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sábado, 31 de maio de 2014

Solidão - Capítulo 5 (parte 1) - Amostra do Romance


Lembram que eu prometi deixar aqui uns capítulos de amostra do meu livro? Então, esse é o capítulo cinco. Nos links abaixo vocês encontram o capítulo 1.
http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/03/solidao-capitulo-1-parte-1-romance.html
http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/03/solidao-capitulo-1-parte-2.html
http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/04/solidao-capitulo-1-parte-3.html
Ainda estou escrevendo, até agora tenho 88 páginas. Não dou mais de 110 páginas para esse livro, 130 no máximo, se eu acrescentar umas coisas que eu estou imaginando. Devo terminar logo pra começar a revisão. É isso, não tenho mais novidades. Espero que gostem, quero ouvir as opiniões da minha meia dúzia e meia de leitores.
Ah, tem mais uma coisa. O título. Até o momento é Solidão, mas estive pensando em mudar. Minhas opções são:
- Solidão
- Rendição
- Quando um artista se rende
Alguma preferência?
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5

Os alunos eram seus próprios rios seguindo em fluxo para suas respectivas salas de aula e Tomas era mais um, já acostumado com o processo depois de um ano fazendo exatamente a mesma coisa todos os dias. Passando em frente à biblioteca, ouviu uma voz que parecia música ecoando do seu interior, que o puxou em sua direção. Havia um pilar branco no centro da biblioteca em frente ao qual uma aglomeração se montava ouvindo a voz que como um violino, não cantava, mas recitava um poema. Ela estava sentada em uma cadeira de plástico escondida pela parede humana que parecia crescer. Sobre ela, pregado ao pilar, tinha um cartaz de plástico também branco, mas com detalhes azuis nas extremidades para que ele não se camuflasse por completo, no qual estava escrito Poesia no Campus – Terças e Quintas das 19:00 as 19:30. Recitava um canto sacro de palavras profanas que, pego da metade, Tomas não pôde identificar. Achava ser algo traduzido de Allen Ginsberg ou um poema longo de Roberto Piva, e que raridade seria se o fosse. A cada verso, Tomas se via adentrando à multidão por entre as frestas que elas formavam. Estava bem no meio daquilo quando ela terminou. Dali podia ver parte de seu braço, da camiseta regata preta e da saia estampada de flores, e dos longos fios de cabelo também pretos que se misturavam ao tecido e cobriam os ombros, longos como o da garota do sebo de um ano atrás da qual ele vivia lembrando e esquecendo sem motivo, era como uma assombração e agora dava impressão premonitória, mesmo que não tivesse como saber se ela e a outra eram a mesma. Até o ruído de suas mãos organizando o bolo de folhas sulfite tinha harmonia, enquanto ela passava a página do poema atual para trás e, olhando para a nova página dizia:
            - Por último vou recitar um de Fernando Pessoa.
Limpou a garganta como um latido de filhote sonolento e começou a recitar Tabacaria. A notícia de que aquele seria o último poema pareceu ter despertado as pessoas do transe e elas começaram a se dispersar, mostrando estarem em bem menor número do que Tomas imaginava. Não chegaram a ir embora, não até que a última palavra fosse pronunciada, mas se espaçavam mais e mais a cada verso.
- Por hoje é só, da minha parte – disse após uma pausa silenciosa em respeito à poesia que chegava ao fim. – Agora o Alan vai recitar alguns poemas para vocês, caso queiram ouvir. Obrigada pela atenção e boa noite.
Ficaram cerca de três pessoas. Todos os outros já estavam longe das vistas. Tomas buscava pela garota, teve vontade de conversar com ela. Ela estava ajeitando seus papéis dentro da bolsa e andando em direção à saída.
- Oi – tentou chamar atenção e ela se virou querendo saber se era mesmo com ela.
- Oi?
- Desculpa, você tá com pressa indo pra algum lugar?
- Não, quer dizer, tenho aula agora, mas pode falar.
- É, eu também, mas eu tava te ouvindo agora pouco e queria saber qual foi o primeiro poema que você recitou.
- Visão 1961, do Roberto Piva.
- Ah, eu tava na dúvida entre ele e Ginsberg.
- Ginsberg citando Mário de Andrade?
- Tinha eco e eu peguei o recital pela metade e ainda tive que atravessar aquela barragem de desocupados.
- Sei. Ele não é muito conhecido apesar de tudo. Você faz aula de quê?
- Filosofia.
- Ah, o eterno desempregado.
- Deixa eu adivinhar, você é Letras?, a eterna professora?
- Vidente! Mas não tenho paciência pra dar aula, não sei o que vai ser de mim.
- Nem eu levo jeito pra mendigo, por isso arranjei o primeiro emprego que apareceu numa livraria.
- Que sonho, trabalhar numa livraria.
- Pode ser, mas já estou acordando. Não dou mais dois meses até o lugar fechar de vez. É que o chefe é guerreiro mesmo, bicho insistente.
- Você tem o que fazer depois disso?
- Não. Também não levo jeito pra vida puramente acadêmica. Estou de olho numa locadora não muito longe daqui, talvez eles precisem de alguém no balcão. Quero explorar todos os negócios condenados da cidade.
- Boa sorte para nós. Sua sala fica pro mesmo lado da minha?
- Não. É exatamente o oposto.
- Você não tem que ir, então?
- Tenho, mas gostei de falar com você. Faz o seguinte, você tá livre esse fim de semana?, talvez a gente possa ir a algum lugar.
- Claro, podemos sim. Onde?
- Não sei, só me planejei até a pergunta. Tem alguma sugestão?, um filme ou coisa assim.
- Acho que sei de um lugar. Você gosta de poesia, por acaso gosta de música também?
- Sim?
- Tem um bar bem diferente aqui em P, com certeza você não conhece. Que tal nós irmos ao cinema para ver qualquer coisa, conversar um pouco e, depois, eu te levo lá?
- Acho ótimo. Te vejo que horas?
- Umas oito, em frente ao cinema do shopping?
- Combinado. Até lá, então.
- Até.
Despediram-se com um beijo no rosto. Ele começou a dar volta, então se deu conta, voltando atrás dela:
- E qual seu nome?
- Ah, é Naima.
- Como a música do Coltrane?
- É, longa história. O seu?
- Tomas, sem nenhuma referência cultural.

- A gente se vê, então, Tomas. 

[Continua.]

3 comentários:

  1. Voto por "Quando Um Artista Se Rende". Soa mais poético e me faz lembrar os títulos dos livros que o Leitor, de "Se Um Viajante Numa Noite de Inverno" teve que ler na busca de achar o livro original.

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  2. Também voto em Quando um artista se rende. Soa bonito e leva o leitor a imaginar que rendição seria essa, e o que a causou. Assim como a Maria, achei poético.

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