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domingo, 2 de novembro de 2014

Poesia: 70

imagem recorrente imaginária
cenário:
à mesa de um restaurante barato ao meio-dia
Eros esterilizado
eu e você
uma epifania
daquelas que só quem perde seis anos da vida pode ter
a satisfação da lição aprendida
pergunto:
você está feliz?
resposta:
sim
isso me basta
ajo como se tivesse escolha
como se a resposta mudasse algo
não mudaria
mas estou pela primeira vez
completo
digo que estive apaixonado por ela esse tempo todo
ela diz que já sabia disso
eu sabia que ela sabia
sem jeito (nós ficamos)
é que agora, eu digo
sinto que passou
entre aspas
é outro amor agora
o que se sente por uma memória agradável
por bons momentos
quero que fique feliz
Eros se rebate
digo palavras que
não fossem elas sinceras
deveriam me levar à forca
pena de morte poética
crime:
idéias de auto-ajuda
mas é isso mesmo
só posso pedir perdão pelas palavras
Erato e Eros cospem na minha face
depois na minha alma e na minha libido
não me sinto derrotado

-
Vontade estranha de botar uma dedicatória nesse daí. Se não fosse minha vontade de me manter anônimo (salvo pelo meu nome e a cidade em que moro, informação que todo mundo que lê esse blog sabe), faria, mas esse não é um blog diário em que eu vômito meus problemas de maneira pseudo-reflexiva em busca de criar identificação entre mim e os leitores. Também acho melodramático deixar tão claro que determinado poema/conto/romance tem um quê de autobiográfico. As tragédias de amor tampouco valem um tostão em tempos pós-facebookianos. Amores não-correspondidos já tão velhos então, nauseantes. E a pessoa em si nem lê o que eu faço, apesar de saber que existe. Eu acho. De repente lê, mas não diz nada. Remoer por tantas linhas a dúvida do dedicar ou não dedicar também é excessivamente dramático e, até certo ponto, falso. Afinal, se a ideia era não deixar claro se o acontecimento descrito é real ou não, esse parágrafo deveria ter sido omitido. Depois de tudo isso, mais vale dedicar e dar fim a essa história. Mas dar nome aos alvos é muita cara-de-pau, quase uma invasão. Solução:

Dedicado à moça que roubou meu livro do Mia Couto. A essa altura, considere-o um presente.

Obs.: a diretoria pede desculpas aos leitores pela explosão metalinguística. O autor será devidamente repreendido, visto que esse não é o lugar para esse tipo de coisa.
Obs. 2.: a Diretoria, também conhecida como Comissão Imaginária de Vistoria (ou de Vistoria Imaginária), pede perdão por ter deixado passar a obscena troca de um mais por um mas. O autor, já em observação por seu infame metamonólogo, foi duplamente punido. A CIVouVI agradece a compreensão e informa que, se pudesse ocupar uma mente melhor, o faria.

7 comentários:

  1. Oi, Raphael! Confesso que estava achando o seu poema tão pessoal que me sentiria invadindo a sua privacidade se comentasse alguma coisa. Mas a) estou te devendo um comentário e b) seus obs's foram totalmente inesperados e fiquei rindo aqui enquanto definitivamente não era para estar, sorry. Enfim, parabéns por ter transformado um momento em uma bela poesia! :)

    www.bibliophiliarium.com

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    1. Oi. Não esquenta, se fosse invasão de privacidade o comentário, eu não teria tornado pública a poesia. Fique a vontade para dizer o que quiser quando quiser por aqui, este é um espaço de liberdade.
      Por que não era pra estar rindo? Todo esse poema foi uma sátira de mim mesmo e as observações serviram para completar a piada. O objetivo, apesar de não parecer, era fazer rir sim. Eu estava rindo enquanto escrevia, pelo menos; pra mim isso é um sinal. Obrigado mais uma vez.

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  2. Adorei a poesia <33.

    memorias-de-leitura.blogspot.com

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  3. Pelo jeito ela não roubou apenas o livro, mas também o coração. rs...
    Eu também as vezes me pego rindo das coisas que escrevo.Penso que o dramático tem sempre um "q" de hilário.
    Muito boa a sua poesia, Rafhael. Gosto muito de te ler.:)



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    1. É, mas esse ela devolveu. Ou nunca pegou, mas eu insisti em entregar e ele caiu no chão e ficou lá até agora, o pobre canalha.

      Né? O velho clichê da tragicomédia é real.

      Muito grato, volte sempre.

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  4. Olá, Raphael!
    Adorei a poesia.
    Tendo a transformar situações que envolvem amores e decepções em poemas e sinto a vontade de esfregar o dito cujo nas fuças da amada, mas mantenho tudo em um segundo blog, em que mantenho anonimato.
    Assim como minha amiga Tici, me peguei rindo de seus pormenores. Sou desses que ri da tragédia sozinho, enquanto olhares de repressão me olham. A risada vai diminuindo, dou um suspiro, faço cara de pesar e finjo que nada aconteceu.
    Este comentário foi escrito ao som de The Heavy. Agradeço a indicação!
    =D

    http://osdragoesdefogo.blogspot.com/

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    1. Muito grato.
      Foi Henry Miller quem disse que a melhor forma de superar uma mulher é transformando-a em literatura. É verdade, eu aprendi bem cedo. E imagino que você não vá me dizer qual o tal blog anônimo? Tentei me manter anônimo aqui também, mas imaginei que facilitaria roubos. E sou egocêntrico demais para admitir a exposição do meu trabalho sem meu nome logo abaixo.
      O poema é uma piada do começo ao fim. Uma piada melodramática, piada de qualquer forma.
      The Heavy foi uma descoberta e tanto pra mim também.
      Volte sempre.

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