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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Um triste quadro numa peça de teatro na Hercílio Luz numa tarde de sábado



Caía uma enxurrada de verão. Me vi pela segunda vez na nova livraria de Itajaí, meio por impulso meio por falta do que fazer. Por algum motivo eu parecia intimidar os vendedores, salvo por um deles. Um rapaz franzino, seguindo a moda de deixar a barba, mesmo que a barba não o seguisse, formando apenas penugens nas bochechas e no queixo. Não era o vidente da primeira vez que fui lá, pelo contrário. Entrei e, como é meu costume, fui até a área de literatura nacional. Tinha dado uma boa olhada nas estantes e na organização, podendo dizer que já conhecia o lugar desde a visita anterior. O moleque veio de uma maneira que eu considerei invasiva. Entendam, eu não preciso de muito pra não gostar de uma pessoa. O tom errado em um bom dia já é o suficiente pra eu olhar torto pra um desconhecido. Ele me parou e perguntou se eu precisava de ajuda. Respondi que não, tinha acabado de entrar. O certo a se fazer numa hora dessas é dizer, ok, e procurar outro cliente pra importunar. Lembram do que eu falei no último texto sobre minhas desventuras em livrarias - deixe o cliente se familiarizar com o local e use seus movimentos para se familiarizar com o cliente; se o rapaz tivesse lido meu blog, hoje ele seria um vendedor menos pior. Está procurando algo específico, ele insistiu. Não, eu disse. Ele deu uma risada nervosa e disse, é que você entrou com tanta segurança. Tive que me controlar pra não dizer, eu sei mais do que você, então sai do caminho. Disse apenas que já havia estado lá antes e conhecia o lugar. Acho que ele não falou mais nada.

De cara vi um livro que me chamou atenção. Mil rosas roubadas, do Silviano Santiago. Fui passá-lo no leitor de código de barras para ver o preço, mas não consegui acertar o ângulo. Aí eu me toquei que meu diálogo com o outro vendedor podia ter afetado os outros. Uma moça de aparência tão frágil quanto o rapaz incômodo perguntou se poderia ajudar. Bom, naquela ocasião ela poderia, então disse que sim, por favor - eu sou educado, apesar de tudo. Ela passou o livro no leitor. As mãos dela tremiam e ela parecia se recusar a olhar na minha direção, com a cabeça meio baixa e a voz também trêmula. Eu me senti mal. Verdade que o primeiro vendedor era um cretino e merecia algum grau de hostilidade - na minha cabeça -, mas eu não tinha nada contra o resto daquelas pessoas.

O arrependimento durou pouco, quando me vi em paz vasculhando as estantes sem ninguém me perguntando o que eu queria, sendo que, de fato, eu não queria nada. Separei uma antologia de poemas do Murilo Mendes e outra da Elizabeth Bishop (uma edição bacana e bilíngue da Companhia das Letras, com tradução do Paulo Henriques Britto); o romance O Drible, do Sérgio Rodrigues; o livro do Evandro Affonso Ferreira que o vendedor da ocasião anterior me tinha sugerido; o livro de um português que na contracapa foi comparado com Kafka, mas que não me lembro do nome; um do Miguel Sousa Tavares. Era tanta coisa na minha cabeça que minha hostilidade perante os vendedores poderia ser vista como simpatia. Imagina submeter uma pessoa ao meu sistema analítico de escolha, cheio de pesos, medidas e variáveis. Não detesto ninguém dessa maneira.

Fui ao caixa com o do Sérgio Rodrigues, o da Elizabeth Bishop e o do Evandro Affonso Ferreira. Ela me disse o valor e eu não tinha o suficiente pros três no bolso - me recuso a entrar no jogo do cartão de crédito. Pedi pra tirar o do Evandro. Paguei e fui embora. Ninguém me entregou cartão de comissão. Mas a história não é sobre isso.

Saindo do shopping, a chuva tinha passado. Grandes poças haviam se formado nas esquinas, mas o calor já tinha quase secado a calçada em partes onde água não estava acumulada. Peguei a Hercílio Luz pra voltar pra casa. Uma rua comercial que sempre procuro evitar por causa do barulho, do movimento, dos gritos e do cheiro desagradável, mas que depois do horário de trabalho fica tranquila, com todas as lojas fechando, os funcionários indo embora, compradores de última hora levando suas sacolas, pombos carregando restos de comida em seus bicos, artesãos guardando seus trabalhos; essa impressão de fim me acalma por algum motivo. Chegando no começo da rua - fiz o caminho inverso, entrando no fim e saindo na entrada -, na esquina onde fica a Casa de Cultura, havia uma cabine cercada por duas caixas de som. Uma voz dramática saía dos alto-falantes. O interior da cabine imitava a sala de uma locutora de rádio, com um microfone e uma placa em que estava escrito "no ar". Lembrei de ter visto um anúncio de que haveria uma peça ali às cinco da tarde. Eram seis, então a chuva devia ter adiado o começo. A sinopse que eu li dizia ser a história de uma locutora demitida após vinte e cinco anos de carreira, que decide, no último programa, desabafar. Cheguei quando ela havia sido demitida. De início, demorei pra me conectar à peça por culpa da linguagem. Talvez, sem meu conhecimento, ela se passasse em outra época, mas eu não percebi isso e, portanto, estranhei e muito o uso da palavra pinoia. Me senti assistindo à novela das oito. Não ajudava que a atriz fazia uso desse jeito sempre tão bem enunciado de falar, comum no teatro, mas que não me agrada nem um pouco. Esse linguajar antiquado e o jeito forçado de pronunciar as palavras seguiu durante toda a curta peça - ao todo não durou dez minutos, mas eu nem percebi que tinha sido tão pouco.

Em algum momento, uma coisa me cutucou a barriga. Tentei olhar ao redor pra verificar que tinha sido, mas meu foco estava preso à cabine e à atriz. Era verdade que a peça não passava de um grande clichê. Adivinhem qual era a perturbação da locutora: ela sofreu abusos familiares - que original. Me perdoem a insensibilidade, de forma alguma diminuo casos reais de abuso infantil ou de qualquer outro tipo. Mas na ficção, principalmente uma ficção que tem em seu roteiro a palavra pinoia, esse artifício está batido. Tem que ser muito bom pra funcionar. E essa atriz, afetada que fosse, era boa. Deixando de lado minhas barreiras iniciais, consegui me sensibilizar com a história clichê que ela contava, principalmente pela maneira que ela contava e por ela ter se sensibilizado também. Então novamente veio o cutucão e eu pude ver que era uma garota baixinha, regulando entre os dezoito e vinte e dois anos. Mesmo depois de eu ter olhado pra ela, ela seguiu me cutucando sem dizer nada. Imaginei que ela sofria de algum problema e o melhor seria não fazer nada. Então ela me entregou um panfleto plastificado. Minha atenção estava bastante dividida. Vi as palavras  do panfleto, mas não as entendi, nem imagino do que elas pudessem se tratar. Sei que eram sobre uma organização de apoio a alguma coisa - podia ser doença, deficiência, abuso. Peguei o panfleto, mas ainda não fazia ideia do que ela poderia estar querendo. Voltei a atenção à peça, ela me cutucou de novo. Posso te ajudar, falei. Ela me mostrou uma caderneta. Nela havia três colunas, nome / valor / assinatura, e  várias linhas abaixo de cada coluna, estando apenas duas fileiras de linhas preenchidas até então, ambas vinham com dez reais na coluna de valor. Entendi que ela queria uma doação. Não fazia ideia de por que ela não falava. Podia ser que ela fosse muda, mas algo insistia em me dizer que era parte da peça, ou um movimento em paralelo desenvolvido pela Casa de Cultura. A menina, não falando, queria me dizer algo que eu não estava conseguindo captar. No meu bolso eu tinha dez reais. Dei pra ela. Ela apontou a caderneta com uma caneta, insistindo pra eu assinar. Fiz. Ela sorriu, sem nunca mostrar os dentes ou abrir a boca - era isso que me insinuava que tudo se tratava de uma performance. Enquanto eu segurava a caderneta, ela pôs o braço ao lado do meu e apontou para um e para outro. Entendi que era para mostrar a diferença na cor das nossas peles. Então ela abriu os braços como se feixes de luz saíssem de suas mãos e englobassem a todos, um sinal de igualdade. E minha ideia de que ela era uma peça de teatro paralela à outra só crescia na minha cabeça. Quando ela fez o gesto, pensei em fazer uma piada dizendo que ela estava apontando a diferença entre os nossos tamanhos (e poderia bem ser), mas não achei apropriado - não podia esquecer das chances de ela não poder me ouvir. Ela agradeceu com um meneio de cabeça e foi fazer a mesma coisa com outra pessoa, sempre sem falar nada, sempre cutucando com a caneta. E agora eu me via observando as duas, a atriz na cabine e a garota que não falava. 

A emoção da atriz me fez acreditar que o desabafo se tratava de um improviso baseado na realidade. Aos poucos o público foi se mostrando incomodado. Ela falava de espancamentos e o que eu imagino ter sido um estupro (a linguagem foi mais abstrata nessa parte, e o microfone não ajudava a compreensão) na frente de famílias comuns, gente que nunca foi no teatro e não entendia o que estava acontecendo, crianças. Saí da realidade interna por um momento. Vi além da peça, incluindo o público como parte dela, tudo uma coisa só. Nada mais apropriado, visto que a cabine onde estava a atriz era na verdade uma vitrine de loja, justamente objetivando essa inserção estranha entre dois mundos supostamente opostos (arte/consumo). Vi a senhora que, revoltada, foi embora sussurrando a pouca vergonha que era aquela apresentação; a mãe tapando os ouvidos do filho pequeno sempre que a atriz falava um palavrão; o homem pedindo pra não assinar a caderneta de doação da garota que não falava; a própria garota indo de pessoa em pessoa e repetindo seus maneirismos; a atriz que chorava repetindo lágrimas reais perante a vida fictícia da personagem; eu com uma sacola de livraria na mão tentando de alguma maneira entender tudo aquilo (e formulando frases mentais na esperança de transformar aquilo em texto, já que não sei pintar ou filmar).

A atriz começou a desabotoar a blusa, gritando que era tudo que lhe faltava tirar, visto que, após o desabafo, já estava nua para os ouvintes. Um botão e ainda mais pessoas foram embora a passos de desconforto e desgosto. Num banco bem de frente para a cabine estavam os mais entusiastas entre o público. Creio que alguns sentados ali choravam e sentiam mesmo, como se fizessem parte da organização. A garota que não falava me viu e me cumprimentou a distância, devolvi o cumprimento. Era como se ela soubesse que eu queria saber qual era a dela - ou como se ela fosse totalmente indiferente. Óbvio que a atriz vestia uma camiseta fina de alça por baixo da blusa e grossas meias-calças brancas por baixo da saia. A peça seria proibida em dois segundos se envolvesse nudez pública em meio a crianças e gente de família - estes últimos tão cheios de pudores e sensibilidades. Ajoelhada, ela encerrou. Levantou-se, saiu da cabine e começou a tocar uma marchinha da época de ouro dos rádios - eis a explicação da pinoia. Os que restaram de nós começaram a aplaudir. Ela agradeceu, mais que tudo surpresa pelo número de pessoas que pararam para assistir a peça até o final.

Fui embora tocado de verdade. Não imaginava que uma apresentação dessas, informal, no meio da rua, era possível sem que houvesse desrespeito e distrações. Precisei transformar aquela cena em alguma coisa, fosse o que fosse, mesmo que fossem só palavras sem finalidade. Encarrego o leitor de tirar conclusões aqui. Para mim foi só uma tarde melancólica de sábado cercada por beleza fora do comum. Poderia ter abordado a garota que não falava depois da peça, perguntado se ela era parte daquilo ou se só estava atrás de doações para sua organização; se era muda ou só atriz; escolhi não fazer. Que importariam essas respostas afinal?  

5 comentários:

  1. É realmente incrível como você consegue transformar uma simples tarde em um texto significativo.
    Pessoas com esse dom sempre prendem a minha atenção.
    Usamos palavras pra nos comunicar todos os dias, mas a diferença entre um artista e uma pessoa que só quer se comunicar é a escolha dessas palavras.
    É sempre um prazer vir aqui e me deleitar com seus textos.
    Obrigada por isso.

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    1. Eu que te agradeço por um comentário desses.
      Volte sempre.

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  2. Percebo a arte como espelho, Raphael, mas como somos seres complexos, nem sempre conseguimos fazer a ligação.Costumo catalogar esses acontecimentos como "momentos mágicos", isto é, momentos que ficarão para sempre na memória em busca de explicação.

    Como sempre um belo texto.

    Feliz Natal e Feliz Ano Novo.:)

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    1. Olha, é bem isso. Nem sei dizer se escrevi pra entender. Escrevi porque precisava mesmo, sem objetivo.

      Feliz natal e feliz ano novo. Volte sempre.

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  3. Que belo texto! O comentário da Raissa Martins já diz tudo. A maioria das pessoas não ia parar nem para ver a peça, escrever sobre ela então... puft. Você escreve com muita sensibilidade, e, nossa, como falta sensibilidade nos dias de hoje! :(
    Parabéns mesmo pelo texto!

    www.bibliophiliarium.com

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