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quinta-feira, 8 de maio de 2014

As Maravilhas do Oportunismo, Transformando Racismo em Dinheiro



Quanto tempo vocês acham que falta até que a Coca-Cola ou a Apple comecem a vender oxigênio enlatado? Não estou falando das possibilidades do fim do ar puro no planeta Terra, apenas a possibilidade de eles conseguirem convencer os consumidores de que respirar normalmente é coisa de fracassado, os bons respiram ar premium quality extra-puro enlatado, IAir. Coisa de filme, comédia das piores, mas parece plausível. Parece que tudo hoje carrega uma marca, uma campanha, leva algum patrocínio, tem alguma intenção comercial velada, todo e qualquer depoimento, por mais bem intencionado que seja, parece querer ganhar alguma coisa ou pode ser distorcido de modo que alguém ganhe alguma coisa. A bola da vez é o racismo.

Sim, esse é mais um daqueles textos de opinião sobre acontecimentos já esquecidos. Não digo resolvidos, as coisas não se resolvem mais nos dias de hoje. Agora o jeito é reclamar no twitter por uma semana, fazer uma campanha que receba mais de um milhão de likes no facebook, e depois esquecer fingindo que nada aconteceu, vide "o gigante acordou - mas é narcoléptico".

Nem todas essas campanhas começam por cretinice alheia. Uma das recentes foi por causa do discurso da Lupita Nyong'o, ganhadora do Oscar por 12 Anos de Escravidão, que foi totalmente mal interpretado pelo público, que decidiu responder mandando milhares de comentários como "Linda", em tudo que é canto, como se o discurso tivesse sido motivado por uma crise de autoestima da  atriz e ela estivesse atrás de reafirmação.

Toda vez que faço um texto comentando atualidades tenho a impressão de que estou falando o óbvio, então lá vai mais uma vez, vou explicar o que a Lupita quis fazer com o discurso. A indústria do cinema de Hollywood tem um problema, eles são incapazes de contratar negros para personagens naturais. Reparem nos Blockbusters comuns lançados toda semana, quantos têm personagens negros com algum destaque. No entanto, todos têm um personagem negro, raramente uma mulher, sempre aquele amigo alívio-cômico do protagonista branco, né? Pois é, nas raras ocasiões que uma negra é contrata, normalmente é para que ela namore o personagem alívio-cômico, ou melhor, seja a esposa controladora. Negros só recebem papéis de destaque em produções exclusivamente negras (com diretor/roteirista negro, elenco todo negro, feito para o público negro), que costumam ser filmes de baixa qualidade.

Aí, como se não bastasse essa falta de naturalidade na criação de personagens, surgem casos como o do filme Thor, lembram? Algumas pessoas reclamaram que eles contrataram um negro para interpretar um deus nórdico. Eu não vi o filme, nunca liguei para o Thor, não acho que isso seja motivo de reclamação, mas eu entendo porque reclamaram. Vejam bem, eu sei que é adaptação e, portanto, mudanças são cabíveis. Mas em um deus nórdico?, que não é só personagem fictício, mas parte de uma mitologia milenar? Faz sentido? Por que não contrataram uma negra para interpretar a personagem da Natalie Portman? Se a ideia era diversificar - e eu odeio essa palavra porque ela me lembra de panfletos universitários em que eles se esforçam para colocar uma modelo asiática e um modelo negro entre um bando de brancos, todos sorrindo, só pra mostrar como ninguém é racista -, por que não com um personagem plausível e de destaque?

Um caso mais recente, e que eu só descobri pesquisando sobre o assunto, foi para a nova tentativa de reviver a franquia do Quarteto Fantástico - porque isso é uma coisa que todo mundo quer... -, um caso estranhamente parecido, incluindo as implausibilidades. Caso vocês não saibam, a Mulher-Invisível e o Tocha Humana são irmãos. Eu acho que vocês já entenderam o que aconteceu, o Tocha Humana agora é negro, mas a irmã dele continua branca. Vamos analisar as possibilidades, o Homem-Elástico (eu sei que não é Homem-Elástico, mas foda-se, não vou pesquisar porque vocês entenderam) poderia ser negro, o Coisa poderia ser negro, os dois irmãos poderiam ser negros. Não, só um deles. Verdade, um deles pode ter sido adotado ou os pais podem ser de etnias misturadas - embora eu não ache que genética seja assim tão conveniente -, mas vocês conseguem perceber o quão forçado parece? É como se Hollywood quisesse que você sentisse o esforço para gerar diversidade. De tantas opções mais fáceis e justificáveis, eles elegem logo a menos plausível. De tantos personagens que eles poderiam mudar a etnia, eles escolhem a do deus nórdico.

Então a People decide por a cereja no bolo escolhendo a Lupita como mulher mais bonita do mundo. Sério? Logo depois do discurso que ela fez sobre a discriminação, vocês vêm com essa? E vocês não querem que eu acuse de oportunismo? Essa capa de revista foi como um grito: por favor, não pensem que nós somos racistas! Vejam bem, é nesse ponto do texto que eu costumo ficar todo relativista e filosófico, e tento explicar o conceito de beleza sob variadas perspectivas, só pra chegar na conclusão óbvia. Sendo assim, vou poupar vocês, leitores, de terem que ler minhas divagações e vou acelerar pra conclusão: a percepção de beleza é variável, não existe ser humano mais bonito ou mais feio, a noção do que é belo é individual. E não me venha com essa história de bonita por dentro porque ninguém sabe nada sobre a Lupita. Ela fez um discurso e um filme foda, ela não descobriu a cura pro câncer. Foi oportunismo, sem mais. Existem centenas de listas de mulheres mais bonitas, nenhuma delas é certa em termos objetivos, mas a People elegeu a Lupita, viram como eles não são racistas... Mais oportunistas ainda foram as dezenas de "formadores de opinião" - vamos listar os termos que eu detesto: diversidade, formador de opinião, marketing pessoal, campanha... - que aplaudiram ou vaiaram a escolha sem mencionar direito o que ela representa. Honestamente, só me interessa uma opinião sobre essa eleição, a da própria Lupita, que eu não sei se se manifestou, alguém por favor me informe.

Seguindo para um exemplo nacional, e essa história do jogador de futebol e da banana, o que foi isso? Daniel Alves o nome dele, de acordo com o Google. Isso acontece direto na Europa, né? Gente atirando banana nos jogadores brasileiros, africanos etc. Fiquei sabendo que o moleque foi punido. Enquanto isso, no Brasil, Luciano Huck fez camisetas, Neymar foi contratado para lançar uma campanha em cima disso, e um monte de desocupado apareceu postando fotos de si mesmos, com uma banana, e o jogo da velha somos todos macacos, ou coisa assim. É falta de louça pra lavar? Falta de trabalho no escritório? Se for, avisa porque eu tenho o suficiente pra distribuir pra todo mundo. Como que isso se chama? Chega a ser oportunismo ou vai além? Eu já desprezo o Luciano Huck por uma tonelada de motivos, mas dessa vez eu nem vi mal. Se ele pode fazer uma camiseta e o povo é idiota o suficiente para comprar e encher mais ainda o seu respectivo cu de dinheiro, bom pra ele. Como diz um conhecido meu, tem coisa que a gente não faz por não gostar de dinheiro. O cara gosta, então pra que se preocupar com frivolidades como dignidade? O mesmo vale pro Neymar, o moleque não tem nem vinte anos e já pode se aposentar, foda-se o que os outros pensam, ele já parece um pônei, que importa uma banana? O triste, e que relaciona todo esse texto, é que foi tudo armação de uma empresa de publicidade. Pra quê? Nem eles sabem, já que eu nem sei dizer qual empresa foi, então não dá pra considerar como truque de marketing.

Tudo é marketing hoje em dia. Falam até de marketing pessoal, que eu sempre achei que fosse apenas pras prostitutas. Transformaram o racismo em produto, que tal essa? Gente ganhou dinheiro com o racismo, a People, o Huck, o Neymar. E o assunto foi discutido? Não. O racismo ainda tá aí, Hollywood não tomou nota dos comentários da Lupita, todo mundo esqueceu da banana. Semana que vem deve sair uma campanha contra qualquer coisa, com direito a jogo da velha, imagem triste com frase "poética" no facebook, camiseta do Huck, todo o conjunto com direito a nenhuma solução.

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Esqueci de dizer, esse texto veio após uma troca de e-mails com a Maria Ferreira, do blog Minhas Impressões. Fica aqui meu agradecimento a ela, e minha sugestão para que vocês a visitem por lá.

5 comentários:

  1. Sem comentários. Você disse tudo com precisão e sensibilidade em relação ao assunto, exatamente a assustadora e perturbadora realidade.
    Ótimo texto!

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    1. Obrigado. Só que ainda me entristece que um texto desses precise ser feito.

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  2. Vamos lá, que eu adoro esses teus textos por abrirem boas discussões.

    Sobre a Lupita, apesar de toda a jogada de marketing por parte da revista, eu vejo que os resultados são mais positivos do que negativos se formos colocar tudo numa balança. Muita gente vê os artistas hollywoodianos como modelos - é um negócio idiota, mas baixa autoestima já é uma merda por si. O negro historicamente foi sempre o saco de pancada, o estigmatizado, e de repente uma negra - seja ela bonita ou não, segundo seja lá que padrão -, aparece e ganha um Oscar por seu talento (não que Oscar seja um indicativo de qualidade e/ou talento, embora ela seja seja talentosa de verdade, mas ao menos serve de status e divulgação) e tem toda essa visibilidade, muito providencial é verdade, e se torna a mulher mais bonita do mundo. Ela acabou se tornando um ideal não de beleza por si mesma, mas de pessoa (mesmo que ninguém a conheça), pra todo mundo que precisava de uma representação de alguém mais próximo do normal. A imagem da Lupita, pelo menos pra mim, ajudou a levar um monte de menina, que se achava inferior por n razões, a de certa forma se aceitar e parar de querer se encaixar a todo custo no padrão caucasiano. Esse marketing todo em torno da Lupita até que dá pra ser peneirado de modo que absorvamos as coisas boas que podem surgir dessa divulgação toda, até porque a própria Lupita sempre aparece com uns discursos muito bons sobre a questão. Ou, talvez, eu que esteja apenas querendo enxergar o que de positivo pode vir disso mesmo sabendo que toda a jogada foi planejada e não pelos motivos mais humanos...

    Daí veio toda essa "polêmica", todo esse engajamento social (até parece...) em torno dessa bendita dessa banana. Todo esse negócio de #somostodosmacacos me fez desacreditar ainda mais na capacidade do ser humano conseguir formular um pensamento crítico. O que tinha de gente se achando o justiceiro lutando contra o racismo, não foi brincadeira. Acho que pensaram que toda uma luta secular iria acabar se um monte de gente tirasse fotos com bananas... A hipocrisia e o oportunismo disso tudo foi nojento, mas nojento MESMO, porque diferentemente do caso da Lupita, não há nada de bom pra se tirar disso.
    Houve uma discussão na faculdade sobre essa questão e saíram até umas pérolas do tipo "ah, mas os negros também gostam de se fazer de coitadinhos", "branco também sofre preconceito!" e eu querendo me jogar da primeira ponte que encontrasse porque uma coisa é ver esse tipo de merda na internet, outra é ver gente que convive com você diariamente, e que supostamente deveriam ser aqueles a mudar alguma coisa, ter o cérebro do tamanho de uma ervilha.

    É nojento. Só vejo a grande parcela da população indo com a maré sem nem saber do que tudo se trata. Parece que quanto mais facilidade se tem em conseguir a informação, menos interesse se tem em pesquisá-la de fato. Enfim, tá ruim a situação.

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    1. Olha, logo vou considerar seus comentários adendas necessárias ao texto.

      Eu concordo com o que você disse sobre o caso da Lupita, mas somente na teoria. Ela serviu e vai continuar servindo como símbolo de motivação para muita gente (independente de idade, sexo e cor de pele), mas não vai mudar o "sistema" - termo vago, mas é bem isso mesmo. Percebi pelos próximos papéis dela, muito menos expressivos, que as coisas vão continuar do jeito que são em Hollywood.

      Quanto às bananas, não dá pra acrescentar mais nada. Uma idiotice que beira o absurdo. É impressão minha ou os comentários escrotos de internet estão tomando forma humana? Também vejo por aí gente "educada" soltando essas pérolas. Só dá pra tirar uma conclusão da nossa sociedade: fodeu de vez.

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  3. Ah, Raphael, obrigada por ter escrito o texto eu é que devo agradecer.

    Eu nunca tinha visto a coisa por esse lado, mas você tem razão;o racismo virou uma forma de ganhar dinheiro. Esse povo só me enoja cada vez mais.

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