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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Mãe filha e a morte que não chega - Parte 2, final (conto)


Veja a parte 1 clicando aqui.

O interfone tocou e até isso me deixava angustiada. Já havia desaprendido a estar na presença de outras pessoas que não a minha mãe. Mas era meu filho, então não tinha problema. Vou admitir que quando ele decidiu sair de casa me senti traída. Estávamos naquilo juntos. Ele me ajudava com os remédios, me ajudava a cuidar dela sempre que eu precisava sair. Antes de ele ir embora eu tinha um resto de vida. Pensamentos egoístas, já que no lugar dele eu faria o mesmo. Lembro-me de quando eu era adolescente, sempre que dizia a minha mãe que tinha planos ela fazia um escândalo. Se dissesse que ia à praia com amigas ela logo perguntava por que, como se precisasse de motivo para querer sair de casa. Então ela dizia que eu queria era me mostrar, me chamava de vadia. Tinha deixado de me bater, cansado da agressão física, demonstrava uma preferência pela agressão psicológica. Dizia que eu queria sumir de casa, me livrar dela – o que era verdade -, que então ela facilitaria o trabalho e, enquanto eu estivesse fora, ia tomar todos os remédios disponíveis na casa, ligar o gás do fogão, pular da janela. Era tudo tão pesado que eu desistia, me trancava no quarto esperando o dia que a morte dela me traria liberdade. Claro que a cada ano ela amansava mais, de pouco a pouco ia tomando consciência da velhice, da dependência, me queria feliz para que ela pudesse gozar de algum conforto, para que eu não a pusesse porta a fora. Por isso casei na primeira oportunidade, com o primeiro homem com quem me relacionei, para poder ter o meu teto, a minha vida. Toda vez que eu sentia que estava pressionando meu filho a alguma coisa, ouvia os gritos da minha mãe ecoando na memória, os sons dos pratos que ela atirava na parede ou até em minha direção ou de meu pai – sortudo que morreu cedo para se livrar do martírio -, e parava, pedia desculpas. Isso não o impediu de sair de casa. Tinha medo que ele o tivesse feito por causa disso, para ter sua própria vida longe de mim, que eu tenha sido para ele o que minha mão foi para mim. Ele nunca me falou.
Casou-se ano passado, com uma garota boa, graças a Deus. Não pude ir à cerimônia. Ele insistiu, disse que me levava no carro, que carregava a avó na cadeira de rodas. Fazendo tudo com antecedência, não haveria problema. Mas ele esqueceu que ela já não tinha o controle de antes. Seu intestino imprevisível, esse era o maior risco e o que fazia dormir de olhos abertos mais que qualquer outra coisa. E se ela tivesse um troço no meio da cerimônia, mesmo que ele arranjasse uma mesa próxima ao banheiro durante a festa, tudo fosse calculado para facilitar a movimentação, um acidente qualquer seria um desastre, estragaria tudo e eu morreria de vergonha. Neguei, não fui ao casamento do meu filho por culpa dela, nem à formatura da faculdade. Engraçado é que ele ainda comentou quando pedira a namorada em casamento que ainda levaria uns anos para eles conseguirem os meios para casar, então a avó talvez já não estivesse viva e eu pudesse ir. Ficaram noivos por quatro anos, ela não teve um problema de saúde nesse meio tempo, e eu não sabia se chorava ou agradecia por isso. Ela também não sabia, pelo menos uma vez por mês ela tinha o hábito de pedir a Deus para que a levasse; às vezes ria dizendo que havia sido esquecida, às vezes chorava certa de que havia sido esquecida. Ele tocou a campainha e, depois de verificar pelo olho mágico se era mesmo ele, abri a porta. Entrou com as sacolas e as largou na bancada da cozinha enquanto eu trancava de novo a porta da entrada. Deu-me um beijo no rosto quando entrei na cozinha.
- Como vão as coisas?
- Bem. Como sempre. E você?
- Também.
- Trabalho?
- Isso não muda nunca.
- Camila?
- Ela vai bem também. A vó?
- Daquele jeito. Mal, mas inteira.
- Eu comprei os remédios que você pediu, estão em uma dessas sacolas. Shampoo também. Pão, água, suco, frios – apontava cada sacola, retirava alguns itens e os guardava na geladeira -, aquelas bolachas que você gosta, chá, aquelas sopas de pacote. Faltou alguma coisa.
- Não, acho que não.
- Qualquer coisa avisa.
- Tá.
- O pai deu notícias.
- Não.
- Mas ele tá ajudando com as contas?
- Sim, mas é só. Ele paga tudo pela internet. Tá no nome dele, então ele deve conseguir os boletos desse jeito também. Mas aqui ele não deu mais as caras. Você falou com ele?
- Não.
- Mas devia. É seu pai. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se eu pudesse, também saía dessa.
Continuou guardando as coisas. Tentei mudar de assunto.
- E vocês?, tão pensando em filhos?
- Pensando. Eu acho cedo demais.
- Ela não?
- Ela queria dois, mas agora só quer um. Viu a dor de cabeça que uma amiga dela tá tendo com dois, deve ter sido por isso.
- É melhor agora que depois de velho. Aí pelo menos quando a criança crescer vocês ainda têm tempo de aproveitar a vida.
- Pode ser, mas é caro. Fralda, escola, mais uma boca pra alimentar.
- Já não basta a sua mãe, né?
- Ninguém falou nada disso.
- Mas eu sei. É difícil. Se eu pudesse fazer alguma coisa você não teria que passar por nada disso – perdi o controle e comecei a chorar.
- Ângela – ouvi o chamado vindo da sala.
Enxuguei as lágrimas, fiquei parada um instante processando o chamado, sem reação. Meu filho continuava guardando as coisas, então parou e me fitou.
- Ângela – dessa vez mais mórbido, o que me fez acordar. – Ângela.
- Calma, não tá vendo que eu tô ocupada. Tô chegando.
Devagar, lhe puxei da poltrona quando vi que era tarde demais, ela já estava toda suja. E quando ela levantou a merda começou a lhe escorrer por entre pernas, e ela chorava por não conseguir parar. Eu continuei a puxá-la para que ela chegasse ao banheiro o mais rápido possível, mas ela não se mexia para andar.
- Ajuda, mãe. A gente que chegar ao banheiro.
Ela conseguiu arrastar um pé na frente do outro, devagar. Atrás de nós havia um caminho de merda em gotas se formando entre a poltrona da sala e o banheiro. Tirei a roupa dela e a fiz sentar no vaso, minhas mãos estavam todas sujas por tocar na roupa empapada. Só então, quando ela estava sentada, pude reparar no cheiro e, se não estivesse acostumada por ter de lidar com isso quase semanalmente, teria vomitado ali mesmo. Era o cheiro de um cadáver tomando conta de cada cômodo. Joguei as roupas em um saco de lixo e as levei até a área de serviço. Deixei o saco dentro do tanque, sem saber se jogaria as roupas fora ou se as tentaria lavar. Enquanto isso ela continuava sentada no banheiro, acho que ainda tinha o que fazer, e meu filho falava, creio eu que com a esposa, no celular.
- Ok. Já estou indo. Ok. Até daqui a pouco. Beijo.
- Você já tem que ir?
- Sim. Você vai ficar bem?
- Tô acostumada com isso já, não se preocupa. Vai embora mesmo, que o cheiro tá insuportável.
- Tá, então eu já vou.
- Você vem amanhã?
- Não sei. Pode ser. Não sei se eu já não tenho alguma coisa combinada com a Camila.
- Certo. Qualquer coisa avisa.
- Tá precisando de alguma coisa amanhã.
- Não, o que você trouxe hoje vai servir por algum tempo. Eu ligo avisando se faltar qualquer coisa.
- Tá bem.
Ele me deu um beijo na testa e se despediu. Eu fechei a porta e olhei para a sujeira na sala que eu ainda teria que limpar. Eu tinha avisado para ela me chamar com antecedência, mas era sempre assim, sempre tarde demais. Não sabia se ela já não tinha sensibilidade. Às vezes achava que era de propósito, que queria que eu a limpasse e a sua sujeira. Se não fosse a expressão de humilhação na cara dela sempre que isso acontecia, veria alguma razão na minha hipótese. Da porta do banheiro, enquanto eu tentava limpar a poltrona com um pano embebido em álcool, a ouvia rezar e continuar chorando, sempre com gemido - hum...hum...hum – cada vez mais alto. E eu queria gritar com ela, pedir para que parasse com o barulho, avisar que tínhamos vizinhos que deviam estar pensando que era eu quem a maltratava apesar de tudo. Nunca ouvi uma reclamação de vizinhos ou síndicos, talvez nem soubessem quem eu era já que nunca saía do apartamento, só raramente para levar o lixo – quando meu filho não vinha para levar. Mesmo assim, imaginava que falavam de mim, da nossa situação estranha. Ainda mais quando eu dava banho nela ou cortava suas unhas, que era quando ela fazia os maiores escândalos, reclamando da temperatura da água, dizendo que eu a esfregava com muita força. Gritava como se estivesse apanhando, como se estivesse sob tortura, e tudo que eu podia fazer era sussurrar pedindo para que ela parasse.
- Ângela.
Corri para o banheiro e abri a porta.
- Que foi agora?
- Tá frio.
            - Já terminou aí?
            - Já.
            - Mesmo?
            - Já.
            Então eu a limpei e a vesti.
            - Quero me deitar.
            - Tem certeza? É cedo ainda, não vai ver a novela.
            - Não. Tô cansada.
            Levei-a até o quarto, ela se deitou e eu a cobri. E sempre o mesmo hum...hum...hum.
            - Qualquer coisa chama.
            - Tá bem, filha.
            - Qualquer coisa, ok? Qualquer sinal de que alguma coisa pode acontecer, chama.
            - Não zomba de mim.
            - É sério.
            - Boa noite.
            - Boa noite.
            Ela ainda não dormiria, nem eu. Agora ela ficaria deitada de olhos abertos até as duas horas da manhã, me chamaria para levá-la ao banheiro pelo menos três vezes, e eu ficaria sentada esse tempo todo em frente à televisão, sem nunca prestar atenção nas imagens. Fui até a cozinha e peguei o pacote de chá, camomila, desses de saco. Eu sei que dizem que isso não é chá de verdade, chá de verdade é feito direto com a erva, mas acho que seria pedir demais ao meu filho que ele fosse em uma dessas lojas de produtos naturais só para comprar um pacote de ervas. Se eu soubesse que ele já iria a uma dessas lojas, pediria, mas não acho que vá. Fervi a água, não muito mais que uma xícara, considerando a possível evaporação. Então despejei a água fervida na xícara e coloquei dois dos sacos dentro da água por alguns minutos, depois os joguei no lixo. Voltei ao sofá da sala e a essa altura eu já não sabia a hora, eu já não sabia a programação, não sabia qual foi o dia que passara nem qual dia estaria chegando. Só sabia que, fosse o que fosse, era exatamente igual ao dia anterior. A poltrona estava desbotada de tantas vezes que a esfreguei com álcool por causa desses incidentes. O cheiro, podendo ou não estar no ambiente, estava impregnado nas minhas narinas. O chá tinha gosto de água quente, talvez água quente com um leve aroma de alguma coisa. Lavei a louça do dia, desliguei a televisão, apaguei a luz da sala, verifiquei duas vezes se a porta estava bem trancada.
            Decidi que era hora de me deitar.
            - Ângela.

            Antes levei minha mãe mais uma vez ao banheiro. E hum...hum...hum..., a levei de volta para cama e a cobri. Dessa vez, quando se deitou, ela fechou os olhos, e eu a assisti encostada ao batente da porta do quarto. De impulso, minha mente forjou uma imagem. Eram as minhas mãos segurando um travesseiro sobre a cabeça de minha mãe. Será que ela entenderia?, se debateria?, lutaria contra? Eu não teria coragem. Em um segundo do início do ato, me imaginaria sob o travesseiro, meu filho o segurando contra minha cabeça, e eu perderia o ar. E a partir do momento que se dá início a um processo desses, não tem como voltar atrás, não tem esquecimento. Mas pensei nisso de qualquer forma, agora não adianta negar para mim mesma. Em algum lugar isolado da minha consciência, muito bem trancada em uma gaveta, estava a imagem da morte da minha mãe. Não a interpretava como um assassinato, sequer como uma agressão. Era quase um ato de carinho e compaixão. Deixe de sofrer minha querida mãe, viva livre, diria, voe em liberdade plena pela primeira vez na vida, liberdade que eu nunca tive, que você nunca permitiu que eu tivesse, diria beijando a testa de seu cadáver recente. Poderia fazer o mesmo com a minha vida a seguir. O gás que ela vivia prometendo que ligaria, as pílulas que ela me ameaçava tomar. Eu o poderia fazer, sem ameaças, sem culpa, pelo contrário. Levaria comigo o futuro peso nas costas de meu filho, ele concordando ou não. Mas não poderia, era inútil pensar naquilo. O que me afligia era que, naquele rosto dormente, velho, não havia um sinal de morte. Não era saudável, mas nada que lhe afligia era mortal. Intestino solto não mata ninguém, preso tampouco – e ela tinha crises constantes de prisão de ventre. A fraqueza do corpo e dos movimentos, nada disso mata um ser humano. Seus órgãos vitais seguiam trabalhando, com o auxílio de remédios, mas seguia de qualquer forma. Eu não deixaria de remediá-la. Ao que tudo indicava, ela poderia dormir essa madrugada e não acordar ou viver pelos próximos dez anos ou mais, poderia viver mais que eu. Será que ela morreria? Revirou-se um pouco na cama, alheia aos meus pensamentos. Aquele dia, para ela, fora mais um a passar, mais um de tantos que já vivera e viria a viver. E eu deveria ir logo para cama. Se a vida não iria acabar, ao menos que acabasse o dia.

Um comentário:

  1. Muito bom, muito bom mesmo. Admito que essa segunda parte me provocou muitas emoções, dentre elas, principalmente, a aversão, acho que o nome seria esse. E em um determinado momento eu realmente pensei que ela mataria a mãe, e então depois você abordou esse tema! Gostei muito, é capaz de provocar diversas reflexões sobre velhice, responsabilidades, egoísmo, altruísmo e dever, etc.
    Continue escrevendo, os temas que você aborda são interessante :D
    Debora.

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