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domingo, 13 de abril de 2014

Síndrome do Subterrâneo; ou A arte de observar um fato por todos os lados e se encontrar sem ação


Meu caro leitor, caso você more em uma caverna, venho por meio desta lhe informar que seu país tá pegando fogo. Sério mesmo, tá tão ruim que tem gente por aí defendendo estupro. Não, não é um maluco ignorante solitário que vive lá na puta que o pariu defendendo a violação sexual, é a classe média branca, estudada, com ensino superior completo ou incompleto em instituição pública ou particular. Meu filho, se tu não tá sabendo, acorde do estupor e cheire as rosas, pois elas estão mortas faz uns anos. Tanto que tem gente, muito possivelmente as mesmas pessoas, esperando um novo golpe militar. E não digo esperando num sentido profeta do apocalipse à Nostradamus, mas esperando com ansiedade e bandeira levantada, se perguntando o que foi que fez os militares demorarem tanto para aplicarem um novo golpe. Na falta de melhor expressão, o bagulho tá foda, meu irmão.

Não que seja sem motivo toda essa revolta. O Brasil não é nem nunca foi país exemplar. Mas essa gente da defesa à família tá me assuntando. (Calma Raphael, você está escrevendo esse texto com um grau de rum e uísque no sangue que o contra-indica a emitir qualquer opinião. Vai continuar?, sério? Porra, boa sorte.) Que os conservadores me perdoem, mas vocês estão esquecendo de um conceito básico, o da liberdade individual. Sou um esquerdista maconheiro da USP? Longe disso. Ainda vejo o capitalismo como o único modelo econômico cabível para a atual condição humana. Anarquismo é minha utopia. Socialismo depende muito do governo e, minhas crianças, aprendam que governo é seu maior inimigo. Quanto mais cedo esse conhecimento te impregnar à mente, melhor. Tampouco confie nos empreendedores e nas instituições particulares, elas querem tua grana e teu cu. Tio Rapha, tu me pergunta, se eu não confio nem no público nem no particular, em quem eu confio? Tu mesmo, eu respondo. Sério, nem eu sou confiável, já avisei que esse texto tem graduação alcoólica de 40% e meus dedos estão navegando por esse teclado como um carro importado com piloto adormecido, perdi o controle faz três doses, mas segui escrevendo, pois sou guerreiro e preciso da coragem da bebida para escrever sobre esse assunto. Se ponham no meu lugar ao fim desse artigo ao invés de me julgarem.

Essa loucura toda não é sem causa. É motivada por muita estupidez, mas não é sem causa. Tenho que atacar o tema por partes, pois o gigante é demais para minhas linhas de conteúdo limitado. Por onde começo? O caso do estupro parece a polêmica maior e mais recente. Como resolver esse problema? Vejamos, você que é a favor de estuprar uma mulher que veste saia curta, mora em casa? Caso more, tem cerca elétrica? Caso não tenha, é aceitável que eu invada sua casa armado, mate sua família e roube suas posses? Não? Mas como não? É seu dever morar em apartamento ou ter cerca elétrica. Ah, essa lógica não é válida. Voltemos ao início, então. Seu corpo é sua propriedade individual? É, igual sua casa, certo? Certo, então, assim como seu corpo ou o corpo de qualquer mulher, não deve ser invadido. Pronto, não me interessa como ele está vestido, se tem cerca elétrica ou não, fim de papo, estupro é invasão da propriedade alheia, o corpo, a mais sagrada e intransferível das posses. Preciso continuar a explicação ou já falei o óbvio por tempo o suficiente? Acho que já basta. Se a mulher estiver te tentando, meu caro, minha sugestão é simples. Se resolva sozinho em casa ou vire hominho e se aproxime e conquiste o consenso. Agora está mais do que claro. Ah!, você insiste, o estuprador tem problemas mentais. Ora, que ele seja trancafiado e vire mocinha na cadeia. O maior índice de estupros no mundo vem do Oriente Médio, lá as mulheres vestem burca, qual a tua desculpa?, os olhos estavam visíveis? Repito meus argumentos acima, vire homem.

Vamos ao lado mais complicado, então, ao da ditadura militar.  (É válido informar que, para bater essa parte do artigo, tive que esperar pela lucidez da ressaca do dia de seguinte.) Pelo que eu pude ver analisando as opiniões das pessoas com quem eu convivo ou tive a oportunidade de ouvir, aqueles que são a favor do retorno da ditadura, baseiam seus argumentos em números e notícias publicadas naquele período. Gosto de acreditar que meus leitores pensam, por isso fico tentado a parar aqui, crente que vocês já entenderam a ironia do negócio. Mesmo assim, vou desenhar, já que a maior parte dos meus visitantes me encontram a esmo pelo Google e esses podem não ser tão espertos. Um dos focos da ditadura foi a repressão da liberdade de expressão. Logo, tudo que foi publicado naquele período por jornais e até estudos acadêmicos, teve que passar pelo filtro da censura, tornando todos os números favoráveis ao regime. Ou seja, não confie na direita, não confie na esquerda, não confie nos ditadores, não confie no governo, não confie nas empresas, não confie em mim.

A grande maioria dos defensores da ditadura contemporâneos, não viveram o ápice da opressão militar ou viveram a infância naquele período, provavelmente de forma pacata, com viseiras e um sorriso apático no rosto. Lógico que, para estes, uma ditadura seria ótima. Imagine, viver com a certeza de que tudo está bem porque os jornais dizem que assim está. Nossa, agora que escrevi e reli essa ideia, percebi o quanto o brasileiro tem um perfil populacional ideal para um governo totalitário. Mas não posso me deixar distrair por esses detalhes. Os defensores simplesmente não sentiram a rola grossa da censura esticando seus virgens rabos. Nunca foram artistas, nunca se preocuparam em debater ideias ou nunca foram impedidos de debatê-las. Faz tempo que a censura (não entrarei no mérito conspiracionista de que existe uma censura invisível comunista querendo acabar com a família e os homens honestos de deus pai todo poderoso, isso é uma longa história e não exatamente relacionada) acabou e brasileiro tem memória curta. Como os velhos noticiários falam de militares tão corretos que nunca nenhum caso de corrupção foi investigado durante o regime, é óbvio que eles seriam os governantes corretos para esse nosso Brasil sem Jesus, né? Mais ou menos, prefiro um governo corrupto que pode ser investigado do que um que todos são forçados a fingirem que todos são honestos. Prefiro um governo que me roube que um que me torture. Idealmente, sou contra os dois, mas se tivesse que escolher diria que tortura é uma falha moral mais grave que roubo.

Mas se os militares não podem tocar fogo no barraco, o que pode ser feito para melhorar esse país? Aí que a coisa fica complicada. Peço que os leitores agora relembrem do livro Notas do Subterrâneo, de Dostoiévski. Nele o protagonista diz sofrer de excesso de consciência. Diz que, para um homem inteligente, capaz de analisar todos os lados de uma questão, tomar partido de qualquer coisa é impossível. Por isso ele vive no subterrâneo da sociedade, assiste a tudo de longe, sem nunca interferir. Tem horas, admito, que vejo essa como a única possibilidade para o brasileiro. Assistir enquanto seu país cai em ruínas. Visão triste e niilista, talvez, mas não tenho outra escolha.

Tem eleição esse ano. (Acho que posso pular todos os escândalos, todos os problemas envolvendo Copa do Mundo e Olimpíadas, nós todos estamos assistindo o "desenvolvimento" desses casos e não há nada que possa ser feito; eu não pretendo assistir a nenhum dos jogos, não como protesto, mas porque não assisto futebol, nem as partidas nacionais ou Copas do Mundo - pelo menos não vi as de 2006 e 2010.) Dizem que o destino da presidenta está diretamente relacionado a vitória do Brasil nos jogos. Sinto em lhes dizer, mas estou bem certo de que o Brasil venceu a Copa de 2014 em 2012. O problema não é só esse. Não estou satisfeito com o governo da Dilma, não votei nela. A verdade é que não votei em ninguém. Em quem eu votaria, no Serra (filhote do picolé-de-chuchu). Na Marina Silva, a hippie-evangélica-inexperiente. No Plínio, aquele esquizofrênico adâmico. E presidentes nem importam tanto assim num governo, e os deputados, senadores, quais as opções? É triste ver que os eleitos mais competentes de 2010 foram justo os votos de protesto, Tiririca e Romário, que apesar de tudo trabalharam muito bem. Fico pensando se existem opções ou existirão até Outubro desse ano e tenho quase certeza que não. Porque não importa em quem você vote, no fim a corrupção já está enraizada. Nossas reclamações são sempre direcionadas a qualquer um no poder. Hoje é o PT, por isso o povo de direita parece tão certo durante seus protestos. Mas quando era o FHC, era a esquerda que se dizia oprimida e parecia tão certa em seus protestos. É um círculo patético de duas mãos que nunca funcionou e nem vai, nasceu quebrada e vai morrer assim.

Tenho fantasias de uma Revolução Francesa em Brasília. Falam mal dos protestantes mais agressivos. Sou contra os roubos, mas não vejo falha em uma resposta violenta quanto a polícia que não espera três minutos para sentar o cacete no primeiro estudante desarmado que virem. Mas é tão século XVII uma revolta banhada em sangue. Imaginaríamos que as coisas estariam diferentes hoje, mas é provado que não quando a população prende um moleque pelo pescoço em um poste após linchamento. E o pior, o povo nem estava tão errado. A polícia não faz nada, alguém teria que fazer, né? Não exatamente, mas voltamos ao círculo. Sem polícia, a criminalidade reina, o povo responde e viram os criminosos. Viram o que eu falei sobre não ter solução. O Brasil é um labirinto violento e corrupto, e isso é só baseado no que a gente sabe. Vocês realmente acreditam que tudo que sai pelos jornais e revistas é 100% do que ocorre?

Comecei falando de uma coisa e terminei perdido em milhares de outras totalmente diferentes. Esse país é um circo em chamas. Será que tudo sempre foi tão maluco? Que eu lembre sim. Acho que só estamos mais cansados da loucura agora, queremos abrir as portas do nosso manicômio. Vendo por essa perspectiva, talvez o Plínio não seja uma opção tão absurda. A melhor maneira de vencer um inimigo psicótico é sendo pior que ele, não? Plínio tá aí pra isso. Por enquanto ficarei aqui, observando, debaixo da terra.

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