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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Morte no quarto 812 [Conto] - parte 1

Querida Mariana,

não sei bem por onde começar. Não posso imaginar como você vá se sentir ao ler essa carta, acho que a única coisa que posso te pedir é que você me entenda. Acho que primeiro de tudo tenho que dizer que te desejo o melhor, que só tomei essa decisão que agora pode te parecer loucura porque sei que você se tornou uma mulher capaz, que assimilou ao máximo a educação que eu e sua mãe tentamos te passar. Você só tem vinte e três anos, mas tenho a sensação de que está segura, também fiz questão, antes de tomar qualquer atitude egoísta, que você não teria que precisar de mim financeiramente de novo. Não é muito que eu te deixo, é apenas o suficiente para te manter por alguns anos e meu apartamento, que você pode vender, caso não queira viver lá, eu compreendo, no seu lugar talvez não quisesse também. Acho que para esses momentos da sua vida que eu não vou acompanhar, só posso esperar que você seja feliz.

            Levantou-se da cadeira por um instante. Deixou a caneta sobre o papel para que descansassem um pouco. A caligrafia refletia o tremor de suas mãos, tinha medo que isso fosse passar uma sensação de angústia à destinatária ainda maior do que a que ela já seria submetida apenas pela ocasião. O fato de que ele não escrevia nada a mão há anos não ajudava. Tentou se lembrar de quando foi a última vez que usou papel e caneta. No passado recente, apenas para algumas poucas assinaturas. Muito provável tivesse sido nos papéis do seu divórcio. Atravessou o quarto, que era mais espaçoso do que ele esperava, e sentou-se na cama ao lado do telefone que ficava sobre a cabeceira.
            - Recepção, boa tarde.
            - Boa tarde, aqui é do quarto 812, quanto seria uma garrafa de uísque?
            - Depende da marca, senhor.
            - Quais você tem?
            - Temos Johnny Walker Red, Black, Gold e Blue label. Essas variam entre cento e oitenta e novecentos e cinquenta reais; temos Ballantine’s e Jameson por duzentos reais; temos Jack Daniels por duzentos e dez reais; temos Wild Turkey por duzentos e cinquenta reais; Chivas Regal doze anos por trezentos e quinze reais; Glenfiddich doze anos por trezentos e oitenta reais; e Chivas Regal dezoito anos por quatrocentos e trinta reais.
            Preços de hotel, como sempre.
            - Obrigado, qualquer coisa eu ligo de volta.
            - Eu que agradeço, senhor.

            Teria que passar no supermercado, compraria lá uma garrafa. Pena que queria dar uns tragos antes de sair do hotel. Não estava certo de que poderia comprar os materiais da lista enquanto sóbrio. O método era o que mais o incomodava. A velha corda no pescoço, tão rústica e antiquada, tão simples e eficaz. Sua preferência pessoal era o tiro na cabeça, parecia o mais rápido. Pensar na parte prática lhe causava náuseas. No projétil quente e veloz passando pelo cano da pistola, o chumbo sem freios encontrando sua testa, passando pelas camadas finas de pele e músculo como se não estivessem ali, então o crânio exige algum esforço, mas nada que interrompa a trajetória ou diminua consideravelmente a velocidade, toda a massa encefálica é atravessada, até que outra parte do crânio é atingida e, também, penetrada, quebrada para que a bala saia, ignorando mais uma camada de músculo, pele e, dessa vez, cabelo, e leve consigo partes do cérebro, sangue, osso, pele e cabelo, espalhando tudo pelo chão e pelas paredes; o projétil ainda viaja indiferente, parando ao atingir a parede manchada com as gotículas de sangue, talvez um pedaço de cérebro com tendências aerodinâmicas, mas não sem antes lutar um pouco e perfurá-la em uma profundidade de alguns dedos, e lá ele fica até que limpem a sujeira e removam o corpo; quem encontrar a bala vai sentir aquele arrepio na espinha de quem vê a própria morte no objeto que matou a outro, sentir sua fragilidade resumida naquele pedaço manchado de chumbo, então, dependendo da sensibilidade da pessoa, pode reviver mentalmente a cena e imaginar a bala saindo do revólver, repetir todo o processo até que ela volte à parede e as suas mãos calçadas com luvas de borracha. Se o procedimento durasse minutos, seria agonizante, mas são segundos, menos, um piscar de olhos, tamanha é a fragilidade do ser humano. E então? Ele achava que era só isso. Não estava cem por cento certo, mas achava muito difícil uma vida após a morte. Ainda assim, não era essa a parte que o incomodava. Pensava no momento, em como, apesar da trajetória da bala ser percorrida em um piscar de olhos, tempo é relativo. Em quantas coisas ele é capaz de pensar em um piscar de olhos? Em quantas coisas pensaria antes da bala levar sua vida? Haveria tempo para o arrependimento? Haveria tempo para a dor? Sentia a pele da sua testa repuxar. Coçou a cabeça, passou a mão pelo rosto, mas a impressão de que algo se rastejava por baixo da pele de sua testa não aliviava. Outro fator o mantinha intrigado, a que momento o nada – ou qualquer outra coisa que viesse após a morte – tomava conta? Não era médico, mas imaginava que o cérebro podia aguentar alguma quantia de dano antes de parar de funcionar. Podia ser logo no começo ou mais para o meio ou somente no fim de tudo e logicamente passaria tudo em um instante muito breve para ser percebido. Era por isso que preferia o tiro a pular da janela de um prédio alto, a persuasão da velocidade. O efeito da passagem lenta do tempo deveria ser o mesmo quando em queda livre, só que o tempo real é muito maior para chegar da janela do oitavo andar de um hotel até o concreto da rua do que da bala de pistola para atravessar uma cabeça. Mas será que ele sentiria a bala percorrer o interior da sua cabeça, considerando que de fato o tempo se movesse mais devagar durante o ato, conforme sua percepção? A dúvida não fazia sentido e a resposta era irrelevante. Por que ainda estava pensando naquilo? Tinha decidido meses antes que não iria se matar com um tiro na cabeça. Chegou a dar uma lida na burocracia necessária para comprar uma arma e era tudo muito caro e demorado. Não que para onde ele estava indo ele fosse precisar de tempo e dinheiro, mas se pudesse fazer de outra forma, com menos desperdício – queria deixar o máximo à filha, afinal –, ele o faria. Comprar a arma clandestinamente era outra opção, no entanto ele não tinha ideia de quem lhe poderia fornecer. Quando era adolescente, queria experimentar maconha; nem disso, algo tão banal, ele conseguiu encontrar um vendedor. Teria que procurar e fazer perguntas suspeitas ao pessoal da firma em que ele trabalhava, descobrir se alguém lá era atirador ou colecionava armas de fogo – isso se quisesse ser discreto – era muita dor de cabeça. Decidiu, então, pelo enforcamento.

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Comecei esse conto já faz meses. Vou terminar, mas antes quero terminar meu romance, antes de me dedicar aos contos (tenho toda uma coleção de contos planejada). Vou me esforçar pra trabalhar nesse esse fim de semana, nem que seja pelo blog, caso vocês, meus leitores que sei que existem, se interessarem o suficiente pra me estimular. 

3 comentários:

  1. Olá Raphael :)
    Obrigada pelo comentário no blog!
    Gostei do conto, estou curiosa pela continuação :)
    Beijo!

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  2. Muito corajoso da sua parte publicar seu conto assim, digo isso porque eu mesma tenho muita coisa assim guardada a sete chaves em casa e não imagino que tenha coragem de publicar, são textos tão íntimos que não sei se suportaria críticas em relação à eles... haha
    De qualquer forma, sua escrita me agradou muito, espero que continue postando!

    Beijos e até a próxima
    O Outro Lado da Raposa

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    Respostas
    1. Não é coragem, é cara de pau mesmo. Até hoje não recebi críticas negativas aos contos e as poesias (que são os únicos textos do blog que me importam), mas sei que eles merecem alguns insultos moderados - tudo merece, até o que de fato é bom. Fico feliz que tenha gostado. Não esperaria pela segunda parte com muita ansiedade, se fosse você. Tenho o hábito de nunca postar as continuações dos meus contos, mesmo que eu as escreva.
      Obrigado pelo comentário, volte sempre.

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