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sábado, 24 de maio de 2014

Comercial para camisinha no restaurante por quilo


Por incrível que pareça, restaurantes self-service são programa de família nos fins de semana. Expliquei previamente que, em se tratando de comida de quilo, sou acadêmico gastronômico e sociológico devido aos meus cinco anos morando sozinho em Itajaí e a minha inaptidão culinária. Esse sábado, como quase todos os outros dias da semana, fui em um quilo aqui da minha região e, em uma espécie de aviso premonitório recorrente para minha dor de cabeça, quando entrei logo já ouvi duas crianças berrando. Pensei em ir embora e procurar outro restaurante, mas são poucos os quilos que abrem nos sábados nessa cidade - e consequentemente todos estariam cheios de crianças.

Logo na fila para se servir, surgiu outro desses enviados do capeta. A mãe desse era bem nova e estava junto da sua própria mãe, que tentava pacientemente controlar o moleque com sua experiência. A garota, apesar de bonita, tinha um ar apático, cansado. Quando eu ouvi o moleque gritando, correndo com um copo de gelatina - dessas que quilo oferece com o troço branco não identificado embaixo -, entendi o porquê da sua aparente tristeza. Prevendo os movimentos daquela família, fui para um canto mais isolado do restaurante, onde eu não poderia ouvir nem os gritos daquele nem dos outros que me receberam quando eu entrei.

Para minha tristeza, no meu canto, que eu chamo de meu pois o frequentei durante todos esses anos - uma área mais interna, meio escondida do quilo, onde ficam as últimas mesas a serem ocupadas -, havia outra jovem família. Dessa vez a mãe, que não podia ser muito mais velha que eu, era casada e o pai da criança estava almoçando com eles. Essa união, no entanto, não preveniu o diabo de começar a gritar quando a mãe voltou à mesa deles com um cadeirão. Foi uma cirurgia passar a criança da cadeira normal para a cadeira mais alta, parecia que ele estava sendo levado para a cadeira inquisitória. Eu poderia ignorá-los esse tivesse sido o único incidente, mas o menino não parava. O pior é que eu nem sei dizer o motivo de tanta reclamação daquela criança. Primeiro que não houve um minuto em todo o tempo que eu ocupei aquela mesa em que ele não tivesse feito barulho - só isso, barulho, nada específico ou racional. Segundo, o pai era um boca mole que não se mexia pra nada. Terceiro, a mãe achava tudo o que o moleque fazia lindo ou, quando ele extrapolava, não fazia nada pra corrigir o problema. 

Nunca falei da minha família nesse blog. Isso é por causa da minha paranoia com privacidade, então mesmo agora eu serei bem vago com essa parte da história. Os pais de meus pais só reproduziram depois de muito ensaio, digamos assim. Minha mãe é filha única e só foi concebida quando minha vó já estava chegando aos quarenta (minha vó nasceu em 1924 - informação relevante). Meu pai foi o segundo e último filho, concebido também quando sua mãe já tinha experiência o suficiente. Por consequência, talvez, eu também só surgi como ideia após anos de casamento entre os meus pais e eles me adiaram o máximo possível. Aconteceu, então, que meus pais foram educados a uma maneira mais antiquada que a época em que eles nasceram e eu também - nem tanto, mas em alguns aspectos. 

A questão da surra está sendo combatida nos dias de hoje, bastante. Eu sou contra agressão, mas uns tapas nunca traumatizaram ninguém. A visão de uma havaiana voando em sua direção forma caráter. Nunca apanhei sem motivo, é bom que isso fique bem claro. Tampouco fui agredido, longe disso. Mas eu lhes garanto que nunca fiz escândalo em restaurante. Não, minha mãe não me daria uma surra ali na frente de todo mundo. De forma alguma. Ela tinha um método. Ela tinha um olhar bem específico, que eu não conheço palavras para descrever fisicamente, mas posso arriscar uma descrição dos efeitos que ele me causava. Era como um aviso, ela me olhava e eu sentia a mão gélida da morte me encostando o ombro, era premonitório do que me aconteceria quando chegássemos em casa devido a minha atitude pública; eis que surgia o medo e, fosse o que fosse que eu estava fazendo, eu parava.

A criança do quilo não estava só falando, para você leitor que está se apiedando. Ela rosnava, gritava, falava alto e reclamava só deus sabe do que. O que a mãe fazia? Dizia toda calma e serena: assim você deixa a mamãe triste. E se punha a mostrar um vídeo engraçado do youtube para o moleque, pra ver se ele acalmava. Aí o moleque cresce com uma capacidade de concentração de cinco segundos, e você não sabe por que! Minha mãe, no lugar dessa garota, diria entredentes: você vai parar de fazer barulho agora, tem gente olhando; se não chegando em casa você vai se ver comigo (o tom seria o mais monótono possível e a frase viria seguida do Olhar). Eu parava e, chegando em casa, a chinela cantava.

E funcionava, não vem com historinha de que não resolve, porque resolvia. Diálogo funciona, claro que funciona, mas nem sempre e nem toda forma de diálogo surte efeito. Quando minha mãe julgou que eu já era capaz de entender os problemas na base do diálogo - isso deve ter sido entre meus 4-5 anos -, ela sentava comigo no quarto e dava início a um monólogo de quatro horas sobre os problemas das minhas ações. E ai de mim que eu piscasse ou me distraísse. Eu cheguei a implorar pela surra várias vezes, mas com ela não tinha negociação. Quando eu fiquei mais velho mesmo, adolescente, aí que não tinha nem diálogo nem surra - tu acha que eu vou bater em homem, ela dizia -; a ameaça já era expulsar de casa logo de uma vez (quem nunca ouviu a expressão: "enquanto estiver debaixo do meu teto...", então, ela me convidava a me retirar). Não é passando a mão na cabeça e distraindo com Youtube que se educa, porra.

Eu já me esqueci o propósito desse texto. Acho que foi um desses que blogs fazem, sobre o cotidiano. Só sei que passei por isso no quilo mais cedo hoje e fiquei puto. Quase que eu me ofereci para educar aquele moleque. Quase que eu fui pesquisar se meu plano de saúde cobria vasectomia. Sério, fiquei com medo. Sem dúvida que o nome do meio daquele menino é "Acidente", isso ou "Furada". O que vocês acham? Isso é uma coisa que eu nunca faço, perguntar para o leitor, mas dessa vez o assunto é polêmico, o povo é meio dividido em se tratando do valor da surra, então vou fazer uma exceção. Quero saber o que vocês pensam. Comentário tá aí pra isso, do contrário eu desativaria a caixa de comentários.

Obs.: Cristo, quantos erros de digitação tinham nesse texto antes de eu revisar? A diretoria pede desculpas e informa que o responsável já foi devidamente punido. A culpa, ele diz, é da pinga.

3 comentários:

  1. Eu estava lendo com toda atenção do mundo o seu post, porque não é todo dia que somos agraciados com essa pérola rara e de repente me deparo com a seguinte frase: "Era como um aviso, ela me olhava e eu sentia a mão gélida da morte me encostando o ombro..." e não consigo parar de rir! Sei bem como é esse olhar e consigo imaginar a cena. E a parte da Havaina foi mesmo muito boa. Acho que quando eu estiver precisando dar umas risadas, vou reler seu texto. Sei que a intenção era externalizar sua raiva e não parecer engraçado, mas eu estou rindo horrores aqui.
    Também sou totalmente contra bater em crianças, mas essas mães extremante passivas me tiram do sério. Dá vontade de eu mesma dar uns sacodes na mãe e no filho. E pai passivo é a pior coisa que existe!

    Tinha muito erro, é? Isso é o que dá ficar bebendo enquanto escreve, rsrs

    Esse assunto me fez lembrar de um teste bobo, mas muito engraçado que fiz ontem. Se quiser fazer:
    http://www.buzzfeed.com/rafaelcapanema/quem-voce-e-na-fila-do-self-service

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    1. A ideia era ser engraçado mesmo. É raro eu escrever texto de humor, mas é uma coisa que eu gosto de fazer de vez em quando - mas é difícil acertar a mão.
      Aquele pai não era passivo, era uma estátua, era uma daquelas almofadas em formato de homem, japonesas, pra mulher carente, já viu?

      Tinha erro pra cacete. Mas juro que não estava bebendo quando escrevi. Isso é uma coisa que eu nunca faço, não dá certo, só dá trabalho na hora da revisão. Foi distração mesmo, comecei o texto às 15:00 e terminei às 22:00 mais ou menos.

      O teste acertou em cheio quem eu sou: cara da firma de crachá no pescoço (só não tenho mais crachá, mas na última empresa que eu trabalhei tinha). Legal a última pergunta - em uma palavra o quilo é: REALIDADE.

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  2. Quase morri de rir!
    Sabe, eu sou mãe, meu "capetão" (é assim que o chamo) fez 6 anos em maio, mas eu não sou esse tipo de mãe que fica passando a mão na cabeça dos filhos.
    As pessoas acham estranho, pois fui mãe muito cedo e mesmo assim meu filho é muito educado. É que elas não sabem que tenho a alma de uma senhora de 80 anos.
    Sério, odeio essas crianças que fazem escândalo e as mães não fazem nada e acham lindo. Uma vez eu estava num parque e uma menininha bateu no meu filho, ele devia ter uns 3 anos, então fui lá e disse pra menina que não podia bater e que se ela fizesse outra vez, não ia mais poder brincar na casinha (era uma casa de plastico). Eu falei normalmente com a menina, até me abaixei e tal, mas a mãe dela surtou, disse que nao é assim que se fala com criança e levou a filha embora. Ah, um detalhe, ela riu quando a menina bateu no meu filho, ela achou uma gracinha.
    Se meu filho batesse numa criança, ele ia se ver comigo!
    Eu conheço bem esse olhar de mãe, a minha fazia isso comigo e hoje eu faço com meu capetão.
    Sobre bater, eu já apanhei muito da minha mãe, muuuito. kkkk
    Meu pai nunca me bateu, mas minha mãe...
    Mas eu virei gente! kkkk
    Não concordo com surras nem nada do tipo, mas uma palmadinha não é nada demais, não vejo problema nisso.
    Não tenha medo de ter filhos, as crianças ficam sem educação por culpa dos pais que são uns babacas e acham que vídeo do Youtube serve para acalmar.

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