Páginas

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

The Amazing Spider-Man 2 (O Espetacular Homem Aranha 2) - Marc Webb [2014]


Uma resenha de adaptação de história em quadrinhos é meio deslocada do conteúdo geral desse blog, tá, mas o primeiro filme foi resenhado mais ou menos na época da estreia também, uma resenha em geral positiva, e é verdade que eu lia e gostava bastante das histórias do Homem Aranha em quadrinhos entre o fim da minha infância e começo da adolescência. Vi os filmes da trilogia "antiga" dirigida pelo Sam Raimi e, em retrospecto, não são filmes que envelheceram muito bem (com exceção do segundo) e o terceiro é péssimo. Então eu me animei quando fiquei sabendo do reboot, apesar de achar esses artifícios de Hollywood desnecessários. Aconteceu que o primeiro filme foi ótimo, bem focado nos personagens, gerando uma história emocionalmente cativante e divertida na maior parte do tempo. Estava até ansioso pra ver a continuação e por isso mesmo vou adiantar que essa resenha pode sair longa e cheia de spoilers. Não precisa chorar, o principal spoiler já está circulando por aí desde a década de 70, então fique tranquilo que a resenha, em geral, não deve estragar a sua experiência assistindo esse filme, caso você já não tenha visto. Tendo dito isso, o filme é bem frustrante e isso sim pode estragar a sua experiência mais do que qualquer spoiler. Sim, essa é uma das minhas resenhas indecisas, bastante negativa, mas cheia de pontos positivos que acabam amenizando a situação.


O enredo vocês já devem saber, não estou falando de um filme novo afinal. Nessa continuação, Homem Aranha (interpretado por Andrew Garfield) é famoso em Nova York e começa a ser aceito pela população. Está com problemas no seu relacionamento com Gwen Stacy (Emma Stone, e não se preocupem, vou dedicar um parágrafo à atuação dela), já que no fim do filme anterior Peter Parker prometeu ao falecido pai dela (interpretado por Denis Leary, um dos pontos altos do primeiro filme), e ele se preocupa com a segurança dela e toda aquela história. É aí que o enredo perde completamente o controle e o velho amigo de infância do Peter, Harry Osborn (Dane DeHaan) reaparece porque o pai dele está morrendo (pois é, nesse filme o Norman Osborn tem 2 minutos de cena no leito de morte e tudo sobre ele é explicado em um diálogo corrido de exposição), aí acontece que Harry Osborn também está morrendo porque a doença que mata o pai dele é hereditária, muito embora Norman tenha morrido bem velho, o que indica que a doença leva tempo pra matar, mas foda-se. No meio dessa loucura, o Jamie Foxx cai num tanque de enguias e vira o Electro, então Jamie Foxx se torna um sociopata da noite pro dia e decide matar todo mundo, principalmente o Homem Aranha, que ele amava, mas deixou de amar porque...eu sei lá. É muita coisa em pouco tempo, é isso que eu quero dizer. Ah, e o Rhino aparece nos últimos 5 minutos do filme, porque algum produtor de Hollywood assim exigiu.


Puta que o pariu, por onde eu começo? Apesar da minha sinopse amargurada, o filme não é ruim. Não é horrível pelo menos. Bom, é melhor que Homem Aranha 3, caso isso sirva de consolo. Mas também não é um bom filme. É uma ótima comédia romântica, dessas mais indies à 500 com Ela (também dirigido por Marc Webb por coincidência ou não), só que no meio de uma adaptação medíocre de HQ. O pior de tudo é que tinha tudo pra ser um bom filme. Muitas cenas são comoventes e bem filmadas, e os diálogos e atuações são reais e humanos. Porra, o problema é que Hollywood não aprende com os erros. A mesma coisa que destruiu Homem Aranha 3 e que causou o reboot da franquia, acontece aqui. Muitas linhas de enredo atochadas em 2 horas e 20 minutos de filme, o que me deu a impressão de ter visto uma versão resumida de Homem Aranha 2, 3 e 4 de uma vez só.


Vou falar dos pontos negativos primeiro, pra tirar isso do caminho. A começar pelo que envolve o Duende Verde - Harry Osborn. Ele surge do nada. Acontece um diálogo sobre como ele passou dez anos fora para estudar e estava de volta para herdar a empresa do pai, tudo em um diálogo bem travado e feito para exposição, compensando o fato de que o personagem não teria tempo de ser suficientemente desenvolvido até o final do filme porque outras linhas de enredo interromperiam aquela. Aí eu penso, esses roteiristas não escrevem pensando nas continuações? Por que não colocaram o Harry Osborn no primeiro filme? Só um papel secundário de amigo do Peter Parker. Aí o público teria tempo de conhecê-lo e ao seu pai, desse modo o personagem teria desenvolvimento. Do jeito que acontece, ele ganha uma importância repentina que simplesmente não faz muito sentido e parece que alguém apertou fast-forward no filme, ou que entre o primeiro e o segundo filme houve algum "entreato" que não foi lançado nos cinemas, deixando um espaço em branco na cabeça do espectador que por sua vez tem dificuldade para se importar com o personagem.


A falta de desenvolvimento é compensada, pelo menos, pela história interessante do Harry e pelo talento do Dane DeHaan (ator que até agora eu nunca tinha visto), que faz um vilão excelente, um pouco exagerado, mas na medida certa. Isso não acontece com Electro, nem Jamie Foxx que em geral é um bom ator conseguiu salvar esse personagem. Ele aparece do nada como um cara solitário, mas feliz, até que um número de epifanias psicológicas fazem dele um sociopata, isso em menos de 5 minutos. É um tanto inacreditável e, novamente, parece que deram fast-forward na história e que eu pisquei e perdi alguma coisa - alguma coisa muito importante. O personagem é chato e não se sabe qual tom o filme quer seguir com a história dele. É impossível saber se ele é uma pessoa perturbada e sombria ou se ele tem um senso de humor - já que depois que ele vira o Electro ele fica fazendo umas graças meio deslocadas em determinadas cenas. Ele até poderia ficar interessante, se o filme fosse só para ele. Como eles fizeram com o Lagarto no primeiro filme. Esse foi o maior acerto do antecessor, dividir o filme entre a história humana do Peter Parker (Gwen, tio Ben, tia May...) e a vida como Homem Aranha (alguns crimes aleatórios e o Lagarto). Essa estrutura, se seguida na continuação, não seria repetitiva, seria essencial. O roteiro teria tempo de dedicar suficiente desenvolvimento para esses personagens psicologicamente complexos - porque eles têm potencial de se tornarem, de fato, complexos e bem construídos.

Isso é que torna o filme fraco, a correria, a mistura de tons e humores (as várias cenas do fantasma do Denis Leary aparecendo para o Peter com cara de pai decepcionado foram muito engraçadas pra mim, e eu não acho que essa tenha sido a intenção, por exemplo), e a falta de desenvolvimento. Não dá pra culpar os roteiristas (que são quatro, sei lá eu por que) ou o diretor. Eu tenho certeza que o primeiro rascunho desse roteiro era exatamente como eu falei que devia ser, separado, mas algum executivo de produção disse que precisava de mais, mais vilões, mais ação, então eles foram obrigados a enfiar mais coisas, e deu no que deu.


É o que faz desse filme tão frustrante, porque, se não fosse isso, seria um bom filme. E vou explicar o motivo. Se tem uma coisa que essa franquia acertou foi no elenco. É perda de tempo ficar falando de como Andrew Garfield e Emma Stone conseguiram se encaixar perfeitamente em seus papéis e como eles conseguiram desenvolver uma química perfeita em cena, mas puta que o pariu como eles conseguiram se encaixar perfeitamente em seus papéis e como eles conseguiram desenvolver uma química perfeita em cena! Os dois são ótimos atores e eu realmente quero ver o futuro deles, principalmente da Emma Stone, que já vai sair no filme do Woody Allen desse ano, Mágica ao Luar, e está contratada para o filme do Woody Allen do ano que vem. Eu acho que ela tem um quê de Diane Keaton, com uma beleza peculiar e uma personalidade simples, mas forte, então essa é uma carreira que eu quero ver aonde vai parar. Sério, de todos os defeitos do filme, esses dois não foram responsáveis por nenhum deles. Pelo contrário, eles fazem o filme valer a pena. Principalmente pelo final, mas deixem isso pra lá por enquanto, porque eu pretendo falar disso mais tarde (a verdade é que eu ainda não falei de todos os defeitos - vou deixar o principal para o fim).

Outro grande acerto dessa continuação foi a primeira cena. Tá, grande acerto em partes. Deixe eu explicar, o filme começa com a morte dos pais de Peter Parker, o que foi ótimo, porque eu não tinha visto esse aspecto do personagem desenvolvido até então. A cena do avião é meio "filme de ação", o que não faz muito sentido, já que os pais dele eram cientistas provavelmente sem nenhum treinamento físico para brigar, ainda mais em um avião em queda e contra um assassino profissional, mas a cena não é de todo ruim. Também é meio duvidosa a origem do notebook moderno do pai de Peter em plena década de 90, com direito a internet no avião e alta velocidade de upload, mas tudo bem - eles são cientistas, mexem com tecnologia avançada, eu posso suspender minha descrença até aí -, só que o upload é feito do avião para um servidor escondido em um metrô abandonado que usa internet discada - puta que o pariu, filme! A própria cena do metrô, que vem mais para o meio do filme e que está ligada a essa primeira cena, também não faz muito sentido e deveria ter sido melhor explicada. Mas eu gostei de ver os pais de Peter recebendo alguma atenção, ou seja, a intenção foi boa, apesar da execução meio furada. Não foi nem de perto a coisa mais furada do filme.


Talvez a melhor coisa depois dos protagonistas seja o fato de que, apesar dos defeitos, nem tudo está perdido para o terceiro filme. Eles deram um sinal do que pode vir a ser uma história interessante, nenhum dos vilões morreu - diferentemente da versão do Sam Raimi, que vivia matando os vilões principais, deixando os filmes sem ter para onde ir -, então coisas boas podem vir no futuro (inclusive, a personagem Felicia, também conhecida como Gata Negra, já foi introduzida nesse filme, interpretada pela Felicity Jones, então eles devem fazer alguma coisa com isso no terceiro filme). Coisas terríveis também, mas eu vou me manter otimista. Essa é uma das poucas franquias de Hollywood que eu ainda sou capaz de ver com bons olhos.

Agora quero falar da pior parte, que veio logo depois da melhor parte do filme. É o seguinte, todo mundo sabe que a Gwen Stacy morre no final. Aconteceu nos quadrinhos e foi, na época, bastante chocante já que personagens de quadrinho não tinham o hábito de morrer, principalmente as namoradas dos protagonistas. Isso impressionou as crianças da época. E agora eles refizeram a cena no cinema, muito bem por sinal. Até me surpreendi com quão gráfica foi a cena, mostrando a cabeça dela bater no chão e tudo - pra um filme tão juvenil, é impressionante que Hollywood tenha deixado essa passar. E a reação do Andrew Garfield, tanto na hora quanto depois (na cena do cemitério, muito bem filmada, com as temporadas do ano passando enquanto ele ficava em frente ao túmulo) é muito bem atuada. É raro ver tanta carga emocional dedicada a um filme de HQ, então eu não estaria exagerando ao dizer que essa foi a melhor, mais tocante, cena dessa nova geração de filmes de quadrinho mainstream. E seria o ponto ideal para terminar o filme, começando o terceiro com um Peter Parker indeciso, uma Nova York sem Homem Aranha, e um bom desenvolvimento do luto do personagem. Mas não, isso se resolve em dois, três minutos, e na cena seguinte já temos um Homem Aranha recuperado e lutando contra o muito desnecessário Rhino (sério, Paul Giamatti é um excelente ator, ele devia estar precisando muito do dinheiro pra aceitar esse papel quase invisível). Vá se foder, filme. Eu quase poderia ter gostado de você, mesmo com toda a correria, se você pelo menos soubesse como terminar. Mas não. Não! Você tinha que mostrar essa porra desse Rhino, quebrar todo o clima emocional da morte da Gwen, só pra acrescentar mais um vilão sem importância ou desenvolvimento na última cena.


Chega, esse foi O Espetacular Homem Aranha 2, e eu esperava mais. Na verdade, eu esperava menos. Menos no enredo e mais na qualidade. Não dá pra dizer que é um péssimo filme. A todo momento acontecem boas cenas e a atuação é excelente, mas o déficit de atenção do roteiro chega a ser insuportável. Esse filme poderia ter sido divido em três facilmente, três filmes, todos eles muito melhores que esse aí, mas como sempre os grandes executivos de Hollywood não aprendem e destroem filmes com grande potencial. Não seria um grande filme de qualquer forma, mas seria excelente entretenimento. Por culpa da pressa e falta de desenvolvimento, nem isso o filme é.

Nota: 2,5/5 - ia dar 2,75, mas essas notas quebradas são muita frescura. Arredondei, e arredondei pra menos. E olha, muito me tenta, agora que estou postando, um mês depois de escrever a resenha, baixar a nota pra 2,0.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

caixa do afeto e da hostilidade