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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Pra que serve o crítico?


Faz mais de uma semana que não escrevo uma resenha para o blog. Não parei de ler, de ver filmes ou ouvir música, esses hábitos são parte de mim. Tenho várias resenhas incompletas no rascunho do blogger e tantas outras no meu rascunho mental, só não consigo escrevê-las. Ando pensando no valor da resenha cultural, mais uma vez, só que dessa vez sem chegar a uma resposta objetiva. É impressionante, quanto mais velho eu fico menos respostas eu tenho ou mais difícil se torna de chegar a uma resposta. As perguntas que me vem são:
- Quando faço uma resenha negativa, quero que o objeto resenhado seja evitado pelos leitores?
- A arte é uma competição e deve ser mensurada entre o que é bom e o que é ruim?
- Quando dois críticos discordam, e isso acontece frequentemente, algum deles está certo ou errado?

Essas dúvidas me bateram nos seguintes momentos: 

(1) quando recebi um comentário na minha resenha de Spring Breakers em que a leitora dizia que, por causa das críticas, tinha desistido de ver o filme, e eu quase mandei uma mensagem para ela pedindo para que não desistisse já que nada impediria que eu, ou qualquer outro crítico, estivesse errado (mas se é assim que eu penso, por que escrevi a resenha pra começo de conversa?). 

(2) Ao ler na internet uma discussão sobre Os Incompreendidos (Le quatre-cent coups, de François Truffaut, 1959). Acusaram o filme de ser superestimado, seguido de uma argumentação parcialmente convincente. Mais tarde seguiram contra-argumentos igualmente corretos e contrários à acusação. Os Incompreendidos é um dos meus filmes favoritos, tratando sobre a adolescência problemática de um garoto em Paris. Diziam que não era tão bom quanto alguns filmes de Bresson, Béla Tarr ou Tarkóviski, que lidavam com temas e angústias similares, só que melhor (mas é uma competição?, não posso gostar de Bresson e Truffaut, ignorando as diferenças de qualidade entre as obras. Ficou pior quando incluíram música na discussão, dizendo que Bach era melhor que Chopin e, portanto, Chopin seria desnecessário. Isso significa que apenas Bach poderia fazer música e tudo antes e depois dele é irrelevante?). 

(3) Lendo a coleção de poesias do Paulo Scott, A Timidez do Monstro. Reparei que muitas das poesias eram baseadas em sonoridade, ignorando o sentido. De início, talvez pela surpresa, quase desprezei o livro, mas então li um poema que, no mesmo formato que os outros, me tocou. Me perguntei se esse não seria o objetivo. Propositalmente abstrato, os poemas são ausentes de um sentido claro, permitindo que cada leitor tire sua própria mensagem por meio do caos, não diferente de uma pintura do Jackson Pollock. Portanto, se cada poema poderia ou não gerar um sentido na mente do leitor baseado em interpretação individual, o mesmo não valeria para cada livro/filme/obra de arte em geral?

Não gosto de Paulo Coelho, noutro dia estava falando sobre ele (sobre literatura brasileira contemporânea em geral) com uma amiga estudante de Letras. Ela disse aquela frase clássica, no meio acadêmico, Paulo Coelho não é considerado literatura. Concordei, mas precisei admitir que algo de certo ele faz, nem que seja apenas marketing, porque ninguém vende tanto sem ter alguma compreensão dos mecanismos da mente humana. Ele reafirma clichês, como disse Bernardo Carvalho, sem dúvida, mas ele toca leitores e isso é difícil de botar em discussão. O que me leva a uma nova pergunta, pode um autor sem relevância cultura objetiva manter sua relevância para o leitor por meio apenas da subjetividade das impressões individuais perante a "arte", mereça a obra o título "arte" ou não?


Vou voltar um pouco e falar sobre os métodos de trabalho de um crítico. Em termos simples, existem os críticos puramente acadêmicos (Theodor Adorno, André Bazin, Gilles Deleuze, Todorov, Roland Barthes etc.), que buscam definir a arte perante seu contexto histórico, filosófico, sociológico, analisando, então, seu valor estético ou relevância geral - repito, estou simplificando pois não sou acadêmico. Temos, em contrapartida, os críticos que entretém (Roger Ebert talvez seja o maior nome, mas depois dele vários podem ser encontrados nas mais diversas colunas culturais de revistas/jornais/internet). O ideal, para mim, sempre foi a mistura. Contextualizar a obra, já que a época e as intenções de um artista devem ser levadas em consideração durante uma crítica - uma questão de ética -, para depois divertir o leitor com um veredicto positivo ou negativo, que por vezes carrega um tom de segurança que pode ser confundido com autoridade (aqui surge meu medo, críticos não deviam ter autoridade nem mesmo imaginada). Fiz dezenas de resenhas tentando ao máximo atingir esse equilíbrio levando em consideração minhas limitações intelectuais, mas agora ando me arrependendo, não das minhas opiniões, ainda concordo com a maior parte das minhas críticas positivas ou negativas. Só fico me perguntando da necessidade disso.

A arte precisa da teoria, talvez não para existir, mas para que ela progrida e seja compreendida com mais clareza - nem quero me perder muito falando da teoria acadêmica porque não tenho o conhecimento para isso, existem milhares de livros sobre o tema muito mais interessantes que eu. Minha ambiguidade está na dita crítica cultural. Aquela que busca guiar leitores de uma determinada mídia para as obras que ele pode ou não gostar. Mídia esta que, com a internet, está cada vez mais banal, fato que contribui um pouco para o meu argumento.

Depois que fiz um blog, por consequência, conheci vários outros blogs e blogs ainda mais novos surgem diariamente. Muitos excelentes, os quais visito e comento com alguma frequência, outros medíocres e uma maioria muito ruim. Tendo em vista essas variações de qualidade baseadas em diversos critérios, falemos da responsabilidade do crítico. Todos os blogs ruins sofrem de um problema - a superficialidade. Resenhas em que a sinopse é repetida três vezes e o último parágrafo é dedicado a um "gostei/não gostei" mal justificado. Raramente uma resenha dessas carrega qualquer persuasão, por isso não é algo tão preocupante. Mas, quando buscamos formar uma opinião - tendo ou não a capacidade para tal -, não é uma responsabilidade moral que nossa (dos críticos em geral) justificativa seja a mais aprofundada possível.

Mesmo que a mídia em questão tenha um alcance limitado, existem possibilidades, graças ao Google, de que um texto será visto por pessoas aleatórias, esse é o objetivo afinal. Não é um problema que pessoas possam ser desviadas de uma obra de qualidade potencial por culpa de uma resenha negativa mal feita? É relativo, estamos na era da internet e todos sabem que quase nada pode ser levado tão a sério. Mas não deixa de ser uma responsabilidade. Um crítico que queira expor sua opinião, deveria se assegurar de que a emitiu da maneira mais clara e detalhada possível, para não cometer injustiças. Tendo dito isso, chego ao ponto principal desse texto que é, com todas as subjetividades e objetividades da arte e todas as variações da experiência individual, não seria todo parecer de um crítico, positivo ou negativo, injusto e superficial, já que ele é baseado somente na experiência de um indivíduo e não de um coletivo de consciências com disponibilidade para compreender interpretações variáveis?

Um bom crítico pode tentar captar interpretações que não as dele, isso é parte do trabalho, pode até se submeter a várias experiências com a mesma obra para poder tirar dela o máximo possível, mas ele sempre será parcial àquela interpretação "favorita". Voltemos ao Paulo Coelho, cheguei num ponto da minha vida que já não quero gostar de uma obra dele. Não vejo possibilidades de poder gostar de um livro dele baseado em experiências passadas e nas próprias atitudes do escritor que de vez em quando vem falar merda em uma entrevista ou discurso. Ignoro conscientemente a possibilidade de um leitor tirar proveito da obra dele. Isso torna minha crítica inválida? Não exatamente, já que é uma opinião tão embasada quanto qualquer outra. Isso torna o livro do Paulo Coelho inválido para um leitor? Tampouco.

Pra que servem as resenhas tendo em vista todos esses pontos? A resposta mais óbvia seria indicar para os visitantes de uma determinada mídia, alguma obra sobre a qual ele possa não ter conhecimento. Divulgar a cultura. Tomo esse como meu principal objetivo desde que dei início ao blog. Mas isso não explica as resenhas negativas? É para afastar as pessoas de uma determinada obra? Com que direito? O que torna qualquer crítico melhor que qualquer leitor? Um diploma ou uma experiência mais ampla com determinada forma artística? E daí? Muito conhecimento torna uma interpretação absoluta?, doutores não erram? Falarei por mim admitindo que todas minhas resenhas negativas foram feitas em nome do humor. The Room, Birdemic, Espíritos de Gelo, para citar minhas favoritas, não são textos que buscam afastar o leitor de conhecer as obras que eles analisam, elas buscam fazer que o leitor ria e se leve menos a sério. Não indicam, mas não afastam. São perda de tempo, para falar a verdade. Os escrevi porque o primeiro deu certo, foi visitado e comentado; o segundo também. Eu me diverti escrevendo, mas não pensei em nenhuma consequência. Foi quando eu percebi a competição absurda que isso sugere (um livro melhor que o outro etc.), foi quando eu comecei a me incomodar. Chopin e Bach podem coexistir e essa variedade é ótima. Bach pode ser um dos melhores compositores da história, mas me cansaria dele se me fosse imposto um regime diário exclusivo às músicas dele. É claro que esse texto meio que dá a entender que música sertaneja também é importante, e me dói a alma admitir isso, mas quem sou eu para falar qualquer coisa sobre a experiência do ouvinte de música sertaneja. Existe uma diferença técnica na qualidade da construção entre essas músicas, sim, mas isso importa?

Claro que tem a questão da intensão do autor. Não dá pra colocar Luan Santana no mesmo degrau de um Tom Waits, Michael Bay junto de Abbas Kiarostami, ou o Paulo Coelho com o Sérgio Sant'anna, nem é objetivo desses caras fazerem o que o outro faz. Existe uma qualidade artística objetiva superior na criação de um filme do Kiarostami em comparação ao Michael Bay, isso é óbvio. Mas não é uma competição. Tudo tem contexto e, por mais que existam filmes ruins e filmes bons, minha dúvida fica na necessidade da existência de um personagem (um mediador, por assim dizer) para ajudar a definir qual é qual. Não queremos liberdade de pensamento e opinião? Um debate entre pessoas de opiniões diferentes não é mais produtivo que uma crítica?

Eu sei que até o momento isso aqui pareceu um artigo, mas eu quero mais é iniciar um diálogo. Muita gente que vem aqui tem blog e faz resenhas também, tanto positivas quanto negativas - ou simplesmente gosta e tem opiniões não publicadas sobre arte. Vocês já pararam pra pensar nisso tudo? O que acham que é a função da resenha? Juro que não consegui descobrir depois de tudo isso.

7 comentários:

  1. Raphael, você já pensou em fazer uma especialização na área de Letras, Literatura ou alguma coisa do gênero? Acho que você se sairia muito bem, caso fizesse.Mas se não, também não iria fazer muita diferença, só iria te aperfeiçoar, porque você já escreve bem pacas.

    A primeira questão que você levantou, sobre o que esperar do resultado de uma resenha negativa, eu particularmente, acho que se uma pessoa faz uma resenha negativa é porque o livro é realmente ruim e a pessoa se vê na obrigação de avisar aos outros. Da mesma que se um livro é bom, a pessoa vai exaltá-lo e querer que o mundo inteiro o leia. Mas é claro que uma resenha negativa de determinado livro não pode ser feita com base nos gostos pessoais do resenhista. Ele tem que ter embasamento, tem apresentar fatos consistentes que comprovem que o livro, deveras, é ruim.

    Querendo ou não, o blogueiro é um formador de opinião e tem que ter em mente que o que diz vai influenciar sim. Talvez o que diga, arruíne a carreira literária de algum, principalmente se for iniciante. Já um crítico por formação, ele tem base, tem estudo e tem que ter compromisso com a verdade.

    Eu nunca li nada do Paulo Coelho justamente pelas críticas negativas que ele recebe.

    Acho que a função da resenha é dizer o que o livro, ou o objeto resenhado é. Não baseado em sua opinião pessoal, mas baseado na verdade.

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    1. Pensei em fazer letras depois de publicar alguma coisa, mas desencantei com o ensino superior. Vou ler mais ao invés de pegar um diploma.
      Não sei quanto aos meus objetivos com resenhas negativas. Quero expressar minha opinião, mas não quero impedir que o leitor tire sua própria impressão. Se fosse possível ser tão consistente em uma argumentação "artística", críticos não errariam ou se contrariariam tão frequentemente, nem o público discordaria tanto com o crítico.
      No fim, o jeito é deixar que o crítico fale o que quiser e que o leitor decida por si o que vai tirar da resenha. Nada disso importa muito.

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    2. Oi, Maria.
      Fiquei pensando nas últimas coisas que vc disse. Eu não concordo. Você disse que a pessoa deve julgar pelo que o livro é, pela verdade, mas um livro pode ser várias coisas, ter várias verdades, tudo depende de quem está lendo. A crítica é sim pessoal.
      Por exemplo, muitas pessoas acham Cinquenta Tons de Cinza, uma história de amor, elas realmente acreditam nisso, mas eu acho uma desgraça nada romântica. Qual seria a verdade? Quem está certo?
      Não existe verdade e não existe a forma certa do livro ser. Existem pessoas e opiniões, a resenha serve para que possamos ver o que cada pessoa pensa. ;)

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  2. Pra mim, fazer uma resenha e expor minha opinião sobre alguma coisa. Isso não quer dizer que o que eu penso seja certo ou errado, estou apenas dizendo o que senti.
    Quando faço uma resenha negativa, sempre falo sobre os motivos por ter achado a obra ruim, então a pessoa que ler a resenha pode ver se concorda ou não com meus argumentos.
    Por exemplo, eu normalmente tenho a mesma opinião que o Gabriel do "Cabine Literária", então quando ele fala que detestou um livro e diz os motivos, levo em consideração, mas não deixo de ler, pois gosto de tirar minhas próprias conclusões.
    É complicado, mas eu adoro ver resenhas. Acho que o fato é que quero saber o que tal pessoa achou de tal livro, pois a opinião da pessoa me interessa.

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    1. Essa troca de opiniões me parece a posição mais sensata perante as críticas.

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  3. Essa primeira imagem do post exemplifica perfeitamente minha professora de Filosofia. Ela sempre vem com esses discursos prontos que temos que exercitar nossa criticidade, de não aceitar opiniões impostas sem questionamentos e faz o contrário de tudo o que diz. E isso me mata.

    Não sei quanto as outras pessoas, mas eu, particularmente, prezo muito por opiniões pessoais. Não gosto quando simplesmente explanam algo de maneira superficial sem dar a entender o que acha ou o que não acha, e porquê. Por isso discordo do que a Maria Ferreira falou aqui em cima de que uma resenha negativa não pode ser feita baseada nos gostos pessoais do resenhista. Mas, ora, do que será feita, então, se não for baseada nos gostos pessoais de cada um? Essa falsa imparcialidade faz com que a parte mais gostosa do compartilhamento de opiniões se perca. Se eu gosto ou não gosto de determinado livro, filme, seja lá o que for, tudo isso vai ser baseado na minha opinião pessoal sim, caso não seja vai ser baseado na opinião de outra pessoa. Não existe imparcialidade, não existe mesmo.

    Se a gente escreve uma crítica negativa, estamos apenas expressando os motivos que nos fizeram não gostar daquilo, mas se isso vai influenciar alguém a não ler/ver aquilo que foi criticado são outros 500, que dependem unicamente de quem estiver lendo o que foi dito. Por exemplo, se alguém não lê Paulo Coelho por simplesmente ter visto um monte de gente falando que ele não é bom, precisa melhorar justo na, surprise surprise!, criticidade. Como saber se vai gostar ou não se nunca leu, oras? Se é "bom" ou "ruim" se nunca viu por si? Isso, na minha opinião, é preguiça e não influência.

    E discordando, mais uma vez, da Maria, escrever é opinar. Até essa verdade que ela diz, é baseada sim num conceito pessoal e intrínseco. A verdade não pode ser avaliada como um algo à parte e externo, sendo que ela é mais subjetiva que o conceito de certo e errado. A função da resenha é dizer que o livro, ou o objeto resenhado é SEGUNDO O RESENHISTA. E só. Tomar por verdade tudo aquilo que os críticos de formação que tem base, estudo e seja lá mais o que tiver, sem questionar é, repito, preguiça. Há a influência? É óbvio. Mas aceitar tudo que é dito sem questionar, é idiotice.

    A função da resenha, pra mim, é compartilhar uma opinião. Cada um tem uma visão de mundo diferente, cada opinião vem carregada de vivências pessoais e só por isso já é válida. O gostoso é o diálogo, é o compartilhamento, o questionamento. A arte é subjetiva, e justo por isso que deveria desenvolver as pessoas a pensar e não a aceitar "verdades".

    (Cheguei um pouco atrasada pra essa discussão, mas antes tarde do que nunca, certo? haha)

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    1. Essa é a vantagem da internet, não tem como chegar atrasada, o texto sempre vai estar aí para discussão.

      Minha opinião está em algum lugar entre o que você e a Maria disseram. Não vou para nenhum dos lados. A Maria não está totalmente errado ao dizer que o crítico precisa deixar de lado os gostos pessoais. Isso não significa imparcialidade, só censo crítico. Veja bem, não gosto de fantasia, não posso, por isso, falar mal de um livro de fantasia por usar elementos típicos do gênero. Certas objetividades devem ser levadas em conta: o objetivo da obra e o período em que foi feita. Isso vai além do gosto. Passado por isso, concordo com você que não tem como ignorar a opinião pessoal, porque, como você e o texto disseram, a percepção sobre qualquer coisa é variável.

      Justamente por isso que eu ponho em dúvida a função da crítica. Não seria melhor só debater as coisas, como está sendo feito agora?

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