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terça-feira, 25 de março de 2014

Solidão - Capítulo 1 - parte 2


Não sabia exatamente o caminho até os outros dois destinos, qual vinha antes ou depois, só tinha os endereços. Decidiu ir até a loja no shopping primeiro. Por se tratar de um lugar maior, deveria ter um processo de seleção de funcionários mais formalizado, possivelmente nem aceitariam seu currículo, mas precisava de um emprego e tentaria de qualquer forma. Chegando, viu que estava certo. Recebeu alguma atenção de uma vendedora enquanto ela ainda achava que ele poderia ser um cliente, mas quando soube que ele só estava atrás de trabalho, disse que não sabia como ele deveria proceder. Foi passado para um outro vendedor, que também não tinha certeza, até que o último, que tampouco parecia disposto a ajudar, disse que deixaria seu currículo com o gerente e, caso surgisse o interesse, ele seria chamado. Sabia que isso era uma forma educada de se livrarem dele, mas não estava com vontade de confrontar nem insistir. Sentou no banco do shopping por uns minutos antes de voltar para a rua, aproveitando o ar condicionado. Olhou ao redor, lojas vazias, incluindo a que ele acabara de sair. Era o fim de uma manhã de segunda, era óbvio que estaria vazio, com exceção de alguns estudantes perdendo tempo em praça de alimentação ou vagando pelos corredores. Quando sentiu que descansara o suficiente, seguiu para a livraria, sua última opção nesse ramo.
            Não sabia dizer por que estava procurando uma vaga de vendedor nesse tipo de loja. Achava que eram as únicas coisas das quais ele entendia e achava-se capaz de ser persuasivo sobre – livros e música. Se tudo desse errado, ainda via esperança em tentar a sorte com as duas locadoras que ele ouviu dizer que existiam naquela terra. Todos negócios condenados, quando ele parava para pensar. Se queria poder começar a pagar o aluguel e se livrar do auxílio de seus pais, tinha que desenvolver outras opções. Para a faculdade, era bolsista, mas o curso não lhe ajudava com possibilidades de emprego. Pela primeira vez, cogitara que seu poderia estar certo. Era melhor que ele tivesse se rendido, ido estudar Administração e começado a cuidar do negócio dele. Não havia por que desistir ainda. Tinha mais uma opção, pelo menos naquele dia. Deixaria os planejamentos para depois que tivesse as respostas.
            Dessa vez o lugar não estava vazio. Um dos vendedores, verificando o acervo no computador, ajudava dois estudantes, e uma senhora vasculhava as estantes do fundo da loja. Foi atendido rapidamente pela outra vendedora e ele disse que tinha um currículo para entregar, caso fosse possível. Ela pensou um momento, olhou em direção a uma porta próxima àquela senhora, e apontou para lá, dizendo que seria melhor que ele falasse direto com o gerente; era só bater a porta que ele o atenderia. Obedeceu e logo foi convidado a entrar na salinha da gerência, que mal tinha espaço para uma mesa e duas cadeiras. Foi convidado para se sentar enquanto o gerente pegava o currículo das mãos de Tomas. Os dois se apresentaram, o nome do gerente era Francisco.
            - Você, então, está interessado em trabalhar aqui? – Tomas afirmou. – Tem algum cargo específico em mente?
            - Acho que poderia servir como vendedor. Leio bastante e conheço autores pelo nome. Mas isso não é tão importante, dependendo de qual vaga você tenha...
            - É justamente essa que temos em aberto – o gerente interrompeu. – Um dos funcionários, você deve ter visto ele atendendo os estudantes, está em aviso e eu estava prestes a começar a procurar por um substituto, ainda não cheguei a procurar. Aqui diz que você estuda filosofia – ele lia do currículo. – Em qual ano você está?
            - Ainda não começou, a primeira aula é só semana que vem. Então, primeiro ano.
            - Entendi, o currículo tem vista para o futuro, então – deu uma risadinha. – Isso não importa muito, só estou curioso para entender por que um aluno de filosofia iria querer vender livros.
            - Bom, pra começar eu gosto de livros, acho que entendo do assunto. E filosofia não é um curso que oferece um grande leque de oportunidades profissionais.
            - Tem isso. Você quer se tornar professor, é?
            - Parece que sim, mas não sei bem ainda.
            - Não sabe? O que você quer fazer da vida, já pensou nisso?
            Ele não sabia. Tinha pensado na pergunta, mas nunca conseguira chegar à resposta. Por algum motivo, escrever lhe veio a mente. Não escrevia. Pensara nisso antes, mas, de fato, nunca pusera o plano em prática. Respondeu isso de qualquer forma.
            - Você quer ser escritor, então? De quê?  Romances?
            - Possivelmente, se tudo der certo.
            - Quem você lê?
            - Gosto de alguns americanos, Hemingway – o gerente parecia gostar do que ouvia -, russos também. Mais ligados à filosofia, gosto muito de Dostoiévski e Camus. Digamos que, se eu fosse capaz de tanto, gostaria de fazer o que eles fizeram. É claro que não conseguiria fazer o mesmo, nem uma parte, é só a vontade.
            - São boas leituras de qualquer maneira. Eu fiz uns poemas no passado. Até publiquei alguns em revistas por aí. Acho que meu ápice foi ganhar um concurso faz uns cinco anos. Um livro três anos atrás.  Só que é difícil vender poesia, hoje eu sei disso melhor que nunca. Talvez, com romances, você tenha melhor sorte que eu. Quando você pode começar?
            Foi surpreendido, um pouco, pela mudança brusca de assunto. Levou mais tempo do que precisaria para responder e até gaguejou quando a resposta finalmente saiu.
            - Quando vocês quiserem.
            - Amanhã, que tal? Aí você já vai aprendendo com o Carlos o que ele faz. Você vai ver que é bem tranquilo. De início, o pagamento não é uma maravilha, mas vai melhorando. Depende mais de você, honestamente. Tu é estudante, mora sozinho aqui, é isso? – Tomas concordou com um balançar de cabeça. – Então vai ser o suficiente pra te sustentar.
            Levantaram-se e se cumprimentaram.
            - Até amanhã – disse Tomas.
            Foi embora aliviado. O seu primeiro objetivo em P estava cumprido. Com aquele salário, não precisaria mais de seus pais a partir do mês seguinte.

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Parte 1: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/03/solidao-capitulo-1-parte-1-romance.html
Tem mais uma parte ainda. Depois postarei o capítulo 5 em partes. O resto não vai pro blog, só em livro, caso eu publique. Pois é.

sábado, 22 de março de 2014

Spring Breakers [Spring Breakers: Garotas Perigosas] - Harmony Korine (2012)


Esse filme gerou notícia em 2012, né?, na época do lançamento. Mais ou menos. Acontece que duas das atrizes principais, aparentemente, são ex-estrelas adolescentes contratadas da Disney, Selena Gomez (interpretando a Faith) e Vanessa Hudgens (interpretando a Candy). Um monte de garotas adolescentes, fãs dessas duas atrizes, assistiram esse filme esperando sei lá eu o quê. Eu, nesse caso, sou meio que um oposto. Não faço ideia de quem são essas garotas, mas sei quem é Harmony Korine (ainda não sei se pra minha felicidade ou infelicidade). Sabia bem o que esperar e não fui surpreendido, ao contrário das mocinhas juvenis que tiveram suas infâncias demolidas.

Demonstração do poder feminino, disseram algumas feministas. 
Pra quem não acompanhou a história toda, Spring Breakers (que no Brasil recebeu o "muito necessário" subtítulo de Garotas Perigosas, afinal por que não?) é a história de um grupo de jovens garotas que decidem viajar à Florida, durante o famigerado Spring Break dos EUA. Isso não traduz bem aqui no Brasil, mas lá eles têm um feriadão de primavera que, tradicionalmente, envolve viagens para a Florida, litoral sul do país, assim como o uso de drogas e todo o tipo de putaria que você possa imaginar. Faith (a religiosa, porque só esse nome não seria sutil o suficiente), Candy, Brit (Ashley Benson) e Cotty (Rachel Korine, sim, a esposa do diretor), decidem fazer essa viagem. Roubam um restaurante para arranjar dinheiro - exceto por Faith, que é uma moça de deus e nem sabia de nada disso - e se mandam para a Flórida, buscando diversão e liberdade e encontrando algo mais que isso.

A esposa do diretor.
Como eu disse, conheço Harmony Korine. Assisti clássicos como Trash Humpers (Encochadores de Lixo - tradução livre) e Ken Park (o filme com as cenas de sexo não simuladas e a asfixia autoerótica e o assassinato de velhinhos). Com isso eu quero dizer que tô vacinado. Você, menininha juvenil que não sabe do submundo do cinema, sinto muito que você tenha sido desvirginada com essa porra. Mas a culpa foi sua. É isso que dá se meter a ver um filme sem conhecer a obra do diretor. Dizer que esse filme é escroto, violento, cheio de drogas e sexo, é pleonasmo. É isso que o cara faz, ele pega o pior do ser humano e celebra, e transforma em "arte".
Se você é uma das adolescente que caiu na armadilha do filme, é a sua infância que eles estão cheirando.
De início eu estava pensando em ignorar esse filme, justamente por já ter uma ideia do que ele seria. Mas mudei de ideia quando via a forma que ele dividiu os críticos. Os que gostaram diziam que ele apresenta uma crítica social da classe média branca americana, dá poder à mulher, ironiza a cultura pop e a ideia do consumismo desenfreado. Os que não gostaram dizem que o filme é uma bagunça, indeciso, explora as mulheres, é racista e é mais estilo que substância.

É necessária uma legenda aqui?
Vi o filme e concordo com as críticas negativas. Eu até entendo os argumentos daqueles que gostaram do filme. Em alguns momentos, a crítica social parece estar presente, mas, conforme o "enredo" avança, ele mais parece uma celebração a essa cultura de consumo que uma crítica. Uma das resenhas negativas até apontou que a câmera passa pelo corpo das mulheres como uma língua, e eu não vi uma descrição mais precisa que essa até agora, nem pude pensar em nada melhor. É exatamente isso, cenas e mais cenas de corpos passando pra lá e pra cá. Nada contra, algumas das imagens dariam um bom clipe musical, mas chamar de ironia é forçar a barra.


Nem mesmo posso acusar Harmony Korine de ser pretensioso, porque ele está longe disso. Ele é só um cara que desde jovem desenvolveu uma certa visão para o cinema e seguiu com ela independente das críticas negativas ou positivas. Ele faz o que ele quer do jeito que ele quer. E essa é sua única motivação, um Id gigante segurando uma câmera. Harmony quis filmar um grupo de idosos mascarados encochando lixo, cometendo crimes e fazendo merda, foi o que ele fez. Harmony quis filmar um grupo de imitadores indo para uma ilha e fazendo merda, foi o que ele fez. Harmony quis filmar um grupo de adolescentes cometendo crimes e fazendo merda, foi o que ele fez. E ainda capitalizou nos corpos das menininhas da Disney que queriam de alguma forma desligar o nome delas das produções infantis, mostrando que são adultas ao fazerem coisas que adultos fazem, como cheirar cocaína (elas são presas por isso), roubar um restaurante (por algum motivo, não gerou consequências), assassinar uma gangue inimiga por completo usando somente um biquíni, uma máscara e uma metralhadora. Vocês sabem como é, coisa de adulto.
Resumo da obra. Se não me engano foi Godard quem disse que para fazer um filme basta uma mulher e uma arma.
É direito dele, até aí. Se ele quis chocar o grande público fetichizando  figuras pop, bom pra ele. Acontece que o choque é limitado apenas aos que se importam com o que essas atrizes fazem da vida. O resto de nós, muito possivelmente, perceberá que o filme é uma fera sem dentes. É estabelecido bem cedo, quando Faith decide ir embora e consegue, que o caminho que elas estão seguindo tem volta. Não tem perigo, não tem consequência. Se a coisa apertar, vá embora. E o final só reforça essa fraqueza.


Nem tudo é ruim em Spring Breakers, no entanto. Não dá pra dizer que o estilo e o uso das cores não chama atenção. A cinematografia é muito boa, nas mãos de Benoît Debie (outro cara que as adolescentes não conhecem, o homem responsável por filmar a cena de estupro de 10 minutos em Irreversível). A trilha sonora causa dor de cabeça, mas me pareceu intencional, então ponto pro filme. E a atuação do James Franco, embora eu não simpatize nada com ele, é muito boa, surpreendentemente. Reza a lenda que o personagem dele, Alien - que se pronuncia Ay-leen, mas se escreve Alien porque foda-se, então eles continuam pronunciando como se fosse Alien; confuso, né?, pois é, desnecessariamente confuso -, foi baseado no rapper Riff Raff. Na verdade, Riff Raff seria o ator a interpretar esse personagem, mas no fim James Franco pegou o papel e imitou o cara. Riff Raff processou os criadores do filme, mas não deu em nada e não importa, o que eu ia dizer é que a interpretação do James Franco até que é muito boa, principalmente porque o personagem dele é o único que recebe uma personalidade, unidimensional que seja.

Essa cena foi engraçada, eu admito. Quase acreditei em toda história da sátira e da ironia depois dessa.
Com toda essa polêmica, a impressão que fica de Spring Breakers é a de um filme ruim, mas estilizado o suficiente para fazer alguns críticos tirarem sentidos dele que não existem. Não tem crítica. Dependendo da sua experiência cinematográfica, não tem choque. Só me deu uma puta dor de cabeça por causa da música pulsante, todos os moleques gritando, pulando e atirando bebida de baixo teor alcoólico um no outro, e as imagens rápidas e fragmentadas que mais parecem um amontoado de memórias de ressaca. Uma tentativa original, talvez, mas imatura demais pra causar qualquer impacto.

Nota: 2/5 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Solidão - Capítulo 1, parte 1 [Romance]


Lembram que eu estava escrevendo um livro cujo título provisório seria Inocência, sobre dois amigos, Tomas e Ernesto, contando a história do crescimento dos dois? Eu terminei aquele livro, mas, ao dar início à temida revisão (uns 3 meses depois de terminar o rascunho), vi que era ilegível para os meus padrões. Recomecei do zero, avancei por 4 capítulos e não consegui continuar. O motivo foi que as histórias de Ernesto e Tomas já não me pareciam conectadas o suficiente para serem um mesmo livro, por isso separei os dois. Decidi começar a escrever a história de Tomas como livro individual, tendo como título provisório Solidão. O enredo, se me permitem falar um pouco sobre ele antes de postar parte do primeiro capítulo, é bastante simples. Um estudante de filosofia que, cedo na vida, perde toda a sua ambição até encontrar Naima, estudante de letras e artista, que lhe apresenta um outro mundo. Chega, o resto vocês vão ter que ler. Aqui está um trecho do primeiro capítulo (o resto dele será postado num futuro próximo, só dividi porque o capítulo tem 9 páginas e ninguém lê um post desse tamanho). Qualquer comentário é bem-vindo, só aviso que o trecho não foi revisado. Reli para evitar erros muito absurdos, mas ainda existe a possibilidade de eu mudar palavras, mexer em algumas coisas, pra melhor sonoridade e ritmo, coisas do gênero. Não sei bem até que parte vou postar no blog. Talvez não faça algo linear como da última vez, ao invés disso eu poste o capítulo um e o capítulo cinco, pra vocês terem uma ideia do progresso da história sem ficarem sabendo de muitos detalhes. Depois decido isso, por enquanto leiam.

***
1

            Passaram quase ao mesmo tempo pela porta do sebo. Ele entrando, ela saindo e virando para o lado oposto do qual ele vinha. Tomas parou e se deixou observá-la indo embora. Pequena de longos cabelos que fluíam como cortinas negras ao vento daquela manhã ensolarada cobrindo a maior parte das costas; sandálias rasas brancas com jeans azul acompanhando uma camisa branca com detalhes azuis e amarelos, possivelmente, era o uniforme de uma das escolas de P, cidade para a qual ele tinha acabado de se mudar – nem uma semana atrás -, mas sabia reconhecer um uniforme escolar quando o via. Pensou que talvez ela fosse muito nova, até que deixou de ser importante, ela sumiu virando a esquina.
            Entrou e ouviu a campainha alertando de sua presença. Passando a porta de entrada havia um corredor com uma porta paralela a cada uma das paredes que o formava. As portas levavam a duas salas quase idênticas, forradas de estantes. Reto a frente de Tomas, seguindo pelo corredor, havia outro espaço amplo no qual estava o caixa, outra porta, que levava ao setor dos discos, e uma escada de passagem impedida que levava ao segundo andar. O piso era todo de madeira e rangia, o que fazia que Tomas tentasse andar com mais leveza, evitando fazer muito barulho, como se o chão corresse o risco de arrebentar. O funcionário no caixa encarou Tomas por um tempo.
            - Bom dia senhor – ele chamou. – Posso ajudá-lo com alguma coisa?
            - Na verdade, acho que pode – estava nervoso. – É que, talvez vocês nem estejam precisando, mas eu queria deixar aqui meu currículo. Estou procurando emprego, caso vocês precisem de mais algum funcionário.
            - Claro, sem problema. Eu não tenho autoridade nenhuma pra contratações, mas vou guardar teu currículo aqui. A dona, senhora Mônica, não se encontra. Ela saiu cedo de manhã e não sei quando volta, por isso não posso fazer nada por você agora. Mas, assim que ela chegar, entrego isso pra ela e falo de você – estendeu a vogal enquanto olhava no papel o nome -, Tomas. Aqui tem seu contato, né? Sim, achei.
            Ele agradeceu e pensou em ir embora, mas o funcionário perguntou se ele já tinha passado por ali alguma vez antes.
            - Não, sou novo na cidade.
            - Quer dar uma olhada nas estantes, conhecer o lugar? Pode ser que você se interesse por algum livro.
            Ele aceitou a proposta e os dois foram até o corredor, no ponto entre as duas portas.
            - Aqui à direita ficam os livros de auto-ajuda, religiosos, história, didáticos, essas coisas. À esquerda ficam os de literatura, nacional e internacional, teatro e filosofia. É isso que você estuda, não é? Vi no currículo, de relance.
            - É, isso mesmo.
            Começaram pela sala da esquerda, então. O funcionário foi apontando para cada estante, explicando como cada volume era organizado e falando das coleções que eram postas separadamente. Foi ele quem organizou tudo aquilo, fez questão de inserir no discurso discretamente. Falava como um guia turístico liderando, não só um cliente, mas todo um grupo de estrangeiros em um país exótico.
            - Aqui é a parte de literatura nacional – parou e retirou um livro, como que a esmo, mas sabia bem qual estava pegando. – Conhece esse autor? – entregou a obra a Tomas.
            Tomas deu uma analisada no volume, no nome do autor e na sinopse da contracapa. Dizia se tratar de um roman à clef baseado no período de autoexílio do escritor na Paris da geração perdida.
            - Não, acho que nunca ouvi falar nesse autor.
            - Ele é muito desconhecido por aqui. Mas foi ele, Jean Allard, quem fundou essa livraria. Por isso o nome, Livraria e Sebo Allard.
            Tomas percebeu que não havia reparado no nome do lugar antes de ir entrando. Foi bom ter sido alertado, caso o telefonassem de fato.
            - Esse nome é um pseudônimo – continuou o guia. – O nome de batismo do autor era João Guilhermino de Almeida, mas só um livro, que, se não me engano, foi uma...foi? sim, foi uma coletânea de contos. Nunca chegou a publicar um romance com esse nome. Esses contos se perderam no tempo, em edição original, ninguém falou sobre eles nem queriam mais publicar nada dele por aqui. Então ele foi para Paris, isso na década de trinta. Reza a lenda, e isso se acredita pelas coisas que ele escrevia e dicas que ele deixava nos livros, que foi amigo de gente como Ernest Hemingway, Ezra Pound, James Joyce. Conhece alguma coisa deles?
            - Sim, sim. Não sabia que tinham brasileiros escrevendo por lá nessa época.
            - Que eu conheça, tem ele. E lá na Europa ele foi muito bem-sucedido. Até hoje dá pra encontrar coisas dele pelas livrarias de lá, e vendendo. Mas, depois de passar um período na Suíça durante a Segunda Guerra, ele voltou ao Brasil. Ficou um tempo em São Paulo, aproveitando um pouco do novo reconhecimento, até que voltou pra cá quando recebeu notícias da morte da sua família. Essa é a casa em que ele nasceu e passou seus últimos dias. A senhora Mônica foi enfermeira dele, quando ele já estava no fim da vida, lá em meados de setenta.
            No início da apresentação, Tomas estava preocupado que aquilo pudesse levar muito tempo, mas agora estava muito interessado graças a todos os nomes mencionados.
            - Se você quiser, pode levar esse livro – o funcionário, encerrando seu tour, disse.
            - Não vai dar, estou sem um centavo. Por isso vim entregar o currículo – disse checando os bolsos com alguma esperança não realizada de achar um trocado.
            - Fica tranquilo. Têm três cópias desse livro aqui, só cinco reais cada. Cá entre nós, ninguém compra. Pode levar.
            Tomas agradeceu uma última vez e disse que estaria à disposição caso houvesse uma vaga, só para reforçar. Despediram-se e Tomas ainda tinha outros dois lugares para visitar. Um era uma loja de CDs no shopping e outro uma livraria.

continua.

sábado, 15 de março de 2014

Eu me rendo.

Depois de um ano e onze meses, fiz uma porra de uma página no facebook para essa bagunça que eu insisto em chamar de blog. Acho que minha vontade de ser lido superou meu desejo por reclusão e eu não sei como eu me sinto quanto a isso. Vocês que já conhecem o blog e o leem com frequência, curtam a porra da página, só pra não fazer desfeita. Ainda não sei como funcionam os esquemas por lá nem estou ansioso pra descobrir, mas uma hora eu pego o jeito. Vamos ver se dá certo. É só isso que eu tinha a dizer. Pode não ser grande coisa pra você, mas pra mim é a morte de um ideal. Não deixem que essa morte seja em vão.

Onde está a página? Aqui do lado, embaixo de "Hospício", "Feicibuk". 

sexta-feira, 14 de março de 2014

Sugestões Musicais do Tio Rapha

Isso não é uma das minhas resenhas convencionais. Era pra ser, juro que tentei, mas não foi. Estou aqui nesse post para lhes falar de 3 álbuns de 3 artistas diferentes tão bons que eu precisei falar deles para meus leitores, isso, todos os meus 3 leitores. Ouvi cada disco mais de uma vez, atentamente. Não foi só deixar tocando enquanto fazia outras coisas, foi audição atenta e dedicada, com direito a leitura das letras (aquelas em português, apesar de só o som cantado dessa árabe já ser uma beleza mesmo eu não entendo porra nenhuma do que ela diz) e análise das peculiaridades de cada um dos músicos. Uma observação, algumas dessas músicas tem bem mais influência eletrônica do que o que eu estou acostumado, mas fazer o que? Não é que é bom. Na hora de botar toda essa dedicação em palavras, não veio nada. Por isso, para vocês que precisam de resenha convencional, meu veredicto: bom pra caralho, todos eles recebem meu muito valioso selo de qualidade. Pro resto de vocês que só querem ouvir boa música, fiz uma breve playlist para vocês ouvirem, misturando os melhores momentos de cada disco.

Para vocês que querem baixar ilegalmente comprar cada um dos discos, esses são os nomes de artista e álbum, respectivamente:
CéU - Caravana Sereia Bloom (2012)
Criolo - Nó na Orelha (2011)
Yasmine Hamdan - Ya Nass (2013)



Bônus: cena de Yasmine Hamdan em Only Lovers Left Alive.

terça-feira, 11 de março de 2014

Only Lovers Left Alive - Jim Jarmusch (2013)


Essa deveria ter sido a terceira resenha de um filme do Jim Jarmusch aqui nesse blog, mas a resenha de Homem Morto (Dead Man, 1995), mas esta se recusou a sair, muito simbolismo para analisar em apenas uma assistida. Only Lovers Left Alive (sem título no Brasil ainda, mas pode acabar como algo entre Apenas Amantes Sobrevivem, Uma Família Sanguinária ou Vampiros Rock 'n' Roll; vamos torcer pela primeira opção, ou pela terceira para efeito cômico), mais recente obra do diretor que aos poucos está se tornando meu favorito entre os "atuais", é uma obra surpreendente acessível sobre vampiros, que estavam na moda até pouco tempo atrás, mas acho que já saíram.


Desde o século dezenove, Adam (Tom Hiddleston - Vingadores, Meia-Noite em Paris) e Eve (Tilda Swinton - Adaptação, Moonrise Kingdom) são casados. Embora nunca fique claro quando eles se conheceram ou quando se tornaram o que são, deixando apenas como dica  algumas observações de Eve sobre o século quinze e sobre como Adam perdeu a diversão que foi a peste negra e a inquisição. Atualmente, Adam vive em Detroit, gravando músicas em segredo, para si próprio, em completa reclusão; Eve, em Tânger, Marrocos (lugar que tenho muita vontade de conhecer), cercada de livros e frequentemente visitando outro vampiro, o poeta e dramaturgo Christopher Marlowe (John Hurt - O Homem Elefante, Homem Morto -, no terceiro trabalho com Jarmusch). Não é porque os dois vivem separadamente, que se divorciaram ou deixaram de se amar, continuam sempre se falando por skype - pois é, olha os vampiros na modernidade - e compartilham uma conexão que só um casal de séculos compartilharia. Ainda assim, Adam está meio deprimido com a humanidade (zumbis, como ele chama os não-vampiros), então Eve vai lhe fazer uma visita para animá-lo e, quem sabe, levá-lo à Tânger de uma vez. Tudo se complica quando Adam, Eve e Christopher têm um sonho premonitório com a vinda da irmã de Eva, Ava (Mia Wasikowska - Jane Eyre e aquela versão desnecessária de Jack Sparrow e Alice no País das Maravilhas pelo Tim Burton), sumida por oitenta e sete anos, mas ainda uma jovem problemática.


Sendo direto, esse talvez seja o melhor filme de vampiros já feito, com exceção dos clássicos do terror, como Nosferatu e Drácula (aquele com o Bela Lugosi no papel principal), mas estes não são padrão comparativo já que são gêneros totalmente diferentes. Only Lovers Left Alive é um filme de vampiro sem gênero. Tá, pode ser visto como um romance, mas não é o foco. O conceito chave da obra, muito claramente, é a eternidade.



Logo de início somos apresentados com um fato sobre os personagens, eles são extremamente cultos. Como não seriam, afinal? Tempo não lhes faltou nem faltará. Mas a forma como isso é demonstrada é cheia de sutilezas e são esses detalhes que fazem o filme. Por exemplo, todos nós temos aqueles autores clássicos que tratamos como deuses, certo? O motivo disso é a impressão de intangibilidade que a vida deles nos dá. Não consigo imaginar como Lord Byron viveu, só conheço sua obra centenária, portanto tenho imenso respeito pelo que ele representa. Adam foi contemporâneo dele, jogou xadrez com ele, por isso pode dizer que ele foi um babaca pomposo. Shakespeare para mim é outro gênio intocável. Para Christopher Marlowe - outro detalhe interessante, esse personagem realmente existiu, apesar de não ser vampiro -, Shakespeare foi um analfabeto superestimado; compreensível visto que os dois nasceram do mesmo ano e muito da obra de Shakespeare foi inspirada no trabalho de Marlowe. Eve não só tem uma biblioteca vasta, mas também multilingual. Convenhamos, você leitor que me lê, se tivesse todo o tempo do mundo, não aprenderia também todos os idiomas só para poder ler livros em seu idioma original? Eve lê chinês, árabe, inglês, espanhol e esses são só os idiomas que eu identifiquei, e não se limitando apenas aos clássicos; em sua mala, ela carrega de Dom Quixote - um romance pioneiro do século quinze - até Infinite Jest - romance contemporâneo, de David Foster Wallace.


Ainda, mesmo tendo todo o tempo do mundo, eles parecem valorizá-lo mais que os mortais. Por isso Adam e Eve aplicam o termo zumbi para a humanidade. Quando Adam fica muito filosófico e questionador, Eve pede para que ele deixe de se preocupar com essas coisas e aproveito o que ele tem e sabe, faça música, dance com ela pela sala. E a forma que eles se dedicam às suas paixões, acho que essa foi a parte que mais me pegou no filme todo. Tantas vezes eu li um livro certo de que aquela leitura seria a razão de eu negligenciar mais tantas milhões de obras que eu nunca teria a chance de conhecer, sequer ouvir falar. E todos os dias eu descubro músicas novas (mesmo quando são antigas) e filmes e livros e formas de artes que nunca me tocaram antes mas por algum motivo passaram a tocar depois de um tempo ou depois de um artista (passei a ver a pintura de forma diferente após Jackson Pollock, Francis Bacon, Edward Hopper, René Magritte e Edgar Degas - esse último também mudou minha visão estética do balé). Literalmente, a cada segundo o ser humano tem potencial para aprender alguma coisa e esses vampiros tem segundos a dar com pau. Sem falar do espaço temporal que eles ocuparam. Nós falamos de Tesla, Darwin ou quem seja, Adam ouviu as teorias diretamente da boca dos teóricos. É um conceito fascinante, mesmo só na ficção.


O que me pareceu é que Only Lovers Left Alive é o primeiro filme inteligente com vampiros. Normalmente o vampiro é um monstro ou uma figura aterrorizante, aqui não. Eles têm instintos predatórios, mas, como disse a Eve, não estamos no século quinze. Um cadáver chupado até a última gota de sangue com uma marca de dentada no pescoço chamaria atenção; vários desses seria o caos. Por isso eles têm seus esquemas de movimentação de sangue. Sem falar que, na versão de Jarmusch, vampiros são suscetíveis às impurezas do sangue humano - doenças, drogas, álcool, tudo isso afeto o sangue e prejudica o vampiro dependendo das quantidades. Mas o que eu mais gostei de tudo, é que a história me pareceu mais uma carta de amor de Jarmusch para os seus próprios gostos. Como eu mencionei no parágrafo anterior, parece que ele percebeu a sua própria mortalidade e projetou seu desejo de poder aprender mais sobre o que ele gosta para sempre. Isso se demonstra na trilha sonora - em parte tocada pela banda do diretor, SQÜRL, outra parte compostas de músicas que ele gosta -, as referências literárias, as referências científicas e até uma referência à cogumelos (mais especificamente o famigerado Amanita muscaria), que o diretor passou a estudar após uma má experiência comendo um fungo selvagem.

Yasmine Hamdan - excelente cantora que eu só descobri por causa desse filme.
O filme acabou me saindo melhor do que o esperado. Já conheço alguma coisa da obra do diretor, por isso tinha minhas expectativas, mas algo me dizia que a banalidade do tema poderia fazer com que ele se perdesse, mas não. Poderia citar como defeito a falta de um objetivo na história. Não existe um começo meio e fim, tudo parece um grande meio, mas então reparei que pode ter sido proposital. O que é a vida imortal se não um grande meio, não é?

Senhoras e senhores, um alaúde; sem mais.
Os lados positivos seriam todo o resto. A beleza das cenas, a poesia do relacionamento entre Adam e Eve, a inteligência, a inventividade muito bem-vinda a esse gênero tão batido, a música, o fato de que Jarmusch nunca subestima a inteligência do espectador (exemplo: a palavra vampiro nunca é dita durante o filme), os detalhes da vestimenta e da aparência geral dos vampiros. Não vi defeitos, pronto.


Nota: 5/5


Bônus: a música "principal" da trilha sonora.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Documentário sobre os rituais de reafirmação monogâmica do animal humano - parte 1 [conto]


Quando chegamos à estrada de terra, em frente ao mar, na qual ficava o bar em que se realizaria o casamento, o sol se punha e alaranjava o céu, encerrando o período claro das noites do horário de verão. No carro estava o gerente da empresa para qual eu trabalhava e sua namorada; eu estava lá de carona.

- Vish, um já caiu – ele disse, olhando para um rapaz que vomitava do outro lado da rua.
- Mas a noite nem começou – comentei.
- É essa rapaziada despreparada que acha que vodca é água.
- Sabe alguma coisa da banda que vai tocar na festa?- a namorada dele perguntou.
- Conheço os caras. São gente boa, exceto o guitarrista que é um puto, mas a música é uma merda. Banda de baile, né?, os caras têm que tocar de tudo. O show varia com o que o cliente manda. Vocês conhecem o Zé, então vai ser de sertanejo universitário pra baixo. Mas não dá nada, umas muitas doses de uísque e vai todo mundo descer até o chão.
- Fale por você.
- Mas tu não conta. Se bebesse era outra história.
- É por isso mesmo que eu não bebo nada, só champanhe e muito pouco.

Me sentia deslocado na conversa. Não achava boa ideia me meter, mas mesmo que não pensasse dessa maneira, não tinha nada a acrescentar. O caminho todo, foquei minha atenção no rádio, que tocava uma variedade de músicas de um pen-drive do dono do carro. No momento tocava Deep Purple.

Deixou o carro no estacionamento e voltamos todo o trajeto até o bar, os saltos de Lúcia se enfiavam na areia, fazendo que ela se agarrasse no braço de Rômulo. Na minha cidade natal, só os padrinhos iam de terno e gravata ao casamento, aqui era diferente. Dezenas de pessoas nos acompanhavam na caminhada, todas de terno e gravata, Rômulo também se vestia da mesma maneira. Eu estava com uma camisa cinza, calças jeans surradas e sapatos pretos, pronto para uma reunião com o partido comunista. 

A noite, em contraste com a fervura que fez o dia, trazia uma brisa refrescante vinda do mar. A lua dava seus primeiros passos, pequena no horizonte. Ao longe era possível ouvir surfistas conversando, música alta das outras baladas que não aquela na qual se realizaria o casamento; tudo pulsava naquela paisagem de natureza violada.

- E aí, Rômulo? – gritou uma mulher que passava correndo com os sapatos em uma mão e levantando um pouco o vestido com a outra.

Ele respondeu a saudação, mas não soube se foi percebido.

- Bicha encarnada essa daí. Sabiam que ela comprou uma Harley Davidson semana passada? Pensa na figura chegando aqui com o vestido longo de festa, salto alto, montada numa Harley. E é a madrinha do casamento a doida.

Todos rimos da visão formada. Então olhamos para trás, tentando descobrir para onde ela corria e o que pretendia fazer, já que o casamento estava prestes a começar.

No bar, ao longo dos decks de madeira iluminados, abaixo dos arcos de entrada ornados com folhas e flores estava uma fila de homens e mulheres, todos vestidos da melhor forma possível. Fomos, eu e Rômulo, cumprimentar nosso chefe, que era um dos padrinhos e estava perto do fim da fila. Rômulo ainda cumprimentou mais uns conhecidos, enquanto eu procurava entrar na cerimônia e me afastar um pouco deles todos. 

- Não vai nem dizer oi? – disse uma voz que me cutucava pelas costas.

Era de uma mulher com quem trabalhei por um tempo, mas que tinha saído da empresa há quase um ano. Não a via desde então e não tinha tantas memórias dela, se não me cumprimentasse, passaria reto e nem seria proposital. 

- Desculpa, é tanta gente que eu até me perco. Como vão as coisas, Giovanna? – disse depois de a cumprimentar e reconhecer a presença de seu namorado que ficava como um segurança ao seu lado, mas um segurança que podia sorrir.
- Tudo bem, apanhando um pouco na empresa nova. E vocês?
- A mesma coisa de sempre.
- A Marta não vem?
- Não, se não me engano é casamento de uma amiga dela.
- E o Zé não é amigo?
- Ele perguntou a mesma coisa quando ouviu ela dizendo isso.
- Mas não é? Porra, ela trabalha com o cara há, o quê?, cinco anos? Nem pra aparecer no casamento?
- Ela disse que era uma amiga de infância, que não se viam faz muito tempo. O Zé deu a benção pra ausência, não precisa se preocupar com isso. Tá a fim de juntar um grupo pra atacar o outro casamento?
- Fala Barraqueira - Rômulo reapareceu com Lúcia dois passos atrás dele. – Como tão as coisas no trampo novo?
- Tá foda, cara. É muita gente, cada um fazendo um pedacinho do trabalho – olhou para cima, suspirou revisando as próprias ideias. – É normal isso em empresa grande, cada um precisa ter sua função, se não a coisa se perde. Mas é um saco. Rotina mesmo.

Nos tempos em que Giovanna costumava trabalhar na mesma ilha de escritório que eu, reclamava dos pedidos variados que nosso chefe lhe passava. Uma hora era porque tinha que embalar amostras de latas de atum para clientes, outra porque tinha que monitorar os custos de frete. Dizia que era do financeiro e sua função era pagar contas, administrar as finanças, salário, entradas e saídas; não tinha nada que quebrar galhos aleatórios porque nossa mão-de-obra era insuficiente e precisava de gente cobrindo buracos toda hora. Dizia que seu sonho mesmo era ser personal trainer, estudar educação física, ao invés de seguir com aquela pós-graduação em contabilidade.

- E como vai a pós? – perguntei.
- Bem, termino esse ano, acho. Se eu conseguir descobrir um assunto pro meu artigo, essa é a outra merda. A gente termina o TCC, já tem que se preocupar com porra de artigo.
- É, rapadura é doce mas não é mole – encerrou Rômulo feito um sábio da montanha.

E todos se puseram em silêncio com a ameaça da entrada da noiva. Os convidados se aglomeravam ao redor do salão. A minha frente havia uma piscina retangular e, sobre ela, uma espécie de ponte. Cruzando a ponte estava o noivo, mexendo os dedos e com um sorriso fixo, nem aberto nem fechado, e o pescoço era uma pedra, aquele mesmo que virava para qualquer saia mais curta que cruzasse seu caminho. E como tinham saias curtas naquele lugar.

Uma pequena orquestra de cordas se sentava ao lado direito das águas, todos com postura impecável, violinos repousados na clavícula, arcos sobre o colo segurados pela mão direita relaxada; violoncelos segurados pelo pescoço por seus donos, com os dedos sobre as cordas. Eles posicionam seus arcos e uma das violinistas treme a mão duas vezes sobre as cordas, deixando sair um gemido engasgado do instrumento, logo calado pelos dedos que impediam a vibração das cordas. Estava afobada e envergonhada, a iris dos olhos quase sumindo pelos cantos de tanto se esforçar para ver se a noiva entrava ou não.

Percebi que nunca tinha visto a noiva antes, nem meio porcento dos outros convidados. Era um penetra com convite, como se isso fizesse sentido. Tanto pela minha vestimenta quanto pela minha ligação com o casal. Já era possível perceber algumas lágrimas aqui e ali e eu nem conseguia fingir interesse.

Primeiro entraram os padrinhos e madrinhas em fila. A mulher da Harley tinha conseguido chegar a tempo e caminhava secando a testa de suor e ajeitando o vestido nas pernas. Depois, quando estavam todos posicionados, veio a noiva. Quando soaram as primeiras notas da marcha nupcial, a violinista mais tensa entrou um pouco atrasada. Seus olhos devem ter levado um tempo para se recolocarem na posição correta. O noivo esqueceu que já estava com a coluna reta quando viu sua futura esposa cruzando a ponte ao som da infame melodia e tentou se ajeitar de novo apressado, saindo de uma posição só para voltar a ela, exatamente a mesma, logo em seguida.

Um momento de silêncio. Como numa orquestra quando a música para entre os atos, alguém tossiu e outro limpou a garganta. A voz do padre, ao dar início ao seu papel, era praticamente inaudível para qualquer um que não o noivo e a noiva e os padrinhos e familiares do outro lado da ponte. Não entendia o quê ele falava, mas podia ouvir aquele seu sotaque hispânico de padre. Na infância, nas poucas vezes que fui à igreja, acreditava que todos os padres vinham da Argentina. Não tinha um, fosse na missa de sétimo dia do meu avô, na primeira comunhão da minha prima, no batizado do meu primo, que não tivesse aquele mesmo sotaque do padre daquele casamento. Minha mente de criança formava uma Argentina lotada de padres, como uma sucursal do Vaticano com permissão para administrar time de futebol – não é à toa que chamam Maradona de santo.

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Continua, mas não sei quando. Esse conto ainda não está terminado.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Vício Inerente [Inherent Vice] - Thomas Pynchon (2009)


Existe uma reputação que acompanha os livros do Thomas Pynchon que basicamente alertam que a leitura é uma missão. Já falei desse autor anteriormente, fora de resenhas, só porque ele é uma figura um tanto interessante, mas repetirei agora, aproveitando que finalmente decidi escrever sobre sua obra. 

Thomas Pynchon é considerado pelo crítico literário Harold Bloom como um dos quatro melhores autores vivos dos EUA, junto de Don DeLillo, Cormac McCarthy e Philip Roth. Sua prosa varia entre o que os americanos chamam de cultura "high brow" e "low brow", que seria algo como erudito e popular, mais ou menos, enchendo o livro de jogos de palavras, personagens absurdos, referências obscuras e humor negro. O mais curioso é que ninguém sabe quem ele é. Depois que começou a escrever e ganhou notoriedade nos círculos literários com seu romance de 1973, Gravity's Rainbow, negligenciado pelo prêmio Pulitzer - os jurados descreveram a obra como obscena e decidiram não premiar ninguém aquele ano -, ele desapareceu, se recusando a dar entrevistas ou mesmo aparecer em fotos. Por um tempo surgiram boatos de que ele era uma reunião de vários autores, o que seria plausível considerando a pluralidade das vozes de seu trabalho, contudo ele tem amigos (autores como Salman Rushdie, para o qual Pynchon escreveu um artigo de defesa qual Rushdie foi condenado a morte pelo povo Islâmico devido ao seu Versos Satânicos, entre outros autores, incluindo o falecido Richard Fariña, que fez faculdade com Pynchon) e uma vida social ativa, somente escolhe por mantê-la privada. Só por isso o homem já recebe minha admiração.

Admiração que só aumentou quando eu li sobre o que se tratava Vício Inerente, uma sátira de livros de detetive, com um toque noir e uma porrada de LSD. Larry "Doc" Sportello é um detetive particular hippie, que passa os dias fumando maconha, transando por aí e viajando pelos flashbacks de LSD; vez ou outra também resolve uns casos de pequeno porte. Até que sua ex, Shasta, bate em sua porta pedindo para que ele investigue o sumiço do seu namorado, que por sua vez é um homem rico e casado, com um fetiche estranho por ter suas amantes desenhadas nuas em gravatas.

Em um cenário nostálgico permeado pelo smog de Los Angeles de 1973, Doc busca de alguma maneira resolver esse caso, ao mesmo tempo que sente falta dos velhos tempos em que os hippies estavam presentes de maneira ativa na sociedade. Com uma narração em terceira pessoa, com toques de fluxo de consciência e dezenas de distrações variando desde a maneira correta de cultivar um black power até as peculiaridades do saxofone na surf music, o leitor é levado por um torrencial de conspirações, divagações universais baseadas no ácido e paranoia.

Eu não sei. Só isso, terminei de ler esse livro faz uns seis meses, mas simplesmente não sei o que mais escrever sobre ele. Nem sei se tenho opinião formada. Porra, releia a sinopse que eu escrevi e tente montar na sua cabeça uma previsão do que seria a história. Difícil, né? Nem perca seu tempo, mesmo que você invente alguma coisa, estará errado. Vício Inerente é completamente imprevisível, mas não pelos mesmos motivos que os romances de mistério costumam ser. Acontece que, nesse livro, por mais linear e simples que seja, o absurdo das situações tornam tudo muito complicado de acompanhar. O que de maneira alguma é uma crítica negativa, afinal é tudo extremamente divertido. Não é porque você não vai fazer ideia do que está acontecendo, que você vai querer interromper a viagem, entende?

A força do livro está nos personagens. Doc Sportello é o chapado mais carismático que eu já vi/li desde The Dude (aquele do Grande Lebowski). E os conflitos verbais dele com o policial, Pé-Grande, já valem a leitura. Todos os diálogos, na verdade, devem ser destacados pela oralidade e voz particular dos personagens.

  "Em teoria, Doc sabia que se, por algum motivo que não conseguia imaginar assim de imediato, ele quisesse ver qualquer outro Pé-Grande, fora das câmeras, fora do trabalho - até casado e com filhos, pelo que Doc podia imaginar, teria de olhar através e por sobre esse detalhe deprimente. 'Casado, Pé-Grande?' 
   'Desculpa, você não faz o meu tipo.' Ele ergueu a mão esquerda para exibir um anel de casado. 'Você sabe o que é isso, ou elas não existem no Planeta Hippie?'
   'E-e-e, você tem, assim, filhos?'
   'Espero que isso não seja alguma ameaça velada hippie.'
   'É só que... nossa, Pé-Grande! Não é estranho, nós dois aqui com esse poder misterioso de estragar o dia um do outro, e a gente nem sabe nada sobre o outro?'"  (trecho de um trecho da contracapa.)

A única coisa que me impediu de dar uma nota máxima ao livro foi o enredo. Preciso reler antes de escrever qualquer opinião conclusiva, mas a história em si não oferecia nada substancial além dos montes de bizarrice chapada. Divertido, sem dúvida, mas deixando um gosto de "e..." na última página nem um pouco agradável. Me aliviei ao pesquisar na internet e ler que esse é o livro menos aclamado de Pynchon, conhecido pelos críticos até como um Pynchon Lite, perfeito para iniciantes com medo de se assustar. Acontece que eu peguei a obra querendo me assustar um pouquinho.

Não ajudou também a tradução. É ótima, deixada nas mãos do Caetano Galindo, mas que tomou umas decisões no mínimo inconsistentes ao longo da obra. Por exemplo, ele traduz a alcunha do tenente-detetive Bjorsen para Pé-Grande, ao invés de deixar Bigfoot, mas não traduziu o acrônimo OPPOS, mencionado no livro como um termo do ramo imobiliário. Precisei pesquisar no google, que por sorte tem uma wiki dedicada a obra do Pynchon, cheia de explicações das referências e termos obscuros, dizendo que o significado do termo era Overpriced Piece of Shit. Difícil de traduzir, de fato, talvez impossível de traduzir e manter o acrônimo, mas uma nota do tradutor não faria mal. Entendo que uma nota dessas é, para um tradutor, o mesmo que um comediante explicando piada, mas é Thomas Pynchon, Galindo, seríamos compreensivos, prometo.

Sugeriria o livro para aqueles curiosos para conhecer o Pynchon, mas que não estejam com cabeça para nada complicado. De qualquer forma, acrescentaria que, para os fluentes em inglês, pode valer mais a pena ler no idioma original. Repito, a tradução é boa, mas o principal na obra de Pynchon é a linguagem, cheia de jogos de palavras e até letras de música inventadas para satirizar a época. Os futuros livros desse autor e mesmo Vício Inerente, caso queira uma releitura, lerei em inglês. Apenas tenha noção de que a viagem é turbulenta.

Nota: 4/5 (ia ser 3,75, mas percebi que o livro foi melhorando na minha concepção conforme o tempo passava.)

A editora, Companhia das Letras, disponibiliza um trecho em pdf no site deles para os curiosos:
http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12873.pdf

E, na época do lançamento, saiu um vídeo no Youtube, gravado pela Penguin, em que Doc Sportello fala um pouco sobre o livro. Reza a lenda que a voz de Doc é a voz de Thomas Pynchon, de verdade, seria um dos poucos registros da voz do autor, possivelmente o único.


Também está previsto para esse ano o lançamento da adaptação cinematográfica de Vício Inerente, dirigida por Paul Thomas Anderson (Boogie Nights, Magnolia, O Mestre, Sangue Negro...), com uma porrada de gente no elenco: http://www.imdb.com/title/tt1791528/
Então, se você se ficou interessado e quer ler antes do lançamento do filme, agora é a sua chance. 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Gravity [Gravidade] - Afonso Cuarón (2013)


Sinto falta dos dias que cinema e shopping eram coisas distintas. Admito que não vivi plenamente esses tempos, era muito jovem, mas tenho vaga lembrança nostálgica dos dias em que ir ao cinema era de fato ir ao cinema, não sair para comer alguma coisa, passar numas lojas, então, no fim da noite, ver o que está passando e talvez pegar uma sessão. Na minha cidade natal ainda restava um cinema emancipado, antigo, sobrevivente de tantas reformas. Mas aqui em Itajaí, nem preciso dizer nada, já basta que Gravidade tenha sido a primeira estréia relevante de 2013, e que aqui só chegou semana passada.

Fui assistir de qualquer forma. Não me importava que tivesse saído de cartaz no resto do Brasil em novembro do ano passado, nem que ele já estivesse disponível na internet e na maior parte das locadoras que ainda resistem em existir. Cinema foi se tornando um ritual religioso para mim, praticamente. Todo o processo, da escolha da fileira até a cadeira de ângulo ideal, tudo uma cerimônia. Parte disso é estar sozinho. Não me importa que eu tenha com quem ir, até mesmo quando estou namorando ou coisa assim, não me importa, vou uma vez com a pessoa e depois volto sozinho, caso pense que o filme é digno, só para prestar meus respeitos.

Eram oito e dez da noite quando eu cheguei no shopping. A sessão começava às nove, percebi que tinha saído de casa cedo demais. Comprei o ingresso e tinha cinquenta minutos para matar, o que no shopping Itajaí pode ser uma eternidade. Uma volta tem exatamente o tempo de duração que a palavra volta remete, uns três minutos. As lojas estavam todas abertas, mas poderiam não estar. Vendedores revezavam o posto de vigia em frente às entradas, sorrindo para os passantes, esperando que alguém entrasse. Por dentro, era possível ver uma pessoa comprando nas lojas de maior sorte, mas o comum era ver o caixa apoiando a cabeça com as duas mãos e os olhos semi-abertos encarando um ponto fixo. 


Não pensem que o shopping estava vazio, pois era bem o contrário. Tinham várias pessoas vagando pelos corredores, sentadas nos bancos com seus pares, mas o movimento mesmo estava na praça de alimentação. Todas as franquias, até as mais obscuras, com fila de clientes para atender. Quase todas as mesas ocupadas, com exceção das últimas duas, que ficavam logo em frente à bilheteria e foi onde decidi me instalar. Cinco minutos ainda não tinham passado desde a minha chegada.

Teria sido menos pior se meu bom senso tivesse trazido um livro para a espera, mas não. Atrás de mim uma senhora tentava convencer um casal jovem de cair num desses esquemas de pirâmide. Só ela falava, sem interrupção ou pausa, durante todo o tempo que fiquei esperando e até mais que isso; não sei quando eles foram embora. O discurso era o de sempre, você recebe tantos dos nossos produtos, mas eles praticamente se vendem sozinhos; o que dá dinheiro mesmo é quando você traz novos representantes para a empresa, e aí sim que o dinheiro trabalha pra você; não tem que se preocupar com horários, você é seu chefe, você faz seu expediente do conforto da sua casa; sim, mas o dinheiro trabalha pra você, vocês vão ter tempo um para o outro. Era uma metralhadora. O casal ou era muito tímido ou estava tirando uma com a cara da mulher, porque eles não falavam nada que eu pudesse escutar.

Decidi tomar um chopp. Fui até a franquia mais vazia. As opções eram Heineken ou Eisenbahn; já não tomo Heineken faz tempo, sou contra. Uma coisa meio besta de se protestar, mas não gostei de saber que eles compram pequenas cervejarias da Irlanda só para fechá-las, me parece um desrespeito cultural. Além do mais, Heineken tem um dos gostos mais genéricos de cerveja, perdendo somente pra Skol e Budweiser, que estão mais para água que qualquer outra coisa. Iria contra todo o conglomerado Heineken, mas isso incluiria umas 140 marcas, o que é demais pra mim, sou contra só a marca principal. De qualquer forma, peço meus 500ml de Eisenbahn e volto para minha mesa, surpreendentemente ainda desocupada. Bebi virado de frente para a praça, vendo todas as mesas e amontoados de pessoas conversando e comendo e andando de um lado para o outro. Uma versão acústica e sem sal de uma música do Nirvana vinha de algum lugar, mas não teria como descobrir de onde, parecia vir de dentro da minha própria cabeça de tão ambiental que era. Um grupo de adolescentes passa do meu lado. Tinha os visto antes encostados na vitrine de uma loja de piercings e tatuagens. Pareciam bem mais normais do que eles próprios se imaginavam ser, com exceção de um, que decidiu entrar na moda de raspar as laterais da cabeça deixando somente o topo subir como um pasto de espinhos. Ele era quem mais me incomodava no shoppíng inteiro, e parecia onipresente, o avistei na entrada, no tatuadouro e agora na praça de alimentação também - moleque esquisito. O copo vazio e não são oito e meia. Pedi mais um.

Formou-se uma pequena fila na bilheteria, coisa de três casais. Outras pessoas foram passando também e comprando seus ingressos, devia eu ter chegado a essa hora também, mas, em retrospecto, o chopp caiu bem naquela noite quente. Uma pena que já não tivesse chance daquela sessão ser particular.


O maior problema do cinema Itajaí não é nem a indisponibilidade dos filmes, o maior defeito está na sala. Caminhei a passos lentos pelo corredor ao lado das cadeiras, olhando para o telão - que de ão tem muito pouco. A sala não tem degraus, apenas uma rampa com um levíssimo ângulo de inclinação que mal dá pra perceber a diferença de altura de uma fileira para a outra. Da última fileira, a tela parece uma televisão; da primeira, parece um telão, mas boa sorte tentando endireitar o pescoço depois do filme, e, se chover após a sessão, pode ter certeza que vai acabar se afogando.

O projecionista também não é bem certo. Em todos os filmes que vi, não teve uma vez que ele tenha conseguido enquadrar a imagem corretamente no telão de primeira. Os segundos iniciais sempre aparecem com a metade de baixo cortada e murmurinhos impacientes como zumbidos de abelhas barítonas ressoando pela sala recém-escurecida. Então ele corrige a altura e todos suspiramos de alívio ao mesmo tempo.

Isso poderia ter prejudicado a experiência do cinema, mas não. Não Gravidade. Um filme de enredo aparentemente tão simples. Dra. Ryan (Sandra Bullock) é engenheira médica em missão, consertando uma estação espacial, quando ela e sua equipe recebem um alerta da Nasa de que um míssil soviético atingiu um satélite e os escombros estariam viajando em direção a eles, no entanto não deveriam passar muito próximo e nem muito cedo. Poucos segundos depois, percebe-se que o primeiro satélite iniciou uma reação em cadeia, atingido outros objetos que também formavam escombros, esses os acertariam em cheio. Tentam fugir, mas não dá e tudo é destruído. Um dos membros da equipe morre, e os outros dois se separam, com Ryan circulando sem rumo. O outro membro, Kowalski (George Clooney), sendo mais experiente, consegue achá-la e a carrega consigo até a estação espacial que ainda está inteira. Ele, porém, não tem combustível suficiente, por isso solta Ryan para que ela se salve, sozinha no espaço, fora da área de contato com a NASA.


Tem seus clichês. Kowalski é o famoso mentor cumprindo seu último dia de trabalho antes da aposentadoria. É incrível como tudo sempre acontece no último dia de trabalho. E o roteiro num geral não experimenta com forma, apesar de seus simbolismos e ambiguidades aqui e ali. A maravilha fica mesmo nos efeitos visais, mas, talvez pela primeira vez na minha vida, não falo isso de forma cínica e indicando superficialismo.

Os efeitos e edição de Gravidade são tão complexos que eu tenho dificuldade em imaginar como a obra foi filmada. As cenas são longas, com poucos cortes e sempre muito sutis, quase não se percebe a movimentação da câmera e toda a agitação parece partir mais das imagens, o que é raro nessa época em que a moda é manusear a câmera como uma vítima de mal de Parkinson.

Sou um cético do 3-D, daqueles que implicam com filmes cheios de CGI ou que confiam muito nos efeitos ao invés de um enredo sólido e bem escrito. Gravidade mudou minha visão e, imagino, que a de muitos outros. Pela primeira vez, lembrando que vi o filme em 2-D e em tela relativamente pequena, pude sentir o quanto eu perdia por não estar com os óculos 3-D em certas cenas, principalmente as "em primeira pessoa". Enquanto, antes de Gravidade, cinema 3-D era basicamente dominado pelos grandes blockbusters, animações e filmes de super-herói, Gravidade aparece com intenções artísticas e, mesmo perdendo a mão e caindo em banalidades de vez em quando, consegue gerar uma obra digna de todos os elogios que anda recebendo.

Ainda assim, esse filme tem uma história e eu não pude me dizer tocado por ela. Sim, as idas e vindas da sorte da Dra. Ryan conseguem brincar com os nervos do expectador, mas daí a dizer que ela se torna uma personagem profunda seria um exagero. Dra. Ryan saiu justamente daquela cartilha de como criar uma personagem mulher de meia idade. Jogue uma carreira de sucesso, um acidente trágico na família, um período de depressão seguido de mudança brusca de atitude e, boom!, temos nossa protagonista. E Kowalski não é nem um pouco melhor, visto que ele é Clooney, basicamente - Clooney-Astronauta dessa vez.

Mas eu não posso dizer que me incomodei. Saindo do cinema, junto com aquele punhado de gente, diria que estava tão tomado por aquela sequência torrencial de beleza trágica quanto todos os outros, que saiam dizendo para seus pares o quão emocionados estavam, com o coração ainda acelerado pelos infortúnios da Dra.

A comparação mais comum que eu ouvi foi que Gravidade é um Náufrago no espaço. Achei injusto. Náufrago é sobre um homem largado na natureza, sem chances de volta. Assim como a Dra. Ryan, ele luta para sobreviver, mas de forma diferente. Gravidade não é uma luta pelo próprio bem estar, mas uma jornada. Ryan está sempre caçando, indo de ponto A a B, buscando escapatórias. Me lembrou mais de o Velho e o Mar, nesse sentido. Uma espécie de Velho e o Mar bagunçado. Enquanto Santiago lutava para pegar seu peixe e depois trazê-lo de volta a terra firme, ao mesmo tempo que tendo de brigar com tubarões, além de suas próprias limitações físicas, Ryan luta contra os tubarões primeiro (fogo, falta de combustível, escombros espaciais etc.) para poder alcançar e pegar o peixe (a Terra). Servindo também, tanto um quanto o outro, como uma metáfora para a vida humana, sendo O Velho e o Mar uma versão pessimista, e Gravidade uma versão otimista, dependendo das interpretações.

O enredo não valeria de nada, no entanto, se não fosse a atmosfera. Se não fosse a tremenda solidão das cenas longas e vazias, se não fosse o silêncio que dominava determinados momentos. A música me foi inexpressiva. Verdade que é complicadíssimo para um músico escrever uma pessoa toda atmosférica e não baseada em uma melodia comum, mas, repito, o impacto é maior quando ela não se faz presente, quando todo o som para, quando nada mais compartilha a tela com Ryan além do espaço.

Com todos os defeitos que possa ter, Gravidade é um filme angustiante, merecedor de ser tido como um dos melhores de 2013, mesmo que não seja de fato o melhor. A obra mistura emoções com maestria e sabe muito bem quando usar cada uma delas e, eu insisto, os efeitos visuais vão mudar a forma como certas obras de arte são feitas. Gravidade, em resumo, é o divisor de águas que Avatar queria ter sido.

Nota: 4,5/5


sábado, 1 de março de 2014

Minhas previsões para o Oscar 2014


É época de Oscar, né? Eu sinceramente estou pouco me fodendo para o resultado, mas acontece que eu gosto de fazer previsões, sério, apostaria dinheiro, se tivesse para apostar. Adianto que não vi quase nenhum dos filmes que estão concorrendo, nem tenho conhecimento técnico para fazer escolhas lógicas, de qualquer forma, acho que conheço os padrões do Oscar e tenho uma ideia de como cada filme é, por isso vou fazer minhas escolhas e ver quantas acerto.

Melhor Filme
Nomeados:
Trapaça (2013)
Capitão Phillips (2013)
Clube de Compras Dallas (2013)
Gravidade (2013)
Ela (2013)
Nebraska (2013)
Philomena (2013)
12 Anos de Escravidão (2013)
O Lobo de Wall Street (2013)
Minha previsão: 12 Anos de Escravidão. Não vi, mas sei da história. De todos os nomeados, é o que foi mais universalmente aclamado, além de ser um relato detalhado e brutal  da escravidão, o que é sempre material de Oscar; melhor ainda por se tratar de um relato no ponto de vista de um escravo, não acho que existam muitos desses.
Melhor Ator

Nomeados:
Christian Bale for Trapaça (2013)
Bruce Dern for Nebraska (2013)
Leonardo DiCaprio for O Lobo de Wall Street (2013)
Chiwetel Ejiofor for 12 Anos de Escravidão (2013)
Matthew McConaughey for Clube de Compras Dallas (2013)

Difícil...Vou dizer Leonardo DiCaprio. As outras performances foram tão chamativas quanto a dele, mas sei lá, ele parece o mais rejeitado da lista. Acho que a Academia vai compensar, muito embora eu discorde da maioria e não ache que ele tenha merecido um Oscar até agora.

Melhor Atriz

Nomineadas:
Amy Adams for Trapaça (2013)
Cate Blanchett for Blue Jasmine (2013)
Sandra Bullock for Gravidade (2013)
Judi Dench for Philomena (2013)
Meryl Streep for Álbum de Família (2013)

Cate Blanchett, sem discussão.

Melhor Ator Coadjuvante

Nomeados:
Barkhad Abdi for Capitão Phillips (2013)
Bradley Cooper for Trapaça (2013)
Jonah Hill for O Lobo de Wall Street (2013)
Michael Fassbender for 12 Anos de Escravidão (2013)
Jared Leto for Clube de Compras Dallas (2013)

Essa eu nem sei. Vou chutar Jared Leto.

Melhor Atriz Coadjuvante

Nomeadas:
Sally Hawkins for Blue Jasmine (2013)
Julia Roberts for Álbum de Família (2013)
Lupita Nyong'o for 12 Anos de Escravidão (2013)
Jennifer Lawrence for Trapaça (2013)
June Squibb for Nebraska (2013)

Hmm...outra bem difícil. Teria sido mais fácil se eu tive assistido algum desses filmes além de Blue Jasmine, mas, entendam, parte do desafio aqui é fazer as previsão às cegas. Sally Hawkins não me impressionou, não simpatizo com a Julia Roberts e acho a Jennifer Lawrence superestimada (o melhor papel dela foi em Inverno da Alma, e só). Lupita Nyong'o leva meu voto.

Melhor Diretor

Nomeados:
Alfonso Cuarón for Gravidade (2013)
Steve McQueen for 12 Anos de Escravidão (2013)
David O. Russell for Trapaça (2013)
Martin Scorsese for O Lobo de Wall Street (2013)
Alexander Payne for Nebraska (2013)

Esse é mais complicado porque não tem um nome aí que não mereça. Vou fazer uma resenha de Gravidade mais tarde, está quase no fim, e eu sinceramente não sei como algumas cenas foram feitas de tão impressionante que é o filme. Voto em Steve McQueen, o cara sabe filmar, só não recebeu nada até hoje porque lhe faltava substância. Pronto, 12 Anos foi substância.

Melhor Roteiro Original

Nomeados:
Trapaça (2013): Eric Singer, David O. Russell
Blue Jasmine (2013): Woody Allen
Ela (2013): Spike Jonze
Nebraska (2013): Bob Nelson
Clube de Compras Dallas (2013): Craig Borten, Melisa Wallack

Não vai ser, mas quem merece é Ela, então voto em Ela.

Melhor Roteiro Adaptado ou Continuação

Nomeados:
Antes da Meia-Noite (2013): Richard Linklater
Capitão Phillips (2013): Billy Ray
12 Anos de Escravidão (2013): John Ridley
O Lobo de Wall Street (2013): Terence Winter
Philomena (2013): Steve Coogan, Jeff Pope

O Lobo de Wall Street, porque não recebeu muitos prêmios ainda.

Melhor Animação:

Nomeados:
Os Croods (2013)
Meu Malvado Favorito 2 (2013)
Ernest et Célestine (2012)
Frozen: Uma Aventura Congelante (2013)
Vidas ao Vento (2013)

Tá aí uma categoria da qual eu não entendo nada. Vidas ao Vento e Ernest et Célestine me atraíram muito, mas é difícil um filme estrangeiro levar a estatueta fora da sua categoria específica. Vou dizer Frozen, mas só porque é o mais provável.

Melhor Filme de Língua Estrangeira

Nomeados:
Alabama Monroe (2012): Felix Van Groeningen(Belgium)
L'image manquante (2013): Rithy Panh(Cambodia)
The Hunt (2012): Thomas Vinterberg(Denmark)
A Grande Beleza (2013): Paolo Sorrentino(Italy)
Omar (2013): Hany Abu-Assad(Palestine)

Esse me surpreendeu. Não só não vi nenhum desses filmes, como também foram totalmente contra a minha expectativa. Nos últimos anos essa categoria tem surpreendido, então acho que o favorito é The Hunt, do Vintenberg, por isso voto em A Grande Beleza.

Melhor Cinematografia

Nomeados:
Gravidade (2013): Emmanuel Lubezki
Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum (2013): Bruno Delbonnel
Nebraska (2013): Phedon Papamichael
Os Suspeitos (2013): Roger Deakins
O Grande Mestre (2013): Philippe Le Sourd

Todos esses tem um visual excelente. Vou em Gravidade. Parte de mim é contra dar um prêmio de fotografia para efeitos de computador, mas não tem como discutir.

Melhor Edição

Nomeados:
12 Anos de Escravidão (2013): Joe Walker
Trapaça (2013): Alan Baumgarten, Jay Cassidy, Crispin Struthers
Gravidade (2013): Alfonso Cuarón, Mark Sanger
Capitão Phillips (2013): Christopher Rouse
Clube de Compras Dallas (2013): Martin Pensa, John Mac McMurphy

Gravidade. Como eu disse, tem cenas que eu não faço ideia de como foram feitas, o filme quase não tem cortes ou tem cortes imperceptíveis. A edição é perfeita.

Melhor Design de Produção

Nomeados:
12 Anos de Escravidão (2013): Adam Stockhausen, Alice Baker
Trapaça (2013): Judy Becker, Heather Loeffler
Gravidade (2013)
O Grande Gatsby (2013): Catherine Martin, Beverley Dunn
Ela (2013): K.K. Barrett, Gene Serdena

Muita cara de pau a minha chutar um vencedor para um prêmio que eu mal conheço o significado. Vai para Trapaça, porque não dei nada para esse ainda (esclarecedor esse post não é minha gente, espero que vocês estejam anotando cada um dos meus insights cinematográficos).

Melhor Figurino

Nomeados:
Trapaça (2013): Michael Wilkinson
O Grande Gatsby (2013): Catherine Martin
12 Anos de Escravidão (2013): Patricia Norris
O Grande Mestre (2013): William Chang
The Invisible Woman (2013): Michael O'Connor

Não faço ideia. 12 Anos, porque foda-se.

Melhor Maquiagem

Nomeados:
Clube de Compras Dallas (2013): Adruitha Lee, Robin Mathews
Jackass Apresenta: Vovô Sem Vergonha (2013): Steve Prouty
O Cavaleiro Solitário (2013): Joel Harlow, Gloria Pasqua Casny

Clube de Compras Dallas, porque fodam-se esses outros dois filmes.

Melhor Trilha Sonora

Nomeados:
A Menina que Roubava Livros (2013): John Williams
Gravidade (2013): Steven Price
Ela (2013): William Butler, Andy Koyama
Walt nos Bastidores de Mary Poppins (2013): Thomas Newman
Philomena (2013): Alexandre Desplat

Eu gostei muito do uso da música, ou não uso, em Gravidade, mas não sei se é premiável. Walt nos Bastidores de Mary Poppins tem título de filme que ganha Oscar de trilha sonora, vai pra eles. Só quero que alguém me explique como Inside Llewyn Davis não foi indicado - talvez porque as músicas usadas não sejam originais...

Melhor Canção Original

Nomeados:
Meu Malvado Favorito 2 (2013): Pharrell Williams( "Happy")
Frozen: Uma Aventura Congelante (2013): Kristen Anderson-Lopez, Robert Lopez("Let It Go")
Mandela: Long Walk to Freedom (2013): Bono, Adam Clayton, The Edge, Larry Mullen Jr., Brian Burton("Ordinary Love")
Alone Yet Not Alone (2013): Bruce Broughton("Alone Yet Not Alone")
Ela (2013): Karen O("The Moon Song")

Gostei da música de ela, é bem simples, mas diz bastante. A voz meio ruim da Scarlett também combinou com o tom. Vai pra essa, porque não ouvi as outras e música de filme de animação vem tudo da mesma forma.

Melhor Mixagem de Som

Nomeados:
Gravidade (2013): Skip Lievsay, Niv Adiri, Christopher Benstead, Chris Munro
O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013): Christopher Boyes, Michael Hedges, Michael Semanick, Tony Johnson
Capitão Phillips (2013): Chris Burdon, Mark Taylor, Mike Prestwood Smith, Chris Munro
Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum (2013): Skip Lievsay, Greg Orloff, Peter F. Kurland
O Grande Herói (2013): Andy Koyama, Beau Borders, David Brownlow

Ah, agora sim. Gravidade, por causa daquilo que eu falei do uso da música.

Melhor Edição de Som

Nomeados:
All Is Lost (2013): Steve Boeddeker, Richard Hymns
Capitão Phillips (2013): Oliver Tarney
Gravidade (2013): Glenn Freemantle
O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013): Brent Burge
O Grande Herói (2013): Wylie Stateman

Gravidade de novo.

Melhores Efeitos Visuais

Nomeados:
Gravidade (2013): Timothy Webber, Chris Lawrence, David Shirk, Neil Corbould
O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013): Joe Letteri, Eric Saindon, David Clayton, Eric Reynolds
Homem de Ferro 3 (2013): Christopher Townsend, Guy Williams, Erik Nash, Daniel Sudick
O Cavaleiro Solitário (2013): Tim Alexander, Gary Brozenich, Edson Williams, John Frazier
Além da Escuridão: Star Trek (2013): Roger Guyett, Pat Tubach, Ben Grossmann, Burt Dalton

É sério que vai ter competição? Dá logo o prêmio pra Gravidade, porra.

Não falarei de documentário nem de curta-metragem porque seria abusar da paciência do leitor. Esses filmes aí eu posso não ter visto todos, mas sei do que se tratam.

Tão aí minhas apostas. Amanhã veremos se meu chute é forte conhecimento é tão vasto.