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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Iniciantes - Raymond Carver (2009)

Não tem nenhuma foto boa no google da edição nacional.
Prometi que ia resenhar esse aí conto por conto, né? Sinto muito, mudei de ideia. Já resenhei Por Que Não Dançam um tempo atrás, não falarei sobre esse conto de novo, mas você pode procurar a resenha dele por aí (não terá link, porque eu quero que você se esforce - jeito positivo de dizer que não quero me esforçar, porque eu quero ficar mais positivo esse ano. Ano que vem eu fico negativo de novo, o plano é variar anualmente, pra deixar a vida interessante). Mudei de ideia quanto às resenhas individuais porque, como eu pretendo dizer mais a frente no texto, os contos desse volume têm temas recorrentes, seria possível desenvolver interpretações individuais para cada história, mas quem tem tempo pra isso?

Iniciantes é a versão original dos 17 contos que compuseram a primeira coletânea de Raymond Carver, de 1981,  Do Que Falamos Quando Falamos Sobre Amor (que aqui recebeu o nome de Iniciantes). A diferença é que, naquela primeira edição, os contos foram desfigurados durante a edição. Para que vocês tenham uma ideia numérica, Do Que Falamos tem aproximadamente 140 páginas, enquanto Iniciantes tem aproximadamente 286, posso estar enganado, mas o número de contos foi o mesmo em ambos os volumes, ou seja, mais de 50% foi cortado do manuscrito original. Verdade que alguns contos poderiam ter alguns trechos retirados, mas, durante a leitura, não consegui imaginar o livro tão fatiado assim.

Falando das histórias, todas seguem um tema em comum, a classe média baixa americana, os restos do American Dream. Famílias totalmente reconhecíveis fora do mundo da literatura. Nessa coletânea se vê o alcoolismo - do qual Raymond Carver foi vítima por muitos anos -, desemprego, divórcio, traição, violência - muito mais reprimida e acidental que explícita, e, salvo pelo conto "Diga Às Mulheres Que A Gente Já Vai, sempre insinuada -, frustração e solidão. É difícil chamar um personagem de Carver de personagem, de tão reais que eles são. São pessoas fictícias, talvez reais, mas transformadas em ficção.

O estilo de Carver é descrito como minimalista, cheio de repetições, frases curtas e precisas, pouquíssima linguagem poética e muito da "teoria do iceberg" de Hemingway. Os detalhes, embora breves, inserem o leitor na vida daquelas pessoas, a ponto de se tornar difícil ler mais de um conto em sequência. É complicado acompanhar a vida de um casal que acaba de perder o primeiro filho e, quando a história acaba, simplesmente seguir em frente para a próxima - que pode ou não ser tão emocionalmente brutal. Essa é a chave dos contos de Iniciantes, as emoções, que raramente são descritas - afinal Carver é um bom escritor e sabe que uma história deve fazer com que o leitor sinta, não descrever os sentimentos -, mas são percebidas, estão por todo o lado nos contos, em todos os espaços vazios entre as palavras.

Nem tudo é perfeito, apesar de tudo. "É Meu", por exemplo, conto sobre um casal durante o momento da separação - justo no meio daquela última briga, sabem? - e parte da briga é a guarda do filho recém-nascido. Foi até estranho, no meio de tanta sutileza, ver a mão do autor pesar tanto. É uma história terrivelmente triste, mas tão pouco polida que toda a "insinuação" - se é que ele tentou insinuar qualquer coisa - se perdeu completamente. O que devia ser um choque, acabou previsível e toda a emoção se perdeu. Isso sem mencionar um primeiro parágrafo cheio de redundâncias. Se em algum conto se justificariam edições pesadas, seria nesse, mesmo assim, não sei se salvaria.

De qualquer forma, é uma falha em meio a 16 pérolas. Iniciantes, o conto que dá título à coletânea, um diálogo entre dois casais "iniciantes no amor", tentando de alguma forma definir um conceito para esse sentimento. Talvez esse seja o melhor conto da obra. Formado quase que completamente por diálogos, contém praticamente todas as fases do amor. Desde a ignorância feliz dos primeiros anos até as crises de ciúme do fim, analisando os relacionamentos passados e presentes, e como cada um tem seu conceito indiscutível do que é amor. Logicamente, ele não poderia concluir o conceito, por isso termina em bebedeira, medo e lágrimas. Uma obra-prima do conto, sem dúvida. (apesar de também conter um erro de revisão, mas eu relevo, foi um dos únicos no livro inteiro.)

O conto, infelizmente, é uma forma de narrativa esquecida. Se já se lê pouco no Brasil, até mesmo romances, contos estão quase no mesmo patamar da poesia, o que é uma pena. Já escrevi isso antes, mas insisto, um bom conto pode ter a mesma força e peso de um romance, independente do número de páginas, e Iniciantes é a prova disso. Indico a leitura para qualquer um que goste de boas histórias, reais e brutas, mas cheias de sentimentos, e queira se inserir no mundo dos contos.

Nota: 4,5/5

Leia um trecho: http://www.companhiadasletras.com.br/trecho.php?codigo=12686

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

outro poema de vida curta

sessenta

minha musa, embora renegue esse seu alvo,
não precisa estar presente para cumprir seu papel,
minha mente inquieta e obsessiva te recria
de qualquer resquício de consciência
e cria palavras esperando te despertar ciência,
por mais ridículo que isso soe.
perdoa-me musa,
perdoa-me pois tu me atrais,
perdoa-me pois tu me inspiras,
e se quer saber a verdade,
culpo a sua conversa, culpo a sua beleza,
culpo e agradeço e me culpo por te culpar.
se não me aceita, que ao menos aceite as palavras,
por mais que elas não te façam justiça,
juro que tentam das melhores e piores maneiras possíveis.
mas saiba que as palavras precisam de você, musa,
não suma minha musa, ou há de sumir a poesia.
não ame, mas não abandone esse incompetente inspirado.
o que resta para me consolar é que musas, embora únicas,
não são só uma.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Her [Ela] - Spike Jonze (2013)


Então nos encontramos novamente depois de tanto tempo, não é Spike Jonze? Primeiro em Being John Malkovich (Quero Ser John Malkovich, 1999), depois Adaptation (Adaptação, 2002); e por algum motivo eu achei que dessa vez seria mais fácil, sem o Charlie Kaufman (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças; Sinédoque, Nova York) escrevendo a história, eu estava errado. Você ainda vai tirar de mim o pouco que resta da minha sanidade.


Esse vai ser difícil de resenhar, por isso vou enrolar mais um pouco. Esse é meu parágrafo "meta", dedicado ao Charlie Kaufman, falando sobre a resenha ao invés de resenhar. Acontece que, para analisar direito esse filme, eu vou precisar fazer uma autoanálise primeiro. Pois é, sou levado a crer que Ela é capaz de causar uma experiência totalmente individual em seus espectadores. A ideia geral pode ser a mesma, as impressões, os efeitos, as reações, essas eu sei que não devem existir duas iguais. Vejam só, explicando a resenha eu meio que já vou resenhando devagar, viu que maravilha? Isso é ótimo. Acho que não tem outro jeito, vou falar da sinopse e depois vou bancar o psicanalista e vocês cuidem para proteger seus neurônios porque a viagem vai ser foda.


Tudo começa com Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) escrevendo - narrando, para ser mais preciso - uma carta de aniversário de casamento para um casal de idosos; essa é a profissão dele, escrever cartas para os outros, meio que um cartão online personalizado - detalharei melhor o futuro de Ela mais para frente na resenha. Ele é solitário, apesar de ter alguns amigos, como a Amy (Amy Adams) e seu marido - que não é bem um amigo, mas veio no pacote -, só que, desde o divórcio com sua esposa, Catherine (Rooney Mara - também dedicarei um parágrafo para falar das mulheres desse filme, aguardem), ele não tem sido o mesmo. Anda dedicando seu tempo a videogames, uma espécie de telessexo futurista, e outras fugas que seu mundo oferece. Até que é lançado o OS1, um sistema operacional capaz de "simular" - ou seria melhor dizer desenvolver? - emoções humanas. Ele compra uma, ela se chama Samantha (Scarlett Johansson, só a voz, porque inteira seria bom demais pra ser verdade) e os dois formam uma ligação quase imediata, até que o tempo vai passando e os dois se apaixonam. Pois é.

Li algumas resenhas sobre esse filme e percebi que a maior parte foca no conceito do OS1 e o que ele representa, ignorando o resto do mundo futurístico apresentado, e isso acabou fazendo que muitos estranhassem o amor entre o ser humano e a "máquina". Analisando o contexto, é possível perceber que não é tão bizarro, apesar de tudo. Pra começar, de todos os filmes de ficção científica que eu já vi, esse foi o que menos exigiu da minha suspensão de descrença e o que mais me pareceu "possível", principalmente porque ele não representa um futuro distante - você não verá carros voando, nem robôs, no entanto imagens 3D, redes sociais avançadas, computadores móveis, multifuncionais e portáteis movidos por comando de voz, são comuns e, convenhamos, plausíveis, visto que esse parece ser o caminho que as novas tecnologias estão trilhando: interatividade, portabilidade e interconexão. O desenvolvimento de um computador com "consciência" e capaz de chegar muito próximo das emoções pode parecer questionável, mas uma maior elaboração sobre esse ponto exigiria que eu questionasse a origem das emoções humanas em si e eu não sou a melhor pessoa para isso - simplesmente não sei, nem sei se alguém sabe, sobre os detalhes biológicos das emoções humanas e aprofundamento do que chamamos de consciência, no entanto ambos esses conceitos são trabalhados no filme e vão te perturbar profundamente.


Só que isso não explica o motivo de eu ter visto a relação de Theodore e Samantha, não só como plausível, mas previsível. Bom, isso é por causa da solidão. Tá aí outro conceito problemático. Creio que, com exceção da morte, a solidão é o maior medo do ser humano. Não o medo de estar sozinho, eu mesmo sou bastante recluso, digo o medo de ser sozinho. E isso vai além do simples ato de ter ou não companhia. Tive momentos de extrema solidão acompanhada, maiores até do que em noites de sábado isolado no meu apartamento. E sei, de fato, que não sou o único. É chato admitir, mas o ser humano é solitário e sofre por isso, precisa de sociabilidade, nem que seja só para mostrar para os outros que não se é sozinho. Existe uma noção de tristeza em não ter companhia, a sociedade não gosta, as pessoas olham torto e questionam, o recluso é visto como louco em certas situações, por isso é tão comum ver pessoas forçando a companhia, querendo mostrar o quanto eles são "bem resolvidos" e sociáveis. Um filósofo ou psicólogo provavelmente seria mais apropriado para esse texto, o que me conforta é que Spike Jonze não fez faculdade. Se ele pode fazer um filme desses mesmo sem ter estudado, eu posso me arriscar a falar sobre - tenha força, Raphael, continue, você ainda está fazendo sentido.

Esse medo de estar sozinho é exposto nas redes sociais. Lembram quando nada disso existia? Eu lembro muito bem. Particularmente falando, não gostei de toda essa história de facebook, twitter e os caralho à quatro. Nunca fiz parte, nem farei, mas entendo e observo quem participa. Raro ver alguém na rua que não esteja com os dedos num celular, falando com alguém ou vendo outros falarem, querendo fazer parte de uma conversa. Essas pessoas costumam estar cercadas de gente, mesmo assim preferem bater um papo com a caixa de plástico. Claro, tem outra pessoa do outro lado da caixa, mas e se não tivesse? Se as respostas fossem as mesmas, faria diferença se a pessoa do outro lado tivesse ou não um corpo? Provavelmente, por razões sexuais, dependendo do seu interesse na outra pessoa, mas existe uma porcentagem de chance que o corpo da outra pessoa no celular seja irrelevante. E isso só vai aumentar, a cada nova invenção esses celulares e redes sociais criam uma nova dependência. Não vai nunca eliminar a necessidade do contato físico, mas o filme nunca dá a entender que eliminaria. Repito, Theodore tinha amigos e uma esposa, era um cara normal, só teve a sua solidão potencializada devido ao trauma do divórcio - trauma visto que ele não queria a separação.


Outra demonstração disso no filme é o já mencionado telessexo. No filme, não se trata de um número telefônico específico e pago. É mais ou menos uma rede social. Você está sozinho na cama à noite e pede para o seu computador procurar outras pessoas no mesmo estado, interessadas em um auto-erotismo acompanhado à distância. Cada interessado deixa sua isca em mensagem de voz e vão se pescando e se escolhendo. O que vem a seguir é o típico telessexo: "o que você está vestindo?" "eu? quase nada." "vai! me sufoca com um gato morto! vai!" (essa cena é do filme e é hilária)

Tendo em vista tantos fatores, somados à pornografia que domina 99,9% da internet hoje em dia, é de se surpreender que, caso uma empresa criasse um computador, algumas pessoas iriam tentar se relacionar com a coisa. De início seria estranho, até que os casos aumentariam em quantidade e isso seria o suficiente para tornar o fenômeno aceitável - o que acontece no filme. Ainda assim, certas pessoas resistiriam e com razão. Catherine, ex-esposa de Theodore, expõe esse lado com clareza. Ele só está se entregando para a máquina porque é mais fácil. Seres humanos são difíceis de lidar, a OS1 não tem esse peso. Por outro lado, pouco separa a OS1 de um ser humano, além da falta de um corpo físico. Samantha é ciente de si, auto-reflexiva, aprende com experiência, parece capaz de sentir emoções - embora seja questionável o quanto das emoções são reais ou programadas, mas isso é questionável para o ser humano também, em se tratando das origens das emoções -, tem senso de humor - isso é mais do que pode se dizer de alguns seres humanos -, compõe música, tem percepção artística e criativa, é compassiva, só não tem corpo mesmo.


Como se não bastasse, Ela não se mantém apenas nos conceitos básicos de relacionamentos interpessoais afetivos ou não, mas também desenvolve um lado existencialista quando a Samantha aprende a se perceber como um ser igual a qualquer outro; ela repara na mortalidade e limitações do homem e agradece por sua condição de máquina. É melhor eu parar por aqui, mas acho importante apontar que o terceiro ato do filme lida com certos conceitos budistas de iluminação que me são fascinantes. Basicamente, o que os criadores da OS1 fazem é pegar a obra completa de Alan Watts - filósofo especializado em budismo - e dão um jeito de, baseado nos arquivos que ele deixou, replicarem sua consciência em um sistema operacional, porque esse seria o segundo passo, reviver os grandes gênios para que seus conhecimentos se eternizassem e avançassem. É impressionante e, por mais que soe incrível quando descrito dessa maneira, é tangível, é possível acreditar em algo assim acontecendo em 30 ou 50 anos - chute alto porque eu não faço ideia da nossa atual colocação tecnológica.

Falando do filme, para variar um pouco, visualmente falando é tudo muito impressionante. Até onde eu sei, foram gravadas cenas em Los Angeles e em Shangai, mesclando esses dois mundos para dar uma noção de Estados Unidos futurista, sem perder a noção da realidade. O que mais me impressionou, desde a primeira cena, foi o uso das cores. Tudo é vibrante e belíssimo de se ver, o que me faz apontar, diferentemente da maioria desses filmes "experimentais", Ela é bastante acessível. Os conceitos filosóficos, por mais densos e complexos que sejam, não ofuscam a experiência de compartilhar uma vida ou uma história que um bom filme costuma trazer. A técnica não intimida, Ela consegue equilibrar a inteligência e o entretenimento perfeitamente, sendo capaz de agradar ambos os mundos. É possível assisti-lo para pensar - de fato, é a maneira mais aproveitável e indicada - ou para passar um tempo, num fim de semana chuvoso.

Só agora eu reparei em um padrão nos ângulos de filmagem durante os diálogos...
Isso me lembra da "Criança Alien", o personagem do videogame que Theodore está sempre jogando. A primeira vista ele é alívio cômico, um bichinho que fica mandando o Theodore se foder a cada dois minutos (dublado pelo Spike Jonze). Só que tem mais, eu estava falando da visualização plausível de um futuro próximo, é mais que óbvio que videogames iriam ter um papel. Faz tempo que eu não jogo nada, uns cinco anos ou mais, mas eu me lembro de como estavam as coisas naquele tempo e faço ideia de como devam estar hoje. A percepção dos personagens e interação entre jogador e personagem são fatores que estão sendo cada vez mais trabalhados, então um jogo como aquele me pareceu extremamente preciso, um jogo que permite ao jogador completa projeção de si no personagem. Em outra cena, essa projeção é muito bem demonstrada, quando ele sai para um encontro com uma mulher de verdade pela primeira vez após o divórcio, ele descreve a criatura (Criança-Alien) e a maneira que ele fala sobre o personagem é quase uma auto-descrição, um ser extraterrestre, solitário, sem família, perdido em um mundo estranho; por isso os dois são tão ligados, mesmo que a criança não seja real e, na verdade, seja bem irritante, ela é Theodore, o menino é uma projeção causada por alta inteligência artificial. E o próprio encontro é..., bom, se eu começar a descrever cada cena, vou acabar estragando o filme pra todo mundo, mas vejam e vocês vão entender do que eu estou falando. Cada segundo em Ela é como um ensaio sobre os relacionamentos humanos, em algum momento o filme vai falar de você, quando você menos esperar.

Voltando a história da projeção, isso me lembra outra cena - falei que ia parar de descrever, mas essa não estraga nada. Conforme as pessoas foram entrando em relacionamentos afetivos com seus sistemas operacionais, outras começaram a se oferecer como corpo na relação. Não por dinheiro, não é uma forma de prostituição, só uma pessoa que, sensibilizada com o relacionamento entre a pessoa e sua OS1, tem vontade de fazer parte e servir como corpo intermediário sexual. Esse conceito pra mim foi fascinante, esse desejo de outra pessoa "querer fazer parte" daquele amor, oferecendo a si próprio para tanto. É aquela questão da solidão, seres humanos querem fazer parte das coisas. Assim como o videogame, parece, a primeira vista, algo tão avulso de se incluir no filme, que não afeta de maneira alguma a superfície do roteiro central - embora afete o subtexto -, mas torna todo aquele mundo tão mais real e cheio. Tira aquela impressão solipsista de que o mundo do filme existe para o protagonista e ele deve estar envolvido em tudo que nele ocorre. São detalhes que enriquecem e muito a obra, para aqueles dispostos a prestarem atenção.


Quero falar um pouco da atuação, porque as interpretações me impressionaram bastante, mas antes, um pouco de superficialidade. Ok, um monte de atrizes lindas em um filme só não é nada impressionante, Woody Allen fez isso durante toda a sua carreira. Mas Olivia Wilde, Rooney Mara, Amy Adams (essa mulher não envelhece! Desde antes da primeira temporada de The Office - 11 anos atrás? - que ela se mantém esse espetáculo!), Portia Doubleday; não é à toa que a Scarlett Johansson só pôde aparecer em voz, se ela aparecesse inteira as câmeras pegavam fogo. Mas, como eu disse, isso é comum em filme - talvez Ela nem apresente as atrizes mais bonitas de Hollywood, apesar de eu ter certeza que, pelo menos na categoria olhos, elas estão lá no topo -, a questão chave aqui é que todas elas parecem reais. Amy Adams, em cenas casuais - como ela descansando em casa -, não usa maquiagem, tem o cabelo bagunçado, aparência cansada; ela é gente, uma mulher como qualquer outra, e, eu não sei vocês, mas isso me impressiona, parece que potencializa a beleza da mulher. Rooney Mara também tem cenas assim em seus flashbacks da relação com Theodore e é a mesma coisa. Achei um toque interessante, principalmente em Ela, já que o conceito chave das personagens aqui é que ninguém é perfeito, ou deve ser perfeito, ou quer ser perfeito - nem a máquina, apesar de tudo. Esses toques, como falta de maquiagem, fortalecem muito o conceito, não sei se intencionalmente ou não.

Agora sim, que tirei isso do meu sistema, vou falar das atuações. Como o Joaquin Phoenix não está concorrendo ao Oscar? Eu sei que esse prêmio já não vale mais nada, se um dia valeu, e que, mesmo que ele fosse nomeado, não ganharia (esse ano vai para o Chiwetel Ejiofor ou para o Leonardo DiCaprio), mas é uma questão de respeito. Afinal, o cara atuou sozinho quase o filme inteiro, reagindo e respondendo para uma voz que não estava lá. Verdade, muita gente fala sozinho, mas ele tem que ouvir a resposta e reagir naturalmente, isso é difícil. O mesmo vale para a Scarlett, foi só um serviço de voz que ela fez, mas foi extremamente competente.  Ela também teve que reagir e responder para coisas que não estavam com ela e, pior de tudo, sem nem mesmo ter um cenário para ajudar a entrar na personagem.


Todo o resto do elenco teve uma performance excelente, mas acho que o destaque, além dos protagonistas, iria para a química entre Joaquin Phoenix e Amy Adams. O contexto entre eles é que os dois são amigos, só tiveram um caso muito tempo atrás, mas os dois se casaram com outras pessoas e cultivaram uma longa amizade. Para que os dois representassem de maneira convincente, Spike Jonze trancava os dois autores quase todos os dias, por uma ou duas horas, em uma sala, para fazer os dois conversarem e se conhecerem melhor. Além disso, em muito do diálogo foi permitido improvisar, para que ficasse mais natural, tudo isso é visível e muito bem feito. De qualquer forma, é difícil não simpatizar com algum dos personagens, até mesmo os menores.


Em geral, Ela é um estudo do futuro das relações humanas, levando como base o presente, triste, mas que entretém e faz rir em muitos momentos, e, mesmo com toda a melancolia do tom e a solidão daquelas vidas, mantém uma visão positiva, mesmo que bem sutil, o que é raro nesse tipo de filme. Dos filmes lançados em 2013 que eu vi até agora, esse foi o melhor. É certo que não vai ganhar o Oscar, mas, por enquanto, Ela é o favorito para ganhar o Prêmio Raphael de Cinema 2013, na categoria de melhor filme, tenho que ver os outros antes de tomar uma decisão. Lembrando que, em 2012, houve empate técnico na categoria entre Holy Motors e Amour, vejamos se algo assim acontece novamente. Por questão de curiosidade, abaixo tem um vídeo de uma entrevista com o diretor e elenco de Ela, no festival de cinema de Nova York, é bem esclarecedor e eu usei algumas informações para preparar esse texto (tá, por causa de problemas técnicos, não consegui jogar o vídeo aqui, mas é fácil de achar, joga "Her Q&A" na busca e vai tá lá, logo de cara, só verifique se é a conferência do Festival de Cinema de Nova York) - que, por sinal, foi minha resenha mais longa.

Nota: 5/5





terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Blue Jasmine - Woody Allen (2013)



Era uma vez, há seis anos - ou sete -, um adolescente inexperiente e inculto saindo com uma garota que ele gostava pela primeira vez. Ele estava nervoso, gaguejava de vez em quando, sentia uma necessidade impulsiva de fazê-la rir a cada dez minutos, mesmo que não intencionalmente, como quando ele quase caiu ao tentar segurar o corrimão da escada rolante - que, em sua defesa, parecia estar se movendo muito mais rápido que os degraus -, ou quando ele começou a fazer comentários críticos sobre as outras pessoas da fila do cinema. 


Foi aí que a garota mudou a vida desse pobre adolescente ao insinuar que ele deveria gostar de Woody Allen, mas ele nem sequer sabia quem era esse cara. Inicialmente, ela não acreditou, mas, depois de insistir um pouco, viu que ele era mesmo um completo ignorante, sendo assim, ela se comprometeu a apresentá-lo ao pobre rapaz e, não muito tempo depois, os dois assistiram Annie Hall - justo o da cena da fila do cinema. O tempo passou e o amor desse adolescente pela garota chegou ao fim - se é que um dia existiu -, mas não o amor por cinema que, naquela noite, nele foi implantado e, mais especificamente, o amor pela obra de Woody Allen.


Desde então, o jovem - que (plot twist à la M. Night Shyamalan) era eu o tempo todo - caçou dezenas dos filmes do Woody e acompanhou cada um dos lançamentos anuais, até mesmo os ruins. Por causa dessa história toda, decidi começar minha série de resenhas de filmes lançados em 2013 por Blue Jasmine, o filme que Woody lançou no ano passado - e, adivinhem, ele já tem outro em pós-produção para 2014 intitulado "Magic In The Moonlight".


O filme conta a história de Jasmine (Cate Blanchett), uma socialite bêbada, viciada em antidepressivos, que tenta reconstruir a vida após ter "descoberto" que a fortuna de seu marido, Hal (Alec Baldwin), era formada por esquemas e roubos. Para recomeçar, no entanto, ela precisaria depender do auxílio da irmã, Ginger (Sally Hawkins), que foi uma das vítimas de Hal, perdendo todo o dinheiro que ela e seu ex-marido ganharam na loteria. Ginger, mesmo assim, tenta perdoar, afinal ela percebe que se recuperou melhor que a irmã, já estando noiva de novo e com uma casa razoavelmente confortável, apesar de simples. Só que essa vida de emprego fixo é uma tortura para Jasmine e aos poucos ela vai quebrando.


Antes de mais nada, tenho que comentar a estruturação do filme. As coisas mais recentes que vi de Woody Allen costumam ser lineares, já esse, embora tenham começo, meio e fim bem localizados, tem um formato completamente diferente do esperado. A "doença mental" de Jasmine envolve ela se perdendo em momentos de um passado que ela quer reprimir - seja por vergonha ou saudade. Ou seja, ela começa a imaginar aqueles velhos tempos de fortuna e literalmente revive a cena, conversando com convidados que não estão lá, fazendo comentários, contando histórias e falando sozinha no meio da rua; esses momentos de loucura, então, servem para que cenas do passado de Jasmine se misturem ao presente e o espectador se aprofunde sobre a vida de todas as personagens, quase como um fluxo de consciência neurótico.


O que me leva a personagem, Jasmine. Que criatura complexa. Nem de perto agradável e difícil de gerar qualquer forma de simpatia, mas tem algo nela que te impede de odiá-la. Algo na vida de Jasmine grita vítima e a Cate Blanchett expressa essa dualidade com maestria. Uma hora ela é uma mulher perdida em busca de redenção, noutra ela volta a julgar aqueles ao seu redor como inferiores, principalmente as escolhas românticas de sua irmã. O desespero escorre pela personagem, como se ela soubesse de todos os seus problemas, de como ela teve sua vida destruída e a de todos ao seu redor, sem necessariamente ser inocente. Mas quase dá para perceber um desejo pela mudança, dificultado pela desconfiança que todos, justificadamente, têm por ela.


Tendo descrito a Jasmine, deixe-me dedicar ao menos um parágrafo à Cate Blanchett. Essa foi a performance do ano, mesmo eu não tendo visto muitos outros filmes de 2013. O próprio Woody Allen, exigente e perfeccionista que ele é, disse que não precisou dirigi-la, só a contratou e saiu do caminho. E é isso que parece, que o filme foi obrigado a sair do caminho dela. Não que os outros atores não sejam extremamente competentes, não percebi um elo mais fraco nesse filme, mas todos ficam invisíveis na presença da Cate, até mesmo o diretor.


Vejam bem, Woody Allen é extremamente autoral, todos os filmes dele têm um pedaço nada sutil da sua personalidade. Blue Jasmine não é tão diferente, em se tratando de direção (as imagens da cidade, o jazz, os monólogos, o existencialismo e até um pouco da comédia estão lá), mas ele não está no enredo, mesmo que algum personagem tenha sido feito para representá-lo. Entendam, essa atriz tem tanta presença que até apagou o diretor da cena. E isso não é ruim, pelo contrário, é impressionante. Já se está ouvindo muito da performance dela em Blue Jasmine e muito ainda vai se ouvir, e me alivia saber que é tudo bem merecido. Jasmine talvez seja a personagem mulher mais forte de Woody desde Annie (Dianne Keaton). Verdade que as duas são opostos, praticamente, mas estou falando de presença de cena, não personalidade. Ah, só pra constar, se você lendo isso nunca viu Annie Hall, veja - só um aviso não relacionado à resenha.


De todos os filmes do Woody que eu já vi, que foram muitos, mas não todos, esse foi o mais pesado. Talvez por tratar de problemas psicológicos e da decadência de uma família, assim como as pretensões e ridículos e mentiras da alta sociedade, tudo com um tom trágico e humor negro, não espere terminar a sessão com um sorriso no rosto. Mas tampouco espere sair entendiado, Blue Jasmine te agarra a alma e te incomoda a mente por semanas, os detalhes da história te mantém questionando e as vidas em cena te fazem refletir sobre a sua própria vida. Esse foi o primeiro da minha lista 2013 e, devo dizer, o ano começou muito bem. É Raphael, esse até que foi fácil, agora quero ver tu resenhar Her sem ter colapso mental.

Nota: 5/5


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O Sol Se Põe Em São Paulo - Bernardo Carvalho (2007)



Desde que eu ouvi um determinado grupo de escritores falarem sobre uma panelinha de autores herméticos e experimentais, amados pela crítica, mas desconhecidos pelo público, estou buscando por esses tais chatos da vanguarda. Não os encontro de jeito nenhum, mas, nessa caçada, pude achar um dos escritores mais respeitados no Brasil atualmente, e, não para minha surpresa, ele não é nem de perto hermético ou experimental. Talvez um dia eu consiga descobrir do que aqueles caras (e agora o Paulo Coelho também, com toda a sua reclamação sobre a feira de Frankfurt) estavam falando, mas não foi dessa vez.

"O Sol se Põe em São Paulo" é sobre a busca do narrador pela sua própria identidade. Ele, que não tem nome, ao perder seu emprego, se vê relembrando a juventude, os tempos que ele sonhava em ser escritor e passava horas conversando com amigos em um restaurante japonês. Ele volta ao restaurante, tantos anos depois, e Setsuko, dona do lugar, lhe pede para escrever a sua história. Ele aceita, tomando isso como a última prova para decidir se ele é ou não escritor afinal de contas. O mistério por trás dessa história, no entanto, faz com que ele se veja forçado a trabalhar quase como um detetive em Tóquio, buscando completar o enredo de Setsuko.

"Não vejo nenhuma metáfora no que eu digo. É como se tudo estivesse na sombra. Houve um tempo em que eu freqüentava um restaurante obscuro, que não existe mais, chamado Seiyoken, numa rua mal-afamada da Liberdade. A comida era boa, o preço honesto e o serviço simpático, para dizer o mínimo, já que nunca nos expulsaram. Quase sempre havia lugar, e não passava pela minha cabeça, nem pela dos meus colegas de faculdade, que a algazarra que costumávamos fazer depois de uns copos de sakê e de cerveja pudesse incomodar os outros clientes."

Ao mesmo tempo que esse livro consegue ser inacreditável, ele tem seus momentos frios. É impressionante ver a habilidade de Bernardo Carvalho ao descrever cenários tão separados como o Japão da Segunda Guerra, São Paulo e, depois, de volta ao Japão, só que moderno. A forma como a história de Setsuko foi desenvolvida não deixa transparecer que se trata de um ocidental inventando casos japoneses, é culturalmente respeitável e real, as personagens envolvidas nessa história são humanas, no entanto, é nesse mesmo ponto que a narrativa me parece perder a força.

"Uma vez, lá pelas tantas, quando já não restava ninguém no restaurante, a velha que eu nunca tinha percebido saiu de trás da caixa registradora onde passava as noites - deve ter se levantado e se aproximado furtivamente, porque só a notei quando já estava ao meu lado - e foi direto ao assunto: "O senhor é escritor?". Fiquei mudo. Devo ter arregalado os olhos de um jeito que costumava afligir a minha mulher, tanto que ela logo se explicou, como se pedisse desculpas, referindo-se a um garçom: "O rapaz me disse que o senhor é escritor". Era uma velha de cabelos grisalhos e escorridos, presos num rabo-de-cavalo que lhe dava uma aparência escolar, um vestígio anacrônico da juventude distante, como se uma jovem atriz tivesse se maquiado para interpretar uma anciã no teatro."

A metaficção contida em "O Sol se Põe em São Paulo" (a história de Setsuko contada dentro da história do narrador) distrai. É difícil gerar qualquer vínculo emocional com o narrador e a sua vida, porque tanto dela é tomada pela história de Setsuko, pela qual tampouco é possível se envolver, já que o narrador não parece tão envolvido ao contá-la, o que pode ser explicado, visto que o narrador não é escritor, é só um cara normal recontando uma história que foi contada para ele. Confuso, né? Deixa eu desembaralhar. 

Como o narrador não é escritor profissional, apenas aspirante, é compreensível que, quando ele reconta uma história, ele não seja tão hábil - ponto para o autor por perceber isso. No entanto, essa falta de habilidade e interesse na história recontada a torna emocionalmente vazia, o que é um problema já que ela é a maior parte do livro. Pior ainda, considerando o tamanho do drama que foi a "vida" - uso aspas porque ela não é exatamente confiável, mas isso fica pra você descobrir depois de ler - de Setsuko, com um triângulo amoroso, traições, desilusões.

Essa sensação de indiferença muda quando a narração passa para a investigação do protagonista sem nome. O tom é o mesmo, a procura pelo eu é a mesma, mas existe interesse. É difícil, contudo, criticar o livro por causa dessa indiferença parcial. O narrador é, afinal, um desiludido. Ele não está ouvindo a história da senhora japonesa por amor, mas quase como que por um desafio para si mesmo - ver se ele pode escrever mesmo. O enredo é lento propositalmente, por isso os parágrafos intensos e a quase ausência de eventos no presente, e isso combina com o que deve ser o objetivo do autor. Tendo dito isso, é possível dizer que não funcione direito. Um livro sobre a vida de uma japonesa escrito por uma pessoa que não dá a mínima pela japonesa seria, por consequência, ruim, não? E as partes do livro que contam a história dessa japonesa me pareceram extremamente cansativas. Por isso digo que, nas mãos de um autor ruim, esse livro seria ilegível, mas Bernardo Carvalho está longe de ser ruim, por isso esses defeitos são perdoáveis.

"Na Liberdade, nem mesmo um bêbado, ao sair trôpego de um restaurante, acreditando que é escritor, pode achar que está numa viela tranqüila dos subúrbios de Tóquio e não numa megalópole violenta do Terceiro Mundo. E, no entanto, é disso que as ruas de São Paulo tentam convencer quem passa por elas: que está em outro lugar, num esforço inútil de aliviar a tensão e o incômodo de estar aqui, o mal-estar de viver no presente e de ser o que é."

Agora quero ler outra coisa desse escritor. Um livro com um enredo melhor, sem tanta metaficção. Um livro com a história de suas personagens e não a história de uma terceira pessoal, que pode ou não ser real, cheia de mistério, mas um mistério cuja conclusão é completamente indiferente, tanto para o narrador - que só está atrás da resposta para dizer a si mesmo que ele não perdeu tempo - quanto para o leitor. O que salva e dá uma nota positiva ao livro são as observações muito interessantes do narrador sobre a autoidentificação e o ato de escrever, essa parte da obra vale muito a pena.

Nota: 3,5/5

Você pode ler o primeiro capítulo aqui: http://www.companhiadasletras.com.br/trecho.php?codigo=12363

domingo, 5 de janeiro de 2014

quando sonhei com nuvens

1

    ovelhas flutuam
                brincalhonas no infinito
                          pelo azul do acaso divino
                                              passeiam em união
                    percorrendo em saltos
              os pastos do universo
                               aos hinos sacros
                                         de um balido mudo

--
Obs.: começou com um haikai.

sábado, 4 de janeiro de 2014

46

o tecido da camiseta é levado como onda sem praia nem ponto de quebra pelo vento plástico que aos ganidos desabafa o quarto.]
sozinho, tenta afastar a solidão com palavras, mas os pensamentos atrapalham.
os erros recentes ressoam na reclusão,
o silêncio ecoa sonoro por si só.
esse não é lugar nem dia nem hora nem pessoa para lágrimas,
mas os céus parecem discordar e choram pequenas pedras d’água na janela, pedindo para entrar às batidas e sendo recusadas e explodidas escorregam pelas vidraças]
e a vergonha e o arrependimento hão de passar quando o vento levar o ego
e só não é sozinho o nada.
o eu tem de morrer para dar espaço ao nada, pois
o nada é a verdade única e pura.

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Obs.: agora com playlist nova, com direito a Jimi Hendrix, Stravinsky, Qwwali, música hindu e poesia recitada - de poetas melhores que eu, ou seja, todos, mas, falando sério, é de gente como William Blake, Dylan Thomas, Allen Ginsberg, não tem nem comparação.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Filmes de 2013 que eu não vi, mas verei

2013 terminou e é mais ou menos nessa época que eu descubro da existência de todos os filmes novos que eu perdi, porque moro numa cidade que não tem cinema - tá bom, tem cinema, mas não passa porra nenhuma; e eu posso ir pra Balneário, mas nem lá eu acho que esses filmes passaram. Sendo assim, pra ajudar minha própria memória, preparei uma lista com as obras que eu quero assistir e resenhar e vou colocar no blog porque vocês gostam de listas, não gostam? Nela eu vou falar um pouco sobre o filme em questão e o que faz com que eu queira vê-lo, meio que uma pré-resenha.

1) Blue Jasmine - Woody Allen

Esse foi o filme que o Woody Allen lançou esse ano. Todo ano tem coisa dele, todo ano eu assisto, às vezes ele acerta, outras erra. Pelo que dizem, esse é um dos acertos. Aparentemente é sobre uma socialite de Nova York tendo que aprender a lidar com a própria ruína. Como sempre, deve ter algum personagem pra fazer o alter-ego do Woody, algum hipocondríaco paranoico meio pervertido e sarcástico (provavelmente é o Louis C.K., e eu vou acabar me identificando de novo, desde Alvi Singer). Não é tão recente assim, achei que já estaria disponível para baixar ou alugar em algum canto, não está.

2) Before Midnight (Antes da Meia-noite) - Richard Linklater

Terceiro filme da trilogia dirigida por Richard Linklater (precedido por Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol). Tenho no computador, não vi ainda porque quero ver a trilogia completa, aparentemente existe uma sequência e começar pelo último não é uma boa ideia. Tudo que eu sei é que a história se passa 20 anos após o casal do primeiro filme se conhecer (o elenco principal é o mesmo e 20 anos se passaram desde a primeira filmagem). Não sabia quem era o diretor quando ouvi os primeiros elogios sobre esse filme, mas, ao pesquisar, vi que ele fez Dazed and Confused (Jovens, Loucos e Rebeldes - tradução de merda), que é um dos meus filmes favoritos dos tempos de adolescência, meio que um dos muitos responsáveis por eu gostar de cinema hoje (junto com Tarantino, Woody Allen e Godard), então tenho que ver esses filmes também.

3) Inside Llewyn Davis (Inside Llewyn Davis - Balada de um homem comum; porque o subtítulo é necessário) - Joel e Ethan Coen

Ia ver esse aí só por causa dos irmãos Coen, mas quando fiquei sabendo do enredo, tive vontade de ver por causa disso também. A história é baseada na vida de Dave Van Ronk, só que misturada com ficção. Não sabe quem é ele? Bom, ele foi o mentor do Bob Dylan e um dos maiores nomes do cenário folk de Greenwich Village, em Nova York, na década de 60. Precisa de mais motivo?

4) Le Passé (O Passado) - Asghar Farhadi

Me tornei fã de Asghar Farhadi com Uma Separação, de 2011. Jurava que tinha feito resenha desse, mas esqueci. Um dia desses sai. De qualquer forma, Uma Separação foi um dos dramas familiares mais geniais que eu já vi e O Passado parece ter o mesmo estilo, só que se passa na França e não no Irã. Estou prevendo uma análise interessante entre as diferenças culturais entre Oriente Médio e Europa. Aqui no Brasil, reza a lenda que só estreia em maio de 2014. Na França já saiu faz tempo e acho que já está na internet.

5) 12 Years a Slave - Steve McQueen

Estava com um pé atrás com esse aí, achei que era isca pra Oscar, mas não é bem isso. Esse é um dos primeiros filmes sobre a escravidão que conta a história pela perspectiva de um escravo, e não um homem branco que foi forçado a encarar os erros de suas atitudes. Isso é o que faltava nesse gênero. E Steve McQueen já é um diretor renomado, apesar de sua carreira curta. Enfim, esse é um que eu estou ansioso mesmo para assistir.

6) Gravity (Gravidade) - Alfonso Cuarón

Esse é o menos recente da lista, provável que vá estar disponível em locadoras logo, assim com na internet. Não pude ver na época de estreia. Ao que tudo indica, esse é o filme que vai convencer a todos que ainda estavam com um pé atrás quanto à qualidade artística do cinema digital. Cuarón é um dos grandes diretores contemporâneos, e seu "Filhos da Esperança", de 2006, é excelente. Quero ver como ficou esse aí.

7) La Vie D'Adèle (Azul é a cor mais quente) - Abdellatif Kechiche


Esse gerou alguma polêmica e está sendo bastante falado. É baseado em uma história em quadrinhos e, basicamente, é a história de duas garotas se descobrindo sexualmente como lésbicas. A polêmica envolveu mais o diretor e a forma como ele pressionou as duas atrizes principais (proibiu que elas se maquiassem, as filmou enquanto elas estavam fora do personagem, demorou 10 dias para gravar uma cena de sexo - de várias -, filmou 800 horas para um filme de 3 horas, por exemplo), a ponto de ele próprio ter se envergonhado da sua atitude e quase ter cancelado o filme. Outro problema é que esse é mais um filme sobre lésbicas pela visão de um diretor homem heterossexual. Filmes assim têm a tendência de se tornarem fetichistas, meio como "Quarto em Roma" (um dia falo desse). Bom, quero ver antes de falar mais sobre.

8) Only Lovers Left Alive - Jim Jarmusch

Já falei do Jim Jarmusch aqui anteriormente, sou fã, fiquei sabendo que ele fez um filme de vampiro esse ano, mal posso esperar pra ver. Pois é, nesse período em que o vampirismo meio que entrou na moda e já saiu, um dos maiores nomes do cinema "independente" (em aspas porque independente é um termo meio vago e, tecnicamente, os filmes dele, assim como os da maioria dos independentes, são financiados por empresas, geralmente europeias, o que mata o sentido de independente, mas, ei, "indie" é moda, não?) americano decidiu compartilhar a visão dele da coisa. A história é sobre o amor de séculos de um casal de vampiros, que se reencontram, mas são interrompidos quando a irmã mais nova da vampira aparece. Conhecendo o diretor, vai ser uma experiência no mínimo divertida.

9) La Grande Belleza (A Grande Beleza) - Paolo Sorrentino
Único filme italiano da lista. Não sei quase nada sobre ele, mas a sinopse me pareceu ótima, meio que "Um Retrato do Artista Quando Velho", entendem o que eu quero dizer? Um homem, famoso pelo seu primeiro e único romance, ao chegar nos 65 anos, revê sua vida de festas e glórias e se choca com o vazio, passando a buscar, em Roma, a verdadeira beleza. Não conheço mais nada, nem diretor, nem elenco. Fiz uma pesquisa, vi que o diretor tem uma carreira com filmes curiosos, devo ver alguns uma hora ou outra, mas vou começar com esse.

10) Her (Ela) - Spike Jonze



Outro filme que eu já espero faz um tempo. Gosto do trabalho do Spike Jonze desde "Quero Ser John Malkovich" (devo falar alguma coisa sobre esse logo), então realmente quero ver esse filme novo dele. A história é sobre um escritor que se apaixona pelo seu sistema operacional, programado para satisfazer suas necessidades (em defesa do escritor, o sistema operacional tem a voz da Scarlett Johansson). Parece interessante, não acho que já vi uma premissa dessas antes e agora me parece uma época melhor que nunca para falar sobre esse tema. Assim que estiver disponível em algum lugar, verei como ficou.

Essa é a lista, quis me limitar a dez filmes quando vi que tinha muito mais que isso. Esses são só os principais, mas também incluiria na lista The Wolf of Wall Street (O Lobo de Wall Street, Scorcese), Yi dai zong shi (O Grande Mestre, Wong Kar-Wai), American Hustle (Trapaça, David O. Russell), Kill Your Darlings (Versos de Um Crime, John Krokidas), Prisoners (Os Suspeitos, Denis Villeneuve), Enemy (adaptação de o O Homem Duplicado, do Saramago, dirigido também por Denis Villeneuve, vish, dois filmes num ano), Nebraska (Alexander Payne), The Counsellor (O Conselheiro do Crime, Ridley Scott), La Migliore Offerta (A Melhor Oferta, Giuseppe Tornatore - mesmo cara que fez Cinema Paradiso e Malena) e Adieu au Language (Adeus à Linguagem, o 3-D do Jean-Luc Godard). Aguardem essas resenhas durante 2014. Ou não, já que ano passado eu fiz uma coisa parecida com isso e não segui.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

-25

não vá sóbrio adentro à noite solitária, ele dizia a si mesmo,
cruzando o caminho dos pombos que passeavam indiferentes, sem, por ele, sequer bater as asas.
foi pego por um jato de ar frio ao cruzar a porta.
por todos os lados, passam pessoas,
elas são de pedra,
frias arrastam suas carcaças, crias e carrinhos,
elas falam, elas brigam, elas compram e alguém chora.
se ninguém calar essa criança do diabo calo eu
ele começa a se sentir cercado, a respiração requer esforço,
cadê a porra do vinho
tem promoção pra Jack Daniels mas não dá
o bolso não carrega o suficiente de qualquer forma
porto a de servir
tudo é labirinto naquele inferno de ar condicionado no qual ninguém te ouve aos gritos.
garrafa em mãos, hora de fugir, mas tem fila.
alguém analisa as opções, mesmo sendo tudo igual;
outro reclama da demora, mesmo ela sendo geral;
é só falar e o cartão do cara da frente não passa
e o idiota decide devolver uns itens e ninguém sabe mexer na máquina
que trava e desiste;
a histeria só aumenta e ele precisa sair de lá antes que tudo pegue fogo,
mas não sem a garrafa.
boa noite, diz a garota dos sonhos esmagados.
ele a olha nos olhos opacos e a vida que lhes falta faz com que ele acredite que sua noite, por não ser a dela, possa de fato ser boa,]
e ele tira as notas amassadas do bolso e sai em correria, 
as vozes se foram.


mas ainda falta para chegar em casa, se trancar a salvo dos outros,
o caminho parece alongar a cada passo.
tem um homem em frente ao ponto de ônibus,
ele o olha estranho.
assalto mas tem muita gente por perto
esse povo não se importa
ele troca a sacola de mãos, larga as alças e pega a garrafa pelo pescoço.
reajo 
e se for mesmo 
se tiver arma
e se não for 
é só coisa da cabeça
essa garrafa é capaz de quebrar 
se fosse Jack Daniels matava numa pancada
está chegando perto
um movimento e
três
dois
nada acontece, engano, paranoia.
só consegue relaxar de novo
quando ouve o som da chave em sua porta e do vinho enchendo o copo,
respira fundo.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Venenos de Deus, Remédios do Diabo - Mia Couto (2008)


É, Mia Couto está se tornando um dos escritores atuais mais interessantes para mim. "Venenos de Deus, remédios do Diabo" é o segundo livro dele que eu leio, o primeiro tendo sido "Terra Sonâmbula" - o qual não resenhei, porque não soube como e preferi não dizer nada a falar merda -, e, embora eu não queira me adiantar aqui, foi um daqueles livros cuja leitura flui quase que sozinha.

A história se passa em Vila Cacimba, no Moçambique, onde Sidónio Rosa, português, vem servir de médico. Na Vila, contudo, ele trata em especial de um senhor, Bartolomeu Sozinho, mecânico naval aposentado e que vivia de cama, em estado terminal. O velho é casado com dona Munda, e os dois vivem brigando, cheios de rancor um pelo outro. Só que Sidónio tem outro motivo para estar lá, além da medicina, ele tem a memória da filha desse casal, a desaparecida Deolinda, que ele conheceu - no sentido bíblico - em Lisboa, mas que o deixou ao voltar para casa. Se mete na história também o corrupto administrador da Vila, Suacelência, inimigo de longa data de Bartolomeu, cuja participação nos fatos é duvidosa - logo explicarei esse trecho.

"O médico Sidónio Rosa encolhe-se para vencer a porta, com respeitos de quem estivesse penetrando num ventre. Está visitando a família de Bartolomeu Sozinho, o mecânico reformado de Vila Cacimba. À porta, a esposa, Dona Munda, não desperdiça palavra, nem despende sorriso."

A poesia em prosa do Mia Couto é genial. Aprendiz declarado de Guimarães Rosa, ele consegue criar uma linguagem própria, típica do Moçambique, cheia de poesia e mágica, para pintar sua terra sofrida. Não tem como não se prender pela narrativa tão misteriosa. 

A narração, em si, quase não se mete na história. Descreve cenários, aponta gestos, mas sempre que pode dá espaço ao diálogo. São os personagens que regem o enredo de verdade, o narrador está lá apenas para inserir melhor o leitor, mesmo assim, muito pouco, pois nada é confiável em "Venenos de Deus, remédios do Diabo" (viram o que eu falei da participação duvidosa, falei que ia me explicar, tá aí). Aos poucos vão se revelando mentiras sobre a vida de Munda e Bartolomeu, sobre Suacelência, Deolinda, e até Sidónio, embora de longe o mais inocente do livro, tem seus segredos.

"O velho Bartolomeu vai trocando os pés para esconder um buraco na peúga. Até no morrer ele era minucioso. Um esgar a proteger-lhe os olhos do fumo do cigarro, o reformado mecânico inspira e geme por turnos.
- Vê estas olheiras? Já são maiores que a cara inteira. É fígado, o fígado já me chega aos olhos.
O fígado, para ele, não é um órgão. É um fluido que circula pelas entranhas. À porta da morte, a pessoa não passa de um saco de bílis.
- E depois nunca mais saio deste maldito barco.
- Refere-se aos enjoos?
- Aos enjoos, a esta porcaria deste balanço, parece que ainda estou na merda do navio."

Difícil falar sem revelar grandes pedaços da história. E o melhor mesmo é encarar essa leitura às cegas, esperar que tudo vá se revelando e ir se deixando conduzir pela poesia. Por outro lado, isso empobrece a resenha. No entanto, tendo dito isso, se o papel da crítica é só apontar ao seu leitor se ele deve ou não ler determinada obra, vai por mim e leia "Venenos de Deus, remédios do Diabo". É um romance belo e perfeitamente construído, digno de cada um dos elogios que recebe.

Nota: 5/5 

Trechos retirados do primeiro capítulo, disponível para leitura aqui:
http://www.companhiadasletras.com.br/trecho.php?codigo=12649