainda vivo. A voz dele parece a de alguém que gargarejou com vidro e óleo diesel, mas as letras são como uma poesia do cotidiano marginal, meio beat, meio Bukowski, com cheiro de tabaco e graduação alcoólica de 90%. Um dos meus favoritos.

Menção honrosa a Bob Dylan, expressionismo abstrato e o uísque. Infelizmente eram só sete coisas, então vocês ficaram de fora. 

Pra encerrar e vocês não dizerem que eu fiquei enrolando aqui, tomem um haicai deformado que eu escrevi agora pouco:

g    l
o    u
 t      t
  a     a
   s      n
            d
              o
para
      não
             escorregar
da janela
           e
           c
           a
           i
           r

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Pra que serve o crítico?


Faz mais de uma semana que não escrevo uma resenha para o blog. Não parei de ler, de ver filmes ou ouvir música, esses hábitos são parte de mim. Tenho várias resenhas incompletas no rascunho do blogger e tantas outras no meu rascunho mental, só não consigo escrevê-las. Ando pensando no valor da resenha cultural, mais uma vez, só que dessa vez sem chegar a uma resposta objetiva. É impressionante, quanto mais velho eu fico menos respostas eu tenho ou mais difícil se torna de chegar a uma resposta. As perguntas que me vem são:
- Quando faço uma resenha negativa, quero que o objeto resenhado seja evitado pelos leitores?
- A arte é uma competição e deve ser mensurada entre o que é bom e o que é ruim?
- Quando dois críticos discordam, e isso acontece frequentemente, algum deles está certo ou errado?

Essas dúvidas me bateram nos seguintes momentos: 

(1) quando recebi um comentário na minha resenha de Spring Breakers em que a leitora dizia que, por causa das críticas, tinha desistido de ver o filme, e eu quase mandei uma mensagem para ela pedindo para que não desistisse já que nada impediria que eu, ou qualquer outro crítico, estivesse errado (mas se é assim que eu penso, por que escrevi a resenha pra começo de conversa?). 

(2) Ao ler na internet uma discussão sobre Os Incompreendidos (Le quatre-cent coups, de François Truffaut, 1959). Acusaram o filme de ser superestimado, seguido de uma argumentação parcialmente convincente. Mais tarde seguiram contra-argumentos igualmente corretos e contrários à acusação. Os Incompreendidos é um dos meus filmes favoritos, tratando sobre a adolescência problemática de um garoto em Paris. Diziam que não era tão bom quanto alguns filmes de Bresson, Béla Tarr ou Tarkóviski, que lidavam com temas e angústias similares, só que melhor (mas é uma competição?, não posso gostar de Bresson e Truffaut, ignorando as diferenças de qualidade entre as obras. Ficou pior quando incluíram música na discussão, dizendo que Bach era melhor que Chopin e, portanto, Chopin seria desnecessário. Isso significa que apenas Bach poderia fazer música e tudo antes e depois dele é irrelevante?). 

(3) Lendo a coleção de poesias do Paulo Scott, A Timidez do Monstro. Reparei que muitas das poesias eram baseadas em sonoridade, ignorando o sentido. De início, talvez pela surpresa, quase desprezei o livro, mas então li um poema que, no mesmo formato que os outros, me tocou. Me perguntei se esse não seria o objetivo. Propositalmente abstrato, os poemas são ausentes de um sentido claro, permitindo que cada leitor tire sua própria mensagem por meio do caos, não diferente de uma pintura do Jackson Pollock. Portanto, se cada poema poderia ou não gerar um sentido na mente do leitor baseado em interpretação individual, o mesmo não valeria para cada livro/filme/obra de arte em geral?

Não gosto de Paulo Coelho, noutro dia estava falando sobre ele (sobre literatura brasileira contemporânea em geral) com uma amiga estudante de Letras. Ela disse aquela frase clássica, no meio acadêmico, Paulo Coelho não é considerado literatura. Concordei, mas precisei admitir que algo de certo ele faz, nem que seja apenas marketing, porque ninguém vende tanto sem ter alguma compreensão dos mecanismos da mente humana. Ele reafirma clichês, como disse Bernardo Carvalho, sem dúvida, mas ele toca leitores e isso é difícil de botar em discussão. O que me leva a uma nova pergunta, pode um autor sem relevância cultura objetiva manter sua relevância para o leitor por meio apenas da subjetividade das impressões individuais perante a "arte", mereça a obra o título "arte" ou não?


Vou voltar um pouco e falar sobre os métodos de trabalho de um crítico. Em termos simples, existem os críticos puramente acadêmicos (Theodor Adorno, André Bazin, Gilles Deleuze, Todorov, Roland Barthes etc.), que buscam definir a arte perante seu contexto histórico, filosófico, sociológico, analisando, então, seu valor estético ou relevância geral - repito, estou simplificando pois não sou acadêmico. Temos, em contrapartida, os críticos que entretém (Roger Ebert talvez seja o maior nome, mas depois dele vários podem ser encontrados nas mais diversas colunas culturais de revistas/jornais/internet). O ideal, para mim, sempre foi a mistura. Contextualizar a obra, já que a época e as intenções de um artista devem ser levadas em consideração durante uma crítica - uma questão de ética -, para depois divertir o leitor com um veredicto positivo ou negativo, que por vezes carrega um tom de segurança que pode ser confundido com autoridade (aqui surge meu medo, críticos não deviam ter autoridade nem mesmo imaginada). Fiz dezenas de resenhas tentando ao máximo atingir esse equilíbrio levando em consideração minhas limitações intelectuais, mas agora ando me arrependendo, não das minhas opiniões, ainda concordo com a maior parte das minhas críticas positivas ou negativas. Só fico me perguntando da necessidade disso.

A arte precisa da teoria, talvez não para existir, mas para que ela progrida e seja compreendida com mais clareza - nem quero me perder muito falando da teoria acadêmica porque não tenho o conhecimento para isso, existem milhares de livros sobre o tema muito mais interessantes que eu. Minha ambiguidade está na dita crítica cultural. Aquela que busca guiar leitores de uma determinada mídia para as obras que ele pode ou não gostar. Mídia esta que, com a internet, está cada vez mais banal, fato que contribui um pouco para o meu argumento.

Depois que fiz um blog, por consequência, conheci vários outros blogs e blogs ainda mais novos surgem diariamente. Muitos excelentes, os quais visito e comento com alguma frequência, outros medíocres e uma maioria muito ruim. Tendo em vista essas variações de qualidade baseadas em diversos critérios, falemos da responsabilidade do crítico. Todos os blogs ruins sofrem de um problema - a superficialidade. Resenhas em que a sinopse é repetida três vezes e o último parágrafo é dedicado a um "gostei/não gostei" mal justificado. Raramente uma resenha dessas carrega qualquer persuasão, por isso não é algo tão preocupante. Mas, quando buscamos formar uma opinião - tendo ou não a capacidade para tal -, não é uma responsabilidade moral que nossa (dos críticos em geral) justificativa seja a mais aprofundada possível.

Mesmo que a mídia em questão tenha um alcance limitado, existem possibilidades, graças ao Google, de que um texto será visto por pessoas aleatórias, esse é o objetivo afinal. Não é um problema que pessoas possam ser desviadas de uma obra de qualidade potencial por culpa de uma resenha negativa mal feita? É relativo, estamos na era da internet e todos sabem que quase nada pode ser levado tão a sério. Mas não deixa de ser uma responsabilidade. Um crítico que queira expor sua opinião, deveria se assegurar de que a emitiu da maneira mais clara e detalhada possível, para não cometer injustiças. Tendo dito isso, chego ao ponto principal desse texto que é, com todas as subjetividades e objetividades da arte e todas as variações da experiência individual, não seria todo parecer de um crítico, positivo ou negativo, injusto e superficial, já que ele é baseado somente na experiência de um indivíduo e não de um coletivo de consciências com disponibilidade para compreender interpretações variáveis?

Um bom crítico pode tentar captar interpretações que não as dele, isso é parte do trabalho, pode até se submeter a várias experiências com a mesma obra para poder tirar dela o máximo possível, mas ele sempre será parcial àquela interpretação "favorita". Voltemos ao Paulo Coelho, cheguei num ponto da minha vida que já não quero gostar de uma obra dele. Não vejo possibilidades de poder gostar de um livro dele baseado em experiências passadas e nas próprias atitudes do escritor que de vez em quando vem falar merda em uma entrevista ou discurso. Ignoro conscientemente a possibilidade de um leitor tirar proveito da obra dele. Isso torna minha crítica inválida? Não exatamente, já que é uma opinião tão embasada quanto qualquer outra. Isso torna o livro do Paulo Coelho inválido para um leitor? Tampouco.

Pra que servem as resenhas tendo em vista todos esses pontos? A resposta mais óbvia seria indicar para os visitantes de uma determinada mídia, alguma obra sobre a qual ele possa não ter conhecimento. Divulgar a cultura. Tomo esse como meu principal objetivo desde que dei início ao blog. Mas isso não explica as resenhas negativas? É para afastar as pessoas de uma determinada obra? Com que direito? O que torna qualquer crítico melhor que qualquer leitor? Um diploma ou uma experiência mais ampla com determinada forma artística? E daí? Muito conhecimento torna uma interpretação absoluta?, doutores não erram? Falarei por mim admitindo que todas minhas resenhas negativas foram feitas em nome do humor. The Room, Birdemic, Espíritos de Gelo, para citar minhas favoritas, não são textos que buscam afastar o leitor de conhecer as obras que eles analisam, elas buscam fazer que o leitor ria e se leve menos a sério. Não indicam, mas não afastam. São perda de tempo, para falar a verdade. Os escrevi porque o primeiro deu certo, foi visitado e comentado; o segundo também. Eu me diverti escrevendo, mas não pensei em nenhuma consequência. Foi quando eu percebi a competição absurda que isso sugere (um livro melhor que o outro etc.), foi quando eu comecei a me incomodar. Chopin e Bach podem coexistir e essa variedade é ótima. Bach pode ser um dos melhores compositores da história, mas me cansaria dele se me fosse imposto um regime diário exclusivo às músicas dele. É claro que esse texto meio que dá a entender que música sertaneja também é importante, e me dói a alma admitir isso, mas quem sou eu para falar qualquer coisa sobre a experiência do ouvinte de música sertaneja. Existe uma diferença técnica na qualidade da construção entre essas músicas, sim, mas isso importa?

Claro que tem a questão da intensão do autor. Não dá pra colocar Luan Santana no mesmo degrau de um Tom Waits, Michael Bay junto de Abbas Kiarostami, ou o Paulo Coelho com o Sérgio Sant'anna, nem é objetivo desses caras fazerem o que o outro faz. Existe uma qualidade artística objetiva superior na criação de um filme do Kiarostami em comparação ao Michael Bay, isso é óbvio. Mas não é uma competição. Tudo tem contexto e, por mais que existam filmes ruins e filmes bons, minha dúvida fica na necessidade da existência de um personagem (um mediador, por assim dizer) para ajudar a definir qual é qual. Não queremos liberdade de pensamento e opinião? Um debate entre pessoas de opiniões diferentes não é mais produtivo que uma crítica?

Eu sei que até o momento isso aqui pareceu um artigo, mas eu quero mais é iniciar um diálogo. Muita gente que vem aqui tem blog e faz resenhas também, tanto positivas quanto negativas - ou simplesmente gosta e tem opiniões não publicadas sobre arte. Vocês já pararam pra pensar nisso tudo? O que acham que é a função da resenha? Juro que não consegui descobrir depois de tudo isso.

domingo, 13 de abril de 2014

Síndrome do Subterrâneo; ou A arte de observar um fato por todos os lados e se encontrar sem ação


Meu caro leitor, caso você more em uma caverna, venho por meio desta lhe informar que seu país tá pegando fogo. Sério mesmo, tá tão ruim que tem gente por aí defendendo estupro. Não, não é um maluco ignorante solitário que vive lá na puta que o pariu defendendo a violação sexual, é a classe média branca, estudada, com ensino superior completo ou incompleto em instituição pública ou particular. Meu filho, se tu não tá sabendo, acorde do estupor e cheire as rosas, pois elas estão mortas faz uns anos. Tanto que tem gente, muito possivelmente as mesmas pessoas, esperando um novo golpe militar. E não digo esperando num sentido profeta do apocalipse à Nostradamus, mas esperando com ansiedade e bandeira levantada, se perguntando o que foi que fez os militares demorarem tanto para aplicarem um novo golpe. Na falta de melhor expressão, o bagulho tá foda, meu irmão.

Não que seja sem motivo toda essa revolta. O Brasil não é nem nunca foi país exemplar. Mas essa gente da defesa à família tá me assuntando. (Calma Raphael, você está escrevendo esse texto com um grau de rum e uísque no sangue que o contra-indica a emitir qualquer opinião. Vai continuar?, sério? Porra, boa sorte.) Que os conservadores me perdoem, mas vocês estão esquecendo de um conceito básico, o da liberdade individual. Sou um esquerdista maconheiro da USP? Longe disso. Ainda vejo o capitalismo como o único modelo econômico cabível para a atual condição humana. Anarquismo é minha utopia. Socialismo depende muito do governo e, minhas crianças, aprendam que governo é seu maior inimigo. Quanto mais cedo esse conhecimento te impregnar à mente, melhor. Tampouco confie nos empreendedores e nas instituições particulares, elas querem tua grana e teu cu. Tio Rapha, tu me pergunta, se eu não confio nem no público nem no particular, em quem eu confio? Tu mesmo, eu respondo. Sério, nem eu sou confiável, já avisei que esse texto tem graduação alcoólica de 40% e meus dedos estão navegando por esse teclado como um carro importado com piloto adormecido, perdi o controle faz três doses, mas segui escrevendo, pois sou guerreiro e preciso da coragem da bebida para escrever sobre esse assunto. Se ponham no meu lugar ao fim desse artigo ao invés de me julgarem.

Essa loucura toda não é sem causa. É motivada por muita estupidez, mas não é sem causa. Tenho que atacar o tema por partes, pois o gigante é demais para minhas linhas de conteúdo limitado. Por onde começo? O caso do estupro parece a polêmica maior e mais recente. Como resolver esse problema? Vejamos, você que é a favor de estuprar uma mulher que veste saia curta, mora em casa? Caso more, tem cerca elétrica? Caso não tenha, é aceitável que eu invada sua casa armado, mate sua família e roube suas posses? Não? Mas como não? É seu dever morar em apartamento ou ter cerca elétrica. Ah, essa lógica não é válida. Voltemos ao início, então. Seu corpo é sua propriedade individual? É, igual sua casa, certo? Certo, então, assim como seu corpo ou o corpo de qualquer mulher, não deve ser invadido. Pronto, não me interessa como ele está vestido, se tem cerca elétrica ou não, fim de papo, estupro é invasão da propriedade alheia, o corpo, a mais sagrada e intransferível das posses. Preciso continuar a explicação ou já falei o óbvio por tempo o suficiente? Acho que já basta. Se a mulher estiver te tentando, meu caro, minha sugestão é simples. Se resolva sozinho em casa ou vire hominho e se aproxime e conquiste o consenso. Agora está mais do que claro. Ah!, você insiste, o estuprador tem problemas mentais. Ora, que ele seja trancafiado e vire mocinha na cadeia. O maior índice de estupros no mundo vem do Oriente Médio, lá as mulheres vestem burca, qual a tua desculpa?, os olhos estavam visíveis? Repito meus argumentos acima, vire homem.

Vamos ao lado mais complicado, então, ao da ditadura militar.  (É válido informar que, para bater essa parte do artigo, tive que esperar pela lucidez da ressaca do dia de seguinte.) Pelo que eu pude ver analisando as opiniões das pessoas com quem eu convivo ou tive a oportunidade de ouvir, aqueles que são a favor do retorno da ditadura, baseiam seus argumentos em números e notícias publicadas naquele período. Gosto de acreditar que meus leitores pensam, por isso fico tentado a parar aqui, crente que vocês já entenderam a ironia do negócio. Mesmo assim, vou desenhar, já que a maior parte dos meus visitantes me encontram a esmo pelo Google e esses podem não ser tão espertos. Um dos focos da ditadura foi a repressão da liberdade de expressão. Logo, tudo que foi publicado naquele período por jornais e até estudos acadêmicos, teve que passar pelo filtro da censura, tornando todos os números favoráveis ao regime. Ou seja, não confie na direita, não confie na esquerda, não confie nos ditadores, não confie no governo, não confie nas empresas, não confie em mim.

A grande maioria dos defensores da ditadura contemporâneos, não viveram o ápice da opressão militar ou viveram a infância naquele período, provavelmente de forma pacata, com viseiras e um sorriso apático no rosto. Lógico que, para estes, uma ditadura seria ótima. Imagine, viver com a certeza de que tudo está bem porque os jornais dizem que assim está. Nossa, agora que escrevi e reli essa ideia, percebi o quanto o brasileiro tem um perfil populacional ideal para um governo totalitário. Mas não posso me deixar distrair por esses detalhes. Os defensores simplesmente não sentiram a rola grossa da censura esticando seus virgens rabos. Nunca foram artistas, nunca se preocuparam em debater ideias ou nunca foram impedidos de debatê-las. Faz tempo que a censura (não entrarei no mérito conspiracionista de que existe uma censura invisível comunista querendo acabar com a família e os homens honestos de deus pai todo poderoso, isso é uma longa história e não exatamente relacionada) acabou e brasileiro tem memória curta. Como os velhos noticiários falam de militares tão corretos que nunca nenhum caso de corrupção foi investigado durante o regime, é óbvio que eles seriam os governantes corretos para esse nosso Brasil sem Jesus, né? Mais ou menos, prefiro um governo corrupto que pode ser investigado do que um que todos são forçados a fingirem que todos são honestos. Prefiro um governo que me roube que um que me torture. Idealmente, sou contra os dois, mas se tivesse que escolher diria que tortura é uma falha moral mais grave que roubo.

Mas se os militares não podem tocar fogo no barraco, o que pode ser feito para melhorar esse país? Aí que a coisa fica complicada. Peço que os leitores agora relembrem do livro Notas do Subterrâneo, de Dostoiévski. Nele o protagonista diz sofrer de excesso de consciência. Diz que, para um homem inteligente, capaz de analisar todos os lados de uma questão, tomar partido de qualquer coisa é impossível. Por isso ele vive no subterrâneo da sociedade, assiste a tudo de longe, sem nunca interferir. Tem horas, admito, que vejo essa como a única possibilidade para o brasileiro. Assistir enquanto seu país cai em ruínas. Visão triste e niilista, talvez, mas não tenho outra escolha.

Tem eleição esse ano. (Acho que posso pular todos os escândalos, todos os problemas envolvendo Copa do Mundo e Olimpíadas, nós todos estamos assistindo o "desenvolvimento" desses casos e não há nada que possa ser feito; eu não pretendo assistir a nenhum dos jogos, não como protesto, mas porque não assisto futebol, nem as partidas nacionais ou Copas do Mundo - pelo menos não vi as de 2006 e 2010.) Dizem que o destino da presidenta está diretamente relacionado a vitória do Brasil nos jogos. Sinto em lhes dizer, mas estou bem certo de que o Brasil venceu a Copa de 2014 em 2012. O problema não é só esse. Não estou satisfeito com o governo da Dilma, não votei nela. A verdade é que não votei em ninguém. Em quem eu votaria, no Serra (filhote do picolé-de-chuchu). Na Marina Silva, a hippie-evangélica-inexperiente. No Plínio, aquele esquizofrênico adâmico. E presidentes nem importam tanto assim num governo, e os deputados, senadores, quais as opções? É triste ver que os eleitos mais competentes de 2010 foram justo os votos de protesto, Tiririca e Romário, que apesar de tudo trabalharam muito bem. Fico pensando se existem opções ou existirão até Outubro desse ano e tenho quase certeza que não. Porque não importa em quem você vote, no fim a corrupção já está enraizada. Nossas reclamações são sempre direcionadas a qualquer um no poder. Hoje é o PT, por isso o povo de direita parece tão certo durante seus protestos. Mas quando era o FHC, era a esquerda que se dizia oprimida e parecia tão certa em seus protestos. É um círculo patético de duas mãos que nunca funcionou e nem vai, nasceu quebrada e vai morrer assim.

Tenho fantasias de uma Revolução Francesa em Brasília. Falam mal dos protestantes mais agressivos. Sou contra os roubos, mas não vejo falha em uma resposta violenta quanto a polícia que não espera três minutos para sentar o cacete no primeiro estudante desarmado que virem. Mas é tão século XVII uma revolta banhada em sangue. Imaginaríamos que as coisas estariam diferentes hoje, mas é provado que não quando a população prende um moleque pelo pescoço em um poste após linchamento. E o pior, o povo nem estava tão errado. A polícia não faz nada, alguém teria que fazer, né? Não exatamente, mas voltamos ao círculo. Sem polícia, a criminalidade reina, o povo responde e viram os criminosos. Viram o que eu falei sobre não ter solução. O Brasil é um labirinto violento e corrupto, e isso é só baseado no que a gente sabe. Vocês realmente acreditam que tudo que sai pelos jornais e revistas é 100% do que ocorre?

Comecei falando de uma coisa e terminei perdido em milhares de outras totalmente diferentes. Esse país é um circo em chamas. Será que tudo sempre foi tão maluco? Que eu lembre sim. Acho que só estamos mais cansados da loucura agora, queremos abrir as portas do nosso manicômio. Vendo por essa perspectiva, talvez o Plínio não seja uma opção tão absurda. A melhor maneira de vencer um inimigo psicótico é sendo pior que ele, não? Plínio tá aí pra isso. Por enquanto ficarei aqui, observando, debaixo da terra.

domingo, 6 de abril de 2014

quase fiz rimas


lamúrias ricocheteiam
pelos paralelos de seu sexo
explorável e salivante
transpirando clamores
e súplicas nuas
e tantas requisitadas dores
desejos agravantes
de vulva uivando para lua


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Obs.: dentre as minhas palhaçadas com versos essa foi a que mais pareceu poesia até hoje, né?
Obs. 2: fiz playlist nova. A antiga era bacana, tinha uns jazz e blues do caralho, mas meu lado hippie se sentiu reprimido, por isso mudei tudo. Comam um cogumelo mágico e vão lá ouvir, me digam se ficou boa.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Le Mépris [O Desprezo] - Jean-Luc Godard (1963)


Seguindo adiante na lista de filmes do Godard resenhados nesse blog, cheguei n'O Desprezo. Primeiramente vou explicar porque levei um ano para resenhá-lo. Pra quem não sabe, O Desprezo é uma adaptação do romance de Alberto Moravia (Il Disprezzo, 1954), que trata das ruínas do casamento de um roteirista. Queria ler o livro antes de resenhar o filme, só pra saber o quão livre é a adaptação, afinal é de Godard que estamos falando, e o cara não é famoso por seguir padrões. Não consegui, o livro é raro de achar na tradução brasileira, fora de linha desde a idade da pedra. A edição americana ainda é fácil de achar (40 conto na Cultura), mas as traduções americanas não têm bom nome. Quando leio uma obra que não está em português, é porque conheço o idioma original. Mas eu não sei italiano. Não sei o que vai ser, se caço na Estante Virtual ou se encaro em inglês mesmo. A tradução de Secret Rendezvous, do Kobo Abe (futura resenha), nem foi ruim.

Cena 1: e os investidores americanos ficaram satisfeitos.
Como no livro de Moravia, Le Mépris é um drama psicológico e existencial envolvendo a decadência do casamento do roteirista Paul (Michel Piccoli) e Camille Javal (Brigitte Bardot). Tudo começa bem, eles são felizes, então o produtor americano, Jeremy Prokosch (Jack Palance), o contrata para escrever o roteiro de uma adaptação hollywoodiana de A Odisseia, que seria dirigida pela lenda do cinema alemão, Fritz Lang (interpretado pelo próprio, já praticamente cego e aposentado). Jeremy é um homem de negócios, enquanto Paul e Fritz ainda aspiram por algum mérito artístico, normalmente reprimido pelo produtor que prefere uma adaptação menos experimental. Se a sinopse lhe está parecendo metalinguística, caro leitor, saiba que antes da bunda da Brigitte, tem uma cena que filma o set de gravação e os aparelhos enquanto eles filmam o filme, pois é, processe você a informação.

Entre as várias reuniões que seguem entre Paul e Jeremy, Paul flerta com a secretária de Jeremy, Francesca (Giorgia Moll), que mal-tratada no trabalho. E Jeremy decide que vai comer a esposa de Paul - e quem poderia culpá-lo? Então Camille chega a conclusão que despreza Paul.


Esse é um filme complexo. Queria ter lido o livro antes, volto a repetir. Principalmente porque é muito difícil encontrar informações sobre ele por aí, e olha que a obra foi muito bem vista no seu tempo, e, Moravia, um autor muito aclamado. Quis ler para poder ter uma ideia do quão fiel é o filme, mas creio que muito pouco. Na verdade, Godard não estava muito interessado no trabalho original e disse que se tratava de uma leitura boa e vulgar, para uma viagem de trem. Ele a usou, e isso é uma conclusão minha e baseada em porra nenhuma, porque ela falava justamente sobre a situação pessoal de Godard naquele momento de sua vida.


Em 1963, Godard havia acabado de se divorciar de Anna Karina (se você acompanha o blog, sabe das minhas taras por essa atriz), e isso depois de dois anos de relacionamento conturbado, com direito a traições e tentativas de suicídio por ambos os lados. Começou bem, então Anna não quis mais. Começou bem, então Camille não quis mais. Em muitas cenas, Godard fez que Brigitte usasse uma peruca morena e Paul e Camille tem longas discussões de relação, por vezes agressivas e ofensivas, cuidadosamente escritas pelo diretor, talvez para refletirem uma determinada realidade pessoal.

Isso não é tudo. Nessa época, também, Godard estava curioso para saber como seria trabalhar com um filme de alto orçamento, por isso, pela primeira e última vez, usou dinheiro de investidores americanos. Última vez porque ele odiou fazer o filme, mesmo que ele tenha se tornado seu maior sucesso comercial. Paul também foi pego pelo produtor americano e teve sua vida e sua arte arrancada de suas mãos.


Eu ter assistido esse filme há muito tempo está prejudicando essa resenha. São tantas as camadas e temas discutidos. A superficialidade da arte industrializada, o consumismo, a artificialidade do cinema (enfatizada nas cenas filmando os sets de filmagem tanto de Le Mépris quanto dessa adaptação fictícia de A Odisseia, cujos trechos são apresentados ao expectador), a sutil diferença entre ter e possuir e como é fácil deixar de ter ou concluir que nunca se teve.


Escrevendo essa resenha, e talvez por uma parcela de culpa de Bardot, senti saudade desse filme. Quero revê-lo. Por isso o leitor deve concluir que isso é uma indicação. Assista e veja por você mesmo. Mas veja com atenção e se procure nos monólogos a dois que os personagens se interpretam, mas se procurem sem medo de se encontrarem. Le Mépris é uma obra pessoal, mas não indecifrável ou autobiográfica, é um desses filmes que definem a teoria do auteur, e, principalmente, merece ser chamado de clássico hoje em dia.

Nota: 5/5 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Solidão - Capítulo 1 - Parte 3


Não leu as primeiras partes, aqui tua chance:
http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/03/solidao-capitulo-1-parte-1-romance.html         
http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/03/solidao-capitulo-1-parte-2.html   

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Morava em um prédio de três andares, na rua ao lado da faculdade. Toda a segurança do lugar se baseava em uma porta de ferro, toda marcada de ferrugem, da qual caiam lascas de tinta seca sempre que a usavam. Pelas frestas, entrava o cachorro da família que morava na casa em frente ao prédio. Sempre o fechavam do lado de fora, então ele se abrigava na garagem; Tomas batizou-lhe de Baltazar, e ele era como um porteiro cumprimentando os moradores que entravam e saíam.
            Não tinha muito que comer em casa, só um pacote de pão de forma guardado no armário suspenso sobre a pia da cozinha, e um pacote de presunto e queijo na geladeira. Fez um sanduíche, abriu uma das cinco cervejas que lhe restavam, e almoçou sentado na poltrona, única mobília da sala, com exceção de uma escrivaninha sobre a qual havia um computador ressuscitado, um toca discos cedido pelo pai - que nem o usava, assim como tampouco lia e ouvia os livros e discos que doara ao filho – e um sofá preto, de dois lugares, abandonado pelo dono anterior, com pedaços do estofado faltando.
            Seu pai, Alfredo, gostava de colecionar e exibir uma cultura que não tinha. Era um gosto que ia além da impressão de respeito que ele parecia receber pela farsa. Ele, que era bem conhecido como um dos únicos empreendedores de sucesso da cidade de N, divertia-se ao se exibir para seus convidados, não ao ver a cara de admiração que eles formavam diante das edições por vezes raras de grandes obras literárias, mas pelo fato de que Alfredo sabia que os convidados, assim como ele próprio, não faziam ideia do que todos aqueles volumes tratavam. Era uma farsa consciente e satírica. Impressionou-se ao ver seu filho tomando interesse por tudo aquilo, então não viu mal em abrir mão de alguns títulos.
            Por isso Tomas queria tanto se afastar. Aquele mundo comercial era muito cheio de imagens e sorrisos. Até a esposa de Alfredo fora escolhida seguindo esse padrão exibicionista. Depois que se divorciou da primeira esposa – mãe de Tomas – e ela sumiu com o dinheiro que recebeu, ele foi atrás de uma moça poucos anos mais velha que o filho. Adriana era uma dessas que poderia facilmente ter seguido carreira de modelo, se não fosse necessário tanto esforço para entrar nesse meio. Era dessas que buscava uma espiritualidade pessoal e interna. Nasceu católica, mas achava chato; foi evangélica, mas achou rígido; budismo, ela achou confuso; hare krishna era legal, mas de jeito nenhum vestiria aquela cortina; espírita, teve medo; umbandista, ainda mais medo. Só não tentou islamismo, porque não tinha mesquita por perto, e judaísmo porque achou que seria igual ao cristianismo, sem o natal no fim do ano. Entregou-se a meditação e ao yoga e à ideia de que tudo era lindo e iluminado e verdadeiro, mesmo que não fosse.
O pior de tudo, para Tomas, foi que, nem com a pouca diferença de idade, a garota deixou de interferir em sua vida, mesmo que mal fizesse parte dela. Quando tinha treze anos, seu pai estava decidido a levá-lo a um puteiro – o mesmo ao qual ele foi levado com a mesma idade -, para que ele desse seus primeiros passos. Houve uma grande discussão, imagina que, nos tempos de hoje, ela permitiria uma coisa assim. Ele teve que ceder. Também não foi fácil quando seu pai decidira, dois anos depois, que era hora de ele conhecer o mundo dos uísques. Dessa vez, ela teve que aceitar, mas não sem protestos. Tomas não entendia por que ela insistia em se meter, mas não tinha energias para brigar. Decidiu, desde aquele tempo, que iria embora assim que surgisse a primeira oportunidade. Fugiria daquele mundo ao qual ele não pertencia para começo de conversa. Até nisso, na sua partida, eles ainda deram um jeito de interferir.
            - Filosofia? – seu pai ironizou. – E o ganha pão virá de onde? Pedindo na rua? Olha, você é meu filho e toda essa história, mas de jeito nenhum eu vou te sustentar pro resto da vida. Você é maior de idade, quase maior de idade, faz o que quiser, mas vai ter que se virar.
            - Por que não seguir com a empresa do seu pai, Tomas? Já tá tudo feito, é tudo seu. O que você vai fazer?, vai dar aula? – argumentava Adriana.
            - Veja bem, se você tem medo de ser malvisto pelo pessoal da empresa, nem pense nisso. Ninguém vai saber que você é meu filho. Você vai começar de baixo, como eu, no meu tempo, comecei. E se não fizer por merecer, não vai subir. Afinal, não cheguei aqui colocando gente incompetente pra ajudar na gerência. Vai ser tudo pelo seu mérito, filho.
Tomas, durante o interrogatório, se perguntava onde aqueles dois se enfiaram durante tantos anos para só aparecerem naquele momento. Por um momento, quase acreditou que sua mãe voltaria também, pedindo para que ele fosse médico ou coisa parecida, não aconteceu. No fim, fizeram um acordo. Ele poderia fazer o que quisesse, dado que, em um ano, passasse a se sustentar. Prometeu a si mesmo – que lhe valia mais - que faria em menos, e cumpriu.

O sol se punha e ele pensou em sair para conhecer melhor a cidade. Poderia ir ao bar, mas não tinha dinheiro, muito menos vontade de ir a um lugar apenas pela presença social, sem beber nada. Decidiu que, ao invés disso, leria o livro do tal do Allard, que era de graça. Lembrou-se então que não precisava mais daquele emprego no sebo. Seria bom avisar. Se passasse lá na hora do almoço, talvez até revisse a moça dos cabelos, que cruzou com ele pela manhã. Não fazia muito sentido. Uma loja que mal tem cliente não precisa de ajudante, exceto que o cara que o atendeu – esqueceu-se de perguntar o nome dele – estivesse pensando em sair. Não precisaria dizer nada. Caso alguém ligasse, diria que tinha sido contratado por outro lugar, o entenderiam. É, não seria necessário voltar lá e perder tempo com caminhada.
Foi pegar outra cerveja antes de se acomodar para a leitura. Sentou-se, tomou um gole e analisou a contracapa. A sinopse dizia se tratar de um romans à clef baseado nos dias de autoexílio do autor em Paris. Foi relembrando do discurso do guia do sebo enquanto lia. Estava desconfiado que Jean Allard não tivesse meios de conhecer toda aquela gente da geração perdida. Não quis falar nada para não causar constrangimento, não sabia o quão sensível os funcionário era com relação à veracidade da história, mas Hemingway e Pound não estavam mais em Paris na década de trinta. Joyce, talvez estivesse, não tinha certeza, mas era só. O livro em si, pelo menos nos primeiros capítulos, não dava nenhum sinal dessas personalidades. Só depois do terceiro capítulo, é descrita uma figura magra, com um bigode e visão ruim, seu nome é Aloyseous, nome do meio de James Joyce, escrito diferente. Poderia ser, mas não sabia o suficiente da história para apontar como referência. Toda a cena era baseada nesse encontro entre os dois, por acidente, em um dos vários cafés de Paris. O alter-ego de Allard, que não tinha nome, tomava um Pernod e via, do outro lado do bar, esse escritor que havia acabado de publicar uma obra-prima, o livro que silenciou todos os autores, ao mesmo tempo que encheu de inspiração alguns e de fúria tantos outros. Pensava se ele, um amador, deveria se aproximar, lhe mostrar seus manuscritos, contos e poesias, buscar nele alguma inspiração divina. Tomas pegou outra cerveja, a última da noite, tinha apenas mais duas e o dinheiro não era o suficiente para comprar mais – tinha o que seu pai lhe deixara em uma conta poupança, mas, para Tomas, não bastava deixar de receber, precisava devolver o máximo possível; os gastos de uma vida como filho. Não seria possível, mas aquele pouco seria simbólico o suficiente.

Seus olhos continuavam a passar pelas palavras, mas, após o começo do quarto capítulo, ele já não estava lá junto com a história. Tinha dito que queria ser escritor. Seria coisa do subconsciente? Diga a primeira carreira que lhe vier em mente e foi isso que saiu? Quando adolescente – longínquos dois anos atrás, parecia bastante tempo para Tomas -, escrevera um poema uma vez, um presente para a ex-namorada. Não tinha sido a primeira tentativa com poesia. Sua memória mais distante vinha de uma aula na sétima série. Pela primeira vez na vida, tivera uma professora jovem. Ela tinha vinte e quatro anos, estava começando um mestrado em Literatura Comparada, na esperança que poderia virar professora de faculdade depois de receber o título. Até lá, ensino fundamental tinha que servir. Tomas nunca prestara tanta atenção em uma aula antes. Alguma coisa sobre Fernando Pessoa e cabelos ruivos, Carlos Drummond de Andrade e olhos azuis no meio do caminho, Castro Alves e a curiosidade virgem de saber até onde iam aquelas sardas. Durante o ano inteiro, vasculhou a biblioteca da escola e a coleção de sua família atrás de volumes de poesia. Contava sílabas, identificava tônicas e inventava rimas, algumas até ricas, na esperança de um sorriso, um parabéns e um pouquinho de atenção. Coisa ou outra recebeu, mas não era real ainda. Para algo, aquele fascínio lhe serviu. Uma forma de despertar duplo para o adolescente. Escrever não era nada além daquilo, afinal. Formar frases, palavra por palavra, na esperança de criar alguma coisa. Poderia tentar uma vez, ver como se sentia. Mas onde estava mesmo? Chegou a virar páginas, mas o cérebro não pôde captar nada. Melhor seria desistir, tinha que acordar cedo no dia seguinte.

***

Gostaram até aqui? Então, sei que é sacanagem e que não é o suficiente para dar uma impressão clara do livro, mas só vou postar mais um capítulo depois desse e não será o segundo. Acho que vai ser o quinto ou o sexto, um que seja bem importante para a narrativa, mas não deixe nada muito claro. A ideia aqui e tirar uma primeira impressão dos poucos leitores e, quem sabe, conseguir que alguém compre o livro caso ele seja terminado e publicado (nem quero pensar nessa parte complicada das coisas). Não vou postar mais nada além disso porque, do contrário acabo deixando o livro todo aqui. Solidão, pelo que eu pude perceber, não será um romance longo. Sem falar que essa fragmentação aumenta a curiosidade. "O que aconteceu?", "Como isso foi parar aí?" etc.
Obs.: quase postei um texto que deixei preparado para anunciar o fim do blog (porque, sim, eu tenho um post de despedida no rascunho, nunca se sabe quando vai ser necessário) por causa do 1º de abril. Quando fui postar, eu mesmo me enjoei do meu clichê. 1º de abril é dia de terminar blogs, terminar canais do youtube, anunciar absurdos. Se você faz isso, não faça mais. Cansou, ninguém acredita. Se eu consegui me controlar, você também consegue.