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domingo, 10 de agosto de 2014

Invictus - Clint Eastwood (2009)


Isso não é uma resenha, é uma anedota. Nem mesmo chega a ser uma daquelas histórias de ida ao cinema que em algum momento se entrecruzam com a história do filme e então a resenha surge. Vi esse filme no começo de 2010 e mesmo naquela época tinha pouquíssimas coisas a dizer sobre ele. Talvez mais tarde descreva o motivo disso, mas antes preciso justificar a existência desse post tantos anos após o acontecimento. Faz tanto tempo que é até triste de relembrar. Na época eu tinha dezoito anos, recém chegado na cidade. Nunca tinha ido ao cinema local, então, quando ouvi da estreia de Invictus, uns quatro meses após ele ter saído de cartaz no resto do Brasil, decidi ir ver só porque fazia tempo que eu não ia ao cinema.

É, vai em frente, filme. Bota umas cenas do protagonista brincando com crianças subnutridas, assim talvez eu me emocione. Se não, pelo menos talvez eu me importe com os personagens...
Tenho a tendência de chegar cedo nos lugares, possivelmente por sempre ter de ir a pé. Quando chego muito antes a uma sessão de cinema, meu hábito é tomar uns chopes em qualquer lugar da praça de alimentação que esteja mais barato (ou seja, não importa o lugar, porque os putos tabelam os preços). Descobri que uma pouca quantidade de álcool no sangue permite que a mente se abra para filmes provavelmente chatos - como eu logo descobriria ser o caso de Invictus. A cerveja ajuda a distrair e faz que o espectador perca todo aquele senso crítico, aceitando melhor certos problemas, deixando que o filme aconteça. Mas não é sobre o filme que eu vim falar, não nesse parágrafo.

Sentei a uma mesa de frente para o cinema. Em um vídeo recente, Camila Deus Dará em seu blog disse que adolescentes em grandes grupos indo ao cinema são um perigo. De fato eles são e, em cinemas, são também presença obrigatória. Nunca fui ao cinema sem que um grupo de adolescentes estivesse presente. Nesse caso, eles sentavam à mesa em frente à minha, um rapaz e três garotas, não daria mais de treze anos para nenhum deles. Riam histericamente e tentavam de qualquer maneira chamar a atenção dos outros indiscriminadamente. Bebendo, só me restava torcer para que o ingresso que eles carregavam não fosse para Invictus - não é um filme adolescente, afinal. Mas só eu ter considerado essa ideia já deveria me servir de garantia que eles estariam na mesma sala que eu.

Entrei na sala e escolhi uma cadeira. O cinema de Itajaí era - digo era pois está em reforma - projetado de modo a causar um estranho fenômeno: não importando qual fileira se escolha, todas são ruins. A tela é pequena demais e a sala não tem inclinação o suficiente. Quando muito no fundo, o telão mais parece a tevê da sua sala de estar, já qualquer fileira próxima do meio da sala força o espectador a manter o pescoço para cima, como se fosse a primeira fila. Tentei me ajustar ao incômodo, hoje com mais experiência até tenho uma matemática formada na minha cabeça. Fui andando devagar, olhando em direção à tela. Quando sentia estar próximo de uma angulação menos desagradável, sentava na cadeira para verificar. Então tentava a fileira de trás, então a da frente. Um experimento exaustivo que eu não praticaria se, naquele momento, não estivesse sozinho na sala. Quando ouvi passos se aproximando atrás de mim, aceitei o desconforto e fiquei onde estava, sentado na cadeira da ponta, próximo ao corredor - aquele medo de que ocorra um desastre e eu fique preso em meio à multidão - multidão essa de quinze pessoas, no máximo.Os passos que me seguiam eram de um casal de meia idade, outros casais desse tipo viriam logo mais. Casais mais jovens também, mas nenhum grupo de amigos ou solitários, que não eu mesmo. Então eis que eles, aqueles adolescentes, entraram na sala. Passaram logo ao meu lado pelo corredor, rindo de nem deus sabe o quê. Duas das garotas, no entanto, ficaram para trás, se separaram do casal juvenil e se acomodaram numa fileira que, ao meu ver, seria simplesmente infernal de tão próxima à tela. E o casal foi ainda mais perto da tela, sem dúvida em busca de um torcicolo para o resto da vida. A moça do casal tirou do bolso uma camisinha e a abanou para as amigas, como se não houvesse mais ninguém naquela sala de cinema semi-cheia. As amigas de trás riram, ela riu, eu penso que é tudo uma brincadeira, um jogo juvenil com o intuito de chocar a nós, velhos antiquados que largávamos nossas carcaças pelo cinema, ignorantes da ousadia daqueles sábios namorados que acabavam de atingir a puberdade - como se alguém ali além deles soubesse o que é uma boa foda...

Todos estavam, enfim sentados. Pouco barulho. Algumas conversas sussurradas bem espalhadas por cada canto da sala, mas que definitivamente parariam, e pararam, quando as luzes apagassem. Nem mesmo os adolescentes se manifestavam, para minha própria surpresa. Esperava mais teatro, mais exploração do ego, mas não houve nada - em retrospecto, devia ter tomado a quietude repentina como premonição. As luzes apagaram, passou um trailer projetado completamente fora do telão. Os projetistas tentaram as pressas ajustar, ora baixo demais, ora alto, até que acertaram. O som era cheio de eco e a sala não tão bem isolada, a ponto que era possível ouvir ainda os sons da sala ao lado, que já deviam estar quase no fim do filme que assistiam. Sacos de pipoca e mastigação criavam a atmosfera do local, um celular tocou e foi silenciado no terceiro toque, vez ou outra alguém sussurrava - eram os trailers ainda, quem se importa? Até que a vinheta da produtora de Invictus indicou o começo do filme. Queria eu lembrar de alguma coisa para poder inserir aqui uma descrição detalhada. Uma coisa eu lembro, era sobre rugby. Rugby na África do Sul, no período em que o Morgan Freeman (interpretado pelo Nelson Mandela) tinha se tornado mandachuva do país, e ia ter uma copa de Rugby por lá ou coisa assim, me perdoem, faz mais de quatro anos e eu não tenho como enfatizar ainda mais o quanto o filme é esquecível. Um pouco depois da cena introdutória falando do Morgan Freeman na prisão, tudo narrado pelo próprio, muito bonito, e um bocejo meu, eis que algo me despertou. Um senhor cruzou o corredor ao meu lado a passos rápidos, resmungando e balançando os braços em indignação. Escutei algo como: eles tão transando ali porra. Não podia ser. Tá certo que fazia sentido, eles tinham a camisinha, mas eu podia jurar que era só um blefe, uma graça para eles terem do que se gabar na escola na segunda que viria. O senhor ali devia estar exagerando, no máximo aquilo não passava de um boquete. A luz de duas lanternas passearam pelas paredes da sala escura, vozes contidas, mas indignadas acompanhavam. Eram seguranças devidamente uniformizados que vinham para levar o casal exibicionista de volta à creche. E as duas amiguinhas, baixando a cabeça, foram atrás. E eu fiquei, pensando.

"Ah, então você é o caucasiano encomendado para salvar o dia, prazer em conhecê-lo."
Hoje, anos depois, posso repetir o que disse naquele tempo apenas ajustando a idade: eu, aos vinte e três anos, nunca transei em um cinema. Não sei por que, gosto de cinema e gosto de sexo, seria uma combinação interessante. Mas penso que seria estranho, raramente duas paixões dão certo quando se misturam, é bom manter os mundos separados. Amo literatura, amo música, mas não consigo ler ouvindo música. Manter-me ativo enquanto Morgan Freeman narra a história de sua vida em um telão brilhando na minha cara, não daria certo. Anos atrás eu presenciei uma cena menos incoerente. Um grupo de amigos e eu decidimos, pra comemorar o aniversário de um dos amigos presentes no grupo, assistir À Meia Noite Encarnarei Seu Cadáver, ou seja lá qual for o nome do filme do Zé do Caixão que estreou em 2007 ou 2008 - minha memória está indo embora. Foi numa quinta, à meia noite, na pré-estreia. Obviamente, estávamos nós no cinema e um casal, dessa vez maiores de dezoito anos - creio eu, não fiquei até mais tarde conversando com eles depois do filme, embora eu tenha certeza de que hoje eles estão muito bem casados, bebendo vinho em caveiras, em algum cemitério de Santos. O casal estava bem distante, nas primeiras fileiras, e nós ocupávamos quase uma fileira inteira mais para o meio do cinema. Sei lá em que ponto do filme, um amigo cutucou o outro e apontou para o casal da frente perguntando: alguém viu a mulher sair? Ninguém tinha visto nada, mas estávamos certos de que tinha ido ao banheiro ou ido pegar mais pipoca, coisa assim. O tempo passou e nada dela voltar. Tínhamos esquecido dela quando sua cabeça ressurgiu de trás dos encostos das cadeiras como o sol nascendo no horizonte. Nós não dissemos uma palavra, embora a vontade fosse dar-lhe uma salva de palmas.

Morgan Mandela imitando a nossa expressão ao vermos a cabeça da moça voltar à posição de descanso.
Claro, o boquete oculto na pré-estreia do filme do José Mojica Marins é muito mais aceitável que o cinepornô infantil em Invictus. Primeiro, porque foi entre dois adultos em consenso. Segundo, porque eu tenho que admirar uma mulher que não se intimida por uma plateia de adolescentes logo atrás dela enquanto ela faz o seu trabalho. Terceiro, pelo menos À Meia Noite Encarnarei seu Cadáver tem algo de sexual. Verdade que era principalmente necrofilia, mas mesmo assim, eu tenho certeza que era isso que aqueles dois estavam buscando quando saíram de casa para o encontro romântico, um pouco de sexo entre vivos e mortos, nada demais. Ei, melhor assistir que praticar. Ao menos havia algum estímulo, perturbado que fosse, e não só o Morgan Freeman tentando resolver o apartheid na África - que, obviamente, é resolvido no final do filme, graças ao branquelo ganhando a final do torneio de rugby (quem diria?, o azarão ganhando no final, logo no último minuto...que emocionante...não é como se eu já tivesse visto isso antes em algum filme de esportes).

Tá certo, me exaltei. Só me senti velho no final daquilo tudo. A passagem de gerações, e como quando eu tinha treze anos eu estava só esboçando meus primeiros pensamentos sexuais - que não chegavam nem à realidade nem à sala de cinema. Talvez seja uma questão geracional, hoje os jovens estejam mais precoces. Talvez, daqui há dez anos, crianças de sete anos estejam organizando orgias à Calígula nos elevadores panorâmicos dos shoppings. Quem sabe um dia tudo isso será visto com naturalidade. Provavelmente não. E longe de mim ser uma senhora defensora da moral e dos bons costumes. Na hora, pouco me importei com toda a comoção e exibição de camisinhas, desde que eles não atrapalhassem o filme com gemeção pornográfica, tudo estaria bem, ao meu ver. Não é como eles estivessem do meu lado afinal, nem cheguei a ver nada ao vivo, só muvuca e reclamações até a expulsão. E o filme em si, muito possível que, não fosse esse incidente, eu já tivesse me esquecido dele.

Nota: 2,5/5 - Não é ruim, não é bom, não é nada. Típico picolé de chuchu.

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