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terça-feira, 1 de abril de 2014

Solidão - Capítulo 1 - Parte 3


Não leu as primeiras partes, aqui tua chance:
http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/03/solidao-capitulo-1-parte-1-romance.html         
http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/03/solidao-capitulo-1-parte-2.html   

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Morava em um prédio de três andares, na rua ao lado da faculdade. Toda a segurança do lugar se baseava em uma porta de ferro, toda marcada de ferrugem, da qual caiam lascas de tinta seca sempre que a usavam. Pelas frestas, entrava o cachorro da família que morava na casa em frente ao prédio. Sempre o fechavam do lado de fora, então ele se abrigava na garagem; Tomas batizou-lhe de Baltazar, e ele era como um porteiro cumprimentando os moradores que entravam e saíam.
            Não tinha muito que comer em casa, só um pacote de pão de forma guardado no armário suspenso sobre a pia da cozinha, e um pacote de presunto e queijo na geladeira. Fez um sanduíche, abriu uma das cinco cervejas que lhe restavam, e almoçou sentado na poltrona, única mobília da sala, com exceção de uma escrivaninha sobre a qual havia um computador ressuscitado, um toca discos cedido pelo pai - que nem o usava, assim como tampouco lia e ouvia os livros e discos que doara ao filho – e um sofá preto, de dois lugares, abandonado pelo dono anterior, com pedaços do estofado faltando.
            Seu pai, Alfredo, gostava de colecionar e exibir uma cultura que não tinha. Era um gosto que ia além da impressão de respeito que ele parecia receber pela farsa. Ele, que era bem conhecido como um dos únicos empreendedores de sucesso da cidade de N, divertia-se ao se exibir para seus convidados, não ao ver a cara de admiração que eles formavam diante das edições por vezes raras de grandes obras literárias, mas pelo fato de que Alfredo sabia que os convidados, assim como ele próprio, não faziam ideia do que todos aqueles volumes tratavam. Era uma farsa consciente e satírica. Impressionou-se ao ver seu filho tomando interesse por tudo aquilo, então não viu mal em abrir mão de alguns títulos.
            Por isso Tomas queria tanto se afastar. Aquele mundo comercial era muito cheio de imagens e sorrisos. Até a esposa de Alfredo fora escolhida seguindo esse padrão exibicionista. Depois que se divorciou da primeira esposa – mãe de Tomas – e ela sumiu com o dinheiro que recebeu, ele foi atrás de uma moça poucos anos mais velha que o filho. Adriana era uma dessas que poderia facilmente ter seguido carreira de modelo, se não fosse necessário tanto esforço para entrar nesse meio. Era dessas que buscava uma espiritualidade pessoal e interna. Nasceu católica, mas achava chato; foi evangélica, mas achou rígido; budismo, ela achou confuso; hare krishna era legal, mas de jeito nenhum vestiria aquela cortina; espírita, teve medo; umbandista, ainda mais medo. Só não tentou islamismo, porque não tinha mesquita por perto, e judaísmo porque achou que seria igual ao cristianismo, sem o natal no fim do ano. Entregou-se a meditação e ao yoga e à ideia de que tudo era lindo e iluminado e verdadeiro, mesmo que não fosse.
O pior de tudo, para Tomas, foi que, nem com a pouca diferença de idade, a garota deixou de interferir em sua vida, mesmo que mal fizesse parte dela. Quando tinha treze anos, seu pai estava decidido a levá-lo a um puteiro – o mesmo ao qual ele foi levado com a mesma idade -, para que ele desse seus primeiros passos. Houve uma grande discussão, imagina que, nos tempos de hoje, ela permitiria uma coisa assim. Ele teve que ceder. Também não foi fácil quando seu pai decidira, dois anos depois, que era hora de ele conhecer o mundo dos uísques. Dessa vez, ela teve que aceitar, mas não sem protestos. Tomas não entendia por que ela insistia em se meter, mas não tinha energias para brigar. Decidiu, desde aquele tempo, que iria embora assim que surgisse a primeira oportunidade. Fugiria daquele mundo ao qual ele não pertencia para começo de conversa. Até nisso, na sua partida, eles ainda deram um jeito de interferir.
            - Filosofia? – seu pai ironizou. – E o ganha pão virá de onde? Pedindo na rua? Olha, você é meu filho e toda essa história, mas de jeito nenhum eu vou te sustentar pro resto da vida. Você é maior de idade, quase maior de idade, faz o que quiser, mas vai ter que se virar.
            - Por que não seguir com a empresa do seu pai, Tomas? Já tá tudo feito, é tudo seu. O que você vai fazer?, vai dar aula? – argumentava Adriana.
            - Veja bem, se você tem medo de ser malvisto pelo pessoal da empresa, nem pense nisso. Ninguém vai saber que você é meu filho. Você vai começar de baixo, como eu, no meu tempo, comecei. E se não fizer por merecer, não vai subir. Afinal, não cheguei aqui colocando gente incompetente pra ajudar na gerência. Vai ser tudo pelo seu mérito, filho.
Tomas, durante o interrogatório, se perguntava onde aqueles dois se enfiaram durante tantos anos para só aparecerem naquele momento. Por um momento, quase acreditou que sua mãe voltaria também, pedindo para que ele fosse médico ou coisa parecida, não aconteceu. No fim, fizeram um acordo. Ele poderia fazer o que quisesse, dado que, em um ano, passasse a se sustentar. Prometeu a si mesmo – que lhe valia mais - que faria em menos, e cumpriu.

O sol se punha e ele pensou em sair para conhecer melhor a cidade. Poderia ir ao bar, mas não tinha dinheiro, muito menos vontade de ir a um lugar apenas pela presença social, sem beber nada. Decidiu que, ao invés disso, leria o livro do tal do Allard, que era de graça. Lembrou-se então que não precisava mais daquele emprego no sebo. Seria bom avisar. Se passasse lá na hora do almoço, talvez até revisse a moça dos cabelos, que cruzou com ele pela manhã. Não fazia muito sentido. Uma loja que mal tem cliente não precisa de ajudante, exceto que o cara que o atendeu – esqueceu-se de perguntar o nome dele – estivesse pensando em sair. Não precisaria dizer nada. Caso alguém ligasse, diria que tinha sido contratado por outro lugar, o entenderiam. É, não seria necessário voltar lá e perder tempo com caminhada.
Foi pegar outra cerveja antes de se acomodar para a leitura. Sentou-se, tomou um gole e analisou a contracapa. A sinopse dizia se tratar de um romans à clef baseado nos dias de autoexílio do autor em Paris. Foi relembrando do discurso do guia do sebo enquanto lia. Estava desconfiado que Jean Allard não tivesse meios de conhecer toda aquela gente da geração perdida. Não quis falar nada para não causar constrangimento, não sabia o quão sensível os funcionário era com relação à veracidade da história, mas Hemingway e Pound não estavam mais em Paris na década de trinta. Joyce, talvez estivesse, não tinha certeza, mas era só. O livro em si, pelo menos nos primeiros capítulos, não dava nenhum sinal dessas personalidades. Só depois do terceiro capítulo, é descrita uma figura magra, com um bigode e visão ruim, seu nome é Aloyseous, nome do meio de James Joyce, escrito diferente. Poderia ser, mas não sabia o suficiente da história para apontar como referência. Toda a cena era baseada nesse encontro entre os dois, por acidente, em um dos vários cafés de Paris. O alter-ego de Allard, que não tinha nome, tomava um Pernod e via, do outro lado do bar, esse escritor que havia acabado de publicar uma obra-prima, o livro que silenciou todos os autores, ao mesmo tempo que encheu de inspiração alguns e de fúria tantos outros. Pensava se ele, um amador, deveria se aproximar, lhe mostrar seus manuscritos, contos e poesias, buscar nele alguma inspiração divina. Tomas pegou outra cerveja, a última da noite, tinha apenas mais duas e o dinheiro não era o suficiente para comprar mais – tinha o que seu pai lhe deixara em uma conta poupança, mas, para Tomas, não bastava deixar de receber, precisava devolver o máximo possível; os gastos de uma vida como filho. Não seria possível, mas aquele pouco seria simbólico o suficiente.

Seus olhos continuavam a passar pelas palavras, mas, após o começo do quarto capítulo, ele já não estava lá junto com a história. Tinha dito que queria ser escritor. Seria coisa do subconsciente? Diga a primeira carreira que lhe vier em mente e foi isso que saiu? Quando adolescente – longínquos dois anos atrás, parecia bastante tempo para Tomas -, escrevera um poema uma vez, um presente para a ex-namorada. Não tinha sido a primeira tentativa com poesia. Sua memória mais distante vinha de uma aula na sétima série. Pela primeira vez na vida, tivera uma professora jovem. Ela tinha vinte e quatro anos, estava começando um mestrado em Literatura Comparada, na esperança que poderia virar professora de faculdade depois de receber o título. Até lá, ensino fundamental tinha que servir. Tomas nunca prestara tanta atenção em uma aula antes. Alguma coisa sobre Fernando Pessoa e cabelos ruivos, Carlos Drummond de Andrade e olhos azuis no meio do caminho, Castro Alves e a curiosidade virgem de saber até onde iam aquelas sardas. Durante o ano inteiro, vasculhou a biblioteca da escola e a coleção de sua família atrás de volumes de poesia. Contava sílabas, identificava tônicas e inventava rimas, algumas até ricas, na esperança de um sorriso, um parabéns e um pouquinho de atenção. Coisa ou outra recebeu, mas não era real ainda. Para algo, aquele fascínio lhe serviu. Uma forma de despertar duplo para o adolescente. Escrever não era nada além daquilo, afinal. Formar frases, palavra por palavra, na esperança de criar alguma coisa. Poderia tentar uma vez, ver como se sentia. Mas onde estava mesmo? Chegou a virar páginas, mas o cérebro não pôde captar nada. Melhor seria desistir, tinha que acordar cedo no dia seguinte.

***

Gostaram até aqui? Então, sei que é sacanagem e que não é o suficiente para dar uma impressão clara do livro, mas só vou postar mais um capítulo depois desse e não será o segundo. Acho que vai ser o quinto ou o sexto, um que seja bem importante para a narrativa, mas não deixe nada muito claro. A ideia aqui e tirar uma primeira impressão dos poucos leitores e, quem sabe, conseguir que alguém compre o livro caso ele seja terminado e publicado (nem quero pensar nessa parte complicada das coisas). Não vou postar mais nada além disso porque, do contrário acabo deixando o livro todo aqui. Solidão, pelo que eu pude perceber, não será um romance longo. Sem falar que essa fragmentação aumenta a curiosidade. "O que aconteceu?", "Como isso foi parar aí?" etc.
Obs.: quase postei um texto que deixei preparado para anunciar o fim do blog (porque, sim, eu tenho um post de despedida no rascunho, nunca se sabe quando vai ser necessário) por causa do 1º de abril. Quando fui postar, eu mesmo me enjoei do meu clichê. 1º de abril é dia de terminar blogs, terminar canais do youtube, anunciar absurdos. Se você faz isso, não faça mais. Cansou, ninguém acredita. Se eu consegui me controlar, você também consegue.

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